Escolaridade dos empreendedores brasileiros: uma análise sobre os proprietários de negócios iniciais e estabelecidos

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/administracao/escolaridade-dos-empreendedores
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ARTIGO DE REVISÃO

CARDOZO, Jorge Willian da Silva [1]

CARDOZO, Jorge Willian da Silva. Escolaridade dos empreendedores brasileiros: uma análise sobre os proprietários de negócios iniciais e estabelecidos. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 10, Vol. 10, pp. 129-138. Outubro de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

O Brasil possui um grande número de empreendedores que detém os mais variados níveis de escolaridade. Alguns empreendem por necessidade, já outros por uma oportunidade observada. É certo que a motivação destes personagens não é balizada apenas pelo seu grau de instrução, contudo o seu nível de formação afeta a sua forma de ver o mundo. O grau de formação do indivíduo apresenta grande influencia na gestão do negócio e a proporção de empreendedores em cada nível vem mudando ao longo dos anos. Compreender o papel da escolaridade no âmbito da gestão e suas consequências é o objeto de estudo de entidades governamentais e da comunidade acadêmica. O número de empreendedores no Brasil aumentou nos últimos anos e o nível de escolaridade também vem sofrendo alterações. Compreende-se nessa instância o papel e o devido interesse do Estado na educação obrigatória da população empreendedora, visto que os reflexos de suas ações impactam o sucesso dos negócios no país gerando renda, emprego, desenvolvimento econômico/tecnológico e na arrecadação de impostos para suas atividades. É notável que também exista uma preocupação com a formação do empreendedor, não neste momento abordando sua escolaridade tradicional (ensino fundamental, médio e superior), mas o desenvolvimento das habilidades, técnicas e conhecimentos específicos para o desempenho da sua função de gestor. Mais de dois quintos dos adultos com o ensino fundamental incompleto são empreendedores, enquanto apenas trinta por cento dos que possuem ensino superior ou maior escolaridade estão na mesma condição. Este trabalho busca identificar como o perfil do empreendedor, de acordo com o grau de escolaridade, vem se movimentando no Brasil ao longo dos anos e como isto pode afetar no sucesso do negócio e no modo de encarar as dificuldades. Também são consideradas as diversidades desses indivíduos no que tange a gênero e ao tempo que estão a frente dos seus negócios, observando, portanto, a escolaridade do empreendedor nas variadas faces do cenário brasileiro.

Palavras-chave: Empreendedorismo, escolaridade do empreendedor, formação profissional.

1. INTRODUÇÃO

Compreender como o grau de escolaridade influencia na gestão dos empreendedores é um tema pertinente e atual no atual cenário brasileiro na qual a gestão do conhecimento se torna uma forte estratégia competitiva. Investigar se existe relação direta com o sucesso do negócio à quantidade e qualidade da formação é um tema que motivou a existência de diversos trabalhos científicos.

De acordo com dados do PNAD Contínuo (2018), o percentual de empreendedores por conta própria saltou de 22,8% em 2012 para 25,3% em 2017 dentro do pessoal total ocupado no Brasil. No mesmo período o número de empregadores saltou de 4% para 4,6%. (IBGE 2018a). Em contrapartida, mais da metade dos brasileiros com mais de 25 anos sequer possui o nível médio completo. (IBGE, 2018b)

Pereira (2001, p. 1) diz que “aventurar-se no insólito mundo dos negócios sem a qualificação necessária pode ser e tem sido desastroso.” Compreende-se neste âmbito a qualificação como fator necessário para a sobrevivência no competitivo cenário.

Este trabalho não trata especificamente do ensino do empreendedorismo, mas o nível de escolaridade do empreendedor de uma forma geral. É certo que o ensino da matéria da gestão e do empreendedorismo contribui para a assertividade dos empreendedores. Contudo, a relação existente entre o grau de escolaridade do indivíduo e os resultados do seu modo de gerir, ou, o quão longevo e saudável são seus resultados, é que norteia a elaboração deste trabalho.

2. METODOLOGIA

Este trabalho foi desenvolvido através da revisão de artigos científicos e livros. Com base no relatório do Global Entrepreneurship Monitor 2018, o GEM, foram identificados efeitos advindos da diferença do nível de escolaridade dos empreendedores. Neste cerne, buscou-se identificar o quanto o nível de instrução impacta nas dificuldades de gestão de um negócio a partir da percepção do próprio empresário e como isso pode ser transformado.

Investigou-se também o quão duradouro são estes negócios de acordo com o nível de escolaridade e em que camada a sua maioria está: iniciais ou estabelecidos. Diante disto, são analisados diversos trabalhos que tratam dessa relação entre o grau de instrução de um indivíduo e o empreendedorismo.

3. REFERENCIAL TEÓRICO

De acordo com o relatório do Global Entrepreneurship Monitor (GEM, 2018), no Brasil, 14,6 milhões de empreendedores não possuíam sequer o ensino fundamental completo, entretanto a esses mesmos pertence a maior taxa de empreendedores estabelecidos.

É necessário esclarecer a diferença entre os empreendedores iniciais e os empreendedores estabelecidos. Substancialmente, o GEM trás dois grupos de empreendedores iniciais: os nascentes e os novos. Os nascentes são aqueles empreendedores que estão envolvidos em um novo negócio que ainda não pagou qualquer remuneração ao seu proprietário por mais de três meses. Já o grupo dos empreendedores novos contém aqueles negócios que já pagaram alguma remuneração aos seus proprietários por período superior a três meses e inferior a 42 meses. E o último grupo, dos empreendedores estabelecidos, compreende aqueles negócios tidos como consolidados por já ter pagado aos seus proprietários alguma remuneração por período superior a 42 meses. (GEM, 2018)

Figura 1. Empreendedores iniciais x Estabelecidos por tempo de remuneração paga aos seus proprietários.

Fonte: Elaborado pelo autor a partir da definição do Global Entrepreneurship Monitor

O GEM (2018) mostra que existe diferença em relação à atividade empreendedora em estágio inicial e estabelecido. Dentre os níveis mais altos dos que estão em estágio inicial, os mais ativos são aqueles que possuem apenas o ensino fundamental completo, enquanto que os menos ativos são os que possuem ensino superior completo. Já em relação à atividade empreendedora em estágio estabelecido, os que possuem o ensino fundamental incompleto são os mais ativos, enquanto os menos ativos possuem o ensino fundamental completo.

O gráfico 1 mostra que quanto menor o nível de escolaridade, maior é a chance desse indivíduo ser um empreendedor no Brasil.

Gráfico 1. Taxas (em %) específicas1 do número de empreendedores por nível de escolaridade2 segundo estágios de empreendimento – Brasil – 20173

Fonte: GEM (2018)

1 Percentual da população referente a cada categoria da população (ex. 19,6% dos que tem Fundamental incompleto no Brasil são empreendedores iniciais).

2 Fundamental incompleto = Nenhuma educação formal e ensino fundamental incompleto; Fundamental completo = Ensino fundamental completo e ensino médio incompleto; Médio completo = Ensino médio completo e superior incompleto; Superior completo ou maior = Superior completo, especialização completa e incompleta, mestrado completo e incompleto, doutorado incompleto e doutorado completo.

3 Estimativas calculadas a partir de dados da população brasileira de 18 a 64 anos para o Brasil em 2017: 135,4 milhões

Considerando o período de 2003 até 2013 “a participação relativa dos que possuem alta escolaridade passou de 10% para 15%, a dos que possuem média escolaridade aumentou de 30% para 41%, e dos que possuem baixa escolaridade recuou de 59% para 44% do total.” (Bedê, 2015, p. 9)

No Gráfico 2 é possível visualizar esse encolhimento dos que possuem baixa escolaridade e um aumento dos que possuem média e alta.

Gráfico 2. Participação dos empreendedores de acordo com a escolaridade (em milhões)

Fonte: Adaptado de Bedê (2015)

De Meza et al. (2008) faz uma importante abordagem em seu trabalho dizendo que os países da América Latina que possuem o maior potencial de inovação apresentam elevadas taxas de escolaridade. Embora este enfoque desvie um pouco da finalidade micro deste trabalho, é importante perceber o quão atrelada está a escolaridade aos resultados obtidos nos negócios.

Pereira (2001, p. 12) diz que “ser ou não ser empreendedor não é uma questão de simples liberdade, de uma escolha. O perfil do empreendedor deve conter o jeito adequado ao meio incerto e desafiador da atualidade.”

Um estudo de Romano Carrão et al. (2013) mostra a diferença na percepção das dificuldades encontradas na gestão de um negócio de acordo com o nível de escolaridade. Cabe ressaltar que nesse trabalho em questão, a divisão é feita entre empresários com fundamental incompleto a médio completo e superior incompleto a pós-graduação completa.

Tabela 1. A influência do grau de escolaridade sobre a visão do pequeno empresário

Fonte: Adaptado de Romano Carrão et al. (2013)

Essa amostra apresentada na pesquisa de Romano Carrão et al. (2013) demonstra que quando o empresário detém de nível de escolaridade mais alto, ele encara com menos dificuldade diversos pontos que implicam na gestão de um negócio, em especial quando se trata da questão financeira e tributária. Contudo, nota-se que os empresários com menor escolaridade têm menos dificuldade no relacionamento com os funcionários.

De acordo com Barbosa e Teixeira (2001, p. 22) “uma melhoria no nível de educação provocaria uma melhoria no nível econômico de uma determinada localidade, o desenvolvimento da empresa e dos seus recursos humanos.”

É importante trazer à luz uma pequena diferença a pauta no que tange a gêneros. De acordo com o GEM (2018), a maioria dos empreendedores no estágio inicial é do sexo feminino (14,2 milhões são mulheres e 13,3 mi são homens). Contudo, dentro do estágio dos empreendedores estabelecidos isto se inverte (12,5 milhões são homens e 9,9 milhões são mulheres). Natividade (2009) em seu estudo acerca do empreendedorismo feminino no Brasil percebeu a partir dos relatórios do GEM de 2002 a 2006, que:

Ao ser analisada a escolaridade, percebe-se que, ao longo dos cinco anos, a pequena faixa de empreendedores com grau de escolaridade acima de 11 anos de estudo encontra-se entre os motivados por oportunidade, enquanto a metade dos empreendimentos criados representa iniciativa de indivíduos com um a quatro anos no ensino formal, caracterizada majoritariamente por empreendedores por necessidade. (NATIVIDADE, 2009, p. 238)

4. RESULTADO

O relatório do GEM (2018) trás cinco recomendações dos especialistas para melhoria das condições para empreender no Brasil no que tange a Educação:

      • Investimento em capacitação e mentorias, ou seja, programas governamentais que financiem ativos de conhecimento, e não somente estruturas;
      • Apoiar as instituições que já fomentam o empreendedorismo (Sebrae, Endeavor, Senac, etc.), integrando-as a um projeto estruturado;
      • Incentivo ao empreendedorismo nas mídias de massa: compartilhamento de experiências e de casos sucesso e insucesso por meio de programas televisões, propagandas, entre outros;
      • A aproximação da atividade empreendedora praticada intuitivamente com ambientes escolares, com a universidade, como a academia. Isso é fundamental para a qualificação do empreendedorismo no Brasil. O mesmo vale para aproximação entre pesquisa e boas tecnologias com quem se interessa em abrir um novo negócio.
      • A inserção da educação empreendedora desde a escola fundamental. Quanto mais cedo o espírito empreendedor for disseminado, maior será a chance de se ter jovens empreendedores no futuro, com uma boa base desconhecimento sobre plano de negócios, estudo de mercado, fatores econômicos que afetam o negócio, dentre outros aspectos essenciais para se ter êxito. (GEM, 2018, p. 19)

Em relação ao fomento do empreendedorismo a nível educacional, Santos (2012, p. 43) diz que “apesar da presença de universidades na oferta de cursos com ênfase na promoção do empreendedorismo, percebe-se a necessidade de se identificar quais prioridades e os princípios que devem fundamentar esta formação.” Ou seja, não basta apenas inserir o tema do empreendedorismo dentro das universidades sem que exista um mapeamento das necessidades latentes do contexto e a definição das metas e objetivos.

O ensino do empreendedorismo não deve se limitar à sala de aula ou às estruturas formais de aprendizagem. Os funcionários e colaboradores das MPE devem buscar aperfeiçoar suas habilidades empreendedoras através de interações com seus colegas de trabalho, fornecedores, clientes e consultores. (SANTOS, 2012, p. 43)

De acordo com Barbosa e Teixeira (2001, p. 23) “a necessidade de reciclagem e aquisição de novos conhecimentos é constante para aqueles que se dedicam ao mundo dos negócios.” Deste ponto, observa-se que a escolaridade não está unilateralmente determinando o futuro do empreendedor quando analisada isoladamente. A formação deste empreendedor para a gestão da sua atividade econômica também possui grande valia, não sendo somente a quantidade de anos em sala de aula como unicamente decisiva para seu sucesso.

Os programas de empreendedorismo, com técnicas que objetivam formar o empresário empreendedor, geram incubadoras de empresas, disciplinas de empreendedorismo nas universidades, graduação na área, empresas juniores, etc. A meta de tais iniciativas tem sido instrumentalizar as pessoas com conhecimentos, de maneira a aumentar as chances de sobrevivência e de sucesso do seu próprio negócio. (PEREIRA, 2001, p. 11)

A partir do trabalho de Barbosa e Teixeira (2001) é possível entender que a educação empreendedora fomenta, ainda que indiretamente, o surgimento de novos negócios, a manutenção dos existentes, e o desenvolvimento econômico local.

5. CONCLUSÕES

Neste estudo foi possível visualizar que o número de empreendedores com baixa escolaridade tem diminuído absoluta e relativamente frente ao aumento dos empreendedores com média e alta escolaridade. Entretanto, também chama a atenção que a taxa de empreendedores estabelecidos é maior entre os que possuem menor escolaridade, ou seja, o nível fundamental incompleto. A partir da revisão do tema infere-se que isto se deve, dentre outros fatores, principalmente aos empreendedores por necessidade advirem de um ambiente com alta taxa de desemprego, este último que afeta bastante aqueles que possuem baixa escolaridade, dado que a pouca formação os dificulta a entrar no mercado de trabalho como empregados.

É importante lembrar que na era do conhecimento, o capital intelectual é o maior investimento de uma empresa (MACHADO, 2005). Chiavenato (2012) reforça isso ao afirmar que o conhecimento é o recurso mais importante, mais até do que o dinheiro.

Embora este trabalho tenha se concentrado na figura do empreendedor e o seu nível de escolaridade, vislumbra-se a oportunidade de manter a investigação deste tema nos próximos anos com o objetivo de acompanhar o movimento que ocorre no Brasil. Como já é sabido que proporcionalmente o número de empreendedores com baixa escolaridade vem diminuindo e que este grupo é mais propenso a ser empreendedor no Brasil, seguir o movimento da educação brasileira e dos níveis gerais de desemprego (que estimulam o empreendedorismo por necessidade) é imprescindível para a tomada de decisão das entidades governamentais e o desenvolvimento de material científico para estudo e acompanhamento.

6. REFERÊNCIAS

BEDÊ, Marco Aurélio (Coord.). Os donos de negócio no Brasil: análise por faixa de escolaridade (2003-2013). Brasília: SEBRAE, 2015. [Série Estudos e Pesquisas].

BARBOSA, Jenny Dantas; TEIXEIRA, Rivanda Meira. Apesar dos pesares, vale a pena ser pequeno empresário? Traçando perfil e descobrindo motivos. Encontro de Estudos sobre Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas. Londrina. Anais. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, p. 14-30, 2001.

CHIAVENATO, Idalberto. Administração Geral e Pública. 3ª ed. Barueri: Manole, 2012.

DE MEZA, Maria Lucia Figueiredo Gomes et al. O perfil do empreendedorismo nos países latino-americanos na perspectiva da capacidade de inovação. Revista da Micro e Pequena Empresa, v. 2, n. 3, p. 58, 2008.

GEM – Global Entrepreneurship Monitor. Empreendedorismo no Brasil: 2017. Curitiba: IBQP, 2018.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Características adicionais do Mercado de Trabalho: 2012-2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2018a.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação: 2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2018b.

MACHADO, J. R. A Arte de Administrar Pequenos Negócios. 2 ed. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2005.

NATIVIDADE, Daise Rosas da. Empreendedorismo feminino no Brasil: políticas públicas sob análise. Revista de Administração Pública, v. 43, n. 1, p. 231-256, 2009.

PEREIRA, Sonia Maria et al. A formação do empreendedor. Tese (Tese em Engenharia de Produção) – Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis: 2001.

ROMANO CARRÃO, Ana Maria; JOHNSON, Grace Florence; DE LIMA MONTEBELO, Maria Imaculada. A influência do grau de escolaridade do pequeno empresário sobre sua percepção de negócio. Revista Eletrônica de Administração, [S.l.], v. 13, n. 2, p. 409-432, maio 2013. ISSN 1413-2311.

SANTOS, Carlos Alberto. Pequenos negócios: desafios e perspectivas–inovação. Brasília: Sebrae, 2012.

[1] Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da EaD pela UFF (Niterói/RJ); Especialista em Marketing pela Ucam (Rio de Janeiro/RJ);Bacharel em Administração pela Unifeso (Teresópolis/RJ).

Enviado: Setembro, 2019.

Aprovado: Outubro, 2019.

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