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Desinteresse escolar: em busca de uma compreensão

RC: 105193
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/desinteresse-escolar

CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

GOULART, Joender Luiz [1]

GOULART, Joender Luiz. Desinteresse escolar: em busca de uma compreensão. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 01, Vol. 04, pp. 89-110. Janeiro de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/desinteresse-escolar, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/desinteresse-escolar

RESUMO

É crescente a percepção difundida entre os professores de que os alunos estão cada vez menos interessados pelos estudos e reconhecendo menos a sua autoridade e, desta forma, a mera transmissão de informação sem a adequada recepção não caracterizaria um eficiente e eficaz processo de ensino-aprendizado. Nesse contexto, a presente pesquisa tem como questão norteadora: o que leva os alunos a se desinteressarem pelas aulas e, consequentemente, pela escola? Tem como objetivo geral compreender, verificar e analisar as causas do desinteresse escolar dos alunos da 1ª série do Ensino Médio do Colégio Estadual Xavier de Almeida. Para isto, utilizou-se como metodologia a abordagem qualitativa do tipo estudo de caso, utilizando-se como instrumento para coleta de dados e informações, a observação e a entrevista semiestruturada. Foi também necessário a construção de um arcabouço teórico em conteúdos publicados em livros e artigos científicos. Na análise dos resultados da pesquisa, definiu-se como categoria de análise: o desinteresse, a motivação e a instituição escolar. As contribuições da pesquisa é buscar meios coerentes a partir das concepções dos teóricos, dos professores e dos alunos, para diminuir o desinteresse, processos de fracasso e evasão escolar na unidade pesquisada. Conclui-se que o desinteresse perpassa por questões relacionadas aos alunos, aos familiares, à frágil motivação dos professores em sua práxis pedagógica e à própria instituição escolar.

Palavras-chave: Desinteresse, Motivação, Processo ensino-aprendizagem, Interação professor-aluno, Formação de professores.

1. INTRODUÇÃO

Atualmente, um enorme quociente de professores e profissionais ligados à educação pública da rede estadual do Estado de Goiás, bem como a de todo país, tem reclamado de forma indignada e angustiante sobre a falta de participação dos alunos em suas aulas, com uma postura apática e descomprometida em sala, em que muitas vezes, sequer os pais conseguem explicar a razão ou coibir. Isso é compreendido pelos docentes, como o desinteresse escolar, a falta de motivação para buscar a postura ideal em sala, o pouco comprometimento necessário para a aprendizagem dos conteúdos e saberes propiciados aos educandos. E isso resultará em obstáculos futuros (nas séries seguintes ou na vida fora da escola) a esses alunos, já que não houve a aprendizagem significativa dos conteúdos.

Nesse contexto, a presente pesquisa tem como questão norteadora: o que leva os alunos a se desinteressarem pelas aulas e, consequentemente, pela escola?

A presente pesquisa está vinculada ao tema “Desinteresse Escolar”; delimitando-se em específico no desinteresse escolar dos jovens da 1ª série do Ensino Médio do Colégio Estadual Xavier de Almeida, tendo como objetivo geral compreender, verificar e analisar as causas do desinteresse escolar desses alunos. Os objetivos específicos a serem atingidos são: levantar os motivos do desinteresse escolar dos alunos que estão iniciando o Ensino Médio e diagnosticar o perfil do aluno desinteressado e a sua postura em sala de aula.

Esta pesquisa justifica-se dada a importância de se compreender como isso tem ocorrido, com o intuito de verificar as causas e fatores determinantes do desinteresse escolar, além de buscar apontar contribuições de ordem prática, social e científica para a área mais complexa da educação: a prática em sala de aula e o processo de ensino-aprendizagem. Assim partiu da metodologia de estudo de caso da realidade do Colégio Estadual Xavier de Almeida, em Morrinhos-GO, tendo como sujeitos da pesquisa uma professora efetiva e experiente, pertencente à unidade escolar pesquisada e alguns alunos da unidade escolar.  Os dados obtidos pela pesquisa foram resultado das respostas de entrevista com a docente e um questionário aberto aplicado aos discentes.

Sabe-se que a preocupação com o desinteresse escolar dos alunos é uma questão pensada pela educação brasileira. Nas últimas décadas educadores em todo território brasileiro se mostraram preocupados com a questão da desmotivação escolar. Esse elemento silencioso e aparentemente despercebido, quando comparado a problemas mais evidentes como a indisciplina em sala, a violência na escola ou os baixos índices em avaliações externas regionais e nacionais, apresentou-se como um fator crucial para impedir o avanço dos alunos em seus estudos, trazendo consequências prejudiciais ao rendimento e sucesso dos discentes e da própria unidade escolar, tais como: a) Entrevero entre alunos e professores; b) Evasão; c) Alto índice de progressão parcial; d) Reprovação.

Apesar de os professores, coordenação e direção se preocuparem com esse quadro crítico, ainda não havia sido produzida nenhuma pesquisa ou estudo específico capaz de elencar causas e fatores que influenciam o desinteresse escolar no Colégio Estadual Xavier de Almeida. Daí, acredita-se que esta pesquisa contribuiu com essa unidade escolar, com os profissionais que nela atuam, e, de forma mais abrangente, pode contribuir com a área educacional da coordenação pedagógica para amenizar essa situação. Preconizamos um trabalho pedagógico de informação e formação de professores, para atuarem de maneira mais coletiva, harmônica, colaborativa e democrática; na elaboração de ações, projetos e outros mecanismos pedagógicos articulados/ planejados/executados, a fim de se combater a raiz de inúmeros conflitos vivenciados pela educação pública brasileira.

A apresentação desta pesquisa foi exposta através da fundamentação teórica com os referenciais bibliográficos e teóricos básicos, que darão suporte às argumentações feitas na análise dos dados obtidos pela pesquisa. Assim, será apresentado de forma detalhada o método empregado, explicando o viés da investigação, o modo de coleta dos dados e os procedimentos usados, e a participação dos sujeitos entrevistados.

Neste artigo também apresentar-se-á a categorização da pesquisa relacionada ao desinteresse escolar, contendo os depoimentos dos sujeitos e a análise dos mesmos, a partir do que já fora estudado e pesquisado por inúmeros autores expoentes na referida área do conhecimento. Nas considerações finais, apresentam-se as conclusões e síntese dos resultados obtidos após toda a análise dos dados e trabalho científico investigativo aqui realizados. Ao final deste trabalho, constam os questionários aplicados aos alunos e ao professor, além das respectivas respostas dadas pelos sujeitos ao pesquisador.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A problemática que envolve o desinteresse escolar da parte dos alunos não deve ser entendida apenas em si mesma, mas analisada, sobretudo, na dimensão das possíveis consequência disso, dentre elas o baixo rendimento, conflitos interpessoais na sala de aula e noutros ambientes da escola e os altos índices de reprovação, progressão parcial e evasão. Quando se olha somente para o desinteresse, tende-se a buscar culpados ou responsáveis, ora os próprios alunos, ora os professores e seus métodos de ensino, ora o ambiente escolar como um todo.

Conhecer os alunos é um dos caminhos que pode ser promissor para o entendimento do problema do desinteresse. Ouvi-los permite identificar tanto os aspectos que justifiquem a falta de interesse, quanto preferências e opiniões que podem ajudar a melhorar a dinâmica educacional visando motivar os estudantes. Sendo assim, nesta seção de fundamentação teórica, buscou-se discutir o tema com base em levantamento bibliográfico, em que foram selecionados autores, livros, artigos e pesquisas sobre o assunto.

Nakamura et al. (2005), por exemplo, afirmam que muitos estudantes apresentam apatia pelas aulas e até mesmo pelos professores. É como se estivessem na escola, mas com o pensamento e a atenção distantes, o que implica em falta de motivação mínima necessária para a eficiência do processo de ensino e aprendizagem, mais precisamente, da aprendizagem dos conteúdos ministrados.

A motivação tem relação com o desejo e, no âmbito educacional, afeta a aprendizagem, seja positivamente, quando o aluno está motivado, seja negativamente, quando não está motivado, conforme explica Fernández (1991). Para essa autora, o problema da aprendizagem, isto é, o sintoma onde a inteligência é atrapalhada pelo desejo, é o lugar privilegiado, talvez o único, para se observar as relações entre ambas as estruturas. Sabe-se que o desejo é algo muito forte; quando se quer, pode-se ir muito longe. Quando se pensa em algo desejado, tem-se a força para conseguir, estabelece-se um alvo, o sujeito fica motivado. O desejo é um sentimento natural do ser humano.

Corroborando com este ponto de vista, cita-se Nakamura et al. (2005) que afirmam que a origem da motivação está ligada ao desejo de satisfação de necessidades e a um conjunto de fatores que determinam a conduta de um indivíduo, o que se assenta sobre o fato de o ser humano ser um animal social por natureza. Nesta perspectiva, a falta do desejo resulta em apatia, o que inviabiliza, no campo educacional, o trabalho do professor. Essa é uma situação comum em várias escolas e não se trata só de questões resultantes da personalidade.

A falta de desejo e, por conseguinte, de motivação é um problema sério e tem levado muitos jovens ao fracasso escolar, refletido principalmente em abandono e reprovação em face da não-aprendizagem. Se “motivar ou produzir motivos significa predispor a pessoa para a aprendizagem” (VALENTE, 2001, p. 71), não a motivar é o mesmo que permitir que ela se feche no seu desinteresse e, por conseguinte, não aprenda.

Pensando tudo isso no âmbito dos estudantes do Ensino Médio, tem-se um componente adicional que é a adolescência. Esta etapa da vida é marcada por grandes transformações corporais e psicológicas que acabam provocando sucessivos deslocamentos nos interesses, desejos e motivos dos adolescentes. Oscilações de humor também marcam esse período do desenvolvimento humano. Não é raro encontrar adolescentes que em determinado momento estão motivados e animados, e noutro parecem estar brigados com o mundo, consigo mesmos ou com o compromisso pessoal de crescimento, amadurecimento e formação (TIBA, 1996).

Trazendo o problema da desmotivação para dentro da escola, Alves (2000) descreve duas dimensões para este empecilho na aprendizagem: de um lado os alunos, que dizem que os professores estão mal-humorados, que já chegam cansados na escola, que só passam atividades e aulas que não são interessantes; e de outro, os professores, que dizem que a turma não rende, sem se questionarem o porquê da não-aprendizagem.

Freire (1985) pontuou, certa vez, que cabe ao professor, por exemplo, estimular o aluno a fazer perguntas, de modo a instigá-lo à busca do saber e do conhecimento. Para esse autor, isso significa motivar o estudante, tornando-o mais curioso para que se torne um sujeito ativo e mais participativo durante as aulas. Nesta dinâmica o professor pode evidenciar para o aluno que é ele próprio o responsável pela sua aprendizagem, e que o docente está ali para mediar o conhecimento, não para impô-lo.

Nota-se que a aprendizagem é uma via de mão dupla, em que estão estudantes interessados em aprender e professores dispostos a ensinar, cada um assumindo seu comprometimento nesse processo, pois, como disseram Moraes e Varela (2007, p. 10), “a vida é um caminho e ninguém pode caminhar pelo outro”. Isso significa que o aluno não deve ser obrigado a aprender, e sim motivado, da mesma forma que o professor não deve impor o conhecimento, mas despertar nos estudantes o interesse em adquiri-lo.

O docente, portanto, deve reconhecer e assumir para si a importância de motivar o aluno ao longo do seu percurso de aprendizagem. A esse respeito, Fita (1999, p. 92) afirma que:

[…] a própria pessoa do professor pode ser uma fonte de motivação importantíssima. O tipo de relação que estabelecemos com os alunos pode gerar uma confiança e um aumento da atenção que são condições indispensáveis para a aprendizagem.

Houve tempos em que a imposição da aprendizagem era a tônica do processo educativo. Tem-se como exemplo os métodos clássicos de tortura, como a palmatória e vara, para punir indisciplina e falta de aprendizagem. São práticas há muito tempo abolidas, mas, segundo cita Alves (2000), poderia haver sofrimento maior para uma criança ou um adolescente do que ser forçado a mover-se numa “floresta” de informações cujos conceitos não consegue compreender, e que nenhuma relação parece ter com sua vida? Para esse autor, o ideal seria garantir o envolvimento do educando com a escola e com o professor, para que se possa promover uma aprendizagem significativa fundada na troca.

Impor e punir não funcionam e nem de longe podem ser entendidos como elementos de motivação. Sendo assim, os professores precisam transformar suas aulas em momentos instigantes e desafiadores, que estejam em consonância com os interesses dos alunos e em conformidade com os conteúdos que serão trabalhados (MERCADO, 1999). Recursos tecnológicos, por exemplo, conforme cita Alves (1999), é um dentre tantos caminhos para que o professor saia de um padrão de aula puramente expositiva para um formato de aula mais dinâmica e interativa. Despertar o interesse da turma pode ser facilitado com o uso de estratégias inovadoras.

Ensinar é uma tarefa árdua, mas todo professor, quando se forma, assume esse compromisso. Portanto, está em suas mãos buscar alternativas para enfrentar situações adversas no cotidiano escolar, uma delas o desinteresse de alguns alunos. Essa realidade é desafiadora e causadora de enorme preocupação, tendo em vista que o desinteresse do estudante em conquistar a aprendizagem é uma constante nas reclamações dos docentes, o que nem sempre encontra resposta dentro dos muros da escola. A falta de interesse pode ser o ecoar da realidade social do estudante, ou de qualquer outra característica da região em que ele habita e convive (TORRE, 1999).

O fato é que a desmotivação que causa desinteresse, ou o desinteresse que causa desmotivação, é preocupante por ser vetor de intercorrências como o fracasso escolar, pois, segundo Bzuneck (2001, p. 13), “alunos desmotivados estudam muito pouco ou nada e, consequentemente, aprendem muito pouco”. Isso se configura em situação educacional que impede a formação de indivíduos mais competentes para exercerem a cidadania e se realizarem como pessoas. Impede, também, que se capacitem como aptos para as muitas aprendizagens que vêm ao longo da vida.

Nakamura et al. (2005, p. 33) fazem a seguinte reflexão sobre o desinteresse do estudante:

[…] os alunos não querem nada, mas querem tudo. Acontece que há um descompasso entre a inteligência dos alunos e a falta de sensibilidade de uma parcela dos educadores. Por que insistir em querer tirar do aluno aquilo que ele não pode dar ou que não está disposto a oferecer, por falta de motivação ou vocação?

O sistema de ensino foi construído alinhado às necessidades do sistema capitalista por mão de obra qualificada. Quando se fala em educar para a vida e para o mercado de trabalho, isso representa uma tentativa de alinhar os interesses preponderantes do capital com os interesses individuais dos que são educados. Neste âmbito, indaga-se sobre o lugar das vocações, das áreas afins e dos desejos, comumente conflitando os objetivos da escola expressos nos conteúdos e nas formas de transmitir os saberes. O desafio é acomodar a finalidade da escola na finalidade do estudante, o que pode explicar parte das razões da desmotivação e do desinteresse do aluno (LIBÂNEO, 2000).

A dinâmica que move o mundo e que constantemente transforma a sociedade não exclui a escola, afetando-a na mesma intensidade e provocando reformulações sucessivas em conteúdos, práticas e recursos. A inserção da tecnologia da informação e da comunicação é só um exemplo disso, e embora não seja recente, ainda desafia muitos docentes às boas práticas no uso dos recursos tecnológicos em sala de aula. Tudo isso traz novas realidades sociais, políticas, econômicas, culturais e geográficas que precisam ser acomodadas de modo a não subjugar ainda mais os estudantes e desmotivá-los. Há casos de professores igualmente desmotivados com tantas e sucessivas mudanças (BZUNECK, 2009).

Portanto, não é simples entender o desinteresse do aluno. A complexidade de fatores que podem estar associados requer análises multifatoriais que seria tarefa demasiadamente difícil em um único estudo. Compreendendo esta limitação, a presente pesquisa buscou levantar e entender o desinteresse por parte de dois alunos do 1º Ano do Ensino Médio de uma escola da rede Estadual de Goiás, na cidade de Morrinhos. Embora a amostra soe, num primeiro momento, como irrelevante em termos de representatividade, a intenção do estudo de caso foi iniciar esse formato de investigação na escola para estimular o olhar na direção do aluno, dos seus motivos, dos seus desejos e dos seus interesses. Os resultados, se eventualmente utilizados em propostas pedagógicas pela escola, podem servir para ajudar a motivar outros estudantes e mantê-los interessados pela aprendizagem.

2.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

No intuito de desenvolver uma pesquisa consistente e capaz de mostrar aquilo que se pretende atingir, neste trabalho foi escolhida a abordagem qualitativa que, segundo Godoy (1995), é um tipo de abordagem que elenca um conjunto de características identificadas com os seguintes aspectos: 1) o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como instrumento fundamental; 2) o caráter descritivo; 3) o significado que as pessoas dão às coisas e a sua vida; e 4) o enfoque indutivo. Outro autor, Chizzotti (1991, p. 79), acrescenta que “a abordagem qualitativa parte do princípio de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito”.

A temática da pesquisa foi norteada por um processo investigativo situado na metodologia do tipo estudo de caso, acerca da questão da falta de motivação entre os alunos do Colégio em estudo, o que caracteriza o desinteresse escolar. No presente trabalho de pesquisa, busca-se descobrir novos conceitos sobre um determinado fenômeno, segundo André (1998). Nessa busca, o estudo de caso apresenta algumas características peculiares, a saber: pesquisa envolvida com questões “como?” e “por quê?” ao contrário de “o quê?” e “quantos?”; não são utilizadas formas experimentais de controle ou manipulação (mantendo a isenção e imparcialidade); e o investigador recorre a fontes múltiplas de dados e a métodos de recolha diversificados (observações diretas e indiretas, entrevistas, questionários, narrativas, registros de áudio e vídeo, entre outros) (COUTINHO; CHAVES, 2002). Isso garante a validação da pesquisa realizada e identifica a postura do investigador.

Os dados desta pesquisa foram colhidos por meio de entrevistas individuais com um professor efetivo e experiente, pertencente à unidade escolar pesquisada. Este número foi definido a partir do critério do “ponto de saturação de dados” (BOGDAN; BIKLEN, 1994). As entrevistas foram gravadas e transcritas fidedignamente. O professor entrevistado foi escolhido por indicação da vice-diretora e coordenadora pedagógica geral da escola, por ser considerado um profissional com estreita relação com o tema do trabalho e com a instituição. Essas entrevistas ocorreram na escola, em horário de trabalho, no turno noturno, durante o mês de agosto do presente ano.

2.2 CRITÉRIOS DE ESCOLHA DOS ENTREVISTADOS E RESULTADOS

Todos os dados foram estudados utilizando a análise de conteúdo, conforme apresentou Bardin (1991, p. 51). “Não se trata de um instrumento, mas de um leque de apetrechos”. Dessa forma, a análise dos conteúdos obtidos através desta pesquisa com a reinterpretação das entrevistas à luz dos dados dos questionários propicia uma metodologia de pesquisa que faz parte da busca teórica e prática, um trabalho relevante para a investigação de uma temática social.

Outros dados coletados foram obtidos através de um questionário com perguntas abertas aplicado a dois alunos, indicados pelos professores, por apresentarem um quadro de desinteresse em suas aulas. Nesses questionários, as questões propostas visam não só a busca de dados sobre as causas (o porquê) do desinteresse, como também a possibilidade de um levantamento de fatores e situações desencadeadores dessa postura desinteressada (como). Esse tipo de questionário oferece um conjunto de dados qualitativos em relação aos fatores intrínsecos ao tema, obtidos como respostas, segundo Gil (1987).

O critério para a escolha dos sujeitos da pesquisa que responderam as questões foi a dedicação e responsabilidade com a sua função. Em relação aos alunos, os critérios de seleção foram: assiduidade e maturidade. Esses critérios se embasaram na teoria freireana, onde a dedicação e responsabilidade ética, política e profissional do docente lhe coloca o dever de se preparar, de se capacitar, de se formar antes e durante sua atividade profissional. Cabe a ele a responsabilidade de motivar seus discentes para fazer suas escolhas, para agir de forma responsável na tomada de decisões, lidando com as consequências de seus atos.

Feito a escolha dos participantes para responder o questionário, ele foi agendado para o turno noturno da instituição, em que ambos fazem parte. Para orientar a análise dos dados nas respostas obtidas, segue-se uma sequência com as categorizações: desinteresse, motivação e instituição escolar. Para manter o sigilo a respeito dos sujeitos que participaram desta entrevista, nomeamos esses alunos como (A) e (B)

2.3 DESINTERESSE

Ao tratar da questão sobre o desinteresse, a aluna (A), respondeu à questão: E em relação aos seus professores, eles estão desinteressados em relação ao compromisso da educação? (Justifique). Ela afirmou que “grande parte dos professores realmente tem o interesse de exercer seu cargo com garra e vontade, mas alguns entram em sala de aula, para cumprir o seu horário, sem se importar com o que os alunos precisam aprender”. Já a aluna (B) disse que: “tem professor que é empenhado a ensinar, mas confessa que tem aqueles que querem ganhar só o seu dinheiro”.

Ao analisar a resposta dessas duas alunas, pode-se detectar em sua fala que há falta de empenho, de motivação e a falta responsabilidade da parte de alguns professores. Não ter a responsabilidade de ministrar uma aula de qualidade aos alunos, está sendo uma prática educacional de alguns professores. Ensinar é uma tarefa árdua, mas todo professor quando se forma tem esse compromisso, portanto, está nas mãos dos educadores buscar alternativas para enfrentar as situações do cotidiano das escolas.

Alguns professores, longe de proporem conteúdos que efetivamente transformem a condição do aluno, transportando-o intelectualmente para além das circunstâncias locais e particulares, são absolutamente inofensivos e incapazes de interpelar o aluno, de dar um novo sentido ao que abrange sua vida acadêmica e social. Cumprindo com sua função de preparação para o futuro, o professor aparece ao aluno como um “remédio amargo” a ser ingerido a fim de que um bem longínquo se realize (SNYDERS, 1988).

É mister que esses professores dialoguem com o seu alunado, de forma que o liberte e o transforme, uma vez que o diálogo entre o professor e os alunos devem se dar de forma democrática. É preciso desenvolver a prática de ouvir os alunos e buscar entender a nova linguagem desta década vigente. Percebe-se essa falta do diálogo entre alunos e professor na escola pesquisada; a linguagem da maioria dos professores, até por distanciamento de gerações, difere em intensidade da articulada pelos alunos.

A concepção de “professor empenhado, dedicado”, obtida junto à aluna B, se refere, especialmente, à boa interação professor-aluno, em um espaço micro, que é a sala de aula. Conforme é notório na fala da aluna B, o aluno tem senso crítico para perceber qual professor tem a seriedade profissional ao exercer a sua docência. Resultados obtidos por pesquisa executada por Moysés (1994) apontaram como, “bom professor”, aquele que exerce o papel de formador do cidadão crítico e bem-informado. Nesse aspecto, é possível perceber na fala da aluna pesquisada (B) que também o professor empenhado é aquele que promove sua interação com o aluno, marcada pela afetividade, valorização da sua individualidade e por dedicação ao trabalho; aquele que busca se atualizar, tem gosto pelo que faz, tem compromisso, dedicação e responsabilidade.

Em complemento, cabe salientar as concepções relacionadas ao “mau professor”, pois, comparando as respostas, verifica-se que lhes são atribuídas características opostas, como por exemplo, o “bom” é o que gosta do que faz, é empenhado, dedica-se, sacrifica-se ao procurar se atualizar, enquanto o “mau” é o que não gosta do que faz, não busca novidades, em suma, o que está ali pelo salário. Alguns professores não têm cumprido o seu papel, pois entram na sala, sentam-se e não ministram as suas aulas. Outros não conseguem sair do senso comum, mantendo-se numa relação de dependência ao livro didático, não traz o conhecimento científico para a realidade da sala.

Infere-se, a partir da resposta da aluna A, que alguns professores agem como se a profissão deles fosse um peso, um sacrifício, a pior do mundo, deixando assim de acreditar na educação. Ministram aulas sem planejamento, usam celulares em sala de aula, não cumprem regras, enfim, não são bons exemplos para o alunado da instituição. Este é um dos cenários da educação dessa instituição pesquisada e analisada.

Outro cenário que tem gerado o desinteresse dos alunos foi o currículo unificado criado pela rede de educação do estado de Goiás, no ano de 2013. A escola esvazia o conhecimento de sentido, fragmentando-o a tal ponto que vencer as exigências de cada matéria e saltar para a etapa escolar subsequente passa a ser o objetivo central, enquanto aprender, representa uma possibilidade muito remota. O depoimento das alunas evidencia o desestímulo em permanecer numa escola cuja única razão existencial é o conteúdo. “Com as escolas sendo controladas por metas, tarefas e tabelas comparativas de desempenho, não é de se espantar que os alunos fiquem entediados e os professores sintam-se desgastados” (YOUNG, 2007).

É notória a reclamação quanto às aulas de alguns professores, os quais não apresentam algo criativo, não fogem da monotonia, e não utilizam recursos que venham a mostrar aos alunos que o espaço escolar pode ser visto como algo agradável, interessante e enriquecedor. Ao perceber no professor essa vontade de fazer algo diferente, o aluno, em contrapartida, passa a participar de forma motivada e disposta, como se ele saísse da passividade e da indiferença, para se colocar na posição de personagem, de agente ou, no mínimo, se reconhece como alguém que precisa dar valor e retorno ao esforço docente.

Dessa forma, não só os professores se tornam responsáveis pelo trabalho pedagógico de escolha e planejamento de atividades diversificadas para mudar a “cara” das aulas e da própria escola. Toda a equipe da escola (gestores, docentes, discentes) deve se envolver nesse processo. O docente desenvolve suas competências estudando sobre conteúdos e estratégias de ensino, depois propõe a participação de todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, no que concerne à estruturação, confecção e execução dessas atividades, de modo a oportunizar aos educandos possibilidade de assumir sua posição de agente de sua aprendizagem.

Momentos coletivos são disponibilizados para esse trabalho, um deles ocorre com a elaboração do Projeto Político Pedagógico da unidade escolar, que ocorre durante a semana de formação e planejamento no início do ano letivo. Outro acontece nos encontros coletivos mensais, ao longo do ano, previstos para análise, avaliação e (re)planejamento das ações pedagógicas voltadas para orientar, melhorar e formar/informar os docentes da escola.

Quando se perguntou à professora como a docência compreende o desinteresse escolar, obtivemos a seguinte resposta: “Há vários fatores que colaboram para esse quadro, dentre eles a má remuneração e o pouco reconhecimento e valorização dos professores”. Percebe-se que diante da situação de descaso, o professor sente-se desmotivado para se empenhar em ministrar aulas mais interessantes e mais bem planejadas, o que reflete no aprendizado e no interesse do seu aluno, gerando assim, um ciclo prejudicial para ambos.

A questão salarial é crucial ao se tratar do desinteresse do docente na instituição vigente pesquisada. A retirada da titularidade, por parte do governo do estado de Goiás, provocou uma sensação de desvalorização dos profissionais. Assim, é notório que essa atitude atingiu o docente em sua ação. Quando se reflete sobre o valor do professor e sua ação pedagógica, sabe-se que a questão financeira é um fator relevante. Isso porque, o docente poderia ter um salário melhor trabalhando por 40 h semanais, ao invés de trabalhar com a carga horária máxima de 60 h semanais. Dessa forma, o professor poderia agregar outras atividades de aprimoramento, lazer e convívio social a sua vida diária. Indubitavelmente, atingiria uma prática docente transformadora, pois poderia se dedicar mais ao seu ofício e buscar seu aperfeiçoamento de forma contínua.

Como minimizar o desinteresse escolar? A professora afirmou que:

é necessário envolver a família na formação dos alunos, cobrando, de forma mais severa, conteúdo e disciplina em sala de aula. Não “aprovar” alunos que não tenham assimilado o conteúdo de forma satisfatória e valorizando o professor enquanto profissional e ser humano.

A educadora enfatiza a ausência da participação dos pais como fator agravante do desinteresse dos alunos.

A escola tem o papel de dar continuidade à educação, que já deve vir de casa com os princípios básicos ensinados pelos pais. Com base no depoimento coligido em entrevista com a professora da escola, questiona-se em que medida a família, ao conduzir suas práticas no sentido da conformação do aluno, é também responsável pela geração do desinteresse. Busca-se, ainda, explicitar o modo pelo qual a família age na formação de esquemas mentais e como estes operam e se manifestam ao longo dos anos em que seus filhos frequentam a escola. Então, os dados aqui analisados oferecem indícios de que a família ensina o aluno, gradual e cumulativamente, a ser desinteressado. Se o aluno não demonstra o mínimo de educação em casa, não se pode esperar que, na escola, seja diferente. Portanto, a falta de educação na base familiar também se qualifica como um dos sintomas do desinteresse escolar.

Na questão: Por que acontece o desinteresse escolar? A professora afirmou que “tudo se dá devido ao descaso com que a educação vem sendo tratada pelos governantes, pelos próprios professores, pelos alunos e pelas famílias dos estudantes”. Acrescentou ainda:

Nós, professores, viramos ‘fabricadores de notas’ e, devido a tanta cobrança, acabamos aceitando esse papel e nos acomodamos. A família não dá suporte aos estudantes, não participa de sua vida acadêmica, gerando falta de interesse pelos estudos, atitude que hoje já está banalizada. Outra justificativa refere-se a alunos do turno noturno que, por trabalharem durante o dia, desmotivam-se para o estudo devido ao cansaço.

Ao tratar do descaso como a educação vem sendo tratada, é possível perceber que as concepções de “bom aluno” se refletem nas do “mau aluno”, para as quais são encontradas descrições explícitas de que um é o oposto do outro. Segundo uma professora citada nos resultados, “Eu acho que o mau aluno é aquele que não se interessa, que não se motiva”. Essa concepção transmite a ideia de que o aluno é o responsável por seu interesse pela escola, ficando o professor excluído da tarefa de favorecer seu interesse e promover sua motivação. Nesse ponto de vista, não seria necessário o professor estimular seu aluno, não por falta de recursos para isso, mas em razão de que considera que ter interesse é responsabilidade exclusiva do aluno. Neste caso, seria necessário, além de instrumentalizar o professor, levá-lo a refletir e compreender seu papel no processo educacional.

Analisando as respostas da professora entrevistada, é percebido que ela se sente não valorizada pelas instâncias estatais e sociais. Ela salienta que a família também não cumpre o papel que deveria exercer em relação à educação do aluno e, por fim, que a visão que os governantes estão tendo em relação à educação, é em busca de resultados em números e não em qualidade.

As atribuições do interesse dos alunos pela escola estão relacionadas à família, mas, também, às atividades oferecidas na escola, especialmente àquelas que são novas e atrativas aos alunos. É importante ter atividades de valorização do aluno e de sua individualidade, com a produção de aulas mais interessantes e com uso de materiais relacionados ao cotidiano do estudante. Esta compreensão é coerente com a posição de Rubem Alves (2000) ao sinalizar que o conteúdo científico transmitido pela escola não deve ser descontextualizado da vida dos alunos, pois, caso contrário, haveria o risco de favorecer seu desinteresse e, possivelmente, a indisciplina.

Considerando-se a ideia de a professora não se sentir valorizada, a impressão que se pode ter é que aumentar o salário dos professores, equipar a escola com tecnologias avançadas são medidas que não contemplariam, na íntegra, uma possibilidade de transformação da realidade vigente na escola pesquisada. Pode-se ganhar bem, mas, o que importa, de fato, é a mudança de paradigma tanto do educador quanto do educando.

Os professores devem ser valorizados, bem remunerados e terem reconhecimento social, no entanto, o que se testemunha é a desvalorização do magistério e o desrespeito por parte dos governantes. Estes registros reforçam o mal-estar docente descrito em Almeida e Figueira (1998) que, consequentemente, interferem na sua prática diária. Confirma-se, pois, que a relação professor-aluno está sob efeito deste mal-estar, o qual pode prejudicar a mediação no processo de ensino-aprendizagem causando, assim, o desinteresse.

O preparo dos professores é outro ponto que gera o desinteresse escolar. Os professores estão desmotivados, pois são mal preparados para realizarem um ensino de qualidade que os alunos de hoje almejam. Utilizam metodologias de ensino ultrapassadas, não buscam qualificação, não desenvolvem suas potencialidades e competências, o que provoca o desinteresse neles mesmos e, por extensão, nos alunos. Faz-se necessário, da parte do professor, não se preocupar somente em ensinar e cobrar, mas ministrar conteúdos de qualidade e significativos para que possa ter uma relação verdadeira com seus alunos, verificando se realmente estão aprendendo e quais competências e habilidades estão desenvolvendo.

Sabe-se que a família é essencial para o desenvolvimento do indivíduo, independentemente de sua formação. É no meio familiar que o indivíduo tem seus primeiros contatos com o mundo exterior, com a linguagem, com a aprendizagem dos primeiros valores e hábitos. Tal convivência é fundamental para que a criança se insira no meio escolar sem problemas de relacionamento disciplinar, entre ele e os outros. A sociedade surge por uma parceria de sucesso entre famílias e escolas, pois nesse contexto, o desinteresse escolar vai diminuindo paulatinamente. Contudo, a falta de dedicação dos pais aos filhos no acompanhamento das atividades escolares, também corrobora para o desinteresse escolar.

A estrutura familiar influencia na aprendizagem dos alunos. Sabe-se que nem todos os alunos pertencem a uma família que tem condições econômicas suficientes para a formação digna de seus filhos. Quando a professora pesquisada cita a questão familiar como algo que gera desinteresse dos alunos, a interpretação possível que se pode fazer é que a família disfuncional está gerando uma lacuna no que se refere ao interesse dos alunos pelo estudo. Quando esse paradigma de família não supre as necessidades de seus filhos, surgem filhos com grandes lacunas e, concomitantemente, essas vêm para a instituição escolar esperando que ela consiga suprir seus anseios.

2.3.1 MOTIVAÇÃO

Sabe-se que o desenvolvimento de competências e habilidades ligadas à tecnologia é fator de relevância para combater o desinteresse escolar. Mas há professores engessados a metodologias de ensino ultrapassadas, sem interesse em buscar novas vias para desenvolver as habilidades de seus alunos, isso significa a ausência de dinamicidade na metodologia. Há um desencontro entre o modo de pensar do jovem na atualidade e o modo como as aulas são planejadas/ministradas. É mister recriar o modo de ensinar, de forma mais desafiante e dinâmica, para que esses professores sejam capazes de atrair a atenção dos jovens, como forma de minimizar o desinteresse escolar.

O ideal seria garantir o envolvimento do educador com a escola e com a relação professor-aluno, para que assim possa haver uma aprendizagem significativa. Valente (2001), afirma que os docentes precisam preparar-se para os desafios decorrentes da inserção das novas tecnologias na prática educativa. Mas, antes de qualquer tecnologia aplicada à sala de aula, cabe profilaticamente motivar os professores e a sua prática educativa. Tendo como base a segunda questão: Como deveria ser a escola para você gostar e se manter motivado? A aluna (A) respondeu: “a escola deveria ter professores totalmente voltados para ensinar, com aulas que fugiriam dos livros, com debates dentro da sala de aula”. Já, afirmou a aluna (B): “a escola deveria ser um lugar de se apresentar algo novo, direcionado para o interesse do aluno em aprender”.

Analisando essa questão, é interessante que o problema detectado está voltado para a metodologia e a didática que a escola deve oferecer aos alunos. Sabe-se que no ensino tradicional há uma prática na qual os professores explicam de forma expositiva todo conteúdo de uma só vez, depois se fazem as tarefas propostas. Esta é uma prática pedagógica que necessita ser modificada, pois, para aprender, o aluno necessita pensar sobre o conteúdo ou o tema estudado, debater o que está sendo passado como verdade em muitas aulas. A escola tem que ser o lugar de se criarem caminhos para desenvolver a aprendizagem nos alunos. A escola deveria ser o espaço da criação.

Para Kupfer (1992, p. 79), “[…] o processo de aprendizagem depende da razão que motiva a busca de conhecimento”, ressaltando o porquê da sua importância. Os alunos precisam ser provocados, para que sintam a necessidade de aprender, e não os professores “despejarem” sobre suas cabeças noções que, aparentemente, não lhes dizem respeito.

A forma de apresentar o conteúdo, portanto, pode agir em sentido contrário, provocando a falta de desejo de aprender que representa, para os alunos, o distanciamento que se coloca entre o conteúdo e a realidade de suas vidas. Se o aluno não percebe de que modo o conhecimento poderá ajudá-lo, como desejará algo que lhe parece inútil?

Percebe-se que as aulas (metodologias, recursos, estratégias etc.) não têm encantado os alunos como deveriam, para “seduzir” os alunos, envolver a sua família e a própria comunidade. Por não exercerem um fascínio inicial sobre os educandos, desmotivados por questões pessoais, sociais e econômicas, parece-nos inviável conquistar a atenção/concentração necessária à assimilação daquilo que está sendo explicado, ensinado, investigado, discutido e produzido.

A comunidade escolar precisa apresentar uma proposta político pedagógica voltada para os desafios com que a juventude vigente se defronta, e refletir sobre uma possível articulação entre a sua proposta pedagógica e o desejo dos alunos em receber uma educação inovadora. Agindo assim, ela pode minimizar, gradualmente, o desinteresse do seu público-alvo. Para tanto, a escola deve falar a linguagem dos jovens; entender o seu modo de pensar na sociedade presente; trabalhar temas atuais de interesse dos alunos; promover o ensino dos alunos a partir da vida cotidiana; aproximar a escola do universo dos alunos e desenvolver atividades extracurriculares. Dessa forma, é possível estimular os jovens a refletir sobre a importância de se estar na escola e concluir o ensino médio.

2.3.2 INSTITUIÇÃO ESCOLAR

A última pergunta feita às alunas foi: A escola é uma instituição interessante ou desinteressante? Por quê? A aluna (A), ao responder essa questão, afirmou que:

A instituição está meio a meio, porque tem algumas aulas que despertam o interesse dos alunos, principalmente essas aulas com temas atuais que despertam o pensamento crítico dos alunos, fazendo com que haja contradições de ideias e isso faz uma aula interessante.

A aluna (B) afirmou que “tem um pouco de cada, pois tem parte que mostra interesse e outras não”.

O ambiente escolar exerce muita influência para diminuir o desinteresse pelos estudos. A escola se torna desinteressante, na medida em que não estimula nos alunos o desenvolvimento de uma visão crítica de futuro, o que contribuiria para o aumento do desempenho escolar e do interesse pelos estudos. Precisa-se, cada vez mais, conscientizar o alunado sobre a importância de permanecerem na escola. Assimilando uma linguagem típica do jovem contemporâneo e estando em sintonia com o universo desse jovem, é possível fazer da escola um lugar interessante. Incentivando-os a vivenciarem novas metodologias que dialoguem com os conteúdos ministrados e buscando a interdisciplinaridade, é possível fazer da escola um lugar gostoso de se estar para aprender.

Há métodos de ensino que, ao invés de auxiliar e combater o desinteresse, prejudicam a aprendizagem. Por isso, é fundamental trazer para o ambiente escolar determinadas atividades esportivas, culturais e sociais que possibilitem aos alunos a integração com um mundo diferenciado àquele onde estão os conteúdos da grade curricular. Esse mundo novo é capaz de formar um indivíduo mais intelectual e humanizado, tendo em vista que, quando o docente busca abrir espaço em suas aulas para essas atividades, oportuniza aos seus ouvintes a compreensão de que a escola pode ensinar sem que o aluno esteja sentado o tempo todo, sem que seja algo mecânico e cansativo.

O principal desafio da unidade escolar é pensar como norteadora entre a sua proposta político pedagógica e o desinteresse escolar. É mister que todo o quadro de profissionais da educação se mobilize para buscar alternativas novas para problemas novos. A escola deve criar novas estratégias para combater o desinteresse escolar e ações que contemplem as novas necessidades do alunado.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A atual pesquisa teve como tema as causas do desinteresse escolar dos alunos da 1ª série do Ensino Médio do Colégio Estadual Xavier de Almeida, com vistas a detectar, verificar, analisar e diagnosticar alguns fatores contribuintes para o acontecimento desse desinteresse nos alunos que estão iniciando o Ensino Médio. Tal pesquisa se apresenta relevante para que se apontem ações efetivas no combate ao desinteresse escolar, o qual compromete o sucesso da escola pesquisada.

Dentro da perspectiva de análise de resultados relacionados ao tema da pesquisa e retomando a questão norteadora: o que leva os alunos a se desinteressarem pelas aulas e, consequentemente, pela escola? Conclui-se que o desinteresse perpassa por questões relacionadas aos alunos; familiares; à frágil motivação dos professores em sua práxis pedagógica; e à própria instituição escolar.

Para se combater o desinteresse escolar nesse ciclo estudantil é mister motivar esses alunos, que em sua maioria, não têm estrutura familiar adequada para oferecer uma participação efetiva em sua formação, em prol de um futuro promissor. Entende-se, com o presente trabalho, que, para se combater o desinteresse na comunidade escolar, é preciso promover atividades diversificadas, estímulo por parte dos professores, aulas interessantes e a participação da família.

A apresentação de temas e conteúdos que aguçam a curiosidade e o respeito à individualidade de cada educando, podem favorecer o conhecimento mútuo e estreitar o convívio entre esses sujeitos, favorecendo o processo de valorização que o professor atribui a si mesmo e aos seus alunos, oportunizando o crescimento dos alunos enquanto sujeitos críticos e reflexivos. Indubitavelmente, a relação professor– aluno interfere no interesse do aluno pelas aulas. Se for uma relação sadia, é provável que se estabeleça o interesse do aluno pelo ambiente escolar, pela aprendizagem que ali se manifesta; caso contrário, a relação gera o desinteresse tanto por parte dos alunos quanto dos professores. Nesse contexto de relação professor-aluno, o afeto assume um papel primordial no processo de ensino-aprendizagem.

Ao tratar da motivação como forma de combater o desinteresse, detectou-se que o professor, em sua maioria, não tem conseguido falar a linguagem do seu alunado. É sabido, como foi mostrado neste trabalho, que o aluno anseia que o professor possa preparar aulas diversificadas, criativas, ou seja, que se aproximem de sua linguagem jovial. Então, cabe ao professor querer aprender essa linguagem para que o processo de aprendizagem tenha êxito. Levar o aluno a querer aprender é papel do professor juntamente com a escola. Hoje, vive-se na era tecnológica e, a escola e seus docentes devem se atualizar nessa linguagem que os alunos já dominam e, por sinal, com bastante facilidade.

Não dá para oferecer métodos retrógrados, enquanto a juventude vigente anseia por algo novo. O uso constante de quadro e pincel, com certeza, gera desinteresse pela aula, pelo professor, pelos estudos e pela escola. Nesse aspecto, ressaltamos que o educador e a escola se tornam, juntamente com os familiares e alunos, sujeitos responsáveis por combater e minimizar o desinteresse desses alunos.

Os professores podem preparar atividades interessantes, estimular o alunado a elaborar questionamento, encontrar respostas, uma vez que, aulas bem preparadas provocarão o interesse dos alunos pela aprendizagem. Sendo assim, o educando pode redescobrir seu interesse em aprender; o ato de estudar seria exitoso, pois o educando encontraria formas de aplicar o conhecimento adquirido em sua história de vida individual e social.

REFERÊNCIAS

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[1] Mestrando em Teologia Profissional. Pós-graduado em Filosofia e existência; Coordenação Pedagógica; Docência em Ensino Superior; Psicopedagogia. Bacharel em Teologia; Licenciado em Filosofia, Pedagogia e História.

Enviado: Novembro, 2021.

Aprovado: Janeiro, 2022.

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Joender Luiz Goulart

2 respostas

  1. “Existia uma lacuna problemática
    entre o que era defendido nas práticas de letramento escolar e o que era relevante social e culturalmente na vida dos jovens. O desinteresse, a desmotivação, o desestímulo dos estudantes nos levaram a perguntar: quem são eles? Onde estão? De onde vêm? Onde estudam? São jovens que trabalham o dia todo, em atividades rurais ou domésticas, e estudam à noite, em uma escola pública do interior de Goiás. No período de descanso, vão à aula, vão estudar, estão exaustos. Desejam “ser alguém na vida” ao mesmo tempo em que gostam de aventuras, adrenalinas, assistir à TV e conversar nas redes sociais” (OLIVEIRA; ARRIEL, 2018, p.
    474). Levando em consideração as diferenças entre as atividades propostas pela escola e pelo ambiente familiar, responda:
    O que costuma acontecer no percurso escolar de estudantes que vivem em locais onde há poucos livros, revistas e jornais à vista?

  2. :
    O que costuma acontecer no percurso escolar de estudantes que vivem em locais onde há poucos livros, revistas e jornais à vista?

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