O Vínculo Mãe-Filho à Luz da Psicanálise e o Filme “Precisamos Falar Sobre Kevin”. [1]

1
815
DOI: ESTE ARTIGO AINDA NÃO POSSUI DOI [ SOLICITAR AGORA! ]
O Vínculo Mãe-Filho à Luz da Psicanálise e o Filme “Precisamos Falar Sobre Kevin”. [1]
4.4 (87.5%) 8 votes
ARTIGO EM PDF

PEDRO, Eliane [2], BEZERRA, Érica Juliana de Macedo [3], LEITE, Laurence Bittencourt [4]

PEDRO, Eliane Pedro; BEZERRA, Érica Juliana de Macedo; LEITE, Laurence Bittencourt. O Vínculo Mãe-Filho à Luz da Psicanálise e o Filme “Precisamos Falar Sobre Kevin”. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 06, Vol. 04, pp. 118-129, Junho de 2018. ISSN:2448-0959

Resumo

O presente artigo procede de uma pesquisa bibliográfica cujo campo conceitual se fundamenta na perspectiva psicanalítica freud-lacaniana e alguns de seus seguidores, acerca do tema proposto. O objetivo do trabalho visa desenvolver articulações no que concerne ao vínculo mãe-filho, buscando percorrer as moções e os enlaces do tornar-se sujeito e como o mesmo constitui-se enquanto sujeito de desejo, realizando conexões analíticas a partir do filme PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN, averiguando e traçando os caminhos de Kevin a partir da teoria Psicanalítica e da compreensão do vínculo mãe-filho expressado na dinâmica do filme com base na teoria da psicanálise.

Palavras-chave: Constituição do Sujeito, Vínculo mãe-filho, Psicanálise.

1. Introdução

O presente artigo discorre sobre a construção do vínculo mãe-filho à luz da Psicanálise. Para tanto, percorremos as noções da maternidade, os caminhos do tornar-se sujeito e como o mesmo estrutura-se dentro dos conceitos psicanalíticos. Utilizamos como objeto de análise o filme Precisamos falar sobre Kevin, que tem em seu ápice o assassinato de jovens em uma escola nos Estados Unidos, pelo protagonista do filme, no caso Kevin, personagem adolescente que comete o ato às vésperas de seu aniversário de 16 anos, e, em casa, mata sua irmã e pai, sendo sua mãe a única sobrevivente.

O filme não é relatado de forma cronológica, utiliza-se de flashbacks para remontar a história de Eva e Kevin, ou seja, mãe e filho. Podemos acompanhar esta densa relação e quanto à mesma “constrói” a personalidade de Kevin, que demonstra sinalizar em sua mais tenra infância que algo lhe falta (e também à mãe) na relação mãe-filho, que permita estruturá-lo.

O que se pretendeu, portanto, foi buscar analisar como se deu a construção e os impasses do ser mãe e como estas moções irão fazer parte da constituição do sujeito (no caso especifico do filme, em Kevin) e como foi construído esse vínculo mãe-filho, sua relevância para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo, bem como a problemática desta relação e seu impacto na formação deste sujeito ao longo de sua vida.

Ao longo do artigo, o leitor irá encontrar cinco tópicos. No primeiro, fizemos questão de abordar “a constituição do sujeito”, nos tópicos seguintes discorremos o conceito de “Sujeito” para a Psicanalise, termo que ganha relevância com os aportes de Jaques Lacan à teoria psicanalítica, em que buscou explicar como é este sujeito à luz da teoria psicanalítica. Na sequência, discorremos sobre o vínculo mãe-filho, buscando mostrar a importância do outro como ser fundamental e estruturante deste sujeito, no tópico seguinte, buscamos explicar as estruturas clinicas e sua importância para a constituição do sujeito. No parágrafo final dissertamos de forma a elencar como todos os conceitos discorridos anteriormente ao longo do artigo se vinculam na análise do filme já citado, em especial na estrutura do personagem Kevin, buscando compreender e visualizar como o mesmo constitui-se como sujeito.

2. A constituição do sujeito

Há casos que ficam marcados na história por terem em seus contextos, jovens que acabam por assassinar seus colegas de escola e/ou pais ou parentes próximos. Quando tais atos acontecem, nos perguntamos: como foi à vida deste sujeito? Ele demonstrava algo que daria indícios para tamanha barbaridade? Foi um problema de educação familiar? Em que os pais falharam? O ato cometido seria algo genético ou adquirido? Perguntas como estas sempre surgem na mente do cidadão comum.

De um modo geral, a família desses jovens acaba por sofrer pressões da sociedade, que anseiam por uma resposta, buscando procurar indícios que demonstrem em que momento da construção do sujeito deu-se tal “erro”.

Para buscar uma explicação que pudesse dar conta de atos como o exposto no filme já mencionado e partindo de uma perspectiva teórica da psicanálise, entendemos ser importante demarcar um conceito central desta teoria, que é o Complexo de Édipo. É a partir dele, segundo a teoria psicanalítica que o sujeito irá estruturar-se e organizar-se enquanto humano.

Na construção da teoria psicanalítica, já em 1897, Freud relata os primeiros traços e contornos do termo Complexo de Édipo, porém, será, apenas a partir de 1910 que o mesmo passa a ser amplamente expresso.

Freud 1897 começa a traçar o Complexo de Édipo através de um sonho do mesmo com sua filha Mathilde. Esses primeiros relatos ocorreram em trocas de cartas com seu amigo Wilhelm Fliess.

Freud inicia a carta a Fliess anunciando um pressentimento de que em breve descobrira a origem da moralidade, e segue apresentando um sonho que se refere a sentimentos “supercarinhosos” para com sua filha mais velha Mathilde. (MOREIRA, 2004, p.2)

Freud fundamenta o termo Complexo de Édipo a partir da leitura da peça Grega Édipo Rei, escrita por Sófocles 406 – 496 A.C. A peça discorre sobre uma profecia realizada a partir da consulta do Rei Laio (pai biológico de Édipo) ao oráculo, onde o mesmo ficará sabendo que seu filho, Édipo, irá assassiná-lo e em seguida irá casar-se com sua esposa, Jocasta. O desfecho, portanto, será o de que Édipo irá matar seu próprio pai e casar com sua própria mãe. Freud embasa o Complexo de Édipo a partir das moções que envolve um triangulo, pai, mãe e filho. A criança terá seu desejo dirigido, (no caso do menino), para a figura materna, onde, a entrada do outro, representado pela figura paterna trará inquietação, angústia e rivalidade da criança com este terceiro.

É destino de todos nós, talvez, dirigir nosso primeiro impulso sexual para nossa mãe, e nosso primeiro ódio e desejo assassino, para nosso pai. Nossos sonhos nos convencem de que é isso que se verifica. O Rei Édipo, que assassinou seu pai Laio, e se casou com Jocasta, sua mãe, simplesmente nos mostra a realização de nossos próprios desejos infantis.  (FREUD,1900, p.179).

É, portanto, a partir do complexo de Édipo que veremos o quanto o outro terá um papel primordial na constituição do sujeito, onde será estruturada funções fundamentais. Segundo Moreira (2004, p.1), “é a partir do Édipo que o sujeito irá estruturar e organizar o seu vir-a-ser.” Assim, o Édipo estará envolto e trará moções nas estruturas familiares, sendo elemento estruturador no desenvolvimento do sujeito.

2.1 O conceito de sujeito na psicanálise

O conceito de Sujeito começa a ser utilizada, dentro da teoria psicanalítica, por Jacques Lacan, psiquiatra e psicanalista francês, onde o mesmo irá propor que é por mediação de um outro, outro este, que segundo Lacan, será determinante na constituição do sujeito, uma vez que para se constituir enquanto tal, este precisará alienar-se (primeiro na linguagem, por um lado), bem como sair da posição subjetiva de assujeitação ao desejo materno por outro, sendo esta saída possível, quando há a entrada na relação inicial entre mãe e filho, de um outro, um terceiro, no caso, o pai, que terá uma função importante, nesses primeiros enlaces, como forma de constituir e desenvolver o nosso aparato psíquico, permitindo o advento do sujeito. É através deste outro que poderemos advir enquanto sujeito.

Para Lacan somos assujeitados antes mesmo do nosso nascimento. Nosso nome é um exemplo deste assujeitamento ao desejo do outro, e é através da linguagem que iremos tomar emprestado o reino das palavras e os seus significantes que nos determinam e nos marcam.

O conceito de sujeito não é, portanto, da ordem do natural, não tem um estatuto biológico, e, sim, lógico. Estatuto que só pode ser pensado pela inserção do significante Nome-do-pai, onde através deste nos tornamos faltosos por excelência.

3. O vínculo mãe-filho

A construção do vinculo mãe-filho à luz da Psicanalise tem em sua constituição o sujeito em sua mais tenra prematuridade. O bebê humano ao nascer evidencia-se em seu desamparo radical, necessitando de ser cuidado por um outro que irá suprir e aliviar as primeiras necessidades básicas como fome, sono, dor, desconforto, etc. Tais necessidades são manifestadas através do choro, e que será interpretado pelo outro (no caso, a mãe ou quem exerce esta função) como sendo a busca por supressão destas necessidades básicas. Nesta busca de necessidade de ser cuidado, o bebê sujeita-se à linguagem como meio de salvação, além de criar um elo amoroso com este que irá suprir estas necessidades.

Freud (1950/1985/1989) enfatiza que a primeira experiência de satisfação deixa marcas no psiquismo de tal forma que, cada vez que algum desconforto se presentifica, o bebê tenta resgatar tal experiência (de satisfação) por uma via alucinatória. Por não se saciar, o bebê chora, clama o outro de alguma forma. Porém, essa primeira experiência não é totalmente representada, algo dela se perde, há um resto que persiste sem representação e se constitui como ponto de furo de onde o desejo pode advir.

Para que o bebê seja imerso em um universo cultural e simbólico já pré-existente ao seu nascimento, faz-se necessário que um outro semelhante atue como referencial e que o insira na linguagem. A mãe atuará nesta relação como um outro primordial. Lacan (1957–1958) explicita o papel da mãe como a encarnação do grande Outro, sendo ela que veicula num primeiro tempo, junto ao bebê, a lei simbólica da cultura, e que lhe fornecerá o primeiro espelho através do qual ele ao mesmo tempo se aliena e se constitui.

Para Freud durante o complexo de Édipo normal a criança está ternamente ligada ao genitor do sexo oposto, enquanto a hostilidade está voltada para o genitor do mesmo sexo. Podemos acompanhar (numa primeira tentativa de aproximar o filme escolhido como objeto de estudo) que durante o filme há uma inversão, o vínculo de Kevin em relação à mãe é de hostilidade e ao pai de benevolência.

No complexo de Édipo positivo, no caso do menino, observaremos precocemente uma catexia objetal em relação à mãe e a identificação com o pai, que somente aparecerá, na sua forma conflituosa, no momento em que os desejos sexuais do menino pela mãe forem acentuados. Sua identificação com o pai irá assumir, assim, uma intensidade ambivalente. A possibilidade de manter a mãe como objeto de amor surgirá através da intensificação da identificação com o pai. (MOREIRA, 2004, p. 6).

Podemos pensar no contexto familiar em que Kevin está imerso, onde a identificação com este pai o coloca em uma posição de obter seu objeto de desejo, a mãe, demonstrando assim, o quanto não podemos escapar do Édipo.

4. As estruturas clínicas na constituição do sujeito

O termo estruturas clínicas em seus primórdios não é relatada nas obras de Freud. O mesmo irá mencionar o termo “estrutura”, discorrendo sobre a importância de conhecê-las para que o tratamento pudesse ter seu curso.

De acordo com as autoras Sadala e Marinho (2011)

Freud não utilizou com frequência o termo estrutura e nem mencionou a expressão estruturas clínicas; contudo, estes estão implícitos em sua obra desde os seus primórdios, no que tange à importância do diagnóstico diferencial para a condução da análise (2011, s/n).

O termo Estruturas Clínicas, na verdade, começará a ser traçada e delineada por Jacques Lacan, onde a partir de sua análise e estudo dos conceitos do Estruturalismo começa a bordar o termo Estruturas Clínicas.

Para ambos os autores, Freud e Lacan, as estruturas clínicas são as formas com que o sujeito irá se estruturar diante das moções da castração, do complexo de Édipo, do Inconsciente e da sexualidade infantil. A imersão do sujeito nas estruturas neurótica, psicótica ou perversa, ocorrerá quando o mesmo, durante sua formação, for envolto por figuras fundamentais que engendrarão sua estruturação clinica.

O contexto familiar ao qual o sujeito faz parte traz questões estruturantes, como já foi discorrido nos tópicos anteriores. O Complexo de Édipo é um desses conceitos de extrema importância para a teoria psicanalítica, e as moções vividas nesta relação edipiana fará parte da constituição do sujeito em sua estrutura, seja ela, neurótica, psicótica ou perversa.

O Complexo de Édipo ofereceu a criança duas possibilidades de satisfação, uma ativa e outra passiva. Ela poderia colocar-se no lugar de seu pai, à maneira masculina, e ter relações com a mãe, como tinha o pai, caso em que cedo teria sentido o último como estorvo, ou poderia querer assumir o lugar da mãe e ser amada pelo pai, caso em que a mãe se tornaria supérflua. (FREUD, 1923-1925, p. 104).

Dentro da estruturação do sujeito, a partir do complexo de Édipo, inicialmente, a função materna se fará preponderante e atuará sob a forma de prover cuidados e satisfação à criança, onde a criança acredita ser uma extensão deste ser, no caso, a mãe; Já o pai, dentro do desenvolvimento libidinal da criança, será o portador da lei, que moverá a criança a visualizar que há um outro para além dela nesta relação inicial fusional com mãe. O modo como esta função paterna é apresentada, em especial pelo discurso da mãe, irá contribuir para sua estruturação Clínica.

O essencial é que a mãe funde o pai como mediador daquilo que está para além da lei dela e de seu capricho, ou seja, pura e simplesmente, a lei como tal. Trata-se do pai, portanto, como Nome-do-Pai, estreitamente ligado à enunciação da lei, como todo o desenvolvimento da doutrina freudiana no-lo anuncia e promove. E é nisso que ele é ou não aceito pela criança como aquele que priva ou não priva a mãe do objeto de seu desejo. (LACAN, 1957-1958, p.197)

A criança parte do principio que não há diferença anatômica entre os sexos, ou seja, ambos possuem o pênis, ao dar se conta que a mãe é um ser castrado e não possuidor do falo, o menino irá se posicionar diante da ameaça iminente de sua castração identificando-se com a figura paterna como forma de manter-se seguro; já a menina perceberá que a mãe é um ser castrado e irá voltar-se para o pai como forma de obter o que lhe falta, em ambas as posições a entrada da figura paterna irá atuar de forma a situar a criança na partilha dos sexos, bem como será o responsável a mover a criança a sair da relação dual inicial com a mãe. O modo como à criança irá lidar com a entrada deste outro e com o complexo de castração o estruturará de modo a deslocá-lo na estruturação da Neurose, Psicose ou Perversão.

Agora, porém, sua aceitação da possibilidade de castração, seu reconhecimento de que as mulheres eram castradas, punha fim às duas maneiras possíveis de obter satisfação do Complexo de Édipo, de vez que ambas acarretavam a perda de seu pênis – a masculina como punição resultante e a menina como precondição. Se a satisfação do amor no campo do Complexo de Édipo deve custar à criança o pênis, está fadado a surgir um conflito entre seu interesse narcísico nesta parte de seu corpo e a catexia libidinal de seus objetos parentais. (FREUD, 1923-1925, p. 104).

Como discorrido anteriormente, o complexo de castração tem fundamental importância para a escolha da criança na sua posição de sujeito, provocando nele a entrada para uma das estruturas clinicas. No caso da estruturação da psicose a castração não foi realizada, a figura paterna que traz a interdição e a lei não foi apresentada a criança, não havendo a inserção deste outro, promovendo a separação, logo, portanto, a criança não sairá da relação dual mãe-filho, ficando assim na posição de centro e extensão dos desejos maternos, não reconhecendo o seu próprio desejo, ficando alienado ao desejo materno.

A construção da estruturação Neurótica dar-se quando a entrada de um outro, a figura paterna, irá levar a criança a perceber que há um outro para além da relação dual mãe-filho, este outro impede a realização plena dos desejos desta criança, colocando-a de frente com a castração, este outro trará as moções da interdição, privação.

Já na estruturação Perversa a criança visualiza que a mãe deseja um outro para além dela, sendo a figura paterna este outro, a criança então coloca-se na posição de não reconhecer este outro enquanto interditor de seus desejos ou detentor dos desejos maternos, sendo assim, a criança irá colocar-se na posição de mover-se a realizar os desejos maternos, rivalizando com a lei, seja ela, a lei paterna, ou a lei social.

Nas Estruturas Clínicas acima discorridas, a entrada da figura paterna na relação dual mãe-filho terá um papel fundamental, pois a forma e a intensidade como o mesmo é inserido na relação mãe-filho, seja em sua omissão, ausência ou presença fará com que haja o movimento determinante para a estruturação clínica do sujeito.

5. Interpretando Kevin à luz da teoria psicanalítica

No presente tópico pretendemos realizar a análise do filme Precisamos Falar Sobre Kevin, buscando interpretar o filme a partir do embasamento teórico da Psicanálise. O filme utiliza-se de flashbacks para remontar a história da família Khatchadourian, composta por Eva, a mãe, Franklin, o pai, Kevin (16 anos), filho e personagem principal e Celia (6 anos), filha e irmã.

Eva (nome sugestivo, lembrando a Eva bíblica, do paraíso no Éden) em meio a suas lembranças começa a rememorar sua história, nos levando a conhecer a família Khatchadourian, partindo de um elemento fundamental para o desenvolvimento da história e que irá ligar o passado e o presente de Eva, a concepção de seu primogênito Kevin.

Kevin nasce em um momento em que Eva está no auge de sua carreira profissional. Eva demonstra apatia com a evolução da gravidez, Franklin é o sujeito que deseja e acolhe o filho que está sendo gerado. Eva resiste em dar a luz a Kevin durante o parto.  Em seus primeiros meses de vida Kevin demonstra choro intenso, Eva demonstra exaustão e o não saber saciar os chamados de Kevin, demonstrando dificuldade em exercer a função materna.

Com o decorrer do filme podemos perceber que a relação mãe e filho torna-se densa, os diálogos entre Eva e Kevin traz de forma clara e dita o quanto a mãe não desejava este filho e o quanto a mesma era feliz antes de seu nascimento.  Kevin ao desenvolver-se demonstra imposição (demanda) aos desejos maternos, busca a atenção de Eva seguindo o caminho oposto solicitado pela mesma, com um ar desafiador como se quisesse reivindicar o olhar e o desejo materno. Lacan discorre:

O que deseja o sujeito? Não se trata da simples apetência das atenções, do contato ou da presença da mãe, mas da apetência de seu desejo. A partir dessa primeira simbolização em que se afirma o desejo da criança esboçam-se todas as complicações posteriores da simbolização, na medida em que seu desejo é o desejo do desejo da mãe. (LACAN, 1957-1958, p. 188).

Há uma cena durante o filme ao qual visualizamos a relação mãe e filho, Kevin ao ficar doente passa a ter os cuidados maternos, onde é acariciado e acalentado por Eva, que em seguida lê uma historia de arco e flecha, objeto ao qual Kevin irá praticar durante sua infância e adolescência, e que será o instrumento que Kevin utilizará durante o massacre.

Célia, a irmã de Kevin é gerada em um outro momento da vida de Eva, o desejo materno e as necessidades básicas da criança são supridas, há um vinculo mãe-filha produzido pela relação Celia e Eva, em oposição ao ocorrido na constituição de Kevin. A entrada deste novo ser no filme evidencia a importância da posição materna durante a constituição do sujeito, visualizamos a posição desta mãe no desenvolvimento de Célia e Kevin, em momentos e posturas diferentes, e o desaguar em sujeitos com estruturas e posições diferentes.  Segundo Lacan (1957-1958, p. 186) “A primeira relação de realidade desenha-se entre mãe e o filho, e é ai que a criança experimenta as primeiras realidades de seu contato com o meio vivo”.

Em seu ato final, Kevin espera a mãe sair de casa, e de posse do arco e flecha (presente de seu pai) mata seu pai e irmã; em seguida dirige-se a escola, e ao chegar na instituição escolar mata alguns de seus colegas.  A única sobrevivente do massacre cometido por Kevin será a mãe, figura que durante o filme trouxe a Kevin seus maiores impasses durante sua construção e constituição. Qual o objetivo de Kevin? Podemos perceber que finalmente ele obteve o olhar que tanto reivindicou em seu desenvolvimento.  Ao passar ao ato, ao cometer os assassinatos, ele chama a atenção da mãe, consegue fisgar seu olhar.

Após os atos cometidos por Kevin, Eva é julgada e colocada no lugar de um ser que não soube ser mãe, sofrendo agressões físicas e psicológicas por negligenciar a construção e o desenvolvimento de Kevin, sendo vista como tendo a culpa ou ate tendo um maior peso da culpa pelos atos cometidos por seu filho. Visualizamos que Eva recebe as agressões de forma a penalizar-se e assumir que algo faltou a Kevin.

Em suas cenas finais, o filme traz momentos em que Eva tenta remontar em detalhes o quarto de Kevin, como se a mesma busca-se reconstruir algo nesta relação. Eva realiza as visitas à prisão em que Kevin se encontra, durante as primeiras visitas, não há diálogos nem olhares, e as vésperas de dois anos do ocorrido, há o diálogo final onde Eva pergunta: “Você não parece feliz?” Kevin responde: “Algum dia eu já fui feliz?” Eva: “Qual o motivo de seu ato?” Kevin: “Eu achava que sabia, agora não tenho certeza”.

Considerações finais

O presente artigo teve como objetivo principal discorrer sobre como dar-se a constituição do sujeito à luz da teoria Psicanalítica. Buscamos traçar os caminhos, do ponto de vista teórico, que nos leva a nos tornarmos sujeito de nosso desejo, desejo este que se origina a partir de um outro, com isso, visualizamos como o contexto familiar irá estruturar este outro e será formador deste sujeito desejante.

A constituição do sujeito à luz da Psicanálise visa apreciar os vários fatores que atravessam à construção do sujeito, os vínculos mãe-filho, a figura paterna, o contexto familiar, estes elementos irão mover a criança a entrar na cultura e na comunidade a qual pertence, este complexo contexto familiar será de fundamental importância para que o sujeito em construção possa estar em interação com o outro, e com os outros.

Utilizamos como instrumento de suporte para ampliar e aplicar a construção teórica psicanalítica que embasou este artigo, a análise do Filme Precisamos Falar Sobre Kevin, buscando compreender através de trechos envolvendo, em especial, os personagens centrais do drama trágico, no caso Kevin (o filho) e Eva (sua mãe), visando entender melhor quais atos (na dinâmica familiar) e quais fatores indicam como este sujeito (Kevin) se estruturou e se colocou no mundo. No entanto, não foi o nosso intuito respondermos o(s) porquê(s) Kevin em seu ato final matou seus colegas de escola, sua irmã e seu pai, deixando como única sobrevivente sua mãe; o que buscamos foi, percorrendo os caminhos da constituição do sujeito, a partir da teoria, levar o leitor a questionar-se as seguintes perguntas diante de tais atos: Como foi à vida deste sujeito? Qual o contexto familiar que o mesmo se constituiu enquanto sujeito? Ao nos questionarmos não estamos buscando procurar culpados ou inocentes, apenas, traçar os caminhos para a compreensão e construção dos sujeitos que cometem tais atos.

Por fim, podemos nos indagar, qual seria a posição estrutural de Kevin, à luz da teoria psicanalítica discorrida ao longo deste artigo? Em que estrutura enquadrá-lo? Mesmo sabendo os riscos de uma análise a partir de um filme, como se estivéssemos fazendo uma psicanálise rigorosamente aplicada, achamos importante levantarmos ou propormos alguma hipótese. E nossa hipótese, é a de que o personagem Kevin, diante de suas relações familiares e seus impasses, pode ser enquadrado como uma estrutura Perversa, onde visualizamos que Kevin, ao mesmo tempo em que percebe ou demonstra desde sua mais tenra infância que o objeto de desejo da mãe está para além dele mesmo, por outro lado, dá claras mostras de que não reconhece, porém, a figura paterna como a do sujeito interditor de seus desejos, nem detentor da lei, Kevin em seu ato final transgride a lei social.

Referências

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Leipzing: Standart, 1900. 226 p.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão, O mal estar na civilização e outros trabalhos. Standart, 1927-1931.

FREUD, Sigmund. O ego e o Id e outros trabalhos.  Standart, 1923 – 1925.

LACAN (1957 – 1958). Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

LIMA, Glaucineia Gomes. Da Mãe a mulher: Os circuitos do amor desejo e gozo. 2006. 434 f. Tese (Doutorado) – Curso de Psicologia, Instituto de Psicologia da Universidade de Sao Paulo, Sao Paulo, 2006.

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. Édipo em Freud: O movimento de uma teoria. 2004. 9 f. Tese (Doutorado) – Curso de Psicologia, Psicologia em Estudo, Puc-sp, Maringá, 2004.

SADALA, Glória; MARTINHO, Maria Helena. A estrutura em psicanálise: uma enunciação desde Freud. Ágora (Rio J.). Vol. 14, número 2. Rio de Janeiro, 2011.

[1] Artigo apresentado à Universidade Potiguar – UnP, como parte dos requisitos para obtenção do título de Psicólogo.

[2] Graduanda em Psicologia pela Universidade Potiguar

[3] Graduanda em Psicologia pela Universidade Potiguar

[4] Orientador Mestre em Estudo de Linguagem. Professor da Universidade Potiguar

Como publicar Artigo Científico

1 COMENTÁRIO

  1. BRAVO! OLHAR MAGNÍFICO ELES TIVERAM, ACHEI MUITO RICO AS ASSOCIAÇÕES PASICANALISTAS, VISÃO COM MUITO CONHECIMENTO, ESTÃO DE PARABÉNS!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here