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Neuropsicologia: histórico, aplicabilidade e contribuições

RC: 33109
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/neuropsicologia

CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

REIS, Edson Mário dos [1]

REIS, Edson Mário dos. Neuropsicologia: histórico, aplicabilidade e contribuições. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06, Vol. 11, pp. 128-141. Junho de 2019. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/neuropsicologia, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/neuropsicologia

RESUMO

O objetivo desse artigo é possibilitar o conhecimento simplificado da neuropsicologia (NP), quando surgiu, sua aplicabilidade e contribuições, sua importância no campo da saúde neurológica e do comportamento, bem como, os principais aspectos que norteiam os trabalhos dos pesquisadores neuropsicólogos e clínicos, destacando alguns pontos importantes desta ciência ainda muito jovem. A Neuropsicologia é uma ciência que se dedica a estudar expressões comportamentais das disfunções do cérebro, das quais seu objetivo específico é investigar o papel dos sistemas cerebrais do indivíduo nas complexidades das atividades mentais. Nesse sentido, a NP pode ser considerada estudo das funções cerebrais, do qual objetiva-se buscar evidencias e detalhar as consequências de lesões ou disfunções cerebrais que interferem no comportamento e na cognição do indivíduo. Tais estudos, além do conhecimento científico sobre o funcionamento cerebral e tratamento de suas disfunções, sustenta a construção de testes, escalas e baterias neuropsicológicas, padronizados para o público específico da Avaliação Neuropsicológica (AN). A Neuropsicologia abarca também a Reabilitação Neuropsiscológica (RN), a qual trata-se de um processo ativo que visa à capacitação do paciente para desenvolver um bom nível de funcionamento social, psíquico e físico, por meio de ações biopsicossociais que envolvem o indivíduo tratado, seus familiares e as escolas, enquanto estudante, levando em consideração as alterações cognitivas e físicas do sujeito, o ambiente em que vive os fatores subjetivos e sua biografia, por meio da maximização das funções cognitivas, buscando o bem-estar psicológico, ás habilidades em vida diária e o relacionamento social.

Palavras chave: neuropsicologia, cognição, avaliação neuropsicológica, reabilitação neuropsicológica.

1. INTRODUÇÃO

Este artigo tem como objetivo possibilitar o conhecimento simplificado da finalidade e abrangência da neuropsicologia (NP), desde seu desenvolvimento até os dias atuais, destacando os pontos principais desta ciência ainda muito jovem. Nesse contexto, apresentar-se-á uma breve descrição histórica da NP, para se entender como e quando ela surgiu, sua importância no campo da saúde neurológica e do comportamento, os principais conhecimentos e aplicações que norteiam os trabalhos dos pesquisadores neuropsicólogos e clínicos.

É importante salientar que a NP é uma ciência interdisciplinar, “com suporte teórico-prático de várias outras áreas da ciência, como a filosofia, neuroetologia, neuroanatomia, neurofisiologia e psicofarmacologia” (De Toni; Romanelli; De Salvo, 2005, p. 54), a qual possibilita a atuação de muitos profissionais da saúde por meio de avaliações e reabilitações de pessoas que precisem de uma atenção especial nesta área. Assim sendo, psicólogos, médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, pedagogos, fisiologistas, educadores, esportistas, entre outros profissionais da saúde, podem se beneficiar dos conhecimentos desta disciplina inovadora.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1 NEUROPSICOLOGIA

De acordo com Lezak (1995), neuropsicologia é a ciência que estuda a expressão comportamental das disfunções cerebrais. Já Luria definiu Neuropsicologia como uma ciência que tem como objetivo específico à investigação do papel dos sistemas cerebrais individuais nas formas complexas da atividade mental (AMBRÓZIO; RIECHI, 2005).

2.1.1 BREVE HISTÓRICO

De acordo com Pinheiro (2005), o interesse pela investigação do cérebro parece ter percorrido diversos momentos históricos desde tempos remotos. Sabe-se que papiros faraônicos indicam que os egípcios tinham muito conhecimento sobre as funções do cérebro. O papiro descoberto no Egito por Edwin Smith no século XIX, possivelmente escrito pelo médico egípcio Inhotep cerca de 1700 a.C., está entre as mais antigas informações sobre o sistema nervoso. No entanto, admite-se que ele tenha sido escrito com base em escritos mais antigos, provavelmente do Antigo Império (Cerca de 3000 a.C.). Considerado um verdadeiro tratado de cirurgia, esse papiro contém a descrição clínica detalhada de aproximadamente quarenta e oito casos com os devidos tratamentos racionais e prognósticos, favorável, incerto e desfavorável. Muitos desses casos são importantes para a neurociência, pois neste documento aparece pela primeira vez uma menção do encéfalo, das meninges, do líquor e da medula espinhal (PINHEIRO, 2005).

Estudiosos da Grécia antiga ligavam inteligência, emoções e instintos a outras partes do corpo, como o cérebro, o coração e o fígado. Na idade média, a teoria de Platão, chamada de teoria Platônica da alma tripartida, deu lugar à teoria ventricular, logo depois, cedeu espaço à implantação do dualismo cartesiano. Já no século XIX, a partir dos estudos da frenologia, a neurociência passou a utilizar o referencial localizacionista no estudo das relações entre cérebro e cognição, a partir dos estudos de Dax, Broca e Wernicke que possibilitou identificar áreas corticais relacionadas com a linguagem. No entanto, a NP somente pôde se desenvolver no Séc. XX através da utilização do método patológico-experimental em pacientes cérebro-lesados (DE TONI; ROMANELLI; DE SALVO, 2005).

Segundo Engelhardt e Laks (1995), a neuropsicologia moderna começa com Donald Olding Hebb (1904-1985), Karl Spencer Lashley (1890-1958) e Aleksandr Romanovitch Luria (1902-1977) (ENGELHARDT; LAKS, 1995 apud PINHEIRO, 2005).

No entanto, existem contradições a respeito da origem do termo neuropsicologia, pois segundo De Toni, Romanelli e De Salvo (2005) in verbis:

O termo foi cunhado por Hebb em 1949 no título do livro The Organization of Behavior: a neuropsychological theory, não sendo, no entando, definido nem ao menos citado no texto. No entanto, de acordo com Engelhardt et al. (1995a), o termo neuropsicologia foi utilizado pela primeira vez em 1913, em uma conferência proferida por Sir William Osler, nos Estados Unidos. Porém seu desenvolvimento começou nos anos 40, com os trabalhos de Hebb. De qualquer forma, em 1957 o termo designava uma subárea das neurociências, tendo alcançado divulgação científica nos anos 60, com os trabalhos de Lashley (DE TONI; ROMANELLI; DE SALVO, 2005, p.48).

Pode-se afirmar que a NP nasceu da convergência da neurologia com a psicologia, tendo como objetivo convergente estudar as mudanças do comportamento resultantes de lesão cerebral. Atualmente, faz interface com a neurociência cognitiva e as ciências do comportamento, ou seja: a psicologia do desenvolvimento, psicolinguística, entre outras. No entanto, seu ponto central é estudar as capacidades mentais mais complexas como a memória, a linguagem, e a consciência, ou seja, o estudo da relação, sistema nervoso, comportamento e cognição (PINHEIRO, 2005).

2.1.2 APLICABILIDADE DA NEUROPSICOLOGIA

Conforme Lezak (1995) a neuropsicologia ocupa-se em avaliar o comprometimento neurológico por meio da via do comportamento. Ou mais especificamente, analisa os distúrbios de comportamento após as alterações da atividade cerebral normal, causados por doença, lesão ou modificações experimentais. Tais comprometimentos neurológicos abrangem as síndromes genéticas, lesões isquêmicas, acidente vascular cerebral (AVC), tumores cerebrais, epilepsias, sequelas por neurotóxicos e traumatismo craniano (LEZAK, 1995 apud DE TONI; ROMANELLI; DE SALVO).

2.1.3 CONTRIBUIÇÕES DA NEUROPSICOLOGIA

Segundo De Toni, Romanelli e De Salvo, (2005) os recursos da neuropsicologia são solicitados na atualidade por educadores, psicólogos, neurologistas, neurocirurgiões e psiquiatras, como também por profissionais de áreas afins que lidam com pessoas portadoras de queixas cognitivas. É importante salientar que os domínios da neuropsicologia vão além do diagnóstico e entra nos campos da terapêutica. Os programas de reabilitação atendem não só pacientes com comprometimento neurológico, como também quadros psiquiátricos e déficits de aprendizagem. Com isso, a NP nasceu como ciência interdisciplinar e atualmente assumiu o caráter transdisciplinar, pois em seu arcabouço teórico envolve as ciências humanas, as ciências biológicas e os recursos da engenharia biomédica, o que auxilia na produção de instrumentos tecnológicos e possibilita o desenvolvimento de pesquisas na investigação dos mecanismos cerebrais do comportamento.

2.2 AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA (AN)

Conforme Mäder (1996) AN é o método para investigação do funcionamento cerebral através do estudo comportamental que têm basicamente como objetivos: auxiliar do diagnóstico diferencial, constatar ou não a presença de disfunção cognitiva e o nível de funcionamento em relação ao nível ocupacional; e ainda, localizar alterações sutis com o objetivo de detectar as disfunções ainda em estágios iniciais. A NP também contribui para planejamento do tratamento e possibilita acompanhar a evolução do quadro pelo uso de medicamentos, cirurgia e reabilitação. Neste sentido a AN, pode tomar como ponto de partida o cérebro, difere da avaliação psicológica. São diversos os recursos utilizados na AN, pois se baseiam principalmente em material desenvolvido em laboratórios de neuropsicologia, neurologia e psicometria.

Ainda, segundo Mader a AN é organizada em baterias fixas ou flexíveis nas quais utiliza-se de testes psicométricos e neuropsicológicos. As baterias flexíveis são aplicáveis á investigação clínica, pois estão mais voltadas para as dificuldades específicas do paciente. Já as baterias fixas são mais apropriadas em pesquisas, em protocolos direcionados à investigação de uma população particular. Recomendamos organizar um protocolo básico com a possibilidade de complementar a avaliação com outros testes sobre as funções mais comprometidas, considerando a variação dos testes neuropsicológicos, tempo de aplicação, indicação, sensibilidade e especificidade, para que seja possível realizar um exame mais detalhado e preciso. O profissional interessado nesta área deve aprofundar seus estudos sobre o funcionamento cerebral e as diversas patologias do Sistema Nervoso Central (SNC) e estar ciente da complexidade de cada função e das formas de avaliá-la através de testes. Os estudos sobre as demências e epilepsias, entre outros, têm contribuído muito para a investigação da sensibilidade e especificidade dos testes neuropsicológicos (MÄDER, 1996).

2.2.1 NEUROPSICOLOGIA INFANTIL

A neuropsicologia infantil, conforme Costa et al. (2004) tem como objetivo a identificação precoce de alterações no desenvolvimento cognitivo e comportamental. Nesse ponto, tornou-se componente essencial das consultas periódicas de saúde infantil. Para tal, são utilizados instrumentos adequados a esta finalidade, como testes neuropsicológicos e escalas para a avaliação do desenvolvimento.

Os resultados de tais instrumentos apontam os principais ganhos ao longo do desenvolvimento e tem como objetivo, determinar o nível evolutivo específico da criança, no qual sua importância está principalmente na prevenção e detecção precoce de distúrbios do desenvolvimento e do aprendizado, que, por sua vez, indicam de forma minuciosa o ritmo e a qualidade do processo e ainda possibilita um mapeamento qualitativo e quantitativo das áreas cerebrais e sistemas funcionais, buscando intervenções terapêuticas precisas e precoces (COSTA et al., 2004).

2.2.2 NEUROPSICOLOGIA DA ADOLESCÊNCIA

A adolescência está marcada por um período do desenvolvimento humano, no qual ocorrem alterações importantes no comportamento afetivo do jovem, onde se percebe a busca de incentivos em relação à infância e à idade adulta, inclusive com maior propensão no envolvimento em comportamentos de risco e experiências de estados de humor lábeis e negativos persistentes. Durante a adolescência alterações comportamentais comuns podem estar associadas a uma maior capacidade de resposta aos incentivos e pistas emocionais, ao passo que a capacidade de efetivamente se engajar na regulação cognitiva e emocional que ainda é relativamente imatura (SOMERVILLE; JONES; CASEY, 2010).

De acordo com Somerville, Jones e Casey (2010), o adolescente inclina-se a ter maior propensão a se envolver em comportamentos de risco que podem levar a resultados negativos, incluindo abuso de substâncias, sexo desprotegido e agressividade. Uma Pesquisa de Comportamento do Risco Juvenil de 2007 (YRBS, Eaton, et al. 2008), apontaram as quatro principais causas de morte que representam 72% da mortalidade dos adolescentes. Quais sejam: acidentes de veículos, lesões não intencionais, homicídios e suicídios – todas evitáveis. Estas estatísticas sugerem que essas mortes em parte podem ser atribuídas a escolhas pobres ou a ações de risco (por exemplo, acidentes, feridos) e / ou maior emoção (por exemplo, suicídio), sublinhando a importância de entender a base biológica de busca emocional e de incentivo comportamental dos adolescentes (SOMERVILLE; JONES; CASEY).

Conforme Ernst, Pine, Hardin (2006) e Spear (2000), a adolescência pode ser definida como a fase de transição gradual entre a infância e a idade adulta, contudo, conceitualmente sobreposta e distinta das mudanças físicas que marcam a maturação física e a puberdade. Muitos pesquisadores de diversas disciplinas científicas, nos últimos anos mostraram interesse significativo nesse período da vida, devido às suas intensas mudanças físicas, comportamentais, sociais e neurológicas e as espantosas estatísticas de saúde associadas à adolescência (ERNST; PINE; HARDIN, 2006; SPEAR, 2000 apud SOMERVILLE; JONES; CASEY, 2010).

Nesse sentido, a AN não deixa de ser uma aliada importante ao atendimento desses jovens quando necessário, buscando saber o funcionamento neurocognitivo destes para uma possível intervenção clínica.

2.2.3 NEUROPSICOLOGIA DO IDOSO

“Com o aumento da população idosa no Brasil, doenças que causam demência tornaram-se, ao lado dos transtornos depressivos, as enfermidades neuropsiquiátricas de maior prevalência na terceira idade” (Malloy-Diniz, 2010, p. 254).

Reis (2019) enfatiza que a idade é o principal fator de risco e tende a aumentar a possibilidade do indivíduo ser acometido por uma demência do tipo Doença de Alzheimer (DA), entre outras. Estudos em todo mundo mostram que a prevalência de demência pode variar de 0,3% a 1% em pessoas entre 60 e 64 anos e aumenta de 42% a 68% em pessoas com 95 anos ou mais. Após os 65 anos, é lícito afirmar que a cada cinco anos, a prevalência de demência pode quase dobrar. Nesse sentido, uma avaliação neuropsicológica bem elaborada é essencial.

A avaliação do idoso consiste em medir os déficits cognitivos decorrentes da idade avançada, por meio de escalas, testes e baterias padronizados das funções cognitivas do idoso, como orientação, percepção, atenção, memória (principalmente a episódica), funções executivas, entre outras (Reis, 2019).

2.2.4 DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM

Segundo Costa et al. (2004), recomendam-se a AN em todos os casos onde há suspeita de dificuldade cognitiva ou comportamental de origem neurológica. Para estes autores a AN também pode auxiliar no diagnóstico e tratamento de uma variedade de enfermidades neurológicas, problemas no desenvolvimento infantil, comprometimentos psiquiátricos, déficits cognitivos, alterações de conduta, entre outros. Nesse sentido, a AN tem contribuído muito no exame da criança no processo de ensino-aprendizagem, pois permite estabelecer algumas relações entre as funções corticais superiores, como a linguagem, a atenção e a memória, e a aprendizagem simbólica (escrita, leitura e conceitos). Tal modelo neuropsicológico relacionado às dificuldades da aprendizagem busca reunir uma amostra das funções mentais superiores envolvidas na aprendizagem simbólica. Estas por sua vez, estão correlacionadas com a organização funcional do cérebro. A aprendizagem não ocorre normalmente sem essa condição e, neste caso, podemos nos deparar com uma disfunção ou lesão cerebral. A neuropsicologia pode instrumentar diferentes profissionais ao fornecer subsídios para investigar a compreensão do funcionamento intelectual da criança, como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos, promovendo uma intervenção terapêutica mais eficiente (COSTA et al., 2004).

2.2.5 AFASIA

De acordo com Konkiewitz (2009), afasia é uma alteração adquirida da linguagem por causa neurológica, que se caracteriza pelo comprometimento linguístico da produção e compreensão verbal, da leitura e da escrita. Pensava-se até pouco tempo que as afasias resultavam exclusivamente de lesões corticais. No entanto, estudos recentes mostram que lesões subcorticais podem originar alterações de linguagem, denominadas afasias subcorticais, ou atípicas.

Neste sentido, passou-se a considerar a existência de dois grandes grupos de afasia: afasias típicas e afasias atípicas. Afasias típicas originam-se de uma lesão cortical de etiologia vascular, as quais se classificam em oito tipos diferentes: afasia de Broca; de Wernicke; de condução; global; transcortical motora; transcortical sensorial; transcortical mista; e afasia anômica. Tal classificação exige o exame de seis importantes áreas da linguagem: leitura, compreensão escrita, compreensão auditiva, fluência, repetição, nomeação (KONKIEWITZ, 2009).

Já as afasias atípicas, assevera o mesmo autor, dividem-se em afasias cruzadas que afetam os destros e a lesão situa-se no hemisfério direito, e em afasias subcorticais, resultantes de lesões nas estruturas subcorticais do hemisfério esquerdo. Outro tipo é a afasia progressiva primária, a qual representa uma síndrome com etiologia degenerativa e diferencia dos outros quadros afásicos. Sua principal característica é a perda isolada e progressiva da linguagem, pelo menos durante os dois primeiros anos de evolução.

Este tipo de afasia está relacionado com varias formas de demência de tipo Frontotemporal e alguns tipos de doença de Alzheimer. Inicialmente os pacientes apresentam dificuldades em encontrar palavras, compreender seus significados, além de terem padrões anormais de discurso. O diagnóstico é feito quando a neuroimagem do cérebro não mostra uma lesão específica, senão a atrofia das áreas perisilvianas e a linguagem seja a área predominante de disfunção progressiva, mas que a memória episódica, habilidades visuais e espaciais e o comportamento, estejam relativamente preservados (KONKIEWITZ, 2009).

2.2.6 APRAXIA

Apraxias surgem quando há lesão de certas zonas cerebrais e se apresentam como perturbações das atividades gestuais, sejam por movimentos adaptados a um fim, por manipulação real, ou em mímica de objetos, e que não sejam explicadas por um dano motor, nem por um dano sensitivo, ou por uma alteração intelectual (GIL, 2012).

Em outras palavras, apraxia é o termo usado para descreve a incapacidade para efetuar movimentos voluntários e propositados, apesar de estarem intactas a sensibilidade, a coordenação e a força muscular. Tal sintoma pode implicar na incapacidade de abrir uma torneira, abotoar uma camisa ou ligar um aparelho de rádio (KONKIEWITZ, 2009).

São inúmeras as apraxias: apraxias ideomotoras ou de gestos simples, ideatórias ou a incapacidade de manipular objetos, motoras (com duas variedades: melocinética ou a dificuldade de executar movimentos finos e sucessivos e cinestésica ou a perda da seletividade dos movimentos), apraxias construtivas ou a capacidade de construir algo, apraxias no vestir ou dificuldade de se vestir, apraxias na marcha ou caminhar, apraxias bucofacial que quase sempre compromete a linguagem, apraxias palpebrais ou a capacidade de abrir e fechar os olhos, a(s) mão(s) estranha (o doente não reconhece a própria mão em determinados movimentos) (GIL, 2012).

2.2.7 AGNOSIA

É o termo utilizado que descreve a perda da capacidade de reconhecimento e utilização dos objetos. Um exemplo é uma pessoa com agnosia tentar usar uma faca em vez de uma colher, um sapato em vez de uma xícara, ou um garfo em vez de um lápis. Nesses casos, isso ocorre sem que isso se deva à perda de memória, mas pelo fato do cérebro não identificar as informações veiculadas pelos olhos (KONKIEWITZ, 2009).

As agnosias são assim descritas e divididas: As agnosias espaciais (Distúrbios no manejo dos dados espaciais e de orientação topográfica); As negligências Unilaterais (a negligência espacial unilateral e seu contexto semiológico, a negligência motora). Os distúrbios do esquema corporal ou assomatognosias (As perturbações unilaterais e bilaterais da somatognosia). Surdez cortical e as agnosias auditivas (Rememoração neurofisiológica e neuropsicológica das vias auditivas, Hemianacusia e a surdez cortical, Agnosias auditivas). Agnosias Táteis (uma ou várias astereognosias, as anomias táteis) (GIL, 2012).

2.3 REABILITAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA (RN)

RN é um processo ativo que visa capacitar o paciente a desenvolver um bom nível de funcionamento social, físico e psíquico, através da maximização das funções cognitivas por meio do bem-estar psicológico, da habilidade em vida diária e do relacionamento social, constituindo, portanto, um tratamento biopsicossocial que envolve os pacientes e seus familiares, levando em conta as alterações físicas e cognitivas dos pacientes, o ambiente em que vivem os fatores subjetivos e sua biografia (SANTOS et al., 2008).

No processo de RN considera-se importante abordar as múltiplas condições do comprometimento físico, cognitivo, psicológico e comportamental do paciente. Reabilitação neuropsicológica é o termo que abarca a reabilitação cognitiva, a psicoterapia e o trabalho com familiares (ABRISQUETA-GOMEZ et al., 2012).

3. CONCLUSÃO

Este artigo teve como objetivo possibilitar o conhecimento simplificado da neuropsicologia, quando surgiu, sua aplicabilidade e contribuições, sua importância no campo da saúde neurológica e do comportamento, e ainda, os principais conhecimentos e aplicações que norteiam os trabalhos dos pesquisadores neuropsicólogos e clínicos.

Vimos que a NP é a ciência que estuda a expressão comportamental das disfunções cerebrais e tem como objetivo principal à investigação do papel dos sistemas cerebrais individuais nas formas complexas da atividade mental. Sendo assim, a NA pode ser considerada como um exame do funcionamento cerebral, tendo como meta, mostrar e detalhar as consequências de lesões ou disfunções do cérebro sobre o comportamento e a cognição do indivíduo.

Vimos também que RN é um processo ativo que visa capacitar o paciente a desenvolver um bom nível de funcionamento social, físico e psíquico, por meio de um tratamento biopsicossocial que envolvem os pacientes seus familiares e as escolas, levando em conta as alterações físicas e cognitivas dos pacientes, o ambiente em que vivem os fatores subjetivos e sua biografia, através da maximização das funções cognitivas, buscando o bem-estar psicológico, ás habilidades em vida diária, o relacionamento social e nas escolas.

Portanto, uma AN bem elaborada e aplicada com a utilização de instrumentos psicométricos adaptados e validados para a população brasileira, propicia um diagnóstico mais preciso e adequado ao tratamento, o qual possibilitará uma intervenção pontual, e se for o caso, uma RN.

Finalmente, a Neuropsicologia é na atualidade uma ferramenta útil e muito utilizada em apoio aos profissionais das clínicas médicas, psicológicas, pedagógicas e da área de pesquisas, de forma a contribuir com o processo de buscar um aporte aos tratamentos que necessitem desse apoio ao diagnóstico clínico ou psicopedagógico, em busca de uma melhor qualidade de vida em todos os níveis possíveis às pessoas que precisem de ajuda em problemas neurocognitivos.

REFERÊNCIAS

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KONKIEWITZ E. CASTELON. Tópicos de neurociência clínica. Ed. UFGD, 2009. Disponível em: http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=1706 > acesso em: 06/10/2017.

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MÄDER, M. J. Avaliação Neuropsicológica: Aspectos históricos e situação atual. Psicologia: ciência e profissão, 16(3), 12-18, 1996.

MALLOY-DINIZ, Leandro F. et al. Avaliação Neuropsicológica. Porto Alegre: Artmed, 2010. 432 p.

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[1] Psicólogo, Neuropsicólogo (Especialista).

Enviado: Março, 2019.

Aprovado: Junho, 2019.

 

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Edson Mário dos Reis

Uma resposta

  1. Gostaria de ter uma bolsa para o mestrado em Neuropsicologia sou licenciado em psicologia Educacional sou professor em Moçambique

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