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O discurso meritocrata como elemento sociocultural: análise do filme “À procura da felicidade”

RC: 110484
1.993
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/discurso-meritocrata

CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

ABREU, Liliane Alcântara de [1], SOARES, Pamela Cristina [2], NUNES, Letícia Monteiro [3], REHDER, Giovanna de Souza [4], MELO, Natalia Sayuri [5], SILVA, Gabriella Braga Dias da [6], MENDES, Matheus Passos [7]

ABREU, Liliane Alcântara de. Et al. O discurso meritocrata como elemento sociocultural: análise do filme “À procura da felicidade”. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 04, Vol. 04, pp. 46-66. Abril de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/discurso-meritocrata, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/discurso-meritocrata

RESUMO

Este artigo teve o propósito de pesquisar, analisar e produzir um sucinto levantamento teórico sob a perspectiva da Psicologia Social a partir do filme “À procura da felicidade” (MUCCINO, 2006) e, diante disso, percebe-se a reflexão sobre quem tem direito de ser feliz nas sociedades contemporâneas. Desta maneira, a questão norteadora baseou-se em: ser feliz e ter condições de vida digna é apenas uma questão de mérito por esforço? Assim, o objetivo geral se fundamentou em detectar como se constrói a narrativa de meritocracia nas relações sociais. A hipótese firmou-se no pressuposto de que o reconhecimento que o sujeito tem de si por meio das esferas sociais de valorização e mérito, são processos alienantes de classes abastadas. Como metodologia, a pesquisa se embasou sobretudo na observação e análise do filme “À procura da felicidade” (MUCCINO, 2006) e no levantamento bibliográfico para a discussão teórica, embasados sob a luz de Gabriel Chalita (1999), Kurt Lewin por Gérald Mailhiot (2013), Marilena Chaui (1980), bem como a concisa fundamentação de Ludimilla Teixeira e Liliane Abreu (2021), dentre outros. Como resultado e conclusões, compreendeu-se que a cultura de condução ideológica tem como função a inversão e a naturalização de comportamentos para criar e garantir relações de superioridade das classes dominantes, gerando assim, a dicotomia entre o entendimento de felicidade real e utópica. Pôde-se compreender que poder, discriminação, concepção de mérito e ideologia fazem parte de um mesmo contexto complexo para controle social. Portanto, enquanto houver a continuidade da cultura romantizada de esforços extremos para se conseguir viver bem, fundamentada na meritocracia, não haverá mudanças reais e as classes dominantes irão garantir que a felicidade seja uma busca eterna, sem nunca alcançar resultados. Logo, são as mudanças de visão e concepção de felicidade, que necessitam receber ampla conscientização.

Palavras-chave: Cultura, Felicidade, Meritocracia, Psicologia, Sociedade.

1. INTRODUÇÃO

Este artigo tem como finalidade, a relação entre a análise do filme estadunidense “À procura da felicidade” (MUCCINO, 2006) e pontos teóricos ligados às questões sociológicas que estruturam a Psicologia Social. A obra cinematográfica norte-americana foi lançada em 2006 pelo diretor Gabriele Muccino e estrelada e produzida pelo ator estadunidense Will Smith (outros dados de ficha técnica encontram-se nas referências finais). O filme traz a reflexão sobre quem tem direito de ser feliz sob à luz dos discursos meritocratas difundidos socialmente e é baseado na história real de Chris Gardner, um homem negro que vive com muitas dificuldades financeiras com sua família em uma cidade dos Estados Unidos. A história se passa no ano de 1981. Apesar do protagonista ser um homem extremamente dedicado, mesmo com todos os seus esforços, ele não consegue melhorar de vida e nem alcançar aquilo que entende como felicidade.

A questão norteadora baseou-se em: ser feliz e ter condições de vida digna é apenas uma questão de mérito por esforço? Assim, o objetivo geral se amparou em detectar como se constrói a narrativa de meritocracia nas relações sociais. Como consequência, os objetivos específicos se desenvolveram em entender como os valores e as crenças culturais são construídos e normatizados socialmente; compreender como as narrativas sociais podem colaborar negativamente com a reprodução de conceitos opressores, e identificar de quem são os padrões e conceitos construídos, que determinam o que é ser feliz socialmente.

Essas elaborações iniciais suscitaram a hipótese com o pressuposto de que o reconhecimento que o sujeito tem de si por meio das esferas sociais de entendimento a respeito de valorização e mérito, são processos alienantes criados por classes abastadas.

Logo, como metodologia, a pesquisa se fundamentou na observação e análise do filme, bem como na intersecção com os levantamentos de revisão bibliográfica para a discussão teórica. Assim, para buscar o entendimento dos comportamentos sociais apresentados no filme, alguns estudiosos foram importantes. Apesar de Marilena Chaui (1980) apresentar muitos fatores sobre a construção da ideologia que já resultariam em um bom embasamento teórico para a análise do filme, os autores deste artigo sentiram necessidade de contemplar alguns pontos de questionamento, que foram apoiados por Gabriel Chalita (1999), Kurt Lewin através de Gérald Mailhiot (2013), Etienne de La Boétie (2006), e Wilhelm Reich (1988). Zygmunt Bauman (2008a; 2008b; 2009) e Liliane Abreu et al. (2022) dão o suporte sobre como se constitui a compreensão de felicidade em algumas sociedades contemporâneas. Ademais, Ludimilla Teixeira e Liliane Abreu (2021) reforçaram brevemente os conceitos desses autores anteriores, auxiliando no entendimento das reflexões apresentadas no filme e comparadas com as dicotomias sociais sobre o eu, o outro e o lugar de cada um, culminando na falácia da meritocracia. Conforme será apresentado no presente artigo.

2. O PODER, A DISCRIMINAÇÃO, O MÉRITO E A IDEOLOGIA

A Psicologia é a ciência que estuda o comportamento, sejam eles reflexos, conscientes ou inconscientes. Entretanto, para o entendimento do que é efetivamente Psicologia Social, surge o questionamento de quando o comportamento humano se torna social ou não.

Chalita (1999) afirma que o entendimento de poder surgiu inicialmente como necessidade de organizar e ordenar os grupos sociais, sendo, portanto, uma forma de controle social. Poder é um fenômeno de coação, seja ela, física, econômica, social e psicológica –, força e coerção. A força física é usada em casos extremos, mas, nem sempre é necessariamente dessa forma, podendo estar incutida na subjetividade de quem a impõe. Às vezes, o sujeito dominador pode usar apenas as palavras, ou até mesmo não falar nada, mas dentro de um estabelecimento hierárquico que se tenha dependência de algo, essa opressão irá se manifestar.

A submissão de um indivíduo ao aceitar certas imposições, aponta o lado oposto ao do tirano. Pela perspectiva do oprimido, Etienne de La Boétie (2006; apud CHALITA, 1999) pondera que o dominado entraria num processo de servidão voluntária, tendo consciência ou não dessa posição. A partir disso, ele se mantém como está e permanece em um estado de coparticipação da própria servidão por medo. Quando o sujeito passa a ter entendimento de sua identidade, ele perde o temor e ganha o sentimento de luta e liberdade psicológica, e manifesta-se para mudar o que está vivendo. Contudo, La Boétie (2006) considera um contraponto: o jugo preencheria em alguns o desejo de tornar-se o tirano. Isto estaria em acordo com o psicólogo Wilhelm Reich (1988; apud CHALITA, 1999), sobre os sistemas totalitário social de poder e julgo através das estruturas micro (a família, ou, indivíduo para indivíduo) e macro (a sociedade). Outros autores trazem a mesma percepção sobre a condução de controle e poder:

A cultura condiciona a visão de mundo ao ser humano e sociedades, e é criada através da repetição de comportamentos aceitos pela maioria num grupo. Quanto mais comum e inquestionável, mais absorvido é socialmente. Logo, todos os conceitos morais e éticos estariam nesse contexto, incluindo os preconceitos, as discriminações e certos tipos de violência. (TEIXEIRA; ABREU, 2021, p. 291)

Todo indivíduo possui uma história e que ele vai agir conforme foi aprendido e estabelecido por seu ambiente. Ele toma os valores culturais que estão em sua casa, em seu bairro, em sua cidade, estado e país, como se fossem seus, sendo que não são. É daí que surgem as atitudes preconceituosas e comportamentos discriminatórios.

Kurt Lewin (apud MAILHIOT, 2013) afirma que a atitude no plano dos pensamentos, forma os segredos pessoais de vontade interna. Já o comportamento segue regras sociais e é tudo aquilo que se materializa em gestos, falas e ações no meio social. Então, quanto mais intenso um conteúdo atitudinal – ou seja, os pensamentos e atitudes –, maior será a exibição do comportamento.

O preconceito como parte integrante da atitude (a atitude preconceituosa) materializa-se quando o ambiente, por exemplo, permite que o sujeito encontre alguém que tenha algum poder e fale exatamente o que ele pensa em seus preconceitos, e assim, ele terá um comportamento discriminatório. Esse comportamento discriminatório é justamente reverberado nas seguintes ações: na piada racista, xenófoba, pedófila, machista ou outra de cunho análogo; na agressão física contra alguém, no comentário desconexo ideológico. Todos esses fatores reafirmam os abismos separatistas de grupos de maiorias e minorias psicológicas que são apontadas por Kurt Lewin (apud MAILHIOT, 2013), e propagam discursos de construção ideológica como explica Chaui (1980), distorcendo uma verdade e que intensificam as construções carregadas de preconceitos e discriminações.

Lewin ainda diz que quando uma criança ou adulto assume a responsabilidade da discriminação por um determinado aspecto, é quando ele passa a desenvolver o sentimento de ódio de si. O ódio de si e do próprio grupo não é porque se tenha necessariamente problemas psicológicos, mas porque o sujeito não quer fazer parte do grupo discriminado (para fugir de bullying, por exemplo). Essas pessoas estabelecem o desejo de parecer fisicamente, participar e/ou integralizar o grupo privilegiado da maioria psicológica. Portanto, o desenvolvimento do ódio pelo próprio grupo que pertence, é pela certeza de seu futuro ser instável e sem um status específico. (TEIXEIRA; ABREU, 2021, p. 290)

O conceito de ideologia apresentado por Chaui (1980) em sua obra, explora que o homem produz ideias que tentam explicar e compreender a individualidade, a sociedade e natureza e o sobrenatural.

Essas ideias ou representações, no entanto, tenderão a esconder dos homens o modo real como suas relações sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política. Esse ocultamento da realidade social chama-se ideologia. Por seu intermédio, os homens legitimam as condições sociais de exploração e de dominação, fazendo com que pareçam verdadeiras e justas. (CHAUI, 1980, p. 08-09)

Com o passar dos anos e com a evolução dos estudos e teorias, houve mudanças no termo que passou a ter dois sentidos, o primeiro de “atividade filosófico-científica que estuda a formação das ideias a partir da observação das relações entre o corpo humano e o meio ambiente, tomando como ponto de partida as sensações” (CHAUI, 1980, p. 11). O segundo entendimento, é a ideologia que vem também refletir um conjunto de ideias teóricas elaboradas dos pensadores de uma determinada época, e como um acordo de senso comum.

A autora discorre essa questão sobre o real, sendo uma consonância da significação com o físico material. Valores são diferenciados para indivíduos, e quanto maior a diferenciação social, mais evidente isso se apresenta, assim como pode ser observado em postos hierárquicos.

A definição da liberdade como igual direito à escolha é a ideia burguesa da liberdade e não a realidade histórico-social da liberdade. Dissemos que a ideologia é resultado da luta de classes e que tem por função esconder a existência dessa luta. Podemos acrescentar que o poder ou a eficácia da ideologia aumenta quanto maior for sua capacidade para ocultar a origem da divisão social em classes e a luta de classes. (CHAUI, 1980, p. 34)

A ideologia ocultaria as relações sociais e deixaria algo em um plano velado, invertendo a realidade com a função de criar e manter relações de dominação entre classes. Chaui (1980) cita que quando Marx e Engels escrevem sobre ideologia, em princípio isso aparece como um conhecimento falso. Outra característica é a naturalização do processo. A ideologia naturaliza e conduz as questões para o plano da natureza humana. O discurso sobre uma felicidade factoide encontra-se nessa construção ideológica.

Chaui (1980) afirma que Marx chega a uma definição de que ideologia são ideias das classes dominantes, por isso, possuem a função de criar e garantir relações de dominação, e é isto que torna as ideias naturalizadas. Portanto, a classe dominante define os modelos do que é ser feliz e como isso pode ser alcançado como o ideal de relacionamento afetivo e familiar, o ideal de trabalho, o ideal de carreira, e assim por diante.

Os indivíduos justificam suas ações com argumentos naturalizando e universalizando seus atos, seus comportamentos no plano das ideias, dissociando a sua pessoa, do seu ato e da consequência de seu ato. Além de produzir meios e formas de sobrevivência, as pessoas também produzem ideias sobre sua existência, sendo que muitas vezes dissimulam e invertem a realidade, e sobretudo a respeito de terceiros. Essas ideias advêm da classe dominante que atribui estereótipos e camufla as relações de dominação e exploração. Isso conduz alguns sujeitos a reprimirem e reproduzir as ideias de uma classe que não são as deles. (CHALITA, 1999; TEIXEIRA; ABREU, 2021)

Assim, o sujeito se apropria e legitima as ideias como sendo dele, tirando o valor do outro e de si mesmo. Isso aparece de forma bem evidente no filme que será analisado sob o aspecto da meritocracia e nos percursos que tornam alguém merecedor ou não de melhores condições de vida. A negação da sua condição e o ataque ao seu semelhante toma, por exemplo, as mesmas proporções do discurso da meritocracia. Então, a meritocracia não é mentirosa, mas ela é uma ideia falsa, pois não são todas as pessoas que terão alguma centelha de oportunidade para impulsioná-las adiante e agregando o próprio esforço e trabalho árduo, para chegar na mesma condição de mudança de classe.

Portanto, o ponto de partida desse complexo sistema estaria nas relações sociais. Essas relações são produzidas pelas próprias pessoas ao criar, recriar ou reproduzir as ações. Assim, os indivíduos partem das relações sociais para entender o quê, como e o porquê as pessoas pensam, falam e agem de determinadas maneiras.

Chaui (1980) afirma que se as relações sociais são ações produzidas por pessoas, elas geram práxis. Práxis é uma palavra de origem grega que define a conduta ou ação prática oposta à uma teoria. Ela seria a tríade daquilo que um sujeito entende sobre um determinado fenômeno: o ator, o ato e a consequência do ato. Os três são inseparáveis, pois o indivíduo costuma justificar suas ações com argumentos ideológicos, naturalizando a situação de forma mais simples. Isso ocorreria, pois os comportamentos se dissociam da pessoa e entraram no âmbito das ideias, e, assim, a realidade fica dissimulada e invertida diante do seu ato e sua consequência.

Este “fazer-se-uns-aos-outros” é a práxis social e significa: 1) que as classes sociais não estilo feitas e acabadas pela sociedade, mas que estão se fazendo umas às outras por sua ação e que esta ação produz o movimento da sociedade civil; 2) que o conjunto das práticas sociais, tanto materiais quanto espirituais, fazendo os indivíduos existirem como seres contraditórios, os faz membros de uma classe social, isto é, participantes de formas diferenciadas de existência social, determinada pelas relações econômicas de produção, pelas instituições sócio-políticas e pelas ideias ou representações. O sujeito da história, portanto, são as classes sociais. (CHAUI, 1980, p. 31)

Portanto, pode-se compreender que poder, discriminação, mérito e ideologia fariam todos parte de um mesmo contexto complexo de coação e distorções com o mesmo aspecto final: o controle social.

3. A BUSCA DA FELICIDADE COMO PROCESSO DE ALIENAÇÃO E CONTROLE SOCIAL

O filme “À procura da felicidade” (MUCCINO, 2006) trata de questões como: racismo, valor social, discursos sobre meritocracia, práxis sociais, e, claro, ideologias. A narrativa é baseada na história real de Chris Gardner, um homem que naquele momento estaria com cerca de 40 anos, casado e com um filho de 5 anos. Chris é um homem de etnia negra e vive com muitas dificuldades financeiras com sua família na cidade de São Francisco (EUA), em 1981. Apesar de ser extremamente esforçado, não consegue superar as dificuldades que se apresentam.

Em alguns momentos Chris narra a história contando que separa sua vida por fases, considerando os acontecimentos do passado, presente e questionando algumas concepções sobre o futuro. A ideia de separar sua vida por fases, produz ênfase na evolução do personagem e suas construções de vida tanto profissional, quanto pessoal.

Sobre a questão do tempo, uma parte que se destaca é quando Chris vai para o abrigo de indivíduos em situação de rua e reafirma todo o tempo ao filho que serão apenas algumas noites, e em seguida a criança questiona quando eles voltarão para casa.

A produção e superação das contradições são o movimento da história. A produção e superação das contradições revelam que o real se realiza como luta.

7) um trabalho filosófico que diferencia imediato e mediato, abstrato e concreto, aparência e ser. Imediato, abstrato e aparência são sinônimas; não significam irrealidade e falsidade, mas sim o modo pelo qual uma realidade se oferece como algo dado, como um fato positivo dotado de características próprias e já prontas, ordenado, classificado e relacionado por nosso entendimento. (CHAUI, 1980, p. 17)

O título do filme denota uma ideologia: “À procura da felicidade” (MUCCINO, 2006). Esse título reforça a ideia de que não apenas é necessário ser feliz, como também a felicidade é um status meritocrático que precisa ser buscado, conquistado e merecido. Chaui (1980) comenta sobre como as ideias, dentro de uma ideologia, acabam se tornando ferramentas, não de explicações originais, mas sim, como fortalecedor das dinâmicas sociais.

Um dos traços fundamentais da ideologia consiste, justamente, em tomar as idéias como independentes da realidade histórica e social, de modo a fazer com que tais idéias expliquem aquela realidade, quando na verdade é essa realidade que torna compreensíveis as idéias elaboradas. (CHAUI, 1980, p. 5)

O filme trata de forma subliminar da invisibilidade de pessoas marginalizadas. Nos dois primeiros minutos, mostra uma rua movimentada, indivíduos de etnia branca e bem-vestidos passando por um lado e para o outro, com um morador de rua jogado no chão, e as pessoas passando por ele sem enxergá-lo. A invisibilidade de alguns destoando da felicidade de outros.

Chris conheceu o pai aos 28 anos de idade, e por isso, possui o forte anseio de ser um pai presente na vida de seu filho. Contudo, os atritos com a esposa são frequentes, já que ele não possui um emprego fixo e passa o tempo tentando vender scanners de densidade óssea para as clínicas locais e médicos em hospitais. Com recursos próprios, ele adquiriu vários desses equipamentos para tentar ser empreendedor, porém não conseguia vendê-los e com isso seu apartamento estava lotado desses scanners. Um produto caro, direcionado para um público muito específico da medicina. Por isso, ele precisava sair todos os dias e ir em hospitais para tentar vendê-los. Seu trabalho afetava todos os campos da sua vida e causava conflitos com sua esposa. Desta forma, o filme retrata de forma delicada a invisibilidade social e como o capitalismo influencia a sociedade, e por consequência, a vida do protagonista.

O primeiro ponto de reviravolta na trama foi quando o personagem, ao sair mais um dia para tentar vender o seu produto, teve um vislumbre de um futuro profissional e feliz, ao se deparar com um corretor da bolsa de seguros que estacionava seu luxuoso carro esportivo em frente à uma grande empresa na cidade. Chris indagou o que precisava fazer para ter o trabalho do homem, e o corretor informou que só precisava ser bom com números e pessoas.

Gardner parou alguns instantes olhando os rostos das pessoas que saíam daquele prédio e só via felicidade. Ele igualmente queria aquilo para si, entendendo que felicidade seria algo a se buscar e que talvez nunca fosse alcançada, mas não desistiria de persegui-la. A partir daquele momento, a trama se desenvolve em torno da busca do protagonista em mudar a sua vida, a partir da mudança de seu trabalho. Nesse aspecto, Chaui (1980) apresenta o conceito de homem livre moderno que está presente no filme e nas sociedades atuais. Esse homem, se divide em dois: o burguês e o trabalhador.

Ora, essas duas faces do trabalho também estarão divididas em duas figuras diferentes: o lado livre e espiritual do trabalho é o burguês, que determina os fins, enquanto o lado mecânico e corpóreo do trabalho é o trabalhador, simples meio para fins que lhe são estranhos. De um lado, a liberdade. De outro, a “necessidade”, isto é, o autômato. (CHAUI, 1980, p. 06-07)

Também é ressaltado no filme, a relação entre classes. O protagonista e sua esposa são operários, prestadores de serviços e as posições sociais em que eles ocupam exige muito de seu tempo e de suas vidas. É necessário pagar o aluguel, pagar as contas; é necessário sobreviver em contraste com aquela dinâmica.

Dissemos que a ideologia é resultado da luta de classes e que tem por função esconder a existência dessa luta. Podemos acrescentar que o poder ou a eficácia da ideologia aumenta quanto maior for sua capacidade para ocultar a origem da divisão social em classes e a luta de classes. (CHAUI, 1980, p. 34)

Chauí (1980, p. 35) reforça que “A ideologia é o processo pelo qual as ideias da classe dominante se tornam ideias de todas as classes sociais, se tornam ideias dominantes”. No filme, o questionamento mais marcante que o protagonista fez e que traduz de forma simples um dos efeitos desse processo no indivíduo foi: “Todo mundo me parecia tão feliz. Por que eu não podia ser como eles?” (MUCCINO, 2006).

Vale a pena citar aqui um aspecto da concepção hegeliana. De maneira esquemática a autora pondera que a visão de Hegel pode-se caracterizar como “um trabalho filosófico para compreender a origem e o sentido da realidade como Cultura” (CHAUI, 1980, p. 15). No filme, em diversos momentos a personagem fica se perguntando onde está e como encontrar a felicidade, trazendo para a sua cultura toda a questão de que é preciso ter algo para ser feliz, e que a felicidade se inicia com a conquista de um emprego estável.

Cultura são as relações dos homens com a Natureza pelo desejo, pelo trabalho e pela linguagem, as instituições sociais, o Estado, a religião, a arte, a ciência, a filosofia. É o real enquanto manifestação do Espírito. Não se trata, segundo Hegel, de dizer que o Espírito produz a Cultura, mas sim de que ele é a Cultura, pois ele existe encarnado nela. (CHAUI, 1980, p. 15)

Ele tenta uma vaga de estagiário nessa empresa. Preenche uma ficha, porém somente vinte pessoas seriam selecionadas, e desses, apenas um seria contratado. O estágio ainda duraria seis meses e não teria remuneração (mas essa parte, ele só saberia depois). Além disso, deteve um dos sócios gerais para mostrar seu interesse. Em uma dessas tentativas, pegou um táxi com o diretor e acabou o impressionando por ter montado o cubo colorido o qual ninguém conseguia naquele tempo.

Os atritos entre Chris e a esposa aumentavam proporcionalmente com as contas que chegavam, até que ela efetivamente abandona a casa levando o filho junto. Ele se desespera, pois é um homem muito trabalhador e um pai dedicado, mais inclusive que a própria mãe. Gardner recupera o filho, mas simultaneamente recebe ordem de despejo. Concomitantemente, recebe um telefonema do diretor da empresa que tentara o estágio, marcando uma entrevista com todos os sócios da corretora.

Chaui (1980) explica que a cultura configura as relações dos homens com a natureza pelo desejo, pelo trabalho e pela linguagem, as instituições sociais, o Estado, a religião, a arte, a ciência e a filosofia. É o real enquanto manifestação do espírito. Não se trata, segundo Hegel (apud CHAUI, 1980), de dizer que este espírito produz a cultura, mas sim, de que ele é a cultura, pois ele existe integrado nela.

A infelicidade também é retratada no filme, representada pela esposa do protagonista que ao viver com tantas dificuldades, preferiu terminar aquela relação amorosa, pois não era feliz. Ela queria que o marido ganhasse um bom salário, que tivesse um bom emprego, que repetisse o padrão demarcado socialmente pelas classes mais abastadas e bem-sucedidas. Que eles possuíssem dinheiro e bens, pois assim, na concepção social em que ela vivia, traria felicidade para sua família.

Pode-se concordar com a autora de que as ideias da classe dominante acabam por se tornarem ideias universais. Ela afirma que:

A ideologia consiste precisamente na transformação das ideias da classe dominante em idéias dominantes para a sociedade como um todo, de modo que a classe que domina no plano material (econômico, social e político) também domina no plano espiritual (das ideias). (CHAUI, 1980, p. 36)

Quando voltamos para a questão da felicidade e de todos os sentimentos que passam no filme, o que se destacou muito e diverge um pouco do que os indivíduos como cultura estão acostumados, é o fato do personagem ser um pai muito mais presente e assumir o papel da mãe, cuidando do filho praticamente sozinho e lutando para não deixar faltar nada à criança. Na cultura ocidental, a imposição é de que exclusivamente a mulher cuide do filho, enquanto o homem é quem sai para trabalhar, e isso foi o contrário no filme. Cabe ainda observar que o ano é 1981, período esse em que essas regras sociais ainda eram muito rígidas nesse sentido, diferente de do século XXI em que se tenta reeducar as sociedades com o equilíbrio e igualdade de papéis de gênero e familiares.

Retomando a narrativa do filme, no dia seguinte, pintando o apartamento que morava, na tentativa de acordo de ganhar mais uma semana morando ali com seu filho antes de ser despejado, Chris acaba sendo preso por multas de trânsito e só seria solto 24 horas depois, minutos antes de sua entrevista para tentativa de vaga para o estágio. Ele não teria tempo de retornar para casa e trocar de roupa.

Chris corre para a corretora repleto de tinta e com a roupa simples de uso doméstico. Ao entrar, ele tenta demonstrar segurança de si e conta o que ocorreu aos diretores. Sua performance impressionou a todos, mas o conhecimento de que não receberia nada como pagamento fez com que pensasse em declinar, mas acabou aceitando. Aquela era a única chance que ele tinha de talvez mudar de vida. Tudo acontecia ao mesmo tempo. A ex-esposa acaba decidindo mudar-se para outro estado, enquanto Gardner foi despejado e teve que se mudar para um quarto de motel com o filho.

Um momento pontual que necessita ser descrito é quando o protagonista brincava de basquete com o filho. A criança estava com dificuldade de arremessar a bola, e Chris fala sem maldade que o filho nunca seria bom no basquete, mas que ele seria com certeza bom em outras coisas. A criança para de jogar imediatamente, e Gardner percebe que estava projetando suas frustrações e repetindo o que todos, direta ou indiretamente lhe diziam (até sua esposa). Ele retifica imediatamente seu discurso e diz à criança: “Nunca deixe alguém dizer que você não é bom em alguma coisa. Nem mesmo eu. Se você tem um sonho, tem que correr atrás dele. As pessoas não conseguem vencer, e, também, dizem que você não vai vencer. Se você quer uma coisa, corre atrás. Ponto” (MUCCINO, 2006).

Gardner apresentou nesse momento o comportamento que corrobora com os autores apresentados anteriormente como La Boétie (2006; apud CHALITA, 1999), Lewin (apud MAILHIOT, 2013) e Chaui (1980). Ele revelou o desejo em sair de seu percurso de luta e invisibilidade, tentando ascender ao status de classe e de pessoas que direta ou indiretamente reforçavam que ele não era bom o suficiente e só se adequava para trabalhos inferiores. Também, mostrou a fraqueza do desejo de pertencimento ignorando sua própria historicidade, e daqueles que são iguais. Ademais, expressou o comportamento do dominado que aceita o jugo de forma submissa com aqueles que lhe afirmam e o fazem acreditar que é servil, endossando todos os conceitos ideológicos de que alguém não supera as dificuldades por incapacidade e por não ser bom o suficiente.

Isso significa que quando Chris reforçou os mesmos discursos e ações vindos das classes dominantes, da maioria psicológica e que exerce o poder através da violência e submissão, mostrou um ódio de si mesmo e da sua condição, pois na verdade ele gostaria de estar usufruindo da liberdade, força e privilégios os quais esses agressores possuíam, e ele mesmo temia que isso – todo tipo de agressão e rejeição – continuasse a ocorrer consigo. Então, como defesa, ele inverteu e atacou sem nem mesmo perceber de imediato com um despretensioso discurso de rebaixamento.

Chris mostrou essa pequena fraqueza e reproduziu isso em seu filho. Contudo, ele teve a percepção e força psicológica imediata de compreender seu erro e profundidade da própria situação, ao ponto de retificar suas palavras e assumindo plenamente seu comportamento alienado. Isso demonstra grandemente o tamanho de sua força e clareza psicológica de si mesmo e de seu entorno.

Após três meses, eles também foram sendo despejados desse quarto de motel por falta de pagamento. Nessa noite em questão, sem ter para onde ir com a criança e carregando consigo apenas uma mala, um último aparelho scanner, a bola de aniversário do filho e um boneco de brinquedo, Chris e o pequeno dormiram no banheiro da estação de metrô. Ele teve ainda, no meio de tanta dor, o impulso de trazer conforto ao filho, usando a imaginação, criando um contexto lúdico e brincando de que estavam dormindo numa caverna para se proteger de dinossauros.

O episódio da noite no banheiro do metrô, possui algumas possibilidades de análise, que se relacionam com o texto de Chaui (1980), começando sobre realidade e sua distorção. Nesse caso, o insight lúdico de Chris tornou-se algo benéfico, já que foi dessa maneira que o personagem encontrou um jeito de amenizar o sofrimento de seu filho. Mas não somente isso. Hegel (apud CHAUI, 1980) denomina essa ideia como conceito, e logo em seguida, ele descreve que a história como processo temporal movido, é feita por divisões ou negações. Voltando para o filme pode-se observar a negação do pai em não dizer ao filho o que de fato estava acontecendo, e que eles não possuíam um abrigo para passar aquela noite.

A sociedade civil é a negação da família. Isto não significa que a família deixou de existir, mas significa apenas que a realidade da família não depende dela própria, mas é determinada pelas relações da sociedade civil. Isto significa que o indivíduo social não se define como membro da família (como pai, mãe, filho, irmão), mas se define por algo que desestrutura a família: as classes sociais. (CHAUI, 1980, p. 18)

Novamente volta-se para o contexto familiar, e nesse trecho de recuo fica evidente quando Hegel (apud CHAUI, 1980) fala que aquilo o qual desestrutura a família são as extremas dificuldades impostas a certas classes sociais. Isso foi nitidamente retratado no filme, quando a mãe se muda para ter uma oportunidade de emprego melhor, e, por outro lado, o pai que não consegue vender as máquinas, além de não conseguir um emprego, passa por diversos conflitos como não ter onde morar ou o que comer, levando-o à um grande desespero. Essa família se encaixa dentro das descrições de Hegel na classe formal e revistas pela autora.

A análise da mercadoria revelará, por exemplo, que há mais mercadorias do que supúnhamos à primeira vista, pois um elemento fundamental do modo de produção capitalista, o trabalhador, que aparece como um ser humano, é, na verdade, uma mercadoria – ele vende no mercado sua força-de-trabalho. (CHAUI, 1980, p. 19)

Depois daquela noite, Chris e o filho passaram os dois ou três meses restantes de seu estágio morando em abrigos para indivíduos em situação de rua. E todos os dias ele tinha que ser muito rápido e eficiente em seu trabalho, para conseguir buscar o filho na creche e chegar a tempo no abrigo para garantir uma cama. Em um desses momentos de correria, o menino perdeu seu único boneco (o Capitão América), e que servia como ponto de apoio psicológico.

Chris perdeu também por duas vezes seu equipamento scanner, e aquilo lhe desesperou, pois era a única forma que conseguia algum dinheiro para sobreviver. Até o próprio valor do dinheiro tomava um significado de dimensões gigantescas, pois cinco dólares para um grande magnata da empresa não era uma quantia considerável, enquanto, que, para Chris significava um almoço para si e seu filho. Nesse ponto, pode-se ver novamente por outra perspectiva, o aspecto do real de Chaui (1980) sobre o entrelaçamento do físico material, com a significação que ele tem. A cultura imprime uma semântica para o corpo, para os produtos, para os alimentos, e os indivíduos acabam muitas vezes adotando essa noção e tomando-a para si. E como esses significados se estruturam, vai depender da subjetividade de cada um.

Continuando: no estágio, Chris era o único negro. O chefe da equipe lhe pedia constantemente por trabalhos que não faziam parte de sua função, como pegar café ou água, e até estacionar carro. Isso fazia com que Gardner também interrompesse sua produtividade e concentração em relação a todos os outros dezenove colegas. No meio de tantas coisas, de tantas desventuras sequenciais, e ainda o desespero em tentar conseguir dinheiro com seus esforços fora do contexto de estágio, Chris só conseguia pensar “Quem causaria desordem em nossa harmonia?” (MUCCINO, 2006), mas seguia em frente.

Por fim, no último dia de seu estágio, e acreditando que seria descartado, Chris é comunicado que a manhã seguinte seria seu primeiro momento como empregado efetivado. Era seu momento de vitória, e que ele narrou ser “aquela pequena parte que se chama felicidade” (MUCCINO, 2006). O filme termina com o relato de que Gardner montou sua própria corretora cinco anos depois e, em 2006, vendeu parte dela em uma transação milionária.

A mensagem do filme, apesar de esperançosa, tem uma ideologia oculta por trás: que se todos se esforçarem o suficiente, conquistarão o que almejam, o que define a meritocracia. Outro ponto interessante, é quando o protagonista tenta mudar o papel social que ele tinha, mas foi reprimido pela própria sociedade. A realidade é que histórias como a de Chris Gardner, são exceções; e não porque as pessoas não se empenham o suficiente, e sim, porque a dinâmica social não permite.

Ao se refletir no contexto do trabalho, Chris se empenhou arduamente como estagiário durante seis meses, teve que se dedicar para conseguir a vaga e durante esse período entregou todo esforço e empenho para conseguir cumprir as metas (pessoais e trabalhistas). Esse esforço além do normal é trazido por Chaui (1980), expressando as ideias de Hegel e Marx sobre a mão de obra, a ideologia do trabalho, a mercadoria, o sistema de trabalhar e receber um salário, trabalhar e receber por aquele serviço prestado.

No primeiro olhar, a mensagem central do filme seria sobre esperança, esforço e superação. Mas, diante de uma observação e análise mais atenta, é possível perceber a ideologia distorcendo a realidade, impondo a ideia falha de meritocracia e de que com apenas esforço, é possível ser um vencedor. A autora comenta sobre as pessoas importantes na nossa sociedade:

História dos “grandes homens”, dos “grandes feitos”, das “grandes descobertas”, dos “grandes progressos”, a ideologia nunca nos diz o que são esses “grandes”. Grandes em quê? Grandes por quê? Grandes em relação a quê? No entanto, o saber histórico nos dirá que esses “grandes”, agentes da história e do progresso, são os “grandes e poderosos”, isto é, os dominantes, cuja “grandeza” depende sempre da exploração e dominação dos “pequenos”. Aliás, a própria ideia de que os outros são os “pequenos” já é um pacto que fazemos com a ideologia dominante. (CHAUI, 1980, p. 47)

Ao refletir sobre todos esses aspectos de teorização unificados, é ainda possível agregar outros pensamentos sobre essa temática do que é felicidade nas muitas sociedades contemporâneas. Abreu et al. (2022) identificaram em uma pesquisa analítica com algumas influencers digitais, seus seguidores e haters, comportamentos sociais ligados diretamente ao entendimento do que é ser feliz na atualidade do século XXI com o advento da internet.

Quando nos questionamos no início das observações, por qual razão milhões de pessoas são seguidores dessas mulheres ou de tantas outras e outros influenciadores digitais?, adentramos  em reflexões que nunca chegariam em uma conclusão totalmente verdadeira sem a investigação da motivação de cada seguidor individualmente, suas influências socioculturais-históricas, seus sonhos. Porém, algo em comum e mais amplo pode unir esses indivíduos. Poder-se-ia pensar em uma hipótese generalista, que eles sejam movidos por essa busca, tão própria e eterna da humanidade pela felicidade. Por isso que tantas pessoas seguem, curtem, comentam, e compartilham vídeos dessas outras pessoas. (ABREU et al., 2022, n.p)

Como resultados, os pesquisadores compreenderam que a tríade de indivíduos envolvidos (influencers, seguidores e haters) estaria em simbiose narcísica movida pelo medo da exclusão e invisibilidade, e uma busca intensa pelo discurso do que é felicidade e ser feliz. Isso surgiu muitas vezes nas narrativas de algumas das influencers analisadas, gerando nos seguidores a apreensão psíquica e comportamental de um processo meritocrata.

Esse estudo trouxe em muitos pontos a compreensão de que o público e as sociedades de uma forma geral, são efetivamente instigados a consumir uma determinada forma de viver para serem reconhecidos, aceitos e amados, mas como resultado, isso não é alcançado e gera frustrações e complexos generalizados. Veja que a conduta de cruzamento entre meritocracia e felicidade social/pessoal não é um advento atual, à exemplo da história de Chris Gardner, mas ainda hoje é vendida e consumida como uma vida idealizada e muitas vezes inalcançável. Todavia, é propagada por esferas que ditam como e o que é ser feliz, e esses pressupostos são potencializados em divulgação diante do advento da internet. “Quanto maior a projeção da influenciadora e com mais empresas oferecendo suporte, mais assessoradas por profissionais de marketing elas se tornam, sendo ainda auxiliadas na criação e manutenção de conteúdos que ditam os conceitos do que é felicidade”. (ABREU et al., 2022, n.p)

Os autores ainda narram:

As influencers possuem uma ferramenta incrível que poderia ser utilizada positivamente como meio de educação, ativismo e inspiração para novos pensamentos sociais. Contudo, a manipulação mercadológica para controle da sociedade que busca por uma felicidade montada, unida a uma série de fatores, inclusive medo de exclusão, e justamente por cada sujeito talvez não saber quem ele mesmo é, conduz o usuário/seguidor a fatidicamente manter-se nesse processo ilusório de escolhas que não são as dele, e muitas vezes fúteis, deturpadas e até perigosas. Mas sim, a decisão é totalmente individual, pois todos podem fazer a sua escolha final. (ABREU et al., 2022, n.p)

Esses pesquisadores citam o autor Zygmunt Bauman (2008a; 2008b; 2009) para embasar mais profundamente suas análises, e que será trazido pontualmente aqui. Para esse filósofo, a isenção de reconhecimento social leva os indivíduos ao sentimento de privação, frustração e inadequação. A felicidade é representada naquilo que se tem; no que se pode ostentar. Dicotomicamente, aqueles que não alcançam essa conduta, até mesmo por sofrerem processos sociopolíticos, econômicos e culturais de permanência em status de servidão, são rotulados novamente dentro do processo meritocrático: não se esforçaram o bastante. (ABREU et al., 2022)

Abreu et al. (2022, n.p) citam que “o consumo não está apenas em produtos, mas também em ideias, perfis e estilos de vida”, sendo isso um dos pensamentos de Bauman (2008a; 2008b; 2009) a respeito da edificação comportamental do que é ser feliz. As pessoas que se encontram em escalas mais altas podem ser vistas como o modelo mais próximo da felicidade, como Chris Gardner fez ao se deparar com pessoas sorrindo e despreocupadas no centro de Wall Street.

Bauman (2009) diz que a energia do desejo da felicidade pode ser dividida em dois tipos de forças: centrípeta (de fora para o centro) ou centrífuga (do centro para fora). Assim, para o autor, a busca da felicidade pode ser resumida na preocupação com o próprio bem-estar do indivíduo, ou, diante de sua preocupação com o bem-estar do outro. As duas alternativas, porém, não são necessariamente contraditórias – podem trabalhar juntas com nenhum ou quase nenhum conflito. No entanto, se há uma relação correlacionada, é a da força centrífuga para com a força centrípeta, onde ser bom com o outro reforça o sentimento de estar bem consigo. (ABREU et al., 2022, n.p)

Não apenas a autoimagem e poder (atrelado ao fator econômico) é vendido como ícone de felicidade, mas o tempo igualmente gera uma sentença de interligação ao entendimento de felicidade. Observe que Chris igualmente não possuía esse espaço temporal, estando em correria constante para dar conta de seus problemas, e tentativa de solução desses. (ABREU et al., 2022)

Alain Ehrenberg (apud BAUMAN, 2008b, p. 121-122) explana que “os sofrimentos humanos mais comuns nos dias de hoje tendem a se desenvolver a partir de um excesso de possibilidades, e não de uma profusão de proibições, como ocorria no passado”. Esse autor narra exatamente esse contexto diante de que expressões como ter tempo, faltar tempo e ganhar tempo, são recebidas socialmente como fatores a serem cumpridos, e aqueles incapazes de atingir tais propósitos requisitados, são encarados como sendo não são aptos (ABREU et al., 2022). Isso igualmente pôde ser visto na história de Chris, no episódio durante seu estágio, pois mesmo atribulado com suas funções como todos os outros em competição, ele tinha que abrir espaço e tempo para servir café ou água, e sem entrar na questão já relatada anteriormente sobre o fator étnico.

Esse imediatismo é mostrado na impaciência das pessoas diante da mínima falha do outro indivíduo, por menor que seja, esquecendo-se de todos os outros valores positivos que essa pessoa possa ter. Nesse ponto, o autor relaciona isso com a busca pela felicidade, já que se o sujeito tem tudo o que quer, não consegue ser feliz, então, isso seria visto socialmente como a culpa sendo inteiramente dele. Portanto, ser emancipado para ter, falar e fazer tudo o que se quer, estaria no patamar da ostentação de mostrar que é feliz, e sem isso, o sujeito seria um total derrotado. Conforme Bauman (2008b), daí viria a necessidade de o indivíduo mostrar a todo tempo que tem objetos (ou status) e que é feliz, mesmo sem ser ou ter. A perda de qualquer um desses fatores o conduz à derrocada da autoestima diante da percepção de humilhação social. (ABREU et al., 2022, n.p)

Por todos esses fatores, Bauman (2008b) via que haveria uma perda da identidade original de cada indivíduo, e isto é o que geraria mais intensamente a padronização visual e comportamental nas sociedades, e proporcionalmente conduzindo a intensificação da necessidade de afastamento do contato face a face pelos processos tecnológicos. O vínculo com o outro tornar-se-ia cada vez menos necessário, da mesma forma como cada vez mais pessoas vivendo inconsequentemente apenas o presente, sem elaborar o pensamento de análise crítica sobre várias determinantes de uma mesma temática, e seguindo fortemente aquilo que lhe é colocado como padrão para mantê-lo feliz. (ABREU et al., 2022)

Enquanto houver a ideologia dominante, histórias como a de Chris Gardner serão vendidas como exemplos de inspiração, mas com o forte destaque na meritocracia para esconder uma realidade social romantizada e normatizada como a cultura de estupro, racismos, homofobias e todos outros muitos conceitos estruturais de inversão ideológica. O caso de Chris é uma raríssima exceção de ascensão classista, e que apesar dos seus méritos, não é um retrato da realidade da maioria demográfica.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cultura de condução ideológica tem como função a inversão e a naturalização de comportamentos para criar e garantir relações de superioridade das classes dominantes. Fatores como atitudes preconceituosas e comportamentos de discriminação, além da condução de poder, igualmente estariam incluídas nesse processo.

O questionamento norteador deste artigo – ser feliz e ter condições de vida digna é apenas uma questão de mérito por esforço? – pôde ser respondida em uma única palavra: não. Contudo, a resposta evidentemente não é tão simplista assim. Socialmente, os indivíduos são induzidos a aceitar o fato de sua derrocada, permanecendo em estado de subserviência e julgamento. Na contemporaneidade, os processos dessas conduções (e condições) perpetuam-se e não são diferentes daqueles vividos por Chris Gardner, protagonista do filme escolhido para análise. Ainda hoje, as sociedades são influenciadas por discursos ideológicos para controle e condução de massa, logo, romantizando e naturalizando cada ação comportamental a qual os indivíduos exibem, apresentando o que é ser feliz dentro dos padrões das altas esferas.

Foi possível se detectar de fato como se constrói a narrativa de meritocracia nas relações sociais, seus desdobramentos como valores e crenças culturais que constroem e normatizam as narrativas sociais que comumente colaboram negativamente com a reprodução de conceitos opressores. O mesmo conceito que oprime, dita os caminhos da felicidade social. Sendo assim, a equipe conseguiu averiguar a hipótese inicial de que os indivíduos fazem o autorreconhecimento e do outro a respeito de valorização e mérito, a partir de processos alienantes criados por classes abastadas.

Possibilitar essa discussão, revela na verdade uma dicotomia sobre a temática do filme. De um lado, a história motiva àqueles que se encontram em situações de desespero, como o personagem, e que ultrapassou as inúmeras adversidades dentro de seu universo pessoal e social. Por outro lado, a história foi apresentada como movimento meritocrático e com o discurso social de que todo o sujeito que se esforçar bastante, vai vencer e ascender.

A fina linha entre o discurso de inspiração e o de meritocracia oculta as realidades sociais pelo viés da ideologia, já que para milhões de pessoas, por mais que se esforcem ou lutem, jamais mudam seu padrão. É indiscutível, contudo, a força psíquica de Chris Gardner, assim como sua clareza psicológica em perceber até sua fraqueza ao reproduzir no filho – no episódio do jogo de basquete – sua própria condição social alienada. Ele entendeu de forma breve sua condição de oprimido para opressor. Percebeu e refez seu discurso de imediato, inclusive ele mesmo mudando de postura. Isso o tornou mais consciente do seu contexto social e de si mesmo, e por condução, mais perseverante, valoroso e hábil.

Essa relação entre opressor e oprimido tanto abordada no filme, quanto nas obras de teorização escolhidas, e que se reflete em múltiplas temáticas diferenciadas, proporciona a reflexão que na sociedade atual, só é possível essa dinâmica binária: o indivíduo é o opressor ou é um oprimido. Um jogo de poder e de submissão que estão presentes em vários contextos sociais que impede a todos, enquanto espécie humana, evoluir psiquicamente como indivíduos e sociedade.

Se houver a continuidade da cultura romantizada de esforços extremos para se conseguir viver bem e com dignidade, não haverá mudanças reais e a classe dominante irá garantir que a felicidade seja uma busca eterna e sem resultados, ou que eles sejam apenas como paliativos de compensação, mas, de novo, uma ilusão.

São pequenas mudanças de visão que necessitam receber ampla conscientização, pois elas falam muito do posicionamento da perpetuação dos conceitos ideológicos, mas igualmente chamam a atenção de que indivíduos devem estar atentos aos discursos, comportamentos e ações que permeiam essas conduções de controle social em macro (sociedade) e micro (sujeito a sujeito) cosmos.

Ademais, a Psicologia Social como ciência deve não apenas se aprofundar nos estudos sobre esse comportamento nas sociedades, mas também, trabalhar para encontrar novas alternativas a fim de minimizar, e quem sabe um dia, sanar a situação exposta no filme.

REFERÊNCIAS

ABREU, Liliane Alcântara de; MELO, Natalia Sayuri; SOARES, Pamela Cristina; NUNES, Letícia Monteiro; SILVA, Gabriella Braga Dias da; MENDES, Matheus Passos. As influencers digitais e a autoimagem como produto de comportamento de consumo. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 01, Vol. 05, pp. 05-33. Janeiro de 2022. ISSN: 2448-0959. Disponível em: <https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/comportamento-de-consumo>. Acesso em: 11 mar. 2022. DOI: <10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/comportamento-de-consumo>

À PROCURA da felicidade (The pursuit of happyness). Direção de Gabriele Muccino. Produção: James Lassiter, Jason Blumenthal, Steve Tisch, Teddy Zee, Todd Black, Will Smith. Estados Unidos: Columbia Pictures Corporation, Overbrook Entertainment, 2006. 1 DVD. (117 min.).

BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Versão digital. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

____. Medo Líquido. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008a.

____. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008b.

CHALITA, Gabriel Benedito Isaac. O poder. 2. ed. rev. São Paulo: Saraiva, 1999.

CHAUI, Marilena de Souza. O que é ideologia? São Paulo: Brasiliense, 2010.

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso Sobre a Servidão Voluntária. (1549). Versão para eBookLibris eBooksBrasil. L.C.C. Publicações Eletrônicas, 2006. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/boetie.html>. Acesso em: 18 out. 2018.

MAILHIOT, Gérald Bernard. Dinâmica e Gênese dos Grupos: atualidade das descobertas de Kurt Lewin. Petrópolis: Vozes, 2013.

REICH, Wilhelm. Psicologia das Massas do Fascismo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

TEIXEIRA, Ludimilla Santana; ABREU, Liliane Alcântara de. Os desafios da educação em direitos humanos no século XXI: a contribuição do MUCB no autoconhecimento e desenvolvimento sociopolítico de mulheres através das redes sociais. In: Anais de Artigos Completos do V CIDHCoimbra 2020 – Volume 3 / César Augusto R. Nunes et. al. (orgs.) [et al.] – Campinas / Jundiaí: Editora Brasílica / Edições Brasil / Editora Fibra, 2021. p. 287-300. ISBN: 978-65-89537-03-8 / 978-65-86051-32-2. Disponível em: <https://a3ec55aa-1c0f-448d-a555-bf0db2483a45.filesusr.com/ugd/8f3de9_a7f1803236524ca9ab555127967481aa.pd>. Acesso em: 30 jun. 2021.

[1] Especialista em Neurociência Pedagógica pela AVM Educacional/UCAM/RJ; especialista em Arteterapia em Educação e Saúde pela AVM Educacional/UCAM/RJ; especialista em Pesquisa de Comportamento e Consumo pela Faculdade SENAI CETIQT RJ; especialista em Artes Visuais pela UNESA/RJ; bacharela em Design pela Faculdade SENAI CETIQT RJ. Bacharelanda em Psicologia pela UNIP/SP.

[2] Bacharelanda em Psicologia pela UNIP/SP.

[3] Bacharelanda em Psicologia pela UNIP/SP.

[4] Bacharelanda em Psicologia pela UNIP/SP.

[5] Bacharela em Comunicação Social pela Faculdade Cásper Líbero/SP. Bacharelanda em Psicologia pela UNIP/SP.

[6] Bacharelanda em Psicologia pela UNIP/SP.

[7] Bacharelando em Psicologia pela UNIP/SP.

Enviado: Julho, 2021.

Aprovado: Abril, 2022.

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Liliane Alcântara de Abreu

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