A atuação do profissional de enfermagem no atendimento do paciente com transtornos mentais nos centros de atenção psicossocial: uma revisão da literatura

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ARTIGO DE REVISÃO

LIMA, Valkiria dos Santos [1], LEITE, Cristina Limeira [2]

LIMA, Valkiria dos Santos. LEITE, Cristina Limeira. A atuação do profissional de enfermagem no atendimento do paciente com transtornos mentais nos centros de atenção psicossocial: uma revisão da literatura. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 06, Ed. 11, Vol. 07, pp. 135-152. Novembro 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/atendimento-do-paciente

RESUMO

Os Centros de Atenção Psicossocial, são compreendidos como redes de atenção em saúde mental. Tem o propósito de acolher pacientes com transtornos mentais, no intuito de promover a reinserção destes na sociedade e principalmente no seio familiar. Nesse sentido, a atuação do enfermeiro é de suma importância dentro dessas instituições, no sentido de promover um atendimento e ações voltada a reinserção do paciente de volta ao convívio familiar. Neste contexto, o presente artigo, tem como questão norteadora: Quais as atividades desenvolvidas pelo enfermeiro que atua no atendimento ao paciente com transtornos mentais nos Centro de Atenção Psicossocial presentes na literatura já publicada? Diante disso, o objetivo do presente estudo consiste em descrever a atuação do profissional de enfermagem no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mediante a literatura já publicada. Para isto, realizou-se uma revisão da literatura, com busca dos dados na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana em Ciências de Saúde (LILACS), Scientific Eletronic Library Online (SCIELO) e Medline. Diante do estudo realizado, ficou evidente, a importância do enfermeiro em centros de atenção psicossocial, sua atuação junto a equipe e sua responsabilidade com relação ao tratamento de cada usuário, interferindo diretamente na evolução destes. Ao final, concluímos que as atividades desenvolvidas pelo enfermeiro, são voltadas  a assistir o paciente em suas diversas necessidades, visando ajudá-lo na aceitação do tratamento, focando no individuo como ser psicobiológico, acolhendo e promovendo uma relação com base na empatia e no olhar holístico sobre o paciente.

Palavras-chave: Saúde mental, Enfermagem, Cuidados de enfermagem, Centros de Atenção Psicossocial.

1. INTRODUÇÃO     

Os ideais da Reforma Psiquiátrica, não são meras alternativas, mas sim, algo de suma importância à política de assistência à saúde mental. Percebe-se a expansão desses objetivos, através da efetivação dos serviços alternativos, por exemplo, os Centro de Atenção Psicossocial – CAPS, indispensáveis e que existem em diversas modalidades dependendo da necessidade das demandas locais e regionais, com uma equipe capaz de atender a todos os públicos (DIAS; ZAVARIZE, 2016).

O primeiro CAPS surgiu em 1986, na cidade de São Paulo, sendo inaugurado com o nome de Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz da Rocha Cerqueira. Logo após, começaram a surgir vários Centros de Atenção Psicossocial em todo o país, regulamentados pela portaria GM 224/92. De acordo com esta lei, o CAPS/NASP – Centro/Núcleo de Atenção Psicossocial – deverão ser organizados de forma regionalizada de acordo com o número de habitantes correspondente à região em que serão introduzidos estes programas (GONÇALVES, 2018).

O papel dos CAPS é de promover a reinserção das pessoas com transtornos ao meio familiar e social, realizando projetos, dando suporte aos pacientes em residências terapêuticas, dispensando medicamentos, entre outros, para que haja a diminuição do índice de internações. Para isso, este necessita de todos os recursos viáveis e de apoio das demais redes de atenção à saúde para realizar um atendimento eficaz (MORAES FILHO, 2015).

O atendimento no CAPS se dar, a partir do encaminhamento por um profissional de outra rede de atenção à saúde, podendo esta ser privada ou pública, lá o paciente deverá ser realizado a escuta e o acolhimento para que se estabeleça uma relação entre o paciente  e a equipe. Nessa integração com a equipe, poderá ser escolhido o melhor plano assistencial para o seu tipo de problema. Dependo dos casos apresentados, as equipes deverão prestar acompanhamento domiciliar recebendo o apoio das equipes de atenção primária da localidade (HEINEN, 2019).

O CAPS, trata de pessoas com fobia social, pois além de ser considerado um dos transtornos mentais mais prevalentes na população, percebe-se a cada dia pessoas com idade precoce, vem sofrendo desse transtorno. O termo fobia social ou transtorno de ansiedade social é utilizado para identificar, a ansiedade intensa em situações sociais e de desempenho, promovendo o sofrimento e perdas de oportunidades (GONÇALVES, 2018).

Portanto,  deve-se realizar ações com foco nas intervenções cognitivo-comportamentais, beneficiando a saúde mental do indivíduo, e as mais utilizadas no quadro demonstrado são: a psicoeducação, o reconhecimento dos pensamentos automáticos e das emoções, o reconhecimento das crenças centrais e intermediárias, a modificação cognitiva, a presteza para resolver os problemas e a análise do processo (ARAÚJO; RUBINO; OLIVEIRA, 2018).

É essencial que os enfermeiros estejam preparados, para atuar nos CAPS, na qual, além de acolher o usuário precisam desenvolver um trabalho com características coletivas e em equipe multidisciplinar na busca da reabilitação psicossocial. Todavia, esta tarefa não é fácil, requer que os profissionais de saúde, entre eles os de enfermagem, revejam suas posturas diante do outro (SANTOS, 2016).

Portanto, a convivência diária, o diálogo e a escuta funcionam como muito importantes no cuidar proporcionado pela enfermagem. É de fundamental importância ter o conhecimento sobre a diferença entre ouvir e escutar, pois ouvir consiste somente no ato fisiológico e para escutar de fato é necessária uma disposição interna de acolhimento e atenção em busca de identificar algum registro que abra caminho para a troca de informações. Enfim, o enfermeiro contemporâneo necessita se aprofundar, cada vez mais, em um pensamento aberto, que o leve a refletir, a ser ainda mais atento. Por outro lado, é importante navegar sobre as diversas possibilidades e a abertura de novos caminhos (ARAÚJO; RUBINO; OLIVEIRA, 2018).

Historicamente, quando se fala em transtornos mentais, se imagina que em sua essência se encontra múltiplas formas de transtornos, considera-se ser patologias de grande abrangência. No passado, quando uma pessoa nascia com alguma doença mental, seus familiares a aprisionavam em um quarto, longe dos mesmos, dos amigos e outros, pois na leitura social da época o fato de possuir transtornos mentais se constituía em uma vergonha para sua família. Este fenômeno era visto como maligno, um tipo de bruxaria, onde os indivíduos eram observados como irracionais pelo seu meio social (GONÇALVES, 2018).

Atualmente com os avanços da medicina, em especial, da que trata dos transtornos mentais, o conceito do problema ora estudado ganha perspectivas diferenciadas, tanto no âmbito das ciências da saúde como das ciências sociais, e as formas de definir e interpretar tais questões são permeadas por aspectos clínicos e sociais (GONÇALVES, 2018).

No entanto, diante da observação diária desses pacientes, percebe-se a importância do acolhimento e do acompanhamento do profissional enfermeiro. Surgiu então, a necessidade de elaborar o presente estudo, onde foi realizado uma análise teórica acerca da atuação do profissional enfermeiro no serviço especializado. Utilizando-se da seguinte pergunta norteadora: Quais as atividades desenvolvidas pelo enfermeiro que atua no atendimento ao paciente com transtornos mentais nos Centro de Atenção Psicossocial presentes na literatura já publicada?

o objetivo do presente estudo consiste em descrever a atuação do profissional de enfermagem no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mediante a literatura já publicada. E os específicos são: descrever e analisar a atuação do profissional do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) a luz do profissional de enfermagem de acordo com a literatura já publicada; descrever e analisar como funciona o trabalho da equipe multidisciplinar e discorrer sobre as dificuldades da atuação do profissional de enfermagem no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), através de uma revisão da literatura.

Visando, contribuir com os interessados no assunto, profissionais e gestores, no intuito de servir como base para melhoria das ações de enfermagem prestada ao paciente com transtornos mentais.

2. MATERIAIS E MÉTODOS

2.1 TIPO DE PESQUISA

O presente trabalho consiste em uma Revisão da literatura, onde Gil (2008, p. 68) diz que “a pesquisa bibliográfica pode ser entendida como o ato de ler, selecionar, fichar e arquivar conteúdos de interesse para a pesquisa a qual está sendo elaborada”. Assim, é fundamental nas práticas de investigações, pois através dos registros publicados o investigador tem a oportunidade de encontrar respostas de lacunas existentes.

2.2 BUSCA NA LITERATURA

Para coletar os dados foi realizada uma busca nas bases de dados: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana em Ciências de Saúde (LILACS), Scientific Eletronic Library Online (SCIELO) e Medline. Os critérios de inclusão foram: artigos publicados no período de 2015 a 2020, na língua portuguesa, com temas voltados para a atuação do profissional de enfermagem no serviço especializado CAPS e que estejam disponíveis na integra. Os critérios de exclusão foram: artigos duplicados, em outros idiomas, que não atendam ao objetivo do estudo.

A busca se deu utilizando os seguintes descritores: Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Saúde Mental e Enfermagem. Os Descritores em Ciências da Saúde (DECS) são: Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Saúde Mental e Enfermagem.

As buscas foram realizadas no primeiro semestre de 2021, foram encontrados 132 artigos, mas por todos não atenderem aos critérios de inclusão, alguns foram descartados, restando 14 artigos para serem utilizados na discussão.

3. RESULTADOS

A amostra final desta revisão foi constituída por 14 artigos científicos, selecionados pelos critérios de inclusão previamente estabelecidos. O quadro 1 representa as especificações de cada um dos artigos, distribuídos, segundo: ano; periódico; nome dos autores e título.

Quadro 1. Relação dos estudos selecionados quanto ao ano, periódico, autores e título entre 2015 e 2020.

AUTOR/ANO DE PUBLICAÇÃO TÍTULO PERIÓDICO METODOLOGIA PRINCIPAIS RESULTADOS ENCONTRADOS
ARAÚJO, Neuraci Gonçalves de; RUBINO, Juan Pablo; OLIVEIRA, Maria Inês Santana de (2018) Avaliação e intervenção na clínica em terapia cognitivo-comportamental: a prática ilustrada Livro Pesquisa bibliográfica Por meio do contato com as diferentes obras dos autores, sejam publicadas no Brasil ou no exterior, com os sites de diferentes órgãos científicos, bem como eventos e divulgações de cursos de pós-graduação, percebe-se uma tendência a se utilizar a concepção em que as TCCs englobam várias vertentes psicoterapêuticas, não se podendo, de fato, falar da existência de uma Terapia Cognitivo-Comportamental específica.
FERREIRA, Jhennipher Tortola, et al (2016) Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): Uma Instituição de Referência no Atendimento à Saúde Mental Rev. Saberes Pesquisa bibliográfica de natureza exploratória Os resultados mostraram que desde a sua criação o CAPS revelou um novo paradigma para com os cuidados aos pacientes com transtornos mentais onde a vida deles foi sendo cada vez mais estudadas e melhor cuidadas através dessas descobertas. Também se notou uma maior abrangência por uma grande parte da sociedade.
DIAS, Priscila dos Santos Bezerra; ZAVARIZE, Sergio Fernando (2016) A doença psicossomática e o uso da terapia cognitivo comportamental como intervenção Revista Científica Faculdades do Saber Estudo exploratório, através de uma pesquisa bibliográfica Existe uma grande relevância da TCC em relação à sua atuação nos aspectos psicossomáticos e, relacionando os princípios teóricos desses temas, foi possível verificar suas implicações, contribuindo para uma maior eficácia nos tratamentos clínicos.
MORAES FILHO I.M, et al (2015) Atuação dos enfermeiros nos centros de atenção psicossocial Revisão de Literatura. REVISA Revisão de literatura O enfermeiro no CAPS é um profissional colaborador, participante e

deliberativo dentro da equipe multiprofissional, porém seu trabalho

só será efetivo quando os usuários forem vistos em sua totalidade e

as barreiras da prática biologista forem rompidas.

GONÇALVES, J., & SILVA, J. V. (2018) Terapia Cognitivo-Comportamental em situação de Abuso Sexual: um Estudo de Caso Revista Psicologia, Diversidade e Saúde Pesquisa qualitativa de cunho exploratório Foi observado melhorias substanciais referentes às cognições, comportamentos e sentimentos da paciente, com expressivo aumento na qualidade de interações sociais e diminuição do sentimento de culpa, medo e de sintomas ansiosos.
CENCI, Mariana (2015) O cuidado na saúde mental: trabalho do enfermeiro no centro de atenção psicossocial Monografia Pesquisa exploratória, descritiva, com abordagem qualitativa Enfermeiros(as) entrevistados relatam que existe troca de diferentes olhares profissionais, sempre com o objetivo do trabalho interdisciplinar, como a realização da reunião de equipe e o matriciamento que é realizado entre todos da equipe.
HEINEN, Marina, et al (2019) Intervenção baseada em um protocolo de terapia cognitivo comportamental: um relato de experiência com crianças no ambiente escolar Aletheia Pesquisa de campo Considerando o conjunto de dados qualitativos obtidos constatou-se que o trabalho em grupo oportunizou o fortalecimento de habilidades adquiridas durante a intervenção. Além disso, percebe-se que esta proposta de intervenção pode ser um diferencial no que diz respeito ao trabalho de prevenção e promoção de saúde dos alunos, evidenciando a importância do cuidado com saúde mental no ambiente escolar.
BORGES, Cleber Augusto de Souza, et al (2016) O novo perfil profissional do enfermeiro frente ao centro de atenção psicossocial Rev Med Saude Brasilia Pesquisa de campo com abordagem qualiquantitativa, descritiva e transversal Predominaram enfermeiros do gênero feminino, com a média de idade de 35 anos, 06 anos de formação, ingresso recente na saúde mental. Destacaram-se as ações voltadas para o caráter administrativo e assistencial com ênfase no acolhimento e escuta, atendimento individual e em grupo. Os participantes ressaltaram a importância do aprendizado contínuo e a importância de acoplar características fundamentais como paciência, criatividade e altruísmo, como outras, nesse conhecimento adquirido no dia a dia do trabalho visto. Ainda, a maioria considerou insatisfatório o aprendizado durante o período acadêmico.
ARAÚJO, Iza Cartagena de; MARSICANO, Thaís Gomes (2017) Atuação do enfermeiro no centro de atenção psicossocial Temas em Saúde Pesquisa exploratória descritiva com uma abordagem bibliográfica integrativa Mediante a interpretação dos dados, fica evidente a relevância do enfermeiro em centros de atenção psicossocial, sua importância quanto à equipe e sua responsabilidade com relação ao tratamento de cada usuário, tendo que por essa razão manter-se atualizado.
CORRÊA, Samite Araújo de Souza (2017) A Importância do Enfermeiro para Pacientes Mentais no Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS) Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento Pesquisa bibliográfica Os resultados encontrados apontam para a necessidade de mudanças na formação profissional do médico, otimizando sua capacidade de diagnósticos precoces e encaminhamentos adequados, assim como a necessidade do aperfeiçoamento do processo de trabalho, no que tange ao atendimento em si, como na articulação entre as diferentes instâncias da rede.
SILVA, Dara Lorenna Ferreira da (2018) Papel do enfermeiro na saúde mental Trabalho de Conclusão de Curso Pesquisa bibliográfica Durante os estudos realizados e através das análises bibliográficas, pode se destacar a importância de abordar mais o tema aqui discutido, e de trabalhar com a equipe de enfermagem e familiares para que ocorra quebra de preconceitos, promovendo-se discussões individuais e coletivas sobre a pessoa com prejuízos mentais.
SANTOS, Elitiele Ortiz dos, et al (2020) Práticas de enfermagem no centro de atenção psicossocial Rev Bras Enferm. Pesquisa qualitativa e avaliativa Identificaram-se práticas voltadas para o sujeito e seus aspectos clínicos, sociais, de prevenção, tratamento e articulação com a rede de saúde. O cuidado à medicação é uma especificidade da enfermagem que visa promover autonomia e reinserção social. Há necessidade de maior articulação entre a equipe de enfermagem e farmácia, além da criação de espaços aos usuários para falar sobre a medicação
GOMES, Eliana da Rocha; COELHO, Hellen Patrícia Barbosa; MICCIONE, Mariana Morais (2016) Estratégias de intervenção sobre os transtornos do espectro do autismo na terapia cognitivo comportamental: análise da literatura Estação Científica Análise da literatura Os resultados esboçaram que atualmente as estratégias utilizadas pelos Psicólogos são: o TEACHH e o ABA, demonstrando-se eficazes na identificação do autismo e classificação dos déficits comportamentais.
SANTOS, Daiana Gleice Ramos (2016) Atribuições do enfermeiro no centro de atenção psicossocial para usuários de álcool e drogas Monografia Revisão de literatura, Na composição da equipe de saúde do CAPS ad, deve haver obrigatoriamente um enfermeiro, no mínimo, podendo ter dois ou mais. Os enfermeiros deste serviço desenvolvem funções de gerência e assistência à saúde, atuando no cuidado integral, que vai desde a triagem a inserção desses indivíduos nas terapias grupais, bem como o desenvolvimento e melhora do estado de saúde deste usuário.

Fonte: Autores, 2021.

Foi realizada leitura analítica dos artigos selecionados que possibilitou a organização dos assuntos por ordem de importância e a sintetização destas que visou à fixação das ideias essenciais para a solução do problema da pesquisa.

4. DISCUSSÃO

Foram apontados, cinco períodos históricos importantes que contribuíram diretamente em avanços e para a Reforma Psiquiátrica, conhecida como período de “periodização” (FERREIRA et al., 2016). O 1º período teve como momento marcante a necessidade urgente de movimentos sociais, o mais conhecido foi o Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM) que ocorreu no ano de 1978, que estavam pautados por princípios como a humanização dos hospitais, em busca de dignas condições de trabalho e melhora nos serviços ambulatoriais de saúde mental. Já no ano de 1980 ocorre o Movimento de reforma Sanitária, onde os profissionais da saúde  se envolvem nesse processo (FERREIRA et al., 2016).

No 2º período, houve o avanço do Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM), pois foi concedido maior momento para dar início a reforma e humanização dos hospitais psiquiátricos, ao mesmo tempo que a introdução desses profissionais nas secretarias estaduais de saúde, abrindo possibilidades para a intervenção em hospitais públicos e privados (1980-1987) (ARAÚJO; RUBINO; OLIVEIRA, 2018).

No 3º período (1987-1992) tem-se como momento principal a Luta Antimanicomial que tinha como objetivo conceder serviços alternativos aos hospitais psiquiátricos, ou seja, com vista a superar os conhecidos manicômios. Importa pontuar que é também neste período que ocorrem duas grandes conquistas: Constituição Federal em 1988 e aprovação da Lei Orgânica da Saúde em 1990 (ARAÚJO; RUBINO; OLIVEIRA, 2018).

No 4º período (1992-1995) foi identificado a consolidação da desinstitucionalização psiquiátrica, ou seja, foram contemplados alguns avanços como a implantação de serviços para substituir a internação, além de conceder maior prioridade para a participação dos usuários e familiares na melhora da qualidade dos serviços oferecidos na saúde mental (DIAS; ZAVARIZE, 2016).

Por fim, o 5º período inicia-se em 1995 no governo FHC, sendo que a partir do neoliberalismo são agravadas as expressões da questão social, como o desemprego que repercutiu de diferentes formas no cotidiano da população, inclusive resultando em determinadas reações/comportamentos que se tornaram demandas para a saúde mental (MORAES FILHO, 2015).

Diante disso, em decorrência de todos os apontamentos feitos têm-se na Reforma Psiquiátrica um movimento considerado como sendo revolucionário, extremamente propositivo, apoiando totalmente a luta a favor dos trabalhadores da saúde mental, em especial os Pacientes de transtornos mentais (PTM) e seus familiares, que precisam ser atendidos com base em suas necessidades, tendo como foco a equidade (CENCI, 2015).

Nesse contexto, é importante considerar que a Reforma Psiquiátrica de uma forma geral tem avançado, porém, tem chamado a atenção quanto a convocação à invenção de um “novo” que de fato consiga suportar o real da loucura, chamado aqui de imperativo à construção (BORGES et al., 2016).

A Reforma Psiquiátrica Brasileira vem evoluindo nos últimos anos por meio de um movimento pendular, embasado no reconhecimento de avanços relevantes e, por outro lado, impondo de forma permanente grandes desafios como se cada conquista alcançada fosse acompanhada da evidência de que existe ainda um longo trabalho a ser realizado com foco na construção efetiva de um novo modo mais humanizado de cuidar e tratar sujeitos que passam por problemas mentais (CORRÊA, 2017).

Portanto, como foi explorado, à medida que a Reforma Psiquiátrica consegue avançar, consequentemente passa a produzir novas demandas para além da clínica ser construídas também novas soluções para lidar com a loucura (GOMES; COELHO; MICCIONE, 2016).

Os CAPS possuem uma equipe constituída por diferentes profissionais nas mais diversificadas áreas de atuação, sendo importante a participação também dos assistentes sociais nesse processo (SANTOS, 2016). Entretanto, mesmo que a equipe multiprofissional responsável atue com um objetivo em comum, é importante dar uma ênfase maior ao trabalho enfermeiro no sentido da compreensão e fortalecimento das relações sociais e vínculos familiares do PTM, algo que está muito além do processo de saúde-doença, sendo uma das principais metas dos CAPS (ARAÚJO; MARSICANO, 2017).

Diante disso, diferentemente do que acontece nos hospitais psiquiátricos, nos CAPS o trabalho se propõe à recuperação da autonomia do sujeito para que seja superada a relação de dependência entre o PTM e a instituição, essa avaliação somente é percebida por meio das internações que se tornam cada vez mais frequentes, havendo a necessidade de ampliar também o período de permanência para que o diagnóstico seja concreto (GONÇALVES; SILVA, 2018).

O princípio da equidade colocado no Sistema Único de Saúde (SUS) rege da mesma forma o trabalho desenvolvido nos CAPS, onde cada usuário é atendido em consonância com as suas fragilidades, sendo assim, pode comparecer a instituição diariamente, por determinados dias durante a semana ou de vem em quando, somente quando for marcada a consulta; existe a realização das oficinas terapêuticas, psicoterapia, visitas nas residências que se transformam em ferramentas que possibilitam uma intervenção não somente junto ao PTM, mas que contempla toda a família do paciente (HEINEN et al., 2019).

Atualmente o desafio consiste na superação do aprisionamento como solução a “loucura”, fazendo valer que a sustentabilidade das respostas que são oferecidas a partir dos vários serviços alternativos, respostas que são conseguidas durante o dia a dia, além de avaliar, das mais complexas, as mais simples ações, carregadas de conhecimento, compromisso, força de vontade, profissionalismo e acima de tudo a indignação perante a opressão e discriminação contra o PTM (SILVA, 2018).

É dever do CAPS oferecer atendimento de modo diário, gerenciando os  projetos terapêuticos no intuito de  oferecer cuidado clínico e eficiente. Visando conceder a inserção social dos usuários por meio de ações intersetoriais que contemplem a educação, trabalho, esporte, cultura e lazer, montando estratégias para que os problemas sejam resolvidos com suporte de profissionais capacitados (SANTOS et al., 2020).

Existem 5 tipos de CAPS, I, II, III, ad (álcool e drogas) e o i (infantil e jovem). Cada um é destinado para uma determinada especialidade, sendo os l, II e III de maior abrangência em termos de atendimento à população, pois o CAPS l e II é destinado para tratamento de homens e mulheres adultos que necessitem de e acompanhamento conforme a necessidade regional, e o III é destinado para pessoas adultas, durante os sete dias da semana, com surto psicológico sem caráter institucional (SANTOS et al., 2020).

Enquanto profissão, a enfermagem surgiu no final do século XIX, já no século XX sofreu uma evolução com especialidade e funções próprias. Uns fatores importantes na progressão da enfermagem psiquiátrica foram às terapias somáticas, iniciadas na década de 30, contendo a terapia de choque insulínico, a psicocirurgia e a terapia eletroconvulsiva, exigindo assim habilidades médico-cirúrgicas por parte dos enfermeiros (ARAÚJO; RUBINO; OLIVEIRA, 2018).

A psiquiatria e a enfermagem iniciaram-se nos hospícios, cujo objetivo era a instituição disciplinar com o objetivo de promover uma reeducação do paciente, tendo o médico como autoridade a ser respeitada e seguida do modelo no projeto pedagógico, e os enfermeiros como auxiliares desse projeto, sempre executando as ordens disciplinares dos médicos. A enfermagem tinha por objetivo executar uma técnica disciplinar, propiciando no hospital um espaço de cura, gerenciando a equipe de trabalhadores como também destinando as tarefas, sempre por meio de orientação médica (SANTOS et al., 2020).

Conforme a evolução das terapias somáticas, os enfermeiros se especializaram visando melhorar sua atuação como enfermeiros da saúde mental. O exercício hodierno da enfermagem psiquiátrica surge em um cenário social e ambiental. Atualmente incorpora elementos da competência clínica, defesa do paciente e da família, responsabilidade fiscal, planejamento interdisciplinar, responsabilidade social e medidas éticas e legais (DIAS; ZAVARIZE, 2016).

Referente ao papel do Enfermeiro em Psiquiatria que atua no atendimento ao paciente com transtornos mentais nos Centro de Atenção Psicossocial, consiste dentre elas: Assistir o paciente; orientando nos aspectos que agrava sua saúde mental, e ajudar na aceitação do tratamento e normas da instituição; atuar como agente psicoterapêutico e socializador; colaborar na seleção de pessoal,  orientando no  relacionamento equipe-paciente; participar de ações que envolve à saúde mental, visando contribuir com o aperfeiçoamento da enfermagem e a utilização consciente dos recursos disponível para a realização da assistência; conhecer os recursos disponíveis no meio ambiente, visando utiliza-las como forma terapêutica (ambiente terapêutico); atuar com olhar focadas no seu psicobiológico; intervir nos momentos de crise; realizar o aconselhamento por meio de visitas nas residências (DIAS; ZAVARIZE, 2016).

A atuação dos enfermeiros nos CAPS está dividida em duas subcategorias entendidas são elas: “Atividades de campo exercitadas pelo enfermeiro dentro dos CAPS” e “Atividades de núcleo exercidas pelo enfermeiro dentro dos CAPS”. As Atividades Campo realizadas pelo Enfermeiro são definidas como aquelas que apresentam um espaço de limites imprecisos, no qual as profissões e disciplinas se influenciam para um ajudar e apoiar a outra”. Por outro lado, as Atividades de Núcleo realizadas pelo Enfermeiro são os saberes que dominam com exclusividade ou predominância, os objetos de suas ações e as suas finalidades enquanto produtores de específicos atos de saúde. As atividades de núcleo exercidas pelos enfermeiros podam sem as Atividades assistenciais-práticas entendidas como: Avaliação de enfermagem, Atendimento individual, Aplicação da SAE, Consulta de enfermagem e o Relacionamento terapêutico para com os pacientes (FERREIRA et al., 2016).

Os enfermeiros são especialistas conhecedores dos usuários e das famílias por isso, eles têm capacidade suficiente para assisti-los de uma maneira holística, enfatizando e sanando os desprovimentos referentes às ações educativas e preventivas. Assim, as atividades desenvolvidas para familiares nos serviços de saúde mental são de suma importância e precisam ser realizadas pelas enfermeiras, podendo incluir: consultas à família, grupos para familiares e visitas domiciliares (MORAES FILHO, 2015).

A respeito da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) em saúde mental, quando aplicado de maneira adequada, promove ordem e direcionamento aos cuidados prestados, estabelecendo como um método para auxiliar o enfermeiro a determinar suas ações, permitindo prever e a avaliar os resultados das intervenções, proporcionando, assim, os cuidados adequados ao doente mental. Desse modo, o profissional da enfermagem ao realizar o processo de enfermagem, passa ter elementos necessários para aplicar as intervenções conforme os aspectos biopsicossociais afetados dos pacientes com transtornos mentais (FERREIRA et al., 2016).

O uso do Diagnóstico de Enfermagem permite uma autonomia, historicamente inexistente da prática de enfermagem. O Diagnóstico de Enfermagem apresenta a condição do cliente, simplificando a prescrição de intervenções e a construção de parâmetros para base dos resultados, referente ao que é específico da enfermagem. O benefício final é diretamente para o cliente, que recebe a assistência de enfermagem eficiente e consistente fundamentado nos conhecimentos acerca do cliente e das intervenções de enfermagem que garante benefícios ao mesmo (SANTOS, 2016).

Dessa forma, é necessário que o enfermeiro realize uma comunicação ativa com esses pacientes, constituindo vínculos para que haja confiança e segurança. Assim o mesmo, sentirá tranquilidade ao falar de si, confiando e depositando credibilidade na assistência de enfermagem (SILVA, 2018).

Portanto, a atuação do enfermeiro funciona como parte da terapia, sendo fundamental ter conhecimento generalista para prestar cuidados ao paciente, pois ele necessita de acompanhamento terapêuticos e estratégias de intervenção, assim redesenhando a sua nova história (ARAÚJO; MARSICANO, 2017).

5. CONCLUSÃO        

O enfermeiro, é o profissional que desde o princípio trabalha com cuidados aos pacientes dentro dos hospícios, um lugar onde os doentes mentais ficavam simplesmente presos sem qualquer direito de expressar seus sentimentos e vontades ou mesmo de ver algum de seus familiares. Tendo em vista que os profissionais que trabalham naquele lugar, tinham uma visão completamente limitada sobre a doença e o paciente.

Entretanto somente a partir da Reforma Psiquiátrica, a enfermagem se transformou e acompanhou as mudanças desse tão importante setor de saúde e da sociedade, e o enfermeiro passou a promover atividades terapêuticas e consequentemente se viu como necessário realizar e/ou estabelecer o relacionamento interpessoal terapêutico enfermeiro-paciente-família, construindo assim o sujeito como cidadão e participante do tratamento, não excluindo o doente, muito menos a sua família.

Nesse contexto, retomando a questão norteadora: Quais as atividades desenvolvidas pelo enfermeiro que atua no atendimento ao paciente com transtornos mentais nos Centro de Atenção Psicossocial presentes na literatura já publicada? Foi constatado que as atividades desenvolvidas pelo enfermeiro que atua no atendimento ao paciente com transtornos mentais nos Centro de Atenção Psicossocial, são voltadas a assistir o paciente em suas diversas necessidades, visando ajudá-lo na aceitação do tratamento, focando no individuo como ser psicobiológico, acolhendo e promovendo uma relação com base na empatia e no olhar holístico sobre o paciente.

Apesar da deficiência de estudos, relatando sobre a atuação do enfermeiro nos CAPS. Ressalta-se que, esse profissional necessita se atualizar constantemente, de modo a ter pleno conhecimento de sua atuação nos CAPS. Ficando clara a importância da sua atuação, em atendimentos individuais, grupais, familiar, além da realização de visitas domiciliares. E assim, promover ações, visando contribuir positivamente para a reinserção desse paciente de volta ao contexto familiar.

Portanto, conclui-se que é necessário o enfermeiro realizar uma comunicação ativa com esses pacientes, constituindo vínculos para que haja confiança e segurança. Assim o mesmo, sentirá tranquilidade ao falar de si, confiando e depositando credibilidade na assistência de enfermagem.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Neuraci Gonçalves de; RUBINO, Juan Pablo; OLIVEIRA, Maria Inês Santana de. Avaliação e intervenção na clínica em terapia cognitivo-comportamental: a prática ilustrada – Novo Hamburgo: Sinopsys, 2018.

ARAÚJO, Iza Cartagena de; MARSICANO, Thaís Gomes. Atuação do enfermeiro no centro de atenção psicossocial. Temas em Saúde. Volume 17, Número 1 João Pessoa, 2017

BORGES, Cleber Augusto de Souza, et al. O novo perfil profissional do enfermeiro frente ao centro de atenção psicossocial. Rev Med Saude Brasilia 2016; 5(2): 217-233.

CENCI, Mariana. O cuidado na saúde mental: trabalho do enfermeiro no centro de atenção psicossocial. Monografia. Lajeado, dezembro de 2015.

CORRÊA, Samite Araújo de Souza. A Importância do Enfermeiro para Pacientes Mentais no Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS). Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 2, Vol. 13. pp 395-416 janeiro de 2017.

DIAS, Priscila dos Santos Bezerra; ZAVARIZE, Sergio Fernando. A doença psicossomática e o uso da terapia cognitivo comportamental como intervenção. Revista Científica Faculdades do Saber, Mogi Guaçu, 1(2), 108-120, 2016.

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[1] Graduanda em Enfermagem pela Universidade CEUMA.

[2] Orientador. Docente Universidade Ceuma – Campus Imperatriz; Doutoranda em Enfermagem e Biociências – UNIRIO/UFRJ e Mestre em Ciências Ambientais e Saúde PUC/GO.

Enviado: Setembro, 2021.

Aprovado: Novembro, 2021.

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