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Resenha: o mal-estar na civilização: o dilema da busca pelo prazer

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CONTEÚDO

RESENHA

CORRÊA JÚNIOR, Jurandir de Sousa [1]

CORRÊA JÚNIOR, Jurandir de Sousa. Resenha: o mal-estar na civilização: o dilema da busca pelo prazer. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 05, Vol. 02, pp. 163-172. Maio de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/busca-pelo-prazer

RESUMO

Esta resenha se propõe a fazer uma apreciação crítica da obra, “O Mal-Estar na Civilização” (1930), de Sigmund Freud, médico, cientista e fundador da Psicanálise, que viveu entre os idos de 1856 e 1939. Com o intuito de apresentar uma leitura interpretativa desta produção, de escopo antropológico, sociológico, bem como clínico, busca-se realizar um intertexto da natureza pulsional humana com sua trajetória na história. Assim, a dinâmica funcional das pulsões humanas, conforme o autor, revela um homem transiente que não é senhor em sua própria casa, mas que apresenta uma bipolaridade alternante no duelo das pulsões de vida e de morte. Portanto, gerando nas aventuras da vida em sociedade, um considerável mal-estar civilizacional que compromete a saga da busca pelo suposto prazer. Ademais, o breve contraponto apresentado por pensadores como Thomas Hobbes e Carl Gustav Jung, evidencia significativa consonância com o pensamento freudiano. Aliás, outros autores foram também cotejados, no sentido de complementar o embasamento teórico desta apreciação. Destarte, o homem revela-se como uma natureza dicotômica que alterna entre as maravilhas do gozo e as agruras do sofrimento.

Palavras-chave: Natureza pulsional humana, Homem transiente, Pulsões de vida e de morte, Mal-estar na civilização, Gozo e sofrimento.

1. INTRODUÇÃO

No dia 28 de agosto de 1963, o mundo tomou conhecimento do pronunciamento de Martin Luther King, uma representatividade política da luta pelo direito civil da população afro-americana. Seu famoso discurso, conhecido como “Eu tenho um sonho” (“I have a dream”), com apelos à abolição dos ranços da segregação racial norte-americana, nos legou profundas expressões que refletem o mal-estar na civilização da comunidade planetária.

Numa de suas alegações, Martin Luther King, assim expressara que: “aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos” (KING, 1963, [2022], p. 1). Deveras, um porta-voz da resistência negra que teve sua vida ceifada (foi assassinado em 1968), por confrontar o perfil agressor e segregador da raça-étnica branca ianque.

De fato, os humanos, desde os pródromos da história, vivem a digladiarem-se na arena da existência, revelando que o amor ao próximo, como fruto do prazer, muitas vezes é preterido em favor de hostilidades mútuas. Logo, evidenciando a natureza dicotômica humana que tramita entre as pulsões de vida e de morte, ou ainda, entre o gozo e o sofrimento; promovendo, não raro, mazelas na cultura e na civilização.

Nessa linha contextual, Freud, cientista e progenitor da ciência psicanalítica de perspectiva freudiana, estrutura a obra em questão (“O Mal-Estar na Civilização” – 1930) no viés de demonstrar as nuances desse modus operandi psiquicus da vida em sociedade. Vale salientar, no entanto, que a referida produção se trata de um texto escrito em 1929 (feito, porém, uma primeira publicação em alemão, em 1930) numa conjuntura histórica de turbulências políticas, econômicas e sociais de proporções globais, resultante do primeiro conflito mundial, ocorrido entre 1914-1918 (I Guerra Mundial). Além disso, tal escrito foi compilado com outros textos produzidos pelo mesmo autor que, em 1936, deram origem a uma obra maior, intitulada “O Mal-Estar na Civilização, Novas Conferências Introdutórias e Outros Textos (1930 – 1936)”.

Em síntese, “O Mal-Estar na Civilização” (1930), oferece a oportunidade de leituras interpretativas que possibilitam correlações profícuas com distintas realidades psicossociais, no tempo e no espaço; desvelando, com efeito, o paradoxal perfil do homo psiquicus às voltas com o altruísmo e o egoísmo. Portanto, esta resenha se propõe a analisar as entrelinhas do pensamento freudiano que compõem este texto/produção, no sentido de compreender e discutir sobre a dinâmica das pulsões de vida e de morte e seu desenlace na história da humanidade.

2. O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO: O DILEMA DA BUSCA PELO PRAZER

Homo homini lupus?[2] Sim, o homem é o lobo do homem (HOBBES, 1642, 2002). Assim como expressou Carl Gustav Jung (1875-1961), numa de suas entrevistas em 1959, concedida ao entrevistador John Freeman, “[…] o único perigo real existente é o próprio homem. Ele é o grande perigo, […]. […] Somos a origem de todo mal vindouro” (JUNG, 1959, 2021). Aliás, “atualmente, os seres humanos atingiram um tal controle das forças da natureza, que não lhes é difícil recorrerem a elas para se exterminarem até o último homem” (FREUD, 1930, 2010, p. 79). Deveras, o humano demasiado (trans) humano, em sua extensa trajetória, vive a buscar a tão desejada felicidade, aspirando se desenvolver. Porém, expressando inevitavelmente sua natureza dicotômica entre a vida e a morte, entre o gozar e o sofrer, amando, mas também exalando seu perfil agressor. Isto é, uma bipolaridade transiente que alterna entre o altruísmo e o sadismo. O homem é uma criatura paradoxal pois, à medida que se autoconstrói, proporcionalmente se autodestrói. Sua sexualidade e agressividade pulsionais o tramitam num continuum (in) evolutivo, que vai desde o berço até a sepultura.

Assim, sob tal perspectiva, “O Mal-estar na Civilização” (1930), um dos clássicos sociais das obras freudianas, apresenta de forma consistente a dinâmica do modus vivendi e operandi dos sapiens sapiens em sociedade. Com efeito, uma constatação antropológica, sociológica, bem como clínica que delineia a natureza construtiva e destrutiva do homem em função das pulsões de vida e de morte. Nesta obra, produzida no período Entreguerras (1918-1939), publicada por Sigmund Freud em 1930, fica evidente que apesar dos esforços civilizacionais agirem para domar os ímpetos hostis da espécie humana ao longo da história, a têmpera ideológica transcende o superego da civilização. Afinal, batalhas de descendentes dos Titãs[3] na psique, que ocorrem e se perpetuam no inconsciente individual e coletivo das subjetividades e intersubjetividades.

Portanto, a conjuntura sócio-histórica desta produção freudiana, revela um mal-estar endêmico vivido pelos homens em suas aventuras em sociedade. Na verdade, os estímulos civilizatórios empreendidos no sentido de mitigarem o potencial autodestrutivo humano, objetivando-lhe equilíbrio e harmonia, ao longo dos tempos, não raro, acabam por se metamorfosearem em guerras intermináveis que banham com sangue a saga humana. Porquanto, o homem é o amotinador e destruidor da própria espécie. Eis aí, o dilema da busca pelo prazer. A propósito,

[…] os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros (e sim, pelo contrário, um enorme desprazer), quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito. Porque cada um pretende que seu companheiro lhe atribua o mesmo valor que ele se atribui a si próprio e, na presença de todos os sinais de desprezo ou de subestimação, naturalmente se esforça, na medida em que a tal se atreva (o que, entre os que não têm um poder comum capaz de os submeter a todos, vai suficientemente longe para levá-los a destruírem-se uns aos outros), por arrancar de seus contendores a atribuição de mais valor, causando-lhes dano, e dos outros também, através do exemplo (HOBBES, 1651, 2017, p. 88, grifo nosso).

Nesse contexto, assim Freud, também expõe sua razão:

quem chamar à lembrança os horrores da migração dos povos, das invasões dos hunos, dos mongóis de Gêngis Khan e Tamerlão, da conquista de Jerusalém pelos piedosos cruzados, e ainda as atrocidades da recente Guerra Mundial, terá de se curvar humildemente à verdade dessa concepção. A existência desse pendor à agressão, que podemos sentir em nós mesmos e justificadamente pressupor nos demais, é o fator que perturba nossa relação com o próximo e obriga a civilização a seus grandes dispêndios. Devido a essa hostilidade primária entre os homens, a sociedade é permanentemente ameaçada de desintegração. O interesse do trabalho em comum não a manteria; paixões movidas por instintos são mais fortes que interesses ditados pela razão. A civilização tem de recorrer a tudo para pôr limites aos instintos agressivos do homem, para manter em xeque suas manifestações, através de formações psíquicas reativas. Daí, portanto, o uso de métodos que devem instigar as pessoas a estabelecer identificações e relações amorosas inibidas, [constrangidas], em sua meta; daí as restrições à vida sexual e também o mandamento ideal de amar o próximo como a si mesmo, que verdadeiramente se justifica pelo fato de nada ser mais contrário à natureza humana original. Com todas as suas lidas, esse empenho da civilização não alcançou muito até agora. Ela espera prevenir os excessos mais grosseiros da violência, conferindo a si mesma o direito de praticar a violência contra os infratores, mas a lei não tem como abarcar as expressões mais cautelosas e sutis da agressividade humana. Cada um de nós vive o momento em que deixa de lado, como ilusões, as esperanças que na juventude depositava nos semelhantes, e aprende o quanto a vida lhe pode ser dificultada e atormentada por sua malevolência. Ao mesmo tempo seria injusto acusar a civilização de pretender excluir da atividade humana a luta e a disputa. (FREUD, 1930, 2010, p. 49 – 50, grifo nosso).

Por conseguinte, sob tal ótica, torna-se explícito que para viver socialmente, demanda-se a contenção dos excitamentos do homem primevo, a fim de possibilitá-lo, minimamente, a vida em grupo. Ou ainda, para também coibir os prováveis e intensos vulcanismos provenientes do temperamento da psique humana, em constante estado ebulitivo – se assim podemos dizer.

Logo, em termos civilizatórios, conforme o pensamento freudiano, coexistem meios passíveis de serem praticados para atenuarem o mal-estar na cultura e na civilização. Haja vista, o desconforto que os seres humanos enfrentam em seus próprios templos e castelos existenciais, tendo que lidar, incessantemente, com os ímpetos destrutivos dos inquilinos que em seus corpos se encastelam. Por isso, lutam arduamente, pretendendo impedir, portanto, uma possível desintegração histórica, biopsicossocial e espiritual. Ademais, meios estes que prometem oferecer amparo frente às dores dos abandonos, da desconexão do eterno seio cosmológico da espiral da vida, dos vazios, dos furos profundos, presentes e persistentes nas subjetividades humanas.

Assim, a criação de mundos paralelos, alternativos à propensão da agressividade terráquea, apresenta-se como subterfúgio para as aflições e angústias da natureza caída dos homens. Dentre muitos, o praticar e o desenvolver da ciência. Meio sublimador que transmuta a destrutibilidade hominídea em sabedoria humana, propiciando uma compreensão mais abrangente do cosmos, a fim de nele atuar, visando-se desenvolvimento e evolução da cosmovisão antropológica, para uma vida melhor. No entanto, é válido reiterar que os humanos são mortais. Logo, suas ciências também finitas, por vezes, letais. Efêmeras, passageiras, falíveis, transientes, enfim. Não possuem a síntese de uma alquimia perfeita, que eleva o homem comum a ser um super-homem, um super-humano, afinal, um espírito livre.

O fato é que, muito embora tenha se desenvolvido vertiginosamente, a ciência secular, em pleno século XXI, demonstra que sua síntese não tem propiciado aos humanos um espírito livre. Pelo contrário, subserviência, ditaduras do saber que induzem o homo sapiens a uma nova cadeia e caminho (in) evolutivo, o cognominando de homo machinus[4]. Uma espécie, quiçá, de cyborg[5] ambulante, uma criatura misturada com ferro e barro, regida pelo novo humanismo digital, sob os ditames dos metaversos[6] propostos pela recém proclamada inteligência artificial.

Deveras, se em seu tempo Freud expressara que, “[…] os seres humanos atingiram um tal controle das forças da natureza, que não lhes [seria] difícil recorrerem a elas para se exterminarem até o último homem” (FREUD, 1930, 2010, p. 79); imaginemos, pois, se o sistematizador da psicanálise tivesse transcendido o tempo e, chegasse até nossos dias. Com efeito, estaria mais do que convencido de sua assertiva apregoada nos idos de 1930.

Quanto às artes, vale salientar, um poderosíssimo catalisador da criatividade pulsional humana. Isto, no sentido de canalizar energias potencialmente destrutivas, por caminhos que harmonizam os processos de ab-reação das emoções dos humanos. Todavia, a arte como instrumento de massificação[7], deixa sua essencial vocação libertária para, sobretudo, agitar ainda mais os intensos vulcanismos psíquicos provenientes da agressividade humana.

Quanto aos narcóticos, talvez, o caminho mais grosseiro, paradoxalmente agressor e estimulador da natureza agressora dos homens. Como uma proposta anestésica imediata para as agruras da vida, a narcotização do ser apresenta-se como sugestão nada saudável e pertinente para os impasses das relações sociais. Portanto, visando acalmar e anestesiar as dores do abandono e da falta, os homens embriagados ruminam seus próprios abandonos e sofrimentos num refluxo constante, a ponto de se desintegrarem biopsicossocial e espiritualmente. Logo, os narcotizadores da vida, antecipam sua irremediável destruição.

No que tange à religião, esta, um dos grandes ópios da humanidade. Porventura, uma espécie de prótese libertária que os humanos inventaram para consolar sua desconexão antiquíssima da divina transcendência, da força motriz arquigeradora, ou seja, de Deus, o supremo Criador. Destarte, tais próteses, buscam acalentar o sentimento de separação do seio mais antigo, prometendo uma reconexão imediata, todavia, procrastinando a redenção humana com doutrinas discursivas, laços e embaraços dogmatizantes que impedem o humano, demasiado humano de ser um espírito livre. De outra forma, um tipo de neurose obsessiva que busca garantias do além, mas que procrastina sua possível redenção, não se engajando num princípio de prazer que possa promover uma espiritualidade plena.

Em última análise, a obra “O Mal-estar na Civilização” (1930) de Sigmund Freud, desnuda o homem como uma criatura de categoria dicotômica fundamentada na bipolaridade pulsional de vida e de morte. Ainda complementando, um espécime que vive a andar de forma claudicante, utilizando todas as muletas neuróticas possíveis que a civilização lhe apresenta, já, desde tempos idos do início da história. Aliás, neuroses/próteses estas que possibilitam ao humano conviver com os imperativos presentes na matrix civilizacional. Contudo, importante fazer uma ressalva quanto aos serviços que as ações civilizatórias prestaram à natureza do homem primevo; pois, impedimentos foram precisos para domarem, de certa forma, os ímpetos destrutivos da espécie homo. Não obstante, a civilização chega em nossos dias, falhando miseravelmente. Afinal, pouco há que se comemorar!

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Atualmente, o mundo assiste estupefato aos horrores da guerra russo-ucraniana. Na verdade, um conflito que pretende ser mundial. Ventos geopolíticos não hesitam em trazer os anúncios de um iminente morticínio em massa, porquanto os humanos, demasiadamente (des)humanos, desde os pródromos da história, não aprenderam a viver como irmãos. Deveras, os homens são, por excelência, a origem dos males presentes e vindouros.

Um mal-estar civilizacional é sentido e explícito no semblante da comunidade planetária, pois, à medida que se autoconstrói, o próprio homem se autodestrói. Com efeito, uma natureza dicotômica que vive sob a égide das pulsões de vida e de morte, entre o gozo e o sofrimento, entre o amor e o ódio, entre o prazer e a dor. Uma estrutura de vida mal-aventurada, visto que, desde tempos antiquíssimos tem se desconectado do berço celestial, do seio cosmológico mais antigo, de Deus, a suprema força motriz geradora e criadora. Portanto, uma criatura transiente que, ora se apoia nas muletas das neuroses para sobreviver às agruras da cultura; ora, se blinda nas couraças das psicoses, visando fugir dos monstros totalitários da civilização que, muitas vezes, impõem realidades distópicas a serem vividas; ora, se esbalda nas loucuras dionisíacas das perversões, como forma de subverter irreverentemente os excessos e caprichos da matriz civilizatória, ao longo da saga histórica. Em resumo, o homo sapiens, forasteiro de longa trajetória, vaticina sua própria destruição. Pois, o que semeou, isto também ceifará.

Em suma, “O Mal-Estar na Civilização” (1930) de Sigmund Freud, configura-se como uma valiosa produção que propicia conhecimentos profundos acerca do homo psiquicus em sociedade. Haja vista que, seu conteúdo histórico, antropológico, sociológico, bem como clínico, não titubeia em transparecer ao leitor atento um prognóstico do futuro da humanidade. Ademais, uma obra tempestiva que transcende as barreiras do tempo, demonstrando a sua atualidade. Enfim, uma oportunidade de leitura instigante que descortina a natureza humana sob o escrutínio de sua essência histórica e biopsicossocial.

REFERÊNCIAS

BALDERSON, K; KLARENBERG, K. Eu ciborgue: como o Reino Unido quer tornar seus soldados ‘sobre-humanos’. Relatório chocante do Ministério da Defesa do Reino Unido defende aumento humano para fins de combate. RT NEWS – Russia Today, Rússia, p. 1, 25 de fevereiro de 2022. Disponível em: <https://www.rt.com/news/550609-uk-human-augmentation-warfighting/>. Acesso em 26 de fev. 2022.

CABRAL, João Francisco Pereira. Conceito de Indústria Cultural em Adorno e Horkheimer; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/cultura/industria-cultural.htm>. Acesso em: 27 de fev. 2022.

CORDEIRO, Tiago. Evolução: Homo Sapiens 2.0. Superinteressante, São Paulo, p. 1, 31 de outubro de 2006. Disponível em: <https://super.abril.com.br/comportamento/evolucao-homo-sapiens-2-0/>. Acesso em: 24 de fev. 2022.

FREUD ERA UMA NATUREZA COMPLICADA. CARL JUNG – SIGMUND FREUD. Inspiração Literária. Youtube. 11 de nov. de 2021. 4 min. 51s. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=1njXobMZfBA&t=9s>. Acesso em: 10 de fev. 2022.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias e outros textos (1930 – 1936). Obras completas volume 18. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HOBBES, Thomas. Do Cidadão. Coleção Clássicos Ciências Sociais. Tradução, apresentação e notas de Renato Janine Ribeiro. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

HOBBES, Thomas. Leviatã ou a matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Coleção fundamentos do direito. 3. ed. São Paulo: Ícone Editora, 2017.

KING, Martin L. Eu tenho um sonho (1963). “Pensador. Disponível em: <https://www.pensador.com/frase/NDQ4MzU2/>. Acesso em 20 de fev. 2022.

LEITÃO, Valton de Miranda. Tirésias entre Apolo e Dioniso. In: Apolo e Dioniso na Contemporaneidade. FEBRAPSI Notícias [53], Rio de Janeiro, dez. 2014. Disponível em: <https://febrapsi.org/wp-content/uploads/2016/12/1581a-febrapsi-informativo-53.pdf>. Acesso em 18 de fev. 2022.

PEREIRA, Itamar de Carvalho. Metaverso: interação e comunicação em mundos virtuais, 2009. 109 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação). Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Faculdade de Comunicação, Universidade de Brasília, Brasília – DF, 2009. Disponível em: <https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/4863/1/2009_ItamardeCarvalhoPereira.pdf>. Acesso em 20 de fev. 2022.

PLATZECK, José; TORRANO, Andrea. Zombis y cyborgs: La potencia del cuerpo (des)compuesto. Outra Travessia – Programa de Pós-Graduação em Literatura – Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, n. 22, p. 235-253, 2º Semestre de 2016. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/Outra/article/view/2176-8552.2016n22p235>. Acesso em 20 de fev. 2022.

PÖPPELMANN, Christa. Dicionário de máximas e expressões em latim. Tradução e adaptação de Ciro Mioranza. São Paulo: Editora Escala, 2010.

APÊNDICE – REFERÊNCIA NOTA DE RODAPÉ

2. “O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) viu a natureza humana de modo inteiramente negativo. Ele acreditava que um homem em princípio é um lobo para o outro, por conseguinte, amoral, cruel, preconceituoso, porquanto não se preocupa com nenhum poder mais elevado para garantir a ordem e a segurança” (PÖPPELMANN, 2010, p. 63).

3. Na mitologia grega, Apolo, considerado deus da sabedoria, da razão, representante da consciência; Dioniso, deus dos loucos prazeres, dos instintos primevos, representante da inconsciência ideológica humana. Ambos, descendentes dos Titãs (deuses ancestrais da teogonia grega antiga), duelam alegoricamente na mente e corpo dos humanos, na busca por supremacia. Ora, pela primazia do amor apolíneo, harmonia, prazer racional e civilizado; ora, pelo domínio das loucuras dionisíacas, dos excessos, dos vinhos existenciais inebriantes, das paixões calientes, dos prazeres irracionais, das agressividades narcísicas. Portanto, “[…] Apolo e Dioniso exprimem, de um lado, o pressuposto para o conhecimento e a arte, enquanto, do outro é a fragmentação e o caos” (LEITÃO, 2014, p. 7).

4. “[…] ‘As próximas gerações do homo sapiens serão capazes de controlar sua própria evolução. A tecnologia e os avanços da genética vão nos levar a níveis evolutivos nunca vistos no planeta’, diz o matemático inglês Ian Pearson. Para ele, a civilização está para passar por novos estágios evolutivos. ‘A partir de 2015, os robôs vão se tornar uma nova forma de inteligência superior à humana. Quando isso acontecer, vamos começar um processo de união do homem com a máquina’, ele prevê. Primeiro, diz Pearson, virá o homo cyberneticus, formado pela junção do organismo humano com microchips. Depois, chegará o homo hybridus, com mutações genéticas que facilitem a incorporação de nanotecnologia. Por fim, virá a era do homo machinus, quando as máquinas farão parte da própria composição do nosso corpo. ‘Em 2200, nós mesmos seremos capazes de entrar [penetrar] na internet [internet dos corpos], porque nós e os computadores teremos elementos em comum’ […]” (CORDEIRO, 2006, p. 1).

5. “O cyborg – organismo cibernético – é uma figura monstruosa, um híbrido entre o orgânico e o artificial, retomado por Haraway em seu famoso ‘Manifesto para Cyborgs’ (1985). Para Haraway é o novo monstro contemporâneo que põe em causa as distinções dicotômicas que regem o pensamento falocêntrico ocidental e, ao mesmo tempo, nos permite libertar-nos da velha ideia de Homem, que é concebido como um ser idêntico a si mesmo, reproduzindo-se em seu sexo e em seu trabalho de uma realidade social hierarquizada em termos de gênero e raça […]. Essas noções representam a experiência histórica do patriarcado, colonialismo e capitalismo. Pelo contrário, o cyborg alude a um novo horizonte de sentido, onde nos encontraríamos diante de um mundo em que os limites entre a natureza e a cultura, o objeto e o sujeito, o mecânico e o orgânico, homens e mulheres, tornam-se difusos […]. [Enfim], […] o cyborg, um corpo híbrido, um composto de máquina e organismo, [que encerraria] sua [própria] monstruosidade. […] [Ou ainda, o cyborg como um] acoplamento entre o orgânico e o tecnológico, que possibilita um sistema híbrido, pós-binário e pós-genérico” (PLATZECK; TORRANO, 2016, p. 237-238, tradução nossa). Isto posto, porventura, não se está à frente da última grande tentação da humanidade em dilacerar ainda mais sua estrutura histórica, biopsicossocial e espiritual em prol da busca de um suposto prazer, utópico, inatingível? Eis a questão! Outrossim, rematando o exposto, é válido ilustrar um recorte atualíssimo que relata a realidade supracitada: “[…] uma coisa inquietante, embora ainda mais preocupante, [é que] a determinação de transformar soldados e cidadãos em ciborgues não se restringe à Grã-Bretanha. O ‘Centro de Inovação’ da OTAN ao longo de 2020 e 2021 publicou uma série de artigos bizarros e convocou várias conferências sobre o tema “guerra cognitiva” – uma doutrina que busca militarização da ciência do cérebro e respostas para a questão candente de como libertar a humanidade das limitações do corpo. A aliança militar liderada pelos EUA visa alcançar o domínio nessa esfera especulativa e sinistra até 2040 e, a serviço do projeto, o Centro de Inovação empregou vários futuristas para prever cenários para garantir essa primazia e iniciar a guerra cognitiva” (BALDERSON; KLARENBERG, 2022, p. 1, grifo do autor).

6. Por metaverso, grosso modo, entende-se como uma “[…] terminologia utilizada para indicar um tipo de mundo virtual que tenta replicar a realidade através de dispositivos digitais, não necessariamente de imersão, ou seja, que desloquem os sentidos de uma pessoa para esta realidade virtual [mediada por avatares]” (PT. WIKIPEDIA.ORG, [2009] apud PEREIRA, 2009, p. 76). Sob outra perspectiva, uma nova tentativa (des) civilizatória do recente humanismo digital, no sentido de prender os chamados nativos digitais aos simulacros da realidade aumentada ou hiper-realidade virtual em franca expansão. Onde, os infelizes (trans) humanos, terão uma nova vida, gozando de um novo Éden paradisíaco digitalizado que, supostamente, lhes oferecerá a tão sonhada liberdade e felicidade que não tiveram na vida real. Entretanto, deles escondendo seu terrível destino: abolição irreversível da espécie sapiens, para então, tornarem-se imortalizados através das couraças alienantes dos cyborgs, do homo machinus.

7. “A indústria cultural, segundo Adorno e Horkheimer, possui padrões que se repetem com a intenção de formar uma estética ou percepção comum voltada ao consumismo. […] A indústria cultural apresenta-se como único poder de dominação e difusão de uma cultura de subserviência. Ela torna-se o guia que orienta os indivíduos em um mundo caótico e que por isso o desativa, desarticula qualquer revolta contra seu sistema. […] Ela transforma os indivíduos em seu objeto e não permite a formação de uma autonomia consciente” (CABRAL, 2016, p. 1).

[1] Pós-graduação lato sensu em antropologia e música. Graduação em história e música. Graduação em andamento em psicologia.

Enviado: Março, 2022.

Aprovado: Maio, 2022.

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