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Mães narcisistas: a maternidade tóxica e os possíveis danos psico-comportamentais aos filhos

RC: 124470
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/maternidade-toxica

CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO 

ABREU, Liliane Alcântara de [1], MELO, Natalia Sayuri [2]

ABREU, Liliane Alcântara de. MELO, Natalia Sayuri. Mães narcisistas: a maternidade tóxica e os possíveis danos psico-comportamentais aos filhos. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 08, Vol. 04, pp. 15-47. Agosto de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/maternidade-toxica, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/maternidade-toxica

RESUMO

Este artigo teve como finalidade gerar uma reflexão teórica sobre as mães narcisistas. O tema é um tabu social pautado na figura imagética da genitora santificada, e, portanto, que supostamente não fere seus filhos física, psicológica, emocional e/ou moralmente de forma proposital contínua. Diante dos relatos colhidos – de entrevistas que geram livros e artigos científicos – nos últimos anos por profissionais de saúde mental, está sendo possível fornecer dados de que essas mulheres adoecidas estão produzindo em massa outros indivíduos adoecidos psiquicamente. Desta maneira, as autoras tiveram como questão norteadora: como e por que comportamentos materno-narcisistas podem gerar filhos com adoecimentos psico-comportamentais? Assim, o objetivo geral se fundamentou em detectar como se constrói e se comportam as mães narcisistas, e quais as implicações psicológicas e comportamentais em seus filhos enquanto vítimas diretas dessa relação materna. A hipótese firmou-se no pressuposto de que uma mãe com transtorno de personalidade narcísica pode ter seu comportamento potencializado e/ou reforçado diante do não reconhecimento sociofamiliar de sua demanda. Para tanto, como metodologia a pesquisa se embasou em vários autores de apoio, sendo maior ênfase em Silvia Zornig (2010) e Ana Paula Marson (2008), Sigmund Freud (1980; 2004) Melanie Klein (1966; 1991), Donald Winnicott (1983), Andrea Ferrari, Cesar Picinini e Rita Lopes (2006), Prado (2004), Karyl McBride (2009; 2011), Fernando González (2015), Liliane Abreu (2021). Ademais, a análise de duas entrevistas podem ajudar na compreensão prática desses estudos teóricos. Como resultado e conclusões, compreendeu-se que as mães narcisistas e seus filhos necessitam de atenção psicológica para a quebra e descontinuidade de paradigmas de destruição e manipulação. É necessário de fato refletir e discutir como proteger esses indivíduos afetados e igualmente tratar essas mulheres adoecidas, além da necessidade da quebra de tabus sobre a temática, gerando-se a educação e discussão social. Ademais, que o poder público crie e incentive novas políticas, assim como, refletir-se sobre o processo da maternidade para a mulher contemporânea, desconstruindo a hipotética santidade desse status; revisando inclusive dogmas religiosos edificados junto com o surgimento do patriarcado.

Palavras-chave: Comportamento, Maternidade, Narcisismo, Psicologia, Relação Tóxica.

1. INTRODUÇÃO

Este artigo tem como finalidade fazer uma reflexão sobre a temática das mães narcisistas. Para tanto, necessitou-se produzir não apenas uma imersão em pesquisa de teorização, mas o cruzamento com relatos reais derivados dessa demanda, isso pois, as sociedades como um todo mantém o tabu da mãe imaculada e em status de quase santidade, supostamente incapaz de destruir seus próprios filhos, e daí, qualquer ação de mais rigidez é normatizada e vista apenas como educativa, embasados até com argumentos como “mãe é mãe e está tudo bem”.

Na realidade, graças aos estudos que vêm surgindo a partir de relatos de indivíduos adoecidos por essas mães, e pela observação e trabalhos publicados dos profissionais de Psicologia diante de genitoras com o perfil narcísico patológico, elas estão sendo mais visíveis e passíveis de terem seus comportamentos mapeados.

Desta maneira, teve-se como questão norteadora: como e por que comportamentos materno-narcisistas podem gerar filhos com adoecimentos psico-comportamentais? Assim, o objetivo geral se fundamentou em detectar como se constrói e se comportam as mães narcisistas, e quais as implicações psicológicas e comportamentais em seus filhos enquanto vítimas diretas dessa relação materna. Como consequência, os objetivos específicos se desenvolveram em compreender a diferenciação de um comportamento materno comum (entendido como normal) do psicopatológico; distinguir como essas mães narcisistas se apresentam; refletir como proteger indivíduos afetados e igualmente tratar essas mulheres adoecidas.

A hipótese firmou-se no pressuposto de que uma mãe com transtorno de personalidade narcísica pode ter seu comportamento potencializado e/ou reforçado diante do não reconhecimento sociofamiliar de sua demanda.

Portanto, como metodologia, a pesquisa se fundamentou na intersecção dos levantamentos de revisão bibliográfica para a discussão teórica. As autoras buscaram o embasamento em Silvia Zornig (2010) e Ana Paula Marson (2008), que apresentam a construção do entendimento de maternidade. Liliane Abreu (2021), e, Abreu e Natalia Melo (2022) citam a suposta santidade materna conduzida através dos tempos, enquanto Bosco Oliveira e Ingrid Oliveira (2009) colaboram na descrição do mito de Narciso. Sigmund Freud (1980; 2004) explana como e quando ocorre o surgimento do transtorno narcísico no indivíduo. Isto é igualmente apoiado e visto pela perspectiva de Melanie Klein (1966; 1991) e Hanna Segal (1975), Donald Winnicott (1983) e Alexander Newman (2003), Jacques Lacan por Vladimir Safatle (2007) e Paulo Dalgalarrondo (2019).

Andrea Ferrari, Cesar Picinini e Rita Lopes (2006) trouxeram detalhadamente o processo de investimento libidinal de algumas mães durante a gestação, e Maria do Carmo Prado (2004) dissertou sobre a evolução do quadro que se associa em gravidade à perversidade moral. David Zimerman (2004) reforçou o processo psicopatológico com as duas disposições do narcisista em pele fina e pele grossa. Assim, Karyl McBride (2009; 2011) contribuiu fortemente explicando os tipos de mães narcisistas, enquanto Fernando González (2015) fez o cruzamento da tríade sombria, composta pelos sujeitos psicopatas, os maquiavélicos e os narcisistas, e como cada um se comporta para atrair parceiros que lhes servem de vítimas. No caso dos narcisistas, os parceiros escolhidos lhes dão os frutos para suprir suas necessidades contínuas: os filhos. Ademais, Zygmunt Bauman (2008a; 2008b; 2009), Mary Douglas e Baron Isherwood (2009) foram citados dando apoio à explanação de González (2015), para se compreender brevemente pelo prisma antropológico, como os sujeitos narcisistas seriam absorvidos e multiplicados nas sociedades contemporâneas diante do reforço da cultura do descarte rápido.

Ademais, dois relatos reais de vítimas filhas de mães narcisistas serão trazidos para análise breve de caso para ajudar na compreensão prática dos estudos teóricos e autores referenciados. Tais casos são conteúdo de um trabalho de dois anos de pesquisa de uma das autoras deste artigo e fazem parte de relatos integrais que foram publicados em livro (ABREU, 2021). A brevíssima apresentação e discussão sobre ambas entrevistas será feita de forma inédita aqui, e dessa forma, conduzir à compreensão em potencialidade de como o narcisismo materno pode se apresentar e os resultados em danos aos filhos.

O CID-10 (1993/2011) também foi usado como apoio na teorização. O cruzamento de todas as informações dispostas no corpo deste artigo possibilitou a condução à reflexão, e por fim, às considerações finais.

2. MÃES NARCISISTAS: SURGIMENTO, TIPOLOGIAS E AGRAVANTES

Para alguns autores, como Zornig (2010), o amor entre pais e filhos somente foi possível graças ao discurso romântico e do Iluminismo no século XVIII. Por meio da ascensão do sentimentalismo, os arranjos conjugais passaram a ser realizados por escolhas individuais. Isso permitiu que o casal escolhesse a melhor maneira de criar seus filhos, e, dessa forma, se responsabilizar pelo seu estado emocional, intelectual e social. A autora ainda explica que a responsabilidade foi muito além de garantir a sobrevivência da criança, passando a levar adiante os elementos da constituição psíquica dos pais aos filhos.

Para a escritora, a família contemporânea se constitui como um espaço de transmissão afetiva e simbólica não podendo ser restrita somente ao nascimento de um filho. Ao valorizar afetivamente a criança, os pais revivem questões de seu próprio narcisismo primário, e esse bebê seria uma forma de satisfazer desejos e reparar feridas narcísicas de seus cuidadores. Logo, a parentalidade é um exercício realizado muito antes do nascimento de um filho. Por meio do desejo e da imaginação, muitos pais vão se descobrindo no processo da gravidez (que é considerado um processo transitório). Zornig (2010) indica que a vontade de ter uma criança está ligada aos processos biológicos para a manutenção da espécie e ao inconsciente, principalmente por parte da mulher, para dessa forma suprir um papel de mãe e elaborar sua feminilidade.

Ela cita Golse (2002; apud ZORNIG, 2010) para explicar que existem quatro tipos de fantasias parentais sobre a criança. A primeira seria a fantasmática, que reacende a história infantil dos pais. A segunda chama-se imaginária e tem ligação com o físico imaginado para a criança. A terceira é a narcísica, ligada aos ideais dos pais. A última é chamada de mítica e tem a ver com as representações sociais que a criança terá que suprir naquela época cultural.

Portanto, assim que um bebê nasce, traz desejos e perspectivas criadas para reparar falhas na vida infantil de seus pais. Zornig (2010) enfatiza que fantasmas edípicos também reaparecem com o intuito de reparação, favorecendo a criação de laços parentais e o desenvolvimento afetivo da criança. Ademais, o comportamento parental não está linearmente conectado com a história pregressa dos pais, mas sim, com suas fantasias narrativas. Nem sempre o que é contado ocorreu, já que a realidade é manchada pela imaginação do sujeito. Isso faz com que os pais reconheçam o bebê não somente por sua vivência, mas também mediante sua imaginação.

Quanto ao trabalho psíquico materno, é necessário que a mãe passe por uma reativação do seu passado, mas faça uma atividade de alteridade com o bebê. Em outras palavras, olhar para dentro e para a sua infância, mas não esquecer que o filho é um ser externo que vai além de suas representações internas. Zornig (2010) explica que sem esse exercício do olhar de alteridade, muitas mães se perdem, tentam a todo custo reter o objeto perdido e não conseguem olhar para o bebê como um ser individual que merece ter sua própria trajetória.

Essa falta materna poderia explicar a maternidade narcísica. Quando a mãe não consegue dividir suas fantasias internas desse bebê externo, ela reage como se a criança fosse uma extensão do seu ser e das falhas de sua infância.

O processo gestacional evoca uma série de processos em uma mulher, sejam eles físicos, emocionais ou psicológicos. Marson (2008) explica que alguns sentimentos persecutórios podem ser desencadeados durante uma gestação em algumas mulheres. A genitora pode imaginar que, ao engravidar, está atacando a própria mãe. Isso se agrava ao imaginar que alguém possa roubar sua criança para a castigá-la. Diante de uma sequência imaginária como essa, a gestante produz um sentimento de culpa pela gravidez, e, em paralelo, de ser atacada. A maternidade é, portanto, algo que a mulher constrói psíquica e socialmente ao longo das mudanças corporais que vivencia.

Essa autora ainda descreve que somente após o parto, é que esse filho concebido como objeto fantasioso durante a gestação efetivamente se torna real. Dessa forma, o encontro com o novo e desconhecido, pode causar ansiedades que geram a sensação de castração e de esvaziamento. Outro aspecto, é que quando ocorre um nascimento prematuro ou de risco, a mãe pode ficar frustrada por não vivenciar esse momento como planejado. Logo, podem surgir sentimentos de fracasso, incapacidade e inferioridade nessa genitora que se encontra diante de uma dor fantasiada por supostamente não conseguir gerar o bebê apropriadamente. Porém, para que esse bebê sobreviva à ressonância materna, faz-se necessário que a frustração dê lugar ao desejo. Quando o filho real é destoante do filho fantasioso, ocorre uma ferida narcísica nos genitores que pode comprometer o desenvolvimento emocional entre pais e filhos. Dependendo de como for a constituição psíquica dos progenitores, culpar o bebê pode ser visto erroneamente como solução, todavia, disparando a rejeição. Com isso, a mãe passa a ter dificuldade em encontrar no filho sua identidade materna, resultando em uma relação que precisa ser ressignificada. (MARSON, 2008)

A maternidade é uma condição feminina que ainda hoje carrega o imaginário coletivo de que toda mãe é provida do sentimento de abnegação e amor incondicional. Sim, muitas podem ser zangadas e brigar, mas elas estarão comumente alertas e defendendo suas crias como leoas. Exatamente por isso, o período gestacional é cercado de cuidados e atenções voltados especificamente à esta mãe e que resgata valores da própria ancestralidade humana que evoca a construção mítica do divino. As deusas, rainhas e heroínas estariam carregadas com este poder divino ao darem à luz, e na cultura ocidental esse potencial é visto com mais força na grande mãe Maria, que concebeu Jesus. (ABREU, 2021)

Esse entendimento cultural que atravessou os séculos e culturas é tão presente, que ainda hoje comumente ouve-se pessoas falando no cotidiano: “não importa o que ela faça; ela é sua mãe!” Ou, “mãe é mãe, e ela só quer o seu bem”. Outra coisa que igualmente pode-se constatar – pela população comum e até por profissionais da área – nos casos judiciais de vara de família em que a mãe é concretamente denunciada por efetiva e contundente violência e maus-tratos contra a criança, e o pai ou outros denunciantes tentam preservar a integridade do menor, é muitas vezes o surgimento da frase: “criança tem que ficar com a mãe e não com pai”. Veja que não importa o estrago físico e psicológico que esta mulher proporcione à criança, socialmente ela continua sendo colocada como intocável (mesmo não sendo), e isto causa outros sérios problemas de amplo espectro. (ABREU, 2021)

Abreu e Melo (2022) reforçam esse entendimento de aspecto específico como sendo parte de um constructo social edificado no patriarcado e fortalecido no século V por Santo Agostinho de que toda mãe – o suposto patamar mais alto da figura feminina compreendida como digna – deva ser vista como um simbolismo da própria Virgem Maria, pois é a formatação da mulher imaculada, (quase) perfeita e supostamente desprovida de qualquer intenção ou distorção paralela de malefício que possa ferir ou destruir os filhos. Tais concepções foram unificadas às leis do direito romano – Corpus Juris Civilis ou código de Justiniano I –, impostas por Justiniano I no século V, em que a conduta social prevista em lei era de obediência e reprodução por parte da mulher, compreendida como mera procriadora. Essa e outras conduções agregadas fortaleceram essa concepção de mãe intocável.

Mas, para entender todo esse processo sobre o narcisismo, é necessário primeiro mergulhar na própria lenda de Narciso para desembocar no transtorno psicológico.

Narciso era filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope. Rege a lenda que era um jovem belíssimo, mas, extremamente orgulhoso, arrogante, vaidoso e insensível, e que desprezava todos que tentavam aproximar-se dele, inclusive as ninfas (e especificamente Eco, que na época foi castigada e só conseguia repetir as últimas palavras que ouvia de alguém). Assim, elas pediram que os deuses dessem uma lição ao rapaz. Afrodite lançou-lhe o castigo de apaixonar-se por seu próprio reflexo nas águas do lago da ninfa Eco. Narciso passava todo tempo contemplando sua autoimagem e dizia “Você é lindo”, sem perceber a presença de Eco, que repetia “Lindo…lindo…lindo”. Narciso achava que a pessoa nas águas (ele mesmo) estava respondendo. Ele definhou diante de seu amor e acabou cometendo suicídio se jogando no lago e se afogando. Depois de sua morte, Afrodite o transformou na flor narciso. (OLIVEIRA e OLIVEIRA, 2010)

Para Freud (1980), a relação física e psíquica do recém-nascido com seus cuidadores pode produzir entendimentos de desamparo que repercutem em profunda angústia psíquica, e impactando nas pulsões. Ele entendia e nomeava esse processo de desamparo primário, sendo ainda, ligado diretamente ao narcisismo primário do indivíduo. O desamparo secundário viria como consequência dessa angústia, fazendo-o reviver esse sentimento, disparando o narcisismo secundário. Freud (2004, p. 98) afirmou que não é “nenhuma condição nova, mas, como sabemos, a amplificação e explicitação de um estado que já existia antes”.

Esse autor também diferencia a libido narcísica e a objetal. Conhecida como o amor por si, a libido narcísica é inversamente proporcional à objetal. Enquanto uma aumenta, a outra decresce, por isso, quanto mais amor objetal (o amor ao outro), menos amor em si. Quanto mais amor em si, menor será o amor objetal. Logo, o estado autoerótico consome a libido objetal, e, dessa forma, não sobra libido o suficiente para ser investida no objeto amado. O contrário também ocorre, pois o amor objetal consome a libido, fazendo com que a postura narcísica de grande amor em si seja desconsiderada.

Dalgalarrondo (2019) expressa que o narcisismo como patologia é compreendido como o amor do indivíduo por ele mesmo. Isto é apoiado por vários teóricos como Freud (1980; 2004), Lacan (SAFATLE, 2007), Klein (1991; 1966; SEGAL, 1975), Winnicott (1983), Zimerman (2004) e Prado (2004). Todos esses autores explanam que diante de agravo, o desdobramento para o transtorno personalidade narcisista, é um tipo de estrutura psíquica – como a pedofilia, o sadismo, a psicopatia, o autismo, a esquizofrenia, e outras –, e possui leituras de perfil muito peculiares que ainda apresentam níveis de gravidade. Outros, como M. Mahler (1975; apud ZIMERMAN, 2004), acordam com os estudiosos já citados que o transtorno surgiria no indivíduo ainda bebê, na fase de separação e individuação, que equivale ao surgimento do eu psíquico. (ABREU, 2021)

Klein (1966; 1991; SEGAL, 1975) foi uma dessas pesquisadoras que reforçou esse entendimento de individuação, e foi a psicanalista pioneira a trabalhar especificamente com a infância, desenvolvendo por meio disso o pensamento de que o psiquismo se origina com o vínculo da mãe com o bebê. Ela igualmente identificou que todos os pontos da segunda tópica (Id, Ego e Superego) de Freud (1980; 2004) estariam presentes no indivíduo desde tenra idade, e seriam responsáveis pelo desenvolvimento psíquico precoce.

Para a autora, o Superego seria formado desde o início da vida, e, sendo assim, anterior ao Complexo de Édipo freudiano. Ademais, o Superego não seria apenas um censurador, mas potencialmente sádico e cruel. Logo, segundo a autora, a posição esquizoparanoide regulariza os primeiros três meses de vida e seria o demarcador durante esse período.

Dessa forma, e conforme Klein (1966; 1991; SEGAL, 1975), no primeiro momento, a criança tem a angústia persecutória com relação à mãe, ou seja, ela tem o medo de ser atacada por aquele seu primeiro objeto de amor e como forma de represália por ela ter hipoteticamente tentado destruir o corpo dessa mãe. A criança tem que lidar com a relação do seio bom e do seio mau. Isso estaria ligado aos sistemas de recompensa: quando ela se alimenta direito, tem o seio para alimentá-la; esse seria o seio bom. O seio mau é tudo o que causa angústia e sensação de perseguição. Isso ocorreria, por exemplo, quando a mãe amamenta de forma rápida por algum compromisso, ou qualquer outro fator. (ABREU, 2021; ABREU e MELO, 2022)

Essa questão da amamentação é de extrema importância de forma bilateral, mas para a criança será fundamental para criar o vínculo emocional, da mesma forma, como esse vínculo seria interpretado. E quando se fala da amamentação, não é necessariamente o seio físico materno, mas até a mamadeira. Aqui pode-se entender como aquele momento de troca afetiva em que o cuidador possa despender minutos de atenção à criança, e ela geralmente retribui olhando e passando a mão no rosto e/ou costas dessa pessoa que a está amamentando (por seio ou mamadeira). Outro ponto importante na formação do psiquismo do bebê estaria ligado ao Eu (ego) se proteger da angústia com o mecanismo de defesa.

Portanto, para Klein (1991; 1966; SEGAL, 1975), em um primeiro instante, seria a angústia depressiva em que o Eu sentiria culpa pela pulsão agressiva, ou seja, aquele fragmento que a criança sente raiva contra o objeto amado (a mãe) tentando destruí-lo, o que leva ao momento seguinte, de se arrepender e sentir a angústia. Como segundo fator, haveria um aumento de integração com a mãe nos aspectos bons e maus, reforçando a questão do seio bom e mau. Isso levaria ao terceiro pensamento de que através do mecanismo de defesa, ocorreria uma reparação da dor das fantasias agressivas com os objetos amados. Haveria aqui a integração afetiva, em que a criança aceitaria a mãe e ela se tornaria verdadeiramente real.

Winnicott (1983; NEWMAN, 2003) é outro autor que traz a questão do narcisismo, mas tanto pela ótica da mãe, quanto do filho. Em suas reflexões pelo prisma dos bebês, ele afirma que ocorre uma traumática ruptura do indivíduo com seu self diante da quebra de sua confiança durante os cuidados da genitora, o que ele acorda com Klein (1966; 1991; SEGAL, 1975). A criança ficaria com medo da aniquilação, e para tanto, criaria um mecanismo de defesa voltando-se para si mesma, logo, potencializando seu Eu sem reconhecer o outro e si mesmo como indivíduos independentes, o que dispararia o narcisismo nessa criança.

Quando o narcisismo se apresenta pelo viés maternal, vê-se essa mãe que recebeu uma atenção muito mais contundente durante o período gestacional e diferenciada de outros momentos de sua vida. Isso faria com que algumas dessas genitoras transferissem esse olhar para si, diretamente para a criança, construindo a percepção de que seriam um único indivíduo, apesar de saber-se que são dois seres. (WINNICOTT, 1983; NEWMAN, 2003)

Portanto, os transtornos de personalidade são perturbações que afetam gravemente o comportamento, mas divididos em três blocos de diferenciação pela Organização Mundial da Saúde através da descrição dos Transtornos da Personalidade e de Comportamentos (CID-10, 1993/2011). Eles apresentam-se, por exemplo, no Transtorno Narcísico (ou Transtorno de Personalidade Narcísica) e no Transtorno de Personalidade Antissocial (ou psicopatia e sociopatia, como são mais comumente citados).

Estes tipos de condição (Transtornos de Personalidade) abrangem padrões de comportamento profundamente arraigados e permanentes, manifestando-se como respostas inflexíveis a uma ampla série de situações pessoais e sociais. Eles representam desvios extremos ou significativos do modo como o indivíduo médio, em uma dada cultura, percebe, pensa, sente e, particularmente, se relaciona com os outros. Tais padrões de comportamento e funcionamento psicológico. Eles estão freqüentemente, mas não sempre, associados a graus variados de angústia subjetiva e a problemas no funcionamento e desempenho sociais. (CID-10, 1993/2011, p. 196. Títulos de F60 a F69)

Sendo um gesto necessário e comum para o desenvolvimento, o narcisismo é preciso para que o amor objetal possa ocorrer; o problema é justamente quando se torna um transtorno. Ferrari, Lopes e Picinini (2006) dizem que quando a criança é amada por seus pais e estes cumprem a função afetiva-emocional de acolhimento, ela é capaz de realizar o desmembramento autoerótico. Portanto, para tornar o outro em objeto amado, é preciso ter sido um objeto amado.

Um sujeito que não foi tomado por investimentos amorosos ao longo do seu desenvolvimento infantil, não consegue realizar o desmembramento autoerótico, e, portanto, pode não conseguir investir sua libido de forma objetal. Com isso, somente é capaz de amar narcisicamente. O Eu torna-se escravo de si como objeto sexual.

Ferrari, Lopes e Picinini (2006) explicam que durante a gravidez ocorre um investimento narcísico superestimado da gestante pelo feto. Por estar ligado a uma criação de seu próprio corpo, esse movimento faz com que a grávida projete seu amor a um fruto que posteriormente pode vir a ser extensão de si.

Após a gestação, em um primeiro momento da parentalidade, a libido é tida como objetal e narcísica ao mesmo tempo. Ambos os mecanismos estão presentes por se tratar de um objeto que é visto como extensão dos pais e ao mesmo tempo que é autônomo. Aos poucos, conforme o bebê se desenvolve, o investimento objetal se evidencia e é privilegiado em detrimento ao narcísico parental. (FERRARI, PICININI, LOPES, 2006)

Aqui pode-se resgatar as explanações de Zornig (2010) e Marson (2008), já que são análogas ao entendimento de Ferrari, Lopes e Picinini (2006). Esses últimos autores afirmam que enquanto a gestante possui o bebê em seu corpo, ele é investido narcisicamente. Mas, após o parto, algumas genitoras podem sentir como se fossem castradas, uma vez que a atenção antes dedicada a elas passa a ser aplicada somente aos bebês. Quando as mães não são cuidadas com dedicação, o bebê pode não obter os cuidados objetais necessários por não ser investido libidinalmente. Isso pode ocorrer por uma frustração materna que não enxerga mais no bebê uma fonte de satisfação narcísica e objetal. Se essa genitora já possuir anteriormente o demarcador de Transtorno de Personalidade Narcísica, tudo vai se agravando.

Logo, o narcisismo materno surge como quadro patológico quando a criança é usada como instrumento objetal para preenchimento de frustrações pessoais. Ademais, no momento efetivo do nascimento da criança, a atenção que antes essa mãe recebia com exclusividade, passaria toda para o bebê. Portanto, essa mulher que desenvolvesse o narcisismo materno, encontraria mais uma motivação para chamar a atenção para si através da criança, projetando no bebê sua própria imagem conforme ele for crescendo. Isso pode novamente ser reforçado no texto de Prado (2004), que explana sobre a evolução do quadro e se associando em gravidade à perversidade moral.

A perversão narcísica se apresenta então como um modo particular de se proteger dos conflitos internos, à custa do meio. Consiste na evitação do impacto promovido por sentimentos de luto, angústia, desilusão e separação, tratando de colocar ativamente sobre alguém as dores, as dificuldades e os conflitos vinculados àqueles sentimentos. O referido autor propõe que as tarefas psíquicas repelidas pelo sujeito e que seu ego não tem condições de assumir, vão cair inevitavelmente sobre os ombros de um outro. Assim, a perversão narcísica é um modo particular de se proteger dos conflitos internos, fazendo-se valer à custa desse outro – ou de muitos outros, como pode ser o caso nas patologias sociais. Racamier (op. Cit.) vai dizer que, para o perverso narcísico, não é que o outro não exista, ele existe, mas lhe é negado qualquer valor. (RACAMIER, 1988; apud PRADO, 2004, p. 16)

Essa projeção de si na criança pode ser parcialmente visível em mães que vestem suas filhas com a exata roupa que estão vestindo, como se fossem dois protótipos em escala: um grande e outro pequeno. Outro exemplo, é muito mais agravante, são os concursos de miss mirim, bastante populares nos Estados Unidos da América, em que crianças a partir dos 4 anos são vestidas, maquiadas, adornadas e ensinadas a fazer poses e trejeitos como mulheres adultas, sexualizando meninas que deveriam estar preocupadas em apenas brincar. Meninas que aos 8 anos estão recebendo tratamento antirrugas e já apresentam a fixação de fazer cirurgia plástica. O comportamento dessas mães mostra uma enorme frustração diante do que elas nunca foram, mas que veem nas filhas sua imagem sendo aplaudida, louvada e aclamada, preenchendo seus anseios e desejos suprimidos durante suas vidas, mesmo às custas dessas crianças. Há ainda o caso das genitoras que se colocam como mulheres únicas nas relações dos filhos (jovens ou adultos), incutindo nesses homens a ampla percepção de que a escolha pela mãe em detrimento de suas relações amorosas, é por decisão própria.

Esse comportamento dos narcisistas – mulher ou homem, pois sim, esse segundo também pode comportar-se da mesma forma sendo pai, mas em menor incidência – usando outros como espelhos para satisfazer suas angústias e frustrações é muito presente, pois eles têm muitos medos enraizados, inclusive o de envelhecer e/ou de abandono: a percepção de majestade é de estar (sempre) jovem e com alguém lhe servindo. Em divisão de grau patológico, Zimerman (2004) os define diferentemente como “pele grossa” e “pele fina”. Contudo, todo narcisista “pele grossa”, anteriormente foi um “pele fina”, o que mostra uma evolução de quadro diante da ausência de cuidados psicoterapêuticos. Cabe ainda reforçar que o narcisismo alcança as três estruturas de personalidade (neurose, psicose ou perversão) e variando de níveis, mas quando é especificamente potencializado como transtorno, é porque o sujeito se encontra especificamente dentro das perversões.

Narciso pele fina e de pele grossa. Rosenfeld (1987) propôs uma classificação das pessoas narcisistas em dois tipos, que ele denomina como sendo os de “pele fina” – que são supersensíveis, altamente melindráveis e com uma extrema vulnerabilidade da sua autoestima, embora seja evidente que o papel de vítima lhes assegure a manutenção do poder por meio do recurso da fraqueza – e os narcisistas de “pele grossa” – que, pelo contrário, são arrogantes, em uma constante atitude defensivo-agressiva, permitindo pouca acessibilidade psicanalítica. Na verdade, a experiência clínica ensina-nos que a pele grossa sempre está encobrindo, dissimulando e protegendo uma, subjacente, pele fina, enquanto, ao mesmo tempo, é justamente a pele fina que, para evitar as dores das velhas feridas narcisistas, constrói uma espessa cicatriz pele grossa. (ZIMERMAN, 2004, p. 256-257)

Essa percepção utópica de si através do outro é trazida igualmente por Bion (1962; apud ZIMERMAN, 2004; apud ABREU, 2021) referenciando que o narcisista foge da verdade, e por isso, ele projeta a si mesmo em seu objeto alvo, para proteger-se da negação. Assim, é inclusive o perfil agravado que com mais constância se nega a fazer um tratamento psicológico, e se o faz, simplesmente o interrompe e para de ir às sessões assim que começa a ser confrontado sobre si.

Uma autora que traz a questão da mãe narcisista de forma muito pontual é McBride (2009; 2011). Ela dividiu as mães narcisistas em seis perfis bem característicos, e que como toda morbidade, pode se apresentar única ou unificada aos outros perfis psicopatológicos existentes no CID-10 (1993/2011):

  • Extravagante-extrovertida (The Flamboyant-Extrovert): é caracterizada por uma mãe teatral e de fachada. Aquela mulher que está sempre feliz e bem-humorada, pode organizar e/ou participar de festas e eventos, e que na atualidade vai postar fotos dos filhos nas redes sociais dizendo que ama intensamente seus filhos, criando a fachada de preocupada e presente. Mas não é nada disso, pois ela pouco se importa com os filhos. Ela se assemelha muito em comportamento com o perfil da malvada secreta.
  • Fixada com realização (The Accomplishment-Oriented): esta é a mãe enquadrada no exemplo que foi dado anteriormente sobre as misses mirins estadunidenses. Elas querem resultados públicos de seus filhos, que possam evidenciar seu mérito de mãe. Títulos e medalhas em setores como estudos, esportes ou qualquer outra prática do gênero seriam o reflexo de seu esforço materno, sendo que o fracasso do filho é inaceitável e impactando em reatividade pautada em raiva para a criança.
  • Psicossomática (The Psychosomatic): é a mãe que busca comoção e atenção simulando doenças e dores o tempo todo, e mesmo que tenha algo, irá apresentar-se em constante e maior sofrimento do que de fato é. Caso outra pessoa apareça efetivamente doente em proximidade, essa genitora vai surgir com alguma reclamação que gere algo pior para desviar a atenção para si.
  • Viciada (The Addicted): ela estará envolta com substâncias viciantes e álcool para exigir uma atenção constante do filho (mais comumente adolescente ou adulto). E independentemente da idade do filho (até criança), seu comportamento é considerado narcisista, mesmo estando sóbria, pois sua prioridade concentra-se nas drogas.
  • Malvada secreta (The Secretly Mean): seu perfil é muito semelhante a extravagante-extrovertida. Ela possui uma fachada de mãe e mulher amorosa e pró-filhos, e, geralmente alegre e bem-humorada com as pessoas externas. Contudo, da porta de casa para dentro, xinga, grita e/ou bate nos filhos com constância, seus castigos ultrapassam uma racionalidade e ela faz os filhos – mesmo se forem crianças de 4 anos – limparem a casa em seu lugar como se fossem adultos, imputando agressões físicas e psicológicas de todos os tipos. Ela se apresenta exatamente como alguém equilibrada fora de casa, mas é desequilibrada dentro do lar (pontuais ou consecutivos, pode variar), diluindo essa percepção para terceiros na justificativa comportamental de “educadora rígida”. Os filhos a temem, mas seu comportamento antagônico deixa as crianças muito confusas, inclusive com percepção errônea do que é amor.
  • (The Emotionally Needy): aqui, é o filho (criança ou adulto) quem cuida da mãe. É uma mulher que extrapola a carência em relação aos outros perfis narcisistas. É a suposta sofrente que se coloca em postura de nunca poder ser deixada sozinha, exigindo muita atenção e funciona como sua palavra sendo lei, mas pode apresentar um discurso contrário afirmando que cria os filhos para o mundo. Pode mais comumente ser vista nas mães que interferem em constância descabida e/ou estragam todos os relacionamentos de seus filhos adolescentes e adultos, independente do gênero, mas muito mais evidente com os do gênero masculino. (MCBRIDE, 2009; 2011)

Pode-se inclusive apontar para uma tipologia não apresentada por McBride (2099; 2011), mas que pode vir a ser uma mistura e desdobramento destas, pois esse tipo de agregação é passível de ocorrer, vide outras tipologias como no transtorno de personalidade antissocial. Há no narcisismo, por exemplo, aquelas mães que usam do adoecimento, deficiências ou desventuras dos filhos – neste último caso, como sendo vítimas de violências sexuais – para receber louros de mães dedicadas e fortes, e fazendo da exposição dessas crianças um foco de atenção para si. Todavia, distante da vista de terceiros, esse amor supostamente incondicional e preocupado mostra-se efetivamente somente uma fachada, e às vezes utilizando práticas de maltrato no dia a dia. Novamente reforça-se que não se está referenciando aqui mães verdadeiramente preocupadas e ativas nos cuidados com seus filhos, e que até eventualmente podem se sentir cansadas ou zangadas, mas está se citando um comportamento falseado em constância e que é precipitado como demarcador de transtorno narcísico.

Cabe observar que, enquanto mães, os indivíduos com quadro de transtorno narcísico que possuem essa condição danosa aos filhos, apenas são detectados diante do breve contato de alguém externo tendo de alguma forma o acesso à intimidade da família, ou por meio da convivência de alguém que possa presenciar tais ações e dissimulações comportamentais. Essa situação caótica pode atravessar os anos sem que alguém, alheio à residência, saiba o que ocorre; até porque, geralmente o companheiro do narcisista é igualmente coagido (mesmo sutilmente) e manipulado para se silenciar, o que também, dependendo do caso, pode ser configurado como mera conivência desse(a) companheiro(a).

Há um agravante em extensão temporal. Essas mães narcisistas um dia podem se tornar avós, e o processo tende a se renovar com os netos. Na contemporaneidade da internet é tangível de observação e análise comportamental, acompanhar algumas dessas mulheres nesses dois tempos geracionais, por exemplo, comercializando a imagem propositadamente sensualizada de filhas ou netas, meninas com menos de 11 anos, em busca de comentários de apoio e elogios das pessoas inseridas em seus perfis pessoais de redes sociais. Nesse caso, aqui não se está apontando para a publicação de imagens comuns do cotidiano, mas de notório marketing das menores como objeto sexual, como se fosse uma mulher adulta em poses e expressões faciais em sedução e convidando ao sexo. A conduta é extremamente preocupante e incômoda, pois é um potencial chamariz para predadores sexuais de menores, e não distante dos abusadores e violadores sexuais intrafamiliares apontados de forma contundente por Abreu (2021). Se enquanto mães, essas mulheres não tiveram a oportunidade de agir dessa forma expondo como Lolitas as menores aos seus cuidados, pois a tecnologia da época não comportava uma expansão do eu com tanta repercussão espacial, na atualidade e na posição de avós, esse comportamento pôde ser potencializado.

Os próprios filhos às vezes entendem a manipulação dessa mãe quando chegam à adolescência, mas conforme a condução dessa matriarca, ela inviabiliza a reação de desprendimento do filho através de manobras, chantagens e/ou vitimizações (que aliás, são constantes), mas que passam despercebidas como tal pelo grupo familiar. Ademais, se o narcisista tiver outras comorbidades – como psicopatia e/ou maquiavelismo, por exemplo –, o efeito é catastrófico. Suas negações de defesa diante do confronto no caso de ser denunciado por maltrato dos dependentes menores em casos jurídicos, apresentam-se em materiais montados anteriormente (fotos, vídeos e áudios) de que sua conduta é supostamente perfeita, cheia de amor e dedicação.

González (2015) traz uma reflexão sobre os indivíduos que carregam a tríade do narcisismo, maquiavelismo (ou personalidade manipuladora) e da psicopatia (juntas ou isoladas), também chamadas por ele de “personalidades sombrias”, e que cabe aqui, até como paralelo de melhor entendimento. Seu artigo é uma análise geral e se distancia dos quadros patológicos (em níveis primário e secundário, que seriam mais graves), mantendo-se na esfera subclínica. Segundo o autor, esses quadros mais acentuados ajudam na compreensão dos mais brandos e das personalidades por elas mesmas em nível comparativo. Ele usa como exemplo a própria psicopatia sobre esses níveis de gravidade: “O primário representa os aspectos insensíveis das atitudes dos psicopatas, enquanto o secundário constitui os aspectos criminais e antissociais da psicopatia”. (JONASON, LYONS e BETHEL, 2014; apud GONZÁLEZ, 2015, p. 255)

Seu artigo, portanto, revisa a psicologia evolucionista com fundamentação em Darwin, e em diversos autores na compreensão de que certos indivíduos possuem essas “personalidades sombrias que podem prosperar como parasitas sociais e que a teoria evolucionária pode prever esses subgrupos de predadores” (FURNHAM; RICHARDS e PAULHUS, 2013; apud GONZÁLEZ, 2015, p. 255-256). Essa percepção é bastante assustadora, mas ao se olhar pelo prisma das pessoas que se tornam alvos desses sujeitos, a comparação pode caber perfeitamente.

O autor remonta a informação de que os indivíduos que compõem especificamente essa tríade, desenvolvem um modo de vida caracterizado pela falta de autocontrole, costumando ter relações afetivas breves – inclusive suas relações sexuais são extremamente rápidas –, e seu egoísmo é latente. Ademais, González (2015) ainda informa que pessoas que carregam o maquiavelismo e o narcisismo acabariam sendo absorvidas e aceitas de forma mais despercebida pelas sociedades atuais, justamente pela cultura do descarte rápido pela perspectiva social e antropológica diante da sociedade de consumo descrita por autores como Zygmunt Bauman (2008a, 2008b, 2009), Mary Douglas e Baron Isherwood (2009) e outros, e que fazem essa reflexão sobre o mundo contemporâneo.

Esse aglomerado de comportamentos impulsionados pelo consumismo extrapolado, serviria de escudo protetor dessas duas personalidades primordiais (o narcisismo e o maquiavelismo). Contudo, os traços de personalidade psicopata ficariam mais evidentes num caso isolado, e tendo mais dificuldade de passar despercebido, o que poderia afastar certas conquistas e parceiros como possíveis alvos. Todavia, cada uma dessas três personalidade – mesmo de forma independente, e, portanto, pode-se imaginar os resultados diante da compilação de todas em um único sujeito – desenvolveria formas de aproximação e de tirar vantagem de seus alvos potenciais, o que igualmente torna essas personalidades altamente adaptáveis aos ambientes.

González (2015) igualmente traz a desmistificação de que apenas indivíduos muito inteligentes tenderiam ou apresentariam comportamentos de manipulação e exploração social como nessa tríade. Ele evoca as pesquisas de O’Boyle et al. (2013; apud GONZÁLEZ, 2015) que atestaram que haveria um comportamento compensatório em certos sujeitos com desvantagens cognitivas, e justamente fomentando essas práticas de manipulação. Conforme González (2015, p. 257), “(…) haveria uma associação positiva entre manipulação emocional, mas não relacionada à inteligência emocional”.

O autor discorre que pessoas com verdadeiramente alta inteligência emocional tendem a apresentar mais comumente um caráter positivo, afetuoso, gentil e altruista de alta gentileza (GONZÁLEZ, 2015). Por outro lado, aqueles sujeitos que de fato possuem as chamadas personalidades sombrias – que agregam a tríade da psicopatia, narcisismo e maquiavelismo –, podem usar em simulação as habilidades de inteligência emocional para a manipulação de outras pessoas e usando isso para fins maliciosos e de danos generalizados, inclusive enganando e explorando terceiros.

O autor relata que a baixa empatia é uma característica central na psicopatia em homens (PAULHUS e WILLIAMS, 2002; apud GONZÁLEZ, 2015) e no narcisismo em mulheres (JONASON et al. 2013; apud GONZÁLEZ, 2015), e, portanto, essas demandas se apresentam de forma diferente em homens e mulheres. Essa informação é de suma importância quando se cruza com o fenômeno pautado nas mães narcisistas. Isso significa que ao se colocar os homens e as mulheres narcisistas em nivelamento, essas mulheres se apresentam com níveis empáticos mais baixos em relação aos homens com o mesmo transtorno.

Giammarco e Vernon (2014) argumentam que o maquiavelismo e a psicopatia são caracterizados pela vingança emocional. O maquiavelismo e a psicopatia também apresentavam baixa compaixão, baixa aceitação de perspectivas e baixa preocupação empática. Ao relacionar a Tríade com a empatia e a alexitimia (Jonason & Krause, 2013) descobriram que a psicopatia estava associada a empatia limitada geral, dificuldade em descrever sentimentos e pensamento voltado para o exterior. O narcisismo foi associado a empatia limitada e dificuldade em identificar sentimentos afetivos, enquanto o maquiavelismo foi associado ao pensamento voltado para o exterior. Em outro estudo (Cairncross, Veselka, Schermer & Vernon, 2013), os resultados revelaram que a alexitimia estava associada positivamente com psicopatia e maquiavelismo, e negativamente associada com narcisismo. Uma análise genética comportamental mostrou que as correlações fenotípicas foram atribuídas principalmente a fatores genéticos comuns e fatores ambientais comuns não compartilhados. (GONZÁLEZ, 2015, p. 258. Tradução nossa) [3]

Além da limitação empática, o narcisismo é igualmente associado à impulsividade funcional que conduz o indivíduo a se arriscar mais socialmente, em contraponto com a psicopatia que se apresenta como impulsividade disfuncional por baixa-regulação, ou seja, o sujeito fica mais reservado. Já o maquiavelismo não está atrelado a nenhum tipo de impulsividade (JONES e PAULHUS, 2011, 2009; apud GONZÁLEZ, 2015).

Exatamente por essa impulsividade narcísica de mostrar-se socialmente, existe uma tendência das mulheres com esse transtorno de não rejeitarem a maternidade – e o narcisismo ser intensificado na gestação, como relatado anteriormente neste artigo –, até porque, entra diretamente em congruência com seus anseios de ter um súdito perpétuo: maridos nem sempre são para sempre; filhos são. Para o autor, no caso das mulheres narcisistas que se tornam mães, o genitor escolhido e a procriação abrangem um nível de cálculo de distinção social específico, pois um filho específico pode ser também compreendido como um troféu de atenção direcionada para essa mulher. Há uma sutil dicotomia perceptiva, pois se algumas desejam esse bebê como objeto de recompensa, outras não desejam efetivamente nenhum filho, mas, mesmo assim, vão acolher essa postura de ostentação filial por alguma razão que lhes faz sentido além daquelas que já foram descritas neste artigo. A pequena sutileza das motivações de desejo pode, em hipótese, igualmente podem gerar a diferença de postura na potencialização de condutas destrutivas ao filho.

Black, Woodworth & Porter (2014) afirmam que personalidades sombrias têm maior probabilidade de perceber suas vítimas como desagradáveis, com baixa autoestima, muito neuróticas, deprimidas e ansiosas. Os psicopatas geralmente percebem seus alvos como menos pessoais, altamente neuróticos, deprimidos e ansiosos. Os maquiavélicos percebem seus alvos mais neuróticos, ansiosos e deprimidos. Finalmente, os narcisistas percebem seus objetivos como baixa abertura para novas experiências, conscientes, extrovertidos e altos em depressão. (GONZÁLEZ, 2015, p. 259. Tradução nossa) [4]

Acordando com os outros autores já citados neste artigo, González (2015) afirma que diante dos vários estudos e pesquisas, é sabido que indivíduos que acolhem uma dessas três personalidades são providos de inibição moral, ou seja, minimizam ou não se importam com nenhum senso moral. Ademais, seu senso de justiça é distorcido.

Os traços do maquiavelismo, unido à psicopatia trariam a probabilidade de comportamentos violentos ao sujeito. Essas duas personalidades e a narcisista (mesmo em separados), apresentam-se socialmente como indivíduos sedutores e atraentes, e é justamente isso que atrai seus alvos sexuais. Segundo os pesquisadores, dos três, aquele que tem o maior poder de atração é o narcisista, e por apresentar o perfil psicológico de necessidade de um súdito por mais tempo que o maquiavélico e o psicopata (que descartam com mais facilidade suas conquistas sexuais). Ademais, a tríade usa a constância de eliminação de concorrentes e rivais (sobretudo os sexuais), seja por um meio descortês (maquiavélicos e psicopatas) ou ofuscando por superioridade (narcisistas), e são cercados comumente pelo hábito de mentir. São sujeitos que vão sugar ao máximo o que puderem de terceiros (indivíduos ou até empresas), mas darão nenhum ou pouco retorno.

Para Baughman, Jonason, Lyons e Vernon (2014), psicopatas e maquiavélicos estão ligados à propensão a mentir em diferentes contextos, incluindo relações sexuais e desonestidade acadêmica. Esses autores argumentam que os psicopatas experimentam mais emoções positivas relacionadas à mentira, e os maquiavélicos têm uma quantidade maior de esforço cognitivo associado ao engano. Jonason, Lyons, Baughman & Vernon (2014) descobriram que psicopatas e maquiavélicos estavam ligados a contar mais mentiras; a psicopatia estava associada a contar mentiras sem motivo, e o maquiavelismo estava associado a contar mentiras inocentes. O narcisismo, por outro lado, estava ligado à mentira para ganho pessoal e à capacidade declarada de mentir. Jonason, Wee, Li & Jackson (2014) estudaram interesses vocacionais em relacionados com as características da Tríade, e encontrou psicopatas estão mais interessados em carreiras realistas e práticas, narcisistas, carreiras artistas, empresários e socialistas, e maquiavélicos estão mais interessados em evitar carreiras do que envolvem cuidar dos outros. (GONZÁLEZ, 2015, p. 260. Tradução nossa) [5]

Essas personalidades ainda se promovem constantemente, sobretudo em nossos tempos contemporâneos de internet, e que novamente pode ser reforçado por Bauman (2008a, 2008b, 2009). Ele e González (2015) discorrem que, mesmo os psicopatas e os maquiavélicos que anteriormente mantinham-se mais reservados, agora se reconhecem seguros usando a tela como blindagem de segurança. Exatamente por isso, as três personalidades se sentem motivadas a interagir com outras pessoas pelas redes sociais para monitorar seus alvos, criando rápidas e novas relações de interação, e declararem todo tipo de pensamento ou hipotética opinião que até possa promover agressividade, e, ainda, apresentando baixo autocontrole. Contudo, tudo fica camuflado pelo comportamento muitas vezes sem filtro e sem limites do que se pode fazer na internet. González (2015) completa de forma categórica que a tríade ganhou espaço para aperfeiçoar suas práticas e intensificar suas personalidades sombrias: eles estão evoluindo, mas não pela perspectiva positiva, e sim, pelo prisma socialmente negativo e inquietante.

Por todos esses fatores, González (2015) traz sua preocupação com a formação da personalidade desde a infância, e que sim, recai inevitavelmente nessa figura feminina com transtorno narcísico como genitora ao qual esse artigo se debruça. Ele explana especificamente alguns pontos levantados em pesquisas sobre a origem dessas personalidades:

Em relação ao cuidado à infância e à Tríade (Jonason, Lyons & Bethell, 2014), verificou-se que a baixa qualidade dos cuidados maternos leva ao maquiavelismo e aos aspectos do narcisismo, como pretensão / exploração e liderança / autoridade quando do apego seguro não ocorre. O cuidado paterno de baixa qualidade leva à psicopatia secundária, e o cuidado paterno de alta qualidade tem sido associado à dimensão de pretensão / exploração do narcisismo. Por outro lado, na relação entre a teoria da mente e o apego (Riquelme, Henríquez & Álvarez, 2003), descobriu-se que o cuidado da infância tem um impacto importante no processo de mentalização. A teoria da mente aparece como conceito na obra de Premack & Woodruff (1978), definida como a capacidade de compreender, prever e explicar o comportamento humano em termos de estados mentais internos. Em estudos que relacionam a teoria da mente à Tríade (Stellwagen & Kerig, 2013), observou-se que nas crianças de sexta e sétima série o narcisismo está positivamente associado à teoria da mente, e que traços de insensibilidade, sem emoção, são negativos associado à teoria da mente. Por outro lado, impulsividade e maquiavelismo não estariam relacionados à teoria da mente. (GONZÁLEZ, 2015, p. 257. Tradução nossa) [6]

E completa com uma reflexão:

(…) ao revisar estudos que investigam o cuidado da infância e a Tríade (Jonason, Lyons & Bethell, 2014), foi sugerido que a qualidade do cuidado parental leva a padrões de apego que podem levar aos diferentes aspectos da Tríade, o que é um indicador importante que no início, o cuidado da infância por figuras significativas influencia o desenvolvimento dos traços da Tríade. As evidências apresentadas, de uma perspectiva evolutiva, fornecem dados que permitem questionar a hipótese evolutiva de que os traços da Tríade seriam expressos ou transmitidos exclusivamente para fins reprodutivos. (GONZÁLEZ, 2015, p. 262. Tradução nossa) [7]

A relevância do artigo de González (2015) reflete no entendimento de como a personalidade narcisista, foco deste artigo, se comporta para alcançar seus alvos à vista de um pretenso relacionamento sexual e posteriormente familiar, criando seus próprios mecanismos de fortalecimento e sobrevivência social.

Diante de todo o conteúdo exposto brevemente, cabe ainda a apresentação de dois estudos de caso que trazem mães narcisistas e resultados potencialmente traumáticos em seus filhos como consequência de suas posturas.

3. DOIS BREVES CASOS PARA REFLEXÃO

Os casos a seguir são baseados em relatos integrais de entrevistas que Abreu (2021) – portanto, é um conteúdo de um trabalho (de dois anos) de pesquisa de uma das autoras deste artigo – traz em seu livro sobre o universo da violência sexual intrafamiliar, sendo possível fazer um mergulho muito pontual a respeito do narcisismo materno e dos danos aos filhos – ou de um específico – sob seus cuidados. As entrevistadas foram informadas através de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) de que o material captado seria reproduzido em livro e posteriormente usado em análise para artigo científico (o que está ocorrendo aqui), assim como apresentado em congressos científicos, se assim coubesse. Cabe reforçar que a brevíssima discussão adiante sobre os dois casos está sendo feita de forma inédita aqui, já que a própria autora relata no livro que não tinha a intenção de fazer isso naquele momento, mas deixar os leitores refletirem posteriormente por si mesmos e após todo o conteúdo da obra.

Eu decidi, como autora, finalizar esta obra nesta sessão, apenas com uma breve consideração ao final e como fechamento (o que explica minha maior contextualização na sessão anterior). As histórias pessoais que seguem devem falar por si mesmas, para que você, leitor, reflita, pondere, chore, indigne-se e revolte-se, trace possíveis estratégias de combate e socorro, e sinta a dor desses silêncios que só querem ser quebrados e por um grande motivo: não permitir que outras crianças e adolescentes continuem passando por isso. (ABREU, 2021, p. 187)

A pesquisadora tentou entender como os agressores sexuais intrafamiliares com transtornos variados agiriam de uma forma geral para camuflarem suas ações. Ademais, ela tentou compreender em igual potencialidade, o porquê muitas mães se comportariam de forma conivente com a violência sexual contra seus filhos e se elas – como genitoras – estariam configuradas dentro do perfil narcísico. Desta forma, sua obra ficou bipartida em uma parte de teorização para que leigos e vítimas (e não apenas profissionais), pudessem entender algumas das muitas condições socioculturais e espectros psicopatológicos que envolvem a temática. Em outra metade, sete relatos integrais de vítimas foram apresentados através de entrevistas em profundidade, motivo este que levaram dois anos para serem concluídas, e isso foi devido à dificuldade de conseguir que as entrevistadas conseguissem falar sobre suas demandas e traumas. Dessa forma, a escritora espera que o leitor possa fazer as correlações entre os fatos, os atores envolvidos e a própria teorização de embasamento.

Diante da narrativa exposta neste artigo, cabe trazer dois desses fortes relatos para um entendimento mais concreto dos impactos devastadores que uma mãe narcisista pode causar na vida de seu filho(a), e em casos mais danosos como esse das práticas de violência sexual.

Abreu (2021) traz no relato um de sua obra, a história de uma mulher (que será identificada aqui como entrevistada A) que estava com 31 anos e possui cinco filhos. Sua mãe (com mais de 71 anos) vem de uma família de quatorze irmãos, sendo ela a mais velha. Seu genitor é onze anos mais novo do que a mãe. A entrevistada A possui quatro irmãos em nascimento sequencial muito próximo, sendo dois irmãos gêmeos, e ela e outro irmão também gêmeos. Ela é a única mulher.

Sua genitora era vista com muito medo pelas crianças em casa, mas na rua a viam como uma mulher respeitada, ativa profissionalmente e solícita. O pai era visto como um homem muito “bonzinho” dentro e fora de casa, sendo o responsável pelos afazeres domésticos, inclusive cuidados com os filhos. (ABREU, 2021)

A entrevistada A tem bloqueio de memória antes dos 9 anos, mas lembra de tomar muitos banhos com os irmãos nessa época, e dados pelo genitor. O pai começou a violentá-la efetivamente nesse período (com introdução peniana) e ela foi coagida a não reclamar na escola e nem com a mãe, de que sentia dores com o hipotético carinho do pai, pois o lembrete era de que a genitora bateria na menina porque “não gostava de criança com frescura” (ABREU, 2021). Aos 10 anos, ela foi levada ao médico após uma prisão de ventre muito forte, e ali foi descoberta e confirmada sua gestação.

A entrevistada A não entendia o que ocorria, e, em contrapartida, o genitor convenceu a esposa de que a gestação deveria ter sido fruto de um primo da menina. A mãe compartilhou o escândalo com toda a família e colocou a criança para fora de casa, indo morar na casa de tios que a acolheram. Poucos meses depois, descobriu-se que o genitor biológico do feto era o próprio avô (o pai biológico de “A”). O caso necessitou de interferência do Conselho Tutelar, testagem de DNA e alcançou esferas de gravidade muito maiores por se tratar de incesto e estupro de vulnerável. (ABREU, 2021)

Abreu (2021) descreve que mesmo com todas as comprovações do estupro da menor naquela época e os abusos também eram direcionados aos irmãos da vítima, a mãe da entrevistada A obrigou-a a dar à luz e cuidar do bebê fruto de incesto, e colocando-a para morar novamente em sua residência. Não obstante, uniu-se em coro com sua família para afirmar que a filha havia roubado o seu marido, e isto é repetido mesmo depois de mais de vinte anos do acontecimento. Em paralelo, a genitora custeou todo o processo judicial do marido, pagando os advogados de defesa para provar que ele era inocente e a criança seria supostamente uma mentirosa sedutora. A educação escolar da entrevistada A foi também completamente renegada.

Após oito anos de processo – e demorou muito, justamente por causa da interferência da mãe de entrevistada A, o genitor foi preso, mas respondeu apenas sete anos em reclusão. Ao sair, foi recebido incondicionalmente pela esposa. (ABREU, 2021)

Durante a narrativa coletada pela autora, o filho da entrevistada A encontrava-se com 21 anos e apresenta espinha bífida e paraplegia espástica, resultados do incesto. Segundo a abordada, o rapaz tem idade mental de uma criança de 8 anos. A genitora dessa vítima de abuso sexual e sua família ainda afirmam que ela é uma “ladra de maridos”. (ABREU, 2021)

No relato dois, a autora traz a história de uma mulher de 32 anos que será chamada aqui de entrevistada B. Sua mãe encontrava-se no momento da entrevista com 53 anos e o pai com 55, possuindo ainda um irmão seis anos mais novo. A família possuía uma casa em um grande terreno dividido com o restante dos familiares. Primos, tios e avós residiam, portanto, em várias casas independentes, mas no mesmo local. (ABREU, 2021)

Segundo a entrevistada B, sua mãe sempre se apresentou socialmente como uma mulher religiosa, preocupada com os membros da congregação e com os indivíduos da família. Sua postura era sempre de proatividade e cuidados com todos fora de casa, e constantemente muito solícita. Assim, é alvo permanente de atenção familiar e social como uma grande matriarca.

Aos 5 anos, a entrevistada B estava brincando com um primo da mesma idade, e ambas as crianças tiveram a curiosidade de olhar o órgão sexual um do outro. A tia – irmã da mãe da entrevistada B e mãe do primo – viu a cena e ao invés de sanar a curiosidade das crianças e encerrar o episódio, saiu sem falar nada e foi direto contar à irmã. O que ocorreu, é que essa genitora se direcionou com a imposição de castigo à menina. Isso ocorreu somente para ela, já que o menino não recebeu nenhum tipo de penalidade – e não era o caso à nenhuma das crianças – ou conversa. (ABREU, 2021)

Conforme o relato da entrevistada B, a família estava fazendo os preparativos de festas juninas, e havia um caldeirão fervendo com milho cozido. A tia sugeriu e a mãe acatou: pegou uma daquelas espigas fervendo com vinte centímetros e introduziu à força na vagina da criança. Não houve nenhum tipo de arrependimento por parte das duas adultas, nem naquele momento, nem anos depois. (ABREU, 2021)

O trauma colossal imposto à menina não ficou apenas nisso. Menos de um ano depois – já com 6 anos –, ela começou a ser violada à força por um outro primo de 15 anos no dia de Natal, o que durou até seus 8 anos. Ela manteve o silêncio e não pediu socorro por medo do que a mãe pudesse fazer com ela, o que igualmente foi reforçado por este primo em ameaça, além da afirmação de que não acreditariam em seu relato. (ABREU, 2021)

A mãe comportava-se com desdém diante da conduta completamente assustada e depressiva da filha durante seu crescimento. Já adulta, a entrevistada B passou a disparar graves descontroles emocionais e buscou ajuda psicológica. Nesse mesmo período, diante de mais uma confraternização familiar de Natal e vendo sua mãe cercar de carinhos e atenções seu primo agressor, e fortalecida pelo processo psicoterapêutico inicial, ela resolveu contar o que havia ocorrido vinte e um anos antes. (ABREU, 2021)

Ao saber do fato, a reação da mãe foi inicialmente de apresentar desespero diante do confronto, chorando, gritando, debatendo-se e colocando-se como a pior mãe do mundo, e como se ela fosse a grande vítima. Isso gerou na entrevistada B o comportamento imediato de parar de falar e confrontar a mãe, e dicotomicamente acolhendo-a. Todavia, na sequência, a mãe contou o episódio para toda a família, mesmo com o apelo da jovem de que aquilo ficasse apenas entre as duas. Contudo, a genitora não revelou quem foi o violador e fortaleceu os agrados e carinhos ao sobrinho, mesmo possuindo pleno conhecimento do que ele havia feito à filha. (ABREU, 2021)

Juntamente em coro com a família, a mãe passou a reforçar que tudo aconteceu com entrevistada B, assim como seu estado psicológico depressivo, foi resultado da falta de Deus (mesmo com a jovem seguindo as condutas religiosas que lhe foram ensinadas desde sempre). Paralelamente, a mãe continuou seu comportamento de ser prestativa, atenciosa e proativa para toda a família e congregação, e com o violador da filha. (ABREU, 2021)

Abreu (2021) registra que entrevistada A entendeu com o passar dos anos a violência que sofreu e tenta se manter longe da mãe e da família que ainda a agride e acusa. A entrevistada B mantém-se próxima da mãe, pois ainda sofre com a manipulação emocional materna com o respaldo dos preceitos e dogmas religiosos, apesar de já estar fazendo alguns avanços diante da terapia. Infelizmente ambas carregam traumas de todos os tipos que são irreparáveis dessa relação altamente tóxica maternal, assim como processos depressivos, alta ansiedade e outros agravantes, mas acreditam em um futuro conseguirem reelaborar todas as questões envolvidas, e, após muito entendimento, edificarem a tomada de autoconhecimento.

4. BREVE DISCUSSÃO TEÓRICA

Esses dois casos mais dramáticos e trazidos de forma sucinta do livro de Abreu (2021) refletem brevemente o perfil dessa mãe narcisista e da maternidade tóxica que não é nada incomum, e está longe de ser um mito. Cabe ressaltar que os danos psicológicos aos filhos são contundentes, mas variados e apresentando-se em níveis, mesmo que as ações da mãe narcisista não extrapolem em tortura física. A displicência social com a temática é tão gritante, que existem pouquíssimos materiais focados na questão. O provérbio popular “Deus no céu e mãe na terra” define muito bem o lugar da mãe santificada, intransponível e irrepreensível, mas que só existe realmente como crença.

Não basta profissionais buscarem pela excelência se a população não tiver acesso às ferramentas que podem promover o encaminhamento ao acolhimento e à reeducação. As políticas públicas igualmente precisam ser reestruturadas, aplicadas e incentivadas para que mais pessoas possam ser atendidas, e esse ciclo contínuo de doenças psíquicas possa ser interrompido, e até, acompanhado mais de perto.

De fato, existe uma enorme necessidade de se promover o estudo aprofundado dessa demanda entre estudantes e profissionais de Psicologia, assim como incluir outros profissionais em âmbito multidisciplinar, como as assistentes sociais que lidam com questões familiares mais diretamente. Não apenas isso: o poder público deveria investir mais no suporte de discussão de amplo espectro sobre o tema com grupos comunitários, ajudando no entendimento da existência da demanda e na reeducação das famílias em todos os níveis sociais, já que as doenças psíquicas atingem a todos, mas a população mais carente é a mais prejudicada na falta de apoio. Esse processo atencional pode gerar a intensificação do autoconhecimento e maior detecção de conflitos psíquicos. Isso levaria à compreensão social acerca da gravidade de certos comportamentos maternos – e parentais, de forma mais generalizada –, que conduzem crianças e adolescentes ao desenvolvimento traumático e nocivo. Ademais, tornar viável o conhecimento de que o transtorno narcísico materno de nível patológico é algo sério e que não pode ser mais ignorado, naturalizado e nem romantizado.

O narcisismo, mesmo sendo um processo natural ao qual todo ser humano passa em seu desenvolvimento, pode ser extremamente danoso ao sujeito sem os devidos cuidados e tornando-se patológico, e, por consequência, gerar sofrimento àqueles próximos e ao próprio sujeito. Isso ficou muito tangível na teorização trazida sobretudo através dos estudos clássicos de Freud (1980; 2004), Klein (1966; 1991) e Winnicott (1983), e pelo prisma mais atualizado de releituras através de Zimerman (2004), Zornig (2010), Marson (2008), e, Ferrari, Picinini e Lopes (2006).

A figura da mãe como alguém idolatrada pelo simbolismo do amor incondicional, acaba por esconder a matriarca narcisista, que em sua estrutura mais potencializada, pode ser extremamente agressiva, manipuladora e/ou efetivamente destrutiva. Esse detalhamento sobre as várias facetas dessa genitora narcisista trazida por McBride (2009; 2011), revela o quão complexo pode ser seu comportamento. Ela usará a fachada de alguém muito proativa externamente e apresenta-se como grande e amorosa mãe – e de certa forma, algumas até acreditem nisso –, mas ocultando negligência, imposição de medo e/ou violências de nível físico, emocional, psicológico e/ou moral, como justificativas de zelo, ou até mesmo sob o argumento de educação aos filhos. Esses, por sua vez, podem tornar-se indivíduos inseguros, angustiados, ansiosos, confusos, sem expressão própria e/ou propensos a desencadear uma série de doenças psíquicas, incluindo dificuldade de apreensão de realidade e submissão extremada. Outros danos até de ordem psicofísica podem igualmente ser desencadeados, como, por exemplo, gagueira. Por outro lado, outros indivíduos podem desenvolver agressividade, impaciência, terem grande dificuldade de manter relações estáveis e/ou até serem novos sujeitos com o transtorno narcísico (ou outros transtornos), já que como visto, são fruto da autopercepção da falta de amor do cuidador ainda nos primeiros anos de vida.

Cabe também lembrar da contribuição de González (2015), já que seus estudos sobre a comparação entre a tríade sombria, como ele nomeia, possibilitou entender mais minuciosamente como atuam os indivíduos psicopatas, maquiavélicos e narcisistas. Cada um possui uma particularidade de forma independente, mas que também pode se apresentar unificada em comorbidade e tornando-se mais complexas. Ademais, existe toda uma condução na busca de um parceiro sexual para que o narcisista, especificamente, possa continuar mantendo seu status de reinado pessoal. Exatamente por isso, cada indivíduo irá manifestar uma subjetividade muito peculiar e diferentemente de outro. Isso pôde ser visto também nos dois casos reais trazidos por Abreu (2021), e como o narcisismo de cada mãe se apresentou diferente.

No relato da entrevistada A, a mãe promoveu todo o tipo de humilhação familiar e pública à filha, criando uma persona de mulher traída e injustiçada através dos anos, mas eximindo-se posteriormente de culpa no papel edificado socialmente de boa mãe e permitindo que outros tomassem a conduta de destruição moral e psicológica da jovem. A narrativa também possibilita identificar a matriarca se encaixando inicialmente nas tipologias de McBride (2009; 2011) no que cerne a extravagante-extrovertida e a malvada secreta, mas com o passar dos anos até a época atual, essa mãe intensificou o comportamento da mãe narcisista psicossomática na tentativa de exigir a presença da filha quando percebeu que ela estava de alguma forma se fortalecendo e se distanciando mais pontualmente. O comportamento de narcisista psicossomática já se apresentava anos antes para terceiros, mas apontando a filha como culpada por seus males.

A entrevistada conseguia verbalizar abertamente seus conflitos à genitora, mas esta reagia em ataque ou não a deixando se expressar, comportamento reproduzido por toda a família contra a vítima. No momento das entrevistas, “A” não fazia nenhum tipo de terapia (isso só foi efetivado durante seu processo gestacional como estupro de vulnerável e poucos meses posteriores ao nascimento do filho). A mãe também prejudicava qualquer tipo de suporte que a filha pudesse ter acesso e auxiliá-la minimamente. Seja como for, diante da oportunidade de expressar-se livremente e sem julgamentos pela primeira vez com a autora para a geração do livro, “A” estava pensando em se planejar para buscar ajuda psicológica e fortalecer seu Eu.

Já no relato da entrevistada B, em um primeiro momento, sua mãe foi a própria responsável em infringir a tortura física. Entretanto, gerou posteriormente ferramentas para que terceiros a ajudassem no processo de destruição moral e psicológica de “B”, e ainda assim, se mantendo publicamente como mãe valorosa e necessitando da atenção familiar e congregacional por ter uma filha em desequilíbrio emocional e supostamente sem Deus.

Aqui, a matriarca pôde ser encaixada nas tipologias de McBride (2009; 2011) com o perfil de malvada secreta e psicossomática. Inclusive, nesse último tipo, mantendo a filha em constante processo de sentimento de culpa para não a confrontar, pois, se isso ocorrer, a entrevistada B entende que pode ser responsável por um mal súbito da mãe que a conduza ao óbito. A entrevistada na época da interlocução, mesmo estando em terapia, igualmente alegava não entender o porquê de a matriarca ainda agir de forma tão ambígua, mas afirmou que amava a mãe e para não a adoecer, preferiria não tentar entender. Tal postura poderia levar a entrevistada a não resolver suas profundas feridas com a genitora, e conduzindo-a a outros sofrimentos por não fechar tais questões, mesmo tendo possibilidades para tal.

Enfim, ambas as mães mantiveram o comportamento de sofredoras e invertendo para si a condição de vítimas, e mantendo a intenção de perpetuação da condenação das verdadeiras vitimadas. Assim, não basta as sofrentes terem passado por um processo de tortura e humilhação durante anos, elas continuam sendo conduzidas ao mesmo encadeamento de deterioração psicológica, emocional e moral, mas, constantemente relegadas à prioridade de não contrariar a figura materna.

Portanto, e distante dessas duas únicas exemplificações de casos reais, as situações são diversas no que tange ao comportamento das mães narcisistas, mas com efetivos danos igualmente heterogêneos e multifacetados aos filhos. Mães e filhos permanecem em encadeamento de adoecimento contínuo, pois são laços emocionais muito fortes que os ligam. Entretanto, mesmo que os filhos busquem a devida ajuda psicológica, essas mães se esquivam de tal apoio, e não apenas por sua resistência já preexistente que faz parte de seu transtorno de personalidade, mas devido também ao reforço e desconhecimento social fomentado em tabu equivocado da mãe imaculada e que supostamente não erra, e muito menos pode ser recriminada por isso. Todavia, mães também adoecem e ferem, e precisam de acolhimento e tratamento.

Cada vez mais, é possível tomar conhecimento de relatos de indivíduos, já em sua vida adulta, que descrevem suas criações traumáticas com mães narcisistas, e inclusive permitindo o dano a(o) filha(o) através de terceiros, como no caso dos abusos e estupros intrafamiliares nos dois relatos específicos trazidos por Abreu (2021), e que igualmente se estendem na permissão de que terceiros humilhem as vítimas. Outras genitoras com perfil de transtorno narcísico também se apresentam em relações não tão traumáticas e um pouco distantes dos casos das entrevistadas A e B, mas não menos danosas.

É possível distinguir essas mães narcisistas das mães sem esse transtorno. Isto é trazido nos aspectos listados por McBride (2009; 2011) e outros autores que apontam a estrutura de como essas genitoras se apresentam e os prejuízos generalizados aos filhos. Os agravantes serão apenas uma questão situacional de todos os atores envolvidos. Mães narcisistas existem e seus filhos também, e ambos necessitam de atenção psicológica para a quebra e descontinuidade de paradigmas de destruição e manipulação.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O questionamento norteador do presente artigo – como e por que comportamentos materno-narcisistas podem gerar filhos com adoecimentos psico-comportamentais? – foi respondido juntamente com a hipótese e firmou-se no pressuposto de que uma mãe com transtorno de personalidade narcísica pode ter seu comportamento potencializado e/ou reforçado diante do não reconhecimento sociofamiliar de sua demanda. Por desconhecimento do quadro, e considerando que seja apenas um estereótipo calcado no “é sua mãe”, familiares e filhos passam anos submetendo-se às conduções geradas por essa genitora, e alimentando uma engrenagem que pode desencadear sérios adoecimentos nos sujeitos enquanto menores, e evoluindo em amplitude em adultos.

Ademais, o objetivo geral do artigo foi fundamentado em detectar como se constrói e se comportam as mães narcisistas e quais as implicações psicológicas e comportamentais em seus filhos enquanto vítimas diretas dessa relação materna, trouxeram igualmente a reflexão de que a função da mulher como geradora da vida é belíssima, e ela é a primeira e mais forte tradução de amor ao ser humano que gera e/ou cria – pensando aqui igualmente nas mães adotivas, e que, também, encontram-se mulheres narcisistas –, e de conexão inicial de uma pessoa com o mundo. Mas, nem todas as mulheres desenvolvem esse processo maternal originalmente altruísta de amor ao outro como de um filho, até porque, em seu próprio desenvolvimento pode ter ocorrido uma falha nesse aspecto, então ela desconhece o que é isto e só reconhece o amor a si mesma.

Nesse caminhar de estudo, os objetivos específicos se desenvolveram em compreender a diferenciação de um comportamento materno comum (entendido como normal) do psicopatológico; distinguir como essas mães narcisistas se apresentam; refletir como proteger indivíduos afetados e igualmente tratar essas mulheres adoecidas. Sobre isso o reforço do trabalho em conjunto de instituições/profissionais/sociedade, pautado em fortes políticas públicas, é o que de fato possa alcançar essas mulheres adoecidas e suas famílias, e quebrando o contínuo quadro destrutivo do narcisismo materno. Isso trouxe a compreensão de que seria interessante a reestruturação de entendimento social sobre a quebra de certos mitos, como o da mãe santificada em sua totalidade.

Existe uma enorme diferenciação comportamental da maternidade entendida como normal – ou seja, sem o demarcador do transtorno narcísico –, que sim, pode ser às vezes exagerado e exaltado no sentido de mostrar com orgulho suas crias e seus feitos, e até com eventuais grosserias por perda da paciência e descontrole momentâneo, mas isso de fato não traz um dano a esses filhos. Já o comportamento maternal psicopatológico fundamentado nos transtornos narcísicos conduz a inúmeros prejuízos.

É necessário de fato refletir e discutir como proteger esses indivíduos afetados e igualmente tratar essas mulheres adoecidas. Se os relatos são presentes e essas mães narcisistas igualmente estão mais detectáveis em seus comportamentos – e, portanto, elas sempre existiram, mas suas ações são mais perceptíveis na contemporaneidade –, isso traz uma reflexão não apenas sobre os traumas em si de muitos indivíduos.

Cabe ponderar também, sobre a conduta social e histórica de forçar mulheres que não querem ser mães, a o serem, e gerando assim, genitoras sem nenhuma intimidade com a construção do processo maternal – e efetivamente não conseguem ou possuem grande dificuldade em desenvolvê-la, mesmo elas não sofrendo de transtorno narcísico –, e daí, entender que elas também podem gerar potencialmente os narcisistas, ou qualquer outro tipo de adoecimento tão danoso ao sujeito e à terceiros.

Portanto, é necessário pensar nesse processo da maternidade para a mulher contemporânea, desconstruindo a hipotética santidade desse status; revisando inclusive dogmas religiosos edificados junto com o surgimento do patriarcado; compreendendo que o entendimento da maternidade é algo edificado durante a gestação (e depois do parto), e até mesmo por alguém que anteriormente gostaria de ser mãe, mas que terá de encarar conflitos sobre si e esse outro ser que surge dali. Ser mãe efetivamente não é algo fácil, e daí a grande responsabilidade dessa mulher, mas, sobretudo, da sociedade que a cerca e muitas vezes a ignora, potencializando adoecimentos que são simplesmente ignorados. Imputa-se nessa mulher real, mas configurada na simbologia de deusa-mãe, o pressuposto romantizado de que ela pode aguentar tudo e não precisa ser ajudada, pois não falha e só gera a vida, por isso, é incapaz de destruí-la. Logo, se com quem possui a predisposição psíquica para a maternidade (ou a desenvolve positivamente) já é difícil lidar com certos enfrentamentos, o que dirá daquela que não a deseja.

Amparar se faz necessário, pois essas relações materno-filiais são tão poderosas, que mesmo diante da compreensão do dano, os filhos dessas mulheres tendem a manter a proximidade e os vínculos com suas genitoras tóxicas, por pior que tenha sido a situação. A cobrança social mostra-se imensurável para que tais filhos continuem a apoiar e dar suporte à essas mães, independentemente do que lhes ocorra, mantendo-os em constante processo de manipulação e adoecimento por parte dessa matriarca não tratada.

Há a necessidade de que o poder público crie e incentive políticas de alcance psicológico às famílias e indivíduos, e sociedade como um todo, além da atenção de profissionais da saúde mental pela busca de entendimento dessa demanda. Quanto mais pessoas puderem ser reconhecidas, acolhidas e tratadas para que alcancem o autoconhecimento e de seus processos, conduzindo-as sobretudo à reeducação psico-comportamental, menor será o impacto de devastação social diante do esfacelamento do sujeito sob a tutela da mãe narcisista, e ela mesma conseguir encontrar algo mais próximo da felicidade e amor real que deseja, mas desconhece.

REFERÊNCIAS

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APÊNDICE – REFERÊNCIA NOTA DE RODAPÉ

3.  Giammarco & Vernon (2014) plantean que el maquiavelismo y la psicopatía se caracterizan por presentar venganza emocional. El maquiavelismo y la psicopatía también presentaron baja compasión, baja toma de perspectiva y baja preocupación empática. Al relacionar la Tríada con empatía y alexitimia (Jonason & Krause, 2013) se encontró que la psicopatía se asoció con la empatía limitada general, dificultad para describir los sentimientos y el pensamiento orientado hacia el exterior. El narcisismo se relacionó con la empatía limitada y la dificultad para identificar los sentimientos afectivos, mientras que el maquiavelismo se asoció con el pensamiento orientado hacia el exterior. En otro estudio (Cairncross, Veselka, Schermer & Vernon, 2013) los resultados revelaron que la alexitimia se asoció en forma positiva con la psicopatía y el maquiavelismo, y de manera negativa con el narcisismo. Un análisis genético del comportamiento demostró que las correlaciones fenotípicas fueron principalmente atribuibles a factores genéticos comunes y a factores ambientales comunes no compartidos. (GONZÁLEZ, 2015, p. 258)

4. Black, Woodworth & Porter (2014) plantean que las personalidades oscuras son más propensas a percibir a sus víctimas como desagradables, con baja autoestima, muy neuróticas, deprimidas y ansiosas. Los psicópatas generalmente perciben sus objetivos como menos afables, muy neuróticos, deprimidos y ansiosos. Los maquiavélicos perciben sus objetivos más neuróticos, ansiosos y deprimidos. Por último, los narcisistas perciben sus objetivos como bajos en la apertura a nuevas experiencias, conscientes, extrovertidos y altos en depresión. (GONZÁLEZ, 2015, p. 259)

5. Para Baughman, Jonason, Lyons & Vernon (2014), los psicópatas y maquiavélicos se vinculan a la propensión a mentir en diferentes contextos, incluyendo el coito y la deshonestidad académica. Estos autores plantean que los psicópatas experimentan más emociones positivas relacionadas con la mentira, y los maquiavélicos presentan una mayor cantidad de esfuerzo cognitivo asociado al engaño. Jonason, Lyons, Baughman & Vernon (2014) encontraron que los psicópatas y los maquiavélicos estaban vinculados a decir más mentiras; la psicopatía se asoció a decir mentiras sin razón, y el maquiavelismo estaba relacionado con decir mentiras blancas. El narcisismo, en cambio, estaba vinculado a la mentira para beneficio propio y la habilidad de autorreporte para mentir. Jonason, Wee, Li & Jackson (2014) estudiaron los intereses vocacionales en relación con los rasgos de la Tríada, y encontraron que los psicópatas están más interesados en carreras realistas y prácticas, los narcisistas, en las carreras artísticas, emprendedoras y sociales, y los maquiavélicos tienen más interés en evitar las carreras que involucran cuidar a los demás. (GONZÁLEZ, 2015, p. 260)

6. En relación con los cuidados en la infancia y la Tríada (Jonason, Lyons & Bethell, 2014), se ha encontrado que la baja calidad de los cuidados maternales lleva al maquiavelismo y aspectos del narcisismo, como pretensión/exploración y liderazgo/autoridad cuando el apego seguro no se produce. El cuidado paternal de baja calidad lleva a la psicopatía secundaria, y el cuidado paterno de alta calidad se ha asociado con la dimensión de pretensión/explotación del narcisismo. Por otra parte, en la relación entre la teoría de la mente y el apego (Riquelme, Henríquez & Álvarez, 2003), se ha descubierto que los cuidados en la infancia tienen un importante impacto en el proceso de mentalización. La teoría de la mente aparece como concepto en el trabajo de Premack & Woodruff (1978), definida como la capacidad de comprender, predecir y explicar el comportamiento humano en términos de estados mentales internos. En estudios que relacionan la teoría de la mente con la Tríada (Stellwagen & Kerig, 2013) se ha observado que en niños de sexto y séptimo grado el narcisismo está asociado de manera positiva con la teoría de la mente, y que los rasgos insensibles, sin emoción, se asocian negativamente con la teoría de la mente. Por otra parte, la impulsividad y el maquiavelismo no estarían relacionados con la teoría de la mente. (GONZÁLEZ, 2015, p. 257)

7.  (…) al revisar estudios que investigan los cuidados en la infancia y la Tríada (Jonason, Lyons & Bethell, 2014), se ha sugerido que la calidad del cuidado parental lleva a patrones de apego que pueden conducir a diferentes aspectos de la Tríada, lo cual es un importante indicador de que los cuidados tempranos en la infancia por parte de figuras significativas influyen en el desarrollo de los rasgos de la Tríada. La evidencia presentada, a partir de la mirada evolutiva, provee datos que permiten cuestionar la hipótesis evolucionista referida a que los rasgos de la Tríada se expresarían o se transmitirían exclusivamente con un fin reproductivo. (GONZÁLEZ, 2015, p. 262)

[1] Especialista em Neurociência Pedagógica pela AVM Educacional/UCAM/RJ; especialista em Arteterapia em Educação e Saúde pela AVM Educacional/UCAM/RJ; especialista em Pesquisa de Comportamento e Consumo pela Faculdade SENAI CETIQT RJ; especialista em Artes Visuais pela UNESA/RJ; bacharela em Design pela Faculdade SENAI CETIQT RJ. Bacharelanda em Psicologia pela UNIP/SP e pós-graduanda em Terapia Cognitivo Comportamental pela PUC/PR.

[2] Bacharela em Comunicação Social pela Faculdade Casper Libero/SP. Bacharelanda em Psicologia pela UNIP/SP.

Enviado: Março, 2022.

Aprovado: Agosto, 2022.

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Liliane Alcântara de Abreu

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