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Reflexões sobre os impactos da desnutrição de macronutrientes no sistema imune de lactentes e crianças na primeira infância: Uma revisão sobre o papel de proteínas, carboidratos e lipídeos

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CONTEÚDO

REVISÃO INTEGRATIVA

ACIPRESTE, Ana Beatriz Braga [1], ANDRADE, Luane Silveira de [2], BORGES, Mariana Lopes [3], OLIVEIRA, Sabrynna Brito [4]

ACIPRESTE, Ana Beatriz Braga et al. Reflexões sobre os impactos da desnutrição de macronutrientes no sistema imune de lactentes e crianças na primeira infância: Uma revisão sobre o papel de proteínas, carboidratos e lipídeos. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 01, Vol. 01, pp. 05-23. Janeiro de 2026. ISSN: 2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/nutricao/desnutricao-de-macronutrientes, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/nutricao/desnutricao-de-macronutrientes

RESUMO

Esse estudo visou refletir, à luz de uma revisão bibliográfica, sobre os impactos da desnutrição de macronutrientes na resposta imune de lactentes e crianças na primeira infância (até 6 anos de idade), trazendo a importância desses nutrientes para a prevenção de disfunções imunológicas na infância. Trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa com base em artigos, livros e materiais técnico-científicos publicados nos últimos 5 anos nas bases de dados SciElo, Google Acadêmico, Biblioteca Virtual da PUC Minas, Manual MSD e sites/revistas de Sociedades de Saúde. Para a pesquisa foram utilizadas as palavras-chaves: Nutrição; Sistema Imune; Imunidade Infantil; Amamentação; Desnutrição; Desnutrição Proteica-calórica; kwashiorkor, Marasmo, Microbiota Intestinal; Inflamação. A deficiência de proteínas está envolvida no comprometimento de citocinas e anticorpos. As fibras são o tipo de carboidrato mais relevante para promoção da saúde imune através da sua atuação na microbiota intestinal. Dentre os lipídios dietéticos, os ômegas atuam mais especificamente no sistema imunológico através da modulação de processos inflamatórios, mas também há atuações importantes de fosfolipídios e colesterol. As proteínas, carboidratos e lipídios desempenham um papel essencial no desenvolvimento e funcionamento do sistema imunológico de lactentes e crianças. Portanto, garantir uma alimentação nutritiva e diversificada é fundamental para o desenvolvimento saudável e a manutenção de um sistema imunológico eficiente em lactentes e crianças na primeira infância.

Palavras-chave: Imunidade infantil, Desnutrição Proteica-Calórica, Proteínas, Carboidratos, Lipídeos.

1. INTRODUÇÃO

Atualmente, sabe-se que a literatura contém evidências consistentes sobre a importância de uma alimentação adequada para prevenir o surgimento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) e de desordens imunológicas [1]. Diversos nutrientes apresentam funções essenciais na modulação da imunidade, pois participam de mecanismos celulares, teciduais e de barreiras de defesa capazes de potencializar a resposta imune [1].

No contexto da primeira infância — fase que compreende os primeiros seis anos de vida e é determinante para o desenvolvimento humano — os cuidados nutricionais tornam-se ainda mais relevantes. Nessa etapa, a garantia de uma nutrição completa é crucial para reduzir a vulnerabilidade a condições associadas ao mau funcionamento do sistema imune (SI).

Estudos [2,3,4] destacam, por exemplo, a relevância do aleitamento materno exclusivo, capaz de fornecer energia e nutrientes essenciais (com exceção da vitamina K, suplementada no recém-nascido logo após o parto) para a sobrevivência e desenvolvimento de lactentes até os seis meses de idade. Esse período é o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a amamentação exclusiva.

Além disso, a introdução alimentar equilibrada e a manutenção de práticas nutricionais saudáveis durante a infância são indispensáveis para a adequada maturação da imunidade. Uma dieta variada e compatível com a idade, o desenvolvimento e as condições socioeconômicas garantem a oferta de nutrientes necessária para sustentar as funções imunológicas na prevenção e no combate a infecções [4]. Quando essa demanda não é atendida — seja pela baixa ingestão de alimentos ou por dietas nutricionalmente desbalanceadas — surge a desnutrição infantil. Essa condição, prevalente em populações socioeconomicamente vulneráveis, permanece como um dos principais problemas de saúde pública global, com impactos significativos no enfraquecimento do SI infantil [5,6].

Embora a relação entre micronutrientes e imunidade seja amplamente documentada, a literatura revela menor aprofundamento quanto ao papel dos macronutrientes — proteínas, carboidratos e lipídeos — na modulação da resposta imune. Essa lacuna reforça a relevância do presente estudo, que busca discutir criticamente os impactos da desnutrição de macronutrientes no sistema imune de lactentes e crianças na primeira infância.

2. MÉTODOS

Trata-se de uma revisão narrativa da literatura científica, metodologia que busca sintetizar e discutir criticamente os resultados já existentes sobre um determinado tema. As buscas foram realizadas entre abril e junho de 2024 nas seguintes bases de dados e buscadores: SciELO, Google Acadêmico, Biblioteca Virtual da PUC Minas, Manual MSD e sites/revistas de Sociedades de Saúde. A seleção dessas fontes foi motivada por sua abrangência e validação por revisão por pares, conferindo confiabilidade ao material consultado.

Foram utilizados os descritores: “Nutrição”, “Sistema Imune”, “Imunidade Infantil”, “Amamentação”, “Desnutrição”, “Desnutrição Proteica-calórica”, “Kwashiorkor”, “Marasmo”, “Microbiota Intestinal”, “Inflamação” e “Deficiência de macronutrientes”. A combinação entre os termos foi feita por meio dos operadores booleanos “AND” e “OR”, ajustados conforme as especificidades de cada base de dados.

Foram utilizados como critérios de inclusão: artigos publicados entre 2020 e 2024, em português, inglês ou espanhol, que abordassem a relação entre nutrição e sistema imune em lactentes ou crianças na primeira infância. Os critérios de exclusão consideraram: estudos repetidos nas bases de busca, publicações sem texto completo disponível, materiais que não contemplavam a relação entre nutrição e imunidade, e artigos com foco exclusivo em micronutrientes.

Exceções a esse recorte temporal foram admitidas apenas para documentos considerados de referência consolidada, como a Tabela TACO [15] e a Resolução-RDC nº 269, de 22 de setembro de 2005, do Ministério da Saúde [10], ainda reconhecidos como fontes legítimas de consulta pela comunidade científica.

O processo de seleção envolveu triagem inicial por títulos e resumos, seguida da leitura completa dos trabalhos potencialmente relevantes. Os dados extraídos foram organizados e sintetizados em tabela própria para apoiar a análise.

A Figura 1 apresenta, de forma esquemática, as etapas do processo de busca e seleção de estudos incluídos nesta revisão.

Figura 1. Esquema metodológico utilizado para a seleção de artigos

 

Fonte: os autores, 2024.

Por se tratar de pesquisa baseada exclusivamente em literatura, não houve necessidade de apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP).

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

No processo de busca, foram inicialmente identificadas 48 publicações. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 29 estudos foram analisados integralmente e utilizados nesta revisão (Figura 1).

3.1 PROTEÍNAS E SUA RELAÇÃO BEM ESTABELECIDA COM O SISTEMA IMUNE INATO NA PRIMEIRA INFÂNCIA

As proteínas constituem as moléculas mais abundantes e versáteis dos sistemas vivos, desempenhando funções essenciais em praticamente todos os processos biológicos. [1;7]

Tendo sua importância e relevância tratada no material [7], o estudo das proteínas torna-se crucial para a compreensão do potencial que uma deficiência desse macronutriente tem em gerar um transtorno imunológico nos humanos e, de forma mais preocupante, em crianças. Dessa maneira, faz-se essencial a averiguação dos papéis das proteínas no organismo e em especial no SI.

Dentre os efeitos da deficiência de proteínas para o sistema imune, está o comprometimento de citocinas e anticorpos [6], esses que têm sua estrutura composta por aminoácidos. De acordo com o artigo [8], citocinas são substâncias protéicas, que podem ser glicosiladas ou não e que têm como função o encaminhamento de sinais estimulatórios, modulatórios ou inibitórios para as diferentes células do SI. Como um dos exemplos citados pelos autores, tem-se o interferons do tipo I (IFN-a e IFN-ß), diretamente relacionado com a limitação da propagação de infecções virais e das parasitoses, e consequentemente, o controle da infecção.

No mesmo sentido, os anticorpos, também compostos por peptídeos, possuem ações no que diz respeito ao controle de processos inflamatórios junto aos receptores na superfície celular, na recuperação de tecidos danificados por agressões físicas, químicas e/ou biológicas, e também na eliminação de patógenos. Deficiências na produção de anticorpos podem originar imunodeficiências primárias, em que até a luz do conhecimento atual, apresenta a reposição de imunoglobulina como um tratamento essencial [9]. Um distúrbio nos anticorpos também pode estar associado a um distúrbio nos linfócitos B, seja no processo de maturação na medula óssea, na ativação ou na própria função do linfócito, relação comumente tratada na literatura. Em contrapartida, o estudo do vínculo entre deficiências do consumo proteico e disfunções imunológicas aparece mais deficiente.

Ao falar-se em um sistema imune debilitado pela deficiência quantitativa e/ou funcional de organismos essenciais na resposta imune tem-se o possível desencadeamento de patologias como consequência. Essa deficiência de organismos necessários, por sua vez, pode estar relacionada ao número reduzido de substratos para sua formação, como ocorre em situações de baixa concentração de proteínas, que tem como possível efeito a baixa formação de citocinas e consequentemente a fragilização do sistema imune.

Em indivíduos com dietas escassas em teor proteico, sendo essa abaixo da Ingestão Diária Recomendada (IDR), pode haver prevalência de infecções bacterianas, conforme revisão de literatura [6]. Por ter-se no artigo em questão o foco em crianças em sua primeira infância, usa-se a IDR para Lactentes e Crianças disposta na RDC 269, de 22 de setembro de 2005 [10]. O documento especifica as necessidades diárias de proteínas para diferentes idades: até seis meses, 9,1g; de sete a onze meses, 11g; de um a três anos, 13g; e de quatro a seis anos, 19g. Essas quantidades visam atender a demanda metabólica de 97%-98% de indivíduos sadios, de maneira que favoreça o desenvolvimento.

A repercussão da falta de macronutrientes, em especial de proteínas, para o corpo de crianças repercute como desnutrição proteica-calórica (DPC). O conceito dessa doença está atrelado ao déficit energético em razão da deficiência de todos os macronutrientes, principalmente de proteína. A origem da condição tende a variar dependendo do estado de segurança alimentar do país em que a criança reside, o que justifica que, em países com recursos alimentares suficientes, os pacientes com DPC apresentam, como origem da doença, distúrbios que diminuem o apetite ou que prejudicam a digestão, a absorção ou o metabolismo dos nutrientes. Por outro lado, em países com elevados índices de insegurança alimentar, a DPC acomete crianças que ingerem quantidades insuficientes de calorias ou proteínas [11].

Esta discussão tem como foco a DPC primária crônica, por ser o tipo de desnutrição mais relacionado ao consumo alimentar e ter como principais portadores crianças e idosos. No grupo em estudo, a desnutrição proteica-calórica pode se manifestar como Marasmo, kwashiorkor ou kwashiorkor marasmático. De forma breve, serão discutidos os mecanismos das manifestações clínicas visando a compreensão dos efeitos metabólicos.

Em primeiro lugar, o marasmo, conhecido como forma seca de DPC, tem como principais alvos os lactentes e recém-nascidos e causa perda ponderal e depleção de músculos e gordura. Como sinais físicos têm-se: quadris, ossos faciais e coluna vertebral visíveis através da pele [12].

Em segundo lugar, o kwashiorkor ou forma molhada, é uma desnutrição predominantemente proteica e têm casos mais frequentes nas condições de abandono prematuro do aleitamento materno. As características da condição estão relacionadas a um déficit no crescimento, presença de cabelos anormalmente loiros, ralos e quebradiços e manchas descoloridas da pele. Diferente do marasmo, causa edema periférico devido ao enfraquecimento das membranas celulares, o que ocasiona um extravasamento de líquidos e proteínas intravasculares. Em terceiro lugar, o kwashiorkor marasmático se configura quando um indivíduo com kwashiorkor não realiza o consumo necessário de calorias. Como sinais clínicos, têm-se o edema e perda de gordura subcutânea, apresentando assim tanto indícios de marasmo quanto de kwashiorkor [13].

Em suma, é necessário destacar o vínculo existente entre a desnutrição proteica-calórica e as decorrências no SI dos indivíduos. Nas manifestações discutidas anteriormente, há como efeito o comprometimento da imunidade celular [11], o que eleva a suscetibilidade a infecções. Nesse viés, há maior tendência das crianças desnutridas terem infecções bacterianas como: pneumonia, gastroenterite, otite média, infecções do trato urinário e sepse.

Ademais, pela liberação de citocinas mediante a resposta à infecção, existe uma inclinação ao desenvolvimento de anorexia. Isso pode ser explicado por diversos mecanismos, como por exemplo pelo aumento da síntese de leptina, devido ao estímulo da infecção e das citocinas pró-inflamatórias como, por exemplo, o TNF-α (fator de necrose tumoral alfa) e a IL-6. O aumento nas concentrações de leptina como resultado do aumento dessas citocinas pode contribuir para a anorexia e redução de massa corporal que acompanham as condições inflamatórias [14]. Dentro desse contexto, há uma piora significativa do quadro de desnutrição.

Em síntese, a deficiência de proteínas tratada aqui traz como foco principal a quantidade e qualidade dos alimentos proteicos ingeridos nas dietas, entretanto cabe ressaltar a necessidade da ingestão dos aminoácidos essenciais (AAE), esses que não são sintetizados pelo nosso organismo ou são, porém não na quantidade necessária. Apesar do comprometimento das citocinas e anticorpos, tratado anteriormente, não estar associada a uma falta específica de apenas um tipo de aminoácido proteico, uma vez que em suas composições a natureza dos aminoácidos é diversa, não deve-se deslembrar do impacto positivo do consumo dos aminoácidos essenciais. Trazendo a discussão para um âmbito mais prático, observou-se a necessidade em trazer exemplos de alimentos considerados fontes de AAE. Assim, tem-se carnes, peixes, leite e derivados, soja, ovo e leguminosas, conforme análise realizada com base em dados da TACO [15].

3.2 CARBOIDRATOS E FIBRAS ALIMENTARES E SEU IMPACTO NA MICROBIOTA INTESTINAL NA PRIMEIRA INFÂNCIA

Os efeitos imunológicos dos carboidratos na primeira infância não são tão diretos quanto os das proteínas, e grande parte da literatura ressalta o papel das fibras e sua relação com a microbiota intestinal, considerada como parte do sistema imune inato.

Assim como as proteínas, o consumo de carboidratos nas quantidades adequadas faz-se essencial para a evolução da saúde das crianças, bem como para o desenvolvimento de um sistema imune eficiente e certeiro no combate a patógenos. Sendo assim, tanto a falta como o excesso desse nutriente pode gerar quadros nutricionais e condições sequentes. Cabe dizer que o consumo de carboidratos deve ser analisado em um quadro geral, sendo discutidos aspectos sociais, hábitos familiares, sedentarismo e outras condições de saúde associadas. [16]

No âmbito do desenvolvimento da desnutrição, a escassez de carboidratos exerce risco similar à falta de proteínas, em especial no que se diz ao marasmo, tendo em vista que no kwashiorkor a predominância de supressão é de proteínas para ocasionar o quadro. Entretanto, faltam estudos e artigos de fontes confiáveis publicados nos últimos cinco anos que relacionem diretamente a escassez de carboidratos ao comprometimento do sistema imunológico na primeira infância.

A maior parte dos achados relaciona-se à microbiota e à saúde intestinal, sem detalhar de forma robusta os desfechos clínicos sistêmicos (como aumento do risco de pneumonia ou otite em crianças com dietas pobres em carboidratos). Essa lacuna ressalta a necessidade de investigações específicas que correlacionem deficiência ou inadequação de carboidratos e desfechos imunológicos clínicos em lactentes e crianças pequenas.

Estudos demonstram um forte ligação entre a ingestão de fibras e as consequências para a microbiota intestinal, sobretudo nas crianças. As fibras alimentares são carboidratos não digeríveis pelo ser humano, que têm sua classificação como solúveis ou insolúveis, sendo algumas de suas fontes os vegetais, as leguminosas, os cereais integrais e os alimentos constituídos por amido resistente, por exemplo. Tendo seu conceito esclarecido pela referência [7], pode-se explorar o papel de proteção das fibras.

Torna-se essencial tratar que o metabolismo das fibras ocorre por meio de bactérias intestinais, em especial pelas Bifidobactérias, e tem como resultado ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), que auxiliam na manutenção do equilíbrio intestinal. Esses ácidos graxos, tais como acetato e butirato, colaboram com a diminuição do pH do local, o que reduz a possível proliferação de bactérias patogênicas alcalinas, tópico bem discutido em estudo recente [18]. Ademais, há evidências a favor do aumento das Bifidobactérias durante a infância, justificando-se pelo aumento da proteção da criança ao desenvolvimento de doenças alérgicas [17].

Sendo assim, no que se diz à alimentação infantil, a falta de ingestão de uma dieta balanceada, ou seja, rica em nutrientes e em fibras, pode contribuir para uma disbiose, aumentando a suscetibilidade a ocorrência de doenças, alergias e outras condições que podem perdurar até o amadurecimento da criança, como a obesidade, conforme dados atuais [18]. Os fatos levantados comprovam a relevância da orientação da OMS acerca da ingestão de fibras [19], que sugere a necessidade da ingestão diária de no mínimo 15g de fibras por dia, na faixa etária de dois a cinco anos. As fibras estão presentes nas frutas, nos legumes, nas leguminosas e nos alimentos à base de cereais integrais [20].

3.3 LIPÍDEOS E A MODULAÇÃO DA IMUNIDADE INFANTIL

Os lipídeos, por sua vez, sendo a principal fonte de calorias do leite materno e tendo um amplo papel no organismo do ser humano, podem ser interpretados como moléculas importantes para o desenvolvimento do SI de lactentes e crianças. Essas macromoléculas apresentam diferentes tipos, o que pode explicar seu papel em diversos âmbitos do organismo. São eles os triacilgliceróis (TAG), o colesterol, os fosfolipídeos (PL), as vitaminas lipossolúveis, os ácidos graxos (AG), as lipoproteínas, os esfingolipídeos, os eicosanóides, os esteróides, as ubiquinonas, entre outros [7].

Em primeira análise, os AG essenciais mostraram ter papéis relevantes no SI, especialmente o ácido alfa-linolênico, da família dos AG ômega 3, majoritariamente encontrado em alimentos na forma de TAG (98%), embora seja mais biodisponível quando encontrado em forma de PL [21], e o ácido linoleico, da família dos ômegas 6. O ácido linolênico é um AG poliinsaturado essencial de cadeia longa que funciona como substrato para a síntese de EPA (ácido graxo eicosapentaenoico) e DHA (ácido graxo docosahexaenoico), moléculas com alto potencial anti-inflamatório e imunomodulador. [22,23]

Importante ressaltar que, devido a imaturidade enzimática de crianças, a conversão de ácido linolênico em EPA e DHA é muito baixa. E como o DHA também possui funções importantes no desenvolvimento do sistema nervoso central, ele se torna um ácido graxo condicionalmente essencial para gestantes, lactentes e crianças [22,24]. A recomendação da ASBRAN (Associação Brasileira de Nutrição) em relação a ingestão de DHA para lactentes de até 6 meses é de 0,2% a 0,4% do total de lipídeos; para bebês entre 6 a 24 meses a quantidade é de 10mg/kg/dia a 12mg/kg/dia; para crianças de 2 a 4 anos é de 100mg/kg/dia a 150mg/kg/dia; e, por fim, para crianças de 4 a 6 anos a quantidade ideal é de 150mg/kg/dia a 200mg/kg/dia. No Brasil, a maior fonte de DHA é a sardinha, que ainda não possui as quantidades suficientes recomendadas, sendo, portanto, sua suplementação recomendável para o grupo em estudo. [24]

Dessa forma, identificada a importância do ácido linolênico, é possível compreender que a sua deficiência na dieta pode se manifestar de forma impactante, especialmente na infância, sendo um fator determinante para o surgimento, por exemplo, de doenças inflamatórias, infecções e lesões [22,24]. No artigo desenvolvido pela BRASPEN (Sociedade Brasileira de Nutrição Enteral e Parenteral) [22], foi abordada a relação inversa entre a ingestão desse ômega 3 e o surgimento de asma e outras alergias. As fontes alimentares de ácido linolênico são: vegetais de folhas verdes, linhaça e alguns óleos de peixes de água fria [25].

O ácido linoleico também está presente em estudos relacionados à associação entre os ômegas e as doenças, em sua maioria cardiovasculares, mas aparece com menos frequência nas pesquisas, quando comparado ao ácido linolênico. Ele possui efeito pró-inflamatório, devendo ser controlado e equilibrado com o ácido linolênico na dieta, pois esses dois ômegas competem pelas mesmas enzimas que os convertem em outros compostos, reações necessárias para a manifestação de suas ações referentes aos processos inflamatórios. Sendo assim, as concentrações ingeridas de ômega 3 e 6 devem ser equilibradas, e não deficientes, para manter a homeostase corporal. A proporção dietética recomendada de ômega-6/ômega-3 para benefícios à saúde é de 1:1–2:1 [21]. O ácido linoleico é encontrado em grandes quantidades em óleos de milho, soja, canola e palma [25].

Paralelo a isso, alguns AG essenciais, quando pensados em lipídeos de membrana, se assemelham aos PL e ao colesterol, que são importantes para formar e manter a integridade da membrana celular, o que é primordial para a regulação do SI através da entrada e saída de substâncias das células imunes [7]. Sendo assim, é possível concluir que a deficiência desses lipídeos na dieta compromete a estrutura membranar das células do SI, resultando em ineficiência das mesmas.

Os PL ainda atuam como precursores de prostaglandinas a partir do ácido araquidônico, AG não essencial da família dos AG ômega 6, formado a partir da degradação de PL, que gera as prostaglandinas com o seu metabolismo [7,26]. As prostaglandinas são citocinas pró-inflamatórias primordiais em diferentes processos fisiológicos e patológicos, incluindo a resposta imunológica, sendo liberadas nos processos inflamatórios [26]. Importante ressaltar que a inflamação é necessária na reparação tecidual quando há alguma lesão, portanto, sua ocorrência é essencial, exceto quando ocorre de forma exagerada [26,27]. Nesse sentido, a falta de PL no organismo de crianças pode ocasionar dificuldades no mecanismo de reparo de tecidos lesionados pela baixa produção de prostaglandinas.

Por fim, o colesterol é obtido tanto de forma endógena quanto de forma exógena (dieta) pelo organismo e é precursor de todos os hormônios esteróides, glicocorticoides, mineralocorticoides e hormônios sexuais [7]. Dentre esses, os hormônios mais associados ao SI foram o cortisol, o estrógeno e a testosterona. O cortisol atua em situações de estresse agudo, inibindo a produção de citocinas pró-inflamatórias e suprimindo a atividade de células imunes, como os macrófagos e linfócitos T. O estrógeno e a testosterona também possuem relação com a resposta inflamatória, sendo o primeiro relacionado à proteção anti-inflamatória e o último tendo a capacidade de modular a resposta inflamatória de forma diferente entre homens e mulheres [28]. Portanto, a deficiência de colesterol também se apresenta de forma maléfica, interferindo de forma indireta no SI por meio da diminuição na produção de hormônios com capacidade anti-inflamatória. Entretanto, como esse é um lipídeo que também é produzido metabolicamente, seu excesso é mais comum do que sua deficiência. Podemos encontrar colesterol em alimentos de origem animal, como carnes e laticínios.

Em suma, os AG essenciais, os PL e o colesterol são classificações de lipídeos dietéticos que exercem funções importantes nos processos inflamatórios e precisam estar em quantidades suficientes na dieta de crianças e no leite materno. O perfil lipídico do leite humano varia de acordo com diversos fatores, como desnutrição materna, duração do período de amamentação, desordens metabólicas, composição da dieta materna e hormônios [29].

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

De modo geral, a literatura revisada evidencia que a desnutrição de proteínas apresenta os impactos mais diretos e documentados na imunidade infantil, enquanto carboidratos e lipídeos carecem de investigações sistemáticas. Ainda que existam associações indiretas, como a microbiota intestinal no caso dos carboidratos, ou os mediadores lipídicos no caso dos ácidos graxos, faltam estudos que estabeleçam uma relação clara entre inadequação nutricional, mecanismos imunológicos específicos e desfechos clínicos em lactentes e crianças na primeira infância.

No entanto, pode-se concçuir que a deficiência desses nutrientes na dieta pode comprometer a resposta imunológica do corpo, aumentando a suscetibilidade a doenças e infecções. Por outro lado, a ingestão adequada, juntamente com uma dieta balanceada e rica em fibras, pode fortalecer o sistema imunológico e promover a saúde intestinal. Além disso, os micronutrientes também desempenham um papel importante na modulação da imunidade, de forma até mais específica. Portanto, garantir uma alimentação nutritiva e diversificada é fundamental para o desenvolvimento saudável e a manutenção de um sistema imunológico eficiente em lactentes e crianças na primeira infância.

Assim, este estudo reforça a importância de políticas públicas e intervenções nutricionais voltadas à prevenção da desnutrição infantil, não apenas como estratégia de promoção do crescimento físico, mas também como ferramenta de prevenção e combate a infecções comuns da infância, como pneumonias, diarreias e otites.

REFERÊNCIAS

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  2. Fuga, LF. A cultura e os hábitos familiares da prática de atividades físicas e as tendências à obesidade. Revista PubSaúde, 2020 [citado 13 de junho de 2024]; 3, a023. dx.doi.org/10.31533/pubsaude3.a023
  3. Escrivani DS, Soares APS, Mallet ACT, Souza HLS, Nascimento KO. Como a amamentação e a alimentação podem impactar na microbiota intestinal no desenvolver da criança. Research, Society and Development, 2023 [citado 13 de junho de 2023]; v.12, n.8, e11712842951. https://doi.org/10.33448/rsd-v12i8.42951
  4. Paula MB, Campbell CSG, Alves AFC, Filho ESR, Ferreira MIM, Marçal FA, et al. Microbiota intestinal infantil: do nascimento aos 5 anos de idade. Brazilian Journal of Health Review, 2021 [citado 13 de junho de 2023]; v.4, n.6, p. 26253-26268. https://www.fca.unesp.br/Home/Biblioteca/tipos-de-evisao-de-literatura.pdf
  5. Secretária de Saúde do Distrito Federal. Entenda novas orientações da OMS sobre o consumo de gorduras e carboidratos. Agência Saúde DF, 2023 [citado 13 de junho de 2024]. Disponível     em: https://www.saude.df.gov.br/web/guest/w/entenda-novas-orienta%C3%A7%C3%B5es-da-oms-sobre-o-consumo-de-gorduras-e-carboidratos
  6. Sociedade Brasileira de Diabetes. Fibras alimentares – O que é importante saber? 2021 [citado em 17 de junho de 2024]. Disponível em: https://diabetes.org.br/fibras-alimentares-o-que-e-importante-saber/
  7. Santos PP dos, Silva TC da, Soares VM. Papel do Ômega-3 e do Ômega-6 sobre Fatores de Risco Cardiovasculares: Importância da Fonte da Dieta e da Estrutura do Lipídio. SciElo, 2023 [citado em 15 de junho de 2014]. https://www.scielo.br/j/abc/a/h9pS55jTLTbz9z7KvSPHqQH/?lang=pt
  8. Falcão MC. Dinâmica da composição lipídica das fórmulas infantis e suas implicações clínicas. BRASPEN Journal, 2020 [ citado em 15 de junho de 2024]. Disponível em: : https://braspenjournal.org/article/10.37111/braspenj.2020353015/pdf/braspen-35-3-29 4.pdf
  9. Capistrano EAL, Sampaio RMM, Passos TU, Passos TU, Brito FCR, Santos FE dos. Ingestão dietética e utilização de imunonutrientes para melhora do estado nutricional e da imunidade durante a pandemia de Covid-19. RSD (Research, Society and Development), 2023 [citado em 17 de junho de 2024];12(13):e113121344328. https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/44328
  10. ASBRAN. II Consenso da Associação Brasileira de Nutrologia sobre recomendações de DHA durante a gravidez, lactação e infância. 2022 [citado em 20 de junho de 2024]. https://ijn.zotarellifilhoscientificworks.com/index.php/ijn/article/view/237/227
  11. Filho AL, Cesar ASM. Alimentos funcionais. Série Produtor Rural n° 74, 2022 [citado em 20       de        junho de       2024]. Disponível     em: https://www.studocu.com/pt-br/document/universidade-federal-do-para/nutricao-anim al-i/e-book-alimentos-funcionais-serie-produtor-rural-usp/67526573
  12. Marques ELN. Segurança dos anti-inflamatórios não esteroidais seletivos para a ciclooxigenase II e o cuidado farmacêutico. Universidade do Estado da Bahia, 2022 [citado em            20       de        junho de       2024]. https://saberaberto.homologacao.uneb.br/server/api/core/bitstreams/7a273587-96cb-49 b6-a4b2-87bca5afb3ce/content
  13. Araújo AR. O paradoxo da inflamação. Portal UFMG, 2019 [citado em 20 de junho de 2024]. Disponível     em: https://ufmg.br/comunicacao/publicacoes/boletim/edicao/2046/o-paradoxo-da-inflama cao
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  15. Coutinho S de F, Carvalho LC, Sarno AAC, Spadon F, Vasconcelos MPM, Santos M. Teor lipídico e composição mineral do leite materno e suas correlações. CiPraxis, 2019 [citado            em      20        de       junho de       2024]. https://revista.uemg.br/index.php/praxys/article/view/4288/2419

INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES

[1] Graduação em andamento em Nutrição. ORCID: 0009-0005-8200-6442.

[2] Graduação em andamento em Nutrição. ORCID: 0009-0002-2621-8983. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/9686246569854655.

[3] Graduação em andamento em Nutrição. ORCID: 0009-0007-2534-5055. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/9267778735555589.

[4] Orientadora. Pós-Doutorado em Microbiologia (UFMG – 2022); Doutorado em Microbiologia (UFMG – 2019); Mestrado em Microbiologia (UFC – 2014); Graduação em Biomedicina (UFPI – 2012). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9303-4338. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2498047677232858.

Contribuição dos autores:

Ana Beatriz Braga Acipreste: Concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.

Luane Silveira de Andrade: Concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.

Mariana Lopes Borges: Concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.

Sabrynna Brito Oliveira: Análise, interpretação, correção da redação final e orientação do trabalho.

INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL

Conflito de interesse:

Não há conflito de interesse.

Agradecimentos e Financiamento:

Não há financiamento.

Informações sobre Direitos Autorais e Licença:

Este é um artigo de Acesso Aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.

Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a terceiros.

  • ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
  • Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

Histórico da Publicação:

Material recebido: 16 de setembro de 2025.

Material aprovado pelos pares: 06 de outubro de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 18 de dezembro de 2025.

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