Efeitos da abordagem prática baby-led weaning na introdução alimentar: uma revisão

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ARTIGO DE REVISÃO

SANTOS, Ingryd Santana Teles dos [1], MORENO, Patrícia Almeida Jacob [2]

SANTOS, Ingryd Santana Teles dos. MORENO, Patrícia Almeida Jacob. Efeitos da abordagem prática baby-led weaning na introdução alimentar: uma revisão. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 11, Vol. 04, pp. 61-75. Novembro de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/nutricao/baby-led-weaning

RESUMO

A introdução alimentar é extremamente importante para o crescimento e desenvolvimento infantil, e quando feito de maneira correta, diminui as chances de problemas futuros para a criança. Sendo assim, novos métodos de introdução alimentar complementar ganharam força ao longo dos anos. Um desses é o Baby-Led Weaning (BLW), que em português significa: Alimentação guiada pelo bebê. A abordagem acredita promover um comportamento alimentar saudável, melhorar o controle do apetite, gerando resultados positivos para o desenvolvimento do bebê, se tornando conhecida pelo fato de promover as crianças um crescimento saudável e mais independente. Portanto, o objetivo geral da seguinte revisão bibliográfica é analisar as evidências científicas acerca dos efeitos da aplicação do BLW como método de introdução alimentar nos bebês. Tendo como questão norteadora identificar quais os efeitos da aplicação do BLW como método de introdução alimentar nos bebês. Metodologia: Foram realizadas buscas de artigos nas bases de dados do PubMed (Publisher Medline), MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online), e BMJ Open (British Medical Journal Open), como descritores para a pesquisa foram utilizados: Baby-led weaning, Baby-Led, e BLW, utilizando and e o delineador de palavra–chave, isolados ou combinados entre si. Como critérios de inclusão foram utilizados artigos publicados em inglês, espanhol e português, textos disponíveis na íntegra e datas de publicações entre 2005 e 2019. Os critérios de exclusão foram artigos duplicados e artigos que não envolvem o tema de forma direta. A busca na base de dados resultou em 12 artigos, e dados epidemiológicos do Ministério da Saúde. Foram encontrados diversos resultados que mostraram a influência do método na melhora da relação família e bebê, melhora no desenvolvimento da criança, nos fatores de percepção de fome e saciedade e na relação com a comida. Dessa forma, conclui-se que a abordagem estudada foi associada a um aumento das refeições em família, e um menor consumo de alimentos industrializados. No entanto foi observado uma deficiência de nutrientes, e um menor IMC, em bebês que seguiram o método BLW.

Palavras-chave: criança, introdução, desmame, nutrição infantil, baby-led weaning.

1. INTRODUÇÃO

É de conhecimento geral que a introdução alimentar nos primeiros anos de vida é extremamente importante para o crescimento e desenvolvimento infantil, e quando feito da maneira correta, diminui as chances de problemas futuros para a criança.

Dessa forma, toda criança deve ser submetida a adequada introdução de alimentos, para complementação ao aleitamento materno. Neste contexto, a introdução alimentar complementar tradicional, visa a inclusão de alimentos a partir dos 6 meses de idade, de maneira lenta e gradual, em forma de papas/purês e com colher, mas sem interromper o aleitamento materno, que deve ser contínuo até os 2 anos de idade (BRASIL, 2005).

Outros métodos de introdução alimentar complementar vêm ganhando força ao longo dos anos com o mesmo objetivo do tradicional, dentre eles existe o Baby-Led Weaning (BLW) com tradução em português para: Alimentação guiada pelo bebê.

O método Baby-Led Weaning surgiu no Reino Unido e foi apresentado por Gill Rapley e Tracey Murkett, autora da obra Baby-led weaning: helping your baby to love good food (2008). Segundo Rapley (2015), o desmame conduzido pelo bebê é uma abordagem para introdução de alimentos a partir dos 6 meses de idade, que tem como princípio o respeito pelo bebê e uma crença de que seus instintos são confiáveis. Rapley (2015) enfatiza que o BLW reconhece o fato de que bebês saudáveis e de termo são capazes de se alimentar a partir do momento do seu nascimento, e que a alimentação é algo que eles fazem, e não algo que é feito para eles.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) (2017), explica que desde o nascimento, quando estão mais vulneráveis, os bebês sabem como se alimentar, quando se alimentar, a rapidez com que se alimentam e a quantidade de leite materno que devem tomar. Além disso, a própria SBP (2017) relata que as mães não conseguem fazer com que o recém-nascido ou o lactente sugue maior quantidade quando este encerra a mamada, por se sentir satisfeito. Devendo-se sempre encorajar a mãe a entender que o recém-nascido e o lactente saudáveis nascem aptos para regular sua fome e saciedade. Portanto, não há nenhuma razão lógica para que essas habilidades, de obter nutrição e regular a ingestão, devam abandonar o bebê quando ele comece a precisar de outros alimentos (RAPLEY, 2015).

A Sociedade Brasileira de Pediatria lançou um guia prático de atualização sobre a Alimentação Complementar e o Método BLW (2017), visando falar sobre a nova abordagem de introdução. E nele há uma breve discussão sobre Alimentação das crianças desde o nascimento, como já falado anteriormente, até o momento da introdução de alimentos complementares, abordando não só o ponto de vista nutricional como também, o comportamental.

Rapley publicou em junho de 2008 um guia explicativo sobre o método, que irá garantir o bem-estar do bebê, no momento da aplicação do BLW, pontuando o que é permitido e o que não se deve fazer, sendo alguns deles a importância em oferecer ao bebê a oportunidade de participar sempre que alguém da família estiver se alimentando e oferecer o mesmo que você está comendo, para que ele se sinta parte do momento. Como também, deverá ter a certeza de que o bebê está sentado com a coluna ereta, enquanto ele experimenta a comida. Deverá ofertar uma variedade de alimentos e deixar que ele coma no seu próprio ritmo. E o mais importante: Não oferecer Fast-Food, refeições prontas ou alimentos que sejam adicionados de sal ou açúcar.

De acordo com a SBP, no momento da Alimentação Complementar, o lactente pode receber os alimentos amassados oferecidos na colher, mas também deve experimentar o alimento com as mãos, explorando as diferentes texturas dos alimentos como parte do seu desenvolvimento motor. Devendo estimular a interação com a comida, evoluindo de acordo com o seu tempo de desenvolvimento.

Uma das principais discussões em volta do BLW é a preocupação dos profissionais de saúde com a baixa ingestão de energia e de nutrientes, principalmente ferro (D’ANDREA et al., 2016). O BLW depende que toda a família compartilhe refeições adequadas para o bebê. Portanto, o método não é apropriado para famílias que não se alimentem de maneira adequada.

Os alimentos ricos em ferro, como carne e ovos podem ser oferecidos desde o início da introdução alimentar. Com uma ingestão contínua de leite materno, cujo teor de ferro, embora não seja alto, é biologicamente disponível. Também podem ser oferecidas fórmulas que contêm altos níveis de ferro, embora não seja de uma forma tão facilmente assimilável, juntamente com uma oferta variada de alimentos sólidos (RAPLEY, 2011).

Portanto, o objetivo geral da seguinte revisão bibliográfica é analisar as evidências científicas acerca dos efeitos da aplicação do Baby-Led Weaning como método de introdução alimentar nos bebês.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo de revisão de literatura. A obtenção dos dados foi feita através da busca eletrônica em sites oficiais do período de agosto de 2019 a novembro de 2019 nas bases de dados do PubMed (Publisher Medline), MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online), e BMJ Open (British Medical Journal Open), utilizando o formulário avançado de busca, disponível nessas bases de dados. Optou-se por estes locais de busca, por tratar-se de sistemas internacionais de informação de literatura científica e de domínio público.

Como descritores para a pesquisa foram utilizados Baby-led weaning, Baby-Led, e BLW, utilizando and e o delineador de palavra–chave, isolados ou combinados entre si.

Como critérios de inclusão foram utilizados artigos publicados em inglês, espanhol ou português, textos disponíveis na íntegra e datas de publicações entre 2005 e 2019. Como critérios de exclusão foram adotados duplicação de artigos e artigos que não envolvem o tema de forma direta. A busca na base de dados apresentou um total 12 artigos, e dados epidemiológicos do Ministério da Saúde.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

É de extrema importância que os alimentos sejam introduzidos de maneira correta na alimentação da criança a partir dos seis meses de idade. De acordo com o Guia Alimentar para Crianças Menores de 2 anos, a partir dos seis meses, deverá ser oferecido de forma lenta e gradual outros alimentos, sendo eles apresentados em forma de papinhas, devendo o aleitamento materno ser mantido até os dois anos de idade, que é denominado como o método de introdução alimentar tradicional (BRASIL, 2005).

Diferente desse método, no BLW a consistência dos alimentos deve ser cozida, para que fiquem macios, facilitando a mastigação com a gengiva, permitindo também que o bebê consiga pegar o alimento com as mãos, mas sem amassar o alimento.

Segundo Brown e Lee (2011), a abordagem promove um comportamento alimentar saudável, melhora o controle do apetite e até o desenvolvimento de suas habilidades motoras, gerando resultados positivos para o desenvolvimento do bebê. Dessa maneira, compreende-se o motivo pelo qual o método foi se tornando conhecido, pois propõe como resultado crianças com um crescimento saudável e mais independentes.

O ato de realizar refeições em família é um momento crucial para o desenvolvimento saudável de um bebê, trazendo uma boa interação entre ele e sua família. Sendo algo que é apoiado não só pelo método tradicional, mas também é bem abordado e apoiado pelo BLW, fazendo parte de um dos seus princípios.

O estudo de Cameron, Taylor e Heath (2013), com 199 mães e seus bebês entre 6 a 12 meses, que preencheram uma pesquisa on-line sobre a introdução de alimentos complementares ao bebê. Os participantes foram classificados em quatro grupos de acordo com a classificação a seguir: ‘desmame liderado ao bebê (BLW)’, ‘BLW auto identificado’, ‘Alimentação liderada pelos pais’, e ‘método não classificado’.

A maioria (70%) da amostra foi classificada como ‘alimentação liderada pelos pais’, 21% (42) como ‘BLW auto identificado’, 9% (17) como ‘BLW desmame liderado pelo bebê’ e 0 (0%) como ‘método não classificado’. Quando comparados, o grupo ‘BLW desmame liderado pelos bebês’ estava mais propenso a comer os mesmos alimentos que a família comia, na maioria das vezes ou o tempo todo, mas não necessariamente ao mesmo tempo, (47,1%); e a comer refeições junto com a família, sendo a maioria das refeições (47,1%) e todas as refeições (17,6%), mesmo que a comida seja diferente.

Resultados parecidos foram encontrados nos estudos de Brown e Lee (2011) com 655 mães com bebês com idade entre 6 a 12 meses, sendo que 52% seguem o BLW e 57% seguem uma abordagem tradicional. Os bebês que seguiram uma introdução de alimentos de forma tradicional, foram menos propensos a se alimentarem com a família no momento das refeições p<0,001. E se eles participavam das refeições com a família, tiveram uma probabilidade menor de consumir os mesmos alimentos que a família (p<0,001), comparado ao BLW que foi associado à participação infantil nas refeições da família.

De acordo com esses estudos, pode-se observar que o grupo BLW, é mais propenso a comer refeições junto com a família e que mesmo que o grupo BLW não coma ao mesmo tempo que a família, são propensos a comer os mesmos alimentos que a família come, ao contrário do grupo tradicional.

Corroborando com os estudos anteriores, nos estudos de Morison et al. (2016) também foram analisados a associação entre o método e o aumento do ato de comer em família, nele o BLW foi associado a um maior envolvimento dos bebês nas refeições em família, sendo os do grupo BLW mais propensos a sentar com a família durante o almoço (86% p=0,001) e o jantar (80%; p≤0,020), quando comparado ao método de introdução alimentar tradicional. O estudo de Morison, também analisou o número de bebês que se alimentavam com os mesmos ingredientes da família no momento da refeição. Os do grupo BLW foram mais prováveis a comer os mesmos ingredientes que a família, sendo no almoço (43%; p= 0,001) e no jantar (60%; p < 0,001). E as mesmas refeições no almoço (54%; p<0,001) e no jantar (p<0,001).

A pesquisa de Brown e Lee (2013) com 36 mães com bebês em idade de 12 a 18 meses mostrou relatos de mães que seguem o BLW. Todas as mães relataram que as crianças compartilhavam das mesmas refeições que a família, e caso isso não fosse possível, um dos pais se sentaria com a criança e comia um lanche enquanto a criança comia a refeição. Como também, alguns pais mudaram a rotina, e se adaptaram à criança para poderem comer juntos.

Para eles, as refeições foram vistas como mais fáceis e menos estressantes, permitindo que o bebê participasse do momento, ao invés de somente ser alimentado, tornando para eles um momento agradável. Eles relataram que o resto da família se sente incluído nas refeições e todos podem comer enquanto a comida está quente, ao invés de ter que alimentar o bebê com uma colher, ao invés de fazer a sua própria refeição.

Ao observar os estudos, podemos analisar que há um aumento do ato de fazer refeições em família nos grupos que seguem o BLW, como já falado anteriormente. Isso pode se dar por ser um dos pontos abordados e incentivado pelo método, visto que os pais que utilizam o BLW estão de fato em busca de trazer uma alimentação saudável e uma boa experiência alimentar para seus filhos, acabam seguindo o que o método pede mais rigorosamente.

Sendo um ato que é incentivado independentemente do método nas literaturas, a participação dos bebês no momento da refeição é muito importante, trata-se de uma forma de incentivo para eles, estimulando-os a experimentar e aceitar mais facilmente novos alimentos, de forma que o momento da refeição seja agradável para ambos. E, como abordado anteriormente nos estudos de Brown e Lee (2013), através de relatos, vemos que de fato se torna um momento prazeroso e acolhedor, aumentando a aproximação entre o bebê e a família.

Além disso, acredita-se que o método BLW faz com que os bebês tenham hábitos alimentares saudáveis, dessa forma, muitos pais acabam por querer utilizar esse método.

Um estudo de Townsend e Pitchford (2012), analisou as preferências alimentares entre 155 mães com bebês com idade entre 20 a 78 meses, dos grupos BLW (n=92) e alimentação por colher (n=63), e constatou que o grupo BLW apresentou uma preferência maior por carboidratos do que o grupo que se alimenta por colher p = 0,003, enquanto o grupo que se alimenta por colher, aparentou preferir os alimentos doces, apesar de terem sofrido uma exposição maior aos carboidratos, ao contrário do grupo BLW. Nos estudos também foi percebido que o grupo BLW gostou mais de proteínas p= 0,008, em comparação com o grupo que se alimenta com colher.

É necessário que haja maiores estudos para analisar e compreender o motivo pelo qual há uma preferência maior do consumo de carboidratos pelas crianças que seguiram o BLW, visto que o grupo tradicional sofreu uma exposição menor a esses alimentos.

O estudo de Cameron; Taylor e Heath (2013), nos mostrou, corroborando com os resultados anteriores, que o grupo BLW em contraste com os outros grupos, apresentou uma menor probabilidade de os pais oferecerem ao bebê alimentos infantis preparados comercialmente, com significância científica (p = 0,002).

No entanto, também foi observado que o grupo BLW não ofertou alimentos enriquecidos com ferro, como primeiros alimentos (p= 0,001). Se tornando preocupante, visto que este é um dos nutrientes mais essenciais nessa fase da vida por conta do risco de anemia, que pode trazer prejuízos ao crescimento e desenvolvimento adequado da criança. Mesmo com a mudança da forma de apresentação dos alimentos, deve-se ter uma preocupação dos pais quanto a isso, priorizando a oferta de alimentos que sejam mais ricos em ferro.

Nos estudos de Brown e Lee (2010), os participantes responderam uma série de perguntas sobre a dieta atual do bebê em termos de ingestão complementar de alimentos e de leite. As mães que seguiram o BLW mostraram oferecer significativamente (p <0,001) menos refeições em um dia, comparado com aqueles que seguiram uma alimentação tradicional. Quanto à frequência das mamadas, foi observado que as mães que seguiram o BLW deram significativamente mais leite (p <0,001) durante o dia, do que aqueles que seguiram o método tradicional.

Inicialmente é normal o bebê não consumir tantos alimentos, visto que ainda estão os conhecendo. Apesar do leite materno ainda ser importante para os bebês, a introdução de alimentos se faz necessária visto que o leite materno a partir dos 6 meses não irá conseguir completar sozinho as necessidades nutricionais. Sendo assim, se torna preocupante desse ponto de vista, o baixo consumo de alimentos nessa idade.

De acordo com Brown e Lee (2013), as mães relataram que houve uma adaptação dos alimentos que as famílias comem, diminuindo o consumo de sal, açúcar e gordura, fazendo uma mudança para as crianças. Como também, aumentaram a variedade de alimentos para garantir que as crianças recebessem uma dieta equilibrada em nutrientes. Contudo, essa mudança não se aplicava às especiarias na comida; as mães relataram colocar livremente ervas e temperos e os bebês aceitaram esses alimentos, mostrando gostar de curry e pimentão.

Nos estudos de D’Andrea et al. (2016), com 65 mães, estas relataram os alimentos mais oferecidos aos bebês no início da introdução alimentar. Entre elas, 96,9% das mães entrevistadas ofereceram: frutas e vegetais sendo os mais citados: abacates, bananas, batata doce, brócolis e cenoura, seguido de proteínas de origem animal (56,9%) representadas por carne vermelha (alce, bolo de carne, carne, bife, carne moída, carne de porco, presunto, ossos), peixe (bacalhau, salmão, tilápia, truta) e aves (frango, e peru).

Nos estudos de Arden e Abbott (2015), muitas mães disseram controlar o tipo de alimento a que as crianças eram expostas, limitando a quantidade de alimentos não saudáveis ou de guloseimas oferecidas. Alguns não forneciam nada com açúcar adicionado, outros tomavam cuidado com a quantidade de sal de tudo que era feito, preparando também, a alimentação da família com uma quantidade baixa de sal.

O fato de o BLW ofertar uma alimentação saudável para criança, não se dá unicamente pelo método, pois é indicado e incentivado desde sempre que não se forneça alimentos industrializados para crianças e, muito menos alimentos ricos em açúcares e em grandes quantidades de sal. Tendo em vista os fatos elencados, o grupo BLW ter uma alimentação mais saudável pode ter a ver com a boa vontade, conhecimento e preocupação dos pais em ofertar uma alimentação saudável para os seus filhos.

Um estudo de Morison et al. (2016), com 51 mães de bebês com idade de 6 a 8 meses, não observou diferença na ingestão de energia entre os bebês do grupo BLW e os bebês que se alimentavam com colher, entretanto os bebês que utilizavam o método BLW (n= 25) pareciam consumir mais gorduras totais (p=<0,001) e saturadas (22% da energia) enquanto os que se alimentavam por colher (n=26) consumiram 18%, (p<0,001). Quanto ao ferro, o grupo BLW consumiu 1,6mg, já o grupo de introdução alimentar tradicional por colher consumiu 3,6mg (p<0,001). Já no consumo de zinco o BLW consumiu 3,0mg diário, enquanto o tradicional consumiu 3,7mg diário, (p= 0,001), enquanto para a vitamina B12 o consumo foi de 0,2 µg diário e os que se alimentavam de forma tradicional alcançaram 0,5 µg diário (p<0,001).

Como já falado anteriormente o grupo BLW possui uma ingestão menor de ferro, comparado ao grupo de alimentação tradicional, se tornando algo preocupante para a saúde da criança. Atrelado a isso, também possui um consumo significantemente menor de zinco, e sua deficiência pode acarretar algumas consequências como retardo do crescimento, anorexia e dermatite. Também foi percebido um consumo menor de vitamina B12, que pode levar a anemia perniciosa.  Esses níveis baixos de consumo de micronutrientes do grupo BLW, pode se dar pelo baixo consumo de alimentos.

Nos estudos de Brown e Lee (2013), as mães relataram não controlar seus bebês em relação a quantidade de alimentos ingeridos, por estarem atraídas pelo método e porque elas acreditavam que é permitido que a criança controle o que escolheu comer. Muitas afirmaram que seu bebê passou por fases em que às vezes comiam muito pouco, mas estavam felizes em permitir que o bebê tivesse chance de equilibrar o apetite dessa forma. Observando que às vezes quando o apetite por comida era baixo, os bebês poderiam consumir mais leite. Também foi relatado que ao iniciar o desmame, estavam preocupadas com ingestão de comida pelo bebê, mas que isso acabou diminuindo à medida que os bebês se tornaram mais habilidosos e que estavam saudáveis e ganhando peso. Uma das mães relatou manter uma contagem aproximada da quantidade de comida salgada, observando também se ele comeu cinco porções de frutas e vegetais.

Segundo relatos das mães, nos estudos de Arden e Abbott (2015), com 15 mães de bebês com idade entre 9 a 15 meses, a comida era como um brinquedo para os bebês, e só depois de um tempo as crianças começaram a comer com o propósito de se alimentar. Uma das mães chegou a relatar que só por volta dos 9/10 meses que a bebê colocou comida na boca. Algumas relataram também que o atraso na ingestão de alimentos até um ano é aceitável.

Uma mãe relatou que uma parte ruim do BLW é não conseguir determinar o quanto ele comeu, porém em alguns casos o monitoramento ocorria de forma indireta, pelo controle do conteúdo das fraldas ou do ganho de peso.

A baixa preocupação dos pais no que diz respeito ao consumo dos alimentos e dos nutrientes, é preocupante. Por mais que exista o cuidado em trazer uma alimentação saudável para eles através desse método como: fazendo refeições em família, não consumindo alimentos industrializados e com alto teor de sal e açúcar. Há um lado que fica negligenciado que é o consumo adequado de nutrientes, que como já discutido anteriormente, acaba trazendo a deficiência de alguns. Essa falta de preocupação, que se dá pelo fato do método BLW abordar que está tudo bem a criança tratar o alimento como brinquedo visto que a criança vai continuar recebendo leite em livre demanda, pode trazer consequências ainda maiores no futuro. Deve-se mudar essa visão e trazer o BLW de forma mista, onde a criança pode ter experiências positivas com os alimentos, porém com um controle maior em relação à ingestão dos alimentos.

Ao analisar os dados dos estudos de Townsend e Pitchford (2012) quanto ao Índice de Massa corporal das crianças com idade entre 20 a 78 meses, se encontrou que o grupo BLW (n= 63) foi classificado de acordo com os escores Z em: -3 (1,6%), -2 (3,2%), -1 (7,9%), 00 (61,9%), 1 (23,8%), 2 (1,6%) 3 (0%) e que o grupo alimentado por colher (n=63) apresentou para os escores a seguinte classificação: -1 (4,8), 00 (40%), 1(19,0%), 2 (12,7%). Mediante os resultados expostos, podemos observar que há um índice maior de crianças com baixo peso no grupo BLW em comparação com o grupo alimentado por colher que apresentou um índice maior de crianças obesas.

Corroborando com esses achados, resultados parecidos foram encontrados nos estudos de Brown e Lee (2015), com 298 mães com crianças entre 18 a 24 meses. Os bebês do grupo tradicional eram significativamente mais pesados, do que os do grupo BLW (p= 0,005). Para o grupo BLW, 86,5% apresentavam peso normal, 8,1% sobrepeso e 5,4%, abaixo do peso. Em comparação com o grupo tradicional que apresentou 78,3% com peso normal, 19,2% com sobrepeso e 2,5% com baixo peso.

Em contrapartida, nos estudos de Brown e Lee (2010), com 604 mães de bebês com idade entre 6 a 12 meses, sendo 58,1% BLW, as participantes forneceram o peso ao nascer e a estimativa de peso aos 6 meses dos bebês e peso atual, além de informar a sua percepção de crescimento das crianças, onde mães que seguiram o BLW percebiam os seus filhos significativamente (p <0,001) maiores nos 6 meses pós-parto do que as mães que seguem uma introdução alimentar tradicional, em que as mães apresentaram ter um nível menor de controle do peso infantil.

À vista disso, conforme pôde ser observado nos estudos anteriores, os resultados aparentam ser inconclusivos, visto que há poucos achados e alguns se baseiam apenas em relatos das mães. Porém, com base nos dados encontrados, no BLW tem-se crianças com mais baixo peso em comparação com os grupos de alimentação tradicional, em que em comparação há mais crianças com sobrepeso e obesidade.

Esses resultados podem se dar no BLW pela ocorrência do baixo consumo de alimentos em algumas crianças, como já mostrado anteriormente. Alguns bebês que seguiram o método tem um consumo menor de alimentos, o que consequentemente pode acabar levando ao peso menor. Todavia, pode ocorrer também pelo fato das crianças que seguem o BLW terem uma alimentação mais saudável e com um consumo menor de alimentos industrializados, diminuindo assim, o peso das crianças.

Nos estudos de Arden e Abbott, (2015), as mães relataram que as crianças sabem quando estão satisfeitas e quando querem comer mais ou não, deixando que elas saibam se continuarão se alimentando naquele momento e que tipo de comida querem e quando querem, acreditando sempre nas habilidades que o bebê tem em julgar o seu próprio apetite.

Ele definitivamente sabe que tipo de comida quer e quando por exemplo, uma vez no almoço ele recebeu um sanduíche e uma fruta na cadeirinha, e foi bem decidido para o sanduíche e jogou toda a fruta fora. Outras vezes ele prefere a fruta ou o vegetal e deixa o sanduíche. Ou come a proteína e deixa o resto até que tenha comido tudo do que quer. (ARDEN E ABBOTT, 2015, p. 6)

Segundo Brown e Lee (2015), os bebês que seguiram o BLW foram significativamente mais receptivos à saciedade (p <0,05), comparados a aqueles que seguiram o método tradicional.

4. CONCLUSÃO

O método BLW tem como ponto positivo o fato de os pais respeitarem os mecanismos de fome e saciedade do bebê. Apesar de ser uma ação que é incentivada independentemente do método, esse ato consegue ser mais aceito no método BLW visto que há um baixo controle impositivo dos pais no momento da alimentação, ao contrário do método tradicional no qual os pais ofertam a comida através de uma colher e muitos, por falta de informação, não conseguem identificar os sinais que o filho dá quando está saciado.

As pesquisas mostraram que o método BLW traz um aumento significativo do hábito de se fazer refeições em família, como também, há um aumento relevante do consumo de alimentos saudáveis e um menor consumo de alimentos industrializados, impactando de forma positiva, fazendo com que as crianças tenham bons hábitos alimentares e uma relação positiva com os alimentos, por ser um método de baixo controle dos pais.

Foi observado que crianças que seguem o BLW possuem um consumo significativamente menor de nutrientes, além disso, possuem significativamente um IMC menor do que aqueles que seguem um método tradicional, sendo inevitável um acompanhamento e orientação de profissionais nutricionistas, para famílias que decidem por escolher esse método, evitando essas deficiências.

À vista disso, é necessário maiores estudos, com uma quantidade relevante de amostra, que investigue o consumo de nutrientes e o estado nutricional em crianças que segue o BLW no Brasil, dado que, esse método está se tornando popular no país e não há estudos a respeito da segurança do método.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] Pós-Graduanda em Nutrição Materno Infantil, Nutricionista.

[2] Orientadora. Mestre Em Saúde Comunitária ISC-UFBA.

Enviado: Maio, 2021.

Aprovado: Novembro, 2021.

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