Aprendizagem Significativa: A importância do uso do laboratório nas aulas de Ciências no Ensino Fundamental

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CONTEÚDO

REVISÃO BIBLIOMÉTRICA

SILVA, Sérgio Luiz da [1], MENDES, Ivanise [2]

SILVA, Sérgio Luiz da. MENDES, Ivanise. Aprendizagem Significativa: A importância do uso do laboratório nas aulas de Ciências no Ensino Fundamental. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 11, Vol. 19, pp. 169-183. Novembro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/ciencias-no-ensino

RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo realizar uma análise teórica acerca da importância do uso do laboratório na aprendizagem de Ciências. A partir de uma pesquisa bibliográfica buscou-se com esta investigação identificar quais estratégias o docente pode utilizar para promover uma aprendizagem significativa, considerando todos os desafios enfrentados pela educação contemporânea no que se refere a construção de saberes científicos que venham contribuir para a formação do aluno-cidadão. As reflexões desenvolvidas apontam para uma prática educativa significativa, em que o papel do professor é de mediador do conhecimento de facilitador do processo de desenvolvimento do educando. Nesse delineamento, as atividades práticas de experimentação, assim como a utilização do laboratório, entendido como espaço propício às aprendizagens, caracteriza-se como uma importante alternativa para favorecer a construção do conhecimento colaborando para uma aprendizagem significativa e formação de conhecimentos científicos.

Palavras-chave: Ensino de ciências, uso do laboratório, aprendizagem significativa.

1. INTRODUÇÃO

A sociedade contemporânea vivencia um processo de grandes avanços e inovações. Essa dinâmica de constantes mudanças provoca uma busca incessante por conhecimentos que irão conferir ao sujeito as habilidades necessárias para atender essa nova era denominada “sociedade da informação”. Nesse sentido, a relação entre educação e sociedade é recíproca, pois as mudanças políticas, sociais, econômicas, cientificas e culturais, ocorridas no processo histórico, demandam uma mudança de paradigma nas propostas curriculares, bem como a reflexão e reformulação das práticas pedagógicas.

A educação, como fenômeno histórico, determina e é determinada pelo meio social, Vygotsky (1988) afirma que o aprendizado é um produto cultural constituído ao longo da história. Dessa forma, a função social da educação, bem como o papel da escola deve ser pensada criticamente para que possam atender as necessidades desse mundo globalizado ao mesmo tempo em que contribua para a formação integral do sujeito, para o desenvolvimento da sua autonomia e sua emancipação.

Para ser capaz de enfrentar as dificuldades que o sistema educacional apresenta e atender as demandas das gerações futuras, desenvolvendo habilidades e competências necessárias a inserção do indivíduo no mercado de trabalho, deve-se buscar inovar conhecimentos e práticas diárias. Vázques (1990) afirma que o homem é um ser social, e como tal sua própria cotidianidade está condicionada histórica e socialmente e o mesmo pode ser dito da visão que se tem da sua atividade prática. Portanto, não devemos nos tornar seres limitados de conhecimento, devemos sempre nos permitir a buscar algo novo.

Os reflexos destas questões no processo de escolarização são visíveis mediante a definição de novas propostas curriculares e metodologias de ensino que tendem a acompanhar as demandas sociais. Quando se trata da reformulação curricular é relevante fazer uma análise das concepções pedagógicas e da prática docente no cotidiano escolar.  Freire (1997) salienta que se não há uma reflexão sobre o fazer pedagógico diário a educação não cumpre um dos seus mais importantes papeis que é estar comprometida com mudanças e transformações sociais.

Diante do exposto, é possível afirmar que a educação deve estar atenta as transformações para cumprir um dos seus principais objetivos: oferecer uma prática educativa que tenha por finalidade a formação desse cidadão apto ao pleno exercício de sua cidadania e que saiba fazer uso de todo conhecimento assimilado durante seu processo de escolarização em sua atuação no mundo social.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, 9394/96 propõe uma prática educativa adequada à realidade do mundo, ao mercado de trabalho, à informação e ao conhecimento. As reformas na legislação e na estrutura curricular dos diferentes níveis de ensino acontecem no sentido de melhorar a qualidade da educação nacional impulsionada pelas transformações e demandas da sociedade contemporânea.

Diante deste cenário contemporâneo, apresenta-se como tema neste trabalho as propostas a aprendizagem significativa no ensino aprendizagem de Ciências. Em um contexto em que se convive com a valorização crescente do conhecimento científico e da tecnologia, não é possível pensar na formação de um sujeito à margem do saber científico (BRASIL, 1997).

Parte-se da premissa que muitos são os desafios que perpassam a educação, contudo, há de se questionar como a prática docente pode contribuir para despertar o interesse e o gosto pela ciência, contribuindo para a construção de saberes científicos? Diante dos obstáculos, quais estratégias e metodologias podem contribuir para uma formação integral, de modo que os sujeitos desenvolvam atitudes, valores sociais e habilidades para compreender e inferir na realidade, vislumbrando uma sociedade melhor?

A partir dos questionamentos que orientaram esta investigação, destaca-se que o objetivo geral deste artigo é analisar a importância do uso do laboratório de ciências na construção de uma aprendizagem significativa. Como objetivos específicos este trabalho se propôs a identificar a importância do ensino de ciências na contemporaneidade; descrever um breve histórico do ensino de ciências no Brasil e discutir sobre a prática docente tendo como foco a aprendizagem significativa.

A relevância do tema decorre da necessidade de uma prática educativa ativa e participativa, voltada para a formação integral do sujeito, onde é indispensável à reflexão da prática e a reformulação das ações numa relação dialógica: ação reflexão, reflexão ação, para que a construção do saber aconteça.

A metodologia adotada para o estudo foi baseada em uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa. A coleta de dados realizou-se mediante a leituras específicas sobre o assunto, por meio de consultas bibliográficas publicados em meios impressos e eletrônicos.

A análise foi realizada sob uma perspectiva crítica em que defende-se uma pratica docente reflexiva e motivadora, amparada em princípios teóricos metodológicos que possibilitarão ao aluno a construção do conhecimento de maneira ativa e participativa.

2. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DO ENSINO DE CIÊNCIAS NO ENSINO FUNDAMENTAL

2.1 A IMPORTÂNCIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

A educação escolar no Brasil vem passando por constantes transformações. As reformulações no âmbito da legislação e das orientações curriculares, especialmente a partir da década de 1990, demonstra que a instituição escolar deve buscar, através das suas práticas pedagógicas, formar o sujeito que atenda as demandas da sociedade contemporânea. Silva, Ferreira e Vieira (2017) salientam que a escola, como parte importante do contexto social, reflete as mudanças da sociedade, dessa forma, as mudanças nos currículos objetivam atender as perspectivas do momento histórico que se inserem.

De acordo com Schafranski (2005, p. 102) o fenômeno educativo pode ser entendido “como uma prática social, situada historicamente, numa realidade total, que envolve aspectos valorativos, culturais, políticos e econômicos, que permeiam a vida total do homem concreto a que a educação diz respeito”. Neste cenário de contínuas mudanças os sujeitos vivenciam, contemporaneamente, a era tecnológica intensamente. Na chamada “sociedade digital”, onde as novas tecnologias da informação e comunicação constituem a mola propulsora pela busca e acesso ao conhecimento, é primordial a discussão sobre o processo de escolarização e as concepções de ensino e aprendizagem que permeiam a prática educativa contemporânea.

Nessa perspectiva,  o  ensino  de ciências assume especial relevância,  pois os conhecimentos e procedimentos científicos são ferramentas que os sujeitos utilizam para solucionar problemas, desde as questões relacionadas ao cotidiano como estimar consumo de aparelhos elétricos através das especificações técnicas, bem como a aplicabilidade em situações complexas de âmbito global, com as quais a Ciência e a Tecnologia estão envolvidas (BRASIL, 2017).

O desenvolvimento científico é fruto do questionamento, da necessidade de aprimoramento de processos humanos e melhoria da qualidade de vida. Nesse delineamento, o conhecimento na área de Ciências e essencial para “compreender melhor o mundo, realizar escolhas conscientes e intervir responsavelmente no meio em que vivem” (VIECHENESKI; CARLETTO, 2013, p. 214). A partir dessa afirmação é possível dizer a escola tem um papel primordial na disseminação da cultura científica que o ensino de Ciências, sobretudo no ensino fundamental que constitui a base para prosseguir no processo de formação humana.

Contudo, a literatura evidencia que muitos são as dificuldades encontradas na promoção de um ensino e aprendizagem significativo, tornando o trabalho como este componente curricular desafiador (SILVA; FERREIRA; VIEIRA, 2017, VIECHENESKI; CARLETTO, 2013). Dentre as questões levantadas pelos estudos citados no que tange as dificuldades no ensino e aprendizagem dos objetos de conhecimento em Ciências destacam-se: a concepção pedagógica na qual se fundamenta, a prática diária e as estratégias de ensino empregadas em sala de aula.

Nos anos iniciais do ensino fundamental, (1º ao 5ª ano), há ainda de se considerar que os docentes que atuam nesta etapa da educação não possuem formação específica na área, o que acarreta insegurança e pouco aprofundamento no conteúdo trabalhado. Seja pela e falta de preparo dos docentes nos cursos de formação, inicial e continuada, ou pela falta de domínio conceitual e procedimental no trabalho com este componente curricular é extremamente importante que os docentes, independente da etapa da educação que atuam, tenham a possibilidade de refletir sobre suas concepções pedagógicas, sua prática cotidiana, bem como compreendam a importância que o componente de ciências possui formação do sujeito no mundo contemporâneo (RAMOS; ROSA, 2008, LIMA; MAUES, 2006).

O conhecimento é construído e significado no contexto histórico e cultural, dessa forma, a compreensão do contexto sócio histórico é determinante para entender o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem de Ciências no Brasil. Estas informações possibilitarão estabelecer uma relação com as orientações pedagógicas e práticas docentes em diferentes momentos históricos.

2.2 O ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL: BREVE HISTÓRICO

De acordo com Silva, Ferreira e Vieira (2017) a inserção de conteúdos científicos na educação formal ocorreu no início do século XIX impulsionado pelas transformações sociais ocorridas naquele momento.  A notícia de grandes descobertas realizadas por estudiosos como Charles Darwin (1858) e Lavoisier (1789), bem como o expansivo desenvolvimento industrial evidenciaram a importância do conhecimento científico para o progresso da humanidade, influenciando a sua inserção na educação formal em diversos países.

No Brasil a educação científica passa a configurar no currículo escolar na década de 1930, período marcado por mudanças no contesto social e por inovações e reformulações no âmbito educacional. A legislação educacional acompanhou o processo de mudanças socioeconômicas e, consequentemente, o ensino de Ciências em 1960 é instituído o programa oficial para o ensino de ciências, apenas para as duas séries finais do ginásio, não obrigatório e com caráter estritamente técnico. Em 1961 com a promulgação do Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional (LDBEN Nº 4024/61) é instituída a obrigatoriedade do ensino de ciências nas séries ginasiais. A LDB 5692/71 torna o ensino de ciências obrigatório para todas as 8ªs séries do então 1ª grau (SILVA; FERREIRA; VIEIRA, 2017).

A década de 1980 representa um marco para educação brasileira. O país passa por várias transformações políticas e sociais. Após a redemocratização do país em 1985, iniciou-se um processo de reformulação e instituição de ordenamentos jurídicos com o objetivo de buscar uma reestruturação após um longo período de ditadura militar.  A promulgação da Constituição-cidadã em 1988 acenou-se para importantes mudanças no âmbito das políticas públicas e anunciou reformas relacionadas com a política social.  No tocante ao direito a educação, no Art. 205 da Constituição fica esclarecida a garantia a todos/todas ao direito à educação pública e de qualidade.

A partir da Constituição de 1988 passou-se a debater a necessidade da criação de uma nova Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Brasileira. Nesse delineamento, postula-se que a educação brasileira tem que passar por mudanças, pois, diante de um processo de globalização, a forma como está organiza já não atende mais as necessidades do momento histórico vivido e os objetivos a serem alcançados pelo país (NAGEL, 1992).

É nesse contexto que ocorre a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB 9394/96. A mudança na estrutura educacional culminou na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, preconizado na Lei 9304/96, objetivando a criação de uma base curricular comum.

A partir do ordenamento jurídico e documentos normativos a formação do sujeito deve ser pautada pela construção de uma cidadania consciente e ativa, que ofereça aos educandos bases culturais que lhes permitam identificar e posicionar-se frente às transformações em curso e incorporar-se na vida produtiva (MEC, 2011). Nesta nova visão de sujeito o saber científico ganha relevância pois “contribui para a formação crítica de cidadãos sob a abordagem da atividade cientifica em torno do contexto histórico e cultural” (SILVA; FERREIRA; VIEIRA, 2017, p. 288).

Em dezembro de 2017 e promulgada a Base Nacional Comum Curricular. O documento normativo constitui uma referência para a elaboração dos currículos e para a área de Ciências da natureza o documento assevera que:

Ao longo do Ensino Fundamental, a área de Ciências da Natureza tem um compromisso com o desenvolvimento do letramento científico, que envolve a capacidade de compreender e interpretar o mundo (natural, social e tecnológico), mas também de transformá-lo com base nos aportes teóricos e processuais das ciências. […] apreender ciência não é a finalidade última do letramento, mas, sim, o desenvolvimento da capacidade de atuação no e sobre o mundo, importante ao exercício pleno da cidadania (BRASIL, 2017, p. 321).

Percebe-se que o percurso da educação brasileira esteve, e está, atrelado ao contexto histórico. As reformulações e orientações curriculares, assim como as abordagens e concepções pedagógicas que prevaleceram em determinada época também seguem a mesma perspectiva, embasadas em pressupostos considerados eficazes no processo de formação.

A proposta atual para o ensino de ciências é o desenvolvimento de competências que contribua para formação integral dos sujeitos atendendo todos os aspectos do desenvolvimento humano. Embora, a realidade do ensino de ciências seja preocupante, conforme destacado no estudo de Silva, Ferreira e Vieira (2017) com índices de proficiência baixo, carência de recursos materiais e estruturais, falta de formação adequada, longas jornadas de trabalho e baixa remuneração, ainda é possível,  diante de tatos desafios é possível promover um ensino de ciências de qualidade nas escolas.  Existem alternativas que os professores podem dispor para aprimorar as práticas de ensino e aprendizagem em ciências naturais utilizando os recursos disponíveis de forma contextualizada e significativo para promover um ensino de qualidade.

2.3 A APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA: A IMPORTÂNCIA DO LABORATÓRIO DE CIÊNCIAS

Muitos são os desafios para a promover um ensino e aprendizagem significativo, que leve o sujeito ao desenvolvimento da capacidade de atuação no e sobre o mundo. Para a formação do sujeito capaz do exercício pleno da cidadania, as práticas pedagógicas devem favorecer a construção do conhecimento oportunizando aos alunos o desenvolvimento de tais habilidades de forma significativa, incentivando a participação e a criatividade no processo de ensino aprendizagem.

Uma prática pedagógica significativa contribui para a formação do sujeito capaz de contribuir para o desenvolvimento econômico e social do país, incentiva a participação e a criatividade e ao pensamento crítico. A construção/aquisição de conhecimentos contrapõe-se a ideia de aprendizagem mecânica que, através da ação repetitiva, leva o indivíduo a memorização de conteúdo. Freire (1996, p. 33), ressalta que: “[…] transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador”.

A mudança de paradigma, quando se trabalha na perspectiva da aprendizagem significativa, não ocorre apenas através de reformas educativas e reformulação curriculares, a reflexão acerca da abordagem pedagógica dos objetos do conhecimento assim como das metodologias de aprendizagem são fundamentais para a transformação. Na contemporaneidade o contexto escolar tem sido instigado à mudanças, dessa forma, não existe mais espaço para uma postura tradicional do professor como detentor do saber.

A prática docentes baseada nos pressupostos de uma concepção tradicional se realizará a partir da transmissão de informações, onde os conteúdos são hierarquizados e fragmentados, e os conhecimentos científicos desvinculados da realidade do educando e do contexto escolar, são adaptados para a vivência escolar,  transformando o processo de ensino/aprendizagem em mera transmissão de conhecimentos, impossibilitando que o aluno se aproprie de conceitos e conhecimentos úteis à vida cotidiana (SILVA; FERREIRA; VIEIRA, 2017).

A concepção tradicional concebe o conhecimento como algo acabado a ser transmitido, e o aluno um ser passivo diante do que lhe é apresentado. Schafranski (2005) afirma que esse tratamento metodológico leva o sujeito a compreensão incompleta da realidade, dificulta o processo de apropriação crítica do conhecimento, considera o aluno apenas na sua dimensão cognitiva desconsiderando as expressões dos domínios socioculturais e afetivos do sujeito.

A concepções que subsidiam a prática educativa contemporânea estão a contramão de um ensino baseado em pressupostos tradicionais. O que se postula o conhecimento é construído pelo sujeito na sua interação social e com o ambiente. Vygotsky apud Oliveira (2010) ressalta que as relações que o indivíduo estabelece com o meio são fundamentais para o seu desenvolvimento. Essa concepção considera a criança sujeito ativo em todo o processo de aprendizagem, e valoriza sua participação no processo de construção do conhecimento.  Kishimoto (2011, p. 106) destaca a importância da ação do mediador no processo educativo delineando que o mediador,

[…] deve desenvolver com a criança uma relação de respeito mútuo, de afeto e de confiança que favoreça o desenvolvimento de sua autonomia. […] O mediador deve respeitar o interesse do aluno e trabalhar a partir de sua atividade espontânea, ouvindo suas dúvidas, formulando desafios à capacidade de adaptação infantil e acompanhando se processo de construção do conhecimento.

De acordo com esta abordagem teórica, o professor deve atuar como mediador, considerando as necessidades dos educandos e o conhecimento prévio que estes trazem para o ambiente escolar. No processo de ensino/aprendizagem das ciências naturais torna-se necessário favorecer o desenvolvimento de postura reflexiva e investigativa, de não aceitação, a priori, de ideias e informações, assim como a percepção dos limites das explicações, inclusive dos modelos científicos, colaborando para a construção da autonomia de pensamento e de ação.

O processo de ensino e aprendizagem se realiza través da construção de uma relação de confiança entre professor e aluno. É essa construção que possibilitará o compartilhamento de valores, informações e conhecimentos.  Sendo a aprendizagem o principal objetivo e função da escola, a organização do trabalho pedagógico deve se pautar por metodologias de ensino que oportunizem o desenvolvimento integral do sujeito. Rego (1995) a falar da teoria de Vygotsky sobre a aprendizagem escolar ressalta que construir conhecimentos implica numa ação partilhada, evidenciando a importância do sujeito enquanto ativo e interativo no seu processo de aprendizagem e desenvolvimento.

[…] o valor das interações sociais (entre os alunos e o professor e entre as crianças) no contexto escolar, passam a ser entendidas como condição necessária para a produção de conhecimentos por parte dos alunos, particularmente aquela que permitam o diálogo, a cooperação e a troca de informações mútuas, o confronto de pontos de vista divergentes e que implicam na divisão de tarefas onde cada um tem uma responsabilidade que, somadas, resultarão no alcance de um objetivo comum. Cabe ao professor não somente permitir que elas ocorram, como também promovê-las no cotidiano das salas de aula (REGO, 1995, p. 110).

Nessa perspectiva, onde o sujeito é agente de sua aprendizagem, construtor de ideias e o professor é mediador dessa construção destaca-se as atividades práticas e o uso do laboratório na construção de saberes científicos. As atividades práticas, em sala de aula ou em laboratórios, são essenciais para a aprendizagem científica, favorecem a interação entre professor e aluno, além de permitirem a elaboração de hipóteses a discussão e comprovação de ideais, o que pode resultar numa melhor compreensão das Ciências (RAMOS; ROSA, 2008).

Uma prática pedagógica bem estruturada, com objetivos bem definidos onde o professor traz para a sala de aula elementos das teorias científicas, que instigam perguntas ao mesmo tempo em que fornece explicações, orientando-os a observação e a experimentação podem não somente levar a curiosidade e o interesse dos estudantes, como também levar os docentes a superar as expectativas em relação a aprendizagem, a que os estudantes são capazes.

Bombonato (2011) afirma que a formação de uma atitude científica está intimamente relacionada ao modo como o conhecimento é construído. Dessa forma, as atividades práticas, experimentais, desenvolvidas a partir de uma postura investigativa, permitem aos estudantes melhor compreensão dos processos de ação das ciências. Para tanto, elas não devem ser utilizadas para reconstruir, reforçar teorias ou até facilitar a memorização do conhecimento, devem suscitar questionamentos investigações, modificações nos esquemas de pensamento. Na mesma linha de raciocínio Leite, Silva e Vaz (2005, p. 168) acrescenta: As aulas práticas podem ajudar no desenvolvimento de conceitos científicos, além de permitir que os estudantes aprendam como abordar objetivamente o seu mundo e como desenvolver soluções para problemas complexos

As atividades práticas desenvolvidas como investigação podem aproximar o ensino de Ciências do trabalho científico, integrando, além da parte experimental, outros aspectos próprios das ciências, em que teoria e prática constituem algo que se complementa.

Os laboratórios de ciências, nesse contexto, configuram como o espaço que tornará a aprendizagem mais dinâmica e significativa, que estimulará a construção de conhecimentos e desenvolvimento de competências e habilidades cognitivas e motoras dos estudantes, contribuindo ainda para uma prática docente estimulante e motivadora. Contudo, uma consideração importante evidenciada por Zimmermann (2005) refere-se à configuração do espaço físico de um laboratório. A autora argumenta que podem existir laboratórios de Ciências sem sequer haver uma sala específica para eles. Sus perspectiva é que a rua, o campo ou mesmo a sala de aula, permite a realização de experimentos e atividades práticas em que se desenvolva a observação, reflexão, análise, organização dos dados obtidos e fornecimento de informações para a elaboração de hipóteses.

Com isto, a autora não desconsidera a importância de um local adequado, com equipamentos necessários a determinados experimentos, mas sua contribuição é extremamente relevante quando se trata de um processo de ensino e aprendizagem significativos como o foco no desenvolvimento do aluno-cidadão com um posicionamento crítico e investigativo diante da realidade.

É importante ressaltar que a literatura investigada (Bombonato, 2011; Ramos e Rosa, 2008; Zimmermann, 2005) alertam para a necessidade de introduzir a atividades práticas experimentais já nos anos iniciais do ensino fundamental. Os estudos citados consideram que é necessários mudanças na forma de abordar os conhecimentos em Ciências, não só para que as aulas se tornem interessantes, mas para que o aluno desenvolva competências para atuar no mundo, desenvolva uma visão crítica a respeito de si e de suas relações com o meio em que vivem, bem como das transformações que acontecem a sua volta.

O laboratório de Ciências, assim como as atividades de experimentação, deve contribuir para na melhoria da prática do ensino. Muito mais que recurso pedagógico esse ambiente educacional se constitui como um ambiente propício para:

Despertar curiosidade e, consequentemente, o interesse do aluno, visto que a estrutura do mesmo pode facilitar, entre outros fatores, a observação de fenômenos estudados em aulas teóricas. O uso deste ambiente também é positivo quando as experiências em laboratório estão situadas em um contexto histórico-tecnológico, relacionadas com o aprendizado do conteúdo de forma que o conhecimento empírico seja testado e argumentado, para enfim acontecer a construção de ideias (LEITE; SILVA; VAZ, 2005, p.168).

A literatura investigada aponta que o professor de ciências enfrenta inúmeras dificuldades no que se refere ao ensino/aprendizagem dos conteúdos de ciências naturais no ensino fundamental, principalmente nas escolas públicas. Os desafios na prática cotidiana podem ser de ordem estrutural como a falta de um laboratório de ciências e outros materiais necessários que servirão de apoio a aprendizagem escolar, como também a falta de conhecimentos, e até mesmo os equívocos, sobre as teorias e concepções que norteia o processo educativo.

Vale ressaltar que não existe uma receita que resolverá todos os problemas e desafios do dia a dia nas escolas, contudo há maneiras de facilitar a compreensão dos conteúdos, de motivar os alunos e de tornar as aulas mais significativas, contribuindo assim para a apropriação do conhecimento. Ramos e Rosa (2008. p.321) destacam “que os professores que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental têm privilegiado conteúdos conceituais e pouco valorizado os conteúdos procedimentais e atitudinais no ensino de Ciências”

Considerando esta afirmação e os estudos citados pode-se inferir que a atuação docente precisa levar o aluno a apropriação crítica do conhecimento. A ciência e a tecnologia são empreendimento humanos que fazem parte da cultura e foram constituídos historicamente por sujeitos que se propuseram a questionar a realidade e intervir nela. E mais do que isso, é preciso analisar criticamente essa intervenção, pois toda descoberta traz consigo consequências. Nessa perspectiva, é essencial trabalhar com a experimentação, atividades que incite a investigação para que os estudantes entendam o que é ciência, que este conhecimento além de útil, pode ser motivador para contribuir com a humanidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho buscou-se analisar a importância do uso do laboratório na construção de uma aprendizagem significativa em Ciências. As referências teóricas demonstraram que muitos são os desafios encontrados no curso de um ensino e aprendizagem de qualidade. Nessa perspectiva, identifica-se que os desafios devem provocar uma inquietude no sentido que incentive o docente a buscar de novos métodos, não milagrosos, mas concretos e eficazes no processo de ensino e aprendizagem, sem esquecer que a prática cotidiana não trará resultados positivos se não estiver fundamentada teoricamente.

As práticas educativas devem ser orientadas para inserção do indivíduo na sociedade contemporânea. No que tange o ensino de ciências, as ações pedagógicas devem ser orientadas para que o aluno seja capaz de formular questões, diagnosticar e propor soluções para problemas reais no sentido que este colabore para a construção de uma sociedade melhor.

Dentre a possibilidades para a construção de uma aprendizagem significativa, a literatura aponta que no fazer diário deve-se deixar as práticas limitadas ao fazer mecânico do cotidiano, para ceder espaço para a construção do conhecimento, incluindo nas práticas educativas instrumentos que levem a formação integral do educando.  O papel do professor não é transmitir informações, mais sim dividir e construir saberes e oferecer aos alunos conhecimentos contextualizados e prazerosos, aceitando que o aluno possui conhecimentos prévios sobre as situações de aprendizagens, adquiridos com suas experiências cotidianas.

Evidencia-se que a atividade prática, experimental favorece o aprendizado dos alunos, contribui para instigar o gosto pela ciência, bem como para a construção dos saberes científicos. Neste contexto, o laboratório, entendido neste estudo como espaço de exploração e experimentação, é o espaço que instiga a aprendizagem, possibilita maior interação, incita os questionamentos e reflexão sobre a realidade, auxiliando, consideravelmente para um processo de ensino e aprendizagem significativos.

REFERÊNCIAS

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[1] Especialização em Inspeção e Supervisão Escolar, Especialização em Arteterapia, Licenciatura em Desenho e Plástica, Bacharelado em Teologia, Licenciatura em Ciências Biológicas.

[2] Orientadora. Doutorado em Ciências Ambientais. Doutorado em Ciências da Educação. Mestrado em Ciências da Educação. Especialização em Agroecologia Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural. Especialização em Especialização Em Gestão Escolar. Graduação em Letras – Português. Graduação em Direito.

Enviado: Outubro, 2020.

Aprovado: Novembro, 2020.

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