A era das organizações e suas implicações para a gestão escolar

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ARTIGO ORIGINAL

JÚNIOR, João Djalma Leite [1]

JÚNIOR, João Djalma Leite. A era das organizações e suas implicações para a gestão escolar. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 05, Vol. 10, pp. 65-79. Maio de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

As organizações do mundo têm uma história e estão divididas em três eras: a Era da Industrialização Clássica (1900/1950), a Era da Industrialização Neoclássica (1950/1990) e a Era da Informação (a partir de 1990). Decidiu-se por tal problematização para se refletir sobre as implicações desses períodos no âmbito da gestão escolar. O trabalho foi feito a partir de uma pesquisa bibliográfica. Propõe-se, para tanto, a análise dessas três eras para a reflexão da problemática. Assim, torna-se necessário contextualizá-las para que seja possível refletir sobre as características individuais em seu contexto histórico. Após isso, pretende-se apresentar um paralelo entre administração escolar e gestão escolar democrática para seja possível descrever as implicações das eras das organizações para a Gestão Educacional Brasileira bem como para entender, a partir do passado, a educação da atualidade a partir de um viés histórico, tecendo, ao final, algumas conjecturas sobre o que se pode esperar para o futuro. Defende-se que há muito a ser feito e que precisa da colaboração de todos para se concretizar.

Palavras chaves: educação, gestor educacional, organização escolar.

INTRODUÇÃO

Atualmente, o sistema educacional brasileiro é considerado como falho. Para tal afirmação, estudos possuem como base aspectos como o fracasso escolar (os altos índices de evasão e repetência) e o baixo desempenho dos alunos. Atuam como indicadores que entendem que a escola não vem cumprindo para com a sua função social. Assim, é correto afirmar que apesar de vários programas sociais que incentivam a educação, o Brasil apresenta dados alarmantes como o do IBGE de 2010. Ele aponta que cerca de 731 mil crianças entre 6 e 12 anos permanecem fora das escolas.

Segundo o IBOPE de 2009 cerca de 28% da população brasileira entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, 34% dos alunos que chegam ao 5º ano de escolarização ainda não conseguem ler e 20% dos jovens que concluem o ensino fundamental não dominam o uso da leitura e da escrita. Todos esses dados apontam a importância de uma discussão acerca dos motivos pelos quais a educação brasileira se encontra na atual situação. Frequentemente, culpa-se o profissional docente e a gestão educacional como os principais responsáveis pela defasagem na educação brasileira.

Mas por que queremos conhecer a história? Por que queremos estudar o passado, isto é, as coisas realizadas pelas gerações anteriores? Considerando que é pela história que nós nos formamos como homens; que é por ela que nós nos conhecemos e ascendemos à plena consciência do que somos; que pelo estudo do que fomos no passado descobrimos, ao mesmo tempo, o que somos no presente e o que podemos vir a ser no futuro, o conhecimento histórico emerge como uma necessidade vital de todo ser humano. (SAVIANI, 2008, p. 151)

Segundo Saviani (2008), a pesquisa histórico-educacional tem como objetivo mostrar aos educadores e a sociedade do país aquilo que muitos cursos de formação de educadores tendem a esquecer: que a presente situação no qual o sistema educacional brasileiro se encontra bem como os problemas relacionados aos avanços e recuos que os educadores enfrentam são produtos de construções históricas.

Este trabalho foi feito com o objetivo de descrever como as eras das organizações influenciaram e ainda influenciam a gestão educacional no Brasil. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, dividida em sete partes. Em primeiro lugar será discorrido sobre o processo educacional no mundo. Em um segundo momento serão abordados os aspectos históricos sobre cada uma das eras das organizações, onde serão apresentadas a Era da Industrialização Clássica, a Era da Industrialização Neoclássica e a Era da Informação. Em um terceiro momento serão analisados os fatos históricos de cada uma de forma a se debruçar nas suas implicações no âmbito da Educação, pensando, sobretudo, no contexto brasileiro. Em um quarto momento serão demonstradas as implicações destas eras das organizações para a Gestão Escolar para a realização de um paralelo entre Administração Escolar e a Gestão Escolar.

Por fim, tem-se como intuito refletir sobre alguns aspectos importantes para se compreender a situação atual da educação brasileira. Parte-se do princípio de que ocorreram diversas mudanças no setor educacional que desencadearam mudanças de comportamentos sociais, sobretudo com o advento da globalização e dos progressos tecnológicos. Assim, entende-se que a educação passa a ter a necessidade de mudanças para poder melhor adequar-se às demandas que a sociedade de cada época apresenta, tendo, com tal evolução, uma maior facilidade para atender as expectativas educacionais e de mercado de trabalho da sociedade. Entretanto, para se falar sobre o setor educacional brasileiro que teve início no 1549, torna-se necessária a reflexão sobre as transformações em uma escala global em relação à educação.

1. SETOR EDUCACIONAL NO MUNDO

A data de referência para o surgimento da primeira escola é o ano de 3.238 a.C. Entende-se que nas civilizações suméria e egípcia, tal acontecimento se deu a partir da ruptura do modo de produção comunal (o comunismo primitivo), que consistia na forma de vida que se verificava desde a pré-história, onde todos os elementos da sociedade partilhavam da comida, até as atividades para obtenção da mesma, igualmente (SAVIANI, 2008). Os Sumérios e os Egípcios contribuiriam de formas diferentes para evolução da gestão. Os Sumérios mostravam a importância de se guardar registros e os Egípcios as ordens escritas. Ambos reconheciam a necessidade do planejamento, da organização e do controle, pois consideravam que uma simples pirâmide necessitava de cerca de 100.000 mil pessoas e 20 anos para ficar pronta (SANTOS, 2008).

Em 2.500 a.C. nota-se que a civilização chinesa já possuía uma instituição do tipo escolar. O ensino, entretanto, era baseado nas repetições, transições de textos e memorização rigorosa. Em caso de descumprimento, os alunos estavam sujeitos à castigos físicos. A partir de 500 a.C. a instituição escolar se desenvolveu na Grécia. O objetivo principal era a formação de um cidadão perfeito e completo, assim, o sistema de educação incluía temas como ginástica, gramática, música, matemática, geografia, história natural e filosofia. Houveram grandes pensadores da época, Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) que entendia que a gestão era uma habilidade especial, separada do conhecimento técnico e da experiência. Platão (429 a.C. – 347 a.C.) que defendia que toda educação era de responsabilidade estatal – um princípio que só se difundiria no Ocidente muitos séculos depois.

Ele ainda defendia a mesma instrução para meninos e meninas bem como o acesso universal ao ensino, pois, para o filósofo, tratava-se de uma formação do homem moral necessária para se viver em um Estado justo. Havia, por fim, Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.). Foi aluno e discípulo do filósofo Platão, mas refutou muitas de suas ideias. Enquanto Platão era a favor da existência do mundo das ideias, Aristóteles defendia que o conhecimento poderia ser captado no próprio mundo onde se vive. O mesmo considerava a família o núcleo inicial da organização das cidades e a primeira instância da educação das crianças. No entanto, assim como Platão, atribuía a responsabilidade aos governantes e aos legisladores de regular e vigiar o funcionamento das famílias para garantir que as crianças crescessem com saúde e obrigações cívicas.

Por isso, o Estado deveria, também, ser o único responsável pelo ensino. Na Idade Média, datada entre os anos de 476 e 1453, as escolas eram marcadas, expressivamente, pela Igreja Católica. Era ela quem executava os princípios e regras de gestão bem como alguns outros aspectos como a hierarquia de autoridade, a unidade de comando e o princípio escolar. Determinava, também, os conteúdos e objetivos da educação. Já com o início do modo de produção capitalista, aproximadamente em 1901, mudanças decisivas na educação colocaram em posição central o protagonismo do Estado, forjando, assim, a ideia da escola pública, universal, gratuita, leiga e obrigatória. O principal objetivo não era educar o indivíduo como ser social e emancipado intelectualmente, mas sim como alguém que precisava ser instruído e educado de acordo com a “moral burguesa laica” (SAVIANI, 2008; SANTOS, 2008).

No Brasil, a origem das instituições escolares teve início em 1549 com a chegada dos jesuítas. Criaram na então colônia portuguesa a primeira escola brasileira (SAVIANI, 2008). É esse o ponto de partida para a reflexão sobre a história das instituições escolares brasileiras bem como para se analisar a gestão educacional historicamente. Assim, o estudo será contextualizado a partir de três momentos importantes para essa compreensão: a Era da Industrialização Clássica (1900/1950), a Era da Industrialização Neoclássica (1950/1990) e a Era da Informação (a partir de 1990). Ambas formam, assim, a era das organizações.

2. ERA DA INDUSTRIALIZAÇÃO CLÁSSICA

Como foi dito anteriormente, os jesuítas instalaram a primeira escola brasileira no ano de 1549. Mas cabe observar que, durante quase quatro séculos, tais escolas não abarcavam nem 1% da população, pois excluía-se mulheres, escravos, negros livres, pardos, filhos ilegítimos e crianças abandonadas.

Porém a vinda dos jesuítas proporcionou a expansão da Fé e do Império, constituindo a escola e a igreja no mesmo espaço em diversas regiões da colônia, cujo o sistema de educação era baseado no teatro, música e dança (FONSECA,) “multiplicando seus recursos para atingir à inteligência das crianças e encontrar-lhes o caminho do coração”. (AZEVEDO, 1943, p.290).

A contribuição dos jesuítas para o campo das artes foi importante, que há um capítulo inteiro sobre esses sujeitos na História da Arte no Brasil. Dessa forma, entende-se que com o aprendizado das artes e dos mais diferentes ofícios, os indivíduos adquirem autossuficiência na fatura dos mais diversos objetos de uso pessoal bem como para a cotidiana. Assim, aprenderam a produzir desde pares de pares de sapatos até embarcações utilizadas para transportar os padres e irmãos do Amazonas até o litoral da Bahia, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Na região dos Sete Povos das Missões, além das atividades de agricultura e pecuária, foram construídas oficinas. Nelas os sujeitos produziam instrumentos musicais assim como adornos que eram utilizados nos templos. Todas as atividades aconteciam a partir das orientações dos mestres jesuítas aos indígenas. Eles, por sua vez, ainda produziam esculturas em madeira e pedra, usando elementos da flora e fauna circunvizinhas aos aldeamentos. Em 1550 foi apresentado por Inácio de Loyola aos padres e irmãos que se localizavam em Roma uma orientação que constava nas Constituições da Companhia de Jesus que dizia que a adaptação aos costumes locais e a diversidade das regiões sob domínio jesuítico era essencial para que houvesse a eficácia da catequese (FONSECA,)

De fato, os jesuítas empreenderam no Brasil uma significativa obra missionária e evangelizadora, especialmente fazendo uso de novas metodologias, das quais a educação escolar foi uma das mais poderosas e eficazes. Em matéria de educação escolar, os jesuítas souberam construir a sua hegemonia. Não apenas organizaram uma ampla ‘rede’ de escolas elementares e colégios, como o fizeram de modo muito organizado e contando com um projeto pedagógico uniforme e bem planejado, sendo o Ratio Studiorum a sua expressão máxima. (SANGENIS, 2004, p.93)

O Ratio Studiorum ou Plano de Estudos – o método pedagógico dos jesuítas, era composto por um conjunto de regras que envolvia desde a organização escolar e orientações pedagógicas até a observância estrita da doutrina católica. O método de estudo adotado pelos jesuítas configura-se como uma Pedagogia Tradicional que se utilizava do trinômio estudar, repetir e disputar. Tinha como proposta de exercícios escolares a preleção, lição de cor, composição e desafio. O principal objetivo da Pedagogia Tradicional era tornar a educação sinônimo de catequese e evangelização, de forma a transformar o homem em alguém perfeito, caracterizado como um bom cristão.

Assim, o currículo era centrado na promoção de uma educação literária e humanista, voltado, sobretudo, para a elite colonial (FONSECA,). Pode-se visualizar que a educação era, essencialmente, elitista, pois as melhores escolas preocupavam-se em fazer com que a elite adentrasse nas universidades. Dessa forma, nota-se que somente apenas os filhos da classe dominante, ou seja, os ricos, adentravam nesses espaços, pois as classes populares tinham acesso apenas ao ensino básico era que era quase inexistente e, quando existia, o ensino era realizado sem nenhum rigor e qualidade.

A Era da Industrialização Clássica foi marcada pela industrialização e pelo surgimento dos países desenvolvidos, resultado de um período de crises, guerras e prosperidades, causado pela Revolução Industrial. Foi nessa mesma época que surgiram as estruturas organizacionais burocráticas que tinham como objetivo a implantação de um seguimento de regras e regulamentos internos que serviam para doutrinar e impor limites as pessoas. Nesse período, a produção em escala com baixos custos era prioridade, assim as empresas passaram a implementar medidas que aceleravam os processos produtivos de forma padronizada.

Mas para isso a mão de obra também teria que ser melhorada, então foram desenvolvidos programas de especialização que tinham como objetivo fazer com que as pessoas aprendessem somente uma atividade, pois assim poderia ser mantida a estrutura de comando que era baseada em um comando centralizado, havendo, dessa forma, rigidez nos processos de comunicação, muitos níveis hierárquicos e cargos definidos e limitados. Assim, as pessoas tinham baixa capacidade de processamento de informações, pois eram sujeitas a uma mesma rotina, sem nenhuma capacidade para reagir a mudanças e inovações (MARTINS, 2007).

Segundo Saviani 2008, o período da Industrialização Clássica se manteve estagnado pois os números de pessoas analfabetas em relação a população total daquela época giravam em torno de 65% entre os anos de 1900 e 1920. Isso aconteceu pois durante os trinta primeiros anos da colonização do Brasil, o único interesse de Portugal era, exclusivamente, a exploração das riquezas, dessa forma, não tinham nenhum plano de povoamento (FONSECA,). Nesse sentido, para Pero Magalhães Gandavo os índios que ocupavam o território brasileiro,

Não tinham as letras ‘F, nem L, nem R’, não possuindo ‘Fé, nem Lei, nem Rei’ e vivendo ‘desordenadamente’. Essa suposição de uma ausência lingüística e de ‘ordem’ revela, um tanto avant la lettre, o ideal de colonização trazido pelas autoridades portuguesas: superar a ‘desordem’, fazendo obedecer a um Rei, difundindo uma Fé e fixando uma Lei. […] (VILLALTA, 2002, p.332).

3. ERA DA INDUSTRIALIZAÇÃO NEOCLÁSSICA

Nesse período o mundo passou por mudanças geopolíticas, assim as transações comercias passaram de locais para regionais e, posteriormente, para nacionais, o que exigia ainda mais rapidez das empresas, acentuando, assim, uma competividade entre as mesmas. A estrutura de comando da Era anterior, centralizada, burocrática e hierárquica já não conseguia acompanhar os avanços desse novo ambiente de negócios que se apresentava. Nesse contexto, criou-se a “estrutura matricial” para se agregar a existente”. Nela os principais objetivos era o incentivo à inovação e o aumento da velocidade de reação da empresa às constantes mudanças externas.

Com a divisão das organizações em pequenas unidades de negócio, as empresas passaram a administrar de forma mais eficiente, tornando-se mais ágeis, mais competitivas e próximas de seus clientes. A estrutura matricial tinha como principais características a adaptação funcional de seus produtos, a descentralização da coordenação, uma maior capacidade de processamento de informações, a interação entre os cargos, uma maior adaptabilidade a inovações e cargos mais adaptados a tarefas complexas. As relações industriais foram substituídas pela Administração dos Recursos Humanos. Passou-se a enxergar as pessoas como recursos vivos, inteligentes e não mais como um fator inerte de produção (MARTINS, 2007).

No âmbito nacional, o Brasil não seguiu uma agenda de transformação educacional. As classes dominantes continuaram com seus filhos nas escolas jesuíticas para que esses adentrassem nas Universidades enquanto que a classe operária era entendida apenas como uma mão de obra para o país e que, portanto, não precisavam ser educados. Assim, a defasagem do ensino perdura desde este momento, pois as condições de acesso à educação nunca são as mesmas para toda a população, visto que, historicamente, sempre foram entendidas como mão de obra. Nesse sentido, pesquisas como as feitas por Demerval Saviani, Gaudêncio Frigotto, José Carlos Libâneo, Roseli Caldart, evidenciam tal afirmação. Para Frigotto (2010):

A educação no Brasil, particularmente nas décadas de 1960 e 1970, de prática social que se define pelo desenvolvimento de conhecimentos, habilidades, atitudes, concepções de valores articulados às necessidades e interesses das diferentes classes e grupos sociais, foi reduzida, pelo economicismo, a mero fator de produção – “capital humano”. Asceticamente abstraída das relações de poder, passa a definir‐se como uma técnica de preparar recursos humanos para o processo de produção. Essa concepção de educação como “fator econômico” vai constituir‐se numa espécie de fetiche, um poder em si que, uma vez adquirido, independentemente das relações de força e de classe, é capaz de operar o “milagre” da equalização social, econômica e política entre indivíduos, grupos, classes e nações (FRIGOTTO, 2010, p. 20).

Durante a década de 1960, muitos eventos abalaram o sistema sócio‐ educacional brasileiro. Dentre alguns, pode-se citar: a promulgação da 1ª Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei 4.024/61) que determinava que o ensino primário tinha como finalidade o desenvolvimento do raciocínio e integração da criança no meio físico e social. O ensino era ministrado, no mínimo, em quatro séries anuais. Para os que não conseguiam ser aprovados no ensino médio mediante prova, eram oferecidos mais duas séries anuais que tinham como objetivo introduzir esses alunos as artes aplicadas adequadas ao sexo e a idade a partir de debates que discutiam sobre as reivindicações e lutas no campo político‐social contra a ideologia de desenvolvimento então vigente que colocava a escola como responsável pela formação da mão‐de‐obra preparada, visando o “desenvolvimento” do país.

O golpe militar de 1964 reprimiu muito dos anseios da classe popular pois favoreceu a conquista do mercado ao sistema econômico, político e educacional brasileiro. Nesse sentido, a figura do educador Paulo Freire, trouxe para o contexto da educação brasileira um novo método de alfabetização. O objetivo maior era a conscientização do papel fundamental que o aluno ocupa na sociedade. O autor evidenciava a necessidade de que os alunos compreendessem que eram oprimidos e que precisavam se libertar. Pode‐se afirmar que o período foi marcado por amplas disputas no campo político e social devido a políticas libertadoras como a de Paulo Freire (SANTOS, MELO, LUCIMI, 2012).

Neste período havia um sistema de Administração Escolar que seguia moldes da administração. De cima para baixo, era o modelo, onde a escola ao invés de ser transformadora, era o lugar de fabricação da mão de obra especializada. Dessa forma, o senso crítico era totalmente deixado de lado. Cabia a Administração Escolar todas as decisões no que tangia a currículo, disciplina e organização dos conteúdos. Aos professores, era permitido, apenas, seguir a cartilha por seus superiores ditadas e aos alunos, apenas era permitida a reprodução de conteúdo a partir de um processo contínuo de repetição. Era um sistema de administração que respondia, apenas, aos interesses dos governantes, que, por sua vez, eram aliados ao Capital Externo, assim, entendia-se que esses alunos seriam as suas futuras mão de obra barata.

O final da década de 1970 e início dos anos 80 foi marcado por significativas manifestações estudantis em defesa da democracia política brasileira. Dessa forma, a Educação assume uma postura de preocupação com as questões sociais, dando, para tanto, uma maior atenção às classes populares que possuíam pouco acesso ao ensino. Destaca‐se no campo educacional o avanço desordenado do ensino superior, o consequente desmantelamento das universidades públicas e o incentivo para a privatização do ensino superior (SANTOS, MELO, LUCIMI, 2012). Assim, “o número das instituições públicas de ensino superior estagnou entre 1970 e 2004, enquanto o número de instituições privadas cresceu 314% nesses 34 anos” (RIGOTTO e SOUZA, 2005, p. 346).

Na década de 1980 a educação foi marcada pela luta política contra a hegemonia. Resistia-se à ideia de que a Educação deveria ser mais um setor privilegiado do mercado internacional. Nesse período, o Brasil vivenciou o processo de elaboração da Constituição de 1988. Nela a educação foi contemplada pela Carta Constitucional que defendia a igualdade de condições para o acesso e a permanência na escola, marcando, assim, importantes conquistas dos movimentos sociais, pois passaram a ter as suas reinvindicações contempladas. A Educação passa a ser encarada como um direito de todos os cidadãos (SANTOS, MELO, LUCIMI, 2012).

4. ERA DA INFORMAÇÃO

É um momento que abrange os tempos atuais. Tem como principal característica o grande volume de informação disponível que pode ser acessado pelas pessoas por meio da internet. Nela uma informação atravessa o mundo em questões de segundos, entretanto, tal velocidade exige das organizações uma grande velocidade de reação e adaptação. Assim, o capital passou a ter menos importância do que o conhecimento. O talento humano e a capacidade de tomar decisões rapidamente se tornaram os principais diferencias competitivos das organizações. Para permitir a disseminação desse volume de conhecimento e informações, criou-se uma nova estrutura organizacional. Trata-se de uma estrutura horizontal que tem como característica a organização ágil, simples, inovadora e flexível bem como prioriza a grande capacidade de processamento de informação a partir de um ambiente mutável e dinâmico, com foco na criatividade e inovação (MARTINS, 2007).

No governo de Fernando Henrique Cardoso (1995 – 2003), ocorre, na Educação, uma descentralização do domínio público para os ideais do empresariado. As grandes empresas passam a intervir na orientação da Educação pública, “por meio de parcerias intermediadas com as organizações não‐governamentais (ONGs), grupos técnicos, fundações empresariais, entre outras” (LUZ, 2011, p. 442).  Em outras palavras, o poder público acolheu e facilitou a entrada do ideário empresarial, contribuindo assim para a desigualdade social, uma vez que as empresas privadas conseguiram uma maneira de “burlar” a lei, obtendo ainda mais lucro sobre suas ações, pois além de não pagarem impostos a que deveriam ser obrigadas, ainda recebem financiamento público ao agregar em sua estrutura organizacional uma “instituição” de cunho filantrópico. Porém como uma forma de acalmar os anseios populares, surge no âmbito escolar, o conceito de universalização da escola, a “educação para todos” (SANTOS, MELO, LUCIMI, 2012).

Enquanto instituição social e política, a escola passou por vários processos e mudanças em termos de conhecimento, organização e formas de pensar. Com todas essas mudanças articuladas e trazidas à tona, a partir de documentos e legislações especificas, a escola viu a necessidade de mudar e adaptar-se aos tempos então instituídos. Aparece, nesse contexto, o conceito de gestão escolar. Este acabou ganhando espaço de análise, de discussão e de implementação no interior das escolas, descentralizando, dessa forma, a educação. Tem como objetivo a construção de uma escola participativa, de forma que a Comunidade, os Gestores e os Professores sejam os principais responsáveis pelas decisões relacionadas as diretrizes a serem tomadas a partir de um currículo básico pré-estabelecido (CORRÊA, 2012).

Porém, em algum momento desse passado, a gestão, as empresas e os governos negligenciaram a formação e a capacitação profissional. Teve-se como consequência uma gama de pessoas que conseguem, em muitas vezes, entrar numa universidade, mas saem desqualificadas e despreparadas para atuarem no mercado de trabalho. Acaba sendo mais do mesmo, sempre.

5. ERAS ORGANIZACIONAIS PARA A GESTÃO ESCOLAR

Segundo Santos 2008, historicamente, são depositadas inúmeras demandas da sociedade na instituição escolar, pois a mesma é vista como uma entidade capaz de oferecer instrução formal para que os sujeitos façam parte do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, espera-se que seja um tipo de local socializador, que deve ter por objetivo formar, moralmente, o indivíduo, com valores e regras de conduta e convivência social.

Na Era da Industrialização Clássica é o administrador quem detém o poder, ou seja, não é permitida a participação do corpo escolar. Na Era da Industrialização Neoclássica, o ambiente educacional busca trazer questionamentos acerca de assuntos que, até então, eram silenciados, como aqueles relacionados a autonomia, emancipação e a participação coletiva, tendo como objetivo a transformação da administração escolar.

A Era da Informação, por fim, incorpora, na gestão escolar, elementos essenciais para uma educação acessível, como a descentralização, a subjetividade, a gestão participativa e a busca pelo envolvimento de todo o corpo educacional nas decisões da escola.

6. ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR E GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA

A administração escolar entende que a educação deve ser baseada em uma organização de poder verticalizada e hierarquizada. Assim, os papeis são bem definidos. Quanto mais próximo da base da pirâmide o indivíduo se localizava, menos poder de decisão no processo ele detém. Essa forma de gerir a escola é bem parecida com o modelo que as organizações lucrativas, como as empresas e as indústrias se utilizam. Cada membro tem seu lugar determinado e atomizado no processo e deve exercer determinada função específica para que o sistema possa funcionar em harmonia.

Já na gestão escolar democrática a educação considera o homem como ser social, ou seja, ao contrário da administração escolar, a base não será piramidal e hierarquizada, pois adota-se um desenho circular, assim os atores sociais – diretores, coordenadores, professores, pais, alunos etc. – são considerados sujeitos ativos do processo, de forma que sua participação deve acontecer de forma clara, ativa e com responsabilidade.

A gestão democrática de escolas públicas pode ser incluída no rol de práticas sociais que pode contribuir para a consciência democrática e a participação popular e, portanto, para a democratização da própria sociedade. O Estudo da democracia na gestão de escolas públicas, pode, portanto, contribuir para o entendimento da democratização da sociedade, na medida em que busca esclarecer como mudanças geradas pelas políticas de democratização sobre ela repercutem (MARQUES, 2006, p.513).

O conceito de Gestão Participativa é bastante interessante para a Comunidade, mas não trouxe as melhoras necessárias à escola pública de qualidade. Ainda existem currículos deficientes, famílias desestruturadas e professores e gestores desestimulados, e, em algumas vezes, descompromissados. Há, também, uma mídia massiva e alienante que trabalha na contramão de uma boa educação bem como o país conta com representantes que não possuem um interesse efetivo em melhorar a educação para as classes menos favorecidas.

CONCLUSÃO

Pretendeu-se, com este trabalho, apresentar uma discussão crítica acerca da educação brasileira por meio do processo histórico para refletir sobre a configuração da gestão escolar a partir de uma pesquisa histórico-educacional. Durante todo o processo histórico, a educação esteve, sempre, atrelada a interesses de grupos, organizações e seguindo cartilhas prontas. O trabalho, nesse sentido, apresentou questionamentos sobre e como a educação foi construída a partir de interesses capitais, estando, durante muito tempo, a mercê, dos interesses do capital e de grupos empresariais. Assim, é fundamental que educação seja encarada como “uma prática social, uma atividade humana e histórica que se define no conjunto das relações sociais” (FRIGOTTO, 2010, p. 33) e como um local que tem como função “[…] produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida historicamente e coletivamente pelo conjunto dos homens” (SAVIANI, 2000, p. 17).

Quando se reflete sobre o quadro atual da educação brasileira, fica claro que a ideologia do neoliberalismo econômico permeou todo o processo educacional, o que fez com que houvesse um desgaste em relação ao investimento e ao reconhecimento social da área. O que se percebe, com este estudo, é que, hoje, a educação pública tem sofrido cortes de investimento, o que inviabiliza a construção de uma escola que atenda aos anseios da sociedade, tendo-se como consequência uma grande evasão e uma má formação escolar. Não é apenas por meio de escolas bem estruturadas que a educação terá um salto de qualidade, todavia, defende-se, com este trabalho, que este é um dos fatores que pode contribuir para uma melhora efetiva da educação.

Pode-se concluir que o todo processo histórico brasileiro faz com que estudos apontem que a educação totalmente transformadora não existe, devido a inúmeros fatores, como os cortes de investimento, por exemplo. Entretanto, com uma mudança de mentalidade, aos poucos, essa melhoria pode ser, gradativamente, adquirida. Porém, acredita-se que enquanto a economia continuar a ditar as diretrizes dessa política, não será possível humanizar a sociedade por meio da educação, devido à finalidade capitalista. Somente a Educação não é capaz de transformar a atual sociedade, mas sem ela a sociedade não pode ser transformada.

REFERÊNCIAS

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CORRÊA, Shirlei de Souza. A Gestão Escolar e o Processo de Democratização da Escola Pública. In: IX SEMINÁRIO DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO DA REGIÃO SUL, 2012, Caxias do Sul. Anped Sul. Itajaí: Anped Sul, 2012. p. 1 – 6.

FONSECA, C.S., História do Ensino Industrial no Brasil. Rio de Janeiro, Escola Técnica Federal, 1961.

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IBOPE (Brasil). Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística. Censo 2009. Disponível em: <www.ibope.com.br/>. Acesso em: 10 set. 2015.

IBGE (Brasil). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo. 2010. Disponível em: <http://censo2010.ibge.gov.br/>. Acesso em: 15 set. 2015.

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VILLALTA, Luiz Carlos. O Que se Fala e o Que se Lê: Língua, Instrução e Leitura. In: História da Vida Privada No Brasil I: Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p.331-445.

[1] Estatístico, Universidade Federal do Ceará, Licenciado em Matemática, Universidade Estadual do Ceará, Especialista em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica da Faculdade de Tecnologia de Palmas.

Enviado: Abril, 2018.

Aprovado: Maio, 2019.

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