A cantiga de roda como instrumento pedagógico na educação infantil

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/cantiga-de-roda
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ARTIGO ORIGINAL

REBELLO, Everton [1], ROSA, Helenice Scapol Villar [2]

REBELLO, Everton. ROSA, Helenice Scapol Villar. A cantiga de roda como instrumento pedagógico na educação infantil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 06, Ed. 11, Vol. 07, pp. 05-24. Novembro 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/cantiga-de-roda, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/cantiga-de-roda

RESUMO

O estudo da música nas salas de aula traz benefícios ao desenvolvimento global de crianças de todas as idades, entre eles, podemos citar: a melhora da coordenação motora, a concentração e disciplina, a melhora no trabalho em equipe, o aumento da capacidade auditiva e o estímulo do raciocínio matemático. O ensino da música na educação é defendido, inclusive, em documentos oficiais, como o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (RCNEI), o qual compreende a música como linguagem e área de conhecimento, possuindo conteúdos e metodologias próprias. Existem várias formas de se trabalhar com a música na educação básica. O presente artigo tratará, especialmente, sobre o gênero cantiga de roda. Esse tipo de canção é um instrumento pedagógico auxiliar no âmbito da educação infantil por juntar sons, movimentos, brincadeira e interação coletiva. Diante disso, temos como questão norteadora: A cantiga de roda é um instrumento interessante e eficiente no trabalho com a musicalização na educação infantil? Para respondê-la, foi realizado uma pesquisa bibliográfica em livros, artigos científicos, teses acadêmicas e documentos oficiais, que tratem da importância da música e da cantiga de roda na educação infantil. Além disso, foi realizado uma análise dos elementos musicais – letra, melodia, harmonia e ritmo – de algumas cantigas de roda. Concluímos que o trabalho com cantigas é eficiente na educação infantil por ser um convite ao movimento e à brincadeira, atividades essenciais ao desenvolvimento integral da criança. Já a análise dos elementos musicais, possibilitou observar que as cantigas de roda possuem letras curtas e repetitivas, melodias e ritmos simples que são facilmente entendidos e apropriados pelas crianças. Portanto, a cantiga de roda é uma interessante ferramenta pedagógica, ajudando no desenvolvimento das crianças de maneira lúdica, agradável e divertida.

Palavras-chave: Musicalização Infantil, Educação Infantil, Cantiga de Roda.

1. INTRODUÇÃO

A presente pesquisa pretende averiguar se o gênero cantiga de roda é uma ferramenta pedagógica interessante para trabalhar a musicalização na educação infantil, através de uma pesquisa bibliográfica e da análise musical de algumas canções.

O Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil – RCNEI (BRASIL, 1998), dá ênfase para o trabalho com a música na educação infantil, trazendo orientações, objetivos e conteúdos a serem trabalhados pelos educadores. A concepção adotada pelo documento compreende a música como linguagem e área de conhecimento, possuindo conteúdos e metodologias próprias.

Nesse intuito, o gênero cantiga de roda é interessante, pois com letras, melodias, ritmos, gestos simples, repetitivos e de fácil compreensão, elas são facilmente assimiladas e apropriadas pelas crianças pequenas. As cantigas são ricas em referências culturais de determinados povos, como ressalta a pesquisadora Benita Michahelles “…na simplicidade das suas melodias, ritmos e palavras, guardam séculos de sabedoria e a riqueza condensada do imaginário popular”. (MICHAHELLES, 2011, p.4).

Do ponto de vista pedagógico, estes jogos infantis são considerados   completos, como explica a Pesquisadora Melita Bona:

Brincando de roda, a criança exercita o raciocínio e a memória, estimula o gosto pelo canto, desenvolve naturalmente os músculos aos ritmos das danças ingênuas. As artes da Poesia, da Música e da Dança uniram-se nos brinquedos de rodas infantis, realizando a síntese magnífica de elementos imprescindíveis à educação escolar. (BONA, 2006, p. 42).

Porém, essa prática muito utilizada no passado, vem perdendo espaço ao longo dos anos e, hoje, raramente, observamos as crianças brincando de roda. Ademais, as cantigas vêm sendo trabalhadas de maneira descontextualizada, com a repetição das mesmas canções e gestos de maneira mecânica, subaproveitando o potencial pedagógico da musicalização.

Diante disso, o que se propõe nessa pesquisa é avaliar se a cantiga de roda é uma modalidade de canção pedagogicamente interessante para a educação infantil, pensando nos objetivos, justificativas e contextualizações.

2. A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A criança entra em contato com os sons que estão ao seu redor desde antes do seu nascimento. Os primeiros estímulos recebidos pelos pequeninos são a voz materna, conversando e cantando, a voz das pessoas que os cercam, os sons do ambiente em que vivem, da natureza, como o vento a chuva e dos animais, as músicas da televisão, rádio, e os sons gerados pelo grupo social em que estão inseridos.

As crianças permeiam suas atividades com sons e músicas, cantando enquanto brincam, emitindo sons para ilustrarem suas atividades, imitando animais, carrinhos e aviões, como uma trilha sonora para a brincadeira. Portanto, esse início do processo de musicalização nos bebês e crianças se dá de forma natural.

A música estimula o desenvolvimento em vários aspectos, entre eles: o aperfeiçoamento auditivo, pelo contato com os diversos estímulos sonoros, diferentes ritmos e gêneros musicais; a organização dos pensamentos, à medida que as crianças comparam as ações musicais com os sentimentos causados por elas; o aprimoramento das habilidades motoras, enquanto se movimentam, dançam e cantam para acompanhar os sons e músicas; o desenvolvimento da socialização e do trabalho em equipe, nas rodas de música, jogos musicais, uso de instrumentos de pequena percussão e cantigas de roda.

O ensino da música nas escolas é defendido por estudos e documentos oficiais, entre eles as RCNEI:

A integração entre os aspectos sensíveis, afetivos, estéticos e cognitivos, assim como a promoção de interação e comunicação social, conferem caráter significativo à linguagem musical. É uma das formas importantes de expressão humana, o que por si só justifica sua presença no contexto da educação, de um modo geral, e na educação infantil, particularmente. (RCNEI 1998, p. 45).

É muito importante que a criança tenha contato com a música desde pequena, para que ela crie um vocabulário auditivo de sons e estilos musicais diversos, construindo um capital cultural importante para a formação de um indivíduo mais completo. Porém, esse trabalho deve ser planejado, para que a criança tenha os benefícios inerentes ao estudo da música de maneira organizada, progressiva e natural, através de atividades prazerosas e estimulantes.

A pesquisadora Karen Ildete Stahl Soler destaca em sua pesquisa:

O código musical é apreendido pela vivência, pela familiarização, pelo contato cotidiano. Assim, ser sensível à música não é somente uma questão de gosto ou empatia, e sim ter uma sensibilidade adquirida (muitas vezes de modo pré-consciente), em que as possibilidades de cada indivíduo são trabalhadas e preparadas de modo que ele compartilhe da experiência musical, consciente ou não consciente disso. Para entender música, não basta escutar, é preciso dispor de instrumentos de percepção que permitam ao indivíduo decodificar a obra, entendê-la e aprendê-la. Quando esses instrumentos específicos não existem, o indivíduo se orienta por referenciais vindos do cotidiano que não permitem que a música, em geral, seja interpretada de acordo com sua especificidade. (SOLER, 2008, p. 17).

É importante também destacar que para cada idade ou grupo de crianças, existe uma metodologia, objetos e atividades diferentes, adequadas às suas características e necessidades e que possam contribuir para o seu desenvolvimento de maneira contínua e progressiva.

Para a educação infantil, a música está intimamente ligada ao gesto e ao movimento corporal. O corpo traduz a audição em movimentos. Nesse sentido, atividades que unem música e movimento, como a cantiga de roda, são importantes para essa etapa da educação.

3. AS BRINCADEIRAS MUSICAIS

Existem vários tipos de canções e brinquedos musicais, que fazem parte do universo infantil. Os documentos do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI), afirmam o seguinte:

Os jogos e brinquedos musicais da cultura infantil incluem os acalantos (cantigas de ninar); as parlendas (os brincos, as mnemônicas e as parlendas propriamente ditas); as rondas (canções de roda); as adivinhas; os contos; os romances etc. (RCNEI, 1998, p. 71).

Os acalantos, também conhecidos como cantigas de ninar ou cantigas de berço, são canções suaves, que acalmam, trazem aconchego e fazem as crianças adormecerem. São exemplos de acalantos: “Nana, nenê”; “Boi da Cara Preta”; “Dorme – Dorme”; “Embala José”; entre outros.

Os Brincos são brincadeiras musicais rítmicas, geralmente com melodias de poucas notas (às vezes só duas, como “Serra”), que se repetem o tempo todo. Os brincos são acompanhados por movimentos corporais. São exemplos de brincos: “Serra, Serra, Serrador”; “Bambalalão” e “Palminhas de Guiné”.

As Parlendas são brincadeiras rítmicas recitativas, não apresentam uma melodia, sendo que as palavras são recitadas em uma mesma nota. São exemplos de parlendas: “Hoje é Domingo”; “Barra Manteiga”; “Lá em cima do Piano”; “Adoletá”; entre outros.

Cantigas de roda ou canções de roda são brincadeiras musicais, onde geralmente os participantes formam uma roda de mãos dadas e cantam canções conhecidas por todos, executando movimentos circulares com ou sem coreografias. Essas canções geralmente têm melodias, ritmos e letras simples e repetitivas, podendo ser assimiladas e reproduzidas com facilidade pelos integrantes do grupo, sejam crianças ou adultos. Nessa modalidade, as crianças usam o movimento e a brincadeira, gestos naturais e espontâneos dentro do processo de aprendizagem do universo infantil.

4. A CANTIGA DE RODA

A cantiga de roda, como a música brasileira, é uma construção de misturas entre influências de vários povos, desde os povos originários do Brasil (indígenas), passando pelos colonizadores de diversas nacionalidades, até as influências atuais. Essa mistura é destacada pelo pesquisador Veríssimo de Melo:

Influências de várias culturas, principalmente lusitana, africana, ameríndia espanhola e francesa plasmaram de tal sorte a contextura dessa cantiga infantil, que hoje não é fácil precisar, cientificamente, onde começa a influência lusitana ou termina a africana ou indígena. (MELO, 1981, p. 190).

Esse gênero de canção é uma manifestação popular, na maioria de autoria anônima, passado oralmente de geração a geração. Nessa transmissão oral, as cantigas são transformadas, adaptando-se às características das crianças que brincam, como região, origem, questões sociais, habilidades das crianças envolvidas, entre outras. Apesar disso, essas canções mantém uma conexão com o tradicional, como aponta a pesquisadora Rose Marie Garcia: “A dinâmica cultural atua sobre as brincadeiras infantis, fazendo-se evoluir e adaptar-se a cada época, mantendo, contudo, os elos tradicionais”. (GARCIA 1989, p. 13).

As cantigas de roda são praticadas em todas as regiões do Brasil, incorporando elementos próprios de cada local.

Essas cantigas, muito executadas em outros tempos, vem perdendo espaço na sociedade atual, de modo que quase não vemos crianças brincando com elas. Muitos são os fatores que contribuíram para a diminuição do interesse pelas mesmas, entre eles, podemos citar o uso cada vez maior das tecnologias. Televisões, computadores, tablets e celulares são objetos de uso diário de adultos e crianças, mudando comportamentos, valores e atitudes, contribuindo para o afastamento das pessoas de atividades tradicionais, como aponta a pesquisadora Monique Traverzim:

Na atualidade – século XXI –, está-se em plena era digital, na qual as distâncias e o tempo foram encurtados pela Internet, em que se tem acesso rápido à informação, o que permite que pessoas de diferentes continentes possam se conectar em tempo real. Diante desta situação, pode-se atribuir o estilo de vida da sociedade atual como um dos possíveis fatores que suscitaram as pessoas a se distanciarem das manifestações populares tradicionais e as crianças, das Brincadeiras da Cultura Infantil. (TRAVERZIM 2015, P. 73).

4.1 POR QUE A CANTIGA DE RODA É INTERESSANTE NO TRABALHO COM A EDUCAÇÃO INFANTIL

Através das cantigas de roda, pode-se trabalhar a coordenação motora, estimular a memória, exercitar a comunicação oral, a criatividade, o vocabulário, a socialização, o trabalho em equipe, o respeito às outras pessoas e ao meio ambiente, entre outras contribuições. A coordenação motora e a movimentação são trabalhadas pelos movimentos realizados nessas brincadeiras. Geralmente, todas as crianças participam cantando, trabalhando a oralidade e a memória. A criança pode expandir seu vocabulário, ao conhecer palavras novas presentes nas canções e treinar a criatividade na movimentação.

Cantando coletivamente, as crianças se sentem pertencentes a um grupo e todas participam, das mais tímidas até as mais extrovertidas. Dessa forma, elas desenvolvem o trabalho em equipe, a coletividade, a autoexpressão, a autoestima, entre outras habilidades físicas, psicológicas e emocionais.

Nas cantigas, os participantes exercitam habilidades de vida em sociedade, como destacam as pesquisadoras Marieta Lúcia Machado Nicolau e Marina Célia Morais Dias:

Dando as mãos, as crianças formam um todo. Cantam, dançam ou tocam juntas; criam e seguem regras, exercitam textos e movimentos de forma coletiva, desenvolvendo a socialização e praticando democracia com valores de respeito mútuo, cooperação e unidade de grupo. (NICOLAU E DIAS, 2003, p.78).

Nesse sentido, o círculo formado pelas crianças é a representação da vida em sociedade, em que a roda pode ser a família, a comunidade da qual a criança faz parte, a escola, a cidade, o país, e futuramente o trabalho e outras situações da vida em sociedade.

Além disso, quando entoamos tais canções, entramos em contato com costumes, tradições, flora, fauna, objetos, crenças, entre outras características específicas de determinados lugares.

As brincadeiras de roda e musicais em geral, são importantes também, porque dão a oportunidade de as crianças terem contato com elementos da música brasileira, em diferentes ritmos, diferentes sonoridades e vocabulário de elementos que estão na base da música brasileira. Isso contribui para a ampliação do repertório da criança, auxiliando na formação de uma pessoa mais consciente musicalmente, capaz de analisar e atuar de maneira mais crítica nas suas escolhas musicais.

4.2 CARACTERÍSTICAS DA CANTIGA DE RODA

Pesquisando sobre as cantigas de roda, encontramos várias definições. Entre elas, a pesquisadora Maria Aldenôra das Neves Silva Martins afirma que:

Cantigas de roda são poesias e poemas cantados em que a linguagem verbal (o texto), a música (o som), a coreografia (o movimento) e o jogo cênico (a representação) se fundem numa única atividade lúdica, ou seja, são canções populares, que estão diretamente ligadas a brincadeira de roda e que consiste em formar um grupo com várias crianças, dar as mãos e cantar uma música com características próprias, com melodia e ritmo equivalentes à cultura local, com letras de fácil compreensão, temas referentes à realidade da criança ou ao seu universo imaginário e geralmente com coreografias. (MARTINS, 2003, p.35).

Como a cantiga de roda se adapta a cada lugar onde é praticada, o seu repertório é muito grande e diversificado nos aspectos musicais, nas temáticas e no vocabulário. Por serem construções coletivas que se moldam às características do grupo executante, elas são um bom material de trabalho num grupo escolar de educação infantil. Isso, porque os grupos são bem heterogêneos, com crianças de características muito diversas, com interesses, necessidades, diferenças sociais, culturais e de origem.

Essa diversidade de repertório possibilita a escolha de diferentes canções, para atender as peculiaridades de cada grupo de crianças.

Geralmente, as cantigas são realizadas junto com movimentos, têm letras simples e repetitivas, falando de elementos do cotidiano, como animais, plantas, festas regionais, da vida da criança e do adulto. Nos aspectos musicais, podemos destacar melodias repetitivas, com extensão vocal no máximo de uma oitava, com padrões rítmicos e melódicos, ritmo repetitivo (que se repete durante praticamente toda a canção), e de sugestão harmônica simples.

Colaborando com essa visão, a pesquisadora Elaine Gebrim de Farias conclui que: “As cantigas possuem uma letra fácil de memorizar, sendo formada por rimas e repetições que prendem a atenção das crianças, de modo que estimula a imaginação e a memória da criança”. (FARIAS, 2013, p. 26).

5. CARACTERÍSTICAS MUSICAIS DA CANTIGA DE RODA

As cantigas de roda têm características de letra, melodia, ritmo e harmonia que as tornam interessantes como material de aprendizado para a educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental.

A seguir, será feita uma pequena análise dos aspectos musicais de algumas cantigas de roda. Para tal, é necessária uma breve explicação de alguns elementos musicais.

A melodia é a parte cantada, que se caracteriza como uma sucessão de notas que formam um conjunto com sentido musical. Se fôssemos comparar com o estudo de um idioma, as notas seriam as palavras e as melodias seriam as frases e orações.

Quando as notas são tocadas ao mesmo tempo, temos a formação de acordes, que são usados para fazer o acompanhamento da melodia. Um exemplo dessa junção é quando uma pessoa toca violão e canta. Nesse caso, o canto faz a melodia e o violão acompanha com acordes. O conjunto de acordes dentro de uma música, é o que chamamos de harmonia da música. O compositor e pianista brasileiro Oswaldo Lacerda, define harmonia da seguinte maneira: “Harmonia é a ciência que estuda os acordes e a maneira de concatená-los.” (LACERDA, 1961, p. 79).

O ritmo é a combinação entre sons curtos, médios, longos e do silêncio.  O compositor Bohumil Med define o ritmo da seguinte forma: “O Ritmo é o resultado da organização sistemática da duração do som em suas múltiplas possibilidades. Daí decorre a medida exata do silêncio das pausas”. (MED, 1986, p. 11).

Na sequência faremos uma análise da letra, movimentação corporal, ritmo, melodia e harmonia das cantigas.

5.1 AS LETRAS DAS CANTIGAS

Com relação às letras, geralmente são curtas, fáceis de memorizar, com repetições, rimas e trocadilhos. Seguem abaixo alguns exemplos de letras das cantigas:

A Rosa Amarela (autoria anônima)

Olha a Rosa amarela, Rosa. Tão Formosa, tão bela, Rosa (repete).
Iá-iá meu lenço, ô Iá-iá. Para me enxugar, ô Iá-iá.

Esta despedida, ô Iá-iá. Já me fez chorar, ô Iá-iá (repete).

Samba Lelê (autoria anônima)

Samba Lelê tá doente. Tá com a cabeça quebrada.

Samba Lelê precisava. É de umas boas palmadas.

Samba, samba, Samba ô Lelê. Samba, samba, samba ô Lalá.
Samba, samba, Samba ô Lelê. Pisa na barra da saia ô Lalá.

Pai Francisco (autoria anônima)

Pai Francisco entrou na roda. Tocando o seu violão.
Bi-rim-bão bão, Bi-rim-bão bão.
Vem de lá Seu Delegado. E Pai Franciso foi pra prisão.

Como ele vem todo requebrado. Parece um boneco desengonçado.

5.2 MOVIMENTAÇÃO CORPORAL

As cantigas de roda são geralmente brincadas com movimentos corporais. Em muitas dessas canções, esses movimentos são incentivados pela própria letra da cantiga, como por exemplo: “palma, palma, palma, pé, pé, pé, roda, roda, roda caranguejo peixe é” (“Caranguejo”); “samba, samba, samba ô Lelê, samba, samba, samba, ô Lalá, samba, samba, samba o Lelê, pisa na barra da saia” (“Samba Lelê”); “Olhai pro céu, olhai pro chão… Para todos se ajoelhar… Para todos se levantar… Para todos se sentar…” (“Carneirinho, Carneirão”).

5.3 MELODIA

Na questão melódica, grande parte das cantigas está construída em intervalos de segundas e terças ascendentes e descendentes. Os intervalos de segunda e terça são mais naturais ao canto, não apresentando assim, grandes dificuldades técnicas. Intervalos são as distâncias entre as notas, dentro da escala musical. Se pegarmos uma escala de Dó maior, por exemplo temos: Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó. A distância de intervalo de Dó para Ré é de segunda, de Dó para Mi é de terça, de Dó para Fá é de quarta, de Dó para Sol é de quinta, de Dó para Lá é de sexta, de Dó para Sí é de sétima e de Dó para o outro Dó é de oitava. Outra característica presente na maioria das cantigas é que o âmbito da melodia, ou seja, a distância entre a nota mais grave e mais aguda não ultrapassa o intervalo de oitava. Como o âmbito de oitava pode ser cantado pela maioria das pessoas e das crianças, as cantigas podem ser executadas por quase todos os grupos infantis. Abaixo seguem alguns trechos de partituras para analisarmos os intervalos citados:

Partitura 1: Garibaldi foi à missa (autoria anônima)

Fonte: Elaborado pelo autor (2021).

Ao analisarmos a melodia, representada na partitura 1, percebemos que é composta por notas repetidas e intervalos predominantemente de segundas e terças ascendentes e descendentes.

Outra questão analisada é a tessitura da música (distância entre a nota mais aguda e mais grave). A nota mais grave é o Si do segundo espaço suplementar inferior e a mais aguda é o Si da terceira linha do pentagrama. Isso configura uma tessitura melódica de oitava, possível de ser cantada por quase todas as pessoas.

Partitura 2: O pobre e o rico (autoria anônima)

Fonte: Elaborado pelo autor (2021).

Nessa cantiga, escrita na partitura 2, também temos a predominância de notas repetidas e intervalos de segundas e terças ascendentes e descendentes. A nota mais grave é o Dó da primeira linha suplementar inferior e a mais aguda é a nota Lá, do segundo espaço do pentagrama. Isso representa uma tessitura de sexta.

5.4 RITMO

Com relação à parte rítmica, muitas cantigas apresentam o compasso binário simples, ou seja, compasso de dois tempos.

Em uma cantiga geralmente não há uma grande variação de figuras rítmicas. As figuras rítmicas representam na partitura a duração das notas, podendo ser longas, médias ou curtas. Além disso, para cada figura musical, existe uma pausa correspondente com a mesma duração da figura. As pausas representam o silêncio na partitura. Abaixo segue quadro demonstrativo das figuras musicais:

Quadro 1: Figuras musicais e suas pausas

Fonte: Elaborado pelo autor (2021).

Outra característica é a presença de padrões rítmicos que se repetem durante uma seção da música, ou pela música toda, dependendo da extensão dessa cantiga. Abaixo seguem exemplos de trechos de partituras para analisarmos:

Partitura 3: Rosa amarela (autoria anônima)

Fonte: Elaborado pelo autor (2021).

A música acima (partitura 3), como a maioria das cantigas, está em compasso binário simples, que pode ser observado com os dois números no início da partitura, 2/4.

Ela também apresenta padrões rítmicos, que são repetidos dentro das partes. Na primeira parte, representada na partitura 4, temos um padrão rítmico nos compassos 1 e 2, que se repete nos compassos 3 e 4:

Partitura 4: Excerto da partitura da música Rosa amarela

Fonte: Elaborado pelo autor (2021).

Nos compassos 7 e 8, há um padrão rítmico que se repete nos compassos 9, 10 e 11,12 (partitura 5).

Partitura 5: Excerto da partitura da música Rosa amarela

Fonte: Elaborado pelo autor (2021)

Partitura 6: Carneirinho carneirão (autoria anônima)

Fonte: Elaborado pelo autor (2021).

A cantiga acima (partitura 6), também é composta em binário simples (2/4). Observando a partitura 7, podemos visualizar um padrão rítmico nos compassos de 1 a 4, que se repete nos compassos de 5 a 8, de 9 a 12 e nos compassos de 13 a 17, modificado no final, para a conclusão da melodia.

Partitura 7: Excerto da partitura da música Carneirinho carneirão

Fonte: Elaborado pelo autor (2021).

5.5 HARMONIA

As cantigas de roda geralmente são executadas apenas no canto, sem o acompanhamento harmônico de instrumentos. Então, geralmente não há o aspecto harmônico na cantiga de roda. Porém, uma melodia geralmente sugere uma harmonia, pela evolução das suas notas. A harmonia pode ser avaliada por meio de algarismos romanos, que indicam a posição do acorde dentro de uma tonalidade. Se pegarmos a escala de Dó maior como exemplo, podemos construir acordes a partir de cada uma das notas da escala e nomear cada acorde com um algarismo romano. Então em Dó maior, cujas notas melódicas são, Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si, podemos construir os acordes de Dó maior – primeiro grau (I), Ré menor – segundo grau (II), Mi menor – terceiro grau (III), Fá maior – quarto grau (IV), Sol maior – quinto grau (V), Lá menor – sexto grau (VI) e Si meio diminuto – sétimo grau (VII).

As harmonias das cantigas de roda geralmente repousam nos graus I, II, IV, e V, do campo harmônico. Esses graus harmônicos estão presentes em uma infinidade de músicas do repertório da música ocidental, sendo bem assimilados e entendidos por quase todas as pessoas.

Abaixo seguem sugestões de acompanhamento harmônico para ilustrar a questão harmônica nas cantigas de roda. Todas estão no tom de Dó maior, embora elas possam ser encontradas em diversos tons. Os acordes estão representados por cifras e há a indicação dos graus entre parênteses.

Capelinha de Melão (autoria anônima)

C (I)                                           Dm (II)

Capelinha de melão é de São João

G (V)                    C (I)

É de cravo e de rosa, e de manjericão

Dm (II)

São João está dormindo não me ouve não

G (V)              C (I)

Acordai, acordai, acordai, João.

Peixe Vivo (autoria anônima)

F (IV)              C (I)         G (V)             C (I)

Como pode um peixe vivo viver fora da água fria – 2x

F (IV)       C (I)           F (IV)      C (I)

Como poderei viver. Como poderei viver

F (IV)         C (I)           G (V)           C (I)

Sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia – 2x

F (IV)               C (I)            G (V)            C (I)

Os pastores dessa aldeia fazem prece noite e dia – 2x

F (IV)             C (I)                F (IV)           C (I)

Porque eu estou chorando. Porque eu estou chorando

F (IV)         C (I)           G (V)          C (I)

Sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia – 2x

Com a análise da harmonia das canções, concluímos o desenvolvimento desse artigo. A análise bibliográfica mostrou que a música é importante para o desenvolvimento da criança e a cantiga de roda pode contribuir positivamente para o trabalho da musicalização. Já a análise musical apontou que a cantiga de roda possui elementos simples e de fácil assimilação, porém, de grande valor cultural e pedagógico, ideal para o trabalho com crianças de várias idades.

6. CONCLUSÃO

Após a revisão bibliográfica que tratou sobre a importância da música na educação infantil, do uso das cantigas como ferramenta para o estudo da música e de uma pequena análise dos aspectos musicais de algumas canções, podemos retomar a questão norteadora e concluir que a cantiga de roda é um instrumento interessante e eficiente no trabalho com a musicalização na educação infantil, sendo um elemento que pode ajudar no desenvolvimento motor, cognitivo, social, afetivo, cultural e ampliar o vocabulário de uma maneira lúdica, agradável e divertida.

Através da análise dos elementos musicais, foi possível observar que a modalidade de canção é propícia para essa etapa da educação, pois elementos simples e repetitivos são facilmente praticados e apropriados pelas crianças de diferentes idades. Além disso, as letras curtas, repetitivas e com uso de palavras do cotidiano, convidam a criança ao movimento e à interação coletiva, tornando a atividade agradável e participativa, onde todos são iguais.

Portanto, concluímos que a cantiga de roda é um instrumento pedagógico interessante e adequado para a educação infantil.

REFERÊNCIAS

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TRAVERZIM, Monique. A Brincadeira da Cultura Tradicional da Infância na Formação Musical do Pedagogo. Dissertação (Mestrado em Música). São Paulo: Universidade Estadual Paulista, Instituto de Artes, 2015.

[1] Especialista em Educação Infantil pela Universidade Metodista de São Paulo e Graduado no curso de Bacharelado em Música pela Faculdade FIAM-FAAM de São Paulo. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6300-4365.

[2] Orientadora. Especialista em Educação Infantil pela Universidade Metodista de São Paulo, Psicóloga pela Universidade Metodista de São Paulo, Educadora Musical pela Universidade Federal de São Carlos, Professora de Piano e Flauta Doce capacitada no Método Suzuki pela Associação Suzuki das Américas e Psicomotricista. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9205-0982.

Enviado: Agosto, 2021.

Aprovado: Novembro, 2021.

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