A natureza educativa dos movimentos sociais no âmbito urbano

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ARTIGO ORIGINAL

SILVA, Maria Laura Pereira da [1]

SILVA, Maria Laura Pereira da. A natureza educativa dos movimentos sociais no âmbito urbano. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06, Vol. 04, pp. 135-160, Junho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

A pesquisa desenvolvida dentro do eixo temático “Movimentos Sociais e Processos Educativos” teve como finalidade apresentar a natureza educativa dos movimentos sociais. Para isso, primeiramente buscou se apresentar os conceitos de movimentos sociais contemporâneos, bem como explanar sobre o conceito de dimensão espacial-temporal proposto pela socióloga Maria da Glória Marcondes Gohn, que alude sobre como o processo educativo é construído no interior de um local composto por indivíduos com práticas, vivências e lutas similares, formando uma espécie de aprendizado mútuo e dinâmico. Por conseguinte, fora demonstrado o redescobrimento da educação pelos movimentos sociais no século XX, educação esta ensinada dentro de um modelo não- formal e não vinculada pelo aparato estatal.

Palavras-chaves: Movimentos Sociais, processos educativos, educação não formal.

1. INTRODUÇÃO

O espaço geográfico segundo Milton Santos, pode ser compreendido como um organismo inseparável de ações de objetos (SANTOS, 1996), expressando através da lógica social, relações de poder. Essas relações de poder têm como função retratar as mais diversas modalidades de opressão, discriminação e injustiça social, estimulando na sociedade uma gama de conflitos atrelados às mais diversas questões de sexualidade, de classe, de gênero, etnia e etc. Como forma de defesa, grupos sociais de diversos matizes unem-se com o objetivo de opor esses problemas por intermédio de proposições, de requerimentos e demandas concretas, construindo organizações que, mais tarde, podem constituir um movimento social.

Desta maneira, evidenciam pontos importantes para a sociedade que são silenciados, menosprezados e ignorados pelos grandes meios comunicacionais/ educacionais e politicas institucionais, simultaneamente a essa evidenciação e organização, ocorrem espaços coletivos e educativos. Por conta disso, advém o entendimento do caráter educativo dos movimentos sociais, uma vez que, enquanto constituem seu sistema de organização, difundem conhecimentos de educação não formal. Levando-se em conta que a educação não formal tem como propósito manifestar

Os movimentos sociais, portanto, educam-se internamente ao se ordenarem de acordo com suas necessidades e demandas, utilizando de suas estratégias e táticas para educar os seus adeptos, bem como os seus oponentes, que entram em contato e buscam compreender o conflito no qual estão inseridos.

2. DEFINIÇÃO DE MOVIMENTOS SOCIAIS

De início, é necessário tomar conhecimento de que os movimentos sociais possuem um significado muito amplo, tendo as mais variadas formas, atuações, ideais e inclinações político pedagógicas. Para Gonh, os movimentos sociais são (2006, pp. 251-252):

Movimentos sociais são ações sociopolíticas construídas por atores sociais coletivos pertencentes a diferentes classes e camadas sociais, articuladas em certos cenários da conjuntura socioeconômica e política de um país, criando um campo político de força social na sociedade civil. As ações se estruturam a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em conflitos, litígios e disputas vivenciados pelo grupo na sociedade. As ações desenvolvem um processo social e político cultural que cria uma identidade coletiva para o movimento, a partir dos interesses em comum. Esta identidade é amalgamada pela força do princípio da solidariedade e construída a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo, em espaços coletivos não-institucionalizados. Os movimentos geram uma série de inovações nas esferas pública (estatal e não-estatal) e privada; participam direta e indiretamente da luta política de um país, e contribuem para o desenvolvimento e a transformação da sociedade civil e política […] Eles têm como base de suporte entidades e organizações da sociedade civil e política, com agendas de atuação construídas ao redor de demandas socioeconômicas ou político-culturais que abrangem as problemáticas conflituosas da sociedade onde atuam.

Um movimento social não nasce pronto, passa por um processo de formação onde os sujeitos coletivos se unirão diante de um decurso de acontecimentos e etapas que irão criar a precisão de uma unidade e consolidação (VELA 2015, p. 79).

3. O PROCESSO EDUCATIVO NÃO FORMAL

Na educação formal, o papel de educador está nas mãos de professores e professoras e dos demais integrantes do corpo escolar. O ambiente em que ela ocorre são partes reguladas e organizadas sob a égide de diretrizes, o modelo de como se educa “pressupõe ambientes normatizados, com regras, legislações e padrões comportamentais definidos previamente. Perfil do corpo docente e metodologias de trabalho são previamente normatizados” (GOHN, 2010, pp. 17-18).

3.1 DIFERENÇAS ENTRE A EDUCAÇÃO FORMAL E A EDUCAÇÃO NÃO FORMAL

Na educação formal, o papel de educador está nas mãos de professores e professoras e dos demais integrantes do corpo escolar. O ambiente em que ela ocorre são partes reguladas e organizadas sob a égide de diretrizes, o modelo de como se educa “pressupõe ambientes normatizados, com regras, legislações e padrões comportamentais definidos previamente. Perfil do corpo docente e metodologias de trabalho são previamente normatizados” (GOHN, 2010, pp. 17-18).

A educação formal possui como finalidade a aprendizagem e o ensino a partir de leis que apresentam conteúdos sistematizados, citando por exemplo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), de 1996, levando à conclusão de que as principais faculdades da educação formal são os seu caráter metódico, através da divisão por idade/classe de conhecimento, precisando de tempo, pessoal especializado, local específico, tempos de progressão, sistematização de atividades e etc. (VALE, 2015).

Em relação à educação não formal, existe a presença do educador social, que segundo Gohn, são indivíduos que se utilizam de locais de cidadania para a concretização do seu trabalho. Esses espaços apresentam-se como um meio alternativo em relação aos caminhos tradicionais de acesso à informação. Entretanto, dentro desses espaços alternativos e de movimentos sociais o grande papel de educador será feito pelo “outro”, indivíduo que nos integramos (GONH, 2010, pp. 16-17). Os espaços educativos estão nos locais onde existem círculos realizando procedimentos interativos de forma proposital, ou seja, com objetivos específicos que são compartidos. A maneira como se educa se relaciona com o câmbio de saberes e vivências, ocorrendo durante a relação entre os indivíduos dentro de um processo que compõem juntos (VALE, 2015).

A educação formal é adquirida ao longo do tempo,

Sua finalidade é abrir janelas de conhecimento sobre o mundo que circunda os indivíduos e suas relações sociais. Seus objetivos não são dados a priori, eles se constroem no processo interativo, gerando um processo educativo. Um modo de educar é construído como resultado do processo voltado para os interesses e as necessidades dos que participam. A construção de relações sociais baseadas em princípios de igualdade e justiça social, quando presentes num dado grupo social fortalece o exercício da cidadania. A transmissão de informação e formação política e sociocultural é uma meta na educação não formal. (GOHN, 2010, p. 19).

Ela educa os indivíduos para a civilidade e para uma visão e compreensão de mundo mais altruísta e humanitária, em contrapartida ao egoísmo e individualismo aplicados por valores conservadores e meritocráticos, que costumam reproduzir preconceitos e intolerância frente à diversidades.

A educação não formal age sobre a subjetividade, laborando e construindo uma cultura politizada desarrolhando ligações de pertencimento e fortalecimento de uma identidade coletiva, causando uma consolidação de um grupo. A autora define o conceito de educação formal como

[…] um processo sociopolítico, cultural e pedagógico de formação para a cidadania, entendendo o político como a formação do indivíduo para interagir com o outro em sociedade. Ela designa um conjunto de práticas socioculturais de aprendizagens e produção de saberes, que envolve organizações/instituições, atividades, meios e formas variadas, assim como uma multiplicidade de programas e projetos sociais (GOHN, 2010, p. 33)

Dessa forma, a educação não formal acontece dentro de um campo singular, onde o ponto principal é a cidadania e autonomia social dos indivíduos.

4. O ENCONTRO ENTRE EDUCAÇÃO E MOVIMENTOS SOCIAIS

Segundo Zibechi (2007), uma das principais peculiaridades desse novo século é a força com que os movimentos sociais se uniram com a educação. Essa ideia parte de dois pressupostos: a educação sendo tomada como forma de construção dos movimentos sociais, tornando se algo rotineiro e a elaboração de espaços educativos no interior dos movimentos, que desafiam o Estado e seu modelo educacional sistematizado que busca reproduzir a lógica do sistema.

Reputar os movimentos sociais como processo educativo conjectura que a integralidade dos indivíduos, espaços e ações são ferramentas pedagógicas. “Assim sendo, la educacion en estas condiciones no tiene fines ni objetivos, mas allá de re-producir el movimiento de lucha por la tierra y por un mundo nuevo”, sucintamente, a gênese pedagógica do movimento social é “modificar-se modificando”. O proceso pedagógico será constituido do clima e do carácter que se estabelecerá nas relações sociais dentro de um determinado tempo e espaço, […] uma educación en movimento, no otorga garantías acerca de los resultados a los que llegará (ZIBECHI, p. 32), aspecto básico da educação não formal.

Para Gohn, o que define o caráter educativo dos movimentos sociais é a circunstância de os movimentos sociais serem uma expansão das atuações desarrolhadas pelos programas de educação popular revolucionários, onde a educação “é autoconstruída no processo e o educativo surge de diferentes fontes[…]. (GOHN, 2012, p. 57). Dentre as maneiras de manifestação do caráter educativo dos movimentos sociais, destacam-se as práticas do cotidiano que irão interferir diretamente nas relações sociais. A consciência política individual desenvolvida nos sujeitos participantes de um movimento social é uma das figuras mais notórias nesse processo, entretanto, é no plano coletivo que se observa uma maior transformação, tendo em vista que surgem na sociedade “forças” que buscam mudar uma determinada construção social e cultural, por exemplo as críticas feitas pelo movimento feminista ao modelo de sociedade patriarcal opressora (GOHN, 2012).

Como modelo, Gonh (2012) menciona os movimentos populares ocorridos no Brasil na década de 80, que obtiveram uma atribuição indispensável em relação à evolução democrática que a sociedade civil alcançou no determinado lapso temporal, acarretando em uma mudança de ordem constitucional, entretanto

[…] a qualidade e o sentido das relações sociais transformadas nos processos de interação movimento-poder governamental são múltiplos. Isto porque o processo é permeado por lutas constantes, divergências de grupos com interesses conflitantes. Assim sendo, os efeitos educativos nas massas e nos dirigentes defensores das classes dominantes são também diversos. O efeito educativo para estes traduziu-se num conhecimento dos sentimentos e das aspirações populares, conhecimento este que serviu de base para a rearticulação da hegemonia das classes dominantes, em crise desde o final dos anos 1970 (GOHN, 2012, p. 59).

O que firma essa rearticulação é a entrada de uma ordem conservadora no governo federal, tendo como líder o presidente Fernando Collor de Melo, onde o mandato foi marcado pela criação de diversas políticas assistencialistas que causaram uma divisão dentro dos movimentos populares debilidade em sua capacidade de organização (VELA, 2015).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dando início à seção final deste artigo, fortalece-se a percepção a respeito do caráter educativo dos movimentos sociais, que se educam na circunscrição das suas atividades organizativas e também educam a sociedade como um todo, uma vez que, executando suas lutas, publicitam a complexidade de suas demandas, exteriorizando os grandes problemas da sociedade movida pelo sistema capitalista.

Buscando um maior entendimento, no segundo capítulo foi apresentado o conceito de movimentos sociais dentro da perspectiva da socióloga Gonh, visando um maior entendimento e integralização do trabalho como um todo, bem como para posteriormente, relacionar a difusão da educação através desse fenômeno social.

Nos terceiro e quarto capítulo foram abordados a definição de educação não-formal e o seu encontro com a formação interna dos movimentos sociais, sobre aquele foi demonstrada a sua ação sobre características subjetivas, empenhando-se e criando uma cultura política, desarrolhando laços de identidade coletiva e laços de pertencimento, sobre este foi explicitado o enorme potencial de mudança estrutural e cultural que pode trazer a fusão entre educação e movimentos sociais, bem como a complementariedade dos mesmos.

Essas coisas tendem a fortificar progressivamente o grupo ao elaborar seu acervo sociocultural e político. Por intermédio da interação e compreensão de interesses comuns, alguns sujeitos coletivos fabricam processos coletivos que objetivam a sobrelevação da situação em que se encontram e o êxito de suas questões.

REFERÊNCIAS

GOHN, Maria da Glória Marcondes. Teorias dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. 5. ed. São Paulo: Loyola, 2006.

______. Educação não formal e o educador social: atuação no desenvolvimento de projetos sociais. São Paulo: Cortês, 2010.

______. Movimentos sociais e educação. 8. ed. São Paulo: Cortês, 2012.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996.

VELA, João Marcelo. O caráter educativo do/nos movimentos sociais urbanos: o caso da Ocupação Palmares em Florianópolis/SC. Tese (Mestrado em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2015. Disponível em: <https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/160643/337952.pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em 06 de fev de 2019.

ZIBECHI, Raúl. Autonomia y emancipaciones: América Latina en movimiento. Lima: Universidad Nacional Mayor de San Marcos, 2007.

[1] Graduanda do 8º período de Direito na Universidade Federal do Maranhão.

Enviado: Abril, 2019.

Aprovado: Junho, 2019.

 

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