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Desospitalização – Esse é o Caminho? Pesquisa Realizada no Pronto Socorro Clóvis Sarinho

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Desospitalização – Esse é o Caminho? Pesquisa Realizada no Pronto Socorro Clóvis Sarinho
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ARTIGO EM PDF

SILVA, Debóra Lemos da [1]

SOUZA, Juliana Louise Bezerra de [2]

LIMA, Iris de Souza [3]

SILVA, Debóra Lemos da; SOUZA, Juliana Louise Bezerra de; LIMA, Iris de Souza. Desospitalização – Esse é o Caminho? Pesquisa Realizada no Pronto Socorro Clóvis Sarinho. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 04. Ano 02, Vol. 01. pp 474-500, Julho de 2017. ISSN:2448-095

RESUMO

Objetiva sistematizar a análise da pesquisa realizada no Pronto Socorro Clóvis Sarinho, da cidade do Natal, sobre o tema desospitalização. Classifica-se como uma pesquisa de abordagem quantitativa e qualitativa, do tipo exploratória e analítica. Como procedimentos metodológicos para estruturar esse artigo, utilizamos como nossa principal base os dados coletados na pesquisa (junto aos profissionais da saúde atuantes no Pronto Socorro), a qual foi realizada no processo do estágio supervisionado obrigatório em Serviço Social no ano de 2015. Procurou-se, ainda, uma maior fundamentação teórica referente às questões da saúde, desospitalização e Serviço Social, além dos registros do relatório final de estágio. Verificou-se que a desospitalização vai muito além de uma simples retirada de um paciente do seu leito. Adentra, também, na questão de um atendimento mais humanizado na garantia da continuidade da assistência de referência. Fortalecendo, assim, os direitos dos usuários destacando o devido respeito às questões de gênero, cor, raça, etnia ou orientação sexual. É uma situação que envolve fatores que vão além da questão da saúde, sobretudo, aspectos da vida social, econômica, educacional, cultural de uma sociedade.

Palavras-chave: Saúde, Desospitalização, Serviço Social.

1. INTRODUÇÃO

Cada vez mais, na atualidade, a automedicação vem sendo discutida como um malefício a saúde do indivíduo. Recomenda-se, em qualquer situação de adoecimento, a procura por um especialista médico ou uma unidade de saúde mais próxima. Entretanto, o indivíduo ao recorrer a uma Unidade de Pronto atendimento corre o risco de não ser atendido ou ter um atendimento que não corresponda as suas expectativas, haja vista, a deficiência presente na saúde básica, seja pela falta de recursos materiais, humanos ou financeiros que não suportam da melhor forma a demanda que a procura.

Como consequência, a atitude tomada por esses usuários é ir a outros espaços de saúde para que possam ser atendidos, a exemplo, os grandes hospitais, como o Walfredo Gurgel e o Pronto Socorro Clovis Sarinho. Estes, por possuir um nível de complexidade maior em seus atendimentos terminam abarcando a demanda da atenção básica não atendida por outros centros de saúde o que gera, consequentemente, superlotação e ocupação de leitos de pacientes que tem uma maior urgência e gravidade no seu quadro de saúde.

Vivenciando essa realidade, o Hospital Walfredo Gurgel e o Pronto Socorro despontaram a necessidade de se ter um processo que minimizasse esse quadro e, ao mesmo tempo, não deixasse de prestar o devido tratamento e/ou a continuidade deste aos indivíduos que necessitassem, sempre levando em conta o bem-estar e a segurança do paciente. Para tal fim, desospitalização foi a possível solução para esse processo aliada ao tratamento domiciliar.

A vivência nesse espaço de saúde, no período do estágio supervisionado obrigatório em Serviço Social, em 2015, nos despertou para a realização de uma pesquisa sobre o processo de desospitalização hospitalar. Pesquisa de abordagem quantitativa e qualitativa, do tipo exploratória e analítica, que será nesse trabalho científico apresentada.

Sendo assim, nesse presente artigo, temos como principal objetivo analisar os rumos da desospitalização, ao explorar os seus preceitos e, através destes, verificar se é a mais adequada e segura forma hoje de minimizar o processo de superlotação que atinge os principais hospitais e prontos socorros do nosso Estado. Para isso fizemos uso de levantamento bibliográfico sobre a temática proposta, articulada com os seguintes autores CORREIA (2012); GUERRA, (2012); FUZETTI, (2003); SANTOS, (2007). Além disto, temos a análise do processo de desospitalização seguida pela coleta de dados da pesquisa realizada no ano de 2015.

Portanto, esse trabalho estrutura-se em 5 seções, a começar com uma breve revisão de literatura sobre o tema, o qual tem como objetivo discutir diferentes apontamentos da desospitalização baseadas em obras bibliográficas. Logo após, a próxima seção traz conceitos e propostas do que seja o processo de desospitalização evoluindo, sequencialmente, para a análise das respostas obtidas com a pesquisa feita no Pronto Socorro Clóvis Sarinho.

2. BREVE REVISÃO DE LITERATURA SOBRE A DESOSPITALIZAÇÃO

Objetivamos nessa introdução conceitual abordar as discussões necessárias para o entendimento do que é a desospitalização. Na atualidade, é um dos assuntos em discussão entre os profissionais da saúde sendo considerado umas das principais alternativas para a superlotação em hospitais e pronto socorros.

Ao propor realizar uma revisão de literatura sobre a categoria central desse estudo, compreendemos que um dos principais benefícios oriundo da revisão de literatura diz respeito a evitar que o pesquisador desperdice tempo e esforço realizando investigação sobre algo que já foi pesquisado e satisfatoriamente abordado. Revisar literatura é um processo que evita duplicação de pesquisas que já foram realizadas poupando o pesquisador de frustrações posteriores. (SANTOS, 2012.). O autor ainda,

[…] afirma que a revisão pode apontar e contribuir para o desenvolvimento de novas ideias que não foram visualizadas por abordagens anteriores. Além do mais, ela pode descrever variados métodos de abordagem e determinadas dificuldades comuns no decorrer do estudo realizado. (SANTOS 2012.)

Para o alcance dos objetivos deste trabalho, foi realizada uma triagem qualitativa de literatura de tendência descritiva. A busca foi realizada no período de Julho/2015 até Agosto/2016. Como suporte para os dados, foram feitas leituras e análises de pesquisas e estudos sobre o tema de diversas fontes, dentre eles: CORREIA (2012); GUERRA, (2012); FUZETTI, (2003); SANTOS, (2007).

Classificamos os estudos de acordo com sua concordância e discordância, tomando como base nosso objeto de estudo e os relacionando em categorias ou linhas de pensamentos, dos quais se subdividem em desospitalização no contexto hospitalar, na ordem da saúde privada; desospitalização, do ponto de vista das empresas que prestam o serviço de Home Care; e, por último e conseguinte, a desospitalização sob a ótica da humanização, desconstrução e substituição.

Apenas alguns poucos estudos foram encontrados na literatura que correlacionasse com o tema aqui proposto. Sendo que, na maioria destes, variavam entre a desospitalização na área da saúde mental, no âmbito da psicologia e na enfermagem, a chegar à área da administração. Primeiramente, foi localizado um estudo que se utilizou de uma metodologia e temática parecida ao que pretende se fazer nesse trabalho científico, porém, o que diverge e vale a pena ressaltar são as diferentes realidades onde a desospitalização pode ser proposta, e com os diferentes objetivos.

Assim, no estudo de Correia e Guerra (2012), a discussão perpassa o contexto da saúde privada, com vistas a utilizar o termo desospitalização na forma de reduzir custos para o hospital com aqueles pacientes desamparados proporcionando, desta forma, o atendimento domiciliar. O que é interessante analisar são as opostas realidades em que a desospitalização pode ser encaixada, e perceber que tal processo não cabe exclusivamente à ordem da saúde pública, para pôr fim se reduzir a superlotação em hospitais ou pronto socorros e, eventualmente, reduzir custos para o Estado.

Percebeu-se a complexa realidade e as dificuldades encontradas por Correia e Guerra (2012) no ambiente da intervenção. O sentido da desospitalização, colocado pelas autoras, apresentou-se na forma de desospitalizar aqueles “pacientes moradores”, ou seja, aqueles pacientes que residiam no hospital, e que assim dependiam 24hrs dos profissionais da Casa de Saúde São Lucas, CSSL, gerando custos para o hospital. Tais pacientes se encontravam asilados por vários motivos, seja aqueles desamparados pelos familiares, sem nenhum tipo de atenção ou cuidados gerais.

A intervenção de Correia e Guerra (2012) se estruturou em formato de estudo de caso, assim foram trazidos em cena dois casos de pacientes da CSSL. Com estes foi trabalhado a tentativa de desospitalização. Dos dois, apenas 1 dos casos, teve seu processo de desospitalização realizado, o outro por motivos externos, que incluem a resistência e a falta de interesse familiar ao processo, não foi cumprido. Ao final da intervenção, foi concluído que a desospitalização sendo esta efetivada da maneira correta, é uma excelente alternativa ao tratamento, daqueles pacientes em estado clinico estável, sendo capaz esta de proporcionar evoluções rápidas na saúde do paciente.

Uma outra pesquisa, essa promovida e discutida no âmbito da enfermagem, traz consigo as diversas concepções de desospitalização, classificadas em três principais categorias de análise, a desospitalização como substituição, a desospitalização como humanização da assistência e a desospitalização como desconstrução, e como esse processo vem a influenciar a reforma psiquiatra. Teve como objetivo, analisar todo o processo, e desconstruir paradigmas sobre os ambientes manicomiais. (FUZETTI, 2003.)

Outra perspectiva de discussão do mesmo tema ora tratado, foi resultante de uma dissertação de Mestrado na área da administração. O objetivo foi analisar o processo de comunicação como principal entrave ao processo de desospitalização. A metodologia utilizada foi em forma de estudo de caso realizada em uma empresa que prestava serviços de Home Care. Os resultados do estudo demonstraram que os administradores procuraram estabelecer um processo comunicativo mais participativo e coerente com objetivos organizacionais, mas que ainda existiam dificuldades quanto a interação entre os diversos profissionais. (SANTOS, 2007.)

Com base no que foi compreendido percebeu-se que o processo de comunicação estabelecido na empresa se desenvolvia de forma centralizada, onde cada profissional tinha tarefas a executar consideradas de grau fácil, que proporcionavam a rapidez nos atendimentos e para com as respostas para um eventual problema.

No entanto, na rapidez em prestar e oferecer soluções, no âmbito do atendimento domiciliar, a empresa acabava por deixar de lado a comunicação entre os próprios profissionais, de uma forma interdisciplinar. Acarretando, assim o individualismo por parte dos profissionais, uma independência das áreas do conhecimento. O que é impreciso, visto que a interdisciplinaridade se torna fundamental para o atendimento domiciliar, quando trabalhamos em equipe sempre obtemos as melhores repostas, advindas das mais variadas áreas ou conhecimentos.

Logo após alguns procedimentos (palestras e reuniões em equipe, etc.) adotados pelo o pesquisador e a empresa, foi constatado ao final do estudo uma significativa melhora no processo de comunicação da empresa. O estudo termina com a seguinte conclusão,

Que as habilidades profissionais são aprendidas, desenvolvidas e aperfeiçoadas no dia a dia dependendo do processo de introjeção em que cada ator estiver inserido. Porém a agilidade e resolutividade nos processos só serão desenvolvidas quando as ideias forem trabalhadas para gerar um aprendizado integrado e múltiplo em prol dos interesses compartilhados. (SANTOS, 2007).

Uma vez concluída essa revisão podemos referir que a desospitalização consiste, no geral, na saída de pacientes que possuam doenças crônicas do hospital (com estado clinico considerado estável), de forma segura, através da alta hospitalar para, assim, dá continuidade ao tratamento médico em sua casa, ou instituição que receba o paciente a exemplo, de abrigos. Mas, será que esse caminho é o mais viável? Analisaremos essa questão na sequência.

3. DESOSPITALIZAÇÃO: esse é o caminho?

Quando se trata de uma pesquisa, o campo que se abre é muito vasto.  Assim como, ao tratarmos de um tema complexo como a desospitalização, é comum surgir mais indagações, do que suas próprias respostas. Para tal fim, esse presente artigo tem como objetivo principal analisar o processo de desospitalização, a procura de argumentos que consolidem ou não a desospitalização como alternativa para a lotação exacerbada comum aos hospitais e pronto socorros.

A desospitalização é classificada no dicionário da Língua Portuguesa com o significado de ação ou resultado de desospitalizar(-se), de deixar de estar hospitalizado, de receber alta do hospital. Tal significado é válido para a devida explanação do tema, visto que é um tema multifacetado, em seus significados.

A desospitalização vai muito além da desinstitucionalização do paciente, adentra na questão da integralidade do atendimento, procurando entender e analisar o ser humano como um todo, levando em conta seu bem-estar físico, social e moral. Ressalta-se que a integralidade é um dos princípios normativos do Sistema Único de Saúde, o SUS:

Integralidade, Universalidade e Equidade são os princípios doutrinários que regem o SUS. A noção de equidade diz respeito à necessidade de se “tratar desigualmente os desiguais” de modo a se alcançar a igualdade de oportunidades de sobrevivência, de desenvolvimento pessoal e social entre os membros de uma dada sociedade. A integralidade, é um atributo do modelo de atenção, entendendo-se que um “modelo de atenção integral à saúde” contempla o conjunto de ações de promoção da saúde, prevenção de riscos e agravos, assistência e recuperação. A universalidade é centrada na garantia do acesso da população a qualquer das ações e serviços produzidos pelo SUS. (TEIXEIRA, 2011.)

Observa-se na literatura específica sobre o tema desse estudo, que a desospitalização é configurada em algumas categorias de análise, sendo elas: a desospitalização no sentido da humanização da assistência ao paciente, de proporcionar as condições adequadas para o tratamento, sem trazer perdas no atendimento quando comparado ao tratamento hospitalar.

Uma outra categoria de análise proposta é a desospitalização como desconstrução (FUZETTI. 2003). De forma que visa desconstruir paradigmas, dentre eles, de que só se tem o devido e correto atendimento e tratamento se esse processo ocorrer no hospital. Entretanto, é possível sim ter um atendimento e/ou tratamento, sobretudo de qualidade, nos domicílios, desde que como condição se tenha a estrutura e a assistência de saúde necessária.

Contudo, em virtude da teórica facilidade de retirar o paciente do hospital, para que possa ser atendido em seu domicilio, se faz indispensável pensar nos próximos passos a serem dados após a desinstitucionalização deste paciente. Uma vez que a desospitalização, por si só, não garante a continuidade e a efetividade do tratamento domiciliar necessário ao longo do tempo.

Em contrapartida existem riscos nesse processo, o que pode resultar em consequências negativas para os usuários. A exemplo de um usuário/paciente que tem todo seu processo de desinstitucionalização efetivado ao sair do hospital. Porém, ao chegar em seu domicilio, poderá ficar desamparado, seja na falta de uma correta assistência dada pelas equipes de saúde, ou na falta de estrutura e capacitação familiar em prestar os cuidados devidos.

Uma coisa é certa, tal processo não é unilateral, não se restringe apenas ao ambiente hospitalar, implica também em outros espaços e envolve outros sujeitos que irão acolher aquele usuário/paciente solicitando, desta maneira, estrutura necessária. A falta desta poderá motivar o efeito bumerangue, que nada mais é, nesse caso, o retorno daqueles pacientes para o ambiente hospitalar, devido a inviabilidade da continuidade do tratamento em casa. (LAHAM, 2013).

Ainda segundo Laham (2013), em uma situação hipotética, em que, se a cada 30% dos pacientes efetivamente desospitalizados, 20% retornarem ao local de atendimento após o processo de desospitalização, será necessário rever os caminhos que levam a esse processo, procurando meios para sua verdadeira consolidação. Ou seja, se pensarmos tal processo como uma saída exclusivamente para superlotação de hospitais e Ps, e não como uma maneira de humanizar e propor novas terapias ao atendimento, a desospitalização não mas irá ser uma solução convincente, e sim uma maneira passageira de readaptar os pacientes em outros espaços.

Para o processo de desospitalização se consolidar como alternativa plena e segura, primeiro terá que superar os principais desafios encontrados no caminho: A falta de estrutura dos domicílios de origem, estando alguns em condição precária pondo em risco a qualidade do tratamento; e a pobreza, haja vista, alguns usuários não possuírem condições financeiras ideais para manter a estrutura que pede um atendimento domiciliar. (BRASIL, 2013). Se todos esses fatores não forem considerados, pode acarretar em consequências sérias e a reinternações hospitalares.

Para tanto, como sugestão, se faz necessário um respaldo legal, um típico Procedimento Operacional Padrão (POP)[4], que vai determinar os procedimentos e atribuições de cada profissional da saúde participante desse processo para a continuidade do atendimento.

Como já mencionado anteriormente, o processo de desospitalização envolve vários espaços e sujeitos. Dentre os quais, se tem o próprio hospital e o domicilio de origem, como também a participação efetiva da família, estando vinculada as equipes de saúde básica, conforme as regiões.

Compreendemos, diante da nossa experiência no campo de estágio, e das leituras analisadas sobre o tema, que no processo de desospitalização a família é pouco falada e tratada, não recebendo o devido valor e atenção. O que estaria equivocado, em razão de a família ser um dos principais alicerces da desospitalização. Pensando nela, e para ela, que são desenvolvidas políticas públicas, que proporcionem uma maior atenção. Como por exemplo, a Política Nacional de Atenção Básica de Saúde, do Ministério da Saúde, publicada em 2006, a qual reafirma a família como sujeito do processo de cuidado e define o domicílio como o contexto social onde se constroem as relações intra e extrafamiliares, e onde se efetiva a luta pela sobrevivência, pela produção e reprodução, e pelas condições de vida (BRASIL, 2006).

O acesso a tais políticas (Educação, saúde, assistência social) efetiva-se a partir da criação de estratégias e programas governamentais visando a melhoria da qualidade de vida da população. Das quais, se caracterizam por resgatar por princípio famílias em situação de vulnerabilidade social. Não sendo diferente com a política pública acima citada.

No tocante a desospitalização, conforme Moreno e Alencastre (2003), o papel da família se configura da seguinte forma,

[…] A família tem ocupado um espaço privilegiado nas discussões sobre as políticas públicas sendo convidada a tornar-se aliada na formulação de um novo modelo de atenção à saúde. Neste cenário os familiares têm sido chamados a participar ativamente na implantação do projeto terapêutico do portador de doenças crônicas bem como são atores privilegiados na luta por melhores condições de assistência à saúde com um todo.

É indiscutível o papel da família nesse processo, afinal, é ela que irá acolher o paciente novamente, sendo responsável pelos cuidados gerais. Entretanto, para prestar tais cuidados é necessária uma capacitação de um membro da família. Tal capacitação é ministrada pelas equipes de saúde de atendimento domiciliar, do próprio hospital do qual o usuário esteve internado, ou pelas Equipes de Saúde da Família, (ESF) conforme a região que reside.

O cuidado domiciliar deve ser entendido como parte importante do cenário atual, devido a tendência a desospitalização de pacientes que precisem de cuidados, não necessariamente em ambiente hospitalar. Por todo esse contexto, é indispensável a parceria entre equipe multiprofissional de saúde e a família. (GONÇALVES ET AL, 2009).

A chegada do paciente em sua casa, para dar continuidade a seu tratamento, é uma realidade nova e estranha aos familiares que também residem nesse espaço, dos quais, são forçados a mudar algumas atividades da rotina habitual para acolher e tratar da forma correta aquele ente querido.

Tal esforço, ao mesmo tempo em que é necessário, pode trazer também malefícios a interação familiar, ocasionando maiores estresses devido a sobrecarga de atividades a quem convive e lida com esse processo diretamente. Não só a base familiar é abalada, mas, a própria saúde do paciente acarretando pioras clínicas e reinternações hospitalares.

É neste momento de abalo familiar que o paciente vem a se sentir culpado ou até mesmo se sentir um “peso” para a sua família, por acreditar que ele é o culpado por todo aquele desconforto familiar, não se sentindo, desta forma, tão mais confortável estando em seu próprio espaço familiar. Desta forma, toda essa situação vem em oposição a premissa inicial do tratamento domiciliar, que traz a ideia de conforto domiciliar para contribuir com o tratamento.

Por todo esse contexto, pensando em minimizar essa sobrecarga de novas atividades ou costumes, assim como a mudança de rotina do qual essa família passará, surge a figura do cuidador. Tal figura surge “a modo de viabilizar as ações pretendidas para o cuidado do indivíduo pelo qual assume esse papel. O cuidador pode ser formal (profissional da saúde ou alguém contratado para prestar serviços), ou informal, seja parente ou alguém próximo do paciente. (LAHAM, 2003)

A capacitação desses cuidadores converge em dois pontos de vista que são classificados a partir do tipo de modalidade que exerce, seja informal ou formal. Os cuidadores formais podem ser os profissionais da saúde, as equipes de saúde da família, ou os multiprofissionais residentes nos hospitais, os quais lidam diretamente com o Serviço de Atendimento Domiciliar, mais conhecido como SAD. Tais profissionais são formados em cursos de nível superior, variando apenas a área da formação. Sem esquecer, também, daqueles profissionais de categoria individual, que procuram capacitação em cursos técnicos devidamente registrados pelo Ministério da Educação. (GONÇALVES, 2009).

Logo, por outro lado existem aqueles cuidadores que não tem a qualificação e experiência para tal função. Estes que são os cuidadores informais, são aqueles sujeitos da família, ou da comunidade que prestam serviços de cuidar, seja por amizade ou até por influências religiosas e culturais. [5]

Para se tornar um cuidador não se faz obrigatório ser um profissional da saúde, no entanto, é exigido um nível de escolaridade mínimo do sujeito. É possível se tornar um cuidador tanto para fins profissionais, ou para fins pessoais, que é o caso quando se tem um familiar em casa que necessita de cuidados gerais, e o responsável por ele se torna o próprio cuidador, a fim de evitar gastos com outros profissionais da área.

Quer sejam cuidadores formais ou não, se torna imprescindível propiciar ações educativas e de educação permanente a fim de demonstrar para esses sujeitos o seu papel e sua devida importância no processo de recuperação da saúde daquele indivíduo que veio a passar pelo processo da desospitalização.

É importante reforçar que o processo educacional precisa está centrado no trabalho, buscando a competência profissional com repercussões favoráveis sobre a qualidade do atendimento à população. (BRASIL, 2000). Na sequencia trataremos a análise da pesquisa realizada no Pronto Socorro Clóvis Sarinho.

4. O PROCESSO DE DESOSPITALIZAÇÃO NO PRONTO SOCORRO CLÓVIS SARINHO: análise da pesquisa

A discussão dessa seção é fruto do projeto de pesquisa desenvolvida no Pronto Socorro Dr. Clóvis Sarinho, no ano de 2015. Objetiva aprimorar de forma mais concisa os dados resultantes de tal proposta de pesquisa, assim como, analisar os dados colhidos com a pesquisa a partir de um conhecimento mais aprofundado sobre o tema, permitindo uma melhor aplicação teórica e avaliativa do processo de desospitalização no lócus do estágio.

Tratou-se de uma pesquisa de natureza quantitativa e qualitativa, do tipo exploratória, descritiva e analítica realizada no Complexo Hospitalar Monsenhor Walfredo Gurgel, mais precisamente no Pronto Socorro Clovis Sarinho (PSCS), localizado em Natal, no período de agosto a dezembro de 2015. De acordo com Minayo (1993), a pesquisa é um fenômeno de aproximações sucessivas da realidade que possibilita fazer uma combinação particular entre a teoria e os dados coletados.

Como objetivo geral, a pesquisa buscou analisar o processo de desospitalização no Pronto Socorro Clóvis Sarinho sob a ótica dos profissionais atuantes nesse setor. Especificamente, investigou-se a visão dos profissionais, de diferentes especialidades na área da saúde, sobre a desospitalização, assim como, os efeitos causados na saúde dos pacientes a partir da desospitalização.

Os sujeitos dessa pesquisa foram os profissionais da saúde atuantes no PSCS: enfermeiros, médicos, técnicos do Núcleo Interno de Regulação (NIR) e a equipe do Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD). Diante do quantitativo não probabilístico de profissionais atuantes no espaço, a amostragem foi  aleatória.

Como benefícios da pesquisa tivemos a possibilidade que os resultados obtidos propiciassem um olhar diferenciado sobre o processo de desospitalização do Pronto Socorro e, consequentemente, serem tomadas medidas para uma melhor qualidade de vida dos pacientes nesse espaço.

Como instrumento de pesquisa, fez-se uso do questionário, com perguntas mistas[6], com o subsídio de entrevista estruturada[7]. Tais entrevistas foram realizadas no instante em que o profissional estava de plantão no PSCS, dentro do horário disponível dele e nos dias que estivemos no estágio.

Tal questionário foi aplicado aos profissionais do Ps, num período entre 20 de setembro de 2015 a 03 de novembro de 2015. Anteriormente foi aplicado um pré-teste[8] do questionário com profissionais que, necessariamente, não participariam da pesquisa, sendo preciso apenas alguns ajustes para a realização da aplicação definitiva. A análise dos dados ocorreu através do programa Excel.

4.1 OBJETO DE ESTUDO

O tema da desospitalização como foco do nosso artigo, surgiu na vivência do estágio a partir do momento que percebemos a superlotação de pacientes no Pronto Socorro diante de uma realidade em que muitos usuários procuram atendimento de saúde na capital devido os municípios circunvizinhos do Rio Grande do Norte não abarcarem a demanda, devido à falta de estrutura física de equipamentos, escassez de recursos humanos, custos institucionais crescentes resultantes de remunerações dos médicos, avanço tecnológico e farmacêutico.

Além disso, tratar sobre a desospitalização na atualidade, principalmente no Pronto Socorro, tem sua relevância científica ao passo em que é perceptível no âmbito da saúde problemáticas sociais que vão além da questão de ficar ou não mais tempo internado em um hospital, adentra também na questão de um atendimento mais humanizado, na garantia da continuidade da assistência de referência. Fortalece assim, os direitos dos usuários, destacando o devido respeito às questões de gênero, cor, raça, etnia ou orientação sexual.

A ideia era fazer uma pesquisa sobre a desospitalização, e sua repercussão, seja no hospital ou juntos aos pacientes que vieram passam por esse processo. Tal pesquisa partiu da proposta da assistente social orientadora de campo, que percebia a necessidade de realizar tal pesquisa no espaço do hospital como forma de estimular a atitude investigativa e contribuir no processo de trabalho.

Assim, caminhamos em busca de realizar uma pesquisa de um objeto de estudo ainda pouco explorado no espaço da instituição, que poucos sabiam, mas, que já estava se tornando uma tendência hospitalar, e vinha sendo adotado aos poucos pelo próprio hospital.

4.2 ANÁLISE DA PESQUISA

Nesta seção, sistematizamos em forma de gráficos os resultados que coletamos com os questionários aplicados na pesquisa, junto aos profissionais do campo de estágio, discorrendo a partir do que compreendem os sujeitos da pesquisa.

O questionário foi composto por 15 questões mistas. Inicialmente abordando questões básicas de identificação, relacionadas ao gênero do entrevistado ou as especialidades dos profissionais para, somente assim, entrar nas questões mais especificas. Ao final pedimos sugestões aos profissionais para qualificar ainda mais o nosso projeto ou para o regime de desospitalização adotado pelo hospital. Tais resultados podemos ver nos gráficos a seguir.

Inicialmente, o questionário traz consigo questões básicas, de identificação do perfil dos sujeitos de nossa pesquisa. Começando, por exemplo, sobre o gênero do entrevistado, conforme descrito no gráfico 1.

Gráfico 1 - Gênero do entrevistado. Fonte: Pesquisa Documental – 2015
Gráfico 1 – Gênero do entrevistado. Fonte: Pesquisa Documental – 2015

Acreditamos que uns dos principais motivos para tal resultado, sendo a maioria do gênero feminino (60%), seja o fato de certos setores em que foram aplicados os questionários serem ocupados por mulheres, em sua maioria, a exemplo do Núcleo interno de regulação (NIR), da área da urgência pediátrica, do Serviço de atendimento domiciliar (SAD), da Organização de procura de órgãos (OPO), que é a central de transplantes do Estado, e o próprio setor de Serviço Social.

Assim como, outro fator importante, para a análise deste resultado, foi a maior presença de mulheres na hora e nos dias em que aplicamos os questionários, seguindo os critérios de inclusão da nossa pesquisa. Deste modo, foi encontrada uma parcela de profissionais mulheres, em consequência das assistentes sociais e enfermeiras, relativamente maior que os profissionais do gênero masculino.

Tal resultado revela-se inverso à realidade hoje presente no País. Dado que, o mercado de trabalho brasileiro, ainda é maioritariamente masculino. Apesar disso, gradativamente as mulheres vem conquistando seu espaço na economia e no mercado de trabalho.

O fenômeno ainda é lento, mas constante e progressivo. Em 1973, apenas 30,9% da População Economicamente Ativa (PEA) do Brasil era do sexo feminino.  Segundo os dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD), em 1999, elas já representavam 41,4% do total da força de trabalho. Um exército de aproximadamente 33 milhões. (Probst, 2015).

O mais interessante é que nesse processo de conquista as mulheres que mais avançam são justamente aquelas que não fazem da condição feminina seu cavalo de Tróia. O feminismo não as levou além das manchetes de jornais e noticiários de televisão. Nenhuma mulher se tornou astronauta, juíza da Suprema Corte, presidente de uma corporação apenas por não ser homem. Ou seja, não subiram por necessidade das corporações de diversificar seu quadro. Subiram por seus méritos medidos pelos padrões que valem tanto para homens quanto para mulheres.  Se a condição feminina, ao contrário do que se imagina, não atrasou a chegada das mulheres ao mercado de trabalho, essa mesma condição também não é motor de seu progresso. (Probst, 2015).

Dando seguimento a ordem das perguntas, foi estabelecida uma relação das especialidades dos participantes de nossa pesquisa. Cinco especialidades foram participantes, entre elas, o NIR, SAD, OPO, Clinica Medica, e Neurocirurgiões. Como é visualizado no gráfico 2:

Como o intuito de nossa pesquisa foi compreender e analisar a visão de diversos profissionais da saúde, que atuasse no Pronto Socorro, logo se deve a isso um variado grupo de especialidades que abrange do Serviço Social até a equipe de neurocirurgiões, representada no gráfico por “outras”.

Especialidades. Fonte: Pesquisa documental – 2015.
Gráfico 2 – Especialidades. Fonte: Pesquisa documental – 2015.

Na sequência foi perguntado se esses profissionais entendiam o que era a desospitalização. E em todos os questionários respondidos, os profissionais sabiam dizer o que era tal processo. Dessa maneira, o processo de desospitalização por eles é entendido como sendo a saída do paciente do hospital com condições clinicamente estáveis para dá continuidade ao tratamento em casa, com visitas regulares de uma equipe multidisciplinar. Sendo que uma parte dessa totalidade, mais precisamente 40% acredita que esse acompanhamento, deve ser provido pelo SAD.

A desospitalização tem relação com a gestão da clínica. Os atores envolvidos com esse processo discutem em conjunto a alta do paciente, isto é a saída deste do Ps ou para as enfermarias, SAD, leitos de retaguarda (Anexo hospital João Machado HJM, e hospital da Polícia). Esta acontece mediante visita multidisciplinar, a qual envolve várias categorias e diferentes saberes e competências. O objetivo é desospitalizar com segurança. (Informação Verbal) [9]

Mas qual é o perfil do paciente a passar por esse processo de desospitalização? Foi a pergunta seguinte o qual está exposto no gráfico 3. Revela-se que, 60% dos entrevistados acreditam ser os pacientes com doenças crônicas que tem a possibilidade de continuar o tratamento em casa. Uma minoria, em números representado em 20%, acreditam ser qualquer paciente desde que esteja internado no hospital. Sendo os 20% restantes caracterizados por aqueles que não sabiam, ou, não responderam tal questão.

Gráfico 3 - Perfil do paciente. Fonte: Pesquisa documental – 2015
Gráfico 3 – Perfil do paciente. Fonte: Pesquisa documental – 2015

Para aqueles pacientes ao qual se aplica o processo de desospitalização, teria como efeitos, segundo 60% dos profissionais entrevistados, uma maior e melhor recuperação, quanto se estivesse no hospital, devido a um maior contato com a família, estando em sua residência. Uma outra parte dos entrevistados, mais precisamente 20% acredita que tal efeito se aplica ao hospital, uma vez que este ficará mais produtivo. Conforme o gráfico 4 abaixo.

Os demais 20% restantes acreditam que tal processo de desospitalização não é capaz de gerar efeitos, nem ao paciente, muito menos ao hospital. Desta forma, não souberam ou não responderam tal pergunta.

Gráfico 4 – Efeitos da desospitalização. Fonte: Pesquisa documental – 2015.
Gráfico 4 – Efeitos da desospitalização. Fonte: Pesquisa documental – 2015.

Na sequência foi perguntado se os profissionais conheciam o SAD, que é o serviço de atendimento domiciliar, tanto quanto o trabalho desenvolvido por ele no Ps. Podendo ser observado no gráfico 5.

Os dados mostram que 40% dos profissionais entrevistados, tem conhecimento sobre o trabalho desenvolvido por este setor no Ps. Sendo que uma parte igual, correspondente aos outros 40%, responderam que pouco conhecem o trabalho desenvolvido por este serviço no Ps. O restante dessa totalidade, sendo agora os 20%, não sabem/não responderam.

Certamente um dos principais motivos para o pouco conhecimento, ou até mesmo o completo desconhecimento do SAD, seja sua localização. Visto que fica localizada no 1 andar, uma área visitada por poucos, por ser uma área administrativa do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel. E é este setor que acompanha os pacientes que passam ou não por essa desospitalização nos domicílios.

Gráfico 5 - Conhecimento sobre o SAD. Fonte: Pesquisa documental – 2015
Gráfico 5 – Conhecimento sobre o SAD. Fonte: Pesquisa documental – 2015

Seguindo essa lógica, ainda sobre o SAD, foi questionado aos profissionais se eles percebiam este serviço já citado como uma possível alternativa viável para o regime de desospitalização. Respectivamente no gráfico 6.

Sendo assim de acordo com o gráfico seguinte, temos 40% dos entrevistados que consideram o referido serviço como uma alternativa viável, a ser pensada no tal processo. Em uma parte igual, em 40% dos profissionais, acreditam que o SAD não é uma alternativa viável para tal processo. Restando assim, os 20% daqueles profissionais que não tem posição formada se tal setor seria uma alternativa viável ou não, mas acreditam que o SAD seja importante nesse processo.

Para a maioria como já observado é considerado um serviço importante, porém não seria suficiente para o processo de desospitalização. Pois, este já se encontra sobrecarregado, estando mais voltado para um atendimento domiciliar. Tendo como sugestão dos profissionais a criação de uma nova forma, de um setor especializado nesse processo para suprir os pacientes, com uma demanda maior de profissionais de saúde e cada vez mais especializados.

Gráfico 6 - SAD, como alternativa viável. Fonte: Pesquisa documental – 2015
Gráfico 6 – SAD, como alternativa viável. Fonte: Pesquisa documental – 2015

Saindo desse universo do atendimento domiciliar, foi questionado aos profissionais se eles visualizavam dificuldades nesse processo de desospitalização, e se sim quais eram. Deste modo, todos os profissionais entrevistados, correspondendo aos 100% afirmaram existir dificuldades no processo de desospitalização.

A partir disso foi dado um segundo passo, para apontar quais as dificuldades encontradas nesse processo. Como referenciado no gráfico 7. Assim, temos 40% dos profissionais que acreditam ser a falta de um melhor tratamento ao longo prazo, provido pelo SAD. Uma outra fatia em número igual, 40% também afirma ser a falta de interação por parte dos profissionais em alguns setores, assim como a importância de entender cada papel desempenhado por cada profissional. Setores esses, considerados sobrecarregados, onde acaba faltando um olhar sobre o outro, um cuidado com a qualidade no papel que desempenha.

Os 20% restantes, acreditam ser a necessidade do uso de medicamentos de alto custo por pacientes graves que passam por esse processo, no entanto os mesmos não têm condições de comprar.

Quanto a necessidade de remédios de alto custo, por certos pacientes, vale informar que o hospital possui uma farmácia, porém a mesma conta apenas com um suporte básico aos profissionais e aos pacientes. Havendo necessidade por esses medicamentos, os pacientes poderão recorrer a Unidade Central de Agentes Terapêuticos (UNICAT), responsável por oferecer a assistência farmacêutica a todo Estado. Essa unidade, disponibiliza de medicamentos dos mais simples ao mais complexos, sempre sob prescrição médica.

 Dificuldades encontradas. Fonte: Pesquisa documental – 2015
Gráfico 7 – Dificuldades encontradas. Fonte: Pesquisa documental – 2015

Seguindo a ordem da pesquisa estabelecida, vamos a outra questão. Tal como em questões anteriores, perguntamos aos profissionais, se o NIR, que é o núcleo interno de regulação do hospital influencia ou não, se sim, como influencia no processo de desospitalização. Conforme exposto no gráfico 8.

Para tal questão temos como resultados os seguintes dados. 60% dos questionários analisados, mostra que este setor exerce pouca influência no regime de desospitalização. Sendo os 40% restantes, consideram este setor, extremamente influenciável no referido processo.

Podemos afirmar que este foi um resultado inesperado. Pois se sabe que no ambiente hospitalar o NIR é o principal responsável pelas transferências, e as vagas de leitos no hospital, e que através disso lida diretamente com a desospitalização. Após a aplicação dos questionários pode ser observado talvez uma possível separação do que seja as transferências comuns, para com o processo de desospitalização. Deste modo, uma pequena confusão de conceitos, seja a razão para tal resultado, da qual não se considere o NIR, influenciável nesse processo.

Cabe aqui citar que em alguns dos questionários que estão dentro da margem dos 60%, foi escrito que o principal ator desse processo seria o Serviço Social, e isso se deve ao fato do Serviço Social atuar como um verdadeiro mediador, atendendo todas as frentes do tal referido processo. Tendo autonomia para interferir, seja na perceptiva da simples desocupação dos leitos, seguindo os preceitos do NIR através da Alta Social, à uma melhoria na qualidade do tratamento domiciliar prestado pelo SAD.

Permanecendo nesse universo do NIR, a pergunta seguinte se aplicava apenas àqueles profissionais que consideram o NIR influenciável no processo. Desta forma, os 40% dos profissionais da resposta anterior acreditam que o setor é extremamente influenciável no regime de desospitalização, pois, é o coração desse processo sendo o responsável por sua efetivação.

Gráfico 8 - NIR, e sua influência no processo. Fonte: Pesquisa documental – 2015
Gráfico 8 – NIR, e sua influência no processo. Fonte: Pesquisa documental – 2015

Buscou se, ainda saber, se os profissionais sabem dizer o que é a alta social, e como ela é aplicada pelo Serviço Social. Como referenciado no gráfico 9. Com os dados analisados, tem-se que 60% dos entrevistados sabem de alguma maneira dizer o que é a alta social. Os 40% restantes não sabem, ou não responderam o que seria tal alta em questão.

Dos que souberam dizer o que é a alta social, (60%). 40% destes acreditam ser o tipo de alta dada somente aqueles indivíduos que de uma certa maneira já tiveram suas pendências sociais resolvidas. O restante (20%) acredita ser uma alta hospitalar dada aqueles pacientes que de alguma forma sofrem com a resistência familiar, ao processo de desospitalização.

Estas pendências sociais, de uma forma mais simples são identificadas quando por exemplo, uma pessoa em situação de rua é atendida no hospital. E que após todo o tratamento é dado a alta médica, como se trata de um caso peculiar onde o usuário não tem um destino certo, e em enquanto este usuário estiver nas dependências do hospital o Serviço Social procura garantir através da alta social, para este um devido encaminhamento para um lugar adequado, para que o mesmo não volte para as ruas.

Gráfico 9 - Ideia sobre a alta social. Fonte: Pesquisa documental – 2015
Gráfico 9 – Ideia sobre a alta social. Fonte: Pesquisa documental – 2015

E finalizando a pesquisa pedimos sugestões aos profissionais, ou para nosso projeto de pesquisa, ou para o regime de desospitalização adotado pelo hospital e como tais dados temos os seguintes:

80% dos profissionais optaram por dar sugestão para o regime de desospitalização seguido pelo hospital. E os 20% restantes optaram por dá sugestão para o nosso projeto de pesquisa. Assim sugerindo, a leitura de novas portarias, sites referenciados e o entendimento de programas relacionados a desospitalização. Tais programas e textos foram: Programa SOS Emergência, do Governo Federal. Assim como o texto sobre a superlotação nos hospitais de urgência e emergência.

Para o processo de desospitalização, obtivemos as seguintes sugestões

  • Melhor treinamento para os profissionais envolvidos neste processo, principalmente aos setores mais sobrecarregados, dado como sugestão o setor da observação clínica. Assim como pede se um maior interesse dos profissionais em participar desse processo.
  • Garantia de um tratamento domiciliar continuado de qualidade, aos pacientes que vieram passar por essa desospitalização.
  • Necessidade de maior esclarecimento, sobre como se dá esse processo de desospitalização, para famílias impactadas nesse processo.
  • Predominância da qualidade, ao invés da quantidade de altas, sem ter condições de proporcionar um tratamento de qualidade ao paciente/usuário.

  Após todas as análises feitas compreendemos a importância da pesquisa desenvolvida, tendo a devida relevância social e acadêmica. Além disso, conseguimos concluir que a desospitalização vai muito além de uma simples retirada de um paciente, do seu leito. Adentra também na questão de um atendimento mais humanizado na garantia da continuidade da assistência de referência. Fortalecendo assim, os direitos dos usuários destacando o devido respeito às questões de gênero, cor, raça, etnia ou orientação sexual.

É, uma situação que envolve fatores que vão além da questão da saúde, sobretudo à aspectos da vida social, econômica, educacional, cultural de uma sociedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estágio nos possibilita colocar em prática tudo que já se apreendeu em sala de aula no processo formativo ampliando, também, esse conhecimento. É de fundamental importância para a formação de qualquer profissional, assim como para nós, enquanto futuros assistentes sociais. Além de que, é nesse período que o perfil do profissional começa a ser construído. Logo ouvimos mestres de sala afirmando que o estágio é uma verdadeira vitrine onde estamos a mostrar serviço da melhor forma.

No ano de 2015, tivemos a satisfação de poder estagiar, simplesmente no maior hospital em referência ao trauma do Estado. O hospital Monsenhor Walfredo Gurgel HMWG, integrado ao Pronto Socorro Dr. Clovis Sarinho, PSCS.

Até aquele momento desconhecíamos o real papel do assistente social nessa prática da saúde, o aprendizado foi diário ao observarmos cada detalhe do atendimento das Assistentes Sociais, com os usuários desde o acolhimento ao processo de orientação, intervenção e internamento dos pacientes.

De início, ficamos um pouco receosas, pois formos estagiar num grande hospital que lida com todas as demandas de saúde possíveis. Os primeiros meses foram de observação do espaço, assim como o preenchimento do diário de campo. Com as dificuldades diárias, amadurecemos enquanto futuras profissionais, aprendendo a lidar com os diversos e cada vez mais peculiares casos que aparecem diariamente na rotina do hospital. E ver na prática, a articulação com toda a teoria que na sala de aula, aprendemos. O que torna isso tudo a ter um valor inestimável e enriquecedor para a nossa formação acadêmica.

Acreditamos que nosso Trabalho de Conclusão de Curso, em formato de artigo cientifico, tenha estimulado de forma categórica a compreensão dos caminhos da desospitalização, como uma nova opção de assistência em saúde e seus apontamentos. Desta forma, julgamos que todos os pontos e dados levantados nesse artigo contribuíram para a obtenção dos resultados esperados.

E por fim esperamos que este estudo venha a ilustrar para o aprofundamento do tema, assim como para uma ferramenta de conhecimento e de auxílio para a comunidade que poderá se utilizar do processo de desospitalização durante a passagem pelos hospitais do país.

REFERÊNCIAS

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[1] Graduanda em Serviço Social, pela Universidade Potiguar.

[2] Graduanda em Serviço Social, pela Universidade Potiguar.

[3] Orientadora. Doutora em Serviço Social Professora do curso de Serviço Social da Universidade Potiguar.

[4] POP – instrumental comumente utilizado em empresas de diversos âmbitos, que tem como objetivo rastrear as ações e procedimentos padronizados em documentos legal e institucionais. (BRASIL, 2013.)

[5]  Uma vez que, “a religiosidade envolve um sistema de culto e doutrina, que é compartilhado por um grupo, e, portanto, tem características comportamentais, sociais, doutrinárias e valores específicos. ” (SAAD; BATTISTELLA; MASIERO, 2001). Para Laraia (2001), a religião é capaz de provocar curas de doenças, reais ou imaginárias. Estas curas ocorrem quando existe a fé do doente na eficácia do remédio ou no poder dos agentes culturais.

[6] As questões mistas (fechadas ou abertas) são aquelas em que, dentro de uma lista pré-determinada de perguntas, há um item aberto, ou seja, permite nela uma liberdade de resposta. Por exemplo, quando se tem a opção “outros “.  (UFRGS, 2009)

[7] Na entrevista estruturada, segue-se um roteiro previamente estabelecido, as perguntas são predeterminadas. O objetivo é obter diferentes respostas à mesma pergunta, possibilitando que sejam comparadas. O entrevistador não tem liberdade. (UFRGS, 2009)

[8] O pré-teste, é imprescindível para o aprimoramento do instrumento de pesquisa escolhido. Procurando verificar se ele apresenta os elementos: fidedignidade: ao obter os mesmos resultados, independente de quem o aplica; validade: analisar se todos os dados recolhidos são necessários à pesquisa ou se nenhum dado importante tenha ficado de fora durante a coleta; operatividade: verificar se o vocabulário apresenta-se acessível e se está claro o significado de cada questão (MARCONI e LAKATOS, 2003).

[9] Pesquisa documental realizada no ano de 2015.

Como publicar Artigo Científico

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