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Soroban na educação inclusiva e estimulação cognitiva: Benefícios para TEA, TDAH, Deficiência Visual e Alzheimer

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

NIKKUNI, Katia Sayuri Takahashi [1]

NIKKUNI, Katia Sayuri Takahashi. Soroban na educação inclusiva e estimulação cognitiva: Benefícios para TEA, TDAH, Deficiência Visual e Alzheimer. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 09, Vol. 02, pp. 22-39. Setembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/soroban-na-educacao-inclusiva, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/soroban-na-educacao-inclusiva

RESUMO

O Soroban, ábaco japonês milenar, vem ganhando destaque como ferramenta educacional e terapêutica em contextos inclusivos. Estudos científicos recentes indicam que o treinamento com o Soroban pode aprimorar habilidades cognitivas (memória de trabalho, atenção, raciocínio lógico) e até induzir mudanças funcionais e estruturais no cérebro humano. Paralelamente, educadores adaptam essa ferramenta para diversos públicos especiais: idosos, visando manter o cérebro ativo e possivelmente retardar o declínio cognitivo/Alzheimer, pessoas com deficiência visual, facilitando a aprendizagem matemática tátil, e crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, como Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), promovendo inclusão e desenvolvimento de habilidades específicas. Este artigo, elaborado em conformidade com as normas ABNT, apresenta uma revisão bibliográfica interdisciplinar sobre o ensino do Soroban para esses grupos, discutindo evidências científicas globais sobre seus benefícios cognitivos e educacionais, metodologias de ensino adaptadas e implicações para a prática pedagógica inclusiva.

Palavras-chave: Soroban, Educação Inclusiva, Neurociência Cognitiva, Autismo (TEA), TDAH.

1. INTRODUÇÃO

O Soroban, nome dado ao ábaco japonês, é um instrumento de cálculo milenar que transcende seu uso original e hoje se mostra um aliado importante em contextos educacionais e terapêuticos. Inventado há séculos para realizar operações aritméticas básicas, o Soroban mantém relevância em plena era digital por proporcionar uma experiência de cálculo concreta e interativa. Pesquisas em neurociência cognitiva indicam que o treinamento com o Soroban pode aprimorar diversas funções mentais (como cálculo, memória e atenção) e inclusive provocar alterações funcionais e anatômicas no cérebro (Wang, 2020). Ao mesmo tempo, profissionais de educação especial vêm incorporando o Soroban como recurso pedagógico adaptado para diferentes públicos: desde idosos, com o objetivo de estimular o cérebro e prevenir o declínio cognitivo, até pessoas com deficiência visual, bem como crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), favorecendo a inclusão e o desenvolvimento de habilidades específicas desses grupos.

A relevância do tema é destacada pelos desafios presentes nesses públicos. No caso do Alzheimer e outras demências, há crescente preocupação em identificar intervenções não farmacológicas que preservem a cognição. Por exemplo, estima-se que no Brasil existam mais de 1,2 milhão de pessoas com doença de Alzheimer, com cerca de 100 mil novos casos ao ano (Camargo, 2022), o que reforça a urgência de estratégias de estimulação cognitiva para idosos. Já no contexto educacional, a inclusão de alunos com deficiência visual e neurodiversos (autistas, crianças com TDAH, etc.) requer métodos de ensino acessíveis e eficazes. O Soroban, ao oferecer aprendizagem multissensorial (visual, tátil e cinestésica), surge como uma ferramenta potencialmente valiosa para engajar esses alunos e desenvolver competências matemáticas e cognitivas de forma lúdica e estruturada.

Diante desse panorama, o presente artigo tem como objetivo investigar, com base em evidências científicas, os benefícios do ensino e uso do Soroban para: (a) idosos, especialmente na manutenção da saúde cognitiva e prevenção/atenuação do Alzheimer; (b) pessoas com deficiência visual, no aprendizado de matemática e promoção de autonomia; (c) crianças com TEA, no desenvolvimento cognitivo, atencional e de conceitos matemáticos; e (d) crianças com TDAH, na melhora da atenção, concentração e controle de impulsos. Para tal, será apresentada uma revisão da literatura multidisciplinar, incluindo estudos das áreas de neurociência, educação especial e psicologia, seguida de discussão sobre metodologias de ensino do Soroban adaptadas a cada público e considerações finais a respeito da importância dessa ferramenta milenar na educação inclusiva contemporânea.

2. METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de caráter exploratório e interdisciplinar. Realizou-se um levantamento de publicações científicas (artigos, revisões sistemáticas, atas de conferências e documentos oficiais) disponíveis em bases de dados nacionais e internacionais, publicados principalmente entre 2000 e 2025, que abordassem o uso do Soroban ou do ábaco em contextos de educação especial, neuroreabilitação e treinamento cognitivo. As buscas abrangeram termos em português e inglês (por exemplo: “Soroban autismo”, “abacus training cognitive”, “Soroban visual impairment”, “abacus Alzheimer”) para assegurar a inclusão de estudos globais. Foram selecionadas evidências empíricas (ensaios clínicos, estudos de caso, quase-experimentos) e revisões relevantes que descrevessem impactos do uso do Soroban nas habilidades cognitivas ou na aprendizagem dos grupos-alvo definidos.

Como complemento, consultaram-se relatos e diretrizes educacionais pertinentes, por exemplo, normas do Ministério da Educação brasileiro sobre o Soroban e conteúdo de centros especializados, para compreender as práticas de ensino aplicadas. A análise dos dados tomou uma abordagem qualitativa descritiva, sintetizando os achados de múltiplos estudos de forma comparativa. Optou-se por uma apresentação temática dos resultados, organizada em seções correspondentes a cada público-alvo (idosos, deficiência visual, TEA, TDAH), de modo a facilitar a discussão direcionada. Ressalta-se que, embora alguns estudos revisados tenham metodologia quantitativa, o presente artigo não realizou meta-análise, limitando-se a discutir tendências e exemplos ilustrativos, apoiados por citações das fontes originais.

2.1 SOROBAN E NEUROCIÊNCIA COGNITIVA: BENEFÍCIOS GERAIS DO TREINAMENTO COM ÁBACO

Do ponto de vista neurocientífico, a prática regular do Soroban pode ser entendida como uma forma de treinamento cognitivo intensivo. Ao manipular as contas e visualizar operações aritméticas, o usuário ativa simultaneamente habilidades de cálculo, memória de trabalho visual espacial, atenção concentrada e coordenação motora fina. Tais demandas cognitivas multifatoriais parecem desencadear processos de neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de formar novas conexões sinápticas e adaptar-se funcionalmente a novos desafios. Estudos de imagem cerebral com usuários treinados em ábaco apontam alterações em redes neurais fronto-parietais e occipito-temporais, relacionadas ao processamento numérico e visoespacial. Em outras palavras, aprender Soroban não apenas melhora a habilidade de calcular mentalmente, mas também pode moldar a estrutura e função cerebral, fortalecendo circuitos cognitivos importantes.

Pesquisas de revisão reforçam esses achados. Por exemplo, Wang (2020) compilou evidências de diversos estudos e concluiu que o treinamento em Abacus-based Mental Calculation (AMC) aprimora uma variedade de habilidades cognitivas, incluindo desempenho matemático, memória de trabalho e percepção numérica de magnitude. Além disso, foram observadas mudanças funcionais e anatômicas no cérebro de praticantes, especialmente em regiões ligadas à atenção, memória e raciocínio lógico. Essa combinação de melhorias comportamentais e adaptações neurais sugere um efeito de “ginástica mental” proporcionado pelo Soroban, análogo a outros treinamentos cognitivos intensivos (como música, xadrez, videogames educativos), porém com ênfase específica em cálculo e memória visuoespacial.

Além dos efeitos neurofisiológicos, resultados comportamentais concretos têm sido medidos. Uma pesquisa recente na Espanha avaliou crianças do ensino fundamental submetidas a um programa combinado de exercícios físicos e treino de Soroban (Solas-Martínez; Loureiro, 2025). Após algumas semanas, o grupo treinado apresentou melhora significativa em atenção sustentada, memória, velocidade de processamento e controle inibitório em comparação a um grupo controle. Especificamente, registraram-se ganhos notáveis na capacidade de concentração (aumento avaliado pelo teste D2) e no controle de impulsividade (efeito de tamanho d = 0,90, indicando grande magnitude). Esses achados ilustram que o Soroban pode integrar programas multidisciplinares de estimulação cognitiva, potencializando seus efeitos quando associado a outras intervenções (como atividade física). Mesmo isoladamente, o aspecto lúdico e interativo do Soroban tende a engajar os praticantes, favorecendo a aderência ao treinamento e, consequentemente, os ganhos cognitivos.

É importante pontuar que a maioria dos estudos enfatiza a necessidade de prática consistente para obtenção de benefícios significativos. O desenvolvimento da técnica de cálculo mental com Soroban (em que o indivíduo visualiza mentalmente o ábaco para realizar operações) requer meses ou anos de treinamento, sobretudo em crianças, mas leva a uma expertise que se traduz em maior rapidez e precisão de cálculo do que métodos tradicionais. Ainda assim, mesmo aprendizes iniciantes podem se beneficiar do uso físico do Soroban nas aulas regulares: a representação concreta dos números e operações melhora a compreensão de conceitos matemáticos abstratos, servindo como ponte entre o manipulativo concreto e a internalização mental desses conceitos. Essa característica torna o Soroban especialmente atrativo em contextos de educação inclusiva, conforme discutiremos nas próximas seções.

2.2 SOROBAN NA ESTIMULAÇÃO COGNITIVA DE IDOSOS E PREVENÇÃO DO ALZHEIMER

Com o envelhecimento populacional, cresce o interesse em intervenções que promovam o envelhecimento cognitivo saudável. Sabe-se que exercícios cognitivos regulares podem contribuir para a reserva cognitiva, potencialmente retardando o aparecimento de sintomas demenciais. Nesse cenário, o Soroban tem sido explorado como uma ferramenta de estimulação cognitiva para idosos, inclusive aqueles já com comprometimento cognitivo leve ou inicial. A lógica é intuitiva: o ato de movimentar as contas do ábaco enquanto realiza cálculos estimula simultaneamente memória, atenção, raciocínio e coordenação, servindo como um “treino cerebral” completo.

Uma revisão sistemática publicada em 2021 por Lima-Silva et al. (2021) mapeou os estudos sobre treino cognitivo com ábaco em diferentes faixas etárias, incluindo idosos. Dos 29 estudos identificados, 8 focaram especificamente em aplicar programas de treino com Soroban/ábaco para idosos (saudáveis ou com declínio cognitivo), a fim de verificar sua eficácia enquanto método de estimulação não-farmacológica. Os resultados gerais dessa revisão indicam que, embora o número de pesquisas ainda seja limitado, todos os estudos analisados relataram benefícios do treino com uso do ábaco no desempenho cognitivo dos participantes, inclusive entre idosos com comprometimento cognitivo. Tais benefícios englobam melhorias em testes neuropsicológicos de memória, atenção e funções executivas, sugerindo que a prática do Soroban pode ajudar a manter ou mesmo melhorar funções cognitivas em idade avançada.

Um exemplo concreto é fornecido por um estudo piloto conduzido na Espanha (Matías-Guiu et al., 2016), no qual idosos com comprometimento cognitivo leve participaram de sessões de treino em cálculos com ábaco (físico e mental). Após a intervenção, observou-se uma melhora significativa no escore do Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) dos participantes em comparação ao grupo controle. Esse achado é promissor, pois o MEEM é uma medida global de cognição frequentemente utilizada para rastrear declínio cognitivo; um aumento no MEEM sugere manutenção ou melhora geral das capacidades cognitivas. Outros estudos com idosos saudáveis também relataram ganhos em memória operacional e velocidade de processamento após treinamento com Soroban, bem como manutenção dos ganhos após meses do término do treino. Ainda que modestos, esses efeitos apontam para o potencial do Soroban como parte de programas de estimulação cognitiva na terceira idade.

Além dos benefícios cognitivos diretos, atividades com Soroban podem trazer benefícios psicossociais para idosos. Por se tratar de uma aprendizagem estruturada, mas lúdica, o treino em grupo com ábaco pode proporcionar interação social, senso de propósito e elevação da autoestima em idosos que se sentem desafiados a dominar uma nova habilidade. Tais fatores contribuem indiretamente para o bem-estar e possivelmente para a qualidade de vida desses indivíduos. Relatos anedóticos sugerem que idosos praticantes reportam sentir a “mente mais ativa” e maior agilidade para realizar cálculos do cotidiano (Takahashi, 2009). Embora tais percepções careçam de confirmação objetiva, elas reforçam a ideia do Soroban como uma atividade mentalmente estimulante e prazerosa para a terceira idade.

Vale ressaltar que, no Brasil, o uso do Soroban com idosos também conecta-se à valorização cultural: muitos membros da comunidade nipo-brasileira já o conheciam desde jovens, e retomar essa prática na velhice possui um aspecto nostálgico e motivador. Contudo, mesmo idosos sem contato prévio podem aprender Soroban com sucesso, conforme metodologias adaptadas, usando, por exemplo, ábacos maiores, contrastes visuais ou orientações passo a passo, que têm sido desenvolvidas em oficinas de memória. Assim, embora mais pesquisas sejam necessárias (preferencialmente ensaios clínicos randomizados de longo prazo), as evidências atuais sinalizam que incluir o Soroban em intervenções não-farmacológicas para idosos é uma iniciativa válida. Essa prática pode ajudar a retardar o avanço de sintomas de Alzheimer ou comprometimento cognitivo leve, mantendo funções mentais em uso e engajando os idosos em atividades cognitivamente ricas e significativas.

2.3 SOROBAN COMO FERRAMENTA EDUCACIONAL PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL

Entre os recursos de tecnologia assistiva na educação de pessoas com deficiência visual, o Soroban ocupa um lugar de destaque histórico e pedagógico. A capacidade de realizar cálculos de forma tátil, movendo contas que representam unidades, dezenas, centenas etc., confere ao aluno cego uma autonomia notável no aprendizado de matemática, equiparável ao uso de lápis e papel pelos videntes. Por essa razão, o Soroban foi incorporado há décadas nas práticas educacionais inclusivas. No Brasil, um marco foi a atuação do professor Joaquim Lima de Moraes, que em 1949 adaptou o Soroban para uso de cegos, inserindo uma borracha de fundo para fixar as contas e evitar deslocamentos indesejados. A adaptação de Moraes, posteriormente conhecida como Cranmer abacus nos EUA, criada independentemente por Tim Cranmer nos anos 1960, tornou possível que estudantes cegos representassem números e efetuassem operações aritméticas de forma segura e eficiente, sem que as contas “escapassem” ao toque. Desde então, o Soroban adaptado consolidou-se como recurso pedagógico fundamental para a educação matemática de pessoas com deficiência visual.

Do ponto de vista oficial, a importância do Soroban para esse público foi reconhecida pelo Ministério da Educação brasileiro (Brasil, 2002). Em 2002, a Portaria MEC nº 657/2002 foi publicada “reconhecendo a utilização do Soroban como recurso auxiliar de cálculo para alunos com deficiência visual nas escolas”. Esse documento normativo respaldou a disseminação do ensino do Soroban em salas de recursos multifuncionais e classes especiais, bem como na formação de professores. Desde então, professores de educação especial são incentivados a aprender o uso do Soroban e a ensiná-lo a alunos cegos e com baixa visão, como parte da proposta de educação inclusiva e equiparação de oportunidades no aprendizado de matemática. Organizações e institutos especializados, como o Instituto Benjamin Constant (IBC) no Brasil e a Iowa Educational Services for the Blind nos EUA, publicam materiais e oferecem cursos sobre o Soroban, reforçando seu papel equivalente a um “caderno de cálculos” para o aluno com deficiência visual.

Pedagogicamente, os benefícios do Soroban para estudantes com deficiência visual vão além da simples possibilidade de calcular. A representação posicional das quantidades no ábaco ajuda a construir conceitos de valor de lugar (unidades, dezenas, centenas), base decimal e operações de vai-um, de forma concreta e intuitiva. Estudos em educação matemática inclusiva relatam que alunos cegos que aprendem Soroban desenvolvem melhor raciocínio lógico-matemático e compreensão dos algoritmos das operações em comparação a quando usam somente cálculos mentais ou outros auxiliares (como contagem com os dedos, que é limitada). Conforme destacado por Silva Alves e Souza (2024), a introdução do Soroban no ensino de matemática traz autonomia ao estudante e auxilia na construção do raciocínio lógico para resolução de problemas, pois ao utilizar o instrumento ele consegue compreender de maneira palpável a relação entre unidades, dezenas e centenas. Essa autonomia se manifesta, por exemplo, na capacidade do aluno cego acompanhar a explicação de uma conta dada pelo professor, realizando em seu Soroban pessoal, e chegar ao resultado simultaneamente com os colegas videntes que escrevem no caderno.

Outro aspecto importante é que o Soroban torna a matemática mais acessível e motivadora para alunos com deficiência visual. Diferentemente do Braille matemático (código Nemeth), que exige memorização de simbologias para números e operações, o Soroban permite fazer a matemática, não apenas ler matemática. A ação de movimentar as contas dá um caráter de jogo/desafio que muitos alunos apreciam, aumentando o engajamento. Um estudo de Bueno, Santos e Borges (2022) investigou o uso do Soroban adaptado em turmas de crianças cegas e relatou ganhos no desempenho em operações básicas, além de maior participação desses alunos nas aulas de matemática em sala comum. Os autores concluem que o Soroban se apresenta “como um facilitador no ensino e aprendizagem de operações matemáticas […] mostrando-se um recurso pedagógico valioso nas turmas inclusivas” (Bueno; Santos; Borges, 2022, p. 128).

Por fim, cabe mencionar os desafios: a disseminação do Soroban ainda encontra obstáculos, como a falta de capacitação de alguns professores e a disponibilidade do instrumento (embora seja relativamente barato, cerca de R$80 no Brasil. Contudo, iniciativas de formação continuada e distribuição de Sorobans em escolas públicas têm ocorrido. Considerando o exposto, fica evidente que o Soroban é uma ferramenta insubstituível na educação de pessoas com deficiência visual, promovendo não apenas acesso ao currículo de matemática em igualdade de condições, mas também contribuindo para o desenvolvimento cognitivo e a independência desses estudantes no manejo de números em sua vida diária.

2.4 SOROBAN E TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA)

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado por desafios no domínio da comunicação social e comportamentos/repetitividade atípicos, mas também por perfis cognitivos singulares, em que algumas habilidades podem ser preservadas ou até acentuadas. Na área de matemática, crianças autistas apresentam desempenhos muito heterogêneos, algumas têm facilidade com cálculos e padrões, enquanto outras enfrentam dificuldades na compreensão de conceitos abstratos e simbólicos relacionados a números. Nessa perspectiva, estratégias de ensino estruturadas e visuais são frequentemente recomendadas para alunos com TEA. O Soroban, ao fornecer uma representação visual-tátil concreta dos números, pode atuar como ponte entre o concreto e o abstrato, auxiliando essas crianças a desenvolver conceitos básicos de número e operações de forma compreensível e motivante.

Evidências experimentais começam a apoiar o uso do Soroban (ou versões adaptadas do ábaco) para crianças no espectro autista. Um estudo realizado por Jannah, Masitoh e Wijiastuti (2020) na Indonésia investigou uma intervenção com ábaco modificado em crianças autistas de idade pré-escolar. Após um programa de 8 sessões de ensino lúdico usando o ábaco, os pesquisadores observaram melhora significativa na capacidade de reconhecer e compreender conceitos de número nessas crianças, em comparação ao período pré-intervenção. Os resultados do pós-teste mostraram que, com o auxílio do ábaco adaptado, as crianças passaram a identificar quantidades e numerais com maior precisão. Os autores concluem que “o ábaco modificado é eficaz em aprimorar a habilidade de reconhecer conceitos numéricos em crianças com TEA”, recomendando sua incorporação como recurso pedagógico em programas de educação especial.

Mas quais seriam os mecanismos por trás desses benefícios? Uma hipótese é que o Soroban agrega características que alinham-se aos estilos cognitivos de muitas pessoas autistas. Primeiro, trata-se de um método altamente visual e padronizado, o que aproveita a afinidade que algumas crianças com TEA têm por padrões repetitivos e sequências consistentes. Segundo o Soroban oferece feedback imediato e previsível: cada movimento de conta corresponde a um valor, fornecendo à criança autista uma estrutura clara de causa e efeito, o que pode reduzir a ansiedade comum diante de tarefas abstratas. Terceiro, a atividade com o ábaco pode se tornar um interesse especial para a criança, aumentando seu engajamento; professores relatam casos em que alunos autistas se encantaram com o Soroban e, por meio dele, melhoraram não só em matemática, mas também em comportamentos de atenção e interação, ao participar de clubes ou competições de cálculo mental (Takahashi, 2023).

Outro ponto a considerar é o aspecto sensorial. Crianças com TEA frequentemente buscam estímulos sensoriais ou se beneficiam de estímulos táteis para manter a atenção. O Soroban, ao exigir coordenação visuo-tátil (olhar as contas e senti-las com os dedos), promove uma integração sensorial que pode ajudar a sustentar o foco. Relatos informais de educadores indicam que a concentração de alunos autistas tende a aumentar durante atividades com Soroban, possivelmente pela natureza multissensorial e pelo ritmo repetitivo e organizado de mover as peças. Essa observação está alinhada a princípios de educação para TEA que enfatizam o uso de recursos concretos e atividades estruturadas.

Naturalmente, o ensino do Soroban a alunos autistas requer adaptações individuais. Algumas crianças podem inicialmente apenas imitar movimentos no ábaco sem compreender o conceito, nesses casos, combina-se o Soroban com técnicas visuais (como cartões com numeral e quantidade correspondente de contas desenhadas) para fazer a ponte conceitual. Outras podem ter hiperfoco em girar as contas sem seguir instruções; assim, estabelece-se um uso do Soroban como atividade de reforço estrutural, recompensando a conclusão correta de uma conta com acesso breve a essa estimulação repetitiva. Com o tempo e o suporte adequado, muitos alunos TEA conseguem progredir no uso funcional do Soroban, aplicando-o para realizar operações matemáticas simples e, principalmente, ganhando entendimento dos conceitos matemáticos subjacentes (como quantidade, adição, subtração) que antes lhes escapavam em abordagens puramente abstratas.

Em suma, embora a pesquisa ainda seja incipiente, os casos documentados sugerem que o Soroban pode transformar a experiência de aprendizado matemático de crianças com autismo. Ao oferecer estrutura, previsibilidade e envolvimento ativo, o Soroban auxilia na superação de barreiras cognitivas e atencionais, permitindo que esses alunos desenvolvam competências matemáticas básicas e, simultaneamente, exercitem funções cognitivas (atenção, memória sequencial, planejamento) muitas vezes prejudicadas no TEA. Isso reforça a importância de capacitar professores de educação especial no uso do Soroban e de realizar mais estudos sistemáticos sobre seus impactos no desenvolvimento cognitivo e acadêmico de pessoas com TEA.

2.5 SOROBAN E TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO/HIPERATIVIDADE (TDAH)

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um dos transtornos neurodesenvolvimentais mais comuns na infância, com prevalência estimada em torno de 5–10% das crianças em idade escolar. Caracteriza-se por sintomas de desatenção, impulsividade e hiperatividade que comprometem o desempenho acadêmico e o comportamento. Crianças com TDAH frequentemente enfrentam dificuldades na aprendizagem tradicional, em especial em tarefas que exigem sustentação de atenção, memória de trabalho e seguimento de múltiplos passos, habilidades cruciais para a matemática. Assim, estratégias de ensino diferenciadas e métodos ativos podem ser benéficos para engajá-las. Nesse contexto, o Soroban desponta como uma abordagem pedagógica potencialmente vantajosa, pois engaja simultaneamente diversos sentidos e impõe uma estrutura passo a passo ao realizar cálculos, fatores que podem ajudar a contornar as limitações do TDAH.

Evidências emergentes indicam benefícios do ensino de ábaco para crianças com TDAH. Um estudo citado por UCMAS (programa internacional de ensino de Soroban) relata que, após um ano de treinamento em abacus, alunos do 2º ano com TDAH mostraram melhoria significativa em habilidades matemáticas e na capacidade de concentração, superando claramente o desempenho do grupo controle sem esse treinamento. Essa melhora sugere que a combinação de prática motora e mental do Soroban conseguiu manter as crianças engajadas por períodos maiores e internalizar procedimentos de resolução de problemas.

Outro estudo, conduzido na Coreia do Sul (Na et al., 2015), investigou especificamente o impacto do treinamento de Soroban em funções atencionais de crianças. Os resultados mostraram que crianças treinadas em Soroban cometeram menos erros por impulsividade (menos “erros de comissão”) em testes de atenção sustentada do que crianças não treinadas. Em outras palavras, o grupo com Soroban teve melhor controle inibitório, conseguindo evitar respostas precipitadas em tarefas monótonas, ao passo que não houve diferença significativa em outros domínios de atenção seletiva. Os autores especulam que o manuseio do ábaco exercita a inibição de impulsos motores e cognitivos, já que o aluno precisa seguir a sequência correta de movimentos e pensar antes de mover as contas, o que poderia explicar a melhora específica no controle da impulsividade. Esse achado é particularmente relevante, dado que a impulsividade e a dificuldade de inibição de respostas são aspectos centrais do TDAH.

Do ponto de vista mecanístico, o Soroban parece alavancar princípios de ensino multissensorial e estruturado que favorecem alunos com TDAH. Primeiramente, envolve engajamento multissensorial: a criança vê as contas, toca-as e eventualmente pode até falar em voz alta os cálculos, o que ativa canais visual, tátil-cinestésico e auditivo. Abordagens multissensoriais são conhecidas por ajudar crianças com TDAH a manterem o foco, pois estimulam simultaneamente diferentes áreas cerebrais (BYITC, 2023), tornando a aprendizagem mais dinâmica e menos propensa à distração. Em segundo lugar, o Soroban oferece uma representação concreta dos problemas matemáticos, o que pode reduzir a carga sobre a memória de trabalho, em vez de tentar reter números abstratos na mente (tarefa difícil para muitas crianças com TDAH), elas têm uma referência física do problema, liberando recursos cognitivos para a resolução em si.

Adicionalmente, o uso do Soroban incorpora aprendizagem sequencial: para efetuar uma operação, a criança deve seguir etapas bem definidas (por exemplo, “some as unidades, registre, passe para as dezenas, etc.”). Essa estrutura passo a passo ajuda a evitar que a criança se sinta sobrecarregada por um problema complexo, permitindo que focalize em uma etapa de cada vez. Essa abordagem fatiada é compatível com técnicas de manejo do TDAH que fragmentam tarefas extensas em partes menores e manejáveis.

Um benefício colateral relatado é o efeito calmante que a atividade com o ábaco pode exercer (UCMAS, 2023). O movimento rítmico das contas, exigindo coordenação bilateral e atenção concentrada, muitas vezes tem um impacto quase meditativo sobre a criança, ajudando-a a entrar num estado de foco. Educadores apontam que algumas crianças com TDAH tornam-se mais tranquilas e centradas durante a prática do Soroban, possivelmente porque a manipulação rítmica das peças canaliza a energia excedente e reduz a inquietação. Essa calma relativa pode persistir após a atividade, facilitando a transição para outras tarefas acadêmicas.

É importante notar que o Soroban não é uma “cura” para o TDAH, mas pode ser uma ferramenta educacional valiosa dentro de um conjunto de estratégias. Seu sucesso depende de uma implementação adequada: o instrutor deve ter paciência e ajustar o ritmo do ensino, garantindo que a criança compreenda os procedimentos sem frustração. Recompensas positivas pelo acerto de cálculos, uso de competição sadia (por exemplo, pequenos campeonatos de Soroban) e integração com jogos podem aumentar ainda mais a motivação desses alunos. Quando bem empregado, o Soroban pode não apenas melhorar o desempenho em matemática, mas também contribuir para desenvolver nas crianças com TDAH qualidades como disciplina, persistência e autoconfiança, frutos da experiência de superar desafios cognitivos num ambiente estruturado e de receber feedback claro de suas ações.

Em síntese, as evidências iniciais e experiências práticas sugerem fortemente que o Soroban beneficia crianças com TDAH em múltiplos aspectos: aprimora a atenção concentrada e o controle de impulsos, torna a aprendizagem de matemática mais envolvente e menos abstrata, e oferece uma via para que essas crianças demonstram seu potencial quando outros métodos podem ter falhado. Trata-se, portanto, de um recurso que merece maior divulgação e estudo, como parte de uma abordagem pedagógica inclusiva e eficaz para alunos com dificuldades de atenção.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Atravessando gerações e culturas, o Soroban reafirma seu valor não apenas como instrumento de cálculo, mas como ferramenta multidisciplinar de inclusão e estimulação cognitiva. Nesta revisão, compilamos evidências de diferentes campos do conhecimento que convergem para um ponto central: inserir o Soroban em práticas educativas e terapêuticas não é um retorno ao passado obsoleto, mas sim uma decisão embasada em evidências e orientada para inovação social. Seja no envelhecimento ativo, ajudando idosos a manterem funções mentais e possivelmente mitigando os efeitos do Alzheimer, seja na educação especial, capacitando alunos com deficiência visual a dominar a matemática ou auxiliando crianças autistas e com TDAH a desenvolverem atenção, lógica e confiança, o Soroban demonstra um impacto positivo.

Alguns resultados-chave merecem destaque. Em idosos, ainda que a literatura seja inicial, há indicação de que o treino com Soroban melhora os escores cognitivos globais e funções executivas, mostrando-se uma abordagem promissora de reabilitação cognitiva não-farmacológica. Em estudantes cegos, o Soroban provou-se um facilitador essencial na aprendizagem matemática, reconhecido oficialmente e associado a ganhos de autonomia e raciocínio lógico. No caso do TEA, embora poucos estudos quantitativos existam, temos evidências de melhora na compreensão de conceitos numéricos básicos com o uso de ábaco adaptado, corroborando inúmeros relatos positivos de educadores. Para o TDAH, verificamos avanços em concentração e controle inibitório em crianças treinadas com Soroban, apoiando teorias educacionais que defendem metodologias multissensoriais e estruturadas para esses alunos.

Naturalmente, alguns limites e sugestões de pesquisas futuras emergem desta revisão. É necessário ampliar os estudos controlados envolvendo o Soroban, especialmente no âmbito de condições como TEA e TDAH, para quantificar com maior precisão os efeitos observados e entender quais subgrupos de indivíduos respondem melhor a essa intervenção. Também seria valioso investigar o impacto de longo prazo – por exemplo, se o uso continuado do Soroban ao longo de anos de escolaridade traz benefícios acadêmicos cumulativos (como melhor desempenho em matemática ou prevenção de declínio cognitivo acentuado em idosos). Além disso, pesquisa qualitativa com professores, terapeutas e usuários pode aprofundar a compreensão sobre as experiências subjetivas e barreiras práticas no uso do Soroban em cada contexto, orientando a elaboração de metodologias de ensino otimizadas (como manuais específicos para autismo, TDAH, etc.).

Em conclusão, o corpo de conhecimento atual já permite afirmar com confiança que o Soroban é uma ponte entre tradição e inovação pedagógica. Seu uso ressignificado, apoiado por estudos contemporâneos, mostra que métodos ancestrais podem se integrar ao que há de mais moderno em neurociência e educação inclusiva. Cabe aos educadores, gestores e familiares abraçarem essa ferramenta e adaptá-la criativamente, construindo uma educação verdadeiramente inclusiva e eficaz para todos os aprendizes – daqueles que contam as primeiras contas na infância aos que, na melhor idade, redescobrem na aritmética um caminho para manter acesa a chama da mente.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação. Portaria n. 657, de 7 de março de 2002. Reconhece a utilização do Soroban como recurso auxiliar de cálculo para alunos com deficiência visual nas escolas. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 mar. 2002.

BRITISH YOUTH INTERNATIONAL COLLEGE (BYITC). Is Abacus Mental Maths good for ADHD? Blog BYITC, 12 dez. 2023. Disponível em: https://www.byitc.org/is-abacus-mental-maths-good-for-adhd/. Acesso em: 10 ago. 2025.

BUENO, André; SANTOS, Júlia; BORGES, Mariana. O uso do Soroban em turmas inclusivas: análise de práticas pedagógicas. Revista Brasileira de Educação Inclusiva, v. 10, n. 2, p. 121-132, 2022.

CAMARGO, Jorge. Brasil tem mais de 1,2 mi de pessoas com Alzheimer e 100 mil novos casos são diagnosticados por ano. Portal SEGS – Saúde, 17 mai. 2022. Disponível em: https://www.segs.com.br/saude/346279. Acesso em: 14 maio 2025.

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[1] Graduação em Pedagogia. Educadora e Especialista Internacional em Soroban com mais de 30 anos de experiência, Certificada como Professora de Soroban pela Federação Nacional de Educação de Soroban do Japão. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-1878-666X.

Material recebido: 25 de agosto de 2025.

Material aprovado pelos pares: 23 de setembro de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 24 de setembro de 2025.

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Katia Sayuri Takahashi Nikkuni

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