Com a palavra, o leitor!

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ARTIGO DE REVISÃO

FERREIRA, Verena Santos Andrade [1]

FERREIRA, Verena Santos Andrade. Com a palavra, o leitor! Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 09, Vol. 08, pp. 25-35. Setembro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/o-leitor

RESUMO

A leitura, antes privilégio de poucos e cercada de “mistérios e propriedades mágicas”, num determinado momento histórico-social, viu seus códigos serem democratizados a uma população para atender a uma demanda social e esse movimento trouxe novos sujeitos e práticas à cena da leitura – que antes ficavam à espreita – dessacralizando alguns conceitos, interpretações e o próprio ato de ler, em sua concepção hegemônica. Assim, esse artigo traz uma revisão teórica da categoria “leitor”, ao longo do tempo, a partir das contribuições teóricas de Teorias da Literatura, a exemplo da Estética da Recepção e Sociologia da Leitura, situando aquele como sujeito do processo de leitura enquanto prática social, situada na historicidade de cada sujeito leitor.

Palavras-chave: Leitura, literatura, leitor, práticas de leitura, sociologia da leitura.

INTRODUÇÃO

Com a crescente importância da atividade de leitura na sociedade contemporânea, o papel atribuído ao leitor foi se modificando ao longo do tempo, passando do leitor ideal das teorias literárias até chegar ao leitor real dos contextos sociais. Se de modos diferentes era visto o leitor de meados do século passado em função de sua participação no texto, de modos distintos também são vistos os leitores atualmente, não unicamente quanto à sua participação na construção do sentido do texto, mas, sobretudo, quanto aos muitos usos e apropriações da prática leitora, a partir da pluralidade de tipos de textos e seus suportes, sejam impressos os digitais.

Partindo desse pressuposto, este texto traz uma abordagem do percurso teórico da atividade da leitura em seu caráter de interação social, comunicação, produção de sentidos e significados, enfim, como experiência, no sentido proposta por Larrosa, (2002, p. 21) “[…] é o que nos passa, o que nos acontece”, cujo conceito implica atividade, singularidade, afetar-se e aperceber-se.

Por outro lado, essa experiência é invisível ao outro, como disse Laing, ao tratar das relações pessoais:

Tua experiência de mim é invisível a mim e minha experiência de ti é invisível a ti. Não posso experimentar tua experiência. Não podes experimentar minha experiência. Nós dois somos invisíveis. Cada homem é invisível para o outro. A experiência é a invisibilidade do homem para o homem. (apud QUEIROZ, 1997, p.88).

Como o ato de ler é uma forma de interação social, onde ao mesmo tempo se revela e se esconde a subjetividade do sujeito leitor, ficamos, pois, a dar notícias daquela pequena fração que julgamos por “visível”, a partir do entendimento do leitor como sujeito histórico, social e cultural e do texto como objeto a ser construído pela experiência da leitura, no palco contemporâneo das diferenças sociais e culturais, da luta pela hegemonia e da profusão de sentidos e representações.

O LEITOR E A LEITURA NA ESTEIRA DO TEMPO

A leitura surgiu e desenvolveu-se no seio das classes mais privilegiadas, a partir das famílias burguesas e como estas a utilizavam especialmente para a formação intelectual e lazer, adquiriu tais representações no contexto das relações sociais, até ver necessária a sua popularização, que coincide com o desenvolvimento da sociedade capitalista, trazendo novos sujeitos e contextos para o ato da leitura, que, paulatinamente, passou a receber novos entendimentos. Como pontuou Zilberman (s/d) no texto “A história da leitura no Brasil: sua história e suas instituições”, são notáveis as relações entre a expansão da escrita e da sociedade capitalista.

Com a democratização da competência da leitura como bem social, para atender a um projeto de sociedade que adentrava à condição moderna, os grafemas se proliferaram pelos espaços sociais, constituindo o substrato de interação social em circunstâncias diversas. Dessa forma, grupos sociais mais amplos foram chamados a participar das práticas da leitura, que, enquanto atividade aprendida, está imersa nas práticas sociais do sujeito, derivando daí diferentes modos de ler e formas de apropriação da leitura, polarizando o ato de ler em torno das questões sociais e trazendo o sujeito leitor que está fora dos “espaços letrados hegemônicos” para a esfera da atividade leitora.

Leitor, autor e texto, enquanto partícipes da leitura foram, no transcurso das últimas décadas, ganhando papeis distintos, por vezes até antagônicos, mas que contribuíram com o entendimento que se tem hoje dela, a partir dos diferentes olhares que lhes foram dirigidos e das transformações advindas com a modernidade, a exemplo da democratização da técnica da decodificação, do mercado editorial e dos novos suportes digitais.

Algumas correntes teóricas que buscavam explicar o papel do leitor, a partir dos textos literários, a exemplo do formalismo e do new criticism, defendiam que o conjunto de sinais gráficos que compõe o texto, através do processo de decodificação, faz insurgir o significado do texto, ou seja, nessa concepção, o sentido do texto é composto exclusivamente pelo autor, concentrando-se sua compreensão no polo da textualidade. Dessa forma, o leitor é sujeito extrínseco à significação do texto. Cabia-lhe a função de proceder à compreensão do texto segundo as operações linguísticas que traziam em si o seu significado, pronto e acabado, formulado pelo autor. Os estudiosos dessas correntes literárias chamavam a atenção para a distinção entre “o que o texto é” e “o que o texto faz”, reforçando o seu caráter autotélico. Essa concepção de leitura dominou por muito tempo o entendimento sobre as práticas leitoras, moldando as relações autor-texto-leitor, e deu forma a muitos atividades pedagógicos no âmbito da educação formal.

Por volta da segunda metade do século XX, H. R. Jauss inaugura a Estética da Recepção, contrapondo-a à estética da produção, ao trazer à cena da leitura a figura do leitor, lançando implicações sobre a forma de conceber o ato de ler. As concepções formalistas e marxistas – esta última voltada para o condicionamento social da obra – privavam a literatura de uma dimensão fundamental, tanto em seu caráter estético quanto a sua função social, que é a dimensão da recepção, conferindo à leitura seu aspecto vivo, singular, dinâmico e social.

Com a mudança de foco da textualidade para a comunicação, a categoria leitor, até então pouco ativa na teoria literária, passa a ter presença mais viva no processo de leitura, como condição significante da escrita. Esta mudança não indica apenas uma alteração de foco entre as categorias da leitura, mas de premissas acerca do ato da ler e dela como ato social, trazendo à luz a figura do leitor e, consigo, as suas condições sociais e culturais. Implica assim, trazer à cena o leitor, agora entendido como sujeito que participa da construção do sentido do texto, o que faz emergir a multiplicidade de interpretações e exegeses possíveis, subvertendo seu caráter imanente.

Ao tratar da estética da recepção, Gumbrecht (apud LIMA, 1979, p.13) diz “trata-se agora de compreender as condições de formações diferentes de sentido, realizadas sobre um dado texto, por leitores que estão de posse de disposições recepcionais mediadas por condições históricas distintas.” O texto perde assim a sua condição autoritária na determinação do sentido para dar espaço ao leitor que traz consigo a sua historicidade na construção do sentido. A leitura fica agora revestida de singular complexidade, quando aquela escola literária coloca o leitor no espaço que lhe é próprio, o da historicidade, revelando o ato de ler em seu aspecto histórico, social e cultural. Essa concepção abre espaço para uma série de considerações e estudos acerca da leitura e da recepção enquanto espaço de interação e de construção de sentido, não mais como lugar de chegada da informação pelas palavras do autor de forma pronta, acabada, conclusa e uníssona.

Ainda que de forma inicial, esse pensamento veio dinamizar a compreensão da leitura e do leitor, antes pensado apenas pelo sujeito que dispunha das competências para a decodificação dos grafemas da escrita. A contribuição de Jauss consiste em ter trazido o leitor para dentro da obra literária, muito embora, essa compreensão de leitura atualmente ultrapassa os textos literários, e pode ser estendida a quaisquer formas de comunicação escrita, uma vez que subverte o estatuto conferido ao texto, revelando que a leitura consiste em produzir significação a partir da materialidade impressa ou digital. O leitor não é mais o “consumidor” do texto, mas o seu coprodutor, cujas variações de interpretações não são mais vistas como “equívocos”, mas como variações próprias das experiências particulares de cada sujeito durante o ato de ler.

Onde há leitura se instala a instância da interpretação ou da produção de sentido, isto é, abre-se espaço para a inscrição da subjetividade do sujeito, não apenas nos textos literários, mas também nos ditos pragmáticos e acadêmicos. A esse respeito, Stierle esboça a distinção entre recepção pragmática e ficcional, partindo das caracterizações desses tipos de textos: “O texto pragmático é caracterizado pelo fato de que o produtor e receptor, previamente conhecedores do saber social armazenado como esquema de ação, preveem os seus respectivos papeis” (apud LIMA, 1979, p.31). Assim, Stierle amplia as condições recepcionais do leitor para além dos textos literários, considerando que os textos ditos pragmáticos também devem ser interpretados e ressignificados a partir de um conjunto de códigos possuídos pelo receptor, ou seja, códigos estes construídos pelo leitor em sua historicidade.

Ler é interpretar e esta faculdade deixa de ser conhecer o sentido construído pela linguagem numa relação de mimesis através do texto, para, quebrando a passividade da leitura, construir o sentido do texto, compreendendo este como atividade onde se inscreve a discursividade, na perspectiva do semiólogo Barthes, cuja “linguagem do sujeito que observa está tão comprometida quanto a do objeto que fala. (…) Interpretar, nesse sentido, deixa de ser legislar sobre o sentido para tornar-se trabalho sobre os significantes, exploração das diferenças (…)” (QUEIROZ, 1997, p. 64), trazendo o sujeito investido na condição de leitor à função central na atividade da leitura.

Por outro lado, reconhecer a centralidade do leitor na atividade na leitura não implica que esta possa constituir-se numa projeção imaginária da subjetividade do leitor, pois o ato de ler se desenvolve num processo de interação e significação dos códigos escritos a partir dos códigos culturais do sujeito-leitor, numa relação de apropriação, onde a existência se inscreve no ato de significação do texto. A interpretação se dá no limite do diálogo entre o que o texto fala e o que cala, na fronteira da experiência e da memória do leitor.

As vertentes teóricas dos estudos da recepção, embora reconheçam o leitor como sujeito que participa da construção do sentido do texto, ainda confere certa “autoridade” ao texto, ao teorizar a figura do leitor ideal, implícito ou modelo, que “lê” segundo as “pistas” ou “complexos de controle”, deixados ao longo do texto, nas palavras de Iser (apud LIMA, 1979), que foca mais sua atenção nos efeitos que o texto produz no leitor. Essa perspectiva revela o texto como uma estrutura que ainda dirige a atividade do leitor. Resta, pois, dizer que esse leitor implícito se encontra localizado e estruturado a partir da própria aividade do autor, que se projeta na condição de leitor de sua própria obra, ou seja, em torno de sua própria historicidade, subjetividade e repertório cultural. É com esse leitor implícito que o autor estabelece seu primeiro diálogo, se pensada a obra do ponto de vista de sua criação. É uma  antecipação da figura do leitor, ou melhor, de suas expectativas e repertório. Essa condição revela “uma” dentre tantas outras possibilidades de leitura quando se disponibiliza o texto a outras leituras. A esse respeito, disse Barthes (apud CULLER, 1997, p. 39) “o nascimento do leitor deve ocorrer à custa da morte do autor”, para justificar que, uma vez lançado à sociedade, o autor não tem mais controle sobre as interpretações e efeitos que se constroem a partir daquele escrito, tornando-se o leitor o autor de cada sentido que constrói, “por cima dos ombros daquele que escreve” (apud QUEIROZ, 1997, p.68).

As Teorias da Literatura mostram a passagem do leitor da condição de sujeito passivo para ativo, e, nesse movimento, traz consigo as marcas de seu pertencimento social,  acompanhado das transformações da sociedade nas últimas décadas, especialmente em relação às práticas de leitura, revelando o caráter subjetivo e dinâmico das interpretações. Por outro lado, algumas delas são recorrentes, próximas e muitas vezes semelhantes. Para justificar a estabilidade de determinadas interpretações e evitar que a leitura “aconteça” apenas na esfera da subjetividade do indivíduo, Fish (apud LIMA, 1979) vem trazer a noção de “comunidades interpretativas” para se referir àqueles sujeitos que dispõem de bases recepcionais semelhantes, construídas a partir de seus repertórios de leituras. As distintas áreas do conhecimento se constituem como comunidades interpretativas, quando promovem e expandem o diálogo sobre diversos temas. Aquelas histórias/repertórios, citadas a pouco, ainda que moldadas por contextos semelhantes, ou mesmo mediadas por comunidades interpretativas, revelam trajetórias de vida ímpares, e aqui está o grande mistério da leitura, que revela-se como atividade livre e renovadora. Alguns dizem libertadora. Todavia, para alguns, romper os limites da realidade social e aproximar-se das interpretações hegemônicas, torna-se um o desafio.

A EXPERIÊNCIA SOCIAL DA “DESLEITURA”

A partir das contribuições das teorias da recepção, a interpretação não é mais um encadeamento lógico intrínseco ao texto, mas a própria atividade do leitor. Neste momento, o leitor traz para o texto seus repertórios, as suas vivências, visões de mundo, expectativas e hipóteses, ou seja, suas condições recepcionais que o fazem dialogar e ressignificar o texto. Nas palavras de Culler, (1997, p. 43),

A interpretação de uma obra, portanto, torna-se uma descrição daquilo que acontece ao leitor: como várias convenções e expectativas entram em jogo, onde conexões específicas ou hipóteses são colocadas, como as expectativas são derrotadas ou confirmadas. Falar do sentido de uma obra é contar uma história de leitura.

Partindo da interpretação como atividade que acontece ao leitor, numa perspectiva fenomenológica, Culler, ao interpretar Stanley Fish, diz que o encontro do leitor com o texto dá-se na experiência da interpretação: “a experiência é a interpretação” (ibidem, p.49). O autor fala da experiência como elemento central de significação de uma obra: “o sentido não se encontra no fim do ato de ler a frase (…), mas durante o acontecimento da leitura: o sentido é esse acontecimento” (CULLER, apud QUEIROZ, 1997, p.86, grifo do autor). Assim, o sentido da leitura é a experiência que o leitor tem dela, o que faz, sente ou pensa, durante esse acontecimento. E é essa experiência que transforma e modifica a sua subjetividade, que, por sua vez, está imbricada com as próprias vivências sociais e culturais do leitor, que se entrelaçam com as questões de classe, gênero, etnia, nacionalidade, territorialidade, etc.

Assim, a dicotomia formalista “o que o texto é” e “o que o texto faz”, não cabe no entendimento da leitura enquanto uma experiência de interpretação. Ou seja, “o texto é”, na medida em que faz, do que provoca no leitor durante o acontecimento da leitura.

A noção de experiência, presente nas teorizações que colocam o leitor como elemento central no processo de significação de um escrito, vem descentrar a concepção hegemônica de leitura ao afastar-se do texto como domicílio do sentido, da autoridade que lhe é conferida e da submissão do leitor a sua mensagem, instalando as premissas para o ato da desleitura no sentido preconizado por Harold Bloom (1995), de insubmissão do leitor ao texto e das relações entre os textos, que dependem de um ato crítico, onde se insere a experiência do indivíduo.

A “desleitura” rompe com a perspectiva hegemônica segundo a qual “a leitura fica obliterada por uma relação de forças das quais ela se torna o instrumento. A utilização do livro por pessoas privilegiadas o estabelece como um segredo do qual somente eles são os “verdadeiros” intérpretes (…)” (CERTEAU, 1994, p.266, grifo do autor), pois a mensagem “verdadeira” geralmente é aquela reconhecida por um leitor que certamente se encontra no seio ou nos arredores da classe dominante. Faz-se da leitura campo de distinção social, onde se inscreve a tensão entre o reconhecido e o não-reconhecido, o valorizado e o não-valorizado, o legitimado e o deslegitimado, que vai desde as diferentes interpretações até as práticas e modos de leituras em seus diferentes suportes.

Reconhecendo o caráter social das interpretações, Chartier (1990, p.26) propõe “uma história social das interpretações, remetidas para as suas determinações fundamentais (que são sociais, institucionais e culturais) e inscritas nas práticas específicas que as produzem”, e mais tarde acrescenta:

…na medida em que as experiências individuais são sempre inscritas no interior de modelos e de normas compartilhadas, cada leitor, para cada uma de suas leituras, em cada circunstância, é singular. Mas esta singularidade é ela própria atravessada por aquilo que faz que este leitor seja semelhante a todos aqueles que pertencem à mesma comunidade. (CHARTIER, 1991, p.91)

Nas interpretações individuais estão implicadas as marcas de pertencimento a determinados grupos sociais, que participam das construções dos sentidos, das formas como os leitores interagem com a cultura escrita, das finalidades dessa interação, dos suportes utilizados, do acesso a esses suportes, dentre outras questões. Desde o princípio, as distintas classes sociais se apropriaram da cultura escrita de modo diverso das camadas mais favorecidas. A qualidade do processo de escolarização não é a mesma para todas as classes sociais. A formação profissional tem níveis de escolaridade diferenciados entre os estratos sociais. O acesso aos bens culturais não acontece de igual modo a toda a população. Todas essas instâncias estão imbricadas, participam da formação do leitor e passam pela via da classe social. A esse respeito, Barbero (1995, p. 44) diz: “ainda que tenha fracassado o socialismo real, é indubitável que a análise de classe continua sendo uma análise fundamental para entendermos nossas sociedades”. Diferente do leitor ideal ou implícito das teorias da Recepção, que “lê” segundo as “pistas” deixadas pelo autor, esse leitor sujeito de classe (desprivilegiada) é pouco previsível, fluido, ambíguo, complexo. Foge do escopo das generalizações ou previsões porque traz consigo toda a complexidade de sua existência que rompe com quaisquer pretensões que façam do texto objeto imanente.

Os referentes sociais e culturais do leitor não participam tão somente da produção de sentidos. Fazem-se presentes, de modo salutar, no acesso e no desenvolvimento do gosto por determinados tipos de escritos, na forma como esses escritos se inserem nos cotidianos dos sujeitos e no modo como estes se constituem leitores. Então, a situação social do leitor se faz presente não apenas no momento da leitura; ela o antecede e sucede, porque fomenta a relação com a cultura escrita em todos os momentos da vida social. Nesse entendimento, Barbero acrescenta que a recepção “é um modo de interagir não só com as mensagens, mas com a sociedade (…)” (1995, p.58). Por outro lado, esse modo de interagir não pode ser compreendido sob a perspectiva de um estigma social, como uma ausência ou debilidade, ecoando as representações hegemônicas que se tem da leitura e suas interpretações no cenário social. Esse “modo” é construído na historicidade das relações sociais, ou seja, nada tem de natural, assim como nada tem de errado. É expressão de identidade social num determinado momento histórico, no bojo de relações políticas e econômicas.

O autor supracitado entende a recepção como um processo de interação, não como o local de chegada de uma mensagem: “não podemos cair em extremos. O primeiro extremo é: quem sabe o que se passa na mensagem é o emissor. (…). Nem podemos ficar no extremo de pensar que o receptor faz o que quer com a mensagem.” (ibidem, p.58). A leitura, então, constitui uma forma de interação-comunicação, espaço de negociação de sentidos a partir das assimetrias e demandas do texto e do leitor. A concepção de Barbero dialoga com a ideia dos teóricos da Escola de Constanza, mas traz o leitor para dentro do texto como um sujeito de classes, de demandas assimétricas, que revelam os diferentes modos de ler, de ver, de escutar e de sentir das classes sociais.

As diferentes demandas sociais da leitura mostram que não apenas as formas de interpretação são diferentes e socialmente determinadas, mas também que as leituras das classes mais favorecidas são diferentes daquelas menos favorecidas, porque diferentes são suas relações com as mensagens escritas e seus suportes, tanto em termos de gêneros e formas de apropriação como de acesso. “Se o país é desigual na distribuição das riquezas, também o é na distribuição da cultura letrada”, disse Pellegrini (s/d), no artigo “A literatura e o leitor em tempos de mídia e mercado”, então não se pode esperar que sujeitos socialmente diferentes produzam sentidos iguais, quiçá amistosos, ou que façam uso da leitura e seus suportes em circunstâncias também iguais.

Em face das diferentes demandas sociais de leitura se estabelecem formas de exclusão social, de legitimação e de deslegitimação de gostos, interpretações e formas de relações com a cultura escrita, em função das representações hegemônicas que se tem do ato de ler. Essas legitimações nada mais são do que formas de valorar os sujeitos a partir do lugar social de onde falam e de como se constituem.

No final da década de 80, Jauss vem trazer uma nova contribuição à participação do leitor na produção do texto, somando a esta ideia a da leitura como experiência estética, cujo prazer ante a obra literária, segundo o autor, se dá em três níveis intercambiáveis: poiesis, aisthesis e katharsis. A poiesis traduz o prazer ante a criação; a aisthesis designa o prazer de um conhecimento que se dá através da experiência e da percepção, de forma sensível e não puramente conceitual; a katharsis indica o prazer que provém do efeito interior provocado no sujeito, que pode levar à transformação de suas convicções. Para o referido autor, esse efeito libertador provocado pela literatura é fruto do seu caráter social e humanizante, pois, a interação do indivíduo com o texto faz com que o sujeito compreenda melhor a si mesmo e ao mundo, constituindo esse entendimento mais um dos “efeitos” atribuídos à literatura, que pode ser estendido a outras práticas da leitura.

As instâncias da experiência estética podem ser compreendidas no bojo da “experiência da recepção”, quando o leitor produz o sentido do texto lido a partir da percepção da realidade construída, que provoca novas formas de entendimento de si mesmo e do mundo, culminando na sensação de prazer ante a leitura. Tais instâncias teorizadas por Jauss também passam pelo lugar social do leitor, pois cada um sente a fruição correlata a sua compreensão, ou melhor, a partir dos sentidos que constrói ao longo da experiência da interpretação, do acontecimento da leitura, transformando-se ou comovendo-se; ou ambos, ou nenhum deles. Barthes (2004) também teoriza acerca do prazer do texto ou dos leitores do prazer:

Cada vez que tento “analisar” um texto que me deu prazer, não é a minha “subjetividade” que volto a encontrar, mas o meu “indivíduo”, o dado que torna meu corpo separado dos outros corpos e lhe apropria seu sofrimento e seu prazer: é meu corpo de fruição que volto a encontrar. E esse corpo de fruição é também meu sujeito histórico; pois é ao termo de uma combinatória muito delicada de elementos biográficos, históricos, sociológicos, neuróticos (educação, classe social, configuração infantil, etc.) (BARTHES, 1987, p.80, grifos do autor).

Essa passagem mostra a participação do sujeito histórico na experiência estética que, como disse o autor (ibidem), faz do prazer individual, objeto social. Ou seja, a aistheisis e katharsis, que aqui tem seu sentido estendido a todos os tipos de textos, salvaguardadas as peculiaridades e especificidades de cada tipo de leitura, também se constituem do caráter social de suas interpretações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir dos conceitos das Teorias da Literatura e da Sociologia da Leitura, estendendo alguns conceitos construídos a partir dos textos de Literatura para outros tipos e gêneros textuais, situamos o leitor na trama da leitura como sujeito de classe produtor dos sentidos dos textos. Ressaltar essa condição é uma forma de reforçar o caráter social e político da leitura, que passa pela forma como a sociedade está organizada, a distribuição da renda e consequentemente, o acesso à cultura letrada e os desdobramentos que implicam e resultam dessas conjunturas mencionadas. Por outro lado, é também fazer o exercício epistêmico de reconhecer que, embora os sentidos produzidos pelas camadas menos privilegiadas da sociedade resultem de estruturas sociais politicamente desfavorecidas, não devem ser analisados em comparação com os sentidos produzidos pelas classes mais favorecidas, porque distintas são as circunstâncias em que são produzidos, nem tomar o hegemônico como regra e o subalterno como desvio. O subalterno deve ser visto nessa qualidade para que as políticas sociais sejam revisitadas, de modo a garantir oportunidades menos díspares para a produção dos sentidos, sabendo que estes serão sempre dinâmicos, versáteis, vivos e se revestirão das realidades de seu tempo.

REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1987.

BLOOM, Harold. Um mapa da desleitura. Trad. Thelma Médice Nóbrega. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira da Educação, v. 11, n. 19. Jan-abr 2002.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 1990.

______. (org.). Práticas de leitura. Trad. Cristiane Nascimento. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

COSTA LIMA, Luiz. (org.). A literatura e o leitor: textos da estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

CULLER, Jonathan. Sobre a desconstrução: teoria e crítica do pós-estruturalismo. Trad. Patrícia Burrowes. Rio de Janeiro: Record/Rosa dos Tempos, 1997.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. América Latina e os anos recentes. Trad. Sílvia Cristina Dotta e Kiel Pimenta. In: SOUSA, Mauro Wilton. (org.) Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo: Brasiliense, 1995.

PELLEGRINI, Tânia. A literatura e o leitor em tempos de mídia e mercado. Disponível em http://www.unicamp.br/iel/memorial/Ensaios/tania.html. Acesso em 18 de agosto de 2020.

QUEIROZ, Vera. Crítica, leitora, experiência. In: Crítica literária e estratégias de gênero. Niterói: EDUFF, 1997.

ZILBERMAN, Regina. A história da leitura no Brasil: sua história e suas instituições. Disponível em https://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/regina.html. Acesso em 20 de agosto de 2020.

[1] Mestre em Estudo de Linguagem pela Universidade do Estado da Bahia, Campus Salvador); Especialista em Gestão e Planejamento Educacional e Licenciada em Pedagogia, ambos pela Universidade do Sudoeste da Bahia, Campus Jequié.

Enviado: Setembro, 2020.

Aprovado: Setembro, 2020.

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