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Projeto de Letramento Familiar: Um Olhar Docente

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Projeto de Letramento Familiar: Um Olhar Docente
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MENDONÇA, Fernanda Nayara da Silva [1]

MENDONÇA, Fernanda Nayara da Silva. Projeto de Letramento Familiar: Um Olhar Docente. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 08. Ano 02, Vol. 01. pp 149-160, Novembro de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

Vivenciamos, atualmente, muitas transformações educacionais, principalmente no que concerne as atividades pedagógicas, historicamente avançamos, de maneira que descentralizamos o poder do professor.  A pesquisa aqui relatada é o trabalho com projetos de letramento, cuja proposta trata-se de uma escola aberta para as famílias e a comunidade com o intuído de, por meio da linguagem, intervir na sociedade. Essa proposta está sendo desenvolvida com professores da rede municipal de ensino situada da região rural da grande Natal, que tem por finalidade sensibilizar os docentes sobre a importância da família na escola e orientá-los com relação ao trabalho com projetos de letramento. Durante esse processo nos deparamos com os gêneros questionário e relato de experiência como uma alternativa de sensibilização e motivação dos professores. Para o aprofundamento da pesquisa nos elencamos nos estudos do letramento oferecidos por Kleiman (1995; 2001; 2005), sobre a formação do professor e projetos de letramento por Oliveira (2011), Tinoco (2008), sobre o letramento familiar Brice (2010), gênero e agência por Bazerman (2006). Para tanto utilizamos uma metodologia qualitativa de caráter colaborativo. Esta pesquisa traz colaborações para os estudos do letramento, assim como para as pesquisas sobre a formação de professores, uma vez que, no contexto da pesquisa, encontrou gêneros que impulsionaram a agência dos professores para a problemática da escola fechada.

Palavras-chave: Motivação Docente, Formação Continuada, Projetos de Letramento, Agência.

INTRODUÇÃO

Com o surgimento do movimento escolanovista com John Dewey, criado em contraponto ao tradicionalismo, vemos que o aluno deixa de ser um ser passivo e passa ser um indivíduo autônomo, aquele que constrói seus próprios conhecimentos, enquanto o professor assume um papel complementar nessa relação, tornando-se um “mediador”.

A função do professor nas salas de aula mudou ao longo dos anos, mas ele não deixou de exercer um papel essencial na vida escolar dos educandos, uma vez que é promotor de um ambiente que favorece a construção do conhecimento, ou seja, ele se tornou um ser agente[2]. Aliado a esses papeis, destaca-se também a função da família, que não se restringe apenas em levar os filhos à escola, mas é necessário também participar da sua vida escolar, incluindo-se nas atividades pedagógicas.

Uma maneira de mudar essa realidade social nas escolas tem sido favorecido com a pedagogia de projetos, no nosso caso, os projetos de letramento, que viabilizam os modos de leitura e escrita para um determinado fim. Porém, tais práticas de leitura e escrita não se delimitam às aulas de Língua Portuguesa, mas à amplitude da grade curricular do ensino básico, mesmo ela sendo fragmentada. Devemos, então, relacionar os saberes escolares com os saberes sociais.

Trabalhar com projetos de letramento, necessariamente implica numa reflexão sobre os gêneros e sua função na sociedade, porque é através deles que somos capazes de agir socialmente. Com isso o projeto em questão busca sensibilizar os docentes para a prática do letramento familiar, presença esta ainda deficitária na comunidade. É preciso que o professor incentive a participação desses pais para serem no ambiente escolar seres transformadores de ideias e construtores de novas atitudes, mas cabe ao docente incentivar e promover um espaço de socialização entre as famílias no próprio espaço escolar.

De tal modo, também o governo deve contribuir com a promoção dessa articulação, criando políticas públicas de incentivo e cumprimento desse ato também proposto nos PCN’s. Porém, há fatores externos a sala de aula que contribuem fortemente para o desaceleramento nos avanços das políticas educacionais; LDB e PPP, se tornaram incapazes e insuficientes em cooperar com as variadas e complexas situações escolares. Trata-se aqui de profissionais “largados” nas instituições de ensino e lá esquecidos pelas autoridades.

Tendo em vista tais considerações é possível levantarmos os seguintes questionamentos: Teria o professor recebido as motivações necessárias para embarcar em uma ‘nova’ proposta pedagógica (como no caso dos docentes envolvidos no projeto)?  Como os gêneros questionário e relato de experiência pode colaborar nesse processo de sensibilização do docente?

Com isso, o presente artigo visa analisar as implicações dos gêneros questionário e relato de experiência produzidos por professores da rede municipal de ensino de São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Natal, durante o processo inicial de desenvolvimento de um projeto de letramento familiar. Tal análise contemplará as reflexões de gênero do discurso conforme a Sócioretorica além de observar as contribuições dessas reflexões para o processo ensino-aprendizagem e, consequentemente, a mudança nas atividades laborais da profissão docente.

SITUANDO A PESQUISA

O presente artigo contemplará análises dos gêneros questionário e relato de experiência desenvolvidos no semestre de 2015.2 em uma escola municipal de SGA (São Gonçalo do Amarante), região metropolitana de Natal, por meio do projeto “O habitus de estudar: construtor de uma nova realidade da educação básica da região metropolitana de Natal” da UFRN, financiado pela CAPES.

Temos o foco nos Estudos de Letramento Familiar promovendo sessões reflexivas junto aos professores da escola em questão, com o intuito de dialogar e promover reflexões sobre suas práticas, e apresentar-lhes a pedagogia com projetos de letramento como uma maneira de aproximar escola-família-comunidade.

Trata-se de uma instituição situada na zona rural da cidade, a escola atua nos turnos matutino e vespertino, com 9 turmas do 1º ao 9 ano, ou seja, fundamental I e II. Sendo elas uma turma multisseriada (1º, 2º e 3º ano), uma turma de 4º ano e uma turma de 5º ano no período da manhã, e a tarde funcionam as turmas de 6º ao 9º ano, contando com o apoio de 10 professores no total.

CONCEPÇÃO DE LETRAMENTO

Conforme Soares (2009), no Brasil, o termo letramento foi usado pela primeira vez no livro “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística”, pela autora Mary Kato, no ano de 1986. Anos depois, essa palavra volta a ser empregada na capa do livro “Alfabetização e letramento”, em 1988, por Leda V. Tfouni, e em “Os significados do letramento”, de Ângela Kleiman, em 1995. Devido à necessidade de cunhar uma nova nomenclatura para essa nova visão de educação que o país passou a enxergar, surgiu a palavra letramento, que, etimologicamente, é uma tentativa de tradução da palavra literacy, termo em inglês. Esta, por sua vez, vem do latim littera, que pode ser traduzida por letra.

De acordo com Kleiman (2005) não podemos tratar como sinônimos alfabetização e letramento, uma vez que uma está contida na outra. O ato de ensinar a ler e escrever é uma das práticas de letramento que as crianças vivenciam, considerando que codificar e decodificar palavras pode ser um dos processos para agir na sociedade, se envolvendo em discussões políticas, econômicas, sociais, educacionais, dentre outras ações cívicas. Sendo assim, neste trabalho assumimos a concepção de letramento como “um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, como sistema simbólico e como tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos” (KLEIMAN, 1995).

Tendo em vista que o contexto da pesquisa se dá em uma comunidade em que muito pais ainda não dominam essa prática de letramento “alfabetização”, este se caracteriza como uma das justificativas nas quais os pais dão, pois não se sentem capazes de ajudar seus filhos na escola, ou se sentem a vontade no ambiente escolar.

Para viver em sociedade não nos basta estar de corpo presente, mas intervir no meio, e a leitura e escrita é a forma com a qual podemos interferir, e a maneira como esse processo de aprendizagem está estabelecido foi enraizado em nossa cultura. Grande parte da população acredita que ditado de palavras, separação silábica, cópia de textos, estudos gramaticais isolados, redações etc. são maneiras de efetivação da prática de leitura e de escrita, e caso alguns desses processos não ocorram é a prova de que as escolas estão ensinando errado.

Ribeiro & Maimoni (2006) destacam como a leitura e a escrita foi peça chave para as grandes revoluções e como ela intensificou a hierarquicamente a detenção do poder por aqueles que a dominavam. O mesmo acontece na sociedade atual, em que a palavra é o elemento de poder, quem faz uso da leitura e da escrita para dar voz aos seus pontos de vista se sobressai aos demais.

Experimentar esse fato motiva os pais e os professores a acreditarem mais no potencial dos seus filhos e alunos, uma vez que na proposta do letramento os educandos deixam de ser silenciados e passaram a ter voz na sociedade, o que antes se restringia às camadas altas.

Mas tais ações e resultados só são possíveis quando utilizado estratégias de convencimento que favoreçam a sensibilização dos professores que se tornarão mais autônomos e suas aulas mais críticas, mostrando aos seus alunos que o espaço de aprendizagem não se limita a sala de aula.

Portanto, todo e qualquer indivíduo, mesmo antes de serem alfabetizados, já são indivíduos letrados, pois estão inseridos em uma sociedade e interagem nesse ambiente, influenciando e sendo influenciado pela cultura, esta definidora da personalidade. É preciso perceber que não nos basta aprender a ler por ler, ou a escrever por escrever, mas ler e escrever para participar socialmente. Muitas escolas ainda não reconhecem a importância da ressignificação do ensino, e principalmente das práticas de leitura e escrita. Isso mostra a dificuldade em desenraizar esse aspecto tradicional ainda tão cultural.

GÊNERO E AGÊNCIA

Nos estudos do letramento fala-se ainda do caráter agentivo das práticas, em que todos os atores envolvidos nas ações são agentes de letramento. De acordo com BAZERMAN (2006, p. 11) a agência “fornece-nos meios pelos quais alcançamos outros através do tempo e do espaço, para compartilhar nossos pensamentos, para interagir, para influenciar e cooperar”. Uma vez que os autores são agentes, pessoas que através de suas escritas têm aumentado e mudado o pensamento e ação da comunidade. Para tanto, esses compartilhamentos são feitos por meio dos gêneros discursivos (concepção bakhtiniana).

Bakhtin, em contraponto aos estudos saussurianos viu que a língua não se restringe apenas a um fato social que parte da necessidade de comunicação, ela é também fala, de natureza não individual ligada às estruturas sociais. Sendo assim, a língua propicia uma transformação social, uma vez que estabelece relações de poder e de conflitos. Dadas as evoluções sociais, as ideologias de um povo vivem em constante mudança, portanto, esta influencia e modifica a língua. Partindo dessas concepções primárias e fundamentais, observa-se que os estudos do letramento muito se aproximam delas, uma vez que parte da premissa de que a língua (oral ou escrita) é capaz de transformar a realidade social do indivíduo.

Tomando posse dessa visão da interação verbal na linguagem, observamos a importância da comunicação e junto a ela o enunciado, que para Bakhtin é a unidade base da língua de natureza ideológica, ou seja, não pode ser compreendida fora do seu contexto social. Percebamos que, um dos vieses dos estudos do letramento é sensibilizar o outro e essa prática é feita por meio dos enunciados, e esses enunciados, logicamente, são carregados de ideologias, pois é a partir da argumentação que estimulamos o outro a refletir sobre os problemas comumente encontrados em seus contextos sociais e incitá-los a desenvolver estratégias, na tentativa de mudar essa realidade.

Todas as esferas sociais estão ligadas por enunciados (orais ou escritos), ou seja, são permeados pela linguagem, visando atingir objetivos específicos fazendo uso de estilos, de conteúdos temáticos e de construções composicionais que estão embrincados no enunciado e atendendo a necessidade de comunicação. Cada campo se utiliza da língua para construir seus enunciados que são relativamente estáveis e esses são chamados de gêneros do discurso.

Dado a multiplicidade do gênero, também devemos reconhecer a pluralidade do (s) letramento (s). Vivemos em uma sociedade em constante mudança, assim como a ressignificação das práticas de leitura e da escrita, Rojo (2009) nos faz refletir sobre essa importante observação:

Podemos dizer que, por efeito da globalização, o mundo mudou muito nas duas últimas décadas. Em termos de exigências de novos letramentos, é especialmente importante destacar as mudanças relativas aos meios de comunicação e à circulação da informação (ROJO, 2009, p. 105).

Desse modo, enxergamos essa necessidade de ‘novos letramentos’ na formação dos professores, que, na nossa pesquisa, afirmam desconhecer o trabalho com ‘projetos de letramento’ e falta-lhes a motivação para embarcar nessa ‘nova’ concepção. Tal motivação não vem da gestão escolar, nem da prefeitura e nem da sua parceira fundamental, as famílias.

É evidente que com as tecnologias da informação e da comunicação (TIC) novos gêneros, novas práticas e eventos de letramento surgiram e surgem a todo momento, por essa razão as escolas, e consequentemente, os professores devem readequar suas práticas a partir do seu contexto. Percebemos então, em nossos encontros junto aos professores, que o gênero mais utilizado por eles é o relato de experiência, uma maneira de desabafo. Chegamos a conclusão que é por meio deste gênero que podemos mudar a realidade do professorado da escola, tal realidade é local, mas se assemelha a muitos outros.

Pensar em letramentos é considerar a infinidade de práticas sociais que envolvem a leitura e a escrita, elas podem ser escolares e não escolares. Para Rojo (2009, p. 107), o trabalho com os letramentos múltiplos significa deixar de “ignorar ou apagar os letramentos das culturas locais de seus agentes (professores, alunos, comunidade escolar) e colocando-os em contato com os letramentos valorizados, universais e institucionais”.

Portanto, “[…] os gêneros moldam os pensamentos que formamos e as comunicações através das quais interagimos” (BAZERMAN, 2006. p. 23). A situação descrita por Bazerman evidencia as situações de discussões nos encontros entre professores que promovemos em nosso projeto, o gênero relato é algo cognitivo, todas as colocações dos docentes são com base em suas experiências, sejam elas aspectos de sala de aula ou resgatando suas memórias escolares.

PROJETOS DE LETRAMENTO FAMILIAR

Os estudos de letramento familiar estão sendo pioneiramente desenvolvidos em países como, Estados Unidos, Austrália e Canadá, com os Programas de Letramento Familiar. Segundo Caspe (2003) o termo “letramento familiar” está sendo estudado por alguns vieses, são eles:

(1) para descrever o estudo do letramento na família, (2) para descrever um conjunto de intervenções relacionadas com o desenvolvimento de alfabetização de crianças pequenas, e (3) para se referir a um conjunto de programas concebidos para melhorar a alfabetização habilidades de mais de um membro da família (Britto & Brooks-Gunn, 2001; Handel, 1999; Wasik et al., 2000)”

Entendemos que para o desenvolvimento de qualquer uma dessas vertentes faz-se necessário um olhar mais sensível para os professores, já que estes são os agentes responsáveis por efetivar a presença desses familiares na escola.

Uma alternativa para aproximar escola e família é por meio dos projetos de letramento, que foi definido Kleiman (2000) como:

[…] um conjunto de atividades que se origina de um interesse real na vida dos alunos e cuja realização envolve o uso da escrita, isto é, a leitura de textos que, de fato, circulam na sociedade e a produção de textos que serão lidos, em um trabalho coletivo de alunos e professor, cada um segundo sua capacidade. O projeto de letramento é uma prática social em que a escrita é utilizada para atingir algum outro fim, que vai além da mera aprendizagem da escrita (a aprendizagem dos aspectos formais apenas), transformando objetivos circulares como “escrever para aprender a escrever” e “ler para aprender a ler” em ler e escrever para compreender e aprender aquilo que for relevante para o desenvolvimento e a realização do projeto (KLEIMAN, 2000, p. 228).

Desse modo, os projetos de letramento partem de uma situação problema detectado na comunidade, e a partir disso, busca maneiras de intervir, por meio dos gêneros discursivos, na comunidade com o intuito de colaborar para a solução da problemática. Essa maneira de conduzir o processo ensino aprendizagem exige do professor flexibilidade, ou seja, que esteja sempre disposto a ouvir os demais agentes envolvidos no projeto, e aceitar as várias mudanças que podem ocorrer no decorrer do projeto.

Entendemos que estudar tais conceitos e aplicá-los em nosso projeto de letramento familiar trará grandes contribuições para o desenvolvimento do mesmo, uma vez que estamos imersos em uma comunidade rural, cuja cultura é acreditar que somente a escola é incumbida de educar seus filhos, haja vista que pais “analfabetos ou sem estudo” se sentem incapazes de colaborar com algum conhecimento. Porém, na perspectiva do letramento as práticas de leitura e escrita em casa e as experiências dos pais são fundamentais para o aprimoramento do processo ensino aprendizagem.

Professores, alunos e famílias envolvidas em um trabalho, cujo objetivo é participar ativamente dos problemas enfrentados pela comunidade na tentativa de solucioná-los, nos faz intervir no modelo ditatorial que ainda vivem os moradores desta comunidade, assujeitados espontaneamente.

O GÊNERO QUESTIONÁRIO

Para a realização do projeto de letramento em Guanduba, necessitamos envolver a comunidade escolar como um todo, para tanto, foi preciso aplicarmos, inicialmente, um questionário com os professores. Tivemos um retorno de 7 questionários respondidos, logo percebemos um déficit no quadro de professores.

Dos 7 questionários respondidos, 6 professores são casados e possuem filhos, sendo apenas um solteiro. Dessa maneira, há um interesse e uma ansiedade dos docentes em participar do “projeto de letramento familiar”, haja vista que reconhecem a importância da família e de toda a comunidade no âmbito escolar, descrita por um dos professores como um “Elo necessário para o desenvolvimento satisfatório dos alunos” (J.N).

Gráfico 1 – Residência dos professores. Fonte: acervo da pesquisadora
Gráfico 1 – Residência dos professores. Fonte: acervo da pesquisadora

Com base no gráfico 1 podemos perceber que a maior parte do quadro de professores não reside na comunidade, logo, trata-se de uma comunidade simples e com pouco estudo, tendo em vista que a principal fonte de renda de seus habitantes são as fábricas de cerâmica, de tecido e a agricultura. Além disso, por ser uma cidade pequena, muitos professores possuem parentes que residem na comunidade, e por essa razão possuem uma estreita relação com muitas famílias.

Dentre os professores que já possuem filhos, todos relatam suas atividades junto aos filhos, como o acompanhamento na escola, durante as atividades de casa, os trabalhos de pesquisa e incentivando para os estudos. Porém, mostram-se com “falta de tempo” para ir até a escola participar das reuniões de pais e mestres, assim se tornam contraditórios em seus relatos, uma vez que acham essencial o estreitamento nos laços entre família e escola.

A partir da leitura dos questionários dos professores percebemos que a participação dos familiares na escola é limitada, restringe, muitas vezes, apenas a presença destes no ato da matrícula. Aqueles pais que se envolvem se limitam a comparecerem à escola em datas comemorativas e a maioria dos presentes são as mães, haja vista a configuração familiar ainda arcaico, pois são elas que cuidam do lar e dos filhos, enquanto os pais trabalham fora. A medida que os professores fazem essas observações em seus questionários, eles se tornam “professores pesquisadores”.

O GÊNERO RELATO DE EXPERIÊNCIA

Estão envolvidos nesta pesquisa docentes com muito tempo de carreira, 32 anos, e iniciantes, com 4 anos de experiência. O tempo não mede a capacidade de nenhum profissional, pelo contrário, suas vivências os tornam ainda mais capazes de ajudar os alunos a construírem seus conhecimentos. Na docência, considerar a história de vida do professor diz muito sobre o profissional que é, e por consequência, no profissional que pode se tornar, posto que ao refletir sua história de vida e sua atuação é uma maneira de repensar suas práticas.

A professora A.S. relata sua vida difícil, cuidando dos seus irmãos e da casa quando ainda era criança, isso se tornou um fator primordial para garantir hoje à sua filha uma vida focada nos estudos: “Muitas pessoas querem que eu inscreva minha filha nesses projetos do governo que insere os jovens no mercado de trabalho, mas logo repreendo dizendo o quanto trabalho duro para que minha filha só estude”. Por essa razão, mesmo com tantas dificuldades, como a falta de tempo, a professora tenta participar ao máximo das atividades escolares da filha.

Participar ativamente da vida escolar dos filhos é mérito para poucos, alguns dos professores relataram que necessitam ou necessitaram trabalhar mais de um turno para garantir um ensino de qualidade para os filhos, e por esse motivo fica limitado sua participação na escola. Com isso, observa-se que apesar de pregar o convívio familiar como aspecto importante para o sucesso escolar dos educandos, não conseguem aplicar tal conceito em seu próprio lar.

“Tive um aluno que não interagia com ninguém e não avançava na leitura e na escrita, mas quando foi agora, ele ‘desarnou’ e tá lendo melhor do que ninguém… encontrei com a mãe dele e ela me relatou que agora o menino conversa no facebook e tá até namorando. Então… Assim… a gente conquista primeiro o aluno e depois essa conquista se estende até em casa… ela estava feliz com a mudança do menino.” (V.A.)

Podemos observar nessa assertiva, que se trata de um relato de uma das professoras integrantes do ‘projeto de letramento familiar’, o prazer e o sentimento de realização da docente ao receber o reconhecimento de uma mãe, que partiu da construção de uma amizade entre a professora e o aluno. Parece-nos que a situação descrita pela professora tinha se perdido em sua memória, e ao lembrar-se dela ela se sente realizada e admirada pelos demais professores.

Isso significa que, a participação da família na escola não favorece apenas ao aluno, como também ao professor, que se sente mais confiante, mais estimulado e mais gratificado com o retorno positivo de tanta dedicação, estreitando assim as relações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A educação está em constante mudança, sempre na tentativa de melhorar o processo de ensino aprendizagem, não só para os alunos, mas também para os professores, haja vista que estes não apenas ensinam, mas aprendem com seus alunos e suas experiências. Logo, os projetos de letramento favorecem esse ambiente de trocas de conhecimento.

Com isso, percebemos que os professores da escola em questão sentem a necessidade de aprender a trabalhar com projetos, uma vez que não possuem apoio das instâncias superiores com o fornecimento, por exemplo, de uma formação continuada. Tal situação implica na desmotivação dessa classe. Porém, a ausência de um suporte de autoridade e tecnológico não implica na impossibilidade de projetar.

Ao aplicarmos os gêneros questionário e relato de experiência percebemos que tais textos favoreceram nessa motivação, o questionário projeta um sentimento de pesquisador, abrindo um leque de ideias e de iniciativas para uma possível mudança; e o relato de experiência já faz parte do discurso dessa classe profissional, seja ele analisando as situações de sala de aula ou resgatando suas memórias escolares, senso assim impulsionado por meio dos gêneros discursivos.

Na medida que fazemos uso destes gêneros estamos despontando o papel de “agente”, do poder cívico que a leitura e a escrita pode despontar dentro de sua comunidade, dando voz ao professor antes silenciado.  É nesse ambiente de constante transformação que os gêneros devem se inserir. Claro que não podemos padronizar estas práticas e textos, porém deveremos adequá-los às situações que os são oportunizados.

REFERÊNCIAS

BAZERMAN, C. Gênero, agência e escrita. São Paulo: Cortez, 2006.

CASPE, M. (2003). Family Literacy: a review of programs and critical perspectives. Disponível em: <http://www.hfrp.org/publications-resources/browse-our-publications/family-literacy-a-review-of-programs-and-critical-perspectives>

KLEIMAN, A. B. (Org.) Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

(Org.). A formação do professor. Campinas: Mercado de Letras, 2001.

Preciso “ensinar” o letramento? Não basta ler e escrever? Campinas: Cefiel/UNICAMP; MEC, 2005.

OLIVEIRA, M. S.; KLEIMAN, A. B. (orgs.). Letramentos múltiplos: agentes, práticas e representações. Natal: EDUFRN, 2008.

OLIVEIRA, M. S. Projeto: uma prática de letramento no cotidiano do professor de língua materna. In: OLIVEIRA, Maria do Socorro e KLEIMAN, Angela B. (Orgs.) Letramentos múltiplos: agentes, práticas, representações. Natal/RN: EDUFRN, 2008.

OLIVEIRA, M. S.. Gêneros Textuais e Letramento. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 10, p. 325-345, 2010.

OLIVEIRA, M. S. O papel do professor no espaço da cultura letrada: do mediador ao agente de letramento. In: SERRANI, Silvana (org.). Letramento, discurso e trabalho docente. Vinhedo: Editora Horizonte, 2010b.

OLIVEIRA M. S.; TINOCO, G. A.; SANTOS, I. B. de A. Projetos de letramento e formAÇÃO de professores de língua materna. Natal/RN: EDUFRN, 2011.

B. V. Literacy in theory and practice. Cambridge: University Cambridge, 1984.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

TINOCO, Glícia M. A. de M. Projetos de letramento: ação e formação de professores de língua materna. Tese (doutorado). Instituto de Estudos da Linguagem. Universidade Estadual de Campinas. São Paulo, 2008.

[1] Graduada em Letras, habilitação língua portuguesa e literaturas pela UFRN e pós-graduanda do PPgEL.

[2] Adotamos a concepção de agência do autor Charles Bazerman. Concepção esta que será aprofundada mais adiante.

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