Uma reflexão educativa sobre a teologia e a comunidade

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/teologia/teologia-e-a-comunidade
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ARTIGO ORIGINAL

GERONE, Lucas Guilherme Teztlaff de [1]

GERONE, Lucas Guilherme Teztlaff de. Uma reflexão educativa sobre a teologia e a comunidade. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 09, Vol. 01, pp. 56-71. Setembro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/teologia/teologia-e-a-comunidade, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/teologia/teologia-e-a-comunidade

RESUMO

Contexto: Ao longo da história humana e bíblica, a religião influenciou os fatores sociais, políticos econômicos da comunidade, criando assim, uma reflexão educativa sobre a teologia e a comunidade. Objetivos: refletir sobre a teologia e a comunidade em uma ótica educativa, apresentada aqui no entendimento etimológico dos termos de estudo, no panorama histórico da relação entre a religião e a comunidade, e no panorama histórico bíblico do antigo e novo testamento sobre as comunidades, e nas dimensões sociais e políticas. Metodologia: um estudo de caso. Resultados: a reflexão sobre a teologia e a comunidade ergue uma ótica educativa, no entendimento etimológico dos termos de estudo; nas orientações e práticas encontradas ao longo da história da religião e da comunidade; no aprendizado das Leis, condutas morais e éticas ensinados na religião e na comunidade. Considerações: Na modernidade erguem-se novos conhecimentos teológicos que se contextualizam com os conhecimentos científicos, com os valores morais e éticos, e com a realidade e a existência humana. Neste contexto, surge uma reflexão educativa para a teologia no aprendizado e no conhecimento, tais como, as questões sociais, econômicas, políticas, liberdade e igualdade dentro da sociedade.

Palavras-chave: teologia, comunidade, educação.

INTRODUÇÃO

A reflexão teológica sobre a comunidade está dentro da teologia prática, em que existe uma abordagem educativa sobre o papel da teologia nos fatores da comunidade, tais como, sociais, políticos e econômicos.

Em uma perspectiva educativa sobre o entendimento e conhecimento da comunidade, as questões religiosas aparecem como um componente central da humanidade, em que a religião tem influenciado diversas civilizações. Na visão judaico-cristã, é possível encontrar práticas sociais que se relacionam com a crença religiosa em uma conjetura educativa, como por exemplo, os relatos encontrados no na Bíblia Sagrada remetem a uma construção cultural, social, política e econômica.

NA sociedade moderna, por influência da reforma protestante, o conhecimento teve maior autonomia científica em diversas áreas. Isso trouxe novas descobertas que beneficiaram a sociedade.

Dentro de uma visão educativa, a pós-modernidade demanda da teologia um conhecimento contextualizado com as diferentes dimensões contemporâneas, sociais, culturais e econômicas. Surgido assim, novos conhecimentos teológicos que procuram responder as questões da comunidade.

1. O QUE É, E QUAL É A RELAÇÃO ENTRE TEOLOGIA E COMUNIDADE

A definição das noções etimológicas, das relações e do histórico sobre teologia e comunidades, é mais que um ponto de partida, é algo essencial para a sustentabilidade e verificação de qualquer estudo.

O termo teologia origina-se do grego theos = “divindade” + logos = “palavra”, ou, “estudo acerca da divindade, assim como, sua essência, existência e atributos. O termo “teologia” surge em Platão em seu valor para a educação política. Para Aristóteles “teologia” é o estudo metafísico do ente em seu ser (considerando a metafísica ou “filosofia primeira”, a mais elevada de todas as ciências). Para Agostinho (354-430) o termo teologia passou a referenciar as disciplinas relacionadas a Deus. Entre os séculos IV e V, com o significado de conhecimento e saber cristão acerca de Deus (CNTB, 2015).

A palavra Comunidade origina-se do latim communitatem, que constitui uma vida em conjunto. Portanto, comunidade pode indicar um povo, uma sociedade e um estado. Podemos ensinar,  também definir como comunidade um grupo de pessoas unidas em torno de uma ideologia ou cultura, ou interesse em comum (ALECRIM, 2015), como por exemplo, as igrejas e as comunidades religiosas. Neste contexto, podemos encontrar a primeira relação entre teologia e as comunidades, onde as igrejas e as comunidades religiosas (que são sujeitos de estudos da teologia) estão inseridas dentro da noção de comunidade. A segunda relação está no objeto de estudo da teologia, sendo “teo” = Deus um ser que não se pode conhecer em plenitude, mas, através da vivência e experiência da fé, algo que ocorre dentro do contexto de vida dos fiéis.

Por conta destas relações, o estudo teológico sobre comunidades está inserido dentro da teologia prática, que aplica considerações teológicas ao cotidiano e também estuda a forma que a Igreja comunica a fé e as suas verdades, assim como as variadas ações de santificação ou de outra natureza da Igreja na sociedade em geral.

2. PANORAMA HISTÓRICO BÍBLICO SOBRE AS COMUNIDADES

Em todas as civilizações as religiões influenciam o desenvolvimento humano, seja ele, social, político, educacional ou cultural. Facilmente encontramos nos estudos antropológicos ou sociológicos, a presença das religiões como componente central para entender e compreender a humanidade. A Bíblia Sagrada, como um livro educativo, tem sido um recurso para isto, pois, ela retrata a vida de diversas civilizações, como por exemplo, a história da comunidade de Israel e as primeiras comunidades cristãs.

2.1 NO ANTIGO TESTAMENTO

No Antigo Testamento o capítulo doze do livro de Gênesis, narra a história da comunidade de Israel e dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó e suas famílias. O livro de Êxodo conta a história do povo de Israel que por quarenta anos foram conduzidos por Moisés rumo a Canaã. Nesta empreitada Deus falava ao seu povo através de Moisés, do tabernáculo e dos Dez Mandamentos (GILBERTO, 2014). Para o Povo de Israel a principal Lei moral e divina eram os Dez Mandamentos, o pilar educativo cívico do povo eram as questões sobre a obediência e a adoração a Deus. Com uma função de educador espiritual, cabia a Moisés analisar e responder as orientações de Deus e tomar as melhores decisões para o povo de Israel. Após a morte de Moisés as decisões para o povo são tomadas por lideres das famílias, o que levou a organização das 12 tribos de Israel que eram lideradas por Profetas, dos Juízes e dos Sacerdotes no qual o último deles foi Samuel (GERSTENBERGER, 2007).

Após a morte de Samuel, a comunidade de Israel pede um rei conforme os moldes dos cananitas (1Sm 8.5,20), por definição profética e por eleição popular (1Sm 10,1ss; 11.14ss),  o  rei nomeado é Saul. O segundo rei de Israel é Davi, (I Sm 16.1). Depois da morte de Davi, Salomão toma o trono e implanta mudanças significativas para a comunidade de Israel com as construções de fortalezas militares, um palácio e um templo, rotas comerciais, crescimento da cultura intelectual, e expressões educativas com a arte e a poesia.

Roboão, filho de Salomão,  se torna rei  e o território de Israel foi dividido em dois, no Norte, o reino das Dez Tribos, chamado de Reino de Israel, no Sul, o Reino das Duas Tribos, chamado de Reino de Judá, cuja capital ficou sendo Jerusalém, que posterior a invasão do babilônio Nabucodonosor sofre influências educacionais, no campo político e cultural (ALEXANDRE, 2015).

2.2 NO NOVO TESTAMENTO

No período do Novo Testamento encontramos algumas características das comunidades. O Templo religioso era o centro da comunidade, como um espaço educativo que se aprendia as Leis e também era um centro de câmbio, de articulações políticas e sociais (GASS, 2007). Dentro das características da comunidade e influência do templo religioso percebe-se que:

a) Os Saduceus, pertenciam à camada mais rica da Judeia e detinham o poder econômico, domínio de terras e comércios, além de cargos no Templo. A maior parte da população era pobre e vivia principalmente da agricultura, pecuária, pesca e artesanato.

b) Os Escribas que diziam o que era certo e errado na comunidade pertenciam ao grupo dos Fariseus (MARCOS 2: 16; 7: 5).

c) Os Sacerdotes controlavam o Templo e por meio dele, toda a econômica do país.

d) Para os judeus as pessoas puras eram as que iam ao Templo pagar seus tributos, e com isso, fortaleciam a economia.

2.3 A VIDA DE JESUS EM COMUNIDADE

Jesus foi uma pessoa que viveu dentro de um contexto humano, ou seja, pertencia a uma família, trabalhava, tinha opinião política, e uma condição econômica. Jesus era de uma aldeia simples chamada Nazaré. Seus moradores eram marginalizados e pobres, tratados como incapazes e ladrões (JOÃO 1: 46; 7: 52). Todavia, Jesus trabalhava como carpinteiro e era um cidadão honesto, pagava impostos aos sacerdotes e aos romanos (MARCOS 12,13s).

Dentro de um contexto divino, Jesus inaugura uma nova história entre Deus e a humanidade, conforme o apóstolo João o Verbo se fez carne e habitou entre nós. (JOÃO, 1: 14) a partir desse fato, não é mais o Deus que falava somente por meio dos profetas e sacerdotes, mas sim,  o Deus que participa e vive na existência humana, sente, se compadece e principalmente ama. O amor de Deus mediante o Filho é para que a humanidade não pereça e tenha vida eterna (JOÃO 6: 40). Ou seja, um propósito de redenção única do ser humano. Jesus, cura, restaura a dignidade social, mas também proporciona eternidade.  Isso fica bem claro nas mensagens de Jesus ao falar sobre Reino Deus que é um Reino estabelecido no Céu e na Terra. Portanto, quem aceita a mensagem de Jesus é marcado por uma nova dimensão de carácter espiritual e moral, além de o modo de viver em comunidade (QUEIROZ, 2015).  Não é mais uma comunidade que se relaciona entre o olho por olho ou dente por dente, mas, apreende a importância da justiça e paz, da alegria no Espírito Santo (ROMANOS 15: 17). A comunidade torna-se um espaço educativo para a vida em solidariedade e perdão (MATEUS 5: 38-42).

2.4 A VINDA DO ESPÍRITO SANTO, A IDENTIDADE DA COMUNIDADE

Jesus antes de subir aos céus reintegra a relação entre seus seguidores com Deus por meio do Espírito Santo, “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco” (JOÃO 14:16) A vinda do Espirito Santo marca a identidade da primeira comunidade cristã e  uma nova história para os seguidores de Cristo. Ele ensinou os primeiros cristãos a enfrentarem as perseguições e a testificarem uma nova vida. Isto significava uma reeducação, adotar uma nova postura espiritual e moral na comunidade. Por exemplo, no livro de Atos dos Apóstolos fala-se sobre a identidade das primeiras comunidades cristãs:

a) Vivência em irmandade: comunhão, partir do pão e orações (At. 2: 42);

b) Todos tinham tudo em comum (At. 2: 44,45) – voluntariedade (At. 4: 32);

c) Instituição da diaconia – grupo de homens para cuidar dos necessitados (At. 6: 1-6);

d) Importância dada às mulheres na igreja – exemplo Dorcas liderança nas obras de caridade (At. 9:36).

3. NA IDADE ANTIGA E MÉDIA

O período da história antiga entre o ano 30 e o ano 692 foi dividido em duas etapas na história do povo de Israel: a primeira é do ano 33 ao ano 313, em que os Romanos perseguem os cristãos até o Édito de Milão (313 d.C.), depois disso, ocorreu o fim da perseguição e foi permitida a propagação do cristianismo. A segunda etapa inicia-se com a conversão do imperador Constantino. Oitenta anos mais tarde, em 391 o cristianismo passou a ser a religião oficial de Roma (ARCE, 1992).

Com a crise do império Romano e sua conversão à religião cristã, a igreja passa a ganhar poder político, econômico e social, nem mesmo a queda do império no século V e início da idade média impediu o crescimento do Cristianismo (ARCE, 1992).  O cristianismo passa a ser a maior instituição na idade média. Neste período o clero (lideres religiosos) e especialmente o papa, eram as figuras centrais do poder, acima da nobreza dos servos e dos camponeses. Alguns desses grupos, no início do século XVI acabam condenando o poder autoritário da Igreja Católica, como por exemplo, Martinho Lutero, um monge agostiniano que publicou suas 95 teses contra o poder da igreja. Chamado de protestante, Lutero teve apoio dos servos e camponeses que estavam cansados das barganhas e indulgências da igreja católica. (PILETTI, 2008). A reforma protestante trouxe uma nova relação entre a igreja e a sociedade, as cidades que aderiram à reforma protestante, como por exemplo, Wittenberg, tiveram alterações positivas na política, educação, e no contexto social (PILETTI, 2008).

3.1 A INFLUÊNCIA DA REFORMA PROTESTANTE NA FORMAÇÃO DA MODERNIDADE

A Reforma Protestante educava que existia uma liberdade do homem perante Deus, sem necessidade de intermediários, instituições ou dogmas. Essa também era a visão do iluminismo, que buscava um avanço no conhecimento científico e lutava contra a ignorância intelectual causada pelo regime religioso (PERRY, 2002).  Com a reforma protestante houve quebra no poder autoritário da Igreja Católica. A sociedade moderna passou a ser mais livre, por exemplo, teve maior autonomia científica em diversas áreas do conhecimento humano que trouxe novas descobertas que beneficiaram a sociedade.

3.2 A TEOLOGIA E A PÓS-MODERNIDADE

Os desafios à teologia são vários na pós-modernidade, o primeiro é se orientar em um período totalmente relativo. Por um lado, há uma ideia de se viver um mundo pós-moderno, por outro lado, a pós-modernidade é apenas uma face da modernidade (GONÇALVES, 2005). O segundo desafio, talvez o mais significativo, é contextualizar os novos conhecimentos científicos e valores morais e éticos com a fé ou a religião. Neste contexto, surge na pós-modernidade teologias com reflexões da fé cristã em diversos acontecimentos na contemporaneidade.

4. TEOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS

Nas últimas décadas, a igreja decide ter em seus anseios uma renovação litúrgica, bíblica e pastoral que se enquadre em uma sociedade pós-moderna, como por exemplo, na Igreja católica, iniciativas como a criação da doutrina social da igreja e o Concílio Vaticano II incentivou a criação das Comunidades Eclesiais de Bases, que geralmente são constituídas por membros da igreja na comunidade local, visando o anúncio do evangelho em articulação com a realidade educativa, no que tange a política e ao social (GONCALVES, 2005).

No cenário protestante, eventos como: o Congresso Mundial de Evangelização em Berlim em 1966; o I Congresso Latino-Americano de Evangelização em Bogotá em 1969, com o tema “Ação em Cristo para um Continente em crise” e, o Congresso Mundial de Evangelização em 1974 em Lausanne-Suíça refletiram e estruturaram a base para a missão da igreja protestante na contemporaneidade (SANTOS, 2015).

Diante disso podemos afirmar que é no século XX que as igrejas católica e protestante iniciam ações que visam contextualizar a fé cristã na pós-modernidade, além de proporcionar respostas para as questões espirituais e religiosas que impele para Deus, necessariamente precisa também responder à questões ligadas ao modo de vida dos indivíduos, como, a cultura e educação,  a política e o contexto social. Esta contextualização da fé com outras dimensões importantes do indivíduo influenciou significativamente o processo teológico da vivência e a prática da fé. Surgem então teologias contemporâneas:

a) A Teologia da Libertação e Teologia da Missão Integral. São teologias mais frequentes em países emergentes. Na América Latina tem um discurso entre o evangelho com a igualdade e a justiça social na sociedade. Com decorrer dos tempos, os indivíduos de classe mais baixa da sociedade foram os principais sujeitos defendidos na Teologia da Libertação e Integral. Ambas alegam que é necessário libertar as pessoas oprimidas não somente no sentido espiritual, mas também do sistema capitalista. Portanto, é necessário promover um evangelho integral, que cuide da alma, do corpo, e promova educação e qualidade de vida. Muitos confundem as teologias da libertação e integral com movimentos comunistas e com ideologias de Karl Marx, todavia, apesar de ter algumas semelhanças, como por exemplo, a questão da igualdade e contra a prática capitalista, ressalta-se que a verdadeira proposta da teologia da libertação e Integral é proporcionar salvação na integra para o individuo. Isso significa que além do resgate e salvação da alma, é necessário também, proporcionar dignidade e propósito de vida, seja a pessoa pobre ou   Todos são criaturas de Deus e merecem igual modo atenção, assim, como Jesus fazia, quando anunciava vida e vida em abundância  (Jo 10:10) tanto para ladrões, pobres, prostitutas, viúvas, pessoas com deficiências, mas, também, para ricos, mestres, religiosos e outros com condições sociais mais favoráveis na vida. Com a visão de alcançar a todos, a Teologia da libertação e missão integral fortalecem as ações pastorais ou capelanias, o que eram antigamente um serviço a mais de um líder religioso prestados aos doentes, presos ou órfãos, na atualidade as ações pastorais ou capelanias passam a ter um serviço mais atuante e plural. Leigos e diferentes líderes religiosos em parceria com órgãos governamentais e instituições sem fins lucrativos desenvolvem a assistência religiosa e biopsicossocial para diferentes indivíduos e contextos, como, aos indígenas, aos imigrantes, aos presos, aos estudantes e juventude, aos doentes, aos idosos, aos pescadores, às pessoas com deficiência, aos empresários e operários, nos espaços políticos e culturais (SANTOS, 2015).

b) A Teologia afrodescendente busca o desejo de igualdade e liberdade dos afrodescendentes. Esta luta é antiga, começa com As Leis Áureas sobre a libertação dos escravos negros, que antes eram tratados como objetos, ao invés de ser humano. Todavia, a libertação da escravidão não foi suficiente para trazer dignidade aos afrodescendentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, mesmo depois da libertação, houve um período de segregação racial, em que afrodescendentes não tinham o direito de cultuar com os brancos, e direitos iguais na sociedade, como frequentar a mesma escola. Diante desta situação um jovem batista americano afrodescendente chamado Martin Luther King passa a lutar pelos direitos dos afrodescendentes por uma busca de igualdade como cidadãos e cristão. A luta de King lhe conferiu o prêmio Nobel da paz em 1964, mas também lhe custou à vida, foi assassinado em 1968 (GIBELLINI, 1998).

c) A teologia feminista inicia-se no século XIX com um grupo de mulheres cristãs norte-americanas sob a liderança de Elizabeth Cady Stanton, o grupo estudava as passagens bíblicas onde havia referência à mulher. Em 1911 na Grã-Bretanha a “Aliança Internacional Joana D’Arc”, propunha a igualdade dos homens e das mulheres entre as classes sociais e religiosas. As mulheres começam a sublinhar a questão de gênero em que a bíblia não pode ser lida somente com o enfoque masculino (GIBELLINI, 1998). A luta destas mulheres acarretou uma vitória a partir de 1956 a 1965, quando principais correntes do protestantismo começaram ordenar as mulheres ao pastorado. Na igreja católica, por ocasião do Concílio Vaticano II, um grupo de mulheres ganha liberdade de expressão, lideradas por Gertrud Heinzelman, manifestam-se sobre a diferença entre os sete sacramentos para o homem e seis sacramentos a mulher (GIBELLINI,1998). Atualmente, as mulheres possuem mais espaços no meio social e religioso, todavia, ainda é necessário se ter novas conquistas, como a igualdade salarial entre homens e mulheres, e mais cargos de liderança feminina, tanto religiosa como em outros ramos da sociedade.

d) A teologia emergente tem influências filosóficas da crítica à religião. Para os teólogos emergentes, a ortodoxia tradicional não consegue mais comunicar o evangelho de forma relevante para uma sociedade pós-moderna, por isso, há um descontentamento e critica as questões religiosas tradicionais. Sendo assim é de suma emergência uma interpretação bíblica sobre o mundo pós-moderno, que valorize mais a espiritualidade como uma forma genuína de conexão com o Divino (MEISTER, 2006). Os encontros dos grupos emergentes geralmente acontecem em praças, parques, restaurantes ou em casas. A liturgia é dinâmica, sem uma regra ou roteiro estabelecido. Os membros podem cantar músicas “seculares” que contenham uma boa letra para reflexão da vida; recitar poemas; ler textos bíblicos alternados. Há participação de todos os membros no desenvolvimento do encontro, não há uma figura centralizada para guiar as atividades. Frequentemente os membros levam comida e servem-se durante o momento da reunião para representar a Ceia. Não há um momento para as ofertas e dízimos, os gastos e demandas financeiras muitas vezes são divididos entre os que frequentam os encontros. Quando há ofertas, tais costumam ser aplicadas em projetos sociais ou para ajudar alguém. Não existe um cumprimento de horário ou de frequência dos membros, vão aos encontros quem quer e saí na hora que achar melhor.

e) Nota-se a influência da modernidade na igreja, por exemplo, as liturgias estão incrementadas de tecnologias, como: data show para leitura da bíblia e letras das músicas, gravações de pregações e acompanhamento do culto pela internet. O Rol de recepção com lanchonete e livraria. Recepção personalizada: jovens recebem jovens, casados recebem casados, etc. Os espaços são parecidos com anfiteatros, iluminação e decoração com foco no marketing visual. As reuniões costumam ser mais curtas e sucintas, às vezes, ocorrendo em dois ou mais horários para atender pessoas com diferentes rotinas. Muitas igrejas adotaram formas de encontros semanais para a evangelização, em que as pessoas costumam ter um primeiro contato com evangelho em casas, ou seja, em lugares que não são propriamente religiosos. Há encontros semanais que também servem para um melhor cuidado e comunhão entre os membros. Além destas questões, a teologia moderna é caracterizada por uma maior participação da igreja em assuntos de interesse da sociedade, por exemplo, política e cidadania (MEISTER, 2006).

5. POLÍTICA, CIDADANIA E MOVIMENTOS RELIGIOSOS

A relação entre Teologia e a política é um fato constatável durante toda história humana. A religião e a fé ocupam um espaço significativo com relação às questões morais do ser humano, o que influenciará a forma de ver o mundo, por exemplo, o certo ou errado, relações familiares e sociais e outras questões que condizem com uma educação política. Além das questões antropológicas, o tema sobre política na teologia está situado na revelação de Deus ao seu povo. De acordo com Aquino (2008, p.108):

Os cristãos e suas igrejas são, de fato, realidades sociais e políticas; seja porque a experiência e o discurso dos cristãos sobre Deus estão radical e definitivamente condicionados e configurados pelo acontecimento histórico da libertação de Israel e pela práxis histórica de Jesus de Nazaré; seja porque a fé cristã, enquanto entrega ao Deus do Êxodo, ao Deus de Jesus de Nazaré, é participação na mesma práxis salvífica na qual e através da qual Deus se deu a conhecer; seja, enfim, porque a teologia, enquanto intelecção da práxis do reino e enquanto atividade teórica específica, é uma atividade social e política.

Diante disto é impossível fazer ou falar de teologia sem enfatizar as questões políticas, pois, a Revelação de Deus (objeto de estudo da teologia) está ligada ao contexto político. O próprio Deus ao longo da história humana revela-se às pessoas em um determinado cenário social e político. É o caso do povo de Israel no deserto que recebeu os dez mandamentos como forma educativa da conduta moral e da fé.

Na época de Jesus a sociedade tinha fortes características religiosas e políticas. Inclusive, Jesus não foi morto só por afirmar ser filho de Deus, pois, naquela época existiam vários pseudoprofetas que diziam o mesmo, mas, Jesus foi condenado à morte por sua prática era contraditória ao poder político Romano. Veja um exemplo disso nos livros de João (2: 13-16) e Mateus (21: 12-13) quando Jesus ao entrar no Templo, contesta a sua finalidade, que ao invés de ser um espaço sagrado se tornará um meio de poder político e econômico (Jo 2: 13-16). Além disto, os evangelhos demonstram nas parábolas a tônica central da mensagem de Jesus,  O Reino de Deus, que é a integralidade de todas as coisas. Quem segue a Jesus anuncia o Reino de Deus, algo que demanda uma mudança espiritual e política, sejam viúvas, pobres, prostitutas ou ricos, todos comprometimentos com o Reino de Deus precisam sinalizar o Evangelho como um resgate da dignidade humana, que demanda um visão integral do Ser: espiritual, social, educacional e político (AQUINO, 2008).

Atualmente teologia e política estão ligadas pelo fato de que pessoas religiosas e igrejas estão inseridas em um cenário político. Ora, os cristãos possuem direitos e deveres, a igreja, uma instituição jurídica, precisa obedecer às Leis que regem a ordem da sociedade. Além disto, nota-se que as questões políticas em toda a teologia, por exemplo, uma exegese bíblica, necessariamente, analisa-se o contexto político, em que se estuda a fé no cotidiano.

Todavia, mesmo diante disso, alguns líderes ou membros de igrejas têm  receio em se envolver ou falar de política. Parece que este assunto não condiz com o evangelho, e, infelizmente isso é um equívoco. A explicação para que alguns cristãos tenham o receio em se envolver ou falar de política, talvez esteja na forma do envolvimento dos cristãos com a política:

O problema reside nas formas práticas e teóricas de articulação e interação entre teologia e política. Por sua própria natureza, a teologia cristã nem pode ser reduzida à política, nem pode prescindir da política. É uma teologia política, sim; mas não é política, sem mais. Por sua vez, a política tem seus dinamismos e suas instituições próprias. Mas estes nem são “naturais” nem são neutros. São produtos da práxis humana – individual e/ou institucional – e estão a serviço de certos interesses. Interesses que dizem respeito aos cristãos e às igrejas cristãs. (AQUINO, 2008, p. 116)

De acordo com o que o autor descreve a maior parte dos movimentos religiosos se envolvem em política não por uma causa nobre, tais como, a promoção da educação e saúde, mas, por interesses sem relevância para sociedade em geral. Frequentemente encontram-se igrejas que apoiam e elegem candidatos políticos não por sua capacidade política, mas, pelo que vão ganhar financeiramente. Por isso, Infelizmente, facilmente vemos casos de corrupção na política envolvendo movimentos ou líderes religiosos. Por isso, se manter afastada da política não é a solução, pois, fortalecem os movimentos religiosos interesseiros, além de não despertar o senso crítico e político nos membros, que se tornam péssimos eleitores, pois, elegem candidatos corruptos ou sem propostas relevantes para sociedade. Portanto, é necessário analisar como a igreja e movimentos religiosos podem fazer uma política de forma que promova questões relevantes para sociedade, tais como, a promoção educativa da cidadania.  Assim sendo, é preciso assumir as seguintes posições:

a) As igrejas precisam ter em vista que os candidatos eleitos por elas devem defender interesses da sociedade em geral e isto inclui os religiosos, as igrejas, como também os nãos religiosos.

b) Frequentemente só se fala em política nas igrejas em época de eleição. Todavia, a igreja como representante de um grupo da sociedade, precisa fiscalizar e acompanhar os políticos fora da época eleitoral. Por exemplo, atentar-se para construção de escolas, melhoramento da saúde, segurança pública, dentre outros.

c) A Igreja pode ceder sua estrutura física para ONG’s, conselhos e associação de Bairro, educação, esporte e lazer para os moradores locais.

d) As igrejas podem desenvolver ou apoiar campanhas em prol da cidadania, tais como, palestras sobre saúde e bem estar, respeito ao meio ambiente, combate a qualquer tipo de violência, promoção da educação e outros.

Abordar a temática sobre política, cidadania e movimentos religiosos faz parte da aprendizagem teológica sobre comunidades, pois, a relação entre religião, a fé, e política é histórica e, faz parte da construção de uma sociedade.

CONSIDERAÇÕES

Considera-se que a reflexão teológica sobre a comunidade demanda uma abordagem educativa no que tange as dimensões sociais, políticos e econômicos. Neste contexto, considera-se que a religião é uma dimensão influenciadora na construção da comunidade. Dentro de uma visão judaico-cristã, a comunidade religiosa é construída dentro uma conjetura educativa que remetem a uma construção cultural, social, política e econômica.

Considera-se que dentro do processo histórico da humanidade a reforma protestante ocupou um importante papel na construção do conhecimento científico, o que marcou a era moderna. Na pós-modernidade, a teologia possui uma prática educativa ao contextualizar a fé, a crença com as diferentes realidades humanas, especialmente, sociais, políticas e econômicas. Neste contexto, considera-se que as teologias pós-modernas ocupam um importante papel para conhecimento humano, relacionando questões importantes do dia-dia com a prática da fé na comunidade.

Por fim, consideram-se importantes novos estudos sobre o papel da teologia na construção do conhecimento pós-moderno, como por exemplo, a papel da religião nos valores e conhecimentos pós-modernos.

REFERÊNCIAS

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QUEIROZ, C. Missão Integral. Disponível em: https://arminianos.files.wordpress.com/2013/08/missc3a3o_integral-carlos-queiroz.pdf. Acesso em 25 de Set de 2015.

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[1] Mestre em Teologia pela PUC/PR. Possui Especialização em Comportamento Organizacional; Especialização em Neuropsicopedagogia; Especialização em Filosofia e Sociologia; Especialização em Docência do Ensino Superior. MBAs em Administração e Gestão com ênfase na espiritualidade e religiosidade nas empresas. Graduado em Gestão comercial. Bacharelado em Teologia. Possui Licenciatura em Filosofia e Licenciatura em Pedagogia.

Enviado: Agosto, 2020.

Aprovado: Setembro, 2020.

Mestre em Teologia pela PUC/PR. Possui Especialização em Comportamento Organizacional; Especialização em Neuropsicopedagogia; Especialização em Filosofia e Sociologia; Especialização em Docência do Ensino Superior. MBAs em Administração e Gestão com ênfase na espiritualidade e religiosidade nas empresas. Graduado em Gestão comercial. Bacharelado em Teologia. Possui Licenciatura em Filosofia e Licenciatura em Pedagogia.

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