Princípios para a interpretação bíblica no uso do antigo testamento no neotestamentário

DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/teologia/interpretacao-biblica
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CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

CONCEIÇÃO, Nathália Marques da [1]

CONCEIÇÃO, Nathália Marques da. Princípios para a interpretação Bíblica no uso do antigo testamento no neotestamentário. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 06, Ed. 12, Vol. 12, pp. 150-171. Dezembro de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/teologia/interpretacao-biblica, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/teologia/interpretacao-biblica

RESUMO

Ao se observar a história da interpretação bíblica percebe-se que tem sido uma área de estudo desafiadora e que encontra muitas dificuldades por diversos fatores o que origina uma variedade exagerada de interpretações. O presente trabalho trata em seu conteúdo uma temática que tem levado a muitos debates e contrariedades na interpretação bíblica, a interpretação de textos do Antigo Testamento no Novo. Diante disso parte-se para o seguinte problema: Como os princípios da interpretação bíblica podem contribuir para a interpretação de textos do Antigo Testamento usados no Novo Testamento? Para responder tal problemática, esse trabalho tem como objetivo analisar os princípios da interpretação bíblica em textos do Antigo Testamento usados no Novo Testamento a fim de uma interpretação correta. O presente trabalho foi desenvolvido por meio da revisão bibliográfica que permitirá aprofundar sobre o tema proposto, a partir de conhecimentos já escritos por autores que se dedicaram a estudar este tema. Nesta revisão bibliográfica explorou-se a temática do objeto de estudo e será possível conceituar termos próprios deste tema e ainda confrontarmos com as várias linhas de posicionamento teológico. Por fim, interpretar as sagradas escrituras é algo que exige muitas habilidades e competências, todavia a interpretação das sagradas escrituras, sendo ou não em textos do Antigo no Novo, é o caminho para a perfeita obediência. Deste modo, interpretar é o primeiro passo para obedecer.

Palavras-chave: Interpretação bíblica, Antigo Testamento, Novo Testamento.

INTRODUÇÃO

A Bíblia Sagrada é estudada desde o início da sua escrita e ao passar do tempo mais e mais estudiosos intérpretes se dedicaram a interpretá-la.

Ao se observar a história da interpretação bíblica percebe-se que tem sido uma área de estudo desafiadora e que encontra muitas dificuldades por diversos fatores o que origina uma variedade exagerada de interpretações.

O presente trabalho trará em seu conteúdo uma temática que tem levado a muitos debates e contrariedades na interpretação bíblica, a interpretação de textos do Antigo Testamento no Novo.

Um tema que para muitos exegetas é visto de dificuldade, pretende-se abordá-lo de maneira compreensível e que tenha aproveitamento para aqueles que desejam introduzir seus conhecimentos nesta área.

Tais discussões por mais que estejam limitados ao ambiente acadêmico deve fazer parte da vida pragmática da igreja, pois isto influenciaria diretamente na leitura da palavra, na interpretação e paralelamente na vida prática dos cristãos.

Tendo como objetivo geral analisar os princípios da interpretação bíblica em textos do Antigo Testamento usados no Novo Testamento a fim de uma interpretação correta sendo necessário conceituar o termo Bíblia e apresentar as origens da hermenêutica, conhecer os princípios da interpretação bíblica usados na hermenêutica em textos do Antigo Testamento e no Novo Testamento e identificar a relação do Antigo Testamento com o Novo Testamento;

O presente trabalho para ser desenvolvido utilizou da revisão bibliográfica que permitiu aprofundar sobre o tema proposto, a partir de conhecimentos já escritos por autores que se dedicaram a estudar este tema. Sendo que a pesquisa bibliográfica geralmente é o primeiro momento de qualquer pesquisa científica, pois é por meio deste que se busca o domínio sobre o tema (CERVO; BERVIAN, 2002).

Nesta revisão bibliográfica explorarou-se a temática objeto de nosso estudo e foi possível conceituar termos próprios deste tema e ainda confrontamos com as várias linhas de posicionamento teológico.

Portanto, essa metodologia utilizada permite uma abordagem qualitativa do estudo e ainda uma análise que nos leva a explicações com profundidade.

As sagradas escrituras é a revelação do plano redentor de Deus. Nestes textos há a revelação inspirada por Deus e desde que estes começaram a ser escritos muitos homens se dedicaram a interpretarem à Palavra.

A igreja desde seus primórdios necessita de intérpretes das sagradas escrituras e, na contemporaneidade, é sabido que muitos intérpretes utilizam de princípios para a interpretação correta destes textos.

Deste modo, percebe-se o desafio que é a interpretação correta das sagradas escrituras e se tratando dos textos do Antigo Testamento, (outrora será utilizado A.T.) presentes no Novo Testamento (será utilizado a abreviação N.T.), esse desafio ganha proporções muito maiores.

Muito se tem debatido sobre a relação que há entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento e como deve ser a correta interpretação de textos da Antiga Aliança na Nova Aliança. Tais debates geram diferentes interpretações e por esse motivo se faz necessário compreender os princípios da interpretação bíblica utilizados na hermenêutica aplicados a estes textos específicos.

Diante disso, na atualidade percebemos que a dificuldade em interpretar tais textos tem levado muitos intérpretes a interpretar de maneira equivocada as sagradas escrituras e esses ensinamentos têm sido levados para dentro das igrejas e estão sendo lançadas sementes da heresia.

Pensando nesse atual cenário se faz necessário esmiuçar os princípios da interpretação bíblica e sua aplicação a estes textos para que as dificuldades sejam amenizadas e possibilitem aos intérpretes alcançarem a pureza da palavra de Deus sem a mancha das heresias.

De fato, as heresias presentes dentro da Igreja, oferecem riscos vitais porque são ensinadas aos cristãos causando inconsistência e incoerência no conhecimento verdadeiro de Deus. Pensado nessa máxima este trabalho se dedica em expor meios para que a Igreja seja alimentada com o verdadeiro alimento espiritual.

A importância desse trabalho consiste na abordagem compreensível que fará dos princípios da interpretação bíblica dos textos do A.T. no N.T. para que os leitores deste conheçam e assim possibilite a aplicação de tais princípios na sua leitura diária e em sua vida devocional. Esta oportunidade é significativa para quem o está escrevendo quanto para aqueles que desejam compreender e viver as verdades das sagradas escrituras.

Toda leitura e estudo da Bíblia deve o aproximar do próprio Deus e o ensinar a sermos semelhantes a Ele. Diante disso, a primordial preocupação e justificativa para a temática desta pesquisa é oferecer princípios de interpretação que permitam a compreensão correta das sagradas escrituras e assim possamos nos santificar como de fato agrada a Deus.

CONCEITOS E ORIGENS

A BÍBLIA

A Bíblia é um livro sagrado muito complexo no qual é constituída de um conjunto de livros canônicos, escritos por diversos autores ao longo da história o que a torna um livro ímpar. Sendo que este livro conta com muito mais do que ideias e pensamentos humanos, mas ele revela a grandeza de Deus que se revelou ao homem por meio da inspiração.

Deste modo, é interessante considerar a fala de Gerald Bray (2017, p.20), quando se refere a Bíblia, “a fé cristã sustenta que a Bíblia é o testemunho comum e normativo da verdade espiritual revelada à igreja. Não há nenhuma outra fonte comparável a ela e nenhuma autoridade humana que possa superá-la ou contradizê-la”.

Por esse motivo, a Bíblia exige do seu leitor muito mais do que capacidades cognitivas interpretativas para ser compreendida. Este livro requer um relacionamento com o autor, pois é Ele próprio que ilumina os leitores a compreender tais palavras. É levando em consideração a participação do Espírito Santo neste processo de interpretação que se avança neste trabalho, pois, por mais que haja dedicação a entender as sagradas escrituras, sem o Espírito Santo como nosso iluminador é inviável uma interpretação correta.

Visto que a correta interpretação das escrituras edifica espiritualmente aquele que a descobre, de modo que jamais podemos considerá-la apenas uma obra literária antiga qualquer. Faz-se necessário entender que este livro penetra as nossas entranhas no mais íntimo de nós mesmos e dá alegria que qualquer outra obra literária não nos permite encontrar.

A Bíblia permite nos aproximarmos e relacionarmos com Deus, conhecendo-o e muitas vezes conhecendo a nós mesmos, tendo um grande prazer em lê-la, como afirma Packer (2009, p. 20), ao se referir ao estudo das sagradas escrituras, “(…) eu sei por experiência própria a razão pela qual o salmista chamou a mensagem de promessa e o mandamento de seu deleite […] de sua alegria, […] e a razão pela qual ele disse amá-la.”

Para Oliveira (1986), além dessa busca espiritual sabe-se que a Bíblia é uma obra literária e, portanto, para interpretá-la é necessário conhecer o sentido gramatical, fato esse que exige cada vez mais habilidades e competências linguísticas por parte do intérprete.

Nesse aspecto, Virkler (2001) considera que as dificuldades na interpretação ocorrem devido a alguns fatores, os quais chama de bloqueios:

a) o abismo histórico que consiste o tempo em que foram escritas e o tempo em que está sendo lida

b) o abismo cultural entre os antigos hebreus e a nossa cultura, sendo importante levar em consideração as diferenças culturais, podendo resultar em uma compreensão errada do significado das palavras e de algumas ações.

c) a diferença linguística, levando em consideração que a Bíblia é um livro escrito no hebraico, aramaico e grego, os quais possuem expressões linguísticas próprias diferentes das que utilizamos atualmente.

d) a lacuna filosófica que é a forma como as pessoas veem a vida, as circunstâncias e a natureza. As cosmovisões aplicadas ao texto devem ser percebidas e levadas em consideração para a compreensão correta das sagradas escrituras.

A HISTÓRIA DA HERMENÊUTICA DOS TEXTOS DO ANTIGO TESTAMENTO NO NOVO

Para avançar neste trabalho é necessário esclarecer o que é interpretar um texto e apresentar os princípios para a interpretação bíblica, pois somente aprofundando nesta área do conhecimento é que tem-se fundamentos necessários para conhecer e aplicar tal conhecimento ao ponto específico deste trabalho que é a interpretação de textos do Antigo Testamento no Novo Testamento.

Na visão de Oliveira (1986, p. 23), a área do conhecimento que se dedica à interpretação de textos é a Hermenêutica, a qual deriva do termo grego hermeneutike, que se refere a arte de interpretar livros sagrados e antigos.

No entanto, Berkhof (2004), refere-se à interpretação das escrituras sagradas, por esse motivo, será abordado aqui a “Hermenêutica Sagrada” distanciando-se das demais especificidades deste campo e particularizando-se com à interpretação e compreensão da palavra de Deus. Reconhecendo assim o princípio da inspiração divina da Bíblia conservar-se- á o caráter teológico da Hermenêutica Sagrada.

A palavra hermenêutica teve sua origem nome de Hermes, um deus grego incumbido de trazer mensagem dos deuses aos homens, que exigia dele a tradução e interpretação para os seus destinatários.

Para Virkler (2001), o significado técnico de hermenêutica é definido como a ciência e a arte de interpretação bíblica, sendo que é uma ciência por que existem normas e regras para a sistematização e é uma arte devido à flexibilidade que existe na sua exposição.

Desta forma, a hermenêutica oferece princípios para a interpretação dos textos bíblicos, sendo necessário conhecê-los e entender como esses são utilizados. Como a própria palavra hermenêutica se remete a ideia de quem faz uso dela, são mensageiros e tradutores/expositores da palavra e para que sejam capazes de oferecer ao corpo da igreja uma exposição correta das escrituras é necessário que percorram o caminho da hermenêutica bíblica.

Outro assunto que está diretamente ligado a hermenêutica é a exegese, pois é por meio desta que se possibilita a existência desta. Segundo Proença (2009, p. 39), “a exegese consiste na retirada do sentido do que está sendo observado”. De certa forma, o estudo da hermenêutica e da exegese juntas permitem uma melhor compreensão e consequentemente na vida prática do cristão.

Na história da Hermenêutica percebe-se que já havia a interpretação do Antigo Testamento feita pelos intérpretes judaicos e esta era classificada em quatro tipos principais: a literal, midráshica, pesher, e alegórica.

Nesse sentido, Virkler (2001), esclarece que o método literal não era muito discutido, porque esperava-se que fosse de conhecimentos de todos. Em relação ao método midráshica se dedicava na comparação de ideias, palavras ou frases encontradas em mais de um texto, no entanto a sua continuidade foi se tornando cada vez mais fantasiosa e menos conservadora.

Quanto ao método pesher, era semelhante a midráshica, mas se direcionava sempre ao ponto escatológico. E por fim, o método alegórico, que teve sua origem com os gregos, os quais tentavam conciliar os mitos religiosos e suas heranças filosóficas. Dessa forma, alegorizando as passagens bíblicas era possível permitir alguns costumes inaceitáveis. Esse método alegórico fora muito defendido e alguém bem conhecido nessa área foi Filão (20 a.C. – 50 d.C.).

Segundo Virkler (2001 p. 38), “Filão acreditava que o significado literal da Escritura representava um nível imaturo de compreensão e o significado alegórico era para os maduros.”

No período patrístico a interpretação alegórica ganhou força e dentre os principais nomes destacam-se Clemente de Alexandria, Orígenes e Agostinho, estes faziam uma interpretação mística do Antigo Testamento.

Segundo Feinberg, afirma (2013 p.21), como teólogo dominante do período e principal influenciador na igreja Medieval, Agostinho argumentava que a Escritura é mais bem compreendida dentro da igreja. E desta forma, o A.T. tornou-se um repositório de instrução moral e fonte de informações de textos comprobatórios, proféticos e alegóricos para a verdade do cristianismo.

Em contrapartida, nessa época havia também o grupo dos eruditos de Antioquia da Síria que defendiam o princípio da interpretação histórico-gramatical.

A escola exegética em Antioquia contava com grandes pensadores como Luciano, Teodoro de Mopsuéstia e Diodoro, como Feinberg (2013 p.18), aborda em sua obra continuidade e descontinuidade

[…] que oferece uma definição mais penetrante de alegoria (Gl 4.24), mais adequadamente denominada “tipologia”, indicando a direção de interesse entre esses comentaristas no sentido de discernir uma relação mais forte entre os Testamentos. Esse relacionamento foi visto como correspondência e não apenas simbolismo. Acreditava-se estar presente na própria escritura. Eventos e pessoas numa revelação anterior eram “tipos” das que apareciam depois. Dessa forma, o significado espiritual e o sentido histórico do texto estavam intimamente ligados.

Os princípios exegéticos da escola de Antioquia continuaram a testemunhar a importância da história e deram base para a interpretação moderna evangélica.

Avançando para o período medieval, pode-se perceber a solidificação do método alegórico, que neste momento ganhara um novo fator: a tradição da igreja. Quatro “sentidos” da escritura (literal, alegórico, tropológico e anagógico) foram transformados em “da letra” e “do espírito” por João Cassiano, ao se referir a textos do A.T. no N.T.

Outro grupo que defendia o princípio da interpretação alegórica foram os cabalistas, os quais acreditavam que cada letra escondia um mistério divino e as trocas de letras permitiam conhecer esses mistérios.

Os judeus espanhóis incentivaram a volta da interpretação histórico-crítica e Nicolau de Lyra se destacou, uma vez que defendia este método e acabou influenciando Martinho Lutero.

No período da Reforma, destaca-se o nome de Lutero e Calvino. Nesse contexto histórico, a primeira grande mudança fora a concepção de que a Bíblia possui um único sentido devendo ser levada em conta as condições históricas, gramaticais e seu contexto. Lutero afirmava que o Antigo Testamento apontava para Cristo. Ele se dedicou a explicar que este era um livro cristão, além de fazer uma distinção entre lei e evangelho.

Calvino citado em Feinberg (2013), afirmou: “A escritura interpreta a escritura”. Desta forma, ele evidencia que a escritura é que diz o que é e o que não é. Usando de recursos como a gramática e o contexto.

Dando continuidade, segundo Feinberg, (2013 p.26), cresce nessa época o debate sobre a identidade do verdadeiro Israel, já definido como Igreja. Se Igreja ou Antigo Israel, a expectativa de uma realidade visível e histórica de tudo que foi prometido a Israel nesta era ou na posterior ao iminente retorno de Cristo.

Após a Reforma, a interpretação bíblica se limitou durante alguns anos apenas à defesa de partidos teológicos. Tem-se então, o surgimento do Racionalismo, que tem a razão como a única autoridade para a interpretação bíblica, sendo que esta razão aliou-se ao conhecimento empírico, aquele que se limita apenas aos cinco sentidos.

Por fim, chega-se à modernidade e dentre os tipos de interpretação da atualidade destaca-se o Liberalismo, que consiste no uso da razão e nega o caráter sobrenatural da inspiração. Limitando a inspiração a uma experiência humana religiosa, como também defende o naturalismo consumado, onde tudo o que não é possível ser comprovado deve ser rejeitado.

Outro grupo a ser citado é o da Neo-Ortodoxia, o qual acredita que a Escritura é o testemunho do homem à revelação que Deus faz de si mesmo. Não defendem a inerrância e infalibilidade da Bíblia e veem aspectos sobrenaturais como mitos.

Ainda nesse contexto, o grupo da Nova hermenêutica afirma que a linguagem na verdade não é a verdade, mas apenas uma interpretação pessoal. A hermenêutica é apenas o uso que se faz da linguagem.

Finaliza-se esta perspectiva histórica da hermenêutica, citando o último grupo que é o Cristianismo Ortodoxo. Estes entendem a escritura como revelação de Deus para a humanidade, sendo que o papel do intérprete é compreender o que o autor primitivo queria escrever, tornando-se necessário o conhecimento de história, da cultura, da língua e da compreensão teológica.

Após essa perspectiva histórica entende-se o processo que a hermenêutica dos textos do A.T. no N.T. se formou e em que atual cenário está. Esse estudo da inter-relação testamentária já esta no fim do seu segundo milênio e pode-se entender que as considerações hermenêuticas modificam a nossa visão acerca da fé e como a entendemos de uma forma geral, por esse motivo a relevância de ser um fiel intérprete das sagradas escrituras.

Segue os princípios de interpretação bíblica, que permitem ao estudante das sagradas escrituras percorrer um caminho sólido em busca da correta interpretação.

OS PRINCÍPIOS

ANÁLISE HISTÓRICO-CULTURAL

Iniciar-se-á o estudo com a análise da Bíblia numa perspectiva histórica. O livro sagrado traz a história com fatos e no momento da interpretação isto deve ser levado em conta, pois a história pode muitas vezes explicar comportamentos, contextualizar acontecimentos narrados no texto e de certa forma facilitar a interpretação com o pano de fundo.

Nesse sentido, pelo fato da Bíblia ter sido escrita em um longo espaço de tempo, desde a criação até a glorificação da Igreja, faz-se necessário que o intérprete entenda os pontos históricos com clareza para que não se cometa erros.

Diante disso, para se encontrar o contexto Geral Histórico-Cultural é importante levantar algumas perguntas como: Em que contexto histórico o escritor está escrevendo? Quais eram as situações políticas, econômicas e sociais? Quais eram suas preocupações?

Existem alguns costumes que devem ser entendidos? Qual o nível espiritual ali presente? Após responder tais perguntas prosseguiremos para a busca de informações do livro em questão.

Segundo Oliveira (1986, p.124), ao olhar-se especificamente para o livro precisamos responder tais perguntas: Quem é o autor? Em que lugar foi escrito o livro? Quem é o destinatário? Qual a finalidade do autor ao escrever este livro?

Sobre a importância de se conhecer bem o autor, Oliveira (1986, p.124), afirma: “Uma palavra nunca é compreendida completamente até que possa entendê-la como palavra viva, isto é, originada na alma do autor.”

Ainda na visão de Oliveira (1986, p.124), após conhecer o autor, quando possível, deve-se buscar no livro a finalidade para qual fora escrito e para tal existem três formas principais de identificá-las, sendo:

a) identificar expressões frequentes no livro;

b) examinar o discurso empregado;

c) observar o foco do autor.

Diante dessas informações deve-se atentar para o contexto oferecido pelo texto. Diferenciando numenologia e fenomenologia, verdades descritivas e prescritivas, o núcleo do texto do que é um detalhe incidental e, por fim, para quem se destina a passagem e para quem não se destina.

Utilizar-se de tais informações evita-se que o leitor bíblico interprete mal e até acredite em algo que não foi prometido para ele, pois a Bíblia carrega em seu conteúdo várias promessas que às vezes, pelo seu contexto, descobrimos que não são destinadas a nós.

Diante disso, todo leitor por mais leigo que seja precisa distinguir alguns conceitos básicos da hermenêutica para uma leitura saudável e santa das Sagradas Escrituras.

ANÁLISE LÉXICO-SINTÁTICA

Cada palavra tem seu significado e o autor ao escrevê-las combina com outras palavras e forma uma informação. A análise léxico-sintática tomará as palavras isoladas e compreenderá o seu significado e o sentido que ela tem no texto.

Desta forma, a análise léxico-sintática fundamenta-se na ideia de que embora as palavras possam ter vários significados em contextos diferentes, ela tem apenas um único significado dentro de um contexto apresentado.

Sobre a necessidade da utilização desse princípio, Carson apud Vikler (1987, p.72), destaca que:

Homem algum tem o direito de dizer, como alguns costumam fazê-lo: “O Espírito me diz que tal ou tal é o significado de uma passagem.” Como pode estar ele seguro de que é o Espírito Santo, e não um espírito enganador, a não ser pela evidência de que a interpretação é o sentido legítimo das palavras?

Nesse contexto, Broadus citado por Vikler (1978, p. 72), lamenta que:

os universalistas…[e] os mórmons consigam encontrar na Bíblia um apoio aparente para suas heresias, sem interpretar mais frouxamente, sem fazer maior violência ao significado e conexão do texto Sagrado do que ás vezes é feito por homens ortodoxos, devotos e até inteligentes.

Deste modo, pode-se afirmar que esta ferramenta quando bem aplicada poderá dar segurança ao que está sendo interpretando, pelo fato de oferecer um significado coerente com o que Deus tencionava comunicar.

Conforme Vikler, (1978, p. 80), a análise léxico-sintática pode ser feita em sete passos distintos e complementares:

A) forma literária geral: antes de fazer qualquer estudo no texto é necessário saber de qual forma literária o escritor utilizou, sendo possível destacar três principais formas presente no texto bíblico: a prosa, a poesia e literatura apocalíptica. Ressalta-se que cada uma dessas formas apresenta características bem particulares, sendo que a literatura apocalíptica faz uso de simbolismos, a prosa faz uso das palavras no sentido literal e na poesia há maior frequência do uso de linguagem figurativa;

B) desenvolvimento do tema: neste passo é possível identificar o significado adequado das palavras polissêmicas e é também onde impede que o intérprete se aprofunde tanto na gramática e perca de vista o tema proposto pelo autor;

C) divisões naturais do texto: o autor constrói uma corrente conceitual e que muitas vezes pode se tornar uma dificuldade para o leitor que está acostumado a ler a Bíblia dividida em capítulos e versículos, neste caso uma leitura atenta permite entender as divisões naturais pretendidas pelo autor;

D) conectivos dentro de parágrafos e sentenças: Os conectivos são termos que ligam os pensamentos. Conjunções, preposições, pronome relativos etc., devem ser conhecidos e entendidos o seu uso, porque muitas vezes estes termos se referirão a expressões ditas anteriormente;

E) significados da palavra: as palavras ao longo do tempo adquirem muitas denotações (significados) e conotações (implicações complementares). Tratando das denotações, elas podem ter vários significados e também terem sentidos metafóricos. Já as conotações podem carregar consigo significados emocionais, sendo neutros ou pejorativos. Para descobrir a denotação de uma palavra pode-se identificar como ela foi usada em outra literatura antiga, a septuaginta. Pode-se estudar os sinônimos das palavras e também recorrer a etimologia da palavra;

F) sintaxe: trata-se o modo como os pensamentos são expressos gramaticalmente. As línguas podem ser analíticas ou sintéticas, e isso difere de como as palavras de uma sentença são colocadas. Para descobrir que tipo de informações úteis pode ser descoberto por meio da sintaxe, existem as Bíblias Interlineares, que vem com o grego ou hebraico e a tradução entre as linhas e também aos léxicos analíticos, ele aponta a palavra primitiva ou o radical e a sua variação dentro do texto;

G) relacionar todos os passos anteriores: é importante que o intérprete faça uma exposição clara do que essa análise léxico-sintática o permitiu entender. Todo esse caminho percorrido na linguística pode trazer confusão, por isso é necessário sempre estar com a atenção no texto.

Ao observar todos esses passos, a segurança das informações pode impedir que o intérprete se direcione para outro foco que não seja a palavra de Deus, no entanto, observa-se que este conhecimento deve estar de forma clara aos que ouvirão a mensagem exposta.

ANÁLISE TEOLÓGICA

Conhecer o padrão da revelação de Deus pode não ser um conhecimento muito fácil e às vezes até contraditório, no entanto, para ser um bom exegeta da palavra de Deus é necessário conhecer o padrão da revelação divina presente na Bíblia.

Esta análise oferecerá subsídios ao intérprete e sem esta análise pode-se dizer que a interpretação bíblica facilmente cairia nas famosas heresias. Kaiser apud Feinberg, (2013, p. 57), ao se referir numa leitura do A.T. no N.T. afirma,

Concordamos com esse apelo por equilíbrio e por uma leitura do AT no texto do NT. Tirar “conclusões precipitadas” do NT dentro do AT é uma “exegese” tendenciosa e merece apenas a nossa rejeição, não importa quão nobre seja o seu objetivo.

Deste modo, inicialmente precisa-se conhecer este padrão da revelação divina evitando ser tendencioso. A forma como se define a história da obra salvadora de Deus para a humanidade influenciará o entendimento que se terá do texto.

Conforme Vikler (1987, p.92), a primeira grande dificuldade ao se fazer isso é em relação às várias teologias existentes. Já abordamos aqui a existência da teologia liberal que faz uma interpretação de que a Bíblia não é a verdade divina, mas sim um produto do desenvolvimento evolutivo da religião de Israel. Deste modo, é necessário ser claro no que a Bíblia é de fato.

Outra grande dificuldade é quando se refere a continuidade e descontinuidade. O Antigo Testamento e o Novo Testamento são unidades distintas e apesar de juntos formarem um livro cristão, o mesmo não conta com a uniformidade deles. Mesmo que seja uma unidade isso não exclui sua diversidade. Ao fazer a leitura do Antigo e do Novo é possível perceber semelhanças e distinções, continuidades e descontinuidades.

Feinberg afirma (2013, p.69),

A relação dos testamentos tem ocacionado muito debate ao longo da história da igreja. Se alguém vê mais continuidade ou descontinuidade, tal visão se evidenciará em vários pontos do seu sistema teológico. Pois nenhum sistema teológico pode escapar de enfatizar esse assunto, seja explícita ou implicitamente.

Dando continuidade em Feinberg (2013, p.70), levantar questões cruciais como, o A.T. pode ser usado para formular a teologia cristã? Deve-se, como? Em que o cristianismo se assemelha ao judaísmo? A teologia cristã foi baseada na teologia do A.T.? O que Jesus mudou na leitura do Antigo? Existe superioridade do N.T. sob o A.T.? Questões cruciais como estas precisam ser bem discutidas e pensadas para que a interpretação de textos do A.T. no N.T. aconteça quando nos referimos a estes textos.

Dentro desse assunto de continuidade e descontinuidade existem alguns pontos de tensão que têm gerado vários e vários debates, segue:

A) Material e espiritual

B) Tempo e eternidade

C) Lei e evangelho

D) Símbolo e realidade

E) Promessa e realização

F) Antigo e novo

G) Israel e Igreja

H) Este mundo e o mundo vindouro

Cada uma dessas áreas têm um dinamismo próprio e requer estudos rigorosos devido a grande quantidade de comentários escritos sobre esse assunto ao longo da história.

Diante disso, vale ressaltar que tais discussões se utilizam de alguns conceitos específicos para serem estudados e pesquisados dentro da própria escritura. Sendo necessário conhecê-los e reconhecê-los quando utilizados pelas sagradas escrituras aplicando-os corretamente para uma interpretação correta.

É necessário entender a intertextualidade presente no campo linguístico e como ela é uma estratégia no entendimento do relacionamento entre os textos. Segundo Moo em Bezerra (2019, p. 85), “A intertextualidade enfatiza que os textos se relacionam uns com os outros em níveis mais fundamentais do que citações explícitas”, sendo que a intertextualidade pode ser vista como um eco, onde a revelação dita perpassa ao longo da história e estes podem ser citados ou aludidos no N.T., vezes de maneira explícita e outras implícitas. Sendo que, na leitura do N.T. o leitor ao se deparar com tais citações precisa reconhecer as origens e o contexto do texto- fonte.

Essas citações podem aparecer como sendo uma alusão e neste conceito é relevante entender termos como alusão e eco. Resumindo-se, os modos da intertextualidade são duas categorias: citação e alusão/eco.

Kostenberger (2015, p.256), explica que citação é o uso formal de textos anteriores, já a alusão/eco seria o uso não formal destes textos. Esse assunto ainda pode ser melhor explicado com o esclarecimento que Beale (2013, p.53), faz de citação, […] é uma reprodução direta de uma passagem do A.T. facilmente identificável por seu paralelismo vocabular claro e bem característico”, e a forma mais clara para se encontrar a alusão é um paralelo incomparável ou único de redação, sintaxe, conceito ou conjunto de motivos na mesma ordem ou estrutura”.

Desta forma, reconhecendo a forma como se foi utilizado o texto do A.T. no N.T. podemos identificar ali o propósito no qual foi aplicado a um novo contexto pelo escritor. Todavia, não basta apenas reconhecer e identificar tais métodos aplicados no discurso é necessário ainda reconhecer o modo como o N.T. faz uso do A.T.

A RELAÇÃO DO ANTIGO COM O NOVO

O modo como utiliza-se o Antigo Testamento no Novo esta diretamente relacionado a como se entende o relacionamento entre os dois testamentos. Esse relacionamento depende de vários fatores que o envolvem.

De acordo com Jonathan Lunde em Bezerra (2019 p.87), existem questões que se movimentam em torno da relação entre os testamentos, questões sobre tipologia, contexto, replicação, sensus plenior e métodos exegéticos. As escolas de interpretação acabam enfatizando mais alguns pontos do que outros.

O autor Berding em Bezerra (2019, p.88), faz uma análise das escolas e destaca a Escola da intenção humana completa que é adotada pelo teólogo Walter Kayser, onde ele rejeita uma diferença entre a intenção de Deus e a intenção do autor humano, sendo assim o autor humano esta consciente de todos os estágios do significado do primeiro evento, até o último. Tal escola falha quando coloca o escritor que foi inspirado por Deus em um momento e contexto específico a possibilidade de saber o que acontecia e o que aconteceria no futuro.

Outra forma de se entender é dar dois tipos de uso do A.T. no N.T.: um é o que o escritor mantém e aplica o sentido histórico-gramatical da passagem do A.T. e, outro uso, em que o escritor do N.T. vai além do sentido histórico-gramatical e adiciona uma conexão com seu texto no N.T.

Bezerra (2019, p.89), considera que outra forma é um uso não literal do A.T., chamada de “aplicação inspirada do ‘sensus plenior’” da passagem do A.T. para uma nova realidade. Sendo inspirado porque toda escritura é inspirada por Deus e sensus plenior, porque lhe é dado um sentido adicional e mais completo do que o texto no A.T. E é aplicação porque não se exclui o entendimento literal anterior, mas se aplica em uma nova configuração. Ainda neste assunto, Robert em Bezerra (2019, p.89) faz um alerta que o uso do sensus plenior não dá permissão para o intérprete contemporâneo usá-lo em suas interpretações atuais.

Outro modo de enxergar essa relação entre-testamentos é a judaica. Nesta, os significados mais amplos das escrituras são revelados aos escritores do N.T. Deste modo Feinberg (2013, p. 230), ressalva a prioridade interpretativa “[…] o Novo interpreta o Antigo […] Já Bock em Bezerra (2019, p.99), completa que tal posição pretende rejeitar o problema do sensus plenior ao entender que novos significados não são adicionados ao texto do A.T., mas por meio de revelação, o significado mais profundo do texto é entendido pelos autores inspirados do N.T.. Desta forma, algumas promessas que antes eram materiais agora se tornam espirituais nesta nova leitura do A.T. dando um novo significado para a relação dos testamentos e essa posição é comumente encontrada, inclusive no meio reformado.

Ao se deparar com estas escolas e seus posicionamentos referentes a relação do A.T. no N.T., o autor Bock em Bezerra (2019), tenta unir esses pontos e conclui que o contexto do A.T. é um fator chave para o entendimento desse texto, no entanto não é o único. Este primeiro é um fundamento de significado, mas após a chegada de uma nova revelação estas se tornam mais claras.

Diante disso, uma nova área surge dando início a outra série de dificuldades, o conceito de revelação progressiva e o seu entendimento dará condições de se entender melhor a relação do Antigo com o Novo.

Feinberg (2013, p.70), explica que

Geralmente, os sistemas que se movem na direção da absoluta continuidade se encaixam mais no molde das teologias reformadas ou pactuais. Os sistemas que vão na direção da absoluta descontinuidade se encaixam mais no molde das teologias dispensacionalistas.

A relação entre os testamentos tenta ser explicada nessas duas correntes distintas, dispensacionalismo e aliancismo. Roob citado por Feinberg (2013, p.71), estabelece que estas têm sua compreensão de três formas principais: a alegórica ou tipológica, a doutrinária e a histórica. As duas primeiras mais utilizadas pela continuidade e a última mais comum no meio da descontinuidade.

Um grande volume de discussões sobre esse tema foi elaborado ao longo dos anos. Muitos teólogos tentaram explicar e muitas vezes defender uma corrente ou outra, no entanto, apesar de muitas discussões o bom intérprete precisa identificar de que forma o texto do Antigo Testamento é usado no texto e compreender todas estas correntes a fim de discernir qual melhor se aplica ao texto em estudo.

A compreensão histórica por mais que esteja voltada para a descontinuidade pode contribuir significativamente para ambas as correntes, uma vez que direciona o leitor ao entendimento do texto-fonte em seu contexto específico. Como Baumgartel orienta em Feinberg (2013, p. 73), “… em primeiro lugar devemos desprender por completo o A.T., isto é, compreendê-lo em seu entendimento próprio, completamente separado do Novo Testamento e de nenhuma forma “justificado” através do evangelho! – para recuperá-lo todo”.

Apesar do grande valor dessa orientação não é suficiente apenas entender o texto-fonte em sua origem no Antigo Testamento, é necessário interpretá-lo no novo significado que o autor do N.T. faz dele. Deste modo, evita-se futuras confusões com o que é dito no Antigo e no Novo. Ladd citado por Feinberg (2013, p,85), faz uma explicação objetiva de como é feita a leitura pelos dispensacionalistas e não dispensacionalistas.

Aqui esta o divisor de águas básico entre a teologia dispensacionalistas e uma não dispensacionalistas. O dispensacionalismo forma sua escatologia por uma interpretação literal do Antigo Testamento e então ajusta o Novo Testamento dentro dela. A escatologia não dispensacionalista forma sua teologia do ensino explícito do Novo Testamento.

Tal leitura pode levar ao entendimento que faz distinção entre o que é terreno e o que é espiritual. O Antigo Testamento faz menção ao que é terreno e o Novo Testamento é visto como o espiritual. O Antigo é uma sombra e o Novo é uma realidade. Desta forma o Novo tem prioridade sob o Antigo. Ao olhar de uma forma simplista, é fácil compreender, no entanto ao se deparar com questões como as que Feinberg (2013, p.87), lança diante desse assunto a dificuldade em respondê-las é evidente:

[…] se algo deve ser repetido no NT para permanecer válido. Se o NT rejeita explicitamente uma instituição do AT etc., ela esta cancelada. Mas se Deus declara algo uma vez (no AT), porque ele deve repeti-lo no NT para que seja verdade e permaneça em vigor? Desde que o NT explícita ou implicitamente não rejeita o ensino do AT, porque assumir que o AT esta cancelado apenas porque o NT não o repete? Argumentar que o AT esta cancelado por não estar repetido é um caso clássico do argumento do silêncio. Por outro lado, não é argumentar de acordo com o silêncio para alegar que o AT ainda esta em vigor, apesar do silêncio do NT, porque Deus já quebrou no AT o silêncio e nos deu seu pensamento.

Deste modo, nota-se o risco que um intérprete corre ao tentar examinar as escrituras sem conhecer ambos os lados, dispensacionalismo e aliancismo, continuidade e descontinuidade.

Exemplificando a dificuldade existente, podemos citar as promessas incondicionais feitas por Deus para a nação de Israel no A.T. Tais promessas incondicionais podem ser direcionadas à Igreja sendo que tais promessas foram feitas especificamente para a nação de Israel?

Esta é apenas umas das várias dificuldades que se deparam intérpretes da Bíblia e sem entender estes dois caminhos distintos e saber identificar suas fragilidades teológicas o intérprete fica impossibilitado de assumir uma posição e consequentemente fazer a correta interpretação.

Outro fator, que deve ser levado em consideração, que já foi citado anteriormente e que agora irá direcionar este projeto é o conceito de tipologia.

Quando se aplica o N.T. em passagens do A.T. não necessariamente se anula o sentido original. O novo autor simplesmente oferece uma aplicação diferente da qual foi dada no A.T. e não inviabiliza as promessas incondicionais feitas a Israel.

Esta aplicação é a tipologia que o próprio autor faz do texto. Feinberg (2013 p. 88-89), esclarece quando diz que os tipos numa visão não dispensacionalista são entendidos como sombras e o antítipo é a realidade. Já os dispensacionalistas não veem os tipos como sombras e exigem que seja dado o entendimento correto dos tipos e dos antítipos dentro de seus contextos. Esse termo tipologia pode parecer de difícil compreensão mas Augusto Nicodemus Lopes (2013, p.118), esclarece quando faz um clara distinção “Essa correspondência é basicamente de promessa e tipo (Antigo Testamento) e cumprimento e antítipo (Novo Testamento).

Todavia essa distinção não é suficiente, pois não se limita apenas a essa localização nas sagradas escrituras mas também consiste na diferenciação entre alegoria e simbolismo. Sobre esse assunto Baker em Feinberg (2013, p.89), esclarece esse debate em sua obra sobre tipologia:

[…] a tipologia repousa na correspondência ou analogia entre dois objetos, pessoas ou eventos. Existem dois tipos principais de correspondência. Uma ele chama de vertical, um relacionamento entre realidades celestiais e terrenas, e a outra, de horizontal, um relacionamento entre um fato histórico anterior e outro posterior. Os escritores bíblicos estão mais interessados no tipo horizontal do que no vertical. […] a tipologia não é nem alegoria e nem simbolismo. Tanto na alegoria quanto no simbolismo pouca importância é colocada na objetividade do símbolo ou da alegoria. Mas a tipologia está preocupada com os relacionamentos entre os fatos históricos.

Deste modo, a tipologia está diretamente ligada ao que ocorreu na história e é interpretada de forma literal, sendo necessário recorrer ao estudo gramático histórico. A tipologia estará clara em um texto, porque não é algo que se cria, mas algo que está ali. A tipologia nada mais é do que um estudo dos relacionamentos entre eventos, pessoas e instituições citados na Bíblia.

Sobre a sua importância para o estudo hermenêutico e exegético das sagradas escrituras Anglada (2016, p.196), afirma

A relevância hermenêutica do conceito equilibrado de tipologia, conforme proposto por intérpretes reformados, manifesta-se especialmente no seguinte: (1) Ressalta a unidade e inspiração da Bíblia. (2) Faz justiça aos atributos da imutabilidade e soberania de Deus como o Senhor há história. (3) Revela Cristo, sua pessoa e obra, no Antigo Testamento. (4) Favorece a aplicação legítima do Antigo Testamento às nossas próprias circunstâncias históricas e pessoais, sem legalismo, moralismo ou necessidade de alegorização.

Além do que já foi discutido outro fator a ser considerado é o tempo. Nem sempre a tipologia esta ligada a eventos futuros. Este pode aparecer como um retrospecto ou ao futuro.

Diante disso, a ideia de que o todo do A.T. foi temporário e apenas uma sombra é questionada por Feinberg (2013, p.89-90), ele argumenta que

mesmo que o NT interprete o AT simbolicamente e mesmo de devamos fazê-lo, isso não nos permite ignorar ou cancelar o significado do tipo ou substituir o significado do antítipo por ele. Se os tipos fossem alegorias ou símbolos, isso poderia ser feito. Mas não são. Eles são eventos históricos, pessoas e promessas reais. Eles olham para o futuro, mas não de uma forma que torna o significado deles equivalentes ao antítipo. Além disso, se o antítipo do NT cancela o significado do tipo do AT, o NT precisa nos dizer isso. As reinterpretações de passagens do NT não são nem cancelamentos explícitos nem implícitos do significado do AT. Da mesma forma, os antítipos do NT não cancelam nem explícita nem implicitamente o significado de tipos do AT. Pensar como eles o fazem é interpretar mal a tipologia.

Assim sendo, a hermenêutica dispensacionalista não anula o conceito de revelação progressiva, nem a natureza temporária do antigo A.T. e muito menos a tipologia presente nos textos, e isso leva uma menor compreensão como unidade normativa. Já a hermenêutica não dispensacionalista se volta para a prioridade do N.T. sob A.T. desconsiderando algumas vezes a revelação progressiva, o tempo e a tipologia presente.

É considerável dizer que tanto o significado de passagens do A.T. e do N.T. deve ser mantido dentro do seu contexto, não permitindo assim excluir qualquer significado devido correntes de interpretação.

Observando o atual cenário teológico percebe-se que é comumente ensinado o sistema de continuidade no atual meio cristão, e é evidente a continuidade presente nas escrituras, todavia o sistema de descontinuidade existe e seus fundamentos são válidos para a interpretação de texto do A.T. no N.T. O conhecimento de ambos sistemas oferece ao intérprete subsídios para a correta interpretação das escrituras e consequentemente uma futura aproximação destas correntes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho apresentou princípios que subsidiam o trabalho do intérprete e que guiará a busca pela correta interpretação bíblica, todavia todos estes conhecimentos e informações aqui apresentadas podem não fazer sentido ou relevância caso o intérprete não faça uso da maneira correta.

Desta forma, é muito importante que além de tais conhecimentos o estudioso das sagradas escrituras tenha coragem, caráter e credibilidade. Essas características não diminuem o valor da hermenêutica e da exegese, no entanto estas características permitirão ao intérprete que ele faça de fato uma interpretação correta.

Deste modo, é possível perceber que a correta interpretação de textos depende não somente dos princípios levantados anteriormente mas também da pessoa e de suas motivações. A busca pela verdade deve ser antes de tudo a maior motivação para tais estudos e diante de cenários de descaso da palavra e do estudo bíblico se faz necessário que tais ferramentas sejam conhecidas e divulgadas no ambiente teológico a fim de produzir cada vez mais conhecimentos sólidos e verdadeiros.

Por fim, interpretar as sagradas escrituras é algo que exigem muitas habilidades e competências, conforme já foi destacado em cada princípio, todavia a interpretação das sagradas escrituras, sendo ou não em textos do Antigo no Novo, é o caminho para a perfeita obediência. Deste modo, interpretar é o primeiro passo para obedecer.

REFERÊNCIAS

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LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. 3.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.

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PACKER. J.I. Havendo Deus falado. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

PROENÇA, Eduardo de. O uso que o Novo Testamento faz do Antigo Testamento: Bíblia: Introdução e Hermenêutica. São Paulo: Fonte editorial, 2009.

VIRKLER, Henry A. Hermenêutica avançada: princípios e processos de Interpretação bíblica. São Paulo: Editora Vida, 2001.

[1] Pedagoga, pós graduada latu sensu em Gestão Escolar.

Enviado: Janeiro, 2021.

Aprovado: Dezembro, 2021.

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