Incidência e Intensidade da Dor na Atenção Primária: Um Desafio para a Saúde Pública

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BARROS, Simone Regina Alves de Freitas [1]

BARROS, Simone Regina Alves de Freitas.Incidência e Intensidade da Dor na Atenção Primária: Um Desafio para a Saúde Pública. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 08, Vol. 16, pp. 5-11, Agosto de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

Estima-se que 80% da população mundial procure o sistema de saúde devido à queixa de dor. O objetivo desse estudo foi identificar a incidência e intensidade de dor em Adultos na Atenção Primária à Saúde, por meio do registro de dor na escala verbal anexa ao prontuário do usuário. Pesquisa Documental realizada em uma unidade de saúde da família do município de Tupanatinga/PE. A amostra foi constituída por prontuários de usuários (adultos) cadastrados na Unidade. Um quantitativo de 1.071 prontuários foi analisado. Para a avaliação da incidência e intensidade da dor foi utilizada a escala verbal. Segundo a escala verbal, a incidência de dor entre os usuários da unidade de saúde da família foi de 42%. Mediante a intensidade da dor,  22% apresentavam dor leve, 58% apresentavam dor moderada e 20% apresentavam dor intensa. Os resultados deste estudo nos coloca frente o “cenário” da intensidade dor referida na Atenção Primária. A sua alta incidência e intensidade “sinalizam” para o um problema sério de saúde pública.

Palavras-chave: Atenção Primária, Dor, Incidência.

INTRODUÇÃO

Desde os primórdios do ser humano, o homem sempre procurou esclarecer as razões que justificassem a ocorrência de dor e os procedimentos destinados ao seu controle (SBED, 2013).

A dor pode ser definida como uma experiência subjetiva que pode estar associada à le­são real ou potencial nos tecidos, podendo ser descrita tanto em termos destas lesões quanto por ambas as características. Independente da aceitação e da ampli­tude dessa definição, a dor é considerada como uma experiência, uma sensação, genuinamente subjetiva e pessoal. Tem aspectos sensoriais, afetivos, auto­nômicos e comportamentais (SILVA; RIBEIRO-FILHO, PINTO, 2011).

Sua complexidade e natureza multidimensional, as quais são evidentes mesmo nas análises mais elementares dos vários tipos de dor, têm, contudo, obstruído virtualmente o desenvolvimento de uma definição adequada de dor, ou o que, talvez, seja o mais importante, dificultado a construção de uma teoria geral da dor, bem como a derivação de técnicas de tra­tamento claramente eficazes (SILVA; RIBEIRO-FILHO; PINTO, 2011).

A dor é um sintoma e uma das causas mais frequentes da procura por auxílio médico. Estima-se que 80% da população mundial procure o sistema de saúde de­vido a essa morbidade (RUVIARO; FILIPPIN, 2012).

Estudos epidemiológicos americano demonstram que 20% dos adultos, nos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS), sofrem de dor crônica (FREITAS et a., 2009).

A Sociedade Brasileira de Estudo da Dor (SBED) em 2012 iniciou uma análise dos estudos epidemiológicos brasileiros disponíveis sobre dor e evidenciou que eram poucos ainda. Dezesseis chamaram a atenção – alguns deles mais citados na literatura científica internacional sobre epidemiologia da dor. Apenas um deles na Unidade Básica à Saúde (UBS), cuja prevalência de dor foi de 30% (SIQUEIRA, 2013).

Na APS a dor é um sintoma frequentemente referido pelos pa­cientes. Por isso, a importância no diagnóstico e tratamento no primeiro nível de assistência à saúde, evitando assim, que essa se arraste até os níveis mais complexos de atenção à saúde3. Portanto, o controle da dor torna-se uma prática de saúde pública indispensável, especialmente na aten­ção básica de saúde.

É importante salientar que a falta de diag­nóstico e tratamento adequado na fase aguda pode favorecer a cronificação da dor e o agravamento da apresentação clínica (RUVIARO; FILIPPIN, 2012).

No Brasil, não há consenso sobre qual seria a resolutividade esperada dos serviços de APS, mas estudos sobre esse nível de assistência caracterizam a resolutividade da APS em 80%. Já que essa tem a função de principal porta de entrada e serviço de uso regular (ALMEIDA; FAUSTO; GIOVANELLA, 2011)

Percebe-se que os limites dos dados e indicadores na Atenção Básica (AB) podem ser evidenciados pela subnotificação da dor como 5° Sinal Vital. Dessa forma, questiona-se o quão integral é a atenção básica oferecida à população brasileira? Já que esta poderia ser um potencial cenário de novas intervenções (COTTA et al., 2006).

Diante de essa perspectiva conhecer a incidência e intensidade de dor na atenção primária será de grande relevância, uma vez que a literatura traz recortes importantes sobre os outros níveis de assistência à saúde e poucos estudos na APS. Para tanto, identificar o comportamento da dor na principal “Porta de Entrada” do Sistema Único de Saúde (SUS) contribuirá na orientação, na tomada de decisões e na evolução do cuidado. Como também, diminuição da cronificação dessa e dos custos gerados para os sistemas de saúde perante o diagnóstico e tratamento adequado na fase aguda.

O objetivo desse estudo foi identificar a incidência e intensidade da dor em Adultos na APS, por meio do registro de dor na escala verbal anexa ao prontuário do usuário.

MÉTODOS

Realizou-se uma pesquisa documental, tendo como campo de pesquisa a Unidade de Saúde da Família (USF) do Povoado Cabo do Campo município de Tupanatinga. Esse município está localizado a 304 km a Oeste da cidade de Recife, na mesorregião Agreste Pernambucano e microrregião Vale do Ipanema. Possui uma população 24.703 habitantes segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2013).

A amostra foi constituída por prontuários de usuários cadastrados na USF. Optou-se em selecionar-se 50% dos prontuários de usuários adultos (20 a 59 anos) adscritos a Unidade de Saúde. O que representou um quantitativo de 1.071 prontuários analisados. Para a avaliação da incidência da dor foi utilizada a escala verbal (EV). Essa desde o ano de 2013 foi implantada na rotina como o 5º Sinal Vital. Mediante a análise dos prontuários de adultos.

Foram apresentadas as estatísticas descritivas por meio de distribuição de frequências, por meio das frequências absolutas e relativas percentuais para as variáveis categóricas. Foi calculada a prevalência de dor e estimado o intervalo de confiança ao nível de 95%. Na análise da associação da presença de dor e gênero, foi aplicado o teste de Qui-Quadrado de Pearson. A significância estatística adotada na análise das hipóteses foi de 5%. O software utilizado na análise foi o STATA versão 12.0.

Ainda foi solicitada a autorização formal a Coordenação de Atenção Básica do município para realização da pesquisa na Unidade de Saúde. Foi também solicitado ao coordenador do Comitê de Ética através de um Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade da Associação Caruaruense de Ensino Superior de Caruaru Pernambuco, Parecer CEP- 900.126 em 05 de dezembro de 2014.

Vale ressaltar que se obteve o Termo de Autorização para não utilização do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Por tratar-se de pesquisa com dados secundários (prontuários e outros), respeitando as diretrizes regulamentadoras emanadas da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, visando assegurar os direitos e deveres que dizem respeito à comunidade científica, aos sujeitos da pesquisa e ao Estado.

RESULTADOS

Diante das informações obtidas a partir do instrumen­to utilizado e mediante o tratamento dos dados foram selecionadas as assertivas de maior relevância para a compreensão dos questionamentos que direcionaram os objetivos deste estudo.

Tabela 1 – Características demográficas e socioeconômicas dos usuários da Unidade de Saúde da Família do Povoado de Cabo do Campo, Tupanatinga, Pernambuco.

Características Número (%)
Sexo
Feminino 596 (55,6%)
Masculino 475 (44,4%)
Faixa etária
20 a 29 145 (13,5%)
30 a 39 188 (17,6%)
40 a 49 342 (31,9%)
50 a 59 396 (37,0%)
Escolaridade
Analfabeto 373 (34,8%)
Ensino fundamental 145 (13,5%)
Ensino médio 342 (31,9%)
Ensino superior 211 (19,7%)
Ocupação
Trabalha 665 (62,1%)
Aposentado 322 (30,1%)
 Outras 84   (7,8%)
Total 1.071 (100%)

Fonte: Dados da pesquisa

Segundo a EV, a frequência de dor entre os usuários da USF foi de 42% (IC 95%: 39% a 45) (Tabela 2).

Tabela 2 Frequência de dor, segundo a escala verbal, descrita nos prontuários dos usuários da Unidade de Saúde da Família do Povoado de Cabo do Campo, Tupanatinga, Pernambuco

Registro Número (%)
Presença de dor 450 (42%)
Ausência de dor 621 (58%)
Total 1.071(100%)

Fonte: Dados da pesquisa

Segundo a intensidade da dor 22% (99 usuários) apresentavam dor leve, 58% (261 usuários) apresentavam dor moderada e 20% (90 usuários) apresentavam dor intensa. Não houve casos de dor insuportável (figura 1).

Figura 1 - Intensidade da dor, segundo a escala verbal, descrita nos prontuários dos usuários da Unidade de Saúde da Família do Povoado de Cabo do Campo, Tupanatinga, Pernambuco. Fonte: Dados da pesquisa
Figura 1 – Intensidade da dor, segundo a escala verbal, descrita nos prontuários dos usuários da Unidade de Saúde da Família do Povoado de Cabo do Campo, Tupanatinga, Pernambuco. Fonte: Dados da pesquisa

DISCUSSÃO

Os resultados desse estudo mostram alta incidência de dor em adultos (42%) na principal na APS. Essa incidência corrobora com a maioria dos estudos de diferentes subgrupos de variáveis socioeconômicas, demográficas e de saúde.

Em 2012 um estudo transversal com indivíduos de ambos os gêneros maiores de 18 anos que se encontravam em uma sala de espera de uma UBS e que foram avaliados através da escala analógica visuais constatou que 37,8% dos entrevistados apresentavam dor crônica no momento da avaliação (RUVIARO; FILIPPIN, 2012). O primeiro estudo de base populacional na América do Sul, e o terceiro no mundo, para usar as 4 perguntas (DN4) ferramenta Douleur Neuropathique em estudos epidemiológicos foi realizado com 1.597 pessoas em São Luís, Brasil. O DN4 foi originalmente desenvolvido e validado na França e é um questionário para aplicação pelo clínico que tem 10 itens relacionados com características da dor. Esse tem demonstrado ter excelentes propriedades no rastreio/identificação de dor em todo o mundo. Segundo esse estudo em São Luís a prevalência de dor através do DN4 foi de 42% (DE MORAES VIEIRA et al., 2012).

Estudo recente de Nascimento (2014) mostrou que a dor intensa foi a mais citada, com 42,86%; a moderada aparece em seguida, com 25%. É possível perceber que os estudos em análise trazem maior percentual de intensidade da dor classificada como moderada, seguida da dor intensa corroborando com este estudo.

Para tanto, os percentuais do mais importante estudo epidemiológico realizado no Brasil corroboram com os dados da presente pesquisa. Este estudo nos mostra que a mensuração da dor é extremamente importante na APS, pois se torna impossível manipular um problema tão comum na porta de entrada preferencial do SUS sem ter uma medida sobre a qual se baseará o tratamento ou conduta terapêutica. Vale acrescentar que estudos recentes concluíram que há uma precariedade em relação à formação de recursos humanos preparados para o gerenciamento da dor. É sabido que o controle eficaz da dor é um dever dos profissionais de saúde, além de ser um direito dos que dela padecem e um passo fundamental para a efetiva humanização nos serviços de saúde (BARROS et al., 2014)

As limitações do estudo consistem na diversidade de instrumentos para avaliar a dor limita o que limita a comparação entre esses.

CONCLUSÃO

O conhecimento da incidência e intensidade da dor na APS é de fundamental importância, pois a Atenção Primária representa a alavanca para a transformação do sistema como o todo e que a atenção dada ao registro da dor repercute diretamente na diminuição da cronificação e dos custos gerados para os sistemas de saúde perante o diagnóstico e tratamento adequado na fase aguda.

REFERÊNCIAS

SBED. Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor. Disponível em:<http://www.dor.org.br/> Acesso em: 29 Abr. de 2013.

SILVA, J.A.; RIBEIRO-FILHO;  PINTO,  N. A dor como um problema psicofísico. Rev Dor. 12(2):138-51, 2011.

RUVIARO, L.F.; FILIPPIN, L.I. Prevalência de dor crônica em uma Unidade Básica de Saúde de cidade de médio porte. Rev Dor13(2):128-31, 2012.

FREITAS, C.C.; VIEIRA, P.R.; TORRES, G.V.; PEREIRA, C.R. Avaliação da dor com o uso das escalas unidimensionais. Rev Dor. 10(1):56-62, 2009.

SIQUEIRA, J.T. A dor dos brasileiros: discutindo o uso de opioide no tratamento da dor no Brasil. Rev Dor. 14(4):237-8, 2013.

ALMEIDA, P.F.; FAUSTO, M.C.; GIOVANELLA, L. Fortalecimento da atenção primária à saúde: estratégia para potencializar a coordenação dos cuidados. Rev Panam Salud Publica. 29(2):84-95, 2011.

COTTA, R.M.;  SCHOTT,  M.; AZEREDO, C.M.; FRANCESCHINI, S.C.; PRIORE,  S.E.; DIAS, G. Organização do trabalho e perfil dos profissionais do Programa Saúde da Família: um desafio na reestruturação da atenção básica em saúde. Epidemiol Serv Saúde. 15(3):7-18, 2006.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2010. Disponível em:<http://www.ibge.gov.br/.> Acesso em: 30 de Maio de 2013.

DE MORAES VIEIRA, E.B.; GARCIA, J.B.; DA SILVA, A.A.; MUALEM ARAÚJO, R.L.; JANSEN, R.C. Prevalence, characteristics, and factors associated with chronic pain with and without neuropathic characteristics in São Luís, Brazil. J Pain Symptom Manage. 44(2):239-51, 2012.

NASCIMENTO, L.C.B. Caracterização da dor de profissionais de enfermagem da clínica médica de um hospital público do Distrito Federal. 2014. 58 f., il. Monografia (Bacharelado em Enfermagem) – Universidade de Brasília, Ceilândia-DF, 2014.

BARROS, S.R.A.F.;  LIMA, R.N.;  PIMENTEL, I.P.;  SILVA, J.R.; BERNARDINO, W.S.S.X.; RAMOS, D.K.R. CONHECIMENTOS SOBRE DOR ADQUIRIDOS NOS CURSOS DE CIÊNCIAS DA SAÚDE: Uma Revisão Integrativa. Revista da Universidade Vale do Rio Verde, Três Corações. 12(2):706-715, 2014.

[1] Mestre em Saúde Pública e Gestão Hospitalar; Especialista em Saúde Pública e Gestão; Pós-Graduada em Enfermagem Obstétrica; MBA em Administração em Organizações e a Saúde do Trabalhador; Enfermeira do Hospital Universitário Alberto Antunes de Maceió. Alagoas & Hospital Jesus de Nazareno. Pernambuco, Brasil.

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