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Utilização do Processo de Enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva: Revisão Integrativa da Literatura [1]

RC: 12808
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CONTEÚDO

SANTOS, Beatriz Cristina dos [2], BRISILEIRO, Marislei de Sousa Espíndula [3]

SANTOS, Beatriz Cristina dos. Utilização do Processo de Enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva: Revisão Integrativa da Literatura. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 9. Ano 02, Vol. 03. pp 88-103, Dezembro de 2017. ISSN:2448-0959

1. INTRODUÇÃO

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é destinada à internação de pacientes críticos e que requeiram atenção profissional especializada e monitorização contínua, materiais específicos e outras tecnologias necessárias ao diagnóstico e tratamento (BRASIL, 2010). Desta maneira, a assistência de enfermagem em UTI exige do enfermeiro identificação rápida das condições de saúde de cada indivíduo, avaliações críticas e intervenções imediatas, devido à gravidade e instabilidade dos pacientes.

A enfermagem exerce forte influência na recuperação dos pacientes criticamente enfermos, para tanto o enfermeiro necessita desenvolver suas ações de maneira organizada para compartilhar saberes e estratégias assistenciais, de modo a promover os melhores resultados ao paciente.

Nesse contexto, para organizar o trabalho e a abordagem clínica da profissão em UTI, a utilização do Processo de Enfermagem favorece a identificação das condições apresentadas pelos pacientes que requerem intervenção e tomadas de decisões terapêuticas imediatas e adequadas para atingir resultados pelos quais a enfermagem é responsável (FERREIRA et al., 2016).

O Processo de Enfermagem (PE) surgiu como um método sistematizador da assistência, ou seja, uma forma de organização dos cuidados de enfermagem. Em meados da década de 70, ele foi introduzido no Brasil, pela Enfermeira Doutora Wanda de Aguiar Horta, que desenvolveu um modelo teórico baseado nas Necessidades Humanas Básicas (NHB) trabalhadas por Maslow na Teoria da Motivação Humana (HORTA, 1979).

Quando usado adequadamente, o PE auxilia o enfermeiro a desenvolver um estilo de pensamento para nortear os julgamentos clínicos necessários aos cuidados de enfermagem. Como instrumento metodológico, além de orientar e organizar o trabalho de enfermagem, ele oferece subsídios para a documentação da prática profissional, aumentando a visibilidade e o reconhecimento do enfermeiro (GAIDZINSKI et al. 2008; COFEN 358/2009).

Conforme a Resolução COFEN 358/2009, o processo de enfermagem organiza-se em cinco etapas inter-relacionadas, interdependentes e recorrentes: Coleta de dados de enfermagem; Diagnóstico de enfermagem; Planejamento de Enfermagem; Implementação e Avaliação de Enfermagem.

Este estudo tem como foco a segunda etapa do PE e as intervenções de enfermagem frente ás respostas humana. O diagnóstico de enfermagem consiste na interpretação e julgamento clínico dos dados coletado na primeira etapa. Eles constituem a base para a seleção ou intervenção com as quais se objetiva alcançar os resultados esperados (NANDA-I; COFEN 358/2009).

Apesar de ser recomendada e amplamente divulgada, ainda não é comum o uso de linguagens padronizadas pela enfermagem, o que dificulta o desenvolvimento do PE, ou seja, a determinação dos resultados que se espera alcançar, o direcionamento da escolha das intervenções de enfermagem e consequentemente a avaliação para determinar se as ações alcançaram o resultado esperado (CARVALHO; CRUZ; HERDMAN, 2013; PAGANIN et al., 2010).

3. OBJETIVO

Analisar as publicações científicas relacionadas a utilização do processo de enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva.

4. METODOLOGIA

Este estudo constituiu-se de revisão da literatura sobre a utilização do processo de enfermagem em UTI.

Estabeleceu-se a questão norteadora da pesquisa: “Como se apresentam os resultados de estudos publicados em periódicos nacionais sobre a utilização do processo de enfermagem em UTI?”. O levantamento das produções científicas foi realizado nos meses de julho e agosto de 2017, pela pesquisadora principal.

Realizou-se a busca das publicações/artigos on-line no sítio da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), nas bases de dados da Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), no Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica (MEDLINE), Base de Dados de Enfermagem (BDENF). As palavras-chave utilizadas foram: processo de enfermagem, registro de enfermagem, Unidade de Terapia Intensiva. Os critérios para a escolha das palavras chave consistiram em: pertencer aos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e representar ao menos em parte a temática do estudo.

Como critérios de inclusão dos artigos estabeleceram-se: artigos completos; publicados no período entre 2011 a 2017; disponíveis no idioma português; indexados nas bases de dados mencionadas; que versassem acerca da proposta de utilização do processo de enfermagem em UTI. Foram excluídos os artigos que não responderam à pergunta norteadora, aqueles que se repetiram nas bases de dados.

Foi realizada a busca inicial pelos resumos dos artigos que respondiam aos descritores adotados e, selecionados aqueles que mencionavam fatores relacionados à proposta de sistematização da assistência de enfermagem para idoso em unidade terapia intensiva em domiciliar.

Na base de dados LILACS foram encontrados 10 artigos, na MEDLINE um artigo, na BDENF seis artigos e quatro artigos no SciELO. Após leitura exaustiva do título, resumo e palavras-chave, 16 artigos foram pré-selecionados para a leitura na íntegra. Foram excluídas as repetições e as publicações que não eram relacionadas ao tema, após a leitura integral das produções científicas, apenas sete artigos foram incluídos na pesquisa, como mostra a figura 1.

Figura 1 - Fluxograma da coleta de dados para a revisão integrativa. Goiás, 2017.
Figura 1 – Fluxograma da coleta de dados para a revisão integrativa. Goiás, 2017.

As sete (100%) referências obtidas que constituirão esta amostra, irão ser, primeiramente, catalogadas e analisadas, a partir de um instrumento de coleta de dados, que organiza e tabula as informações, contendo os autores, o título, a revista e o ano de publicação e os objetivos do estudo. Os resultados irão ser interpretados com base na literatura correlata ao tema do estudo.

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A amostra desta RI foi composta por sete artigos, todos nacionais. A maior proporção dos artigos (57,14%) foi publicada no ano de 2015. Houve predomínio de estudos realizados em Unidade de Terapia Intensiva Adulto (71,43%), sendo dois realizado em UTI neonatal (28,57).

O Quadro 1 mostra a sinopse dos artigos selecionados para a revisão integrativa.

Quadro 1 – Caracterização dos artigos selecionados quanto aos autores, título, periódico, ano de publicação e objetivos do estudo. Goiás, Brasil, 2017

Estudos Autor Periódico/ ano Título Objetivo
A1 COLAÇO, A. et al. Rev. enferm. UFSM, 2015. Registro da avaliação de enfermagem em terapia intensiva: Discurso do Sujeito Coletivo. Compreender as percepções de enfermeiros sobre a avaliação de enfermagem e seu registro em uma Unidade de Terapia Intensiva adulto.
A2 LIMA, A.P.S.; CHIANCA, T.C.M.; TANNURE, M.C. Rev. Latino-Am. Enfermagem, 2015. Avaliação da assistência de enfermagem utilizando indicadores gerados por um software. Analisar a eficácia do Processo de Enfermagem, utilizando indicadores gerados por um software, em uma Unidade de Terapia Intensiva de adultos de Belo Horizonte.
A3 TANNURE, M.C. et al. J. health inform., 2015. Processo de Enfermagem: comparação do registro manual versus eletrônico. Comparar a funcionalidade, confiabilidade, usabilidade e eficiência dos registros manuais e de um software especialmente desenvolvido para Unidade de Terapia Intensiva de Adultos, para auxiliar na implantação do Processo de Enfermagem.
A4 DE MEDEIROS LIMA, L.; RIBEIRO SANTOS, S. Aquichán, 2015. Protótipo de um software para registro de enfermagem em unidade de terapia intensiva neonatal. Desenvolver um software aplicado à sistematização da assistência de enfermagem numa unidade de terapia intensiva neonatal, que proporcione aos enfermeiros o registro informatizado, eficiente e rápido.
A5 RAMALHO NETO, J.M.; NÓBREGA, M.M.L.; FONTES, W.D. Rev. bras. enferm., 2013. Instrumento de coleta de dados de enfermagem em Unidade de Terapia Intensiva Geral. Construir um instrumento de coleta de dados de enfermagem para clientes de uma Unidade de Terapia Intensiva Geral, fundamentado  na Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Horta.
A6 SILVA, R.S. et al. Rev. enferm. UERJ, 2012. Elaboração de um instrumento para coleta de dados de paciente crítico: histórico de enfermagem. Descrever a experiência de construção de um instrumento para coleta de dados para a documentação da primeira etapa do processo de enfermagem em uma UTI.
A7 MOREIRA, R.A.N. et al. Cogitare enferm., 2012. Sistematização da assistência de enfermagem em unidade neonatal. Identificar as dificuldades e contribuições na implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem em unidade neonatal na visão de enfermeiros.

 

Instrumento de coleta de dados

A primeira etapa do Processo de Enfermagem (PE) é a coleta de dados, está por sua vez é realizada a partir de um instrumento que compreenda itens relacionados à identificação do paciente, a coleta de informações orientadas pelas técnicas de anamnese e exame físico, procurando responder aos problemas de saúde/doença, direcionados pelos padrões de Necessidade Humanas Básicas: psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais (SILVA et al., 2012). Assim o uso de um instrumento, no cotidiano dos enfermeiros, tem facilitado a implantação da primeira etapa do processo de enfermagem na Unidade de Terapia intensiva (UTI) e direcionado a implementação das demais etapas.

A elaboração de um instrumento de coleta de dados para ser utilizado em UTI, não é uma tarefa simples, diante das particularidades do cliente hospitalizado e as tecnologias encontradas nesse setor, assim como a magnitude das decisões clínicas que os enfermeiros são levados a tomar ao longo de uma assistência especializada e ininterrupta (RAMALHO NETO; NÓBREGA; FONTES, 2013).

Todos os passos do Processo de Enfermagem (PE) dependem dos dados coletados, em vista disso, ao se pensar na construção de um instrumento, é preciso levar em consideração o entendimento de que ele deve-se constituir de um roteiro organizado e direcionado para o levantamento de sinais e sintomas do paciente ao qual será aplicado, de modo a proporcionar meios para o julgamento clínico (SILVA et al., 2012).

Além disso, ele deve ser significativo para o enfermeiro e para o paciente e trazer possibilidade de se estabelecer os diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem, viabilizando o cuidado profissional de enfermagem ao cliente em estado crítico nos mais variados momentos do continuum saúde-doença em prol da recuperação, quando a cura do paciente for possível, ou do cuidado para uma qualidade nos últimos momentos de vida, quando o paciente se encontrar no processo de terminalidade (RAMALHO NETO; NÓBREGA; FONTES, 2013; SILVA et al., 2012; MOREIRA et al. 2012).

A sua utilização gera benefícios não só para a assistência, mas também para o ensino e a pesquisa. Assim, no campo assistencial, facilitará a obtenção de dados objetivos e subjetivos do cliente criticamente enfermo, favorecendo a identificação precoce de diagnósticos de enfermagem que possam direcionar o planejamento de intervenções específicas e individualizadas para suprir necessidades humanas afetadas (RAMALHO NETO; NÓBREGA; FONTES, 2013).

No ensino, as informações colhidas a partir dessa ferramenta clínica oportunizam aos discentes e docentes melhores conhecimentos sobre as necessidades, problemas de saúde, experiências relacionadas, metas, valores e estilo de vida de cada cliente, subsidiando discussões científicas e construtivas sobre o planejamento do cuidado. A pesquisa, por sua vez, tanto contribui para a sistematização do cuidado prestado a partir desses conhecimentos cientificamente construídos, como também alimenta e aprimora o ensino de cuidados críticos e a assistência de enfermagem intensiva (RAMALHO NETO; NÓBREGA; FONTES, 2013).

A utilização de um instrumento permite maior aproximação e melhor relacionamento interpessoal entre enfermeiros, clientes e familiares; possibilita a divulgação da imperatividade da sistematização da assistência de enfermagem na qualidade do cuidado; proporciona a melhora dos registros no prontuário dos clientes qualificando o cuidado e o controle de custos e auditorias; motiva novas pesquisas que trabalhem com ferramentas próprias da Enfermagem; instiga os enfermeiros a adotarem no seu cotidiano assistencial ciência, arte, ética e conhecimento pessoal em enfermagem no processo de promoção, manutenção e recuperação da saúde; assim como desperta nesses profissionais a necessidade de realizar o Processo de Enfermagem em toda a sua essência e conjuntura (RAMALHO NETO; NÓBREGA; FONTES, 2013, SILVA et al., 2012).

Sistematização da Assistência de Enfermagem

A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) ao favorecer a operacionalização do Processo de Enfermagem (PE), se mostra como o caminho mais promissor para o desenvolvimento do trabalho da Enfermagem, tendo em vista que muitos enfermeiros estão aliando a prática com o conhecimento cientificamente construído para, assim, identificar no cliente necessidades não atendidas ou atendidas inadequadamente; planejar e implementar ações e intervenções efetivas; avaliar os resultados dos cuidados pelos quais são legalmente responsáveis e, finalmente, para possibilitar a adequada documentação desses cuidados por eles prestados (RAMALHO NETO; NÓBREGA; FONTES, 2013, MOREIRA et al. 2012).

Os profissionais de enfermagem quando utilizam um referencial teórico para nortear a assistência prestada, tornam-se sujeitos ativos desse cuidado ao aprimorar habilidades cognitivas e psicomotoras para associar teoria e prática, relacionando conhecimentos multidisciplinares e estabelecendo relações de trabalho mais coerentes e produtivas no sentido de oferecer um cuidado integral e qualificado (SILVA et al., 2012; RAMALHO NETO; NÓBREGA; FONTES, 2013).

A implementação do PE garante a individualização do cuidado ao paciente e a continuidade da assistência de enfermagem. A SAE enquanto processo organizacional é capaz de oferecer subsídios para o desenvolvimento de métodos interdisciplinares e humanizados de cuidado (MOREIRA et al. 2012). Para a sua execução é necessário conhecimento, além de raciocínio rápido e lógico, para a associação dos sinais e sintomas com as possíveis causas.

Diante disso, um dos caminhos para a implementação eficaz do PE é o compromisso e a responsabilização do enfermeiro em realizar efetivamente as etapas da SAE. Esta deve ser feita com formulário específico para registros e número suficiente de profissionais para que os todos os pacientes sejam avaliados minuciosamente e suas necessidades sejam atendidas. Além disso, deve haver estímulo para que a SAE seja realizada de forma efetiva, pois a mesma constitui atividade exclusiva do enfermeiro e garante um cuidado sistematizado que resulta segurança e otimização de resultado das ações realizados com o paciente (MOREIRA et al. 2012).

Dificuldades encontradas para implementação e utilização da SAE

Apesar da obrigatoriedade da implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) em ambientes onde ocorrem cuidados de enfermagem, a aplicação dessa metodologia da assistência como instrumento científico de trabalho tem encontrado dificuldades devido a obstáculos internos e externos à Enfermagem, dentre os quais se destacam as estruturas institucionais, o processo de trabalho dos agentes da Enfermagem, a lógica da priorização da atenção médica individualizada e curativa, a forma como ocorre sua aprendizagem na graduação, além da inaplicabilidade do processo de enfermagem em hospitais que são campos de estágio das escolas formadoras (RAMALHO NETO; NÓBREGA; FONTES, 2013).

Corroborando com tal ideia, Silva et al. (2012), afirma que o ato de sistematizar a assistência ainda não é realizado efetivamente pelos profissionais de enfermagem, diante dos tantos papéis desempenhados pelo enfermeiro no âmbito das atividades administrativas e burocráticas. Isso tem implicado em um acúmulo de tarefas e consequentemente um distanciamento entre o enfermeiro e o paciente, consistindo ainda um dos entraves para a organização do trabalho nessa área.

Em um estudo desenvolvido na UTI adulto de um hospital público de Santa Catarina, foi referido pelos profissionais de enfermagem que o PE é um método bastante burocrático e de difícil operacionalização, problema que geralmente está associado ao número insuficiente de profissionais e à sobrecarga de trabalho (COLAÇO et al. 2015). Fato esse que poderia ser modificado se a carga horária fosse mais bem distribuída, podendo favorecer a desburocratização da rotina dos enfermeiros.

Outros obstáculos, referidos pelos enfermeiros, para implementação da SAE e a sua compreensão pelos integrantes da equipe é a falta de formulários específicos para os registros e a dificuldade na execução da segunda etapa da SAE, a etapa de Diagnóstico de Enfermagem, ou seja, aquela em que o enfermeiro realiza um julgamento clínico das respostas do indivíduo, da família ou da comunidade aos problemas de saúde atuais ou potenciais aos processos vitais (NANDA 2015; COFEN 2009; MOREIRA et al. 2012).

Em um estudo realizado em uma UTI neonatal com 7 enfermeiras na cidade de Fortaleza, verificou-se, por meio dos relatos, que as enfermeiras se esforçam para garantir a assistência de qualidade, programando a assistência de acordo com as necessidades individuais dos pacientes críticos, porém a sistematização é implementada de forma fragmentada e incompleta, omitindo algumas fases do processo devido às demandas do setor quando surgem outros problemas (MOREIRA et al. 2012). A SAE possui fases interdependentes, inter-relacionadas, recorrentes e complementares e, para que exista a assistência satisfatória, é necessário executá-las concomitantemente.

Assim, observar-se que a utilização do PE em todas as suas fases ainda constitui-se em enorme lacuna entre o conhecimento produzido e sua aplicabilidade no cotidiano dos enfermeiros.

Registros de enfermagem

A avaliação de enfermagem, didaticamente, se constitui na última etapa do Processo de Enfermagem (PE) e é definida como um método deliberativo, sistemático e ininterrupto de análise das mudanças nas respostas humanas (COFEN 2009). Por meio da avaliação de enfermagem, realizada através dos registros de enfermagem, é possível determinar se as intervenções alcançaram os resultados delimitados no planejamento de Enfermagem, bem como auxiliar na mudança, aperfeiçoamento e possíveis adaptações nas etapas do PE (PIMPÃO et al. 2010, BORSATO et al. 2011). Ou seja, o registro da avaliação dos enfermeiros é a possibilidade de se compreender medidas terapêuticas adotadas e determinar a qualidade da assistência prestada.

Além disso, os enfermeiros mencionam os registros como forma de valorização profissional, fonte de consulta acerca das condições de saúde do paciente e fonte de pesquisa multiprofissional (COLAÇO et al. 2015).

Mesmo sendo reconhecida a importância e a necessidade de documentação e registros precisos e efetivos do trabalho da enfermagem, representando uma continuidade das atividades assistenciais para interpretação da terapêutica do indivíduo hospitalizado, os registros ainda são insuficientes e não efetivos nas UTIs, onde a dinâmica de trabalho exige maior preocupação com a execução da assistência direta ao paciente grave, de forma intensa e constante, atribuindo erroneamente, em função disso, papel secundário aos registros ou avaliações detalhadas e embasadas em raciocínio crítico (COLAÇO et al. 2015).

Os enfermeiros relatam que uma das causas de elaboração de registros incompletos, insuficientes e ilegíveis está na exiguidade de recursos humanos, falta de tempo hábil para realização dos registros e excesso de atividades administrativas e burocráticas (COLAÇO et al. 2015). É preciso destacar também que a falta de tempo é citada como causa de registro incompleto, porém, é necessária reflexão dos enfermeiros acerca do desenvolvimento e priorização de atividades em serviço, visto que não é incomum que o enfermeiro assuma responsabilidades que vão além do campo de atuação, não privativas e que, possivelmente, poderiam ser delegadas a outros profissionais, em detrimento da realização das atividades prioritárias (COLAÇO et al. 2015).

Assim, entende-se que a avaliação de enfermagem e o seu registro em todos os contextos do cuidado, principalmente na UTI, são de extrema importância para a identificação das necessidades do indivíduo, para a tomada de decisões clínicas e para a execução de intervenções seguras em indivíduos com problemas multissistêmicos complexos (COLAÇO et al. 2015). Evidencia-se ainda que registros de excelência podem constituir-se em garantia de menores perdas econômicas, fortalecimento da enfermagem como ciência, além de ser um requisito válido do ponto de vista jurídico.

Registro eletrônico de Enfermagem

Devido às dificuldades em se concretizar a implantação de todas as etapas do PE o uso de softwares para a sua operacionalização vem sendo indicado como uma ferramenta capaz de contribuir para a sua implantação de forma mais rápida, precisa e completa, favorecendo uma maior disponibilidade dos enfermeiros para as atividades assistenciais e para um maior contato com os pacientes (MALUCELLI et al. 2010).

Ao utilizar sistemas informatizados construídos a partir das etapas do PE, o enfermeiro passa a dispor de mais tempo para vivenciar as etapas deste método científico, o que acaba favorecendo a prática do raciocínio crítico e a tomada de decisão pelos enfermeiros (BAGGIO, ERDMANN, DAL SASSO, 2010).

O desenvolvimento e utilização de software para sistematizar a assistência de enfermagem tem como meta principal, tornar o serviço mais prático, rápido e eficaz, a partir de um esforço menor, gastando menos tempo. Assim, o registro eletrônico torna o conteúdo mais acessível, legível e fácil de ser recuperado, permitindo o acesso imediato às informações, e consequentemente, melhorando a eficiência e a qualidade dos cuidados, além de agilizar a comunicação (DE MEDEIROS LIMA; RIBEIRO SANTOS, 2015).

Obtém-se com o registro informatizado um padrão de escrita, além do perfeito entendimento do texto produzido. Dessa maneira, os problemas de duplicidade de informações e a omissão de dados são totalmente resolvidos (DE MEDEIROS LIMA; RIBEIRO SANTOS, 2015). Além disso, o uso do recurso tecnológico contribui ainda para o nivelamento da equipe, uma vez que um plano assistencial mínimo é garantido pelo fluxo do programa.

Corroborando com tal afirmativa, um estudo realizado em uma UTI adulto de Belo Horizonte (MG), no qual foram comparadas a funcionalidade, confiabilidade, usabilidade e eficiência dos registros manuais e do software, constatou-se que o sistema apresentou-se mais vantajoso quando comparado com o registro manual no que se refere ao fato de: ser mais preciso na execução das etapas do PE; permitir uma maior compreensão sobre a interrelação existente entre as etapas do PE; dispor de avisos e lembretes que minimizam o registro de dados inválidos; ser mais fácil aprender o conceito, a aplicação e executar as ações deste método científico e controlar o seu preenchimento utilizando o recurso eletrônico; ser mais fácil obter dados para avaliar o serviço a partir do seu uso e possuir subsídios de ajuda que podem ser acessados em caso de dúvidas  (TANNURE et al. 2015). Porém, tanto os formulários manuais quanto os eletrônicos podem ser utilizados para se implementar o PE na prática.

Desse modo, vale ressaltar que o software proporciona a execução do processo de enfermagem em todas as suas etapas, utilizando um sistema de classificação de enfermagem. Sabe-se que é difícil treinar toda a equipe de enfermagem para que alcance resultados semelhantes ao informatizado utilizando o registro manual. Certamente, o tempo de elaboração do plano de cuidados para cada paciente despenderia muito tempo do profissional, o que muitas vezes é a causa da desmotivação para a implementação da SAE (DE MEDEIROS LIMA; RIBEIRO SANTOS, 2015; TANNURE et al. 2015).

Além disso, a utilização de software possibilita também a análise da eficácia do PE, que retrata como o enfermeiro tem identificado os problemas e riscos do paciente e como tem planejado a assistência de forma sistematizada. Assim, diante da inegável necessidade de instrumentalização do enfermeiro e do estabelecimento de estratégias para mensuração e melhoria da qualidade da assistência de enfermagem, é importante a existência de dados essenciais de enfermagem, padronizados e informatizados, para avaliação da efetividade do atendimento e demonstração das contribuições que o cuidado de enfermagem traz para os resultados alcançados pelos pacientes (LIMA; CHIANCA; TANNURE, 2015).

CONCLUSÃO

Diante do cuidado altamente especializado e complexo que o enfermeiro desenvolve em uma Unidade de Terapia Intensiva, a utilização do processo de enfermagem assim como a sistematização da assistência de enfermagem mostra-se imprescindíveis para uma assistência de qualidade, com eficiência e eficácia.

Sistematizar o cuidado implica em utilizar uma metodologia de trabalho embasada cientificamente. Isto resulta na consolidação da profissão e visibilidade para as ações desempenhadas pelo enfermeiro, bem como oferece subsídios para o desenvolvimento do conhecimento técnico-científico.

Percebe-se, através das produções científicas, uma grande dificuldade dos profissionais enfermeiros para direcionar o seu trabalho e de sua equipe, em prol do desenvolvimento da SAE, sabe-se que estas dificuldades possuem diversas origens, como conhecimento acerca da SAE, estrutura institucional de trabalho, quantitativo de recursos humanos, entre diferentes aspectos que podem influenciar cada realidade e contribuir para a não efetivação da SAE nas instituições de saúde.

Mesmo considerando a importância do processo de enfermagem, é notório que ele ainda carece de investimentos, a fim de fomentar a sua consolidação para a segurança das práticas de enfermagem. Embora seja reconhecida como atividade imprescindível, representando uma continuidade das atividades assistenciais para interpretação da terapêutica do indivíduo hospitalizado.

REFERÊNCIAS

BAGGIO, Maria Aparecida; ERDMANN, Alacoque Lorenzini; SASSO, Grace Teresinha Marcon Dal. Cuidado humano e tecnologia na enfermagem contemporânea e complexa.Texto contexto – enferm.,  Florianópolis ,  v. 19, n. 2, p. 378-385, June 2010. Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072010000200021&lng=en&nrm=iso>. access on  13  Aug.  2017.

BORSATO, F. G. et al . Avaliação da qualidade das anotações de enfermagem em um Hospital Universitário. Acta paul. enferm.,  São Paulo ,  v. 24, n. 4, p. 527-533,    2011.  Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-21002011000400013&lng=en&nrm=iso>. access on  13  Aug.  2017.

BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução Nº 7, de 24 de fevereiro de 2010. Dispõe sobre os requisitos mínimos para funcionamento de Unidades de Terapia Intensiva e dá outras providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília (DF), 24 fev. 2010.

Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2010/res0007_24_02_2010.html>. Acesso em: 16 Jul. 2017.

CARVALHO, E. C.; CRUZ, D. A. L. M.; HERDMAN, T. H.. Contribuição das linguagens padronizadas para a produção do conhecimento, raciocínio clínico e prática clínica da Enfermagem. Rev. bras. enferm., Brasília, v. 66, n. spe, p. 134-141,  Sept.  2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672013000700017&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:  16 Jul. 2017.  http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672013000700017.

COLAÇO, A. et al. Registro da avaliação de enfermagem em terapia intensiva: Discurso do Sujeito Coletivo. Revista de Enfermagem da UFSM, [S.l.], v. 5, n. 2, p. 257 – 266, jul. 2015. ISSN 2179-7692. Disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/reufsm/article/view/15509>. Acesso em: 12 Aug. 2017.

Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 358, de 15 de outubro de 2009: Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem em ambientes, públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional de Enfermagem, e dá outras providências. Brasília (DF); 15 out. 2009. Disponível em: <http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-3582009_4384.html> Acesso em 16 jul. 2017.

DE MEDEIROS LIMA, L.; RIBEIRO SANTOS, S. Protótipo de um software para registro de enfermagem em unidade de terapia intensiva neonatal. Aquichán, Bogotá, v. 15, n. 1, p. 31-43, jan. 2015. Available from <http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1657-59972015000100004&lng=en&nrm=iso>. access on  12  Aug.  2017.

FERREIRA, A. M. et al. Diagnósticos de enfermagem em terapia intensiva: mapeamento cruzado e Taxonomia da NANDA-I. Rev. Bras. Enferm., Brasília, v. 69, n. 2, p. 307-315, Apr. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672016000200307&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 Jul. 2017.  http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2016690214i.

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[1] Monografia apresentada ao Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Enfermagem, do Centro de Estudos de Enfermagem e Nutrição, em Chancela com a Pontifícia Universidade Católica de Goiás, para obtenção do título de Especialista em Unidade de Terapia Intensiva, sob orientação da Professora Doutora: Marislei Espíndula Brasileiro.

[2] Pós-Graduação Lato Sensu em Enfermagem, do Centro de Estudos de Enfermagem e Nutrição, em Chancela com a Pontifícia Universidade Católica de Goiás

[3] Enfermeira, Doutora em Ciências da Saúde

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Beatriz Cristina dos Santos

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