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Desnutrição Infantil Indígena (0 a 5 anos): uma realidade?

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CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

ALENCAR, Monnic Parente de [1], CALDERON, Martha Maria Rodriguez [2]

ALENCAR, Monnic Parente de. CALDERON, Martha Maria Rodriguez. Desnutrição Infantil Indígena (0 a 5 anos): uma realidade? Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 03, Vol. 05, pp. 05-11. Março de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/desnutricao-infantil-indigena

RESUMO

Tem-se como objetivo sintetizar os dados sobre um estado nutricional de crianças indígenas menores de 5 anos residentes no Brasil. Realizou-se uma revisão integrativa a partir de artigos coletados na base de dados Pubmed, utilizando, para tanto, descritores como “undernutrition”, “indigenous” e “Brazil”. Foram incluídos trabalhos disponíveis para leitura na íntegra e publicados entre 2009 e 2019 nos idiomas inglês, português e espanhol. Utilizando os critérios de inclusão e exclusão, foram identificados 9 artigos científicos que demonstraram o perfil nutricional de indígenas menores de 5 anos de idade. Os índices de desnutrição variaram de 5,9% a 59,4% e foram semelhantes as taxas de déficit nutricional identificados na África Subsaariana. Estes dados são reflexo das condições sociais e econômicas desfavoráveis da população indígena no Brasil, sobretudo na região Norte, na qual há o maior contingente de indígenas do país. A falta de estudos sobre o tema limita a descrição do perfil nutricional de indígenas na primeira infância. No entanto, os dados levantados são suficientes para demonstrar que a desnutrição infantil continua sendo um problema de  saúde pública grave, mesmo após o inquérito do estado de saúde dos povos indígenas realizado em 2009. A falta de políticas públicas efetivas tem contribuído para com a manutenção das condições precárias de saúde dos povos indígenas, tornando-os vulneráveis.

Palavras-chave: População Indígena, saúde indígena, desnutrição infantil.

1. INTRODUÇÃO

A desnutrição infantil, medida a partir do índice comparativo entre o peso e a altura para idade, é considerada um parâmetro que expressa as condições de vida de uma população. Em países em desenvolvimento, a desnutrição em crianças menores de cinco anos é reflexo de condições de sanitárias e ambientais desfavoráveis, e, por isso, representa um problema de saúde pública grave (Vollmer et al, 2014). Tais fatores acarretam consequências no desenvolvimento cognitivo (RODRÍGUEZ‐MARTÍNEZ; RODRÍGUEZ; NINO, 2015) e no aumento do risco de infecção (Ford; Stein, 2016). Os estudos apontam que a desnutrição tem alto impacto nas taxas de morbimortalidade infantil (Vollmer et al, 2014). Em países de baixa e média renda é a causa subjacente de 43 a 59% dos óbitos infantis.

Considerando o contexto brasileiro, os índices de desnutrição tiveram uma queda acentuada nos últimos anos, pois, no período que compreendeu 1996 e 2006, a redução do déficit entre peso e idade foi de 4,2% para 1,8%. No entanto, em um país com uma extensão territorial grande, diferentes realidades sociais são apresentadas: a taxa de desnutrição nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste são menores que 1,9%, enquanto que no Nordeste e Norte a porcentagem de crianças com baixo peso para a idade corresponde de 2,2% a 3,2%, respectivamente (Brasil, 2008). Destaca-se a alta prevalência de desnutrição em menores de 5 anos na região Norte, uma vez que estudos pontuais reforçam esses dados e mostram prevalências que variam de 12,2% a 35% (Araújo et al, 2016; Joseph et al, 2014; Ramalho et al, 2013).

Essa é uma realidade que afeta, principalmente, as populações indígenas situadas em regiões específicas do país. Dessa forma, verificou-se que os fatores culturais, o isolamento geográfico e as dificuldades de acesso aos serviços de educação e saúde contribuem para com esse problema social (Caldas; Santos 2012; Horta et al, 2013; Orellana et al, 2019; Pereira et al, 2017; Pícoli; CARANDINA; RIBAS, 2006). Asim sendo, percebe-se que desde o I Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas, realizado no ano de 2009, os estudos sobre o tema são pontuais, e, portanto, realizados em pequenas comunidades indígenas. A carência de dados estimulou o desenvolvimento de uma revisão integrativa com o objetivo de sintetizar os dados sobre o estado nutricional de crianças indígenas menores de 5 anos que residem no Brasil.

2. MÉTODOS

A pesquisa propõe uma revisão integrativa que compreende uma série de etapas que são determinantes para o cumprimento do objetivo proposto e compõem: 1) identificação da hipótese ou questão norteadora; 2) seleção da amostragem, momento de determinar os critérios de inclusão ou exclusão, oferecendo meios para proporcionar qualidade e confiabilidade na seleção; 3) categorização do estudo, com o objetivo de sumarizar e organizar tais informações; 4) análise dos dados; 5) discussão e interpretação dos resultados; e 6) apresentação da revisão integrativa e síntese do conhecimento.

A coleta de dados foi realizada com base nos materiais da base de dados Pubmed e se utilizou os descritores: “undernutrition”, “indigenous” e “brazil”. Foram incluídos artigos científicos publicados entre os anos de 2009 e 2019; que continham texto integral disponível e com acesso aberto gratuito; publicados nos idiomas inglês, português ou espanhol e que contivessem dados sobre o estado de saúde de populações indígenas brasileiras. O não atendimento aos critérios de inclusão e o desenvolvimento de revisões da literatura resultaram na exclusão do banco de dados.

3. RESULTADOS

Ao utilizar os termos definidos, foram identificados 32 artigos científicos, sendo que 17 foram publicados entre 2009 e 2019 e 10 estavam disponíveis para leitura do texto na integra. No entanto, apenas 1 se tratou de uma revisão da literatura. Ao final da análise, 9 artigos comporão a base de dados para estudo.

Quadro 1 – Artigos selecionados para compor a base de dados, especificando autores, título e periódico de publicação

Artigo        Autores Título Periódico
 

1

Araújo TS, Oliveira CS, Muniz PT, Silva- Nunes MD,

Cardoso MA

 

Child undernutrition in one of the cities with greater nutritional risk in Brazil: population-based study in the Western Brazilian Amazon

RevBrasEpidemiol. 2016. Jul-Sep;19(3):554-566. doi: 10.1590/1980-

5497201600030007

 

2

Escobar AL, Coimbra CE Jr, Welch JR, Horta BL, Santos RV,

Cardoso AM

Diarrhea and health inequity among Indigenous children in Brazil: results from the First National Survey of Indigenous People’s Health and Nutrition. BMC Public Health. 2015 Feb 27;15: 191. doi: 10.1186/s12889-015-1534-7.
 

 

 

3

Horta             BL,

Santos           RV,

Welch            JR,

Cardoso AM, dos Santos JV, Assis AM, Lira PC, Coimbra CE

Jr

Nutritional status of indigenous children: findings from the First National Survey of Indigenous People’s Health and Nutrition in Brazil. Int J Equity Health. 2013

Apr3;12:23.                        doi: 10.1186/1475-9276-12-23.

 

4

 

Carlos EA Jr

Health and indigenous peoples in Brazil: reflections based on the First National Survey of

Indigenous People’s Health and Nutrition

CadSaude     Publica.     2014 Apr;30(4):855-9. Portuguese.

PubMed PMID: 24896060.

 

5

Barreto         CT,

Cardoso       AM, Coimbra CE Jr

Nutritional status of Guarani indigenous children in the States of Rio de Janeiro and São Paulo, Brazil CadSaude     Publica.     2014 Mar;30(3):657-62.

Portuguese. PubMed PMID:

24714954

 

 

6

Ferreira         AA,

Welch            JR,

Santos           RV,

Gugelmin      SA, Coimbra CE Jr.

Nutritional status and growth of indigenous Xavante children, Central Brazil. Nutr J. 2012 Jan 11; 11:3. doi: 10.1186/1475-2891-11-

3. PubMed PMID: 22236407; PubMed Central

PMCID: PMC3317817.

 

7

Caldart         RV,

Marrero            L,

Basta            PC, Orellana JD.

 

Factors associated with pneumonia in Yanomami children hospitalized for Ambulatory Care sensitive conditions in the north of Brazil.

CienSaude Colet. 2016 May;21(5):1597-606. doi: 10.1590/1413-

81232015215.08792015.

 

8

de Souza Filho ZA, Ferreira AA, Dos Santos J,

Meira KC, Pierin AMG.

Cardiovascular risk factors with an emphasis on hypertension in the Mura Indians from Amazonia. BMC Public Health. 2018 Nov 13;18(1):1251. doi: 10.1186/s12889-018-6160-8.

Fonte: Elaborado pelas autoras (2020)

4. DISCUSSÃO

A prevalência de desnutrição está relacionada a condições socioeconômicas e geralmente é mais elevada entre crianças indígenas do que em não indígenas em muitos países. No Brasil, mesmo após a redução da prevalência de desnutrição nas últimas décadas devido aos esforços constantes para melhorar o estado de saúde nutricional da população geral, em populações indígenas, ações mitigadoras parecem não ser aplicadas. Após o inquérito sobre a saúde indígena (COIMBRA JR, 2014; Horta et al, 2013), poucas mudanças têm sido notadas. As iniquidades sociais que contribuem para a desnutrição em indígenas, refletem em diversas gerações. Com base nos materiais escolhidos para analisar a temática, percebeu-se que essa é uma realidade bastante frequente, mesmo que haja algumas políticas voltadas à amenização do problema.

De modo geral, observa-se a alta prevalência de nanismo (35,8%). No entanto, ao estratificar as crianças com ascendência indígena, os índices de desnutrição chegaram a atingir 59,4%, demonstrando que a etnia configura um fator de risco para a desnutrição. Em um pesquisa abrangente Horta et al (2013), avaliaram a relação entre altura e peso de mais de 6.000 crianças indígenas e demonstraram, no estudo, as taxas de prevalência de nanismo de 25,7% e de baixo peso de 5,9%, sendo que as maiores taxas foram encontradas em povos da região Norte. A alta prevalência de desnutrição na população indígena está distante dos índices Brasileiros que é de 7% e até mesmo superior à região Norte, região na qual estão concentrados os maiores índices de desnutrição (14,8%) (Brasil, 2008).

A realidade expressa é compatível com a das populações da África Subsaariana (38,0%). É  uma região marcada pelas condições de extrema de pobreza e a população é vulnerável. Secundariamente, Escobar, Santos e Coimbra Jr, (2003), ao avaliarem a incidência de da diarreia e outras iniquidade em saúde em crianças indígenas no Brasil, revelaram que há a taxa de 23,5% e estabeleceram como causas adjacentes a menor escolaridade materna, o baixo nível socioeconômico do domicílio e a desnutrição (déficit de peso para idade). No entanto, no Brasil, a desnutrição não é uma realidade restrita à populações indígenas, crianças de comunidades quilombolas (Ferreira et al, 2011) e de áreas rurais (Wamani et al, 2006) também são grupos de risco para o desenvolvimento de baixo peso, que revela um sistema de saúde nutricional deficitário.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A principal limitação deste estudo recaiu no número reduzido de publicações sobre o estado nutricional de crianças indígenas. Os fatores socioeconômicos e culturais distintos da população geral tornam os ameríndios vulneráveis a patologias negligenciadas que estão diretamente relacionadas às condições de vida precárias. É importante, ainda, ressaltar que mesmo após o inquérito de saúde sobre esta população não houveram mudanças no estado de saúde, apontando-se, dessa forma, para a falta de políticas públicas direcionadas, principalmente, para a saúde materna-infantil.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, T. S. de. et al. Child undernutrition in one of the cities with greater nutritional risk in Brazil: population-based study in the Western Brazilian Amazon. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 19, p. 554-566, 2016.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência T e IE. Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher. PNDS. 2006. Pesqui. Nac. Demogr. e Saúde – PNDS, 2006. 2008.

CALDAS, A. D. R; SANTOS, R. V. Vigilância alimentar e nutricional para os povos indígenas no Brasil: Análise da construção de uma política pública em saúde. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 22, p. 545-565, 2012.

COIMBRA JR, C. E. A. Saúde e povos indígenas no Brasil: reflexões a partir do I Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição Indígena. Cadernos de Saúde Pública, v. 30, p. 855-859, 2014.

FERREIRA, H. da. S. et al. Nutrição e saúde das crianças das comunidades remanescentes dos quilombos no Estado de Alagoas, Brasil. Revista Panamericana de Salud Publica, v. 30, p. 51-58, 2011.

ESCOBAR, A. L; SANTOS, R. V; COIMBRA JR, C. E. A. Avaliação nutricional de crianças indígenas Pakaanóva (Wari’), Rondônia, Brasil. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, v. 3, n. 4, p. 457-461, 2003.

FORD, N. D.; STEIN, A. D. Risk factors affecting child cognitive development: a summary of nutrition, environment, and maternal–child interaction indicators for sub-Saharan Africa. Journal of developmental origins of health and disease, v. 7, n. 2, p. 197-217, 2016.

HORTA, B. L. et al. Nutritional status of indigenous children: findings from the First National Survey of Indigenous People’s Health and Nutrition in Brazil. International journal for equity in health, v. 12, n. 1, p. 23, 2013.

JOSEPH, S. A. et al. Risk factors associated with malnutrition in one-year-old children living in the Peruvian Amazon. PLoS neglected tropical diseases, v. 8, n. 12, 2014.

ORELLANA, J. D. Y. et al. Associação de baixa estatura severa em crianças indígenas Yanomami com baixa estatura materna: indícios de transmissão intergeracional. Ciência & Saúde Coletiva, v. 24, p. 1875-1883, 2019.

PEREIRA, I. F. da. S. et al. Estado nutricional de menores de 5 anos de idade no Brasil: evidências da polarização epidemiológica nutricional. Ciência & Saúde Coletiva, v. 22, p. 3341-3352, 2017.

PÍCOLI, R. P; CARANDINA, L; RIBAS, D. L. B. Saúde materno-infantil e nutrição de crianças Kaiowá e Guarani, área indígena de Caarapó, Mato Grosso do Sul, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 22, n. 1, p. 223-227, 2006.

RAMALHO, A. A. et al. Nutritional status of children under 5 years of age in the Brazilian Western Amazon before and after the Interoceanic highway paving: a population-based study. BMC Public Health, v. 13, n. 1, p. 1-12, 2013.

RODRÍGUEZ‐MARTÍNEZ, C. E.; RODRÍGUEZ, D. A; NINO, G. Respiratory syncytial virus, adenoviruses, and mixed acute lower respiratory infections in children in a developing country. Journal of medical virology, v. 87, n. 5, p. 774-781, 2015.

VOLLMER, S. et al. Association between economic growth and early childhood undernutrition: evidence from 121 Demographic and Health Surveys from 36 low-income and middle-income countries. The lancet global health, v. 2, n. 4, p. e225-e234, 2014.

WAMANI, H. et al. Predictors of poor anthropometric status among children under 2 years of age in rural Uganda. Public health nutrition, v. 9, n. 3, p. 320-326, 2006.

[1] Instrumentação Cirúrgica; Enfermagem.

[2] Administração Hospitalar; Enfermagem.

Enviado: Janeiro, 2020.

Aprovado: Março, 2020.

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