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Linfadenite tuberculosa com progressão para sistema nervoso central: relato de caso

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CONTEÚDO

RELATO DE CASO

COSTA, Jessica Fagundes da [1], COSTA, Ana Beatriz Nascimento [2], PEREIRA, Jéssica Souza [3]

COSTA, Jessica Fagundes da. COSTA, Ana Beatriz Nascimento. PEREIRA, Jéssica Souza. Linfadenite tuberculosa com progressão para sistema nervoso central: relato de caso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 09, Vol. 01, pp. 81-88. Setembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/linfadenite-tuberculosa, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/linfadenite-tuberculosa

RESUMO

Objetivo: Relatar um caso de linfadenite tuberculosa com progressão para meningite tuberculosa, destacando desafios diagnósticos e terapêuticos. Métodos: Relato de paciente masculino, 18 anos, previamente hígido, com linfadenite cervical e diagnóstico de tuberculose ganglionar após cerca de 30 dias de internação. Iniciado tratamento com RHZE Rifampicina, Isoniazida, Pirazinamida e Etambutol, evoluiu com meningite tuberculosa após 02 meses do diagnóstico inicial, com tempo prolongado de internação em terapia intensiva. Resultados: Apesar do tratamento, houve rápida piora neurológica, exigindo UTI e evoluindo para óbito por complicações graves. O diagnóstico foi dificultado pela baixa sensibilidade dos exames e sintomas inespecíficos iniciais. Conclusão: O caso ressalta as limitações diagnósticas na tuberculose extrapulmonar e a importância da vigilância clínica contínua em ambiente de atenção primária após introdução do tratamento, além disso, destaca-se a necessidade de métodos diagnósticos mais sensíveis para reduzir a morbimortalidade visto a rápida evolução e prognóstico desfavorável com comprometimento central.

Palavras-chave: Linfadenite tuberculosa, Meningite tuberculosa, Diagnóstico por imagem, Tuberculose extrapulmonar, RHZE.

1. INTRODUÇÃO

A tuberculose é uma doença infecciosa que ainda representa um grande desafio para a saúde pública global¹. Embora geralmente pulmonar, suas formas extrapulmonares, especialmente a Meningite Tuberculosa (TBM), têm alta morbimortalidade8. Este estudo apresenta um caso de linfadenite tuberculosa evoluindo para TBM, destacando a complexidade diagnóstica, limitações dos métodos convencionais e a necessidade urgente de inovações diagnósticas e terapêuticas.

Este relato de caso evidencia os desafios na detecção precoce da tuberculose extrapulmonar, especialmente da TBM, discutindo os fatores que levaram ao desfecho desfavorável9. Tem como objetivo principal relatar as etapas diagnósticas e terapêuticas de um paciente com linfadenite tuberculosa que evoluiu para meningite tuberculosa, destacando os desafios clínicos. A análise propõe uma reflexão crítica sobre as abordagens diagnósticas e de tratamento atuais, destacando a necessidade de novos protocolos para melhorar o prognóstico em formas graves da doença. A relevância deste estudo reside na gravidade da TBM, destacando o papel crucial do diagnóstico precoce e de estratégias terapêuticas eficazes.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, baseado em coleta retrospectiva de dados clínicos obtidos por meio da análise de prontuário eletrônico. O presente estudo apresenta o relato clínico detalhado de um caso de linfadenite tuberculosa com subsequente progressão para meningite tuberculosa, acompanhado em unidade hospitalar de referência no período de Abril/2023 a Setembro/2023.

O caso foi selecionado por sua relevância clínica e complexidade diagnóstica, e seguiu protocolo clínico estabelecido pela instituição. O estudo teve como objetivo ilustrar, de forma prática, os desafios diagnósticos e terapêuticos discutidos na literatura recente.

O relato foi elaborado com base em revisão bibliográfica atualizada e contou com a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição, além da obtenção do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) por parte do responsável legal do paciente.

3. RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, 18 anos, portador de hipotireoidismo, inicialmente atendido em uma Unidade de Pronto Atendimento em abril de 2023, à admissão, o mesmo relatava tosse seca persistente há cerca de 2 meses, sem melhora após uso de Amoxicilina/Clavulanato por 7 dias, Azitromicina por 5 dias, prednisona 20 mg/dia por 5 dias e Salbutamol nas crises. Apresentava febre vespertina alta (~39°C) e perda de peso significativa de aproximadamente 3 kg nos últimos 30 dias. No exame físico inicial, foram identificados linfonodos endurecidos e não aderidos na cadeia cervical anterior esquerda, medindo cerca de 2 cm, além de linfonodos fibroelásticos menores na cadeia inframandibular esquerda, axilar direita e inguinal. Exames laboratoriais revelaram anemia ferropriva associada a inflamação (ferro sérico 21, saturação de transferrina 13%, ferritina 236,2) e hipotireoidismo descompensado (TSH 15,2, T4L 1,08).

Em propedeutica complementar, a radiografia de tórax mostrou volumoso derrame pleural à direita, sendo realizado por equipe especializada toracocentese diagnóstica e terapêutica, com colocação de dreno com sistema selo d’água. A baciloscopia (BAAR) a partir do escarro também foi realizada, cujas duas amostras foram negativas para bacilos.

Estendendo a propedêutica para tomografias de tórax e abdome fora evidenciado linfonodomegalia mediastinal anterior, pré-vascular e paratraqueal, além de hepatomegalia leve e baço heterogêneo com nódulos dispersos. Inicialmente suspeitou-se de doença linfoproliferativa, mas foi descartada após avaliação hematológica e biópsia excisional de linfonodo cervical, que revelou linfadenite crônica granulomatosa compatível com linfadenite tuberculosa, apesar da pesquisa de BAAR no anatomopatológico negativa.

Iniciou-se então tratamento com esquema RHZE conforme protocolo do Ministério da Saúde, em ambiente hospitalar, com monitorização das enzimas hepáticas e após 01 semana obteve alta no final de julho de 2023 para acompanhamento ambulatorial.

Em setembro de 2023, houve uma nova admissão hospitalar com novos sintomas – prostração, piora acentuada do estado geral e febre vespertina persistente mesmo em vigência do tratamento. Nas 48 horas anteriores, apresentou sinais de mielopatia, incluindo paraparesia e retenção esfincteriana, sendo admitido em estado grave, Escala de Coma de Glasgow 9 e insuficiência respiratória. Antes da intubação orotraqueal, o paciente foi avaliado pela equipe da Neurologia e apresentava mutismo, letargia e sinais meníngeos positivos, sendo iniciado tratamento empírico com Ceftriaxona, Ampicilina e Aciclovir devido suspeita de meningite. Além disso, não havia crises convulsivas, desvio do olhar ou assimetria facial, localizava dor nos membros superiores e apresentava hiporreflexia global. A tomografia de crânio mostrou discreta dilatação ventricular e sinais de transudação. Após implementação de via aérea definitiva, a punção liquórica revelou liquor xantocrômico, glicose <10 mg/dL, proteína elevada (644 mg/dL) e ADA de 91 U/L. Cultura bacteriana e pesquisa de micobactéria foram negativas.

Apesar dos elementos descritos acima, manteve-se tratamento com RHZE por suspeita clínica altamente sugestiva de meningite tuberculosa. Devido à dilatação ventricular, a Neurocirurgia implantou drenagem ventricular externa, mantendo deterioração clínica e neurológica. Realizada nova tomografia em 13/09 mostrou edema cerebral difuso e focos hemorrágicos, evoluindo a óbito em 14/09/2023.

O caso revela os desafios diagnósticos e terapêuticos da tuberculose extrapulmonar, especialmente na forma de linfadenite com progressão para encefalite. A apresentação clínica inicial foi marcada por sintomas inespecíficos e por fatores que dificultaram a diferenciação com outras condições neurológicas, o que atrasou o diagnóstico preciso. Mesmo com baciloscopia e cultura do líquor negativas, os sinais clínicos foram compatíveis com meningite tuberculosa, justificando a adoção do tratamento empírico conforme diretrizes nacionais. No entanto, a rápida evolução para piora neurológica, associada a achados tomográficos condizentes com a literatura, evidenciou a gravidade do quadro. O desfecho desfavorável, apesar das intervenções terapêuticas, reforça a necessidade de maior acurácia diagnóstica precoce e de estratégias mais eficazes de manejo nesses casos complexos.

 4. DISCUSSÃO

O relato acima está alinhado à revisão literária que descreve a disseminação da tuberculose para o sistema nervoso central, especialmente em pacientes imunocomprometidos ou com comorbidades. A propagação do Mycobacterium tuberculosis ao cérebro ocorre através de barreiras vasculares, como a hematoencefálica e a cerebrospinal, explicando as diversas manifestações da infecção no SNC⁷.

Ao comparar este caso com evidências robustas, observam-se padrões semelhantes, como o início insidioso da TBM com sintomas inespecíficos (febre e perda de peso) e progressão para formas graves. A doença é frequente em adolescentes e resulta da disseminação hematogênica do Mycobacterium tuberculosis, o que foi evidenciado neste relato ⁷.

Além disso, o diagnóstico de meningite tuberculosa é corroborado por exames de imagem que evidenciam exsudatos nas cisternas basais, achado comum e característico em estágios avançados da doença, apesar da ausência de confirmação bacteriológica e micobacteriológica, situação frequente em muitos casos³. Os achados de hidrocefalia, resultante do bloqueio do fluxo liquórico, observada tanto no caso relatado quanto nos estudos da literatura, confirma sua frequência como complicação da TBM⁵,⁷

O reconhecimento precoce da TBM é necessário devido à sua gravidade e risco de desfecho fatal. A abordagem clínica deve ser multidisciplinar, com monitoramento rigoroso, especialmente diante de exames negativos como a baciloscopia. Em comparação com outros relatos, este caso se diferencia pela rápida e grave evolução, reforçando o que traz a literatura sobre a necessidade de diagnóstico precoce, tratamento adequado e atenção a fatores de risco genéticos e imunológicos.³

As abordagens diagnósticas da TBM ainda apresentam limitações, especialmente nos testes microbiológicos. Embora o Xpert MTB/RIF represente um avanço, sua sensibilidade é restrita e não substitui a cultura, que apesar de ser o padrão-ouro, possui prazo de até oito semanas. Diante disso, o tratamento empírico continua sendo necessário nos casos suspeitos, devido ao risco elevado de mortalidade por atraso terapêutico⁴. Assim, o caso apresentado é amplamente corroborado pela literatura, tanto em relação à evolução clínica quanto às complicações e desafios diagnósticos da TBM.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho analisou o caso de um jovem com linfadenite tuberculosa que evoluiu com manifestações da doença em sistema nervoso central e evidenciou, com base na literatura revisitada, a baixa sensibilidade dos métodos diagnósticos tradicionais para meningite tuberculosa.6 A despeito da utilização de baciloscopia e cultura, o diagnóstico permanece desafiador, com atrasos terapêuticos e pior prognóstico.

No caso analisado, a baciloscopia negativa reflete a baixa sensibilidade desse exame no líquor devido à natureza paucibacilar da TBM³, mesmo em sua fase subclínica ou latente, dificultando a detecção direta dos bacilos² e atrasando o diagnóstico, apesar de outras alterações identificadas a partir do método típicas de TBM, como proteínas e ADA elevadas, glicose baixa e xantocromia². Exames de imagem, como tomografia e ressonância magnética, foram fundamentais para identificar complicações estruturais, apesar da ausência de confirmação microbiológica. A dificuldade em obter amostras representativas e a complexa resposta inflamatória comprometem a acurácia dos testes, ressaltando a importância de estudos longitudinais para personalizar o tratamento em casos complicados, como os com mielopatia³.

Modelos experimentais que simulem a barreira hematoencefálica são importantes para estudar a patogênese e testar novas terapias². Pesquisas sobre a interação entre TBM e HIV também são prioritárias, dada a influência da coinfecção na evolução e resposta ao tratamento³.

Desse modo, é fundamental enfrentar as desigualdades no acesso ao diagnóstico e tratamento da TBM, especialmente em países de baixa renda. A integração da doença aos programas nacionais de controle da tuberculose e o investimento contínuo em pesquisa são essenciais para ampliar o acesso, reduzir a mortalidade e promover avanços diagnósticos e terapêuticos.

Diante do discutido acima e dos sintomas neurológicos, é de suma importância o acionamento rápido da equipe de Neurologia, clínica ou cirúrgica, para auxiliar na condução do caso, além do uso extensivo de métodos complementares de diagnóstico para uma conclusão precoce e redução de sequelas ou agravamento do quadro. Enquanto se busca avanços estruturais, tecnológicos e mais igualitários de acesso à saúde, é necessário valorizar os recursos disponíveis na prática clínica cotidiana para um melhor desfecho e benefício ao paciente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Ministério da Saúde. Manual de recomendações para o controle da tuberculose no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 7 jul. 2025.
  2. BARNACLE, James R. et al. Recent advances in understanding the human host immune response in tuberculous meningitis. Disponível em: https://ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10803428/. Acesso em: 6 Out. 2024.
  3. DAVIS, Angharad Grace et al. The Pathogenesis of Tuberculous Meningitis. Disponível em: https://ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6355360/. Acesso em: 4 Out. 2024.
  4. MANYELO, Charles M.; SOLOMONS, Regan S.; WALZL, Gerhard; CHEGOU, Novel N. Tuberculous Meningitis: Pathogenesis, Immune Responses, Diagnostic Challenges, and the Potential of Biomarker- Based Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8106718/. Acesso em: 4 Out. 2024.
  5. MEZOCHOW, Alyssa; THAKUR, Kiran; VINNARD, Christopher. Tuberculous Meningitis in Children and Adults: New Insights for an Ancient Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5729589/. Acesso em: 6 Out. 2024.
  6. NAVARRO-FLORES, Alba et al. Global morbidity and mortality of central nervous system tuberculosis: a systematic review and meta-analysis. Disponível em: https://ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8920747/. Acesso em: 6 Out. 2024.
  7. TAHERI, Morteza Sanei et al. Central Nervous System Tuberculosis: An Imaging Focused Review of a Reemerging Disease. Disponível em: https://ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4306383/. Acesso em: 7 out. 2024.
  8. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global tuberculosis report 2021. Geneva: WHO,                                Disponível                                                                 em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240037021. Acesso em: 7 jul. 2025.
  9. RODRIGUES, L. M. et al. Tuberculose extrapulmonar: aspectos clínicos e laboratoriais. Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial, v. 55, n. 2, p. 115–121, 2019. Disponível em: https://scielo.br/j/jbpml. Acesso em: 7 jul. 2025.

NOTA

Os autores utilizaram a esponsabilidade e implementação do uso da Inteligência Artificial CHATGPT versão GPT-5 correções ortográficas e gramaticais para as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos e classificação da qualidade dos artigos foram realizadas de maneira autoral.

[1] Especialista em Clínica Médica RQE 65954. ORCID: 0009-0009-2709-1970.

[2] Médica especialista em Clínica Médica RQE 62204. ORCID: 0000-0001-5137-4094.

[3] Médica especialista em Clínica Médica RQE 62659. ORCID: 0009-0001-0178-1772.

Material recebido: 16 de julho de 2025.

Material aprovado pelos pares: 06 de agosto de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 03 de setembro de 2025.

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Jessica Fagundes da Costa

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