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Atuação do farmacêutico clínico na diminuição do uso irracional de medicamentos

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CONTEÚDO

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

LIMA, Regiane de Oliveira [1], SOUZA, Lucas Henrique Ribeiro de [2], OLIVEIRA, Dante Ferreira [3]

LIMA, Regiane de Oliveira. SOUZA, Lucas Henrique Ribeiro de. OLIVEIRA, Dante Ferreira. Atuação do farmacêutico clínico na diminuição do uso irracional de medicamentos. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06 06, Vol. 01, pp. 124-132. Junho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

A Assistência Farmacêutica caracteriza-se por ações articuladas e sincronizadas entre as atividades do farmacêutico. Como os medicamentos são considerados a principal ferramenta terapêutica para recuperação ou manutenção das condições de saúde da população, deve-se promover a diminuição do uso irracional de medicamentos na população. Neste sentido, o farmacêutico deve atuar promovendo a saúde pública. Sua participação em equipes multidisciplinares acrescenta valor aos serviços e contribui para a promoção da saúde. Este artigo discute o ciclo da Assistência Farmacêutica enfatizando o papel do farmacêutico na diminuição do uso irracional de medicamentos.

Palavras-chave: SUS, uso racional de medicamentos, uso irracional de medicamentos, intervenção farmacêutica clínica.

INTRODUÇÃO

Na década de 80 e 90 houve a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) que representou mudança significativa na forma de pensar, estruturar e desenvolver estratégias para serviços de assistência em saúde pública, uma vez que a inclusão das comunidades e a descentralização tornaram-se marco desse novo sistema (BRASIL, 2010).

Porém, o SUS vem mudando com o passar dos anos, devido ao envelhecimento da população e as mudanças epidemiológicas são necessárias para a adequação do sistema. Com isso, percebe-se que o modelo de atenção prestada ao usuário do SUS deve ser transformado para um modelo de caráter mais preventivo das ações (FERRAES, 2002). Essa abordagem reflete na demanda e no uso irracional de medicamentos, pois no Brasil, estima-se que 35% dos medicamentos obtidos são através de automedicação, um problema decorrente do baixo poder aquisitivo da população, da precariedade do sistema de saúde que não fiscaliza corretamente a obtenção de medicamentos sem pagamentos de consultas e sem receita médica. Entretanto, o alto consumo irracional de medicamentos ocorre também nas classes mais altas da sociedade, devido a herança cultural, de forma instintiva e sem cunho racional, pela facilidade de acesso, dentre outros (AQUINO, 2008). Assim, é necessária a construção de um planejamento efetivo da Assistência Farmacêutica (AF) (BARROS, 2003).

O uso irracional de medicamentos é um problema de saúde pública e se enquadra na Farmácia Clínica, que se refere à área da farmácia voltada à ciência e prática do uso racional de medicamentos, na qual o farmacêutico proporciona cuidado ao paciente, de forma a aperfeiçoar a farmacoterapia, podendo assim promover saúde e bem-estar além de precaver doenças (CFF, 2013). De acordo com Hepler e Strand (1990), a Atenção Farmacêutica é exposta como a parte da prática farmacêutica que consente a interação do farmacêutico com o paciente, objetivando o atendimento das suas necessidades pautadas aos medicamentos.

A inserção do farmacêutico trabalhando ativamente em conjunto com a equipe de saúde aperfeiçoa e informa os pacientes sobre sua conduta terapêutica e fiscaliza os problemas relacionados aos seus medicamentos, permitindo beneficiar a população em geral quanto à terapêutica do paciente e acrescentando informação a equipe (HEPLER e STRAND, 1990). As intervenções farmacêuticas podem atenuar os erros de medicação e melhorar os gastos do tratamento. Logo, a inserção do farmacêutico em equipes multiprofissionais de saúde pode colaborar para a promoção do uso correto e racional dos medicamentos e no controle da sua morbimortalidade. Dessa forma, os farmacêuticos, em colaboração com outros profissionais, devem assegurar que a farmacoterapia seja eficaz, segura e usada de forma apropriada (SILVA e OLIVEIRA, 2012).

O Monitoramento Farmacoterapêutico foi defino pelo Pharmaceutical Care Consensus Document do Ministry of Health and Consumption em 2001 e adaptado pelo Terceiro Consenso de Granada (2007), sendo descrito como: a pratica em que o farmacêutico se responsabiliza por problemas relacionados com medicamentos onde ele detecta, prevê e resolve possíveis problemas relacionados a medicamentos ; essa pratica para ser legal todo o processo deve ser documentado e deve contar com um sistema que facilite essa pratica e permita que outros profissionais colaborem para a qualidade do tratamento e qualidade de vida do paciente além do próprio paciente que deve estar informado do procedimento para que o mesmo também colabore.

O farmacêutico deve trabalhar na orientação de uso racional de medicamentos, pois, é o elemento fundamental na diminuição do uso irracional. Diante das diversas atribuições do farmacêutico cabe a ele o processo de racionalização da utilização dos medicamentos, avaliando a prescrição médica quanto à ocorrência de erros ou interações entre os fármacos utilizados, quando for o caso, procurando interagir com o prescritor; auxiliar em casos de equívocos relacionados à dosagem, duração e intervalos de administração (REGINATO, 2015). O Acompanhamento Farmacoterapêutico é realizado através da avaliação das interações medicamentosas, interações entre medicamentos e alimentos, interações entre os medicamentos e as comorbidades, posologia, efeitos adversos e vias de administração, sendo parte complementar da Farmácia Clínica (SCHUINDT, 2015).

OBJETIVO

Relacionar a atuação do farmacêutico clinico com a diminuição do uso irracional de medicamentos.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

Mais de 50% de medicamentos são prescritos de forma incorreta, dispensados e vendidos, sendo que mais de 50% da população os utiliza incorretamente (GARFIELD, 2009). Nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, há falhas no diligenciamento do uso racional de medicamentos, devido a fatores como multifarmácia, uso indevido de antibióticos, prescrição sem orientação com objetivo, automedicação inapropriada e vários medicamentos disponíveis no comércio sem necessidade de prescrição médica. O uso abusivo e inapropriado prejudica a população e os recursos públicos financeiros. Contrapondo este cenário, o farmacêutico atua no uso racional de medicamentos para que o paciente os receba de forma apropriada sob supervisão, na dose correta, por adequado período de tempo e com menor custo. Medicamentos selecionados e usados de maneira coerente proporcionam benefícios individuais, institucionais e nacionais (WANNMACHER, 2006).

METODOLOGIA

A Metodologia utilizada neste estudo foi uma revisão de literatura em bases de dados como a Scielo, Pubmed, CAPES, site da SINITOX, Organização Mundial de Saúde e Ministério da Saúde.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No Brasil existe o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX). No ano de 2017 informaram que 25,18% das intoxicações registradas no Brasil foram por medicamentos, contra 3,97% por agrotóxicos agrícolas e 0,81% por agrotóxicos domésticos. Esses números são preocupantes e em alguns casos, a intoxicação evolui para o óbito (SINITOX, 2017).

A Organização Mundial de Saúde preconiza que: o uso racional de medicamentos acontece quando os pacientes recebem medicamentos apropriados para as condições clinicas descritas, doses e necessidades individuais são itens relevantes para o menor custo para o paciente e a comunidade onde está inserido. (OMS, 1985).

Entretanto, algumas situações favorecem a automedicação na população, como a propaganda de medicamentos no Brasil, que tem impacto significativo, visto que a frase “Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado” em vez de alertar para os riscos da automedicação, estimula o uso de ao menos um medicamento sem receita, indicando a busca do médico somente quando os sintomas permanecerem (NASCIMENTO, 2009).

As estatísticas revelam que 35% dos medicamentos adquiridos no Brasil são por meio da automedicação (AQUINO, 2008), sendo os mais solicitados, os analgésicos, descongestionantes nasais, anti-inflamatório, antirreumáticos e anti-infecciosos de uso sistêmico; e destes, 44,1% seriam necessárias à apresentação da prescrição médica para adquiri-los. O consumo mais utilizado foi analgésicos (46,4%), antibióticos (22,8%) e anti-inflamatórios (9,1%). Dentro do grupo que realizou a automedicação, 49% obtiveram informação através de propaganda. A automedicação de analgésicos é a mais prevalente (CABEZAS, 2000).

Segundo o Center for Disease Control and Prevention (CDC), o uso médico de analgésicos opióides aumentou 10 vezes nos últimos 20 anos devido ao tratamento da dor ter que ser mais agressivo. Estes fármacos causam euforia, e têm sido associados com abuso, sendo disponíveis para aquisição lícita nos Estados Unidos (CDC, 2010).

Cerca de 306 mil pacientes foram atendidos devido ao uso de opióides, enquanto o uso de benzodiazepínicos culminou em 272 mil atendimentos (CDC, 2010). O uso indevido de muitas substâncias pode acarretar diversas consequências como: resistência bacteriana, reações de hipersensibilidade, dependência, sangramento digestivo, sintomas de retirada e ainda aumentar o risco de uma neoplasia (BORTOLETTO, BOCHNER, 1999). Arrais et. AL., (1997) notou que em países desenvolvidos, o número de medicamentos de venda livre cresceu nos últimos anos, assim como a facilidade de acesso a esses medicamentos em comércios que não são farmacêuticos, favorecendo a automedicação.

Enquanto no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (ABIFARMA), cerca de 80 milhões de pessoas são adeptas da automedicação, o que gera preocupação com a qualidade destes medicamentos no país (ARRAIS et. al., 1997). Esse costume é influenciado por indicações de pessoas não habilitadas como amigos, familiares, balconistas de farmácia, etc (BORTOLETTO, BOCHNER, 1999).

Segundo a Anvisa (2006), o uso inadequado de medicações é um problema de saúde pública. Dados revelam que: 15% da população mundial consomem mais de 90% da produção farmacêutica; 75% das prescrições com antibióticos são errôneas; 25% a 70% do gasto em saúde nos países em desenvolvimento são em medicamentos. Nos desenvolvidos é de 15%; 50% a 70% das consultas médicas geram prescrição medicamentosa; 50% dos medicamentos são prescritos, dispensados ou usados inadequadamente; 2/3 dos antibióticos são usados sem prescrição médica em muitos países; 50% dos consumidores compram medicamentos para um dia de tratamento; Aumenta a resistência da maioria dos micro-organismos que causam doenças infecciosas; 53% de todas as prescrições de antibióticos nos Estados Unidos são feitas para crianças de 0 a 4 anos; Somente 50% dos pacientes, em média, tomam seus medicamentos corretamente; Os hospitais gastam de 15% a 20% de seu orçamento para lidar com complicações causadas pelo mau uso de medicamentos; 40% de pacientes que dão entrada no pronto socorro são vítimas de medicamentos.

CONCLUSÃO

De acordo com este levantamento bibliográfico, observou-se que o uso irracional de medicamentos está difundido em todas as camadas sociais, categorizado como um problema de saúde pública, na qual estão envolvidos: pacientes, profissionais de saúde, legisladores, formuladores de políticas públicas, indústria, comércio e governo. As soluções para este problema devem ser adotadas pela educação e informação da população, maior fiscalização na venda com e sem prescrição médica, melhor acesso aos serviços de saúde, adoção de critérios éticos para a promoção de medicamentos, retirada do mercado de numerosas especialidades farmacêuticas carentes de eficácia ou de segurança e incentivo à adoção de terapêuticas não medicamentosas.

A Assistência Farmacêutica está ligada na qualidade do uso racional de medicamentos, através de ações de conscientização, seja no âmbito doméstico ou profissional, estabelecendo uma relação de confiança com o paciente. A Organização Mundial de Saúde definiu como seu grande estímulo para a próxima década, a melhoria na racionalidade do uso de medicamentos, fomentando a avaliação e vigilância desse uso. O profissional farmacêutico credenciado é imprescindível para atingir uma farmacoterapia adequada ao paciente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA – ANVISA. Parcerias para diminuir o mau uso de medicamentos. Revista de saúde pública. V.40 n.1, p. 191-194, 2006.

AQUINO, D.S. Porque o uso racional de medicamentos deve ser uma prioridade? Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.13, p. 733-736, abr. 2008.

ARRAIS, P. S. D.; COELHO, L. L.; BATISTA, M. C. D. S.; CARVALHO, M.L.; RIGH, R. E.; ARNAU, J. M.; Perfil da automedicação no Brasil. Revista de Saúde Pública, v.31, n.1, p. 71-77, fev, 1997.

BARROS, J.A.C.; JOANY S. Anúncio de medicamentos em revista médica: ajudando a promover a boa prescrição? In: ROZENFIELD, S. Prevalência, fatores associados e mau uso de medicamentos entre idosos: uma revisão. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 19, n.3, p. 717-724, mai-jun. 2003.

BORTOLETTO, M. E.; BOCHNER, R. Impacto dos medicamentos nas intoxicações humanas no Brasil. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 15, n. 4, p.859-869, out./dez. 1999.

BRANDÃO A. Farmácia virtual pode trazer outros problemas à saúde além do tráfico. Revista Brasileira de Farmácia, n.9, v.41, 2004.

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CABEZAS VPY, ORMENO EAM, PABIAZA LCV. Automedicación de analgésicos no narcóticos. Consultório Santo Tomás. Santiago do Chile, 2000. 114 p.

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FERRAES, A. M. B. Política de medicamentos na atenção básica e a assistência farmacêutica no Paraná. Londrina, 2002.

FIDELES, Andrade et al. Recomendações farmacêuticas em unidade de terapia intensiva: três anos de atividades clínicas. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 27, n. 2, 2015.

GARFIELD, S., Barber, N., Walley, P., Willson, A., & Eliasson, L. (2009). Quality of medication use in primary care – mapping the problem, working to a solution: a systematic review of the literature. BMC Medicine, 7(1).

HEPLER, C.D.; STRAND, L.M. Opportunities and responsibilities in pharmaceutical care. Am. J. Hosp. Pharm., v.47, n.3, p.533-543, 1990.

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REGINATO, Fernanda Ziegler. O Uso de Antibióticos e o Papel do Farmacêutico no Combate à Resistência Bacteriana. Rio Grande do Sul, 2015.

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WORLD HEALTH ORGANIZATION. Medicines: rational use of medicines. Fact sheet num. 338. May 2010.

[1] Acadêmica em Farmácia.

[2] Acadêmico em Farmácia.

[3] Mestre em Parasitologia pela UNICAMP; Graduado em Farmácia, Analises clínicas e toxicológicas pela Universidade de Alfenas.

Enviado: Maio, 2019.

Aprovado: Junho, 2019.

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