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Considerações Acerca dos Processos Psíquicos do Luto

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Considerações Acerca dos Processos Psíquicos do Luto
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SILVA, Ivana de Souza Marins da [1]

SILVA, Ivana de Souza Marins da. Considerações Acerca dos Processos Psíquicos do Luto. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 08. Ano 02, Vol. 01. pp 193-207, Novembro de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

A morte é vista como tabu nos dias atuais, gerando sofrimento, negação, culpa e ansiedade, desencadeando tipos de luto que afetam o psiquismo, alterando de forma significativa o modo como as pessoas veem a vida, bem como suas reessignificações frente à perda do outro, sendo a morte a única experiência firmada na certeza de separação definitiva e o luto como um evento único vivido na peculiaridade de cada um. Este artigo tem como objetivo compreender os mecanismos psíquicos subjacentes ao processo de luto, buscando esclarecer que esse processo é um fenômeno psíquico e necessário considerando os seus efeitos psicossociais, afetivos e cognitivos, bem como suas reações provenientes do apego, da identificação e da angústia. O presente trabalho está baseado em uma pesquisa de levantamento bibliográfico e está ancorada em fontes como: livros, contemplando autores clássicos e contemporâneos, e artigos encontrados nas bases de dados de reconhecimento científico como o Scielo e BVSpsi.

Palavras-chave: Luto, Apego, Identificação, Angústia, Morte.

1. INTRODUÇÃO

Ao longo de todo o processo de desenvolvimento do homem é comum se deparar com uma série de perdas, tais como projetos não concretizados, surgimento ou agravamento de doenças crônicas no decorrer da vida, rompimentos de relações e, finalmente, a morte de amigos e parentes. Para Moura (2006) a perda por morte é um grande sofrimento, porque há várias outras perdas que acompanham esse evento, não se limitando apenas ao ente querido, mas o medo do que não se pode controlar, a finitude da vida. Qualquer vínculo desfeito é certamente doloroso e todos os indivíduos estão sujeitos a ter essa vivência, sendo a morte a única experiência firmada na certeza de separação definitiva e o luto como um processo vivenciado em algum momento por todos algum dia. Quem perde algo ou alguém, vive a tristeza da ausência e tem que se adaptar a uma nova realidade. (PARKES, 2009).

Para Silva et.al. (2007, p. 98), “a morte de quem se gosta provoca rompimentos profundos, sendo necessários ajustamentos no modo de se perceber o mundo e de se fazer planos para continuar vivendo nele”. De acordo com os autores, a morte de uma pessoa querida provoca uma grande desorganização em vários aspectos, seja no âmbito econômico, social e familiar, sendo um importante processo de reorganização mental, emocional e até mesmo social. Diante da morte e do luto, provavelmente o indivíduo se sentirá desorientado e nada será mais profundo e doloroso do que o sentimento de perda. Nesse estado ‘doloroso’, a sensação é de que mais nada nem ninguém poderão preencher o vazio que tanto angustia o enlutado. (GANNZERT; CORREIA, 2011).

Para Parkes (2009) é importante perceber os efeitos do luto na saúde psicológica e física do indivíduo enlutado, bem como os fatores que influenciam nas suas reações, como apego, a percepção do sujeito frente ao objeto amado e a sua identificação com a pessoa que perdeu.

Mediante a esse trabalho faz-se necessário compreender a construção do processo de luto dentro das perspectivas de sequências causais, que são inúmeras perdas que explicam os riscos psicológicos iminentes na pessoa enlutada. Segundo Parkes (1998), o luto é compreendido como uma importante transição psicossocial, com impacto em todas as áreas de influência humana.

Freud (1917) aponta que no luto há perda de interesse no mundo externo, desânimo profundamente penoso e inibição de toda e qualquer atividade e ainda pontua que depois de uma grande perda, não haverá substituto, ainda que esse vazio seja preenchido, mas ainda algo permanecerá, sendo essa a única maneira de perpetuar aquele amor que não se deixa abandonar.

O conhecimento da finitude do homem desafia a representação da morte como tema interdito, refletindo que só através da morte enquanto categoria existencial, a vida se torna ganhar vida, mais que vivê-la, esclarecendo que esse processo é um fenômeno psíquico e necessário considerando os seus efeitos psicossociais, afetivos e cognitivos, já que o luto é considerado como um evento único vivido na peculiaridade de cada um.

Sendo assim, esse trabalho tem como objetivo, a partir de uma revisão bibliográfica, discutir os mecanismos psíquicos subjacentes ao processo de Luto. Para tanto serão utilizados teóricos que trabalham o luto a partir da teoria de Bowlby e teóricos que tem como base para análise da perda a psicanálise Freudo-Lacaniano.

A investigação, organização, utilização de técnicas e análise de dados são condições sinequa non para a elucidação de uma pesquisa (PRODANOV; FREITAS, 2013). Assim, faz-se necessário a escolha de um caminho epistemológico que aproximará ao fenômeno. Segundo Lakatos; Marconi (2010) a pesquisa bibliográfica não é uma repetição do que já foi dito ou escrito acerca de determinado assunto, mas fornece a compreensão de um tema a partir de um novo enfoque ou abordagem, propiciando dessa forma, novos olhares e reflexões sobre o mesmo assunto.  Neste contexto, opta-se pela pesquisa com privilégio de técnicas qualitativas e está baseada em uma pesquisa de levantamento bibliográfico que abordará a “Temática do Luto”, ancorada em fontes como: livros, contemplando autores clássicos e contemporâneos, e artigos, encontrados nas bases de dados de reconhecimento científico como o Scielo e BVSpsi, a fim de fundamentar a pesquisa para contribuir com a produção de conhecimento, especialmente nas especialidades que lidam com a questão da morte. A partir daí, pretende-se analisar as referências, alavancando as fontes principais, ou seja, os autores mais citados, formando a coluna vertebral deste trabalho, que está respaldado na pesquisa exploratória.

2. LUTO E MORTE

2.1 LUTO E MORTE AO LONGO DOS TEMPOS

Moura (2006) traz uma visão da história acerca da morte e do luto até os dias de hoje. Fundamenta-se nos estudos de Ariés (2003) em transcorrer da Antiguidade até o século XIX. Na Idade Antiga os doentes em fase terminal eram velados em casa, juntamente com seus familiares, bem como na presença das crianças, nada era oculto a respeito da morte. Na Idade Média o índice crescente de epidemias e doenças infecto-contagiosas e sem cura, favoreceu a convivência das pessoas com morte, pois era constante e passou a fazer parte do cotidiano. Acostumados com esse fenômeno, à morte não causava tanta comoção.

A partir dos meados do século XIX, Ariés (2003) aponta que a morte não mais passa a acontecer em casa, ao alcance dos olhos da família, mas no hospital. Possivelmente essa mudança tenha influenciado a maneira como as pessoas passaram a vivenciar o luto advindo da morte de um ente querido, resultando em um grande distanciamento entre vivos e mortos, trazendo angústia e muitas vezes desespero, dificultando a elaboração do luto. Segundo Elias (1993) a morte é impelida mais e mais para os bastidores da vida social durante o impulso civilizador.

Ariés (2003) alerta que o “recalque a dor”, a interdição de sua manifestação pública e a obrigação de sofrer só e ás escondidas agravam o sofrimento do enlutado. Quando não existem espaços para que a família se expresse, o sentimento de solidão se amplia, trazendo sofrimento e angústia. (SILVA et al, 2007). Outro fator que segundo Ariés (2003) é de grande importância baseia-se na transferência da compaixão para o familiar do morto (outrora dirigida ao próprio morto). Entretanto falar sobre a morte causava dor ao enlutado. Daí surgiu o comportamento das pessoas evitarem o assunto. “A proibição do tema morte e luto estaria, portanto intimamente ligado ao fato do enlutado a aturdir-se com o trabalho ou, ao contrário, a atingir o limite da loucura” Ariés(2003). A morte é, assim, temida, por significar uma anulação completa do instinto de vida. O medo da morte como outras fobias, pode resultar de eventos internos, ou seja, de situações conflitantes não solucionadas. Na verdade, não são os objetos ou situações externas que criam nas pessoas o medo da morte, mas a idéia fantasmática de um Eu permanente e eterno que seria aniquilado com a morte, portanto é importante perceber os efeitos do luto na saúde psicológica do enlutado, bem como os fatores que influenciam nas suas reações, como apego, a percepção do sujeito frente ao objeto amado e a sua identificação com a pessoa que perdeu.

2.2 LUTO E APEGO

O luto é vivenciado em vários contextos nos quais o apego torna-se um fator preponderante no que se refere à perda e a representação do amor, sendo este a fonte de prazer mais profunda na vida, ao passo que a perda daqueles a que amamos é a mais profunda fonte de dor. (PARKES, 2009, p.11).

Segundo Parkes (2009), o risco de se vincular a alguém traz insegurança, medo e desconforto frente a possibilidade de perder. Uma vez estabelecido esse vínculo, alguns estudiosos afirmam que é muito difícil ser rompido, desta maneira, é pela natureza do laço que resiste ao rompimento. (PARKES,2009). Toda situação de perda vivida pelo adulto, na verdade, é uma repetição de uma perda antiga, por meio da forma como essa criança viveu e elaborou as primeiras perdas da vida, tendo um valor significativo e de grande influência na maneira de como o adulto irá enfrentar perdas no futuro. (NEIVA, 2016).

Por meio da Pesquisa em Havard, do qual participaram 59 jovens viúvas e viúvos Parkes e Weiss [(1983), p.39 apud PARKES], observaram que a intensidade do sofrimento está associado aos fatores de riscos que a pessoa enlutada está exposta. Os quais foram identificados a vulnerabilidade pessoal, relação com a pessoa falecida, eventos e circunstâncias que levaram á morte, bem como da morte em si e apoio social. A pesquisa apresentou que o apego á pessoa perdida é um fator determinante nas reações ao luto, gerando dois tipos diferentes de reações problemáticas:

  • A relação de dependência, que indica a possibilidade de luto crônico;
  • A relação ambivalente, que indicava a possibilidade de luto conflituoso.

O luto “crônico” segundo Parkes (2009) é intenso desde o princípio permanecendo um longo período nesse estágio de vazio. Já o luto “conflituoso” requer um tempo de assimilação, demora para se instalar, atingi seu ápice algum tempo depois da morte e tem como reação sentimentos de raiva e/ou culpa.

Parkes ainda acrescenta que há tipos de apegos no que se refere às reações de luto, sendo diretamente proporcional ao vínculo desenvolvido e ao tipo gerado. Baseado nos estudos Parkes (2009) sobre a força do apego e segurança do apego, ela traz um novo olhar frente o vínculo mãe-bebê, observando efeito da separação, desenvolvendo um método sistemático de observar e classificar padrões de apego intensificando seus estudos nas relações de “amor” entre mãe e bebê em um patamar científico e demonstrando a maneira peculiar pela qual as mães amam seus bebês possibilitando um efeito profundo no modo como os bebês verão a si e o mundo, classificando os tipos de apegos como:

1 – Seguro

2 – Inseguro

  • ansioso /ambivalente
  • evitador
  • desorganizado /desorientado

2.1.1 APEGO SEGURO

Para Ainsworth (2009, p.24 apud PARKES), pais que são sensíveis e responsivos as necessidades de segurança do bebê, dando base estável possibilitando a criança explorar o mundo, essas crianças toleram separações breves sem muito sofrimento e respondem rápida e calorosamente a mãe quando ela retorna e as conforta. Uma vez esses padrões estabelecidos nos dois primeiros anos de vida mantêm-se marcadamente estável e são preditores da qualidade do relacionamento com o outro durante a infância, colaborando para que a criança seja sensível e segura em relação aos outros. Nesse sentido Parkes (2009, p.48) destaca que “por amar seu bebê, a mãe irá ensiná-lo a se separar dela. Visto por esse enfoque, o teste mais árduo de um relacionamento de amor pode muito bem-estar no sucesso que obtemos ao sobreviver á morte daqueles que amamos.”

Então Parkes (2009) aponta que crianças experienciaram apegos seguros em relação aos pais vão sofrer menos emocionalmente após o enlutamento na vida adulta.

Nessa perspectiva do apego, observa-se então que a reação ao luto possivelmente esteja associado à forma como os cuidadores ajudam a criança a desenvolver um mundo reconhecido por elas como presumido e à necessidade infantil de procurar pelo genitor perdido.

2.2.2 APEGO INSEGURO

2.2.2.1 ANSIOSO/AMBIVALENTE

Ainsworth (2009, p.24 apud PARKES), demonstrou que mães insensíveis às necessidades dos filhos, desmotivadoras, tem filhos que apresentam grande sofrimento durante a separação e se agarram e choram raivosamente quando as mães retornam.

Para Parkes (2009) aqueles que desenvolveram esse tipo de apego durante a infância vão reportar luto intenso e duradouro, tendo a tendência de depender dos outros, logo após do enlutamento.

2.2.2.2 EVITADOR

Nessa categoria as mães apresentam indiferença e despreocupação frente às necessidades da criança, não expressam sentimentos, não toleram proximidade e /ou punem o comportamento de apego, desta forma as crianças aprendem a inibir suas tendências a se aproximar e a chorar, considerando essas crianças “indiferentes”. Parkes (2009).

Aqueles que desenvolveram esse tipo de apego, segundo Parkes (2009) quando adultos vão achar difícil mostrar afeto ou chorar e vão tender a ser agressivos e assertivos em relação aos outros, tendo dificuldades em expor sentimentos e/ou confiar nos outros, inibindo ou adiando a expressão de luto, sendo mais propensos a doenças psicossomáticas após a perda.

2.2.2.3 DESORGANIZADOR/DESORIENTADOR

As crianças apresentam atividades contraditórias e desorganizadas, podem chorar quando separadas, mas evitam a mãe quando retorna, ou se aproximam dela e ficam quietas, paradas ou se jogam no chão. Main e Ainsworth (2009, p.24 apud PARKES).

Pesquisas apontam que as mães dessas crianças haviam sofrido perdas significativas ou outro tipo de trauma antes ou depois do nascimento dessas crianças e muitas reagiram com uma severa depressão. Mais de 56% das mães que havia perdido um dos pais por morte antes de completar a escola secundária tiveram filhos que apresentaram apego desorganizado. Main e Hessen (2009, p.25 apud PARKES).

Parkes (2009) traz em sua pesquisa que crianças que formaram apegos desorganizados na vida adulta vão adotar modos passivos de enfrentamento e vão reagir ao luto tornando-se deprimidos, impotentes e potencialmente suicidas, tendo dificuldades de procurar ajuda dos amigos e da família, embora busquem a ajuda de médicos e outros.

O apego, portanto, traz no vinculo a base da representação do amor e também o ponto de partida para compreender o sofrimento psíquico que ocorre na perda, onde não apenas o elo se configura a ligação do sujeito frente ao objeto amado, mas também sua percepção e identificação com a pessoa que se foi.

2.3 IDENTIFICAÇÃO E LUTO

A representação da morte frente à dor e sofrimento do outro é um fenômeno que vai além da perda física, além do significado da inexistência do ser, é um sentido peculiar que cada um tem para o outro “monotropia” Bowlby (1958, p.13, apud PARKES),“o amor é um vinculo com uma pessoa apenas. Não há como existir substituto para pai, filho ou parceiro amoroso que tenha sido perdido.”. Cada elo perdido é único, pois perpassa em uma dimensão de representação e falta, ou seja a identificação do sujeito frente a perda do outro, qual a função que tinha no outro? Qual a parte em sua vida não mais existirá?

Ao referir-se à Freud, (PARKES, 1998) aponta que ele, uma época, considerou a identificação como uma única condição que o id pode abrir mão de seus objetos. Ratificando, após dez anos que se uma pessoa estiver perdido seu objeto de amor, ou tiver abdicado dele, com frequência irá se compensar identificando-se com esse objeto, formulando que o sujeito é constituído de partes do outro ou de outros.

Nesse contexto o significado da perda ganha força no que se refere aos papeis que foram desenvolvidos durante a existência do outro, funções essas que obrigam o enlutado a vivenciar uma transição psicossocial, coagindo a mudança. Quando alguém morre, uma série de concepções sobre o mundo, que se apoiava na existência da outra pessoa, para garantir sua validade, de repente, ficam sem essa validade. (PARKES,1998).

Segundo Freud (1917), mesmo que haja consciência da perda que deu origem ao seu grande sofrimento, ou seja, ao seu estado melancólico, a pessoa sabe quem ela perdeu, mas não o que perdeu nesse alguém. A angústia se dá do desligamento libidinal com objeto amado, sendo esse processo executado pouco a pouco, por um espaço de tempo e de energia catexial, prolongando esse meio tempo, a existência do objeto perdido.

Para Freud (1914) há uma diferença entre a natureza da melancolia com o afeto normal do luto. Em seus estudos na obra “Luto e Melancolia” Freud ([1914-1915] 2010) faz distinção entre a reação a perda no que se refere à perturbação da autoestima presente apenas no luto, correlacionando os dois estados sobre mesmas condições. Ambas apresentam um desânimo profundo, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda de capacidade de amar e a inibição de toda e qualquer atividade. Freud (1917) afirma que o luto nada existe de inconsciente referente à perda e que a inibição e a perda de interesse são explicadas pelo trabalho de luto o qual o ego é absorvido, sendo que é o mundo que se torna pobre e vazio, já na melancolia é o próprio ego.

O que se apresenta no processo de luto é um desligamento pouco a pouco das representações que se tinha ao objeto amado, dando lugar a um desvio de realidade e a um apego pela via de uma psicose alucinatória carregada de desejo. Cada uma das lembranças, e expectativas em relação a cada uma delas. Por esse motivo, o domínio da realidade é restaurado fragmentadamente, tornando esse processo penoso, desconfortável e que seja aceito como algo natural.( FREUD, 1917).

Parkes (1998, p.128) afirma que Freud (1923) em “O Ego e o Id” desenvolveu a noção de que a retirada da libido que liga uma pessoa a outra pode acontecer apenas quando a pessoa morta estiver “reinvestida” dentro do ego, alguns psicanalistas consideram a identificação com objeto perdido como um componente necessário do luto. Abraham (1970) escreveu um ano depois que via o objeto “escondido no ego”: “O objeto perdido não se foi, pois agora carrego dentro de mim e não poderei perdê-lo jamais”

Krupp (1963, p.129, apud PARKES) considerava a identificação derivada das repetidas frustrações e perdas da primeira infância: “A criança tenta se tornar amada para prevenir futuras perdas… De partes da personalidade de outros [a criança em desenvolvimento cria] o mosaico de si mesma.” Nesta visão, a identificação com a pessoa perdida não é apenas uma forma de adiar a consciência da perda; é a condição necessária sem a qual o pesar não terminaria e uma nova identidade não se desenvolveria.

Desta forma, “figuras das quais a pessoa parece haver abdicado ou que foram perdidas são mantidas permanentemente ligadas por meio de vínculos que não poderiam ser ainda mais estreitos.” Rochlin (1965, p.129, apud PARKES).

Segundo Freud (1917), a consciência da perda não define o sofrimento, mas a ameaça de perder algo que se tinha nesse alguém, então a angústia se dá não apenas no conhecimento de um vínculo desfeito, no entanto se instala no desligamento aos poucos com objeto amado, configurando a existência do objeto perdido.

2.4 ANGÚSTIA E LUTO

Segundo Lacan (1962) a angustia é um afeto que não iludi. Besset (2007) traz que a ameaça da perda do objeto e não a perda em si que se trata a teorização desse sentimento, portanto, seria uma reação em resposta a uma falta imaginária ou seja a angústia se manifesta “diante de algo.” Para Catarina (2008) há diferentes definições de angústia  uma quando se trata da reação ante uma perda iminente; outra relacionada à castração (a perda de um órgão) e a angústia da perda do amor da pessoa amada ou de um erro real ou imaginário (angústia moral).

Besset (2007) aponta que a angústia é a presença que escapa qualquer saber. Suas reações muitas vezes somatizam, afetando o corpo do sujeito que fala. A dor psíquica é algo aniquilador. O corpo perde sua armadura, sua segurança, e decai. Um antídoto mais primitivo utilizado pelo o homem é o grito, depois as palavras ressoadas que tentam formar uma ponte entre a realidade conhecida antes e após a perda.

A culpa é uma variante da angústia. É uma reação à ameaça de que o ser amado retire o seu amor. Catarina (2008) diz que é a consciência do castigo pela falta, seja ela real ou imaginária. Um trauma psíquico pode ser produzido em decorrência de uma perda brutal ou branda quando acrescentada por uma série de pequenas perdas não sentidas pelo sujeito que provocam imperceptíveis dores na qual, somatizadas, levam o indivíduo a um estado de tensão até o ponto em que um simples acontecimento inócuo bastasse para que essa dor eclodisse de maneira consciente.

Esse sentimento precede a perda e pode também se manifestar logo depois da morte de um ente querido. Branco (2014) diz que o amor é configurado como a suplência da falta. Nesse contexto o elo do sujeito ao objeto se dá na busca de preencher o vazio. Se o papel da constituição do sujeito como um ser faltante foi estabelecido, possibilitando a separação “desmame” então o amor primordial do Outro cumpriu o seu papel. Função essa de produzir um vazio lógico ao qual toda escolha objetal viria posteriormente operar como recobrimento da falta, permitindo a elaboração do processo de luto, fazendo com que todo ser vivente se apegue a vida. Freud (1917). Segundo Besset (1998), o amor vela o afeto da angústia. Portanto o apegar-se a algo é um risco inerente ao fato da possibilidade de perdê-lo a qualquer momento ocorrendo à separação.

2.5 AMOR E LUTO

Acredita-se que, apesar de seu caráter limitador, o nada imposto pela morte possibilita, ao mesmo tempo, abertura para a compreensão de novas possibilidades de sentido e diferentes formas de pensar e agir, por meio de um processo de luto vivenciado em variados contextos familiares, evidenciando em uma poderosa experiência de sofrimento que pode ser ressignificada ou traduzida em possibilidades mais singulares de existência.

Então o viver passa ser uma trajetória marcada por um processo evolutivo que estabelece algumas condições para constituir o ser humano, iniciando com o primeiro corte, a primeira separação, o afastar-se de um elo de extensão chamado de cordão umbilical, e a partir daí inaugura o início da perda com todas as suas implicações. A busca constante do homem em procurar algo que supostamente o manterá completo é um caminho que se estende por toda a vida, à vista disso a perda é a repetição de várias outras perdas, remetendo muitas vezes ao sentimento de abono, ao medo de perder algo ou alguém sendo esse sentimento definido como angústia.

A falta pode ainda se transformar em uma presença assimilada através de um processo de elaboração de não se perder os vínculos e afetos com o objeto perdido. Nas palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade (1987, p. 25):

Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.

Portanto, o ser faltante sempre irá existir ainda que justifique a sua falta no outro, mas haverá sempre um lugar a ser preenchido, uma lacuna, a procura do pai, da mãe ou qualquer outro alguém que contribuiu de forma significativa para sua autonomia. A separação que o torna único é também é a causa da ausência e a consciência da falta, tornando o vínculo existente só na lembrança. Segundo Freud (1917), a criança aprende a amar outras pessoas que remediam seu desamparo e satisfazem suas necessidades.

Segundo Zimerman (2010, p.38) outro fator que se faz presente no transcurso desse caminho é um sentimento universal que se chama amor, sendo usado por muitos para definir variados vínculos, trazendo na sua etimologia algo interessante de origem latina, mors-mortis, que se relaciona com o grego “moros”, tendo entre outras significações, também expressa como morte, falecimento, óbito. O que torna possível uma correlação harmônica com o princípio fundamental de Freud quanto à existência das “pulsões da vida” como “pulsões de amor” ou de “Eros” e as pulsões de morte, ditas por ele como “agressivas ou de “Tânatos”.

Baseado nesse pressuposto Zimerman (2010) refere-se que o sentimento de amor seria resultante de uma grande predominância dele sobre as pulsões de ódio que, virtualmente, estariam excluídas, sem (=a) uma presença forte e permanente dessas pulsões de morte (=mors), ou seja, a-mors seria sem pulsão de morte, então o amor significa a vida (ZIMERMAN, 2010). Então o amor estaria relacionado com a morte, pois segundo Parkes (2009), o amor e luto estão ligados, não é possível sentir o primeiro sem correr o risco de confrontar com o segundo. Portanto só é possível compreender o luto por meio do conhecimento da natureza e dos padrões do amor nos seus variados sentidos, pois a busca de um elo perdido, a angústia de perdê-lo e a falta são inerentes ao processo evolutivo do homem, sendo, portanto, um fenômeno necessário para se concluir o ciclo da vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

São só dois lados da mesma viagem…
O trem que chega é o mesmo trem da partida…
A hora do encontro é também despedida.
A plataforma desta estação é a VIDA.
“Encontros e Despedidas”

Conceitos mostram que o luto é visto como um transcurso difícil, mas compreensível no ponto de vista do desenvolvimento humano, já que se nasce, cresce e morre, seguindo um percurso natural do ciclo da vida. O enlutar-se é ter a possibilidade de refletir sobre quem as pessoas são em uma perspectiva de encontro de si. Freud (1917) aponta que o conhecimento da fragilidade humana permite o sujeito a compreensão de si mesmo e que muitas vezes o homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade dessa espécie. Muitas vezes essa realidade pode colocar em risco a saúde mental do sujeito em algum momento e nesses casos existe a necessidade de um trabalho psicológico. O luto é a resposta à ruptura de um vínculo significativo, no qual havia um investimento afetivo entre o enlutado e o ente que se foi, Diante desse contexto, o enlutado vivencia uma série de mudanças relacionadas ao meio econômico, familiar, social, entre outras, de maneira particular e singular, as quais vão estar associadas a como o enlutado experienciou o processo (de doença, separação conjugal, mudanças geográficas etc.), caracterizado por sequências causais.

A ambiguidade entre a certeza da mortalidade e a incerteza do desconhecido, faz-se pensar sobre as possibilidades de falar sobre a morte e do amor tão amplamente discutido e temorizado, segundo Parkes (1998) o luto, precisamente o processo de perda é o preço que se paga pelo amor.

O amor, o vínculo, a perda e a falta fazem parte de uma linha epistemológica que engendra todo o processo de perda embasado nas pesquisas e estudos dos teóricos que fundamentam as questões em torno do processo do luto. A correlação entre os teóricos sobre o luto se fundem na medida que o discurso tem o mesmo objetivo: entender o sofrimento humano e os mecanismos psíquicos subjacentes ao processo de luto para possíveis intervenções, dignificando o ser como vulnerável e ao mesmo tempo mutável, respeitando seus limites e avançando no que é possível. Para alguns autores o amor e a perda estão relacionados no que se refere ao apego, identificando os possíveis mecanismos desenvolvidos através de vínculos a serem formados dentro do contexto mãe-filho, contribuindo na compreensão das implicações do luto. Já Freud (1917) diferencia as reações do luto baseado da identificação do enlutado com o objeto perdido, uma função que tinha no outro a falta de uma parte na sua vida que não existirá mais, enquanto Lacan (1962) traz a falta estrutural como fator determinante para a produção da angústia frente à perda. Nessa conexão entende-se que a morte sinaliza a descontinuidade de uma vida, marcada por vínculos, por uma identificação, por uma história compreendida pelas agruras da separação. O luto pode ter numerosos significados, mas ainda se constitui um fenômeno psíquico e necessário no ponto de vista psicológico, cognitivo e psicossocial do sujeito, alterando de forma significativa sua visão de mundo, bem como trazendo a tona seus aspectos mais subjetivos e primitivos.

Diante do exposto a morte em si acompanha o sujeito desde o nascimento, quando as primeiras perdas são inevitáveis, a separação com mãe possibilitando uma falta necessária no que se refere um ser não extensivo à mãe, mas um sujeito separado da mãe, autônomo.

Compreender o luto como um processo e não como um estado traz uma nova visão para possíveis intervenções, fundamentado no conhecimento do homem com todas as suas peculiaridades e desafios em torno da finitude e o saber lidar com a falta.

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[1] Graduada do Curso de Psicologia da FTC-Jequié.

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