ARTIGO ORIGINAL
LAFRAIA, Michele Fátima de Almeida [1]
LAFRAIA, Michele Fátima de Almeida. Intervenções esportivas no Transtorno do Espectro Autista (TEA): Análise de evidências neuropsicomotoras e paradigmas para a educação inclusiva. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 05, Vol. 01, pp. 98-114. Maio de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/pedagogia/intervencoes-esportivas, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/pedagogia/intervencoes-esportivas
RESUMO
Objetivo: Este artigo analisa, sob a ótica da revisão integrativa, o impacto de intervenções esportivas e de atividade física estruturada no neurodesenvolvimento de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Metodologia: O delineamento metodológico fundamenta-se no cruzamento de dados demográficos oficiais (Censo 2022 e estatísticas educacionais brasileiras) com evidências empíricas internacionais de alto rigor, incluindo ensaios clínicos controlados e meta-análises. Resultados: A literatura evidencia uma prevalência significativa de atrasos motores e hipoatividade na população pediátrica com TEA, configurando barreiras tangíveis à participação social e preditores de riscos à saúde. Em contrapartida, intervenções motoras direcionadas, com destaque para atividades aquáticas, mini-basquete, equoterapia, artes marciais e exergames, demonstram eficácia consistente na mitigação de déficits motores e na facilitação da comunicação social. Observou-se, ainda, que a modulação de comportamentos estereotipados e da autorregulação emocional é altamente dependente da adequação sensorial, da mediação social e da dosagem do programa. Conclusão: Diante do crescimento acelerado de matrículas de alunos com TEA na educação básica, conclui-se que a Educação Física escolar transcende o aspecto recreativo, consolidando-se como uma política universal de inclusão e saúde pública. Propõe-se a adoção de paradigmas ancorados no ensino estruturado e na adaptação curricular contínua para otimizar os desfechos neuropsicomotores no ambiente escolar.
Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista, Neurodesenvolvimento, Atividade física estruturada, Educação Física inclusiva, Funções executivas.
1. INTRODUÇÃO
O cenário contemporâneo do neurodesenvolvimento no Brasil revela uma transição epidemiológica e educacional significativa. Dados do Censo Demográfico de 2022 indicam que aproximadamente 2,4 milhões de brasileiros (1,2% da população) possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), com uma prevalência acentuada no sexo masculino durante a infância. Esse fenômeno reflete-se diretamente no sistema de ensino: as matrículas de estudantes com TEA na educação básica saltaram de 636.202 em 2023 para 918.877 em 2024, representando um incremento de 44,4%. Tal expansão demanda a consolidação de estratégias pedagógicas e intersetoriais que transcendam o acesso, garantindo a permanência e o desenvolvimento integral desses indivíduos.
A literatura científica é convergente ao apontar que, além das alterações clássicas na comunicação e interação social, o TEA é frequentemente acompanhado por déficits motores significativos e baixos índices de participação em atividades físicas estruturadas. Essas limitações operam como barreiras adicionais à inserção social, agravando riscos metabólicos e limitando a autonomia. Em contrapartida, evidências robustas demonstram que intervenções esportivas planejadas atuam como moduladores do neurodesenvolvimento, promovendo ganhos mensuráveis na coordenação motora, na autorregulação emocional e no refinamento das funções executivas.
Neste contexto, a Educação Física escolar deixa de ser apenas um componente curricular recreativo para assumir o status de intervenção terapêutica e pedagógica fundamental. Amparada por marcos legais como a Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/1996), a escola consolida-se como o locus primordial de inclusão. Todavia, a efetividade dessa inclusão no ambiente esportivo escolar permanece condicionada à capacitação docente e à aplicação de paradigmas de ensino estruturado.
Diante dessa problemática, o presente artigo tem como objetivo analisar as evidências científicas acerca do impacto das práticas esportivas no desenvolvimento de crianças com TEA, discutindo suas implicações neuropsicomotoras e estabelecendo diretrizes para uma Educação Física escolar genuinamente inclusiva e baseada em evidências.
2. PANORAMA EPIDEMIOLÓGICO E IMPLICAÇÕES PARA A ESCOLA
A prevalência do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é estimada em 1 em cada 100 crianças em âmbito global (WHO, 2023), o que demanda o estabelecimento de suportes adequados para mitigar as barreiras sociais que limitam a participação desses indivíduos. Paralelamente, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC, 2023) aponta índices elevados na população pediátrica monitorada. O aumento progressivo desses dados, associado a variações regionais e desigualdades no acesso a serviços, indica que a elevação nos índices decorre do aprimoramento dos protocolos de rastreamento e da ampliação da disponibilidade de serviços de diagnóstico.
No contexto brasileiro, os dados da amostra do Censo Demográfico 2022 (IBGE, 2024) oferecem subsídios para o planejamento educacional. A detecção de prevalências acentuadas nas faixas etárias de ingresso escolar implica na necessidade de corpo docente qualificado, adaptações curriculares e fortalecimento das redes de apoio institucional. O incremento de 44,4% nas matrículas de estudantes com TEA na educação básica entre 2023 e 2024 (MEC/INEP, 2024) confirma a centralidade da escola como ambiente de inclusão. Nesse cenário, a Educação Física escolar assume papel relevante, devendo ser articulada como uma estratégia de inclusão priorizada.
Quanto ao neurodesenvolvimento, os prejuízos motores no TEA são documentados na literatura científica (Fournier et al., 2010). Investigações indicam um efeito agregado em relação a déficits de coordenação, equilíbrio, controle postural e planejamento motor (Gowen; Hamilton, 2013). Revisões sistemáticas sobre intervenções físicas apontam que uma parcela de crianças com TEA não atinge as competências motoras esperadas para a idade cronológica (Healy et al., 2018). Todavia, as mesmas pesquisas destacam o potencial das atividades físicas estruturadas para a redução desses déficits, ressaltando-se a importância da padronização metodológica em estudos futuros.
Sob a perspectiva psicopedagógica, as fragilidades motoras podem induzir um ciclo de exclusão (Must et al., 2015). A competência motora limitada pode atuar como fator de restrição para a adesão a jogos e esportes, o que reduz as oportunidades de interação e prática social, resultando em isolamento e sedentarismo (Pan; Frey, 2006). Esse processo é acentuado em ambientes educacionais sem adaptações, caracterizados por baixa previsibilidade, estímulos sensoriais desregulados e dependência de instruções verbais, fatores que compõem barreiras à promoção da atividade física para esta população (Stanton-Nichols et al., 2021).
Intervenções precoces direcionadas ao desenvolvimento motor apresentam resultados favoráveis (Case et al., 2020). Programas de habilidades motoras aplicados a crianças de 4 a 6 anos demonstraram impactos positivos. Avaliações com uso de acelerometria constataram melhorias nas competências motoras, na elevação dos níveis de atividade física diária e na socialização (Case et al., 2020). Tais evidências sustentam a premissa de que a Educação Física escolar, fundamentada em planejamento pedagógico estruturado, atua como intervenção universal e dispositivo de prevenção, sendo necessária para reduzir as assimetrias de participação no ambiente educacional.
3. ATIVIDADE FÍSICA, SAÚDE E BEM-ESTAR NO TEA: NÍVEIS, RISCOS E COMORBIDADES
Investigações fundamentadas em medidas objetivas indicam que crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam níveis reduzidos de atividade física em comparação aos seus pares (Healy et al., 2018). Essa condição é influenciada por determinantes intrapessoais, familiares, escolares e comunitários (Stanton-Nichols et al., 2021). Verificou-se que uma parcela restrita desta população atinge as recomendações globais de 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa (MVPA), com menor engajamento observado especificamente durante as aulas de Educação Física e nos períodos de recreio escolar (Healy et al., 2018).
Quanto à saúde metabólica, revisões apontam maior prevalência de obesidade e risco de sobrepeso em crianças com TEA quando comparadas a grupos controle (Must et al., 2015). Tais dados reforçam a necessidade de integrar o exercício físico como componente estratégico na promoção de saúde e prevenção de agravos pediátricos. Além disso, a literatura associa menores índices de MVPA a parâmetros de sono deficitários, sugerindo uma interdependência entre a prática motora, a autorregulação fisiológica e a saúde mental (Healy et al., 2021).
Modelos de neurodesenvolvimento propõem que as habilidades motoras, as funções executivas e a participação social operam como sistemas acoplados (Srinivasan et al., 2015). Nesse sentido, o treinamento motor inserido em contextos sociais estruturados, com regras e alternância de turnos, pode atuar no aprimoramento da atenção, do controle inibitório e da flexibilidade cognitiva. O exercício estruturado tem sido apontado como uma intervenção viável para o manejo dos domínios funcionais no TEA (Tan et al., 2016).
A utilização de medidas neurobiológicas e de neuroimagem têm permitido verificar a plasticidade neural induzida pelo esforço físico. Programas de intervenção baseados em modalidades desportivas, como o mini-basquetebol, demonstraram melhorias na comunicação social acompanhadas de alterações na conectividade funcional cerebral identificadas por ressonância magnética funcional (fMRI) (Tse et al., 2022). Tais achados fornecem substrato biológico para os ganhos comportamentais e cognitivos observados após as intervenções motoras.
A ansiedade, frequentemente relatada no TEA, atua como barreira para a participação em ambientes desportivos convencionais devido a fatores como imprevisibilidade e sobrecarga sensorial (Stanton-Nichols et al., 2021). Contudo, evidências indicam que a atividade física regular auxilia na redução dos níveis de ansiedade nesta população (Wang et al., 2019). Adicionalmente, intervenções baseadas em exercício demonstraram eficácia na mitigação de despertares noturnos e na melhoria da eficiência global do sono, impactando positivamente a estabilização do humor (Healy et al., 2021).
No âmbito da integração comunitária, o ambiente desportivo configura um cenário de interação regido por regras explícitas e metas compartilhadas (Stanton-Nichols et al., 2021). Práticas motoras mediadas favorecem o desenvolvimento de habilidades sociais e competências interpessoais. A literatura reitera que o sucesso destas intervenções está condicionado à inclusão de pares com desenvolvimento típico e à presença de profissionais de Educação Física com formação específica (Stanton-Nichols et al., 2021).
4. METODOLOGIA E RESULTADOS
O presente estudo configura-se como uma revisão integrativa da literatura, estruturada a partir de três eixos centrais de análise: a sistematização de indicadores demográficos e educacionais oficiais; a compilação de evidências empíricas primárias e secundárias acerca do impacto de intervenções motoras na população pediátrica com Transtorno do Espectro Autista (TEA); e a transposição teórico-prática desse arcabouço para o desenvolvimento de diretrizes aplicáveis à Educação Física escolar.
Para a composição do corpus analítico, estabeleceu-se como critério de elegibilidade a priorização de investigações com alto nível de evidência, notadamente revisões sistemáticas, meta-análises e ensaios clínicos randomizados ou controlados. Conferiu-se especial rigor à seleção de estudos fundamentados em aferições quantitativas e objetivas, tais como dados de acelerometria, baterias de testes motores padronizados e exames de neuroimagem.
Adicionalmente, procedeu-se à inclusão de marcos regulatórios, relatórios epidemiológicos e diretrizes institucionais. Essa base documental foi utilizada para fundamentar a contextualização das políticas públicas vigentes, os parâmetros de recomendação de atividade física e as normativas de cuidado e inclusão no ambiente escolar (OMS, 2020; Ministério da Saúde, 2014; Ministério da Saúde, 2021; MEC, 2024).
Tabela 1– Revisões e meta-análises selecionadas sobre atividade física/esporte no TEA (crianças e adolescentes)
| Referência (ABNT) | Tipo de evidência | População | Principais achados | Limitações frequentes reportadas |
|---|---|---|---|---|
| Sowa; Meulenbroek (2012) | Meta-análise | Indivíduos com TEA (faixas etárias variadas; detalhes variam por estudo) | Exercício físico associado a melhora global e efeitos positivos em domínios motores e sociais; efeito agregado positivo. | Heterogeneidade de modalidades e medidas; muitos estudos pequenos e não randomizados. |
| He et al. (2020) | Meta-análise | Crianças e adolescentes autistas (12 estudos; n agregado reportado) | Impacto positivo em interação social, comunicação e habilidades motoras em parte dos desfechos analisados. | Resultado para estereotipias pode variar por estudo e desenho; heterogeneidade. |
| Ruggeri et al. (2020) | Revisão sistemática | Crianças com TEA | Intervenções motoras/atividade física melhoram desfechos motores; discute estratégias de aprendizagem motora (aquisição, retenção, transferência). | Variedade de protocolos e instrumentos; necessidade de estudos mais robustos. |
| Levante et al. (2023) | Revisão narrativa sistemática | Crianças e adolescentes autistas | Programas esportivos beneficiam habilidades motoras e sociais e alguns traços autísticos (ex.: repetição), com predominância de estudos em natação e equitação. | Poucas meninas; lacunas em pré-escolares; necessidade de co-design com comunidade autista. |
| Li et al. (2023) | Revisão sistemática + network meta-analysis | Crianças com TEA | Sugere que modalidades distintas podem se associar a melhores resultados em domínios diferentes (ex.: Tai Chi para função motora; kata para social/estereotipias; intervenção de habilidades motoras fundamentais para comunicação). | Dependência de estudos disponíveis; comparabilidade limitada entre intervenções; necessidade de RCTs padronizados. |
| Yang et al. (2025) | Meta-análise de RCTs | Pessoas com TEA (inclui crianças; 20 RCTs) | Exercício com efeito positivo em comportamentos repetitivos/estereotipados (efeito pequeno a moderado), variando por dose e modalidade. | Heterogeneidade; tamanho amostral; diferenças de intervenção e escalas. |
Fonte: Autor, 2026.
Tabela 2 – Estudos de intervenção por modalidade (amostras infantis quando disponível)
| Modalidade / programa | Evidência selecionada | Amostra (idade; n) | Dose típica | Desfechos com melhora reportada |
|---|---|---|---|---|
| Mini-basquete (MBTP) | Estudos controlados e neuroimagem | Pré-escolares; n≈30 (15 intervenção/15 controle) e estudos adicionais em amostras masculinas | 12 semanas; em alguns estudos, sessões frequentes (ex.: 40 min/dia, 5 dias/semana) | Comunicação social (SRS-2), funções executivas e redes cerebrais (conectividade/ECN; ReHo; redes triplas), redução de comportamentos repetitivos em alguns desenhos. |
| Futebol (programa adaptado/comunitário) | Estudos piloto e intervenção social | Crianças; n pequeno (ex.: 16 em piloto) e estudos de intervenção social | Varia por estudo (semanas a meses) | Habilidades sociais e motoras; atenção a mediação e contexto. |
| Terapia assistida por cavalos (THR) | RCT + seguimento | Crianças/adolescentes 6–16; n (não especificado no resumo aberto) | Intervenção em semanas; estudos incluem seguimento | Autorregulação, socialização, comunicação e aspectos adaptativos; efeitos mantidos em seguimento em estudo específico. |
| Natação/terapia aquática | Estudos de intervenção e RCTs para competência aquática | Crianças; variados (pilot e RCT; ex.: 10 semanas; RCT AquOTic) | 10–14 semanas em muitos estudos | Habilidades motoras grossas, estereotipias em alguns estudos, competência aquática e segurança; potencial impacto em bem-estar e sono em relatos parentais. |
| Artes marciais (kata/karatê) | Ensaios e estudos controlados | Crianças; programas de 12 semanas comuns | 8–12 semanas ou mais | Estereotipias, comunicação e funções executivas/autorregulação em parte dos estudos. |
| Tai Chi | Quase-experimental/estudos clínicos | Crianças; n≈23 (exemplo) | 12 semanas em estudo citado | Redução de comportamentos estereotipados; melhora de equilíbrio/consciência corporal como plausível mecanismo. |
| Yoga (escolar e terapêutica) | RCT e estudos escolares | Crianças; ex.: n=43 randomizado em escolas especiais | 12 semanas (exemplos) | Sintomas e domínios socioemocionais, atenção conjunta em estudos; potencial para ansiedade. |
| Exergames | Revisões e estudos agudos/curtos | Crianças/adolescentes; variado | Sessões agudas a programas | Potencial para aptidão, cognição e redução de comportamentos repetitivos; melhora de controle inibitório em estudo agudo. |
Fonte: Autor, 2026.
A sistematização do corpus analítico, consolidada nas matrizes de evidência (Tabelas 1 e 2), revela uma convergência na literatura acerca da eficácia multifatorial das intervenções esportivas no Transtorno do Espectro Autista. A despeito da heterogeneidade metodológica e das diferentes modalidades avaliadas, os estudos apontam para desfechos consistentemente favoráveis nas esferas motora, comunicacional, socioemocional e neurocognitiva. Tais achados ratificam a premissa de que a atividade física estruturada atua como um modulador do neurodesenvolvimento, transcendendo o caráter puramente recreativo. A partir desta base empírica, torna-se imperativa a transposição do conhecimento clínico-científico para o contexto pedagógico, objetivo que fundamenta a discussão aplicada e as diretrizes delineadas a seguir.
5. DISCUSSÕES E PROPOSIÇÕES
A análise conjunta das meta-análises e revisões sistemáticas evidencia que a atividade física promove efeitos positivos multissistêmicos no Transtorno do Espectro Autista (TEA), não obstante a heterogeneidade inerente às variações de amostra, intensidade, modalidades e contextos de intervenção (Sowa; Meulenbroek, 2012; He et al., 2020; Yang et al., 2025). O impacto primário e estruturante destas práticas manifesta-se no domínio motor. Considerando que indivíduos com TEA apresentam déficits motores significativos, o esporte atua na organização de repertórios fundamentais, como locomoção, equilíbrio e controle de objetos, e no aprimoramento da coordenação e do planejamento motor, especialmente quando a intervenção é pautada em progressão metódica e feedback contínuo (Fournier et al., 2010; Ruggeri et al., 2020).
Para além da estruturação motora, os programas desportivos estruturados, notadamente as modalidades coletivas adaptadas, como o futebol e o mini-basquetebol, proporcionam ganhos expressivos nas esferas social e comunicacional. A prática inserida em um contexto social mediado cria oportunidades repetidas para o exercício da atenção compartilhada, alternância de turnos e leitura de pistas sociais. Tais elementos resultam no desenvolvimento de competências interpessoais e comunicação funcional, sobretudo quando o treinamento engloba a instrução explícita das regras sociais atreladas ao jogo (Cai et al., 2020; López-Díaz et al., 2021).
Concomitantemente, as interações promovidas pelo ambiente desportivo repercutem favoravelmente na autorregulação emocional. Evidências recentes indicam que a atividade física regular atua como moduladora dos níveis de ansiedade e contribui de forma significativa para a eficiência e arquitetura do sono. Essas melhorias fisiológicas geram efeitos indiretos positivos na tolerância à frustração, no comportamento adaptativo em sala de aula e, consequentemente, na consolidação da aprendizagem (Riis et al., 2024; Liang et al., 2024).
Por fim, a literatura mais recente demonstra que os ganhos comportamentais e motores encontram respaldo biológico em processos de plasticidade neurocognitiva. Programas que integram esforço físico moderado, aprendizagem motora e demandas cognitivas simultâneas, como atenção tática, tomada de decisão e controle inibitório, favorecem substancialmente as funções executivas. Estudos de neuroimagem atestam que modalidades específicas induzem modificações mensuráveis na conectividade e na dinâmica das redes cerebrais, fatores que apresentam correlação direta com a redução de comportamentos repetitivos e com a otimização da comunicação social (Yang et al., 2021; Yang et al., 2024; Zhang et al., 2025).
5.1 MODALIDADES PRIORITÁRIAS E CRITÉRIOS DE ESCOLHA
A seleção da modalidade esportiva deve ser orientada por um tríptico de critérios fundamentais: a aderência do praticante, a acessibilidade da intervenção e a funcionalidade pretendida. A literatura sugere que a adequação da prática deve ser personalizada de acordo com o perfil neuropsicomotor e os objetivos terapêutico-pedagógicos estabelecidos. Práticas como o Tai Chi são indicadas para o refinamento do equilíbrio e da consciência corporal, enquanto a natação foca na competência aquática e motricidade global. Por outro lado, modalidades como o Kata apresentam benefícios na autorregulação, e os esportes coletivos consolidam-se como ambientes privilegiados para a socialização (Li et al., 2023; Levante et al., 2023).
Dentro desse espectro de escolhas, as intervenções aquáticas e o ensino da natação devem ser tratados como prioridade estratégica sempre que houver viabilidade técnica e segurança. Para além do desenvolvimento motor, essa recomendação sustenta-se em uma necessidade de segurança vital. Análises e estudos populacionais identificam um risco elevado de mortalidade por afogamento em crianças com TEA, fator frequentemente associado a comportamentos de elopement (fuga ou perambulação). Nesse contexto, a aquisição de competência aquática transcende o ganho físico, configurando-se como uma medida preventiva essencial para a preservação da vida e redução de vulnerabilidades específicas desta população (Guan; Li, 2017; Rice et al., 2016; Kemp et al., 2024).
5.2 EDUCAÇÃO FÍSICA DIÁRIA NA ESCOLA: IMPACTO E PROPOSTA REALISTA
As diretrizes globais e nacionais de saúde pública preconizam o acúmulo mínimo de 60 minutos diários de atividade física para crianças e jovens, atribuindo à escola um papel central na mitigação do comportamento sedentário (OMS, 2020; Ministério da Saúde, 2021). No contexto brasileiro, a Educação Física constitui um componente curricular obrigatório amparado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (MEC, 2024), o que impõe às instituições de ensino o dever ético e legal de assegurar o acesso e a participação de todos os alunos mediante adequações razoáveis. Embora as recomendações nacionais sugiram um piso de três aulas semanais de 50 minutos para maximizar os benefícios educacionais e psicossociais (Ministério da Saúde, 2021), a carga horária formal frequentemente se mostra insuficiente para o alcance das metas metabólicas diárias. Esta lacuna é ainda mais crítica para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma vez que evidências indicam que esta população tende a acumular menores índices de atividade física moderada a vigorosa (MVPA) tanto nas aulas regulares quanto nos momentos de intervalo (Rostami Haji Abadi et al., 2023).
Para transpor essa barreira, a literatura respalda a implementação de um modelo estrutural de “Educação Física diária ampliada”. No âmbito das aulas formais, intervenções focadas no aprimoramento do desenho didático, como a organização por estações, a redução de tempos de espera e a otimização da gestão do tempo com instruções objetivas, demonstram eficácia direta na elevação do tempo em MVPA (Wong et al., 2021). Complementarmente a este núcleo, recomenda-se a inserção de microdosagens diárias de 10 a 15 minutos de rotinas motoras, voltadas à coordenação e ao equilíbrio, incorporadas estrategicamente à rotina escolar para aproximar os alunos da meta diária de movimento (Ministério da Saúde, 2021). Ademais, a estruturação de um recreio ativo, dotado de previsibilidade ambiental, materiais acessíveis e mediação leve, atua como uma medida de equidade indispensável à socialização (Rostami Haji Abadi et al., 2023). Por fim, o modelo propõe a extensão destas práticas para o contraturno por meio de parcerias comunitárias, viabilizando o acesso a modalidades prioritárias adaptadas, como natação e esportes coletivos, regidas por metas funcionais e individualizadas.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A convergência de evidências epidemiológicas, clínicas, educacionais e experimentais consolida a premissa de que o esporte, compreendido simultaneamente como prática pedagógica e intervenção motora estruturada, constitui um componente estratégico para o neurodesenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). No cenário nacional, a intersecção entre a expressiva prevalência diagnóstica apontada pelo Censo 2022 e o crescimento acelerado das matrículas na educação básica reafirma o ambiente escolar como o lócus central para a promoção do desenvolvimento integral e da participação social.
A literatura científica demonstra de forma consistente que as intervenções baseadas em atividade física resultam em ganhos motores significativos e no aprimoramento das habilidades sociocomunicativas. Adicionalmente, despontam evidências emergentes que associam práticas específicas, a exemplo do treinamento em mini-basquetebol, a melhorias na autorregulação, redução da ansiedade, eficiência do sono e alterações neurofuncionais mensuráveis
Diante deste panorama, conclui-se que o engajamento desportivo não deve ser relegado à condição de atividade extracurricular opcional, mas assumido como eixo estruturante de inclusão e saúde pública. A Educação Física escolar, fundamentada em sua obrigatoriedade curricular, ergue-se como a plataforma mais viável e privilegiada para universalizar o acesso e mitigar as assimetrias de participação motora. Por fim, reitera-se que a eficácia destes programas transcende a escolha de uma modalidade considerada ideal; seu sucesso depende intrinsecamente de um desenho pedagógico rigoroso, pautado na previsibilidade ambiental, adequação sensorial, mediação social e tempo ativo de prática.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996.
BRASIL. Lei n. 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Brasília, DF: Presidência da República, 2012.
BRASIL. Lei n. 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília, DF: Presidência da República, 2015.
CAI, K. L. et al. Mini-basketball training program improves physical fitness and social communication in preschool children with autism spectrum disorders. Minerva Pediatrics, 2020.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Prevalence of autism spectrum disorder among children aged 8 years. Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR), 2025.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Risk factors for drowning. Atlanta: CDC, 2026.
FOURNIER, K. A. et al. Motor coordination in autism spectrum disorders: a synthesis and meta-analysis. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 40, p. 1227-1240, 2010.
GUAN, J.; LI, G. Injury mortality in individuals with autism. American Journal of Public Health, v. 107, n. 5, p. 791-793, 2017.
HEALY, S. et al. The effect of physical activity interventions on youth with autism spectrum disorder: A meta-analysis. Autism Research, 2018.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022 (amostra): pessoas diagnosticadas com TEA (resultados preliminares). Rio de Janeiro: IBGE, 2022.
INEP – INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. Matrículas de estudantes com TEA na educação básica: crescimento de 2023 para 2024. Brasília, DF: INEP, 2025.
KEMP, E. et al. Improving water competency among children on the autism spectrum: AquOTic (10-week), RCT. Autism, 2024.
LEVANTE, A. et al. The effect of sports activities on motor and social skills in autistic children and adolescents: systematic narrative review. Children, 2023.
LI, Y. et al. Physical activity interventions in children with ASD: systematic review and network meta-analysis. Frontiers in Psychiatry, 2023.
LIANG, X. et al. Physical activity interventions and sleep in children/adolescents with ASD: systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine Reviews, 2024.
LÓPEZ-DÍAZ, J. M. et al. Football as an alternative to work on the development of social skills in children with ASD. International Journal of Environmental Research and Public Health, 2021.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Transtornos do Espectro do Autismo (TEA). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia de Atividade Física para a População Brasileira. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2021.
MUST, A. et al. Obesity and leisure-time physical activity in youth with autism spectrum disorders. Pediatrics, 2015.
RIIS, K. et al. Physical activity for anxiety for autistic people: systematic review. Clinical Psychology Review, 2024.
ROSTAMI HAJI ABADI, M. et al. Children with ASD spent less MVPA: comparisons with typically developing peers. Review Journal of Autism and Developmental Disorders, 2023.
RUGGERI, A. et al. The effect of motor and physical activity intervention on motor outcomes of children with ASD: systematic review. Autism, v. 24, n. 3, p. 544-568, 2020.
SOWA, M.; MEULENBROEK, R. Effects of physical exercise on autism spectrum disorders: a meta-analysis. Research in Autism Spectrum Disorders, v. 6, n. 1, p. 46-57, 2012.
STANTON-NICHOLS, K. et al. Barriers to physical activity for youth with autism spectrum disorder. Adapted Physical Activity Quarterly, 2021.
WONG, L. S. et al. Interventions to increase MVPA in school physical education lessons: meta-analysis. Journal of Sports Sciences, 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO) / OMS. Global guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Genebra: WHO, 2020.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO) / OMS. Autism (fact sheet / Q&A). Genebra: WHO, 2025.
YANG, S. et al. Effects of mini-basketball training program on social communication impairment and executive control network in preschool children with ASD. Brain Sciences, 2021.
YANG, Y. et al. Effects of mini-basketball training program on social communication impairments and regional homogeneity of brain functions in preschool children with ASD. NeuroImage: Clinical, 2024.
YANG, J. et al. Exercise intervention and stereotyped behaviors in ASD: meta-analysis of RCTs. Frontiers in Psychology, 2025.
ZHANG, W. et al. Alterations of triple network dynamic connectivity and repetitive behaviors after mini-basketball training program in children with ASD. Scientific Reports, 2025.
INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Graduação em Pedagogia e em Educação Física. ORCID: 0009-0005-5934-665X.
Contribuição dos autores:
Michele Fátima de Almeida Lafraia: Concepção do estudo, definição do tema e elaboração do referencial teórico. Também realizou a pesquisa bibliográfica, análise e síntese das evidências científicas, redação do manuscrito, organização metodológica, interpretação dos resultados e elaboração das conclusões e recomendações aplicadas à Educação Física escolar inclusiva. Além disso, participou da revisão final do texto e aprovou a versão submetida para publicação.
INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL
Conflito de interesse:
N/A.
Agradecimentos:
N/A.
Financiamento:
N/A.
Nota de presença de IA:
N/A.
Informações sobre Direitos Autorais e Licença:
Este é um artigo de Acesso Aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.
Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a terceiros.
- ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
- Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.
Histórico da Publicação:
Material recebido: 17 de março de 2026.
Material aprovado pelos pares: 14 de abril de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 18 de maio de 2026.

