Contribuições da BNCC para a Educação Infantil: perspectivas de ensino-aprendizagem na pré-escola

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ARTIGO ORIGINAL

SOUZA, Maria Betânia Dantas de [1]

SOUZA, Maria Betânia Dantas de. Contribuições da BNCC para a Educação Infantil: perspectivas de ensino-aprendizagem na pré-escola. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 10, Vol. 06, pp. 108-120. Outubro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/pedagogia/contribuicoes-da-bncc

RESUMO

Neste artigo, temos por objetivo compreender o sentido e a finalidade da BNCC para a Educação Infantil, especificamente para as turmas da pré-escola, bem como analisar as mudanças que ela propõe no processo de ensino e aprendizagem dessa modalidade de ensino. Para tanto, buscamos investigar as orientações da BNCC para a Educação Infantil, especificamente para as crianças da Pré-escola, observando o papel do professor no processo de ensino e aprendizagem nas turmas de crianças de quatro a cinco anos de idade. Trata-se de uma pesquisa de natureza documental de caráter qualitativo e indutivo. A análise dos documentos que utilizamos como fonte de pesquisa demonstrou que o processo de ensino-aprendizagem, para as crianças nessa faixa etária, deve ser planejado e organizado, o espaço deve ser ressignificado, visando um ambiente favorável para interação, no qual a criança seja capaz de brincar, conviver, correr, investigar, de modo que garantam os direitos de aprendizagem propostos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Os resultados nos proporcionaram um novo olhar para o planejamento das brincadeiras em sala de aula, haja vista que o professor, a partir do conhecimento da Base, terá um norte para planejar as suas aulas e aperfeiçoar a prática pedagógica.

 Palavras-Chave: Educação Infantil, BNCC, planejamento, aprendizagem.

1. INTRODUÇÃO

Com o avanço da sociedade contemporânea, as novas tecnologias e o desejo de inovar o ensino no Brasil, fora elaborado um documento com a finalidade de nortear o ensino no âmbito nacional, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Trata-se de um documento que deve nortear os currículos dos sistemas e redes de ensino das Unidades Federativas, como também as propostas pedagógicas das escolas públicas e privadas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, em todo o Brasil (LDB, Lei nº 9.394/1996). Desse modo, a presente pesquisa visa estudar as contribuições deste documento para a modalidade da Educação Infantil, especificamente no que se refere às crianças inseridas na pré-escola com idade escolar de 4 a 5 anos.

A pesquisa torna-se relevante por se tratar de uma revisão literária sobre a nova proposta curricular nacional para a educação básica. A BNCC é um documento recente, ainda em processo de implantação nas escolas, haja vista ter sido publicada a primeira versão e disponibilizada para consulta pública em setembro de 2015 pelo Ministério da Educação (MEC) com o apoio do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED) e a da União de Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME). A segunda versão da BNCC foi publicada em março de 2016, após seis meses de debates e reelaboração. E por fim, a terceira versão, publicada em abril de 2017 a qual baseou este trabalho.

Sendo assim, faz-se necessário um estudo voltado para essa temática, tendo em vista as contribuições para o processo de ensino e aprendizagem e as implicações para a garantia de uma educação de qualidade com ênfase nas orientações para a Educação Infantil, especialmente na pré-escola. Para orientar as concepções e práticas de ensino para esta modalidade, o Ministério da Educação (MEC), lançou a Resolução nº 5, de 17 de dezembro de 2009, que fixa as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e estabelecem os princípios éticos, políticos e estéticos que devem guiar as propostas pedagógicas desse ciclo. Essa proposta tem como objetivo garantir à criança acesso aos processos de apropriação, renovação e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, assim como o direito à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com seus pares.

Nessa direção, buscamos responder aos seguintes questionamentos: quais as orientações da BNCC para a Educação Infantil, especificamente para as crianças da Pré-escola? Qual o papel do professor no processo ensino-aprendizagem de crianças de 4 a 5 anos de idade?

Em busca de respostas para as questões de pesquisa, objetivamos compreender o sentido e a finalidade da BNCC para a Educação Infantil, especificamente para as turmas da pré-escola, bem como analisar as mudanças que ela propõe no processo de ensino e aprendizagem dessa modalidade de ensino.

A metodologia fundamenta-se em um estudo bibliográfico na perspectiva da pesquisa qualitativa em educação (ANDRE, 2013), que visa avaliar documentos oficiais, reportagens, cartas, contratos, diários, filmes, fotografias, gravações, entre outros. Em nosso trabalho, pretendemos analisar a proposta da BNCC, tendo em vista o ensino- aprendizagem da Pré-escola, bem como as novas perspectivas para o trabalho dos professores de crianças desta faixa etária.

O trabalho encontra-se estruturado da seguinte forma: O primeiro capítulo será destinado à introdução do trabalho, problemática, objetivos de pesquisa, justificativa e a metodologia da pesquisa. No segundo capítulo, trataremos de apresentar a fundamentação teórica que abordará algumas contribuições da BNCC para a Educação Infantil, à importância do planejamento do professor, o brincar e o conhecer-se como direitos de aprendizagem da criança da pré-escola. No terceiro e último capítulo, trataremos de apresentar os resultados da pesquisa e as considerações finais.

2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens que deve ser desenvolvidas pelos estudantes ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, visando os direitos de aprendizagem e desenvolvimento, conforme o Plano Nacional de Educação (PNE). Este documento normativo aplica-se exclusivamente à educação escolar, tal como define o Artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996), norteado pelos princípios éticos, políticos e estéticos que visam à formação humana integral e à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.

Trata-se de um documento, uma referência nacional para a formulação dos currículos das redes escolares federais, estaduais e municipais para as propostas pedagógicas do contexto escolar.  Integrada a política nacional da Educação Básica, a BNCC visa contribuir com a formação de professores, à avaliação, à elaboração de conteúdos educacionais e aos critérios para a oferta de infraestrutura adequada para o desenvolvimento da educação.  (BRASIL, 2017).

Atualmente, a sociedade vive em busca de inovação e inclusão no âmbito da educação brasileira, tendo em vista o que aprender e para que aprender, como ensinar e avaliar o processo educativo. Atualmente, o indivíduo deverá ser capaz de “reconhecer-se em seu contexto histórico e cultural, comunicar-se, ser criativo, analítico-crítico, participativo, aberto ao novo, colaborativo, resiliente, produtivo e responsável requer muito mais do que o acúmulo de informações” (BRASIL (2017, p.13). Ou seja, desenvolver as competências para aprender a aprender, saber lidar com a informação, saber lidar com as culturas digitais, resolver problemas, tomar decisões, identificar os dados de uma situação e buscar soluções, conviver com as diferenças e as diversidades.

Nesse sentido, a BNCC aponta o seu pacto com a educação integral, distingue a Educação Básica como formação e desenvolvimento humano pleno, privilegiando a dimensão intelectual (cognitiva)e a dimensão afetiva, propondo uma visão plural, integral do estudante como sujeito de aprendizagem. Desse modo, a escola é vista como espaço democrático de aprendizagem e inclusão que visa o respeito às diversidades. Além disso, determina os direitos de aprendizagens, visando uma mudança relevante no processo de ensino e aprendizagem, com a finalidade de contribuir para a formação integral do estudante e sua permanência no ambiente escolar, bem como formar cidadãos capazes de transformar-se e promover a sociedade.

Trata-se de um documento que orienta os conhecimentos e as habilidades essenciais para as crianças e jovens de todo o país. Sua finalidade é orientar a construção dos referenciais curriculares e dos projetos políticos pedagógicos das escolas, estabelecer as competências e habilidades desenvolvidas pelos alunos ano a ano. Desse modo, são muitas as dúvidas sobre esta política pública, é preciso saber mais sobre as mudanças que ela traz para a educação no país, tendo em vista a necessidade de compreender sua contribuição para o processo de ensino e aprendizagem na Educação Básica.

Do ponto de vista da aprendizagem, esta deve assegurar aos estudantes o desenvolvimento de dez competências gerais, isto é, dez pilares que irão nortear o trabalho das escolas e dos professores em todas as áreas do conhecimento. Nesse sentido, “competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho (BRASIL, 2017, p.8)” e perpassam as três etapas da Educação Básica: infantil, fundamental e médio.

A seguir, abordaremos as contribuições da BNCC para a Educação Infantil, uma vez que escolhemos esta etapa da Educação Básica para a realização da pesquisa.

2.1 DIREITOS DE APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

O Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8069 De 13 de Julho de 1990, Artigo 2, parágrafo único, diz que a criança, como todo ser humano, está inserida em uma sociedade, ela deve ter assegurado uma infância favorável no sentido de seu desenvolvimento, seja psicomotor, afetivo ou cognitivo.

As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (DCNEI, Resolução CNE/CEB nº 5/2009)29, Artigo 4º, definem a criança como um ser histórico e de direitos, que interage, brinca, imagina, e constrói em sociedade a sua própria cultura. Desse modo, o Artigo 9º aponta os eixos estruturantes das práticas pedagógicas dessa etapa da Educação Básica: as interações e as brincadeiras, que tratam de experiências por meio das quais as crianças podem construir e apropriar-se de conhecimentos através de suas ações e interações com outras crianças e adultos, permitindo aprendizagens, desenvolvimento e socialização.

Baseada nas leis anteriores, a BNCC propõe as interações e as brincadeiras, neles devem-se assegurar seis Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento na Educação Infantil, visando às condições para que as crianças aprendam a desempenhar um papel ativo para resolver problemas, além de construir significados consigo e com os outros. São eles: Conviver, Brincar, Participar, Explorar, Expressar e Conhecer-se. Todos esses direitos são fundamentais para o desenvolvimento da criança, neste artigo, daremos ênfase ao brincar.

2.1.1 A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR EM SALA DE AULA DA PRÉ-ESCOLA

Ainda que brincar seja considerado um direito de toda criança, muitos pais reclamam que as crianças da pré-escola só vão para a escola brincar e não aprendem a ler e a escrever, que os professores não ensinam conteúdos e brincam o tempo todo. Essas e outras questões, geralmente são discutidas em reuniões de pais e mestres das crianças de 4 a 5 anos.  Muitas vezes nos deparamos com situações nas quais os professores realizam as brincadeiras sem planejamento e isso pode gerar momentos aleatórios sem foco e sem objetivo de aprendizagem.

Segundo a BNCC, o brincar deve acontecer “de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), de forma a ampliar e diversificar suas possibilidades de acesso a produções culturais.” As brincadeiras devem ser estimuladas, visando ao desenvolvimento das crianças, o imaginário, criativo, emocional, corporais, sensoriais, expressivos, cognitivos, sociais e relacionais.  Do ponto de vista de Oliveira (2012, p. 202), “brincar é algo que se aprende em sociedade, o contato com a cultura, por meio do professor e dos recursos que ela apresenta, faz avançar significativamente a qualidade da brincadeira”. Desse modo, o jogo desenvolve na criança a capacidade de entender as regras, segundo a autora, ao jogar, as crianças imitam comportamentos que observaram em situações de convívio, mas o fazem à sua maneira, empregando seu modo particular.   Do ponto de vista de Vygotsky (2008, p.35):

(…) a brincadeira cria uma zona de desenvolvimento iminente na criança. Na brincadeira, a criança está sempre acima da média da sua idade, acima de seu comportamento cotidiano; na brincadeira, é como se a criança estivesse numa altura equivalente a uma cabeça acima da sua própria altura. A brincadeira em forma condensada contém em si, como na mágica de uma lente de aumento, todas as tendências do desenvolvimento; ela parece tentar dar um salto acima do seu comportamento comum.

Com tudo isso, parece que a escola ainda não compreendeu o valor da brincadeira, isto é, não está considerando o sentido do brincar e a sua importância para o desenvolvimento da criança. Por isso, a importância do planejamento para esse momento. A brincadeira em sala de aula não deve ser realizada apenas para o divertimento das crianças, mas para a construção do conhecimento através do lúdico. Nesse sentido, a brincadeira torna-se essencial para a liberdade de escolha, permite que a criança seja capaz de negociar e tomar decisões, além de interagir umas com as outras.

Desse modo, ao interagir com as outras, as crianças são capazes de criar e recriar por meio da imaginação, uma vez que “toda essa trajetória da criatividade no faz de conta é fruto de um processo de construção da própria brincadeira, oferecendo oportunidade para a ocorrência de importantes aprendizagens sobre as regras do jogo […]” que ajudam a enfrentar situações de conflito. (OLIVEIRA, 2012, p. 205).

Winnicott (1975. p. 63) afirma que “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o seu eu (self)”, ou seja, a brincadeira possibilita que o indivíduo descubra e conheça a se próprio, através da sua criatividade e imaginação.

2.2 NA PRÁTICA DO PROFESSOR O QUE MUDOU?

As práticas pedagógicas da Educação Infantil se baseiam em princípios e critérios norteados pelo atendimento às Diretrizes Nacionais Curriculares para a Educação Infantil, bem como o Projeto Político Pedagógico de cada instituição. Muitos professores desconhecem esses documentos e planejam de forma aleatória. Essa prática tem sido alvo de discussões por pesquisadores da área, bem como em encontros de profissionais da educação. Segundo Oliveira (2012, p.44) “muitas vezes, os professores tomam decisões isoladamente, agindo intuitivamente, ou conforme o costume sem pensar que existem princípios e bons critérios para apoiar essa tarefa”. Isto significativa dizer que para planejar o trabalho na educação infantil é importante conhecer a proposta para a Educação Infantil, tendo em vista as crianças, o grupo em que vive e seus interesses.

A Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Infantil apresenta dois eixos norteadores para o planejamento do currículo da pré-escola: a interação e a brincadeira. Baseado nessa lei, a BNCC não descarta esses dois eixos, mas, reforça a visão da criança como protagonista da aprendizagem por meio dos campos de experiências, partindo do pressuposto de que ela aprende por meio do conhecimento no ambiente escolar.  Nesse sentido, o professor tem um papel fundamental na organização dessa interação. Segundo Oliveira (2012, p.58), “o professor tem um papel fundamental na investigação dos processos de significação das crianças tanto quanto na escolha de atividades promotoras de desenvolvimento”, tornando-se responsável pela criação de contextos que intercedem entre a criança e a sua cultura. Portanto, cabe ao professor planejar ações para a construção dessa interação através das brincadeiras que deverão ser orientadas intencionalmente. Ainda segundo a autora,

É o professor quem planeja as melhores atividades, aproveita as diversas situações do cotidiano e potencializa as interações. Tudo para apresentar às crianças o mundo em complexidade: a natureza, a sociedade, as artes, os sons, os jogos, as brincadeiras, enfim, os conhecimentos construídos ao longo da história possibilitando a construção de sua identidade, individualidade e autonomia dentro de um grupo social. (OLIVEIRA, 2012, p.58).

Desse modo, o apoio do professor é essencial para a construção do conhecimento, além da organização de um espaço escolar que favoreça a aprendizagem das crianças. Assim, a organização desse espaço não é tarefa apenas do professor, mas da equipe escolar como um todo; gestor, coordenador pedagógico, entre outros que possam colaborar para o aperfeiçoamento da prática e o desenvolvimento intelectual da criança.

Nessa perspectiva, segundo o Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil (BRASIL, 1998, p. 30).

O professor é mediador entre as crianças e os objetos de conhecimento, organizando e propiciando espaços e situações de aprendizagens que articulem os recursos e capacidades afetivas, emocionais, sociais e cognitivas de cada criança aos seus conhecimentos prévios e aos conteúdos referentes aos diferentes campos de conhecimento humano. Na instituição de educação infantil o professor constitui-se, portanto, no parceiro mais experiente, por excelência, cuja função é propiciar e garantir um ambiente rico, prazeroso, saudável e não discriminatório de experiências educativas e sociais variadas.

A afetividade, neste contexto, é fundamental para que haja uma aprendizagem significativa, cabe ao professor construir essa relação afetuosa entre ele e as crianças, pois o afeto e a cumplicidade, a forma como utiliza sua metodologia para desenvolver aulas dinâmicas sem repetições, ele consegue resultados satisfatórios e ajuda a enriquecer a aprendizagem e favorece a parceria professor-aluno.

2.2.1 POR QUE PLANEJAR AS AULAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL?

O planejamento é de grande importância para a organização do trabalho escolar, sem ele as aulas podem se tornar monótonas e desorganizadas. Sendo assim, deve ser uma tarefa primordial na vida do professor de toda e qualquer modalidade de ensino.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, garante aos profissionais um tempo reservado para o planejamento da rotina escolar. Em diversos encontros de formação de professores são notórias as dificuldades para a construção do planejamento, uma vez que existe, em alguns casos, uma resistência por parte dos professores que insiste em não planejar o cotidiano das aulas, muitas vezes por desinteresse ou falta de tempo. De acordo com (LIBÂNEO, 1994, p. 221), “o planejamento escolar é uma tarefa docente que inclui tanto a previsão das atividades didáticas em termos de organização e coordenação em face dos objetivos propostos, quanto a sua revisão e adequação no decorrer do processo de ensino”. Portanto, o planejamento de aula é fundamental para o professor organizar sua metodologia conforme o objetivo a ser alcançado, adequado para as diferentes turmas, havendo flexibilidade caso necessite de alterações.

Em todas as etapas da educação, ao longo dos anos, surgem muitos questionamentos sobre o planejamento pedagógico: por que planejar? Para que planejar? Como deve ser feito esse planejamento? Qual a nova proposta de planejamento segundo a BNCC?  São perguntas que diversos professores, por mais prática que tenha em sala de aula, por mais formação que tenha participado, insiste em lançar.  Procuramos aqui responder alguns deles, haja vista que não se trata de respostas prontas e acabadas por ser um processo de construção em busca dos objetivos almejados.

Do ponto de vista de Celso Vasconcelos (2000), o planejamento escolar deve ser estruturado e articulado através de três níveis: o planejamento da escola, o plano de ensino ou plano curricular e o plano de aula. O planejamento da escola é o plano integral da instituição composto pelos referenciais que direcionam os objetivos e metas as dimensões da gestão escolar, pedagógica, administrativa, recursos humanos, recursos financeiros e resultados educacionais. O plano curricular ou de ensino constitui-se no referencial para cada disciplina. Nele devem constar as expectativas de aprendizagem, os conteúdos previstos e as propostas de avaliação para cada ano/série. O plano de aula se constitui na organização didática do processo de ensino destinado a cada turma, levando em consideração os conhecimentos prévios dos alunos de modo a atingir os objetivos de cada turma em separado.

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Infantil (DCNEI), toda proposta pedagógica deve se guiar pelos princípios éticos, políticos e estéticos que se tornam concretos na vida da criança. Nesse sentido, quanto mais o docente conhecer o conceito de planejamento e o ato de planejar propriamente dito, mais liberdade e autonomia terão para aplicação do processo de ensino e aprendizagem.

Nesse sentido, a BNCC estabelece seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças de 0 a 6 anos incompletos, por meio das vivências dos campos de experiências: o eu, o outro e o nós;  corpo, gestos e movimentos ; traços, sons, cores e formas; escuta, fala, pensamento e imaginação; espaço, tempo, quantidades, relações e transformações, os quais indicam as experiências fundamentais para que a criança aprenda e se desenvolva.  Para tanto, cabe ao professor planejar as aulas de acordo com o objetivo definido, tendo em vista os campos de experiências que tem como finalidade orientar a prática do professor com relação às vivências e necessidades das crianças, além de conduzi-las a interagir consigo e com o outro.

2.2.2 A IMPORTÂNCIA DE PLANEJAR AS BRINCADEIRAS

Segundo a BNCC, a Educação Infantil deve contemplar dois eixos estruturantes: interações e brincadeiras, haja vista que a criança se desenvolve, interagindo com o meio e com os outros que constroem o conhecimento.

Com tudo isso, parece que a escola ainda não compreendeu o valor da brincadeira, isto é, não estão levando a sério o sentido do brincar e a sua importância para o desenvolvimento da criança. Por isso, a importância do planejamento para esse momento. A brincadeira em sala de aula não deve ser realizada apenas para o divertimento das crianças, mas para a construção do conhecimento através do lúdico.

Segundo Fortuna (2013, 2018), os educadores precisam compreender que brincar é uma atividade fundamental no ser humano, porque funda o humano em nós. Aquilo que define o ser humano – inteligência, criatividade, simbolismo, emoção e imaginação, para listar apenas alguns de seus atributos – constitui-se pelo jogo e pelo jogo se expressa. Nesse sentido, o jogo desenvolve o cognitivo da criança, uma vez que é uma brincadeira que requer atenção. Através do jogo as crianças vão construindo novas ações e o sistema de regras, que definem a perda ou o ganho. Nem todos os jogos e brincadeiras são sinônimos de divertimento, pois, quando a criança perde o jogo pode ocasionar sentimento de frustração, insegurança, rebeldia e angústia. Assim, os jogos e brincadeiras podem ajudar no processo de construção do conhecimento, quando incluem atividades que favoreçam a troca de sugestões e opiniões das questões e criam situações para o desenvolvimento da autonomia.

Essas atividades devem ser planejadas de acordo com as competências e habilidades das crianças, adaptando a faixa etária de cada uma delas.  Portanto, é fundamental que o docente conheça os Objetos de Aprendizagem e Desenvolvimento da faixa etária com a qual trabalha. É a partir do que a criança aprendeu no seu convívio social e familiar que deve surgir o objetivo da aula, é conhecendo o seu aluno que o professor poderá se apropriar do seu conhecimento para repassar em sala de aula. Para o entendimento das brincadeiras em sala de aula, vale ressaltar a importância do ato de brincar para o desenvolvimento integral do ser humano nos aspectos físico, social, cultural, afetivo, emocional e cognitivo. Para tanto, é preciso que haja conscientização sobre o lúdico para a vivência na infância, divulgar que o brincar faz parte de uma aprendizagem prazerosa não sendo somente desocupação, mas, uma ação que favorece aprendizagem. Portanto, essa conscientização deve ser realizada com os pais, os educadores e a sociedade de modo geral, através de reuniões, formação continuada, palestras, entre outras formas de divulgação.

Neste contexto, o brincar na educação infantil proporciona a criança estabelecer regras através dos jogos e colabora na relação em sociedade. Deste modo, é possível que a criança aprenda a resolver conflitos e, ao mesmo tempo, desenvolva a capacidade de compreender pontos de vista distintos, de perceber e de demonstrar sua opinião em relação aos outros. É importante entender e incentivar a competência criativa das crianças, pois esta se estabelece nas formas de relacionamentos e recriação do mundo, do ponto de vista lógico infantil.

Por isso, é importante que essas aulas sejam planejadas, organizadas com objetivos definidos, com estratégias que levem a criança a criar e recriar, descobrir caminhos para uma aprendizagem prazerosa. À medida que o professor tenha um norte para conduzir a aula, mesmo que seja um planejamento flexível, a criança vai desenvolver sua capacidade de refletir sobre o que aprendeu brincando, vai construindo noções de aprendizagens e soluções de problemas que enfrentará no dia a dia.

De acordo com o Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil (BRASIL, 1998, p. 27),

O principal indicador da brincadeira, entre as crianças, é o papel que assumem enquanto brincam. Ao adotar outros papéis na brincadeira, as crianças agem frente à realidade de maneira não-literal, transferindo e substituindo suas ações cotidianas pelas ações e características do papel assumido, utilizando-se de objetos substitutos.

Por isso, a importância de orientar as crianças na hora da brincadeira, os tipos de brinquedos utilizados, bem como o sentido que cada um representa de acordo como objetivo da aula. Do ponto de vista de Vygotsky (1998, p. 137),

A essência do brinquedo é a criação de uma nova relação entre o campo do significado e o campo da percepção visual, ou seja, entre situações no pensamento e situações reais”. Essas relações irão permear toda a atividade lúdica da criança, serão também importantes indicadores do desenvolvimento da mesma, influenciando sua forma de encarar o mundo e suas ações futuras.

Ademais, a brincadeira do faz-de-conta é de extrema importância para o desenvolvimento da capacidade da criança de recriar e inventar no momento em que brincam de casinha, de escolinha vai surgindo ideias na mente da criança e elas são capazes de entender as ações que podem ocorrer futuramente. Assim, é possível entender que o brincar auxilia a criança no processo de aprendizagem. Através dele a imaginação flui e ele vai proporcionar situações imaginárias no desenvolvimento cognitivo e provoca a interação com outros indivíduos, os quais contribuirão para a construção do conhecimento.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento do presente estudo possibilitou uma análise bibliográfica sobre as leis que regem a Educação Infantil no Brasil, visando entender como se dá o processo ensino-aprendizagem em sala de aula da pré-escola, tendo em vista as contribuições da BNCC para essa modalidade ensino, além de entender o papel do professor com relação às mudanças que apontam o aluno como protagonista do conhecimento.

A análise dos documentos e livros que utilizamos como fonte de pesquisa, mostrou que o ensino infantil deve ser planejado, organizado de acordo com as necessidades das crianças.  O espaço deve ser ressignificado, visando um ambiente favorável para que a criança possa interagir, brincar, conviver, correr, investigar, entre outras situações que favoreçam uma aprendizagem significativa.

A pesquisa nos proporcionou um novo olhar em relação ao brincar, uma vez que a brincadeira em sala de aula, na maioria das vezes, não era vista de forma planejada e elaborada.  Porém, com a nova proposta da Base, o professor terá um norte para desenvolver o seu currículo e aperfeiçoar a sua prática pedagógica, tendo em vista as competências e habilidades que deseja que o estudante alcance. Cremos que é possível aprender brincando, desde que a aula seja planejada com objetivos definidos pelo professor, o qual terá o papel de mediador do conhecimento.

REFERÊNCIAS

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BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.

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VASCONCELLOS, Celso dos S. Planejamento: Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político-Pedagógico. 7º Ed. São Paulo. 2000.

VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

WINNICOTT, D. W. (1975). O brincar e a realidade (J. O. A. Abreu, Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Publicado originalmente em 1971).

[1] Graduada em letras; Pedagoga; Mestra em Estudos da Linguagem.

Enviado: Agosto, 2020.

Aprovado: Outubro, 2020.

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