Estágio de regência no ensino médio com turmas da EJA: reflexões da prática docente e uso do lúdico nas aulas de biologia.

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RODRIGUES, Luzia dos Santos [1]

RODRIGUES, Luzia dos Santos. Estágio de regência no ensino médio com turmas da EJA: reflexões da prática docente e uso do lúdico nas aulas de biologia. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 08, Vol. 03, pp.116-123, Agosto de 2018. ISSN:2448-0959

 RESUMO

A presente pesquisa foi desenvolvida durante o estágio de regência do ensino médio, com duas turmas da 3ª série EJA (Educação de Jovens e Adultos), na Escola Estadual Pe. José Monticone, Município de Mucajaí-RR, no período de 14/09/2016 a 02/12/2016, onde ficou constatado  que o exercício da prática proporciona ao acadêmico, enquanto futuro professor, o conhecimento da realidade dentro das escolas, a medida que se aprende a conhecer o perfil de seus alunos e que estratégias devem ser tomadas na aprendizagem dos mesmos. A pesquisa mostrou ainda que, o uso do lúdico nas aulas de biologia é de suma importância para a aprendizagem do conteúdo de evolução, pois desperta nos alunos o interesse pelas aulas, fazendo com que as mesmas sejam motivadoras e instigantes.

PALAVRAS CHAVE: estágio supervisionado, regência, ensino médio, lúdico

 INTRODUÇÃO

O estágio supervisionado é o momento em que há o contato dos acadêmicos que cursam licenciaturas, com a experiência concreta da prática e a aplicação das teorias que foram estudadas por eles, de maneira que os levem a refletir sobre o papel do professor na contribuição da sociedade e na transformação da cidadania de seus alunos (SCALABRIN e MOLINARI, 2014).

Através do estágio, o futuro professor aprende a conhecer como funciona a rotina de uma escola e toma conhecimento do que é exercer a profissão de professor, pois no estágio o acadêmico tem contato com a sala de aula, com alunos e suas habilidades, além do que, o estagiário acadêmico vivencia o que o professor passa em seu cotidiano enquanto profissional da educação (SCALABRIN e MOLINARI, 2014).

Existem vários tipos de estágios, que propicia o contato dos estagiários com a prática de sua futura profissão, dentre os quais há o estágio curricular obrigatório, que consta na matriz curricular do curso, onde o exercício da prática é de acordo com o curso, geralmente são executados em instituições públicas, privadas, não governamentais ou em programas permanentes de extensão da universidade (SCALABRIN e MOLINARI, 2014).

O estágio curricular obrigatório, por exemplo, são as atividades curriculares que o aluno precisa desenvolver de acordo com o curso de sua formação e visa o desenvolvimento do campo profissional do acadêmico, já as monitorias é a inserção de acadêmicos de graduação em atividades desempenhadas por universitários em certas áreas de conhecimento (SCALABRIN e MOLINARI, 2014).

O presente trabalho objetivou refletir sobre as experiências acadêmicas vivenciadas durante o estágio e ainda, verificar a eficiência do lúdico para aulas de biologia em turmas da 3ª série EJA (Educação de Jovens e Adultos). A pesquisa foi realizada durante o estágio de regência no ensino médio, no período de 14/09/2016 a 02/12/2016 na escola da rede pública de ensino, Padre José Monticone, Município de Mucajaí-RR.

 DESENVOLVIMENTO

 Prática x planejamento

Durante o planejamento das aulas por vários momentos surgiram perguntas, dentre as quais, “como aplicar conteúdos relacionados à evolução de maneira que não afugente os alunos?” “Como despertar o interesse dos alunos pelas aulas de biologia?” “Como fazer com que os alunos participem e compreendam a importância do conteúdo de evolução no contexto evolutivo das espécies?”

Essas dúvidas e incertezas que surgiram no momento do planejamento, são características resultantes do ato de planejar, pois essas reflexões só são possíveis a partir do momento que o professor senta e para pra pensar nas maneiras de como o conteúdo pode ser assimilado pelo aluno, se o método usado vai atingir a todos, o que é mais relevante o aluno saber e quais informações ele pode receber dentro da sala de aula, que será útil no processo de construção de sua identidade social.

Depois de feitas as reflexões, o professor se sente com a responsabilidade de ensinar os conteúdos de maneira que o aluno compreenda o que está sendo abordado nas aulas, para que ele consiga entender a relação do que foi ensinado com as realidades do contexto social em ambas as épocas, conforme propõem Castro et al. (2008) quando dizem:

[…] o professor deve ensinar os conteúdos e também formar o aluno para que ele se torne atualmente na sociedade, ele deve organizar seu plano de aula de modo que o aluno possa perceber a importância do que está sendo ensinado, seja num contexto histórico, para o seu dia-dia ou para seu futuro (CASTRO et al. 2008, p.58).

O momento do planejamento é de extrema importância para o professor, pois através dele o docente traça seus objetivos, busca maneiras de como ministrar suas aulas e se com elas o conteúdo será absorvido pelos alunos. Quando o professor planeja suas aulas, ele passa a ter o controle das execuções das atividades, à medida que, há uma preparação maior em relação ao conteúdo que será aplicado, pois a consulta em livros, internet, faz com que ele adquira mais informações, evitando assim ministrar aulas sob improvisos.

Corroborando com o pensamento acima, os autores Santos et al. (2013) fazem a seguinte reflexo:

[…] faz necessário por parte dos educadores uma visão ampla sobre a importância de planejar sua prática, visto que, o processo não deve ser pautado apenas no sentido de atender as necessidades da sala de aula, e sim é preciso que os docentes estejam conscientes da amplitude de sua ação observando o planejamento a partir da organização e estruturação da escola e da comunidade a qual esteja inserido (SANTOS et al. 2013, p.4).

Até mesmo os docentes que se julgam experientes, precisam fazer o planejamento de suas aulas, pois o fato de serem experientes não quer dizer que o conteúdo vai ser repassado aos alunos com qualidade, pois é certo que esta “autoconfiança” acaba algumas vezes transformando as aulas em momentos de improvisos

Planejar aulas requer tempo, dedicação, busca por algo que venha ser o diferencial durante a aplicação das aulas. Por outro lado, o professor na hora de planejar precisa refletir a cerca de alguns aspectos que devem nortear seu planejamento. Os autores Santos et al. (2013) em relação a estes aspectos que devem ser considerados pelos professores, propõem o seguinte:

A forma de se planejar não deve ser repetitiva, pelo contrário, na realização do planejamento devem ser considerados diversos aspectos: alunos como indivíduos com características próprias, levar em consideração as concepções dos alunos e procurar entender os interesses da turma (SANTOS et al. 2013, p.4).

O professor tem que definir os objetivos que deseja alcançar ao planejar suas aulas, a partir do momento que ele substitui o planejamento, por atividades feitas no improviso, ele está comprometendo a aprendizagem de seus alunos e permitindo que estes tornam-se alunos incapazes de auto construir um pensamento crítico e satisfatório dentro da sociedade.

 Lúdico na Educação de Jovens e   Adultos – EJA

 O lúdico é uma metodologia que pode ser trabalhada em todas as etapas da educação básica, desde que se tenham objetivos pedagógicos. Para Cordovil et al. (2015), o lúdico pode ser brincadeiras, jogos didáticos, musicais, filmes, entre outras práticas que instigam a aprendizagem. Os autores dizem ainda que é uma estratégia interessante que auxilia o trabalho do professor, de maneira que os discentes aprendem o conteúdo que está sendo aplicado.

O lúdico ainda pode ser visto como uma “consequência” motivacional, pois à medida que se desperta esse sentimento nos alunos, eles começam a participar das aulas, interagindo e fazendo com que aprendizagem aconteça. É uma ferramenta que pode ser aplicada em todas as etapas da educação básica e não deve excluir sua utilização em turmas da EJA (HEBERLE, 2011).

Nas aulas de biologia optou-se por trabalhar com os jogos didáticos. Se tratando do uso de jogos, Cordeiro e Barcellos (2015), dizem que são instrumentos que facilitam a aprendizagem dos alunos, à medida que desenvolve habilidades cognitivas, sociais, afetivas e emocionais.

A opção pela inclusão dos jogos didáticos deu-se pela descontração que a utilização desta ferramenta proporciona à medida, além disso, facilita a compreensão do conteúdo. As turmas eram formadas por alunos que trabalhavam durante o dia e alguns moravam em sítios distantes da cidade, à noite estavam cansados e o uso dos jogos foi um recurso planejado para “vencer” o cansaço deles, ou seja, fazer as aulas ficarem descontraídas.

Se tratando do perfil dos alunos desta modalidade, Silva et al. (2015) confirmam o que foi dito acima, quando dizem que geralmente estes já chegam a escola cansados e desmotivados pelo fato de trabalharem durante o dia.

Os jogos didáticos na modalidade educacional EJA, fazem com que os alunos aprendam de forma descontraída e o principal objetivo que é a aprendizagem destes alunos acontece. Assim, Cordeiro e Barcellos (2015) em relação a esta reflexão dizem o seguinte:

Em qualquer modalidade educacional e, não diferente da EJA, os jogos são capazes de proporcionar momentos de descontração, sem deixar com que o objetivo maior, que é a aprendizagem, se perca (CORDEIRO e BARCELLOS, 2015, p. 2).

É interessante que o professor da EJA utilize esta prática em seu planejamento. O lúdico pode ser usado tanto em crianças como em adultos. Se tratando do ensino da EJA, este se torna primordial para que as aulas sejam motivadoras e não tenha tantos alunos faltosos e desistentes. Em qualquer disciplina o lúdico pode ser trabalhado, para tanto, é preciso que o professor faça sua inclusão ao método tradicional.

 Lúdico para o ensino de biologia: trabalhando com jogos pedagógicos os conteúdos de evolução em turmas do EJA.

Os jogos foram aplicados em duas turmas da 3ª série da EJA, “301 e 302”, com perfis totalmente diferentes: na turma 301 quase todos os alunos eram desinteressados, iam embora mais cedo, não entregavam os trabalhos, ou seja, uma turma completamente desmotivada.

A turma 302 era o oposto da turma 301, os alunos frequentavam as aulas assiduamente, os trabalhos sempre entregavam na data prevista, porém, não eram participativos, era uma turma esforçada. E essas diferenças foram superadas com uso do lúdico acoplado ao método tradicional.

A primeira aula como estagiária nas turmas escolhidas foi sobre fósseis. O conteúdo foi planejado de acordo com o livro seguido pelo professor titular da sala, porém, com um aprofundamento maior na temática, pois esse conteúdo aparece nos livros didáticos como “material introdutório” e o aluno acaba não tendo conhecimento de conceitos importantes quanto esta temática.

No que se refere à maneira de como os livros didáticos abordam as temáticas de paleontologia e evolução, Alencar e William (2012, p. 1) dizem que “[…] os livros didáticos trazem uma abordagem simplificada do que será estudado […]”. Os autores citam como exemplo, o conteúdo de fósseis, trabalhado no 7º ano do ensino fundamental, que se resume em “introdução aos fósseis”. Com os livros da 3ª série do ensino médio, também não é diferente, as informações referentes aos fósseis são trazidas para o aluno de forma simplificada.

A construção do jogo didático intitulado “aprendendo sobre os fósseis” foi criado e proposto pela pesquisadora com o objetivo de levar aos alunos um conhecimento amplo, algo além do que trazia o livro didático que estava sendo usado pelo professor.

Durante a aplicação do jogo, percebeu-se que ele despertou muitas curiosidades nos alunos das duas turmas, embora quase todos fossem adultos, o jogo propiciou momentos de descontração, tendo em vista que os alunos foram se sentindo mais soltos. O conteúdo foi bem compreendido pelos alunos das duas turmas.

Através do jogo, os alunos conseguiram estimular diferenças entre os tipos de fósseis, bem como as maneiras de preservação destes. Ao fim da aula, notou-se que, nas duas turmas, os alunos estavam “olhando” a disciplina de biologia com outros olhos. Houve uma aprovação em massa pela metodologia adotada pela pesquisadora.

O ensino de fato foi transmitido e recebido de forma lúdica, a metodologia estimulou-os a competir entre si de forma saudável, além de despertar o trabalho em grupo. Dessa forma, Alencar e William (2012) dizem o seguinte:

Ensinar através de atividades lúdicas é uma metodologia que estimula os alunos em busca do saber, principalmente quando envolve disputa entre eles, de forma saudável, despertando o interesse em sanar as suas dúvidas e as dos colegas (ALENCAR e WILLIAM, 2012, p. 3).

O segundo jogo aplicado foi “as cartas das teorias evolutivas”, com ele a pesquisadora buscou despertar nos alunos a importância das teorias evolutivas no processo de evolução dos seres vivos. Esse tema geralmente é confrontante porque afronta principalmente a religião, no entanto, é indispensável para a disciplina de biologia.

Cabe ao professor direcionar a discussão a cerca do tema, com o propósito voltado para a aprendizagem dos alunos. Durante a aplicação do jogo, por vários momentos os alunos tentaram mudar a direção da discussão, querendo levar para o lado religioso, entretanto, a pesquisadora disse aos mesmos que o objetivo da aula não era afrontar de nenhum dos presentes na aula, e sim, que eles buscassem entender de forma saudável, que as teorias buscam explicar o surgimento de vida no planeta e consequentemente como essas espécies evoluíram ao longo do tempo. Além disso, é um conteúdo que eles precisam ter conhecimento e capacidade de separar sua fé da ciência, porque é comum em provas do ENEM e vestibulares.

Esse ponto de vista foi também diagnosticado por Alencar e William (2012). Os autores dizem que o professor precisa estar preparado para trabalhar essa temática com seus alunos de maneira que não gere conflitos, tendo em vista que é um assunto delicado, por que se choca com diversas religiões, culturas e crenças.

O jogo foi bem aceito pelos alunos das duas turmas, e apontou que evolução é um assunto com o qual o aluno do ensino médio não estar acostumado. Nas duas turmas houve confusões no que tange as teorias evolutivas, principalmente no Lamarckismo e no Darwinismo.

Entretanto, ficou evidente para a pesquisadora que essa dificuldade das turmas em diferenciar uma teoria evolutiva da outra, só foi possível com a aplicação do jogo, uma vez que as metodologias servem também para apontar falhas do professor e identificar e sanar possíveis dificuldades dos alunos.

Fazendo uma reflexão das aulas nas duas turmas, percebeu-se que o número de ausentes nas aulas de biologia diminuiu, os alunos tornaram-se mais participativos, principalmente os da turma 301. As aulas passaram a ser mais discutidas com a introdução dos jogos didáticos, ficando evidente que é primordial o professor da EJA trabalhar com a ludicidade para que seus alunos se sintam motivados e consequentemente instigados a aprender.

 Conclusão

Se tratando da metodologia adotada pelo professor titular da sala, percebeu-se que ela não atraía os alunos. A turma 301 era bem ausente, enquanto a 302 não era muito de participar das aulas. Ficou evidente que somente o método tradicional de ensino não causa motivação nos alunos, uma vez que no primeiro dia na regência fiz uso deste e a sensação que tive foi que estava falando para as “paredes”.

Entende-se também que, com tantos problemas pelos quais a escola estava passando, como tempos reduzidos pela falta de merenda, constantes falta de energia, problemas emergentes pelos quais passam muitas escolas brasileiras, fica complicado o professor aplicar algum método diferencial.

É complicado, mais não impossível, ocorre também, que o diferencial dá mais “trabalhado” para o professor, porque requer pesquisa, tempo para elaboração e muitas vezes o “nosso professor brasileiro” não tem essa disponibilidade a seu favor, visto que muitos trabalham em dois empregos, por exemplo, para uma melhoria de vida.

Quanto ao uso do lúdico em turmas da EJA, verificou-se que este é um método muito eficiente nas aulas de biologia, tendo em vista, que faz despertar a motivação nos alunos, consequentemente contribui de maneira positiva no processo de ensino aprendizagem dos mesmos. O uso de jogos didáticos contribuiu para o conteúdo de evolução na compreensão e entendimento dos assuntos que foram estudados na teoria, levando-os a refletir sobre a importância deste assunto no contexto evolutivo das espécies.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALENCAR, Emile Ormundo Cedraz; WILLIAM, Robert. A Importância do Ensino de Paleontologia e Evolução. Bahia, 2012.

CALDEIRO, Cleber Alves da Silva et al. A Experiência da Docência numa Turma da EJA no Município de Cascavel. Cascavel, 2010.

CASTRO, Patrícia Aparecida Pereira Penkal et al. A Importância do Planejamento das Aulas para Organização do Trabalho do Professor em sua prática docente. PR, 2008.

CORDEIRO, Karolyna Maciel dos Santos; BARCELLOS, Warllon de Souza. O Uso dos Jogos Pedagógicos na Educação de Jovens e Adultos. RJ, 2015.

CORDOVIL, Ronara Viana et al. Lúdico: entre o conceito e a realidade educativa. AM, 2015.

HEBERLE, Karina. Importância e Utilização das Atividades Lúdicas na Educação de Jovens e Adultos. 2011, f. Monografia (Especialização em Educação Profissional Integrada a Educação Básica na Modalidade EJA) Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 44p.

SANTOS, Hélio Magno Nascimento et al. A Importância do Planejamento no Processo de Ensino de Ciências Naturais na Visão de Professores de Escolas Públicas de Sergipe. Sergipe, 2013.

SILVA, Giselly de Oliveira et al. Jogos Didáticos e sua Importância como Recurso Didático para o Ensino de Matemática na Educação de Jovens e Adultos. Pernambuco, 2015.

SCALABRIN, Izabel Cristina; MOLINARI, Adriana Maria Corder. A Importância da Prática do Estagio Supervisionado nas Licenciaturas. Araras, 2014

[1]Graduada no curso de Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Roraima – UERR e Graduanda em Pedagogia pela Faculdade de Educação, Ciências e Teologia do Norte – FACETEN

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