Cirurgia Parendodôntica com Enxerto de Biomaterial e utilização do Sistema Fibrina Rica em Plaquetas (PRF): Relato de caso

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/odontologia/cirurgia-parendodontica
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RELATO DE CASO

ALVES, Larissa de Jesus [1], WILLIAMS, Heloise Adele Costa [2], CORDEIRO, Naildo Aguiar [3], PEREIRA, Everaldo de Aquino [4]

ALVES, Larissa de Jesus. Et al. Cirurgia Parendodôntica com Enxerto de Biomaterial e utilização do Sistema Fibrina Rica em Plaquetas (PRF): Relato de caso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 04, Vol. 06, pp. 41-60. Abril de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/odontologia/cirurgia-parendodontica

RESUMO

Quando um paciente se submete a tratamentos odontológicos que não resultam em efeitos positivos e por consequência destes fatos passa a correr o risco de perder os dentes além de ser acometido de outros transtornos, pode-se apresentar a este paciente a possibilidade de se submeter ao procedimento de cirurgia parendodôntica. A endodontia visa evitar prejuízos para a saúde do paciente vítima de procedimentos odontológicos, muitas vezes causados pela inabilidade do profissional, uso de instrumentos inadequados ao procedimento, entre outros. Este procedimento amplia o contato com a anatomia interna do canal, por isso, um procedimento muito utilizado quando o profissional se depara com tratamentos mais convencionais que tiveram insucesso como resultado. Objetivou-se neste artigo, apresentar um relato de caso clínico de cirurgia parendodôntica utilizando enxerto de biomaterial e sistema PRF, descrevendo todo o procedimento utilizado desde a consulta até a recuperação do pós-operatório do paciente em questão, buscando assim, comprovar a eficácia deste procedimento. Trata-se de um paciente de 20 anos, sexo feminino, apresentando extensa lesão periapical, e instrumento fraturado no interior do canal, observado e constatado através de exame radiográfico. Neste caso, realizou-se o procedimento sob anestesia infiltrativa local sem submeter o paciente a qualquer situação dolorosa. Após todo o procedimento, concluiu-se o estudo e constatou-se a eficácia da técnica cirúrgica parendodôntica associada ao uso de membrana de plasma rico em fibrina e enxerto ósseo de material Bio-Oss®, evidenciando-se o sucesso do tratamento, impedindo a perda precoce ou prescindível do elemento dentário.

Palavras–chave: Procedimentos, odontologia, cirurgia, endodontia.

1. INTRODUÇÃO

A escolha do tema Cirurgia Paredodôntica com Enxerto de Biomaterial e utilização do Sistema Fibrina Rica em Plaquetas (PRF), se deve ao fato de que, a endodontia é área que estuda a polpa dentária, sistema de canais radiculares e tecidos periapicais e também, que o tratamento endodôntico convencional tem sido uma opção pertinente e eficaz para impedir a perda precoce ou prescindível do elemento dentário, sendo indicado em caso de pulpite irreversível, em que a polpa pode se encontrar em um estado que indique a realização de Biopulpectomia ou Necropulpectomia (quando há infecção).

Pode-se também fazer a opção pela cirurgia endodôntica, de acordo com a necessidade, nos casos de: drenagem cirúrgica, tratamento endodôntico, obturação sem chances de recuperação do canal e sua raiz, material com pilar intraradicular, metamorfose calcificada do espaço pulpar, erros iatrogênicos como separação de instrumentos, borda inegociável, perfuração da raiz, transbordamento sintomático, assim como também em correção cirúrgica como defeitos de reabsorção radicular, cárie radicular, ressecção, hemisecção, bicuspidização, biópsia e cirurgia exploratória.

O relato abordado neste estudo se refere tanto a um determinado caso de insucesso, quanto ao tratamento primário e retratamento, podendo este ser consequência da saúde debilitada do paciente, iatrogenias ou complexidade do elemento dentário em questão, onde se optou pela cirurgia endodôntica como uma alternativa terapêutica para um prognóstico satisfatório, considerando-se que desta forma também se assegura a limpeza e preenchimento completo do canal, removendo de forma adequada o tecido patológico, contribuindo para o sucesso dessa técnica e impedindo a recidiva de lesões periapicais.

Essa escolha terapêutica abrange técnicas como curetagem perirradicular, apicectomia e retro obturação, embora, todas possuam um único desígnio, de manter o dente na boca e em função, livre de qualquer tipo de inflamação e infecção. No entanto, apesar da grande vigência da endodontia convencional, há grande dificuldade de assegurar que todas as ramificações do canal passem pelo preparo químico-mecânico e estejam em contato direto com o material obturador, e com adequada vedação foraminal, impedindo a permanência e reprodução de microrganismos. É a partir daí que a cirurgia parendodôntica passa a ser de extrema importância, pois ela pode ser aplicada em vários casos, sendo bastante realizada para remover corpo estranho na área radicular, em inflamações e lesão periapical contínua, na perda de material obturador e na impossibilidade de tratamento de canal por via coronária.

A cirurgia parendodôntica vem sendo utilizada, no intuito de resolver problemas em que o tratamento endodôntico não apresenta eficácia. Esta técnica vem alcançando sucesso e uma maior aplicação por possuir um conhecimento de todas as estruturas anatômicas envolvidas, resultando numa excelente evolução.

Com bases nessas afirmações, o objetivo principal neste artigo é apresentar um relato de caso clínico de cirurgia parendodôntica que comprove a eficácia da utilização de enxerto de biomaterial e sistema PRF.

2. RELATO DO CASO CLÍNICO

2.1 DIAGNÓSTICO

Paciente do sexo feminino, 20 anos, compareceu à Clínica Odontológica da Universidade Nilton Lins (Manaus–AM) com queixa de dor e sensibilidade na região dos incisivos superiores durante a mastigação de alimentos, relatando histórico de tratamento endodôntico e restaurador na região.

Após exame clínico, verificou-se que o dente algógeno era o elemento 22, onde havia uma restauração insatisfatória (Figura 1).

Figura 1 – Exame Clínico Inicial

Fonte: O autor (2020).

Através do exame radiográfico constatou-se que o dente não apresentava tratamento endodôntico e, sim, uma lesão apical extensa e instrumento fraturado no ápice (Figura 2).

Figura 2 – Radiografia Periapical Inicial

Fonte: O autor (2020).

Para confirmação do diagnóstico foi solicitada uma Tomografia Computadorizada, no intuito de verificar a extensão e localização da lesão e fechamento do diagnóstico (Figura 3 e Figura 4).

Figura 3 – Exame De Tomografia Computadorizada 1

Fonte: O autor (2020).

Figura 4 – Tomografia Computadorizada 2

Fonte: O autor (2020).

2.2 PLANO DE TRATAMENTO

Para o tratamento, planejou-se a realização do tratamento endodôntico, aliado a cirurgia parendodôntica, sob a técnica associada com membrana de plasma rico em fibrina e enxerto ósseo com BioOss®.

Após discussão e aprovação do paciente do seu plano de tratamento, iniciaram-se os procedimentos.

Após a profilaxia, realizou-se a analgesia do elemento através de bloqueio do nervo alveolar superior anterior, e bloqueio de campo pela palatina. O isolamento absoluto do dente 22 foi realizado de forma convencional, seguido da Cirurgia de Acesso.

Como instrumentação, utilizou-se o Sistema Reciprocante (Reciproc, VDW, Alemanha), com Lima R25. 08, possibilitando a modelagem dos canais radiculares somente com um instrumento.

O comprimento real de trabalho obteve-se através do localizador apical (Root Zx II, Morita, Japão).

A odontometria do paciente confirmou-se em 19mm. Instrumentou-se o dente com a irrigação de hipoclorito 5.5%.

Realizou-se a prova do cone e a radiografia para confirmação, logo após a instrumentação, introduzindo em seguida, ácido etilenodiamino tetra-acético (EDTA) no interior do canal por 3 minutos, agitando-o com a lima por 1 minuto.

Realizou-se a última irrigação do canal para a remoção do EDTA e, em seguida a secagem do canal radicular.

Obturou-se o dente com cimento endodôntico (Endomethasone N, Septodont, Brasil) e selamento com Cimento de Ionômero de Vidro (Vidrion R, SS White, Brasil) como restauração provisória (Figura 5).

Figura 5 – Tratamento Endodôntico Concluído

Fonte: O autor (2020).

Na sequência, iniciou-se o procedimento cirúrgico complementando com anestesia infiltrativa local pela vestibular e palatina.

Em seguida, realizou-se incisão de Newman modificada, promovendo um retalho da distal do elemento 11 à distal do elemento 23. Ocorreu o descolamento muco periosteal possibilitando a curetagem e observação da lesão óssea dessa região.

Após a curetagem da lesão, utilizou-se a broca #702 para melhorar a loja cirúrgica. O procedimento foi irrigado de forma constante com Soro Fisiológico 0,9%.

Após a limpeza da região, fez-se a apicectomia do dente 22, com um corte de, aproximadamente, 3 mm da porção apical, com a broca #Endo Z em ângulo de 90° (Figura 6).

Figura 6 – Apicectomia Do Dente 22

Fonte: O autor (2020).

Dando continuidade ao procedimento, removeu-se do ápice, 3mm de guta-percha, deixando-o preparado para ser preenchido com MTA branco (MTA, Angelus, Brasil), que foi inserido e selado com o auxílio de condensadores (Figura 7 e Figura 8).

Figura 7 – Retro Obturação Com Mta

Fonte: O autor (2020).

Figura 8 – Radiografia Da Retro Obturação Com Mta

Fonte: O autor (2020).

Preencheu-se a loja cirúrgica com biomaterial BioOss® e com a membrana de Plasma Rico em Fibrina (PRF) estimulou-se a osteoindução e osteocondução (Figura 9 e Figura 10).

Figura 9 – Enxerto Com Bio-Oss®

Fonte: O autor (2020).

Figura 10 – Sistema Prf

Fonte: O autor (2020).

Após o preenchimento, foi realizada a remoção do excesso de material e a limpeza da loja cirúrgica (Figura 11) e reposicionou-se o retalho, finalizando com sutura interdental para melhor adaptação dos bordos (Figura 12).

Figura 11 – Radiografia Do Pós-Operatório Imediato

Fonte: O autor (2020).

Figura 12 – Sutura Com Fio De Nylon 5-O Em Pós-Operatório Imediato

Fonte: O autor (2020).

2.3 PROSERVAÇÃO

Dentre os cuidados pós-operatórios, prescreveram-se os seguintes medicamentos: antibiótico Amoxicilina associado a Ácido Clavulânico 875 mg (1 comprimido a cada 12 horas por 7 dias); anti-inflamatório Ibuprofeno 600 mg (1 comprimido a cada 8 horas por 6 dias); e, anti-inflamatório Dexametasona de 4 mg (1 comprimido por 3 dias).

Orientou-se a paciente para que seguir alimentação líquido/pastosa por 10 dias, até a data do seu retorno para remoção de sutura e proservação (Figura 13).

Figura 13 – Aspecto Intrabucal De Proservação Após 10 Dias

Fonte: O autor (2020).

De acordo com Rezende (2004, p.1):

Nenhum dicionário, antigo ou moderno, registra proservação. Mas o termo existe e tem sido empregado em linguagem médica com o sentido de seguimento, acompanhamento. Corresponde à expressão inglesa follow up, hoje largamente difundida pelos autores brasileiros, enriquecendo a terminologia do nosso portuglês médico.

[…] Curiosamente, a odontologia emprega proservação muito mais vezes do que a medicina. Em 32 trabalhos indexados pela BIREME nos últimos 18 anos, nos quais se encontra o termo proservação, 28 são da área odontológica e apenas 4 da área médica.

Conceitua-se como proservação, o estágio de observações periódicas de um tratamento odontológico para o acompanhamento da evolução de estados clínicos, radiográficos de saúde bucal e da saúde geral do paciente.

No 10º dia de pós-operatório também foi realizada tomada radiográfica para observar a formação óssea (FIGURA 14).

Figura 14 – Radiografia De Proservação Após 10 Dias

Fonte: O autor (2020).

3. DISCUSSÃO

3.1 ENDODONTIA

Espíndola et al. (2002) conceituam a Endodontia como a especialidade odontológica que trata da prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças ou injúrias que afetam a polpa dental, principal responsável pelo desenvolvimento do dente.

Para Cohen; Hargreaves (2007), um meio bastante seguro e eficaz quando se trata de preservar os dentes, que por vários fatores poderiam estar perdidos.

Sendo assim, conforme comenta Gabardo et al. (2009) e Occhi et al. (2011), a endodontia tem como objetivo primordial, a manutenção do elemento dental em função no sistema estomatognático, evitando assim, prejuízos à saúde do paciente.

3.2 CIRURGIA PAREDODÔNTICA

 Segundo Gabardo et al. (2009), se faz extremamente necessário que os princípios científicos e biológicos sejam mantidos para garantir a minimização de falhas e acidentes, que também poderão decorrer de muitos outros fatores, como por exemplo, diagnóstico incorreto, inabilidade profissional etc. segundo Alvares (1997), tais diagnósticos poderão ser também consequências de uma iatrogenia, que ocorre por inobservância de certos cuidados básicos,  utilização de técnicas errôneas, como por exemplo, a lima endodôntica pode ter sido muito utilizada anteriormente e não ter sido descartada, ou ainda, sua escolha pode ter sido feita inadequadamente.

Indica-se a cirurgia apical, geralmente em casos de tratamento endodôntico que não obtiveram sucesso no reparo do dente.

De acordo com Bramante e Berbet apud Cappellari (2015, p.11):

cabe ao profissional saber quando indicar a cirurgia do periápice. É de suma importância salientar que o procedimento deve ser indicado apenas quando forem esgotadas as demais alternativas realizadas pelo método convencional. Dentre as indicações, podemos destacar as seguintes: complicações anatômicas, problemas iatrogênicos, traumatismos, falhas, problemas durante o tratamento convencional e necessidade de biópsia.

De acordo com Oliveira; Bernabé (2003) e Holland (2004), a cirurgia parendodôntica poderá também solucionar muitos outros casos como: de lesões periapicais persistentes, com características císticas e canais radiculares calcificados com lesões periapicais. Neste último, torna-se impossível o acesso por meio da câmara pulpar, de instrumentos fraturados, de perfurações apicais e de degraus.

Bramante; Berbert (2000) e Kuga et al. (1992) orientam este tipo de cirurgia por facilitar a instrumentação com as mãos, como as limas, brocas, alargadores etc. do canal radicular, assim como evitar a saída forçada do material utilizado para septicemia, acalmando a dor e outros problemas, além de haver preocupação com a paciente possuir contraindicações para a cirurgia.

Orso e Filho apud Cappellari (2015, p.7), preconizam que:

Existem diferentes métodos para a abordagem cirúrgica, sendo comum a todos eles promover a desinfecção que não foi alcançada pelo procedimento endodôntico convencional. Ainda ressaltam que, independentemente da técnica selecionada, é de extrema valia que se atinja o objetivo proposto, ou seja, a obtenção da regeneração dos tecidos. Isto normalmente é alcançado pela remoção do tecido patológico periapical e por exclusão de qualquer substância irritante.

Esse tipo de cirurgia parendodôntica facilita, também, no caso de uma obturação, por condensar melhor, sem o vazamento do material utilizado.

De acordo com o que trata Orso e Filho apud Cappellari (2015, p.20):

A cirurgia do periápice é o recurso mais utilizado quando não é possível remover o agente causador da patologia apical através do tratamento endodôntico convencional. Qualquer técnica utilizada é válida, desde que atinja o objetivo de remover a lesão do ápice. Devemos, para isso, ter um bom planejamento da cirurgia e seguir o protocolo da técnica cirúrgica a fim de obtermos sucesso.

Para a cirurgia deste relato de caso clínico, foi utilizado o procedimento radiográfico para se verificar qual a extensão da lesão e que tipo de tratamento seria utilizado.

Segundo Von Arx apud Cappellari (2015, p. 11), “o objetivo da cirurgia do periápice é manter o dente na cavidade oral, porém, antes da prática cirúrgica é fundamental realizar um bom exame clínico e radiográfico a fim de avaliar se o ato cirúrgico deve ou não ser efetuado”.

Pode-se observar a limpeza do local e, em seguida, a apicectomia com a broca #ENDO Z antes do início da cirurgia.

Para Kuga et al. (1992), o traçado correto da incisão facilita o acesso à região da cirurgia.

Pôde-se observar uma retro obturação com utilização do MTA branco para a selagem do ápice, já que é um material biocompatível com os tecidos periapicais, e com a capacidade de regenerá-los, se tiverem sido modificados por doenças pulpares e periapicais. Este é o material mais utilizado na selagem e na regeneração dos tecidos.

3.2 ENXERTO DE BIOMATERIAL

Conceitua-se o enxerto ósseo dentário como um procedimento cirúrgico cujo procedimento refere-se a retirada de um fragmento de osso de um local adequado e, consecutivamente, colocá-lo ou implantá-lo onde se pretende reparar. Utiliza-se também para reconstrução da área que perdeu altura ou espessura.

Sobre enxerto, Soares (2015, p.13) comenta que:

Enxerto é uma peça de tecido que é transferida de um local doador para um local receptor com o objetivo de reconstruir o local receptor. Este tecido pode ou não receber tratamento durante a transferência. Implica na presença de tecido com vitalidade que foi obtido e utilizado no mesmo tempo cirúrgico. Exemplo: enxerto gengival livre, enxerto de tecido conjuntivo, enxerto ósseo autógeno em forma de partícula ou em bloco.

Sobre os produtos biomateriais, Soares (2015, p.11) trata que:

Na Odontologia, novos produtos são lançados constantemente no mercado. Tais produtos são utilizados em íntimo contato com tecidos biológicos como polpa, dentina, tecido periodontal e osso alveolar. Dessa forma, os biomateriais devem ser utilizados com cautela. Sua indicação nas diversas situações clínicas deve ser sempre bem avaliada, levando em consideração critérios clínicos e éticos quanto aos riscos e benefícios do tratamento. Para isso, há a necessidade de o Cirurgião-Dentista conhecer as características e propriedades dos biomateriais.

Sobre a utilização de tecidos vivos, Soares (2015, p.11) esclarece que:

A humanidade, desde épocas remotas, tem procurado maneiras de substituir tecidos vivos, quer seja porque estes são perdidos ou estão doentes, utilizando como substitutos substâncias sintéticas ou naturais, as quais, mais recentemente, têm sido chamadas de biomateriais. Biomateriais quando utilizados em contato com sistemas biológicos cuja finalidade é reparar ou substituir tecidos, órgãos ou funções do organismo, devem apresentar propriedades físicas e biológicas compatíveis com os tecidos biológicos do hospedeiro, de modo a estimular uma resposta adequada dos mesmos.

Segundo Bernabé; Holland (2004), o uso de biomateriais para auxiliar na promoção da regeneração óssea é fortemente indicado em grandes destruições ósseas circunjacentes ao ápice radicular.

Conforme afirma Soares (2015, p. 13) “Biomaterial é qualquer substância ou combinação de substâncias, naturais ou não, que não sejam drogas ou fármacos, que interagem com sistemas biológicos, que tratam, aumentam ou substituem quaisquer tecidos, órgãos ou funções do corpo”.

Ainda não há um consenso geral sobre a utilização desses biomateriais como um método indispensável na formação de um novo osso e uma remodelação remodelagem. Porém, concorda-se com sua utilização nos casos de grandes destruições ósseas.

Soares (2015, p.11) comenta sobre a necessidade de reconstrução dos tecidos ósseos, que:

A necessidade de reconstruções dos tecidos ósseos perdidos levou ao aprimoramento técnico e ao avanço do estudo de biomateriais que pudessem substituir ou aperfeiçoar os procedimentos de enxertia. Os enxertos ósseos podem ser obtidos de diferentes origens: autógeno (do mesmo indivíduo), alógeno (de indivíduos da mesma espécie), xenógenos (de espécies diferentes) ou aloplástico (sintético).

Os materiais para o enxerto tem a função de agir como estrutura mecânica de suporte para a membrana e para os tecidos moles e, ainda, agir como componente biológico melhorando ou recuperando a neoformação óssea.

Conforme Soares (2015, p.11): “A necessidade de reconstruções dos tecidos ósseos perdidos levou ao aprimoramento técnico e ao avanço do estudo de biomateriais que pudessem substituir ou aperfeiçoar os procedimentos de enxertia”.

Geralmente, esse material pode ser classificado como: osteocondutivos, os que fornecem uma moldura para o desenvolvimento ósseo; e osteoindutivos, os que estimulam a proliferação de novas células para que a cicatrização óssea ocorra mais rapidamente. Cabe ao profissional discutir o seu uso com o paciente, informando que a utilização desse tipo de matéria acarreta um custo adicional na cirurgia, necessidade de maior tempo para o tratamento da ferida e possíveis complicações no pós-operatório.

O Biomaterial utilizado neste procedimento foi selecionado de acordo com pesquisas em comparação com outros tipos, por apresentar excelentes propriedades osteocondutivas, conduzindo a regeneração óssea de forma previsível e eficiente, onde as partículas passam a ser parte integral da estrutura óssea recém-formada, permitindo uma regeneração descomplicada na área enxertada, além de ter como característica a conservação de volume à longo prazo.

3.3 SISTEMA FIBRINA RICA EM PLAQUETAS (PRF)

De acordo com Rodrigues et al. (2015), as fibrinas ricas em plaquetas surgiram na França especificamente para serem utilizadas em cirurgias orais e maxilo-faciais. Uma técnica que não necessita de anticoagulante nem de qualquer outro agente de geleificação. Trata-se do sangue centrifugado sem haver adição nenhuma, possibilitando evitar todas as restrições existentes na lei francesa da época, que tivesse quaisquer relação com o reimplante de um produto que fosse derivado do sangue.

Conceitua-se a fibrina como sendo uma proteína que, sempre que o corpo está com algum ferimento, age como uma primeira resposta e que tem como finalidade, a coagulação do sangue, ou seja, um papel extremamente significativo e importante.

Quando ocorre o extravasamento de sangue seguido de coagulação, aí então o organismo inicia a produção de fibrina. Em forma de fios longos, cada molécula de fibrina se entrelaça para formar uma fina malha ao redor da lesão. A malha formada pela fibrina, que se apresenta em formato de fios longos entrelaçados, leva ao estancamento do sangue. Isso porque ocorre uma captura de hemácias, leucócitos e plaquetas, fazendo gerar um coágulo e o surgimento no local lesionado, de uma espécie de tampão. Desta forma, com o objetivo de acelerar a regeneração e cicatrização em variados procedimentos cirúrgicos, a Fibrina Rica em Plaquetas (PRF) vem sendo utilizada em cirurgias de várias áreas da saúde como: ortopédicas, neurológicas e cirurgias plásticas. Porém, geralmente é empregado em variados procedimentos odontológicos, como por exemplo, em pequenos enxertos ósseos para implantes dentários, em cirurgia periodontal e maxilo–facial.

A utilização do Plasma Rico em Fibrina (PRF) na odontologia é muito parecido com um curativo de fibrina e serve para acelerar a cicatrização das bordas da ferida, pois afasta o perigo de rejeição ou infecção, embora este material seja retirado do próprio paciente.  Esta técnica é muito estudada, atualmente, devido sua eficiência em acelerar a regeneração dos tecidos, sua integração e remodelação do biomaterial que foi enxertado. Forma um coágulo que reconstitui o enxerto feito com as células, cicatrizando muito rápido.

Conforme comenta Peterson et al. apud Cappellari (2015, p.15-16):

A obtenção do sucesso da cirurgia periapical depende de alguns fatores. O acompanhamento clínico e radiográfico, como já mencionamos, é essencial para julgar o sucesso após a cirurgia endodôntica. Geralmente, o paciente se encontra assintomático e, nesses casos, a avaliação é feita somente através dos achados radiográficos.

Bramante e Berbet (2000) salientaram: “que nenhuma cirurgia parendodôntica resultará em sucesso se o canal não estiver bem obturado ou não for possível, por meio da cirurgia, melhorar suas condições de selamento”.

Pode-se, sequencialmente, depois de uma nova avaliação clínica e radiográfica, organizar os casos de acordo com Zuolo e Peterson et al. apud Cappellari (2015, p.16):

      • Sucesso: ausência de sinais e sintomas clínicos. O paciente não relata desconforto ou qualquer sintomatologia e, na análise radiográfica, apresenta reparo completo ou formação de cicatriz na região cirúrgica;
      • Sucesso duvidoso/ incerteza do sucesso: o paciente não apresenta sinais e sintomas clínicos e, na classificação radiográfica, o reparo é incerto;
      • Insucesso: o paciente relata a presença de sintomas clínicos e, na classificação radiográfica, o reparo é insatisfatório, podendo apresentar imagem radio lúcida do periápice.

Pôde-se constatar, após o resultado do exame, um bom prognóstico da cirurgia, porém, faz-se necessário que o paciente seja acompanhado por 4 anos, no mínimo e que a proservação seja contínua por pelo menos 1 ano.

A radiografia e as suturas que se apresentam são provenientes do pós-operatório logo imediato. Após 10 dias realizou-se uma nova radiografia de proservação.

Observou-se que a cirurgia parendodôntica, embora seja invasiva, pode ser considerada como um tratamento de sucesso cirúrgico, já que preserva o dente.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após a realização deste estudo, concluiu-se que:

  • No momento em que se opta pela manobra cirúrgica é extremamente necessário e imprescindível que neste momento os profissionais envolvidos tenham pleno conhecimento de sua técnica, devido à preconização de protocolos clínicos existentes, que consistem em: anestesia profunda da área operada, escolha do retalho apropriado e curetagem do tecido patológico;
  • A indicação do enxerto com biomaterial como proposta auxiliar a cicatrização e regeneração do osso alveolar é totalmente eficaz;
  • Quando ocorre a associação das estruturas de fibrina natural ao enxerto de biomaterial, este material estimula a regeneração tecidual e óssea, facilmente evidenciado pelo exame clínico e radiográfico pós- cirúrgico, cujo resultado, no caso em questão, apresentou formação óssea e ausência sintomatologia dolorosa e também confirmou a preservação do dente e de sua função.
  • O acompanhamento clínico e radiográfico é terminantemente essencial e tem como propósito a confirmação do sucesso após a intervenção cirúrgica envolvendo o auxilio da técnica de regeneração tecidual guiada.
  • O reparo dos tecidos poderá se classificar como: completo, incompleto ou incerto. Mas, comumente, somente após um ano do procedimento cirúrgico do periápice é que se poderá perceber o reparo definitivo da lesão.
  • Quando este procedimento está associado ao enxerto de biomaterial BioOss®, observa-se uma excelente regeneração óssea, devido à semelhança com osso humano e uso de membranas de plasma rico em fibrina, provenientes do próprio sangue do paciente, o que contribui para a redução de rejeição e contaminação.
  • A partir da pesquisa bibliográfica, pôde-se observar que muitos autores valorizam seu uso em casos que apresentam grandes destruições ósseas, e ainda, estes mesmos autores afirmam apresentar qualidade e quantidade de osso superior aos casos sem seu uso.

Após a conclusão de todos os procedimentos descritos, no período de proservação, os resultados observados constataram que:

  • O controle clínico apresentou-se positivo e com ausência de fístula;
  • A efetivação da cicatrização quanto à curetagem apical concomitante à utilização de enxerto com biomaterial;
  • Intervenções cirúrgicas com utilização de enxertos associados a membranas podem promover o reparo do defeito ósseo em vários graus.
  • Uma melhora na reparação do defeito ósseo;
  • Com o exame radiográfico, a reabsorção dentária, além da melhora da área apical.

Finalizando, após todos estes procedimentos apresentados, compreendeu-se que a cirurgia parendodôntica foi a melhor opção de terapêutica escolhida no caso descrito, principalmente por dar acesso à região apical do elemento dentário, proporcionando a retirada do corpo estranho no interior do conduto e da lesão periapical, portanto, comprovando a eficácia do método.

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SOARES, Murilo Vila Real. Biomateriais utilizados na prática odontológica: uma revisão de literatura. 2015. 27 folhas. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Odontologia) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2015.

[1] Acadêmica do Curso de Graduação em Odontologia, Universidade Nilton Lins, Manaus – AM, Brasil.

[2] Especialização em Endodontia e Prótese, Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Manaus-AM, Brasil.

[3] Especialista em Endodontia, Coordenador do Curso de Odontologia, Universidade Nilton Lins, Manaus – AM, Brasil.

[4] Mestrado em Endodontia – Professor do Curso de Odontologia – Universidade Nilton Lins, Manaus – AM, Brasil.

Enviado: Abril, 2020.

Aprovado: Abril, 2020.

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