RELATO DE CASO
JANNOTTI, Túlio Saraiva [1], JANNOTTI, Brenda Silveira [2], GUSMÃO, Pricila da Silva [3], NUNES, Luiz Marcelo Amaral Galvão [4], SILVEIRA, Álvaro Luiz da [5], CHAVES NETTO, Henrique Duque de Miranda [6]
JANNOTTI, Túlio Saraiva et al. Carcinoma mucoepidermóide associado a adenoma pleomórfico em glândula parótida: relato de caso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 05, Vol. 01, pp. 194-202. Maio de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/odontologia/carcinoma-mucoepidermoide, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/odontologia/carcinoma-mucoepidermoide
RESUMO
Introdução: O adenoma pleomórfico é o tipo mais comum de tumor benigno nas glândulas salivares. Em geral, apresenta-se clinicamente como uma lesão nodular única, sólida, com margem bem delimitada, consistência endurecida, indolor, móvel à palpação e de evolução lenta. Por outro lado, o carcinoma mucoepidermóide é um tumor maligno e representa metade de todas as doenças malignas da parótida possuindo uma ampla variação no comportamento patológico e clínico. Objetivos: O objetivo deste trabalho foi relatar um caso clínico de adenoma pleomórfico de glândula parótida que estava se malignizando em carcinoma mucoepidermóide, em que optou-se por realizar exclusivamente uma excisão cirúrgica, já que a mesma se encontrava muito bem delimitada. Relato de caso: Paciente do sexo feminino, 49 anos, leucoderma, nega hábitos nocivos procurou atendimento com queixa de inchaço no lado esquerdo há 2 anos. Após realizar o exame de tomografia computadorizada para planejamento cirúrgico, foi realizado o procedimento de excisão cirúrgica preservando o ducto parotídeo e as funções do nervo facial. Após a análise da lesão, o resultado foi adenoma pleomórfico mas que já estava se malignizando em carcinoma mucoepidermóide. Conclusão: Observou-se que um adenoma pleomórfico após 2 anos sem tratamento adequado pode evoluir para carcinoma mucoepidermóide.
Palavra-chave: Adenoma pleomórfico, Carcinoma mucoepidermóide, Glândula parótida, Tratamento.
1. INTRODUÇÃO
O desenvolvimento de tumores nas glândulas salivares não é frequente e representa aproximadamente 2.0 a 6.5 % das neoplasias nas regiões da cabeça e do pescoço, sendo o adenoma pleomórfico o mais comum.1 Em se tratando de tumores malígnos, cerca de 70% são câncer da glândula parótida.2 O carcinoma mucoepidermóide representa metade de todas as doenças malígnas da parótida possuindo uma ampla variação no comportamento patológico e clínico.3 Além disso, homens e mulheres são afetados igualmente pelo tumor, sendo mais incidente da terceira à quinta década de vida.5
O adenoma pleomórfico, também conhecido como tumor benigno misto pela origem dupla em elementos epiteliais e mioepiteliais, é o tipo mais comum e constitui dois terços de todos os tumores nas glândulas salivares.1,5 A neoformação de aparência microscópica altamente variável, por isso denominada pleomórfica, pode afetar as glândulas submandibulares (8%), salivares menores (6.5%) e parótidas (84%), sendo o lobo superficial a região mais acometida podendo invadir o espaço parafaríngeo e tecidos mais profundos.6
Em geral, o adenoma pleomórfico se apresenta clinicamente como uma lesão nodular única, sólida, com margem bem delimitada, consistência endurecida, indolor, móvel à palpação e de evolução longa.7 A sintomatologia depende principalmente do tamanho, localização e potencial de transformação maligna. Na glândula parótida, quando o tumor é grande ou possui potencial de malignização pode ocorrer sinais de acometimento da função do nervo facial. O adenoma pleomórfico no lobo profundo da glândula parótida pode se apresentar como uma massa oral retrotonsilar ou parafaríngea que é visível ou geralmente palpável. O aumento rápido do tamanho de um nódulo tumoral deve levantar uma suspeita de alteração maligna.7
A etiologia do adenoma pleomórfico é incerta, mas tem sido observado um aumento na sua incidência nos últimos 15 e 20 anos devido a constante exposição à radiação solar.5 Alguns estudos tem demonstrado que o vírus Símio oncogênico (SV40) pode desempenhar um papel no início ou na progressão do adenoma pleomórfico, e procedimentos prévios de irradiação na região da cabeça e pescoço também é um fator de risco para o desenvolvimento desses tumores.5,8 O adenoma pleomórfico pode ocorrer em indivíduos de todas faixas etarias, com uma prevalência da terceira à sexta décadas de vida, sendo sua incidência maior em mulheres do que em homens na proporção de 2:1.5,6
A excisão cirúrgica é o tratamento adequado no caso de adenoma pleomórfico, raramente a enucleação é utilizada pois pode levar a alta recorrência e a radioterapia não é indicada devido à resistência do tumor a esta modalidade de tratamento.6 A parotidectomia superficial é indicada quando ocorre no lobo superficial da glândula parótida e a parotidectomia total é realizada quando os tumores envolverem o lobo profundo. Quando o adenoma pleomórfico ocorre em glândulas salivares menores, eles são tratados com ampla excisão local, juntamente com periósteo ou tecido ósseo envolvido.6
A recorrência do adenoma pleomórfico é complexa, ocorrendo de 2 a 15 anos após a parotidectomia inicial e em pacientes jovens. A recorrência é frequentemente multinodular (50-100%) e associada a um aumento da taxa de complicações pós-operatórias, especialmente paralisia do nervo facial (2-20%) com recorrências posteriores e degeneração maligna (0–16%).9 Sendo assim, a parotidectomia de adenoma pleomorfico recorrente torna-se um procedimento desafiador para os especialistas.
Sintomas como presença de dor, crescimento rápido, paralisia facial, infiltração de pele e limites mal definidos podem caracterizar uma neoplasia maligna. Nesses casos, a ultrassonografia é um exame comum utilizado para seu diagnóstico, mesmo não sendo determinante para a indicação do tratamento cirúrgico. A tomografia computadorizada ou ressonância nuclear magnética também podem ser utilizadas para planejar a melhor forma de tratamento. A biópsia incisional não é indicada pois pode provocar recidivas em adenoma pleómorfico e neoplasias malignas, dessa forma, a punção aspirativa por agulha fina tem o objetivo de diferenciar entre neoplasias malignas e benignas podendo ser empregada como diagnóstico complementar, principalmente se houver uma característica incomum de adenoma pleomórfico.7
O presente estudo, relata um caso clinico de adenoma pleomorfico localizado no lóbulo superficial da glândula parótida associado a carcinoma mucoepidermoide. O tratamento realizado foi a excisão cirúrgica, preservando as funções do nervo facial e da glândula parótida.
2. RELATO DE CASO
Paciente do sexo feminino, 49 anos de idade, procurou atendimento odontológico com queixa de inchaço no lado esquerdo do rosto a aproximadamente dois anos. Na anamnese, além de afirmar ser trabalhadora rural, a mesma negou hábitos nocivos, tabagismo, etilismo, e doenças sistêmicas. Ao exame clínico, além de observar alteração da função do nervo facial, especificamente movimentos involuntários de fechar os olhos, notou-se uma lesão cística circunscrita, móvel à palpação, edurecida, e indolor na regiao da face esquerda (Figura 1).
Figura 1 – Imagem pré-operatória da lesão (A), onde se observa o aumento de volume em região da porção superior da glândula parótida. Já em período de 9 meses de pós operatório (B), a região se apresenta com coloração e volume restabelecido

Por estar próximo a região do nervo facial, optou-se em realizar uma punção aspirativa por agulha fina e enviar o material para análise. No entanto, o material não foi suficiente ou com qualidade provocando um resultado inconclusivo.
Dessa forma, foi solicitado uma tomografia computadorizada onde foi possivel observar uma massa radiopaca e circunscrita de aproximadamente 5 centímetros de diâmetro localizada lateralmente à parótida esquerda (Figura 2).
Figura 2 – Tomografia computadorizada inicial, onde se observa o volume, assim como a relação da mesma com a região da glândula, assim como do músculo temporal

Foi indicado um procedimento cirúrgico, sob anestesia geral, para procedimento de exerese. Após demarcação da incisão, foi realizada a infiltração de adrenalina diluida 1:100000 no local em plano sub epitelial, visando a hemostasia. Optou-se por uma incisão para lifting facial e descolamento sub epitelial para visualização do nódulo. A lesão, como já sugerido no exame de imagem, encontrava-se bem delimitada (Figura 3A). Desse modo foi possível realizar a exérese da mesma, preservando o ducto parotídeo e as funções do nervo facial (Figura 3B).
Figura 3 – Imagens do trans operatório, onde se observa a delimitação da lesão (A) assim como a manutenção do ducto parotídeo, indicado pela seta, após a exérese da mesma (B)

Após o procedimento cirúrgico, o material foi enviado para análise histopatológica. Inicialmente, o resultado da análise retornou com o diagnóstico de adenoma pleomórfico, no entanto, em uma parte da lesão o patologista sugeriu um estudo imuno histo-químico para análise crítica classificatória. Realizado o novo estudo, o resultado final foi de carcinoma mucoepidermóide.
A paciente foi informada do resultado obitido no exame de biópsia e foi encaminhada para um oncologista para avaliação e possivel tratamendo da condição apresentada.
3. DISCUSSÃO
O adenoma pleomórfico é um tumor que pode afetar homens e mulheres, mas alguns trabalhos mostraram uma incidência maior em pacientes do sexo feminino entre terceira à sexta década de vida,4,5,6 como o caso da paciente do sexo feminino e de 49 anos relatado no presente trabalho. Essa maior incidência no sexo feminino pode ser decorrente da maior prucura por tratamento por parte das mulheres.
Durante a anamnese a paciente foi questionada sobre o tempo da evolução da doença, sintomas associados, hábitos e exposição a fatores ambientais e verificou que se tratava de uma trabalhadora rural. Como geralmente nesse tipo de situação as pessoas ficam expostas ao sol durante muitas horas por dia, essa grande exposição à radiação solar pode ser um dos causadores da lesão, já que esta é uma das causas do aumento do desenvolvimento do adenoma pleomórfico nos últimos anos.5
Ao exame observou-se que a lesão encontrada era cística circunscrita, se apresentava móvel à palpação, edurecida, indolor e tinha uma evolução longa, assim como relatado por Maahs et al., 2015. Além disto, apresentava sinais de acometimento do nervo facial, possivelmente pelo volume da lesão ou pelo potencial de malignização do tumor, como descrito por Maahs et al., 2015; Bokhari e Greene, 2020.
O procedimento de biópsia incisional não é indicado nesse tipo de lesão pelo risco de recidivas, como relatado por Maahs et al., 2015. Dessa forma, realizou-se uma punção aspirativa por agulha fina com o objetivo de obter um diagnostico inicial. Como o resultado não foi conclusivo, foi realizada uma tomografia para planejar a excisão cirúrgica do tumor, procedimento mais indicado em casos de adenoma pleomórfico.6 Entretanto, no momento da cirurgia foi verificado que a lesão estava bem definida clinicamente e optou-se a excisão por enucleação.
Embora a presença de dor, crescimento rápido, paralisia facial, infiltração na pele e limites mal definidos serem alguns indicadores da neoplasia maligna conforme descrito por Maahs et al., 2015, no presente relato de caso, a paciente não apresentou nenhum desses sintomas, provavelmente pela sua localização superficialmente a região da glândula. Contrariamente, a lesão se demonstrava muito bem delimitada como pode ser observado na tomografia computadorizada (Figura 2), mas, apesar disso, após análise histopatológica e imunohistoquímica, observou-se que o adenoma pleomórfico já se apresentava malignizado como carcinoma mucoepidermóide. Vale salientar que o tratamento de excisão cirúrgica é recomendado para ambos os tumores.
O adenoma pleomórfico do caso clínico apresentado neste trabalho acometeu apenas o lobo superficial da glândula parótida, muito comum segundo Almeslet, 2020. No entanto, esse tumor pode acometer também o lobo profundo da parótida e raras vezes ambos os lobos como observado no caso clínico descrito por.10
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No presente trabalho foi possível observar que um adenoma pleomórfico, após 2 anos sem o correto tratamento, apresenta possibilidade de evoluir para um tumor maligno como o carcinoma mucoepidermóide.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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- Bokhari MR, Greene J. Pleomorphic Adenoma. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2020 [updated 2020 Updated Jul 10 2020; cited]; Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK430829/.
- Almeslet AS. Pleomorphic Adenoma: A Systematic Review. International journal of clinical pediatric dentistry. 2020 May-Jun;13(3):284-7.
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- Rout S, Lath M. Pleomorphic adenoma of the whole parotid gland: a rare clinical finding. J Craniofac Surg. 2013;24(6):2197-8.
NOTA
Este artigo é uma versão adaptada da monografia intitulada Carcinoma de células escamosas em lábio inferior, originalmente apresentada em 03 de Marco de 2021, como parte dos requisitos para obtenção do título de cirurgião dentista. Com o objetivo de ampliar a disseminação dos resultados e contribuir para a área de estudo, o conteúdo foi revisado, atualizado e reestruturado para o formato de artigo científico.
[1] Cirurgião-Dentista. ORCID: 0000-0001-5501-4344. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/1172431418086639.
[2] Cirurgiã-Dentista. ORCID: 0000-0002-9178-1265. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/1349554481363183.
[3] Doutora em Odontologia. ORCID: 0000-0002-2389-6570. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2200606105708395.
[4] Mestre em Clínica Odontológica. ORCID: 0000-0002-1503-6757. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6989743751979699.
[5] Mestre em Clínica Odontológica. ORCID: 0000-0001-5167-3916. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4317443046671523.
[6] Orientador. Pós-Doutorado em Cirurgia Maxilofacial – UNICAMP. ORCID: 0000-0002-9133-2347. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0043492004785642.
Material recebido: 20 de fevereiro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 03 de março de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 13 de maio de 2025.



