Manifestações Orais do Linfoma de Burkitt

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ARTIGO ORIGINAL

MORAES, Joelma Florêncio de Oliveira [1], COUTINHO, Luiz Roberto [2],CAMPOLONGO, Gabriel Denser [3]

MORAES, Joelma Florêncio de Oliveira. COUTINHO, Luiz Roberto. CAMPOLONGO, Gabriel Denser. Manifestações Orais do Linfoma de Burkitt. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 05, Vol. 01, pp. 78-88. Maio de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/odontologia/linfoma-de-burkitt

RESUMO

Fundamentos: O linfoma de Burkitt é um tipo de linfoma não-Hodgkin altamente agressivo, que demonstra o maior índice de proliferação celular dentre os neoplasmas humanos. Na cavidade oral, esse tumor pode agravar-se  rapidamente e ser apresentado como uma tumefação facial ou uma massa exofítica envolvendo os maxilares. Objetivo: O presente trabalho tem o objetivo de informar um caso clínico de linfoma de Burkitt em uma paciente de quinze anos, enfatizando as características clínicas e histopatológicas exibidas por esta rara lesão no sistema estomatognático. Métodos: Exame físico, exame clínico, exames laboratoriais (hemograma), Biópsia incisional, análise de laudos anatomopatológico e imuno-histoquímico, remoção cirúrgica total da lesão, seguidos de 6 ciclos de quimioterapia a cada 21 dias. Resultados: Teve boa resposta a quimioterapia e remissão total da lesão, sem evidência de recidiva após 3 anos de acompanhamento. Conclusões: O diagnóstico definitivo é obtido através do exame histopatológico. Quando identificadas precocemente, apresentam potencial de cura associada e/ou não á quimioterapia ou radioterapia.

 Palavras-chave: Linfoma de Burkitt, Linfoma não Hodgkin, Tumor, Quimioterapia, Maxilares.

INTRODUÇÃO

O linfoma de Burkitt é um tipo de linfoma não-Hodgkin altamente agressivo, demonstrando  o maior índice de proliferação celular dentre os neoplasmas humanos (BOERMA et al., 2004; REJEZI et al., 2000). Acontece nas primeiras décadas de vida sendo predominante, com a preferência para o  gênero masculino e grande afinidade pelos ossos gnáticos, especialmente maxila (BREGANI et al., 2004; NEVILLE et al., 2004). Esse tumor pode progredir aceleradamente na cavidade oral e se apresentar como uma tumefação facial ou uma massa exofítica envolvendo os maxilares (ARDEKIAN et al., 1999). O presente trabalho tem a finalidade de relatar um caso de linfoma de Burkitt em umapaciente de quinze anos, enfatizando as características clínicas e histopatológicas exibidas por esta rara lesão. A denominação linfoma não-Hodgkin (LNH) é utilizada para abranger um grupo complexo e heterogêneo de neoplasias linfoides não relacionadas com a doença de Hodgkin. Os linfomas representam a terceira neoplasia mais frequente no mundo e constituem 3% dos tumores malignos diagnosticados todos os anos. A prevalência dessa malignidade cresce progressivamente com taxa anual de 3% (NEVILLE et al., 2009). A incidência dos LNH parece estar associada a doenças que acometem o sistema imunológico, como imunodeficiências congênitas, transplantes de órgãos, doenças autoimunes e a provocada pelo vírus HIV (BULUT et al., 2011). A localização intraoral do LNH não é frequente, podendo ocorrer em 3 a 5% dos casos, e as manifestações iniciais desse tumor hematolinfático raramente são percebidas (CORTI et al., 2011; INCHINGOLO et al., 2011). As áreas maxilomandibulares, que podem ser acometidas pelo LNH, são palato, língua, assoalho da boca, gengiva, mucosa oral, lábios, tonsilas palatinas, amígdalas linguais ou orofaringe. A faixa etária entre 60 e 70 anos é a mais suscetível para o desenvolvimento desse tumor maligno de cabeça e pescoço, não sendo notada predileção pelos gêneros (WERDER et al., 2010). Os LNH são classificados e subdivididos pela Organização Mundial de Saúde em: linfoma difuso de grandes células B (LDGC-B), linfoma de célula do manto, linfoma folicular, linfoma extranodal de células B da zona marginal, linfoma de Burkitt, linfoma de célula T (NEVILLE et al., 2009). O tipo mais frequente de LNH primário da cavidade oral é o LDGC-B, entretanto sua incidência é desconhecida (HEUBERGER et al., 2011). O LNH de proliferação tumoral constituído de células T é raríssimo, enquanto os linfomas derivados de histiócitos verdadeiros são ainda mais escassos (NEVILLE et al., 2009; FARIAS et al. 2009). Uma característica importante dos tumores malignos da boca refere-se ao fato de estes serem indolores. Tal condição prejudica a detecção precoce das lesões neoplásicas orais. O diagnóstico precoce das lesões neoplásicas é imperativo para o êxito do tratamento (FARIAS et al., 2009; HOWLADER et al., 2009). A biópsia e o exame histopatológico devem ser uma rotina nos serviços de saúde pública, visando melhorar o prognóstico para o paciente. O prognóstico do LNH depende do tipo histológico, do grau e, também, do tratamento proposto (NEVILLE et al., 2009; BULUT et al., 2011; INCHINGOLO et al., 2011). O objetivo deste trabalho foi o de relatar um caso raro de LNH de células T com manifestação na mandíbula, diagnosticado em um paciente jovem e destacar a importância dos profissionais de saúde no reconhecimento das neoplasias maxilomandibulares.

RELATO DE CASO CLÍNICO

Paciente L.G.O.F, 15 anos de idade, apresentando lesão extensa unilateral envolvendo rebordo alveolar superior esquerdo e palato duro, base séssil e colaração avermelhada, com sinais de vascularização acessória em formação, textura lisa e consistente, indolor e  de crescimento rápido (figuras 2 e 3).  Após anamnese com avaliação minuciosa do histórico da paciente,foram solicitados exames de imagem (figura1), e a conduta abordada foi a realização de uma biopsia incisional (em que apenas um fragmento da lesão é enviado para análise), cujo laudoapresentou diagnóstico de Lesão Mesenquimal Fusiforme Ricamente Vascularizada. Ao Exame Macroscópio constatou-se formação nodular medindo 2,4×1,3×1,3cm, constituída aos cortes por tecido firme, denso e esbranquiçado. Incluindo todo material. Ao Exame Macroscópio os cortes histológicos mostraram fragmentos de mucosa malpighiana recobrindo, parcialmente, lesão mesenquimal fusiforme sem pleomorfismo nuclear e com crescimento angiocêntrico.Ao Laudo de Exame Imunoistoquímico foram submetidos os cortes histológicos, com os respectivos controlespositivos e negativos em sistema automatizado, com recuperação antigênica no PTlink (Dako®) e incubação, revelação e contra-coloração no Auto-Stainer Link 48 (Dako®), utilizando-se polímero de alta sensilbilidade e anticorpos FLEX “ready-to-use”. Houve a detecção de células malignas e o diagnóstico de linfoma de Burkitt; e a paciente foi encaminhada para o setor de oncologia do serviço público de Sorocaba. O tratamento realizado foi remoção cirúrgica total da lesão (figuras 4, 5, 6 e 7), incluindo elementos dentários comprometidos pela margem da lesão (21/22/23/24 e 25) seguidos de 6 ciclos de quimioterapia por cada 21 dias, não sendo necessário radioterapia.Apresentou boa resposta ao tratamento quimioterapico e total remissão da doença. Foi confeccionada prótese bucomaxilofacial , respeitando o aspectos sociais da idade e fatores biopsicossociais da paciente, reabilitando seu rebordo ósseo alveolar perdido e seus elementos dentários inerentes a lesão O caso está sendo acompanhado, sem evidência de recidiva 3 anos depois.

DISCUSSÃO

Os linfomas representam cerca de 10% de todas as lesões malignas que acometem crianças próximo aos 15 anos de idade. Sessenta por cento destes linfomas são do tipo não Hodgkin destacando entre eles o Linfoma de Burkitt por suas características clínicas, histopatológicas e epidemiológicas. O linfoma de Burkitt é um tumor rapidamente agressivo e raro, que ocorre em um estágio prévio de diferenciação da célula. A apresentação clínica inicial e mais característica da forma endêmica é o acometimento dos maxilares, enquanto na forma não endêmica apresenta-se mais comumente como uma massa abdominal de rápido crescimento (SHAPIRA; PEYLAN-RAMU, 1998). Figueiredo; Pereira Pinto; Freitas (1993) em estudos de 11 casos do Estado da Paraíba observaram acometimento dos maxilares em 6 casos correspondendo a 54,5%, porém Sandlund et al. (1997) em estudo de 92 casos do Estado de Pernambuco observaram que o envolvimento dos maxilares foi raro, ocorrendo apenas em 3 casos correspondendo a 3,26%. Contudo, o envolvimento dos maxilares é ressaltado em vários outros estudos (MELO; YURGEL; LORANDI, 1997; SHAPIRA; PEYLAN-RAMU, 1998; ARKEDIAN et al., 1999). A maior ocorrência do Linfoma de Burkitt se dá em crianças tanto na forma endêmica como na forma esporádica. Figueiredo; Pereira Pinto; Freitas (1993), observaram que a primeira década de vida foi a mais atingida. Araújo et al. (1996) em estudos de casos do Estado da Bahia observaram uma média de idade de 6 anos e Melo; Yurgel; Lorandi (1997), relataram um caso de pacientes com 3 anos de idade. O LB associado á imunodeficiência representa de 30 a 40% dos linfomas não Hodkgin em pacientes HIV positivos, podendo ser uma manifestação da Sindrome da Imunodeficiência Adiquirida (SIDA). Manifestações bucais incluem odontalgia atípica e severa, mobilidade dentária, expansão óssea, massas de tecido mole ou neuropatia craniofacial inexplicável (LIDDEL, 2008).

Figura 1- Radiografia do crânio

Fonte: Dra. Joelma Florêncio Oliveira Moraes

Figura 2 – Tumor de Boca

Fonte: Dra. Joelma Florêncio Oliveira Moraes

Figura 3 – Tumor de Boca

Fonte: Dra. Joelma Florêncio Oliveira Moraes

Figura 4 – Sete dias após remoção cirúrgica

Fonte: Dra. Joelma Florêncio Oliveira Moraes

Figura 5 –Dez dias após remoção cirúrgica

Fonte: Dra. Joelma Florêncio Oliveira Moraes

Figura 6 –Cicatriz cirúrgica

Fonte: Dra. Joelma Florêncio Oliveira Moraes

Figura 7 – Três anos depois da remoção cirúrgica

Fonte: Dra. Joelma Florêncio Oliveira Moraes

Figura 8- Radiografia após remoção de tumor

Fonte: Dra. Joelma Florêncio Oliveira Moraes

CONCLUSÕES

O linfoma de Burkitt é uma rara neoplasia, mas que mostra afinidade pelos maxilares, principalmente na primeira decáda de vida do paciente. Esta patologia tem de ser apontada como a possibilidade diagnóstica de lesões de um rápido crescimento, aspecto radiográfico de limites inderteminados, localizadas em maxila ou mandíbula e que possibilita ocasionar uma tumefação importante e mobilidade de elementos dentários. O diagnóstico é obtido através do exame histopatológico definitivo.Quando identificadas precocemente, apresentam potencial de cura associada e/ou não á quimioterapia.Uma vez que a  incidência na cavidade oral é frequente, a atuação multidisciplinar com a atual maior inserção da Odontologia em diagnosticar as manifestações bucais do linfoma deve se fazer necessária, pois o cirurgião-dentista pode ser o primeiro profissional a diagnosticar esta doença e encaminhar o paciente o mais precocemente para tratamento.

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[1] Mestrado na área de estomatologia pela PUC- Minas, Especialização em Cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial pela Fapes-SP, graduação em odontologia pela UEL – Universidade Estadual de Londrina.

[2] Especialista em Cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial, Especialista em Implantodontia, graduação em odontologia.

[3] Orientador. Doutor pelo departamento de cirurgia, prótese e traumatologia bucomaxilofacial pela Faculdade de odontologia da USP, Mestre pelo Instituto de Ortopedia e traumatologia da Faculdade de medicina da USP, Especialista em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial, Especialista em Dor orofacial e disfunção de ATM, Especialista em harmonização orofacial, Graduação em odontologia.

Enviado: Março, 2021.

Aprovado: Maio, 2021.

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