O Ciclo da Borracha na Literatura Amazonense – Uma Análise da Obra “Um Punhado de Vidas-Romance de um Soldado da Borracha” de Aristófanes Castro.

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O Ciclo da Borracha na Literatura Amazonense – Uma Análise da Obra “Um Punhado de Vidas-Romance de um Soldado da Borracha” de Aristófanes Castro.
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TRAJANO, Leina da Silva [1]

SANTOS, Julius François Cunha dos [2]

TRAJANO, Leina da Silva; SANTOS, Julius François Cunha dos. O Ciclo da Borracha na Literatura Amazonense – Uma Análise da Obra “Um Punhado de Vidas-Romance de um Soldado da Borracha” de Aristófanes Castro. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 04. Ano 02, Vol. 01. pp 191-207, Julho de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

Traçamos nesse artigo considerações, sobre as influências do ciclo da borracha. Na Literatura Amazonense e nos costumes da sociedade amazonense no final do século XIX. Nessa fase os autores como: Ferreira de Castro, Roberto Teófilo, Samuel Benchimol, Álvaro Maia, Rogel Samuel, Márcio Souza, abordaram em suas obras, o quadro social, econômico e político que se encontrava o Amazonas nessa época. E o presente artigo, tem por objetivo evidenciar um processo histórico permeado por progressos, lutas, explorações, tensões, migrações e declínio, retratados no romance “Um Punhado de Vidas”, de Aristófanes Castro, que apesar de ser uma obra de cunho ficcional, é comprometido com a justiça e com os oprimidos.

Palavras-chave: Borracha, Migrantes, Literatura, Sociedade.

1. Introdução

Escritores do Brasil inteiro exploraram os aspectos econômicos, culturais e sociais de suas regiões através de suas obras. Isso está bastante presente, por exemplo, no movimento modernista, com Vidas Secas, de Graciliano Ramos e O Garimpeiro, de Bernardo Guimarães, dentre outros. No início do século XX os escritores amazonenses também começaram a desenvolver uma literatura regionalista, agora voltada par o ciclo econômico da borracha.

Na intenção de compreender um pouco mais da história do Amazonas, durante o apogeu da borracha, através das literaturas dos escritores dessa região, defrontamos com Um Punhado de Vidas, de Aristófanes Castro, um romance ambientado na década de 30, onde encontramos uma Manaus paralisada economicamente. Esta é uma das muitas obras literárias amazonenses que abordam o período de exploração extrativista. É uma obra ilustrativa das preocupações sociais, que também retrata a decadência desse ciclo, e faz uma denúncia ao modelo de sociedade que subtrai dos trabalhadores o direito de viver com dignidade, privando-os dos sonhos e acabando com suas esperanças.

Para entender melhor a intrínseca relação entre ficção e história, recorremos aos conceitos de Leonardo Affonso e Sidney Challoub que nos revela: “para historiadores a literatura é, enfim, testemunho histórico” (CHALLOUB & PEREIRA, 1998, p.6). E, assim, a obra é a expressão de uma realidade transfigurada de um tempo, ligando a experiência do escritor sobre sua época. Aristófanes Castro era um escritor preocupado com a realidade social brasileira, no seu romance constrói uma crítica ao capitalismo e ao mesmo tempo exalta o socialismo. Segundo J.M. Gomes de Almeida “os escritores agora parecem mais preocupados com o questionamento direto da realidade do que com a renovação da linguagem narrativa” (ALMEIDA, 1981, p. 12). Este é o papel do autor social questionar a realidade e dar ênfases as críticas presentes nas obras para que possamos tê-las como guia e assim podermos compreendê-las e analisá-las.

Portanto, Um Punhado de Vidas foi escolhido, dentre tantas obras que narram sobre o ciclo da borracha no Amazonas, por ser um romance ambientado na década de 30 que trata do social e histórico da região, representando a realidade daquele momento, da relação entre os coronéis e os seringueiros, a vida subumana que levavam, nos convida a despertar a consciência crítica dos trabalhadores e a viajar pelos caminhos da selva amazônica seguindo os passos dos “nordestinos” na região Norte.

 2. O Contexto Histórico do Ciclo da Borracha dentro da Literatura Amazonense.

No período áureo da borracha no Amazonas, em meados do século XIX e na primeira década do século XX, a região Norte vivia um novo tempo, essa era uma época de estabilidade política e progresso econômico, pois já havia passado por grandes tribulações políticas, Era o momento de “poder respirar sossegado” (SOUZA, 1994, p. 134). Então os acontecimentos para melhoria da Amazônia começaram a surgir para facilitar a chegada das pessoas nestas terras, até o momento tão distante, e apenas conhecido como uma terra inexplorada, que permeava o imaginário das pessoas por aquilo que era narrado através de prosas, contos e histórias. Esses fatos de grande importância que surgiram, foi para que o Amazonas tivesse maior visibilidade não apenas no território brasileiro, mas sim também em todos os países.

O primeiro acontecimento foi à criação da Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas, sob a iniciativa de Barão de Mauá. As linhas regulares foram iniciadas em 1852, com três pequenos vapores, intensificando o comércio entre duas províncias brasileiras e o Peru. O segundo acontecimento, de algum modo consequência do primeiro, foi o decreto imperial abrindo o Rio Amazonas ao comércio de todas as nações, assinado em 1867 (SOUZA, 1994, p. 134).

A Manaus do período da borracha, que até então vivia com suas vilas de poucas casas, palafitas e casas flutuantes, agora se modernizava com o advento da borracha, passava por transformações, nas quais as elites não mais se contentavam com a vida pacata e tranquila, ou seja, com a vida provinciana, e começaram a se identificar com a representação da Belle Époque. Como o Rio Amazonas havia sido aberto para o comércio do mundo, ficou mais viável a importação e exportação de produtos, daí a influência adquirida pela sociedade local, pois o comércio da borracha vinha provocar inquietudes.

(…) cada salto na cotação da bolsa de Londres que a borracha sofria era uma erupção na placidez provinciana. Passo a passo, o enriquecimento conjurava o marasmo e representava uma conquista do refinamento civilizado […] (SOUZA, 1994, p. 134).

A seringueira é uma árvore dadivosa, que mexeu com o imaginário amazônico. Ela é um símbolo de vida, de prosperidade, riqueza para muitos, especialmente para os senhores donos de terras, conhecidos, naquele momento, como coronéis da borracha ou coronéis de barranco. Era considerado o “ouro branco” que movia a região Norte, até que chegou ao seu apogeu. Foi nesse momento que as contradições sociais afloraram, tornando visíveis as tensões do processo histórico. Manaus passou a ser um grande centro comercial exportador e importador, logo a cidade precisou se adaptar as exigências econômicas e sociais como sonhava o então governador Eduardo Ribeiro “… movimentando um fabuloso erário público, sonha com uma Manaus imensa, urbanizada e próspera, como uma Paris dos Trópicos” (SOUZA, 1994, p.135). Então, Manaus ficou atraente àqueles que frequentavam a negócios ou àqueles que ali pretendiam estabilizar-se definitivamente. Na ocasião da transformação ela ficou realmente conhecida como a Paris dos Trópicos.

Percebe-se que, com essas transformações, e as contradições da vida moderna, houve a exclusão de muitos e privilégios para poucos. Aumentam as tensões sociais e diminuem os meios de sobrevivência para a população menos favorecida. Com o intuito de proclamar Manaus como a capital da borracha, é que o poder público começa a criar uma política de pressão, exclusão e dominação contra grupos de pessoas que não se enquadram nos valores da elite local, ou seja, excluir do espaço urbano pobres, desocupados, doentes, prostitutas, mendigos e outros: “numa cidade de fausto, a pobreza, a doença, a vagabundagem, agrediam e ao mesmo tempo ameaçavam a ordem e a harmonia da cidade…” (DIAS. 2003. p, 132). Assim, começam conflitos a pessoas que foram postas de lado, não se conformando com essa situação, começam a manifestar suas insatisfações através de protestos, denúncias contra a falta de abastecimento de água, contra altos preços dos produtos de primeira necessidade, a falta de iluminação pública, porque apenas a parte central era urbanizada, aonde viviam os nobres da capital. Manaus e Belém foram as únicas cidades brasileiras que vivenciaram o internacionalismo da belle époque, que foram trazidos pelos coronéis da borracha. Enriquecidos pelo leite da seringueira, eles resolveram romper com costumes coloniais e com o isolamento do barracão central, que ficavam no centro das florestas. Assim, cansados de viver longe da vida urbana, constituíram lindas casas na cidade, mas seu casarão central continuava mantido.  Muitos coronéis de barranco, em especial da região amazônica, eram tidos como o senhor absoluto de seus domínios. Era o patrão, que controlava a vida de todos os seringueiros. Grandes monstruosidades aconteceram nesse período, eram explorados, obtinham dívidas a partir do momento em que embarcavam nos vapores rumo a tão sonhada fortuna.

Nesse momento, autores como Euclides da Cunha denunciam a exploração dos seringueiros na floresta. Ele foi considerado o pioneiro a arguir contra as mazelas sofridas pelos soldados da borracha nas mãos dos seringalistas. Por volta de 1905, ele pede:

Urgência de medidas que salvem a sociedade obscura e abandonada: uma lei do trabalho que nobilite o esforço do homem; uma justiça austera que cerceie os desmandos; uma forma qualquer de homestead que o consorcie definitivamente a terra (CUNHA, 1909, p. 140).

Segundo Márcio Souza, Euclides da Cunha passa a ser visto como “um pobre demente que não sabia o que dizia numa literatura confusa” (1994, p. 140), ele tinha objetividade nas conclusões, oriundas sempre da observação direta da realidade enfocada e de análises percucientes [3] e honestas, expostas com a coragem de um escritor participante, que só tinha compromissos com a verdade.

O ciclo da borracha promoveu o desenvolvimento cultural no Amazonas, entre os anos de 1890 e 1914. As cidades de Belém e Manaus investiram em óperas, saraus, temporadas líricas anuais. O Teatro Amazonas inaugurado em 1896 é símbolo dessa opulência, a Academia Amazonense de Belas Artes fundada em 1910 e também a Escola Universitária Livre de Manaus, a Amazônia começou a produzir escritores como José Eustásio Rivéra, Inglês de Souza, pioneiro do naturalismo, e poetas como Jonas da Silva, Paulino de Brito, Raimundo Monteiro, José Veríssimo, Domingos Antônio Raiol, Ferreira Pena, Lauro Sodré e Sant’Ana Nery.

No entanto, entre os anos de 1937 a 1945 aconteceu a Segunda Guerra Mundial. Era época da ditadura de Getúlio Vargas, e todo esse evento deixou a sociedade inquieta fato que refletiu nas expressões literárias. Foi nessa geração que a literatura passou a ser mais voltada para a realidade social brasileira e passa a exigir dos artistas uma nova postura diante da realidade e uma oposição aos fatos que desencadeou uma ruptura com o passado. Então, os romances começam a surgir carregados de denúncias. Foi a forma que os escritores brasileiros encontraram para expor seus ideais, nesse contexto, o regionalismo que teve grande importância na literatura: “Nessa fase retratando a seca no Nordeste, a migração, os problemas do trabalhador rural, a miséria e a ignorância através dos romances” (CADORE, 1994, p. 364). Na região Norte não foi diferente, apenas muda-se o foco. Os autores amazonenses passam a salientar todo o contexto ocorrido na fase áurea da borracha e esse argumento é amplamente explorado pela ficção amazônica. Muitas obras foram escritas fazendo alusão integral ou parcial do ciclo como O Paroara (1899), de Rodolfo Teófilo; À Margem da História (1909) Euclides da Cunha; A Selva (1930), de Ferreira de Castro; Terra de Ninguém (1934), de Francisco Galvão; Um Punhado de Vidas (1949), de Aristófanes Castro; Beiradão (1958), de Álvaro Maia, entre outros. Por meio dessas obras e outras mais, o ciclo da borracha tornou-se um tema bastante estudado e conhecido na Literatura Amazonense.

3. A Imigração dos Nordestinos para o Amazonas

 No governo Vargas em 1943, foi criada uma corrente migratória para a Amazônia, ao qual foi chamada de “Batalha da borracha”, que tinha como objetivo recrutar homens de todas as regiões brasileiras para o corte da seringa. Migrantes esses que em sua grande maioria eram oriundos do Nordeste, que segundo Samuel Benchimol “aqui genericamente conhecidos como cearenses” (Benchimol. 1999 p.135), migraram em consequência da seca, e ou também, apenas com o intuito de aventurar e fazer fortuna com o látex. O surgimento do ciclo da borracha transformou-se em um grande atrativo para as populações do Nordeste, especificamente do Sertão nordestino.

(…) procediam geralmente das zonas do agreste do sertão do Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e outros Estados Nordestinos, sendo tangidos pela seca-imigração por fome-, ora simplesmente atraídos pelo apetite de seringa-imigração por cobiça, fortuna e aventura, ou simultaneamente por ambos (BENCHIMOL. 1999, p, 136).

As imigrações nordestinas, sempre tiveram ligações com os conflitos rurais, pois esses períodos de grande estiagem causavam grande impacto, tanto na agricultura, nos recursos hídricos, no meio ambiente e está relacionada com fome e mortes no sertão. A estiagem provoca êxodo rural, deixa o campo esvaziado, empobrecido, e os sertanejos são forçados a imigrar para os grandes centros urbanos, estabelecendo-se na periferia das cidades Essa era a única forma de escapar de uma possível fatalidade, uma vez que há relatos, que na grande seca do século XIX e XX, milhões de sertanejos morreram. Então se formaram os movimentos contínuos de pessoas para os Estados da Amazônia incentivados pelo governo (Souza; 1978), visto que, os governos brasileiros e estrangeiros tinham uma visão deturpada da Amazônia, como uma terra inculta e selvagem um verdadeiro inferno verde (LIMA 2014, p. 59), a partir desse conceito a região norte fora julgado como, habitado por pessoas preguiçosas e incapazes de procurar e incentivar o progresso para a Amazônia, essa ideia foi que levou o governo militar a incentivar a imigração ou o deslocamento de pessoas de todas as regiões do Brasil, principalmente da região Nordeste, para a região Norte, que era considerada também uma terra sem povo, muita terra para pouca gente, como se refere o bordão “TERRA SEM HOMENS, PARA HOMENS SEM TERRA”(LIMA. 2014 p. 61), foi criado com o propósito de o governo estimular a imigração, mas a real intenção do governo Vargas era explorar a mão de obra nordestina com o intuito de aumentar a produção da borracha na Amazônia.

Houvera duas correntes migratórias nesse período, a primeira se deu por causa do flagelo da seca que expulsava o homem sertanejo, que era constituído em sua maioria por “cearenses” que partiam com sua família. A segunda, em decorrência do envolvimento do Brasil com a II Guerra Mundial, entre os anos de 1943 até 1945, quando teve que mandar contingente para a linha de frente e assim assinou o acordo chamado de Acordo de Washington, em que o Brasil concordava vender toda a sua produção de borracha para uma empresa americana, e para aumentar essa produção precisaria de mais mão de obras e assim foi criada a “Batalha da borracha”, onde foram incorporados os “soldados da borracha”, um considerável contingente de cearenses, paraibanos, pernambucanos, rio grandenses, dentre outros, que em sua grande maioria eram compostas por homens solteiros, desempregados e motivados pelas promessas do governo, pelos boatos, ou pelo simples sabor da aventura. Esses nordestinos com seu instinto de pioneirismo, e movidos pelas necessidades e dificuldades que a aridez do sertão os faziam passar, deslocaram-se de sua terra de origem, abandonando a sua “pátria”, às vezes mulher, filhos e toda a sua parentela, para então embrenhar-se na selva, abrindo trilhas, em busca do ouro vegetal, a seringueira. Sabe-se que muitos seringueiros com a ganância de aumentar seu lucro, saíram do Amazonas, para eles acompanharem de perto o recrutamento dos chamados “soldados da borracha”, propagando que receberiam uma considerável quantia em dinheiro, teriam direito a moradia e acompanhamento médico, e para quem tinha família, eles não ficariam desamparados, uma formar de iludir e recrutar homens para trabalhar nos seringais amazônicos como demonstra as palavras de Samuel Benchimol.

(…) vinha para a Amazônia com o simples sabor de aventura, muitos estimulados pela passagem de graça nos navios Lloyd, pelas promessas do governo, dos boatos e anúncios de imigração e recrutamento, ou como alternativa para fugirem à convocação para a Força Expedicionária Brasileira, que lutava na Itália (BENCHIMOL. 1999 p. 166).

O imigrante nordestino percorreu um caminho muito grande de sofrimento na Amazônia, muitos foram vítimas das calúnias, pois além de pais de família, muitos homens solteiros e até de cadeias públicas foram selecionados para trabalharem nos seringais, porém nem todos foram colocados, de 11.000 apenas 900 e os que sobraram, ficaram pelas cidades de Manaus e Belém, fazendo “arruaças”, “badernas” e dessa forma denegrindo a imagem dos migrantes nordestinos, causando medo nas populações dessas cidades e recebendo nomes pejorativos ou apelidos de arigós, aves de arribação, santo-desordeiro-milagroso, valentão, flagelados e retirantes, sendo assim, os “soldados da borracha” passaram a serem mal vistos por todos como ilustra a citação abaixo:

Enquanto isso, a outra corrente, a partir de 1943, viajando mais a sabor da aventura, constituída de brasileiros cosmopolitas e urbanizados, já sem vínculos regionais, desenraizados, sem afeição à sua “querência”, viria criar sérios problemas de adaptação e integração ao novo meio ambiente, a partir de suas cheganças. A psicologia e a intenção era mais de “chegar-ver-e-voltar-logo-que-possível”, já a outra era “ chegar-enricar-e-voltar-se-Deus-permitir”. Na possibilidade do regresso, essas novas levas de imigrantes, mal chegados, fugiam das hospedarias e dos albergues de recepção (…) muitos se marginalizavam logo, outros desafogavam o desespero no crime, na valentia e na cachaça, as crônicas policiais da época registravam essas ocorrências nos jornais da cidade (…) (BENCHIMOL.1992, p. 229).

Isso tudo era medo do desconhecido, por que a maioria da população local desconhecia o sofrimento que os migrantes sofriam nos acampamentos, e mesmo antes de chegarem aos seus respectivos destinos, eram embarcados amontoados nos porões dos navios Lóide, que eram comparados aos navios negreiros, só que mais modernos, eram amontoados nas hospedarias, albergues, depois seguiam rio acima, embarcados nos gaiolas, para os seringais dos altos e baixos rios, e mesmo antes de começar a trabalhar no cultivo do látex, já possuíam dívidas, que com o passar do tempo aumentava, conforme Euclides da Cunha “o seringueiro trabalhava para escravizar-se” (Apud, BENCHIMOL, 1992, p. 141). A viagem era longa e cansativa, muitas vezes faltavam suprimentos, para alimentar muitas pessoas, antes de embarcarem, eram movidos por um sonho, e por uma ilusão, que o governo fazia questão de propagar nos postos de “aliciamento”, como a seringueira seria a sua mudança de vida, que precisaria apenas colher os frutos da mesma, e mostrando propagandas em que a folha dessas árvores era comparada a notas de dinheiro, e dessa forma, ficariam ricos e poderiam proporcionar uma vida melhor aos seus familiares, e ainda tinham a promessa que não correriam risco de vida ao escolherem alistar-se para assim “servir à pátria”.

Muitos ao desembarcarem nos portos de Manaus e Belém, já chegavam acometidos de alguma doença, eram maltratados e humilhados, outros adoeciam nas hospedarias que eram jogados, e também morriam de saudades de sua “terra”, de sua “gente”, no entanto ao chegarem aos seringais percebiam que a realidade era bem diferente daquilo que lhes fora prometido, que tudo aquilo que lhes fora prometido, que tudo não passava de um engodo para que aceitassem melhor, a ideia de viver e trabalhar em um local até então desconhecido de muitos. Mas houve também aqueles que conseguiram classificar-se socialmente e economicamente em meio a tanto sofrimento e a duras jornadas de trabalho, todavia, eles eram pessoas obstinadas, possuíam um espírito de pioneirismo e o principal tinha a vontade de viver, então como a selva foi seu grande mestre, lhes ensinando a sobreviver, visto que, eles começam como, seringueiros, trabalhando duramente, e iam subindo de vida, recebendo todas as promoções que lhe era de direito, como mateiro, capataz, conferente, até chegar à carreira de seringalista que é o topo, e ter essa função, era apenas para aqueles que se sobressaíam pela iniciativa e capacidade de comando, e por seu duro trabalho e dedicação, e não era fácil ser administrador de um seringal, visto que, eram responsáveis pelo treinamento e assentamento dos seringueiros, e também incumbidos por tudo que acontecia no seringal e na sede do barracão.

4. Um punhado de Vidas – romance de um soldado da borracha – Análise do romance e dos fatos que assolaram Manaus, quanto à fase áurea da borracha

 É um romance ficcional escrito em 1939, publicado em 1949 e reeditado em 2001, no qual ilustram as preocupações sociais do autor, denunciando um modelo de sociedade que tira dos trabalhadores o direito de viver com dignidade, privando-os do sonho e acabando com suas esperanças de poder oferecer uma vida digna a sua família e a oportunidade de fornecer o melhor em educação aos filhos.

Essa obra retrata a vida miserável dos imigrantes nordestinos, que viviam em áreas castigadas pelo sol e sofriam com a seca e a falta de alimento, e eram obrigados a se deslocarem de sua terra de origem para outras regiões, com o movimento da borracha, optavam pela região Norte, pois eram iludidos com falsas promessas, e ao chegarem à região Amazônica são apresentados a um cenário predominantemente selvagem, ladeadas de mistérios e perigos, levando seus desbravadores a conhecê-la intimamente, ao mesmo tempo em que a floresta os protege, ela também os agride, levando embora toda a esperança de se verem livres desse “inferno”. A obra pertence à segunda fase modernista, conhecida como regionalista, o diferencial desse livro para os demais da época é uma obra de grande teor ficcional, baseado em fatos narrados por pessoas ligadas direta e indiretamente a esse grande evento extrativista que foi o ciclo da borracha. E também uma população manauara carente, de escolas, saúde, trabalho, na década de 30 e 40, houve a quebra do monopólio da borracha e quem sofre as consequências foi a classe proletarizada com o alto índice de desemprego, com isso alguns barões do látex abandonavam seus palacetes que começavam a ruir, a ruas de Manaus enchiam-se de buracos e toda sua infraestrutura de serviços públicos entraram em colapso, e a cidade que era tida coma a Paris dos trópicos, começou a ruir, ficar feia e isolada. A penas em 1962 Manaus receberá de volta a eletricidade e um pouco da sua estabilidade econômica.

Aristófanes Castro ao explorar a temática regionalista, utiliza vários expedientes formais, como o discurso indireto livre, narrativa não-linear, nomes dos personagens, que confirmam literalmente as denúncias das mazelas sociais que o autor pretende fazer. Essa obra consegue mostrar muito bem a vida sofrida do imigrante desde o seu embarque nos grandes navios, nos porões, chamados de terceira classe (pois a primeira era destinada as pessoas importantes daquele período), até a chegada ao seu destino. A narrativa começa quando o Personagem João Petronilo, deixa o Ceará, sua esposa e filha em busca de sua mudança financeira, embarcado em um gaiola[4] e passa a perceber  as mudanças bruscas que começará a sofrer, porém tudo que lhe foi prometido, realmente não passa de meras promessas, no acampamento cearense, antes de embarcar, se submeterá a exames médico, e estando apto a aumentar o contingente de soldados da borracha, recebera o seu fardamento de herói, duas calças de mescla de carregação e um blusão americano (Castro.2001, p.15), logo percebe que, tudo que foi divulgado por meio de artigos e cartazes era diferente do que estava acontecendo, mas a vontade de ir para o Amazonas era tanta, que logo seus pensamentos eram substituídos. Conforme o navio ia se distanciando tudo mudava como relata o trecho a seguir:

(…) médico e enfermeiro para cada grupo de homens, um mito; remédio em abundância, estória fiada; comida de primeira, “bóia” cheirosa e bem temperada, paisagem morta de quadro a aquarela, mais morta ainda com o desbotar da tinta. A tristeza se aguçará e o desânimo com o decorrer dos dias se açulara (CASTRO, 2012, p.16).

Percebe-se na obra que, o narrador vê a necessidade de manter a verossimilhança e demonstrar nessa narrativa os pormenores que acontecia naquele período áureo da borracha. Os personagens João Petronilo, cearense do Crato e José Vicente 19 anos cearense do Icó, retratam a figura do imigrante nordestino, que foi aliciado com promessas de fazer fortuna nos seringais, e poder dar uma condição de vida melhor para suas famílias ao retornarem a sua terra natal. Isso raramente acontecia, pois já começavam a viagem devendo, e por mais que trabalhasse duro, jamais conseguiriam pagar essa dívida, e mesmo que conseguissem não saíam vivos, eram mortos pelos capatazes, ou morriam vítimas de doenças.

Aristófanes Castro utilizou um discurso indireto livre, de forma híbrida que as falas dos personagens se misturam ao discurso do narrador em terceira pessoa. Essa foi a forma que o autor encontrou de registrar seu protesto a partir de suas convicções e tecer críticas a realidade que Manaus se encontrava naquele período. A obra faz um relato da escravidão, do sofrimento e da extorsão presente nos seringais e de quebra do monopólio da borracha pelos ingleses, deixando Manaus em decadência e abandonada como narra o autor.

Quando a borracha atingiu 50 centavos o quilo, disseminando falência e centenas de seringais, em todos os rios, entregues ao mato, completamente abandonados, os seringueiros procuravam as cidades atrás de trabalho. (CASTRO, 2001, p. 4).

Os nordestinos quando chegavam era chamados de “cearenses” ou “brabos”, cearenses para a população da cidade e brabos porque chegavam aos seringais revoltados, desiludidos e amedrontados por terem sidos ludibriados, e assim com os caboclos aprendiam a serem mansos, sem nenhuma perspectiva de mudança de vida, eles tinham que trabalhar para sobreviver. Porém antes de serem mandados para o seringal João Petronilo e José Vicente (são os personagens que aparecem primeiro na narrativa) foram levados para uma hospedaria que ficava próxima a Casa de Alienados Eduardo Ribeiro, casarão enorme (CASTRO,2001, p.44). Nessa hospedaria que foi construída toda em madeira, eles conhecem o seu “Raú”, Raul Teixeira, homem que tinha certa cultura, e por isso era uma espécie de líder, acadêmico, cearense de Baturité, filho do Coronel Teixeira dono de plantação de algodão, meteu-se entre os imigrantes porque queria obter material sólido para escrever um livro sobre o Amazonas, que era incompreendida lá fora, queria mostrar como realmente os imigrantes viviam ao chegar ao norte do país e desmitificar a visão que as pessoas de outras regiões do país tinham, queria conhecer o Amazonas não como fidalgo, como nobre, mas sim como imigrante. É através de Raul, que José Petrolino e Zé Vicente irão conhecer a cidade de Manaus e vivenciar as problemáticas dessa cidade, o autor através desses personagens, mostra exatamente uma Manaus abandonada, com estradas esburacadas, os bondes em ruínas, a miséria que a população pobre sofria a luta diária para conseguir uma migalha de pão, a cidade vivia as escuras, e a luz domiciliar iluminava menos que uma lamparina. Porém par deixar a estória mais leve, o autor propõe um romance entre Raul e Vera Maria, estudante do IEA (Instituto de Educação do Amazonas), que tinha um irmão chamado Antero que se tornará amigo irmão de Raul que é o personagem central dessa estória. Enfim chega o dia em que Petronilo e Zé Vicente são embarcados rumo ao seringal, o primeiro é designado para o seringal no Rio Purus, Zé Vicente teve outro destino, o Acre.

Nesse momento o autor mostra o sofrimento do imigrante nordestino, que deixou uma vida em sua terra de origem para enfim encontrar a “felicidade” no Amazonas. Em virtude disso, Raul promete a Vera Maria voltar dentro de um ano, pois agora era chegado o momento de embarcar para o seringal Natal, a bordo do Manauense, carregado de nordestinos, muitos já se encontravam enfraquecidos, devido o desconforto da viagem, a maior parte quase sempre não conseguia chegar ao seu destino. Entretanto muitos ao chegarem a Manaus, preferiam ficar na cidade, trabalhando nas fábricas de beneficiar a borracha ou de bebidas gasosas, pois esse período não havia mais a lei da força em alguns seringais por esse ser o período da II Batalha da Borracha, que teve início em 1940, a primeira batalha deu-se no período de 1850 e 1815 e foi marcado por angústia, sofrimento, solidão e a segunda era o despertar da nacionalidade para o Amazonas, contudo, o apogeu da borracha distanciou o Amazonas dos outros estados “vivenciando um estilo europeu, uma mentalidade colonialista uma cidade construída a partir do sonho e do delírio burguês”( SOUZA, 2003, p. 116). Raul que já se encontra no seringal Natal viu que as histórias que lhe era relatada eram verdadeiras, além disso, ele tinha que ficar atento para sobreviver, tudo era diferente da sua vida de nobreza, a princípio tinha que tomar cuidado na extração do látex, para não matar a árvore, cuidado com aqueles homens rudes, leais quando amigos e traiçoeiros quando inimigos, e trabalhar duramente para adquirir sua alimentação.

Esse romance tem algumas temáticas que se compara com A Selva de Ferreira de Castro, como Alberto que era um jovem monárquico, e Lourenço que é uma personagem representativa na narrativa, o único caboclo que vive no seringal povoado por nordestino, em Um Punhado de Vidas, tem Raul um jovem nobre, e Sebastião um caboclo forte, trabalhador, com quem Raul foi morar e aprender a manejar o facão e a defumar a borracha, Sebastião era um homem sem grandes ambições, com isso o autor mostra uma visão de um homem indiferente com a realidade fora dos seringais e acomodado, que ressurge nos dias atuais. Outro fato que pode ser comparado com o romance A Selva, é o nível de selvageria que se formam nas paragens do seringal, em quê, tanto Alberto (A Selva), quanto Raul, que são homens cultos e de certa “educação civilizada”, sofrem com o impulso e o desejo de possuir uma mulher, e assim desfazendo todas as suas convicções, como a promessa que fizera de retornar e casar com Vera Maria, e de conseguir driblar a solidão, mas seus desejos eram tantos que ele não resistiu e atacou uma menina de treze anos, embora tenha se arrependido, mas ali percebeu que não era diferente dos demais, ele era tão selvagem quanto os seus companheiros do seringal. Um Punhado de Vidas é um romance ambientado parte em Manaus, e parte na selva no seringal Natal, onde o personagem vivencia todo tipo de sentimento, e registra tudo de forma que possa narrar em sua obra sobre o Amazonas, quando voltar a sua terra natal.

Por fim, Raul sofre, pois recebe notícias que seus conterrâneos não terão a alegria de rever suas famílias, e que sua amada Vera Maria morre vítima de doença do peito, ou seja, tristeza, mas também tem momentos de alegria, quando descobre que aquela menina que ele possuiu a força está grávida e ele vê a chance de corrigir o seu erro, casando-se com Raimunda, mas a felicidade dura pouco, logo acontece um grande temporal, que devasta tudo que ver pela frente e um barulho de terra caída leva o rapaz ao desespero, porque seu barraco coberto de palha onde está sua mulher grávida perto de parir, é arrastado por uma enorme avalanche de terra e nada mais poderia ser feito, a não ser esperar esse tempo que é típico da região Amazônica acalmar, entristecido o rapaz encontra o corpo de sua mulher e nesse momento o autor faz uma reflexão a respeito da superioridade, da selva sobre o homem, que tenta de qualquer forma expulsar os invasores, e seus agressores, são relatos comuns nas literaturas sobre a Amazônia, a floresta ser vista “ora como inferno, ora como paraíso” (BENCHIMOL, 1992, p 81). Portanto tendo passado por tanto sofrimento e ter sentido como era a vida do homem no seringal, Raul resolve voltar, e nesse momento o autor faz uma alusão ao exército de imigrantes nordestinos sacrificados na batalha da borracha, maltrapilhos, famintos, tuberculosos, fracassados, em sua visão eram todos, um só corpo humano gigante.

Assim ele retorna a Fortaleza e com ele todo o fracasso vivido no Amazonas, a miséria, o sofrimento e os dias em meio a floresta. Em virtude do que foi mencionado o autor encerra seu romance com o personagem refletindo a respeito da realidade social, daquele momento que faz vir à memória a revolta e a profunda consciência social do autor.

4.1. O Autor

Aristófanes Bezerra de Castro Filho nasceu no Acre em 1917, e faleceu em 30 de dezembro de 2014, aos 66 anos vítima de leucemia.

Bacharelou-se em Direito pela Universidade do Amazonas, foi jornalista, colaborou por vários anos nos jornais de Manaus. Escreveu uma crônica intitulada Adeus à Zona, publicado pela Editora Valer em 2000, escreveu também a crônica, Adeus ao Patriarca e Ferro em Brasa. Além dessas duas profissões era romancista, suas obras são: O Transviado (1948), Um Punhado de Vidas (1949) e Matadores de Esperança (1959).

Aristófanes Castro era conhecido como “velho” Ari e assim gostava que o chamasse, ele tinha um compromisso insofismável com a educação e formação do cidadão, respondeu quatro inquéritos policiais militar por subversão durante a ditadura de 1964. Tomou posse da presidência da OAB-AM em 2007, onde ficou presidente por três vezes, tinha 40 anos de carreira, foi também secretário geral adjunto do Conselho Federal da OAB por duas vezes, era ético e competente, tinha uma vida voltada aos interesses na classe dos advogados, mas também de toda sociedade amazonense.

Seu romance Um Punhado de Vidas é um livro que se vincula as vertentes inauguradas por Macunaíma, de Mário de Andrade, e a Bagaceiros de José Américo de Almeida. Conforme o autor “a obra literária é a expressão de uma realidade e de um tempo” (CASTRO, 2001, p. 11), ele é bem categórico ao relatar fatos que marcaram seu momento histórico, ele expressa a concepção da vida, do sofrimento e das aspirações do homem diante da opressão e injustiça, sua ideologia era a rebeldia, e uma profunda consciência social de uma Manaus decadente e de um Brasil fracassado, ficando claro a crítica que o autor faz ao capitalismo. Esse romance foi escrito no decorrer da 2ª Guerra Mundial, quando começou o frenesi da Batalha da Borracha, onde o imigrante era induzido a alistar-se para servir os seringais amazônicos.

Essa obra é puramente ficcional, foi escrita através de um trabalho minucioso de pesquisa e observação, diferente de Ferreira de Castro, Aristófanes não se engajou nos seringais, não teve essa experiência, não presenciou de perto o estado de escravidão que vivia os trabalhadores de extração do látex, foi escrita em 1939 e sua primeira impressão foi em 1949, nas oficinas gráficas da antiga Escola dos Artífices de Manaus, hoje IFAM- Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas.

Conclusão

Mário Ypiranga Monteiro argumenta que, “lamentavelmente todo contista que se inicia ou mesmo romancista já experimentado se deixa seduzir pelo denominador comum da economia da borracha” (1976, p.56), ou seja, alguns autores realizaram uma pesquisa mais profunda, outros se basearam em histórias contadas por alguém que viveu no período áureo da borracha, nas fantasias ou delírios que o Amazonas viveu no fim do século XIX, sempre fascinados com tudo que era relacionado a essa fase. Há uma distinção entre o fato descrito pela história e o acontecimento do passado que realmente ocorreu.

A obra Um Punhado de Vidas, trata realmente da vida de várias pessoas, como sugere o título da obra, vários personagens permeiam pelas páginas desse romance, como João Petronilo, José Vicente, Raul Teixeira, Vera Maria, Antero, Sebastião e Raimunda, que se movimentam entre a cidade de Manaus e o seringal, Entretanto toda essa movimentação deixou o Amazonas alienado, e incapaz de se reconhecer culturalmente, o rápido enriquecimento, e as facilidades que o chamado boom da borracha proporcionou para a região norte, fez com que fosse vista de forma extraordinária e fascinante pelas entidades políticas e pelos mercantilistas. No período de 1880 e 1910, aconteceram algumas mudanças na sociedade brasileira, como a mudança da forma de governo, foi feita a Constituição, foi dado início a substituição do trabalho escravo pelo trabalho assalariado (apesar de no Amazonas o abolicionismo haver chegado mais cedo, e a utilização do escravo negro no extrativismo ser pequena), e as fazendas de café e outras lavouras brasileiras modernizaram-se e o Brasil mergulha nesse processo industrial, é claro que todas essas transformações não atingem todas as regiões do país, como o Norte e o Nordeste, por ocorrer de forma lenta.

Quando as primeiras indústrias se instalam nas demais regiões do país, o Amazonas estanca e a cidade de Manaus fica para paralisada economicamente é quando acontece a Batalha da Borracha, e centenas de mãos-de-obra nordestinas desembarcam no porto de Manaus e Belém e são desviados para os seringais. Então essa movimentação do ciclo da borracha, faz com que a cidade de Manaus saia do marasmo para uma vida agitada, segundo Márcio Souza a “Amazônia do ciclo da borracha esquece os padrões limitados do colonialismo português e entrega-se ao romantismo da aventura capitalista” (2003, p.100). Dessa forma a elite local copia os padrões europeus e a cidade de Manaus passou a ser conhecida como a “Paris dos Trópicos”, sonhos ganância, delírios, bordéis finos, altos banquetes, óperas, teatro, saraus e sofrimento, tudo gira em torno do boom da borracha.

Assim sendo, o período da borracha no Amazonas chega ao fim, levando a região Norte a uma estagnação econômica e todos esses eventos servirão de inspiração para escritores modernistas, regionalistas, naturalistas, escrevam seus romances, contos, histórias, até crônicas baseadas em suas vivências diretas na selva, em meio aos seringais, ou por meio de pesquisa feitas através de entrevistas daqueles que viveram naquele momento que é considerado um marco na história do Amazonas. A fase áurea da borracha, o ouro dos novos pobres, que para muitos era tida como “inferno verde[5]”, e com essa pesquisa percebe-se que a Literatura Amazonense não tem uma corrente literária definida e está sempre atrasada com relação ao que se é produzido atualmente.

E quanto aos imigrantes, alguns conseguiram ultrapassar a barreira da pobreza e escravidão, bem verdade que milhares morreram vítimas de doenças e muitas vezes abandonados a própria sorte, sem nenhuma assistência, seja do seu patrão ou do poder público, e o que conseguiram vencer essa guerra, se estabeleceram não apenas como seringalistas, mas saíram em busca de outra forma de ganhar seu sustento, assim foram ficando, constituindo família, e a maioria da população amazonense, e raramente encontramos alguma pessoa que dentre seus ascendentes não tenha um “arigó”, “cearense”, um migrante nordestino que saíram de sua “pátria” para enfim fazer a Amazônia.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, José Maurício Gomes. A Tradição Regionalista no Romance Brasileiro. Rio de Janeiro: Achimé, 1980.

BENCHIMOL, Samuel. Romanceiro da Batalha da Borracha. Manaus: Imprensa Oficial, 1992.

BENCHIMOL, Samuel. Amazônia Formação Social e Cultural. Manaus: Editora Valer/ Editora da Universidade do Amazonas, 1999.

CHALOUB, Sidney. PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda . A História Contada: capítulos da história social da literatura. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

CASTRO, Aristófanes. Um Punhado de VidasRomance do soldado da borracha. 2ª edição revista. Manaus: Ed. Valer/ OAB-Amazonas: Caixa de Assistência dos Advogados, 2001.

CADORE, Luís Agostinho. Curso Prático de Português2º Grau: Literatura, Gramática,  Redação. São Paulo: Editora Ática, 1994.

DIAS, Edinea Mascarenhas. A Ilusão do Fausto: Manaus, 1890-1920. Manaus: Editora Valer, 1999.

CASTRO, José Maria Ferreira de. A Selva. 37ª edição. Lisboa: Guimarães Editores, LDA.

LIMA, Lucilene Gomes. Ficções do ciclo da borracha no Amazonas. Dissertação de Mestrado. Estudo comparativo dos romances: “A Selva” (Ferreira de Castro), “Beiradão” (Álvaro Maia) e “O amante das amazonas” (Rogel Samuel). Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 2009.

LIMA, Frederico Alexandre de Oliveira. Soldados da Borracha- Das vivências do passado às lutas contemporâneas. Manaus: Editora Valer e Fapeam, 20114.

MONTEIRO. Mário Ypiranga. Fases da literatura amazonense. Manaus; Imprensa Oficial, 1977.

MONTEIRO. Mário Ypiranga. Fatos da literatura amazonense. Manaus; Universidade do Amazonas, 1976.

PINTO, Renan Freitas. Viagem das Ideias.Manaus: Ed. Valer,2006

SOUZA, Itamar. Migrações Internas no Brasil. São Paulo. Dissertação de Mestrado, Mimeog, FFLCH/USP, 1978.

SOUZA, Márcio. Breve História da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1993.

SOUZA, Márcio. A Expressão Amazonense – do colonialismo ao neocolonialismo.      Manaus: Ed. Valer, 2003.

[1] Graduando em Licenciatura Plena em Letras (UNINILTON LINS).

[2] Mestre em Letras e Artes (UEA). Especialista em Didática do Ensino Superior (UNINILTON LINS). Graduado em Licenciatura Plena em Letras – Língua e Literatura Portuguesa (UFAM).

[3] Significado de Percuciente: Adj. Que produz percussão.
Fig. Que produz um choque que enseja adesão.
Profundo, penetrante. Classe gramatical: adjetivo de dois gêneros. Percuciente é sinônimo de: agudo e penetrante.

[4] Os gaiolas, pequenos vapores fluviais cujo nome deriva dos camarotes que possuem nas amuradas, são embarcações de elevada superestrutura (construção feita sobre o convés principal), com capacidade para muitos passageiros e 300 a 600 t de carga, 3,60m de calado, 26 homens de guarnição, propulsão a hélice ou a roda, na popa ou lateral.

[5] Referência feita à floresta Amazônia por Ferreira de Castro em seu romance A SELVA

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