ARTIGO ORIGINAL
BARROS, Victor Gomes Soares de [1]
BARROS, Victor Gomes Soares de. Gênero e violência em o Olho Mais Azul: reflexões sobre a beleza e a condição da mulher negra na obra de Toni Morrison. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 10, Ed. 09, Vol. 02. pp 133-145, Setembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/literatura/genero-e-violencia, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/literatura/genero-e-violencia
RESUMO
Este artigo promove um debate sobre raça e gênero em uma análise crítica do romance O olho mais azul, de Toni Morrison, que foi publicado pela primeira vez em 1970, sendo um dos textos ficcionais mais representativos da literatura americana no cenário pós Civil Rights. Tomando como base os estudos a respeito da Teoria da Literatura desenvolvidos por Compagnon (1999) associados às pesquisas de Hall (2009), de Silva (2012) e de outros autores sobre Estudos Culturais e Identidade, pode-se analisar como a escritora trata de temas ligados ao racismo, à violência de gênero e a condição da mulher negra, tendo como espaço diegético a cidade de Ohio, nos Estados Unidos, na década de 1940. Adotou-se a perspectiva dos Estudos Culturais no que se refere ao local de fala da ficção negra norte americana e da subalternidade da mulher negra, proporcionando, por meio de uma metodologia interpretativa-discursiva (Orlandi, 2000), o diálogo entre o texto literário e o escopo teórico, contribuindo com a fortuna crítica acerca do romance. Usando o aporte teórico de Hall (2009) e de Morrison (2019), viu-se como a violência permeia as relações raciais e de gênero, sobretudo da mulher negra, e pode-se, com base nas discussões abordadas, notar que o romance de Toni Morrison nos serve como instrumento de reflexão acerca das questões abordadas e retratadas pelas personagens e que a ideia de beleza deve ser relativizada e observada além do padrão de beleza branco, passando pelo prisma da negritude. Também é importante notar que resumir a compreensão de violência a danos físicos prejudica o enfrentamento dos problemas relacionados à desigualdade social, de gênero e racial.
Palavras-chave: Toni Morrison, Racismo, Violência de gênero.
1. INTRODUÇÃO
As discussões acerca dos estudos de gêneros ocupam um lugar polêmico no momento atual, quer seja no âmbito acadêmico, quer seja no escolar, ou até mesmo no cotidiano. Há ainda certo receio e cuidado demasiado quando se propõe o tema, algo como um tabu encoberto por dúvidas e por falta de informação. Falou-se de gênero quando se pensava haver apenas um sexo, a teoria do sexo único, na qual o sexo feminino era tido como uma deformidade da genitália masculina (Millett, 1970); quando as mulheres reivindicam seus direitos; ou quando os homens resistiram e negaram às mulheres direitos iguais. Fala-se, inclusive, de gênero em todas as ondas dos feminismos. O assunto também ressurge quando se fala de pessoas trans.
Esta pesquisa tem como corpus de análise o romance O olho mais azul, de Toni Morrison, publicado no ano de 1970, sendo um dos textos ficcionais mais representativos da literatura americana no cenário pós Civil Rights. Tendo como principal tema a discussão acerca da falta de representatividade negra e o estereótipo da beleza branca, o enredo do livro, que se passa na cidade de Ohio, nos Estados Unidos, na década de 1940, dramatiza a opressão que o preconceito racial pode causar na criatura mais vulnerável, que, segundo a autora, é a menina negra. Narrado por uma criança afroamericana, Claudia MacTeer, uma espécie de alter ego da própria autora, a obra retrata a história da jovem Pecola, para quem a beleza só seria possível se ela possuísse olhos azuis.
Chloe Anthony Wofford, mais conhecida como Toni Morrison, primeira escritora afroamericana a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, nascida no ano de 1931, em Lorain, Ohio, é uma das expoentes da ficção diaspórica, isto é, da produção literária que ousa desafiar o status quo do imperialismo americano (centrado na branquitude) e que representa o discurso de quem sempre esteve à margem da sociedade. Suas vivências pessoais e o contexto histórico vivido pela autora influenciaram muito a construção de suas obras.
Para fins teóricos, adotar-se-á a perspectiva dos Estudos Culturais no que se refere ao local de fala da ficção negra norte-americana e da subalternidade da mulher negra, tendo o feminismo negro como aporte norteador desses temas. Dentro dessa perspectiva, o termo “pós-colonialismo” pode adquirir vários significados, sendo compreendido a partir do valor semântico do prefixo “pós” e lê-lo como um marcador temporal. Portanto, o pós-colonialismo demarca o fim da colonização. Uma segunda acepção entende que a colonização não foi extinta no momento em que foi proclamada a independência dos países até então colonizados.
Segundo estudiosos do pós-colonialismo (Hall, 2009; Bhabha, 2013; Said 2011; Spivak, 2010), a colonização e a pós-colonização obrigaram o homem a reler os binarismos com que, até então, categorias como sujeito, identidade, gênero e cultura eram entendidas, redimensionando a perspectiva do aqui/lá e das relações de gênero que permeiam as culturas. Dessa maneira, o pós-colonialismo identifica-se com o atual momento não apenas de países que foram colonizados, mas com o mundo pós-moderno.
Assim, a leitura de O olho mais azul deve perpassar pelo espectro pós-colonial tendo como aportes teóricos os Estudos Culturais e o feminismo negro, uma vez que a obra de Toni Morrison representa um momento histórico em que o gênero e a raça eram premissas para a sobrevivência de parte da população norte americana. Para propiciar o diálogo entre o texto literário e o escopo teórico, a pesquisa adotará uma metodologia interpretativo-discursiva (Orlandi, 2000), na qual o texto ficcional, por meio de sua natureza estético-artística, traça aproximações com os Estudos Culturais, contribuindo com a fortuna crítica acerca do romance.
A análise do romance terá como foco a violência que permeia as relações raciais e de gênero, sobretudo da mulher negra, explicitadas no texto de Toni Morrison. Através dos artifícios estéticos utilizados no texto, a autora promove a reflexão acerca dos temas abordados e desenvolve a consciência crítica sobre as questões de gênero e de raça que perpassam o fazer literário e que reverberam na realidade social.
2. CRISE DE IDENTIDADE E COLORISMO
Um dos mais notórios temas presentes no livro é a relação entre crise de identidade e colorismo. Traçando um panorama histórico, pode-se perceber que o contato entre povos europeus, africanos e indígenas devido ao processo escravatório e às políticas de embranquecimento populacional foi um dos responsáveis pelo estabelecimento de várias identidades étnicas no território nacional. Por muito tempo, essa dinâmica foi chamada de “miscigenação”.
O grande problema é que essa palavra dá a entender que esse foi um processo natural, pacífico, harmônico e até romântico, sem muitas consequências negativas. Há aqueles discursos que negam a existência do racismo, baseados na ideia de que “nós, brasileiros, somos filhos de uma ‘mistura cultural’, então todos são iguais”. Tacitamente, o que se pretende dizer é que, vivendo em uma “democracia racial”, se a maioria dos cargos de poder e liderança são ocupados por pessoas brancas, é porque elas são “melhores”, “superiores” e “merecedoras”.
Portanto, o termo “miscigenação” acaba romantizando, negando, normalizando e legitimando o racismo institucional e científico brasileiro, que, após a ‘abolição’ da escravatura, notou que o Brasil não se tornaria uma nação branca como as europeias. Isso porque havia, segundo a pesquisadora Lia Vainer Schucman (Lima, 2020), cerca de 4,75 milhões de descendentes de africanos e 750 mil descendentes de portugueses. Na época acreditava-se que o gene branco era superior, dominante e que, por consequência, os brancos eram superiores aos negros e indígenas. Com o objetivo de “solucionar” essa questão, procurou-se embranquecer a população através da imigração, uma espécie de um solvente étnico. Assim, milhões de imigrantes europeus chegaram ao Brasil entre os séculos XIX e XX.
Diante desse processo de tentativa de construção de uma identidade brasileira branca, é razoável pensar que os chamados “pardos” – termo que foi registrado pela primeira vez na história escrita brasileira para descrever indígenas -, em algum momento da vida, já se encontraram no dilema de se acharem “claros demais” para serem considerados negros, mas não se enxergarem “suficientemente brancos” para serem definidos como tal.
Surge, assim, a crise de identidade. Sobre o tema, é importante destacar que “a representação, compreendida como um processo cultural, estabelece identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais ela se baseia fornecem possíveis respostas às questões: Quem eu sou? (…) Quem eu quero ser?” (Silva, 2012, p. 5). A questão levantada por Silva nos leva a pontos importantes nas nossas discussões: a identidade do indivíduo, como ele se enxerga, como ele vê o outro e como essa visão de si mesmo afeta as suas relações.
O colorismo surge de uma crise de identidade: é uma forma preconceituosa de enxergar o outro que pertence à uma mesma etnia, que, no caso, é a negra. Segundo Alessandra Devulsky (Martin, 2021), o colorismo é uma ideologia na qual essas pessoas são hierarquizadas tomando como base os seus fenótipos. Estes podem se aproximar da branquitude, no “topo”, e, portanto, afastar-se da negritude, na “base”; ou podem tomar o caminho oposto, “descendo” à africanidade e, por conseguinte, distanciando-se da europeidade. É importante pontuar que negros não podem ser considerados racistas, pois eles não se beneficiam da estrutura racista do sistema. O que acontece é que eles podem reproduzir o racismo de diversos modos, e um deles é através do colorismo.
O fato é que na prática esse problema não se resume a ter pele clara ou não. Diz respeito também a negar a negritude através de um “mimetismo social” e a ultravalorizar a busca por traços físicos que se assemelham aos dos brancos. Ademais, o colorismo está relacionado às modificações do comportamento, da postura e dos jeitos de falar, de ser e de se vestir, como podemos observar no seguinte trecho:
Ele [Junior] odiava ver vazios os balanços, escorregadores, barras fixas e gangorras, e tentava fazer os meninos ficarem por ali o máximo possível. Meninos brancos; a mãe [Geraldine] não gostava que ele brincasse com pretinhos. Ela lhe havia explicado a diferença entre mulatos e pretos. Era fácil identificá-los. Os mulatos eram limpos e silenciosos; os pretos eram sujos e barulhentos. Ele pertencia ao primeiro grupo: usava camisas brancas e calças azuis; cortava o cabelo o mais rente possível para evitar qualquer sugestão de carapinha e a risca era desenhada pelo barbeiro. (…) A linha entre mulato e preto nem sempre era nítida; sinais sutis e reveladores ameaçavam erodi-la e era preciso estar constantemente atento. (Morrison, 2019, p. 90).
A partir desse fragmento, percebemos o comportamento e pensamento preconceituosos de dois personagens negros da obra: de Junior e Geraldine, sua mãe. É interessante analisar, a partir dela, como esse preconceito afeta principalmente as mulheres. Geraldine veio de “Mobile, Meridian ou Aiken”, lugares onde as garotas são de cor “açúcar mascavo”, “alisam o cabelo com Dixie Peach”, e “quando usam batom, nunca cobrem a boca inteira, com medo de que os lábios fiquem grossos demais” (Morrison, 2019, p. 85-86). Ela precisou negar sua identidade negra, mascarar seus traços físicos e mudar seu comportamento para se encaixar em um modelo de sociedade racista e machista, evidenciado na seguinte passagem:
Cursam a escola normal e aprendem a fazer o trabalho do branco com refinamento: (…) pedagogia para ensinar crianças negras a obedecer (…). Ali elas aprendem (…) como se comportar. (…) Numa palavra, como se livrar da catinga. (…) Apagam a catinga onde quer que ela irrompa; (… A risada que é um tanto alta demais; a pronúncia um tanto arredondada demais; o gesto um tanto generoso demais. (Morrison, 2019, p. 86).
Com isso, fica evidente que o indivíduo preto não é aceito pela sociedade, mas, no máximo, tolerado, desde que possua traços que remetam ao branco, como lábios e nariz finos, olhos claros e cabelos com poucas ou nenhumas curvas; que seu tom de pele seja o mais claro possível; que ele “se livre” de toda a construção da sua identidade étnica, representada, no trecho, pela palavra “catinga”; e que seu comportamento mantenha a hierarquia racista da sociedade. Tudo isso influencia os ideais de beleza das personagens, pois, tendo em vista que, por muito tempo, os padrões estéticos considerados “aceitáveis” foramexclusivamente associados aos eurocêntricos, sem levar em conta o prisma da negritude, enxergar-se como negro seria enxergar-se como “feio”, “inferior” e “rejeitado”.
Essa ideia é reforçada quando Claudia McTeer, menina negra e a narradora do livro, ao se referir a Maureen, “uma criança de sonho, mulata claríssima, de cabelo castanho cumprido” (Morrison, 2019, p. 66), diz que “se ela era bonita (…), então nós [Claudia, Frieda e Pecola] não éramos. E o que é que isso significava? Éramos inferiores. Mais simpáticas, mais inteligentes, mas ainda assim, inferiores” (Morrison, 2019, p. 78). Esse cenário gera uma crise de identidade, pois a busca pela beleza e até pela ascensão social, nesse caso, significa não somente negar, mas reprimir e oprimir suas características físicas naturais, seu modo de ser e tudo aquilo que pertence e faz uma pessoa negra ser negra.
Não é à toa que Pecola “toda noite, sem falta, (…) rezava para ter olhos azuis” (Morrison, 2019, p. 50). A metáfora da cor dos olhos, enquanto elemento que representa o anseio de Pecola em ser percebida pelos outros, abre um caminho muito importante nas discussões afrocentradas no que se refere à existência de representatividade de beleza para mulheres negras. O desejo de Pecola não representa mero capricho infantil. Isso é na verdade a única saída que ela acredita existir da viela que a sua cor e suas características físicas a colocaram.
No campo afetivo e amoroso, como o objetivo, dentro dessa hierarquia de tons, é atingir o topo, as mulheres negras são mais suscetíveis a serem rejeitadas. Vítima do sistema que reprime negros, notamos que a crise de identidade vivida por Geraldine faz com que ela não se identifique como negra e, além disso, que reproduza o racismo que vivenciou durante a vida, ensinando o seu próprio filho a “menos negro” e a evitar contato com os meninos de cor de pele mais escura.
O caso da personagem amplia os conhecimentos acerca da história da escravidão nos Estados Unidos e dos movimentos migratórios decorrentes desse processo, tendo em vista que o racismo, durante esse tempo, foi tão marcante que até hoje induz negros a reprimirem uns aos outros.
3. PODER E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NEGRA
Não se pode falar de O olho mais azul sem pensar na relação entre poder e violência contra mulher. Para isso, será analisada uma personagem chamada Pauline, mais conhecida na obra como Sra. Breedlove, mãe da personagem principal, Pecola. Ela foi criada a onze quilômetros da estrada mais próxima, em uma serra de barro vermelho no Alabama. Além disso, um acidente lhe deixou com o pé torto (Morrison, 2019, p. 80).
Como se não bastasse, sua história foi muito sofrida, repleta de dificuldades na família, nos empregos e com seu marido. Pode-se resumir sua vida em uma palavra: violência. Sobre esse termo, a Organização Mundial da Saúde o define como:
O uso intencional de força física ou poder, real ou em ameaça, contra si mesmo, outra pessoa, ou contra um grupo ou comunidade, que resulte ou tenha alta probabilidade de resultar em ferimentos, morte, danos psicológicos, deficiência de desenvolvimento ou privação (Organização Mundial da Saúde, 2002, p. 5, tradução nossa).
Percebe-se, então, a extensão do que é violência e o que ela inclui. Infelizmente, devido à idade, à vulnerabilidade, às doenças ou à associação desses e de outros fatores, algumas pessoas não conseguem se proteger sozinhas de certas situações. Destaca-se, no fragmento acima, um termo fundamental para nossa abordagem do tema: “poder”. Sobre esse vocábulo, é necessário pontuarmos que:
A inclusão da palavra “poder”, além da frase “uso de força física”, amplia a natureza de um ato violento e expande a compreensão convencional de violência para incluir aqueles atos que resultam de uma relação de poder, incluindo ameaças e intimidação. O “uso do poder” também serve para incluir negligência ou atos de omissão, além dos mais óbvios atos violentos de comissão (Organização Mundial da Saúde, 2002, p. 5, tradução nossa).
Com isso, restringir as consequências de um ato violento somente a ferimentos físicos – como cortes, arranhaduras, hematomas, amputações e queimaduras – ou à morte limita a compreensão do próprio conceito de violência e do modo como ela afeta as pessoas. É necessário ir além e enxergar não somente as que não são perceptíveis facilmente, mas também os efeitos implícitos que violências visíveis e invisíveis causam. Nesse sentido, o racismo pode produzir feridas físicas, devido, por exemplo, aos chamados “ataques de ódio”, que matam anualmente milhões de negros e que geram feridas emocionais por meio de ofensas, de xingamentos, de expressões faciais, de olhares ou até mesmo da omissão. Podemos verificar este último no seguinte trecho:
Me puseram num quarto grande, com um bando de mulher. (…) Um médico baixinho e velho veio me examinar. Ele tinha um montão de instrumento. Pôs a luva, passou um creme na mão e enfiou a mão entre as minhas perna. Depois que ele foi embora, vieram outros médico. (…) Quando chegou a minha vez, ele disse que com essas mulher vocês não têm problema algum. Elas dão à luz logo e sem dor. Exatamente como as égua. Os moço deu um sorrisinho. (…) Não me disseram nada. (…) Foram em frente. Eu vi eles conversando com a mulher branca: ‘Como está se sentindo? Vai ter gêmeos?’. Conversa à toa, claro, mas conversa boa. Conversa boa e atenciosa. (…) Eu sentia tanta dor quanto as branca. Não era porque eu não tava gritando e berrando antes que eu não tava sentindo dor. (Morrison, 2019, p. 125-126).
Como se nota, Pauline passou por uma experiência traumatizante durante o parto de Pecola. Nota-se que, em nenhum momento, os médicos a agrediram ou proferiram palavras ofensivas contra ela. Porém, eles não prestaram uma assistência médica tão boa quanto a que deram às mulheres brancas. Entende-se, portanto, que a violência ligada ao poder, nesse caso, está baseada no tratamento inferior e desumanizado.
Infelizmente Pauline não foi a primeira, tampouco a última a passar por essa situação. A maioria das mulheres negras já vivenciou a chamada “violência obstétrica”. Segundo a pesquisadora Fernanda Lopes (Brito, 2018), doutora em Saúde Pública, negras gestantes recebem menos cuidados médicos desde o pré-natal até o pós-parto, que incluem aconselhamento médico e tratamentos eficazes, beber água, tomar banho, massagem e anestesia. Pode-se perceber como ela se sentiu diante dessa situação o analisarmos a seguinte passagem:
O que eles pensava? Que só porque eu sabia como ter um bebê sem fazer espalhafato o meu traseiro não tava repuxando e doendo como elas? E também aquele médico (…) nunca deve ter visto uma égua parir. Quem disse que ela nãos sente dor? Só porque não grita? Se eles olhasse no olho dela e visse os globo arregalado, visse o olhar aflito, eles ia saber. (Morrison, 2019, p. 126).
Certas formas de violência, como as que usam a força física, geram consequências visíveis. Já outras produzem sequelas silenciosas, mas que frequentemente machucam mais que os ferimentos aparentes. Infelizmente algumas pessoas são forçadas a não somente aguentá-las caladas, mas também a manter suas experiências traumatizantes em silêncio. Conseguimos identificar ferimentos físicos, ver sua extensão e tratá-los. O mesmo não ocorre com as feridas psicológicas e emocionais. Não é possível precisamente “ver onde doi”, apesar de se saber que algo está ferido.
No trecho do livro citado, percebe-se que, apesar de Pauline não demonstrar, ela estava sofrendo, e nenhum médico a ajudou. Felizmente ela não morreu. Mas esse é o fim de milhares de vítimas de violência obstétrica todo ano. Mundialmente o número de mortes no parto vem diminuindo.
Em contrapartida, esse índice, nos Estados Unidos, vem aumentando e afeta principalmente as mulheres negras. Segundo Pundy (2019), todo ano, cerca de 700 mulheres negras morrem durante a gravidez, durante o parto ou meses após darem à luz. Esse número significa que essas negras correm três vezes mais risco de morrerem enquanto estão grávidas do que as mulheres brancas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das discussões abordadas, pode-se inferir que O olho mais azul, de Toni Morrison, nos serve como instrumento de reflexão acerca das questões abordadas e retratadas pelas personagens, tornando a ideia de beleza relativizada e observada além do padrão de beleza eurocêntrico, imposto pela supremacia branca, passando pelo prisma da negritude e das tendências estéticas negras.
Desta forma, conclui-se que, ao analisar o texto literário além da sintaxe e da gramática, visando sua reflexão na sociedade vigente, percebe-se, sob a perspectiva dos Estudos Culturais, que o fazer literário pode ser um poderoso instrumento de análise, crítica e transformação social. A aliteração, por meio da ficção, que é um dos pilares da criação literária, possibilita, a partir da imaginação do autor, da verossimilhança e dos aspectos de literariedade, a relação entre a realidade e o mundo simbólico, que é acessado pela palavra como arte, tendo o poder de dar voz àqueles que não têm, como acontece no romance em estudo. Os Estudos Culturais, no que tange ao feminismo negro, têm o papel fundamental de promover uma reflexão sobre a beleza e representatividade negra, uma vez que a sociedade que possui padrões estéticos brancos de beleza.
Pensando na literatura como ficção, a partir dos estudos de Compagnon (1999), pode-se perceber que o romance O olho mais azul atua no sentido de denunciar o racismo desde o seu título, pois “o olho mais azul” é uma metáfora do padrão de beleza europeu e norteamericano que se afasta da realidade de Pecola. Compreender-se enquanto uma menina de pele negra retinta é, para a personagem, a negação de uma ideia de beleza, ou melhor, é perceber que a beleza do olho mais azul é uma herança colonial ainda intransponível.
Essa questão vivenciada pela personagem Pecola e pelas demais mulheres pretas retratadas na obra analisada está contida em um universo maior de violência contra a mulher, que inclui agressões físicas, psicológicas, verbais e sexuais, negligências e atos de omissão, como pode-se ver no trecho que a Sra. Breedlove, mãe de Pecola, é desumanizada enquanto estava em trabalho de parto.
É imprescindível notar, portanto, que resumir a compreensão de violência a danos físicos prejudica o enfrentamento dos problemas relacionados à desigualdade social, de gênero e racial. Do mesmo modo, é preciso reconhecer que, de fato, o racismo institucional e outras formas de discriminação são um verdadeiro problema relacionado à violência obstétrica, especificamente contra as mulheres negras, são fatores determinantes para os altos índices de mortes de gestantes negras e produzem danos psicológicos não somente às vítimas, mas às famílias delas.
REFERÊNCIAS
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[1] Graduando em Direito. Ensino Médio Completo. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-5888-9571. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6692383724979546.
Material recebido: 20 de dezembro de 2024.
Material aprovado pelos pares: 13 de março de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 17 de julho de 2025.
