Uma Análise Comparativa Da Metacognição Das Personagens Cazuza Da Obra De Viriato Correia E De Pilar Do Conto De Escola De Machado De Assis

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ARTIGO ORIGINAL

OLIVEIRA, Daniela Alves [1]

OLIVEIRA, Daniela Alves. Uma Análise Comparativa Da Metacognição Das Personagens Cazuza Da Obra De Viriato Correia E De Pilar Do Conto De Escola De Machado De Assis. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 05, Vol. 09, pp. 150-180. Maio de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/literatura/metacognicao-das-personagens

RESUMO

Este trabalho é uma análise de duas literaturas, comparando-as e dando em destaque a figura de cada aluno fictício. Todos na humanidade possuem algo para ensinar e aprender com o outro. A vida é comparada á um processo contínuo e recíproco de ensino-aprendizagem. Por isso foi escolhido as personagens Cazuza de Viriato Correia e Pilar de Machado de Assis por que eles representam a vida fictícia de alunos. Apesar de serem literaturas, a metacognição ou a reflexão das ações das personagens possuem completa paridade com a realidade. Os estudos da metacognição do aluno são identificados nas relações do corpo discente no ambiente escolar. Na ficção será perceptível através das ações, comportamentos e reflexões das personagens aspectos que envolvem as aprendizagens e relações individuais e sociais que servem de conhecimento para atualidade. Destaca-se que o desenvolvimento cognitivo e a maturação psicológica adquirida na escola e nos demais espaços que envolvem as personagens é o que caracteriza os seus desenvolvimentos. Portanto, o objetivo desta pesquisa está ligado a essa análise dos processos cognitivos vistos na ficção e sua relação com a realidade. Nessa similitude de Cazuza e Pilar com os alunos da realidade, destaca-se que cada um tem suas aprendizagens, entretanto ambos possuem algo em comum, o desenvolvimento. Com esse estudo os professores, ou acadêmicos de alguma licenciatura terá esse trabalho como base para mergulhar nas experiências do universo escolar.  

Palavras-Chave: Aluno, Cognição, Metacognição, Pensamento.

1. INTRODUÇÃO

As vivências das diferenças sociais, a humildade, e as condições são verdadeiras lições para a escola da vida.  Atualmente, é na família e na escola que ocorre claramente o maior processo relacional de educação.

Além da realidade de ser o lugar mais frequentado pelo ser humano. A escola logo passou também a contribuir para o mundo ficcional. Dentre diversas integrações que contribuíram para uma literatura mais completa sobre esse assunto, foram escolhidas como destaque para essa pesquisa, o Conto de Escola de Machado de Assis, onde se encontra experiências de vida, intercalado entre um tom sombrio de lembranças amargas e controversas. E o livro Cazuza de Viriato Correia que se centraliza na vida escolar do protagonista, sendo este o nome do livro.

As personagens principais dessas obras assemelham-se entre si por tratar de perfis de alunos e conseguintemente do cotidiano escolar. Cada um tem suas inquietações individuais, e também seu olhar subjetivo e fictício sobre os espaços no qual estão envolvidos. A metacognição, ou seja, as reflexões de suas ações estão pautadas em suas experiências e aprendizagens no decorrer dos seus desenvolvimentos nas narrativas.

Será destacado nesse estudo, á princípio, um memorando das obras de Cazuza, Pilar e seus respectivos autores. E depois, serão arguidos crivos sobre o   aluno pilar, fundamentando dessa forma, a cognição dos alunos nos seus espaços, no qual serão revelados a trajetória dos personagens e cada tipo de envolvimento social que geraram alguma ação, a maturação psicológica dos alunos, ou seja, as aprendizagens individuais que cada protagonista obteve. Logo, a chave desse estudo está focada em estudar a cognição do discente dentro da literatura, respaldando a maturação psicológica dos personagens Cazuza e Pilar.

Partindo do pressuposto que os autores, a fim de denunciar as mazelas de sua época, desenharam o cenário das escolas e as condições dos alunos daquela época. É possível, em Cazuza e Pilar, estudar dentro de uma literatura a vida fictícia de uma personagem que tenha características de um discente da vida real.

Cada detalhe que o aluno passa na escola, ou pela escola surte um efeito na vida dos mesmos. Por isso a necessidade de um ambiente e de mediadores no qual propiciem admiração e encanto que o motivem diariamente.

Compreende-se que a literatura nos mostra o caminho que a escola está trilhando, sendo esta útil para estudar a sociedade e o desenvolvimento do Aluno, comparando dessa forma relações que ocorrem na ficção e na realidade. Essas obras mostram quais características ocorrem na escola atual, e também auxilia qualquer docente e discente a identificar a realidade de algumas fronteiras do nosso sistema escolar.

De acordo com a análise dos protagonistas dessas duas obras literárias, será perceptível a semelhança de cazuza e Pilar com os alunos da realidade, e essa similitude ocorre também nos parâmetros distintos da maturação psicológica que eles adquirem na escola e nos demais espaços que os envolvem.

2. MEMORANDO DOS AUTORES E SUAS OBRAS

Segundo a academia brasileira de Letras (2016), O escritor Manuel Viriato Corrêa Baima do Lago Filho nasceu em terras maranhenses, mais precisamente em Pirapemas em 23 de janeiro de 1884 e faleceu em 10 de abril de 1967. Penteado (2001) diz que, no ano de 1884, teve seu primeiro contato com as letras em uma escola pública do povoado no qual morava, e ainda criança, aos nove anos de idade, seguiu para dar continuidade aos estudos na capital do estado, no colégio São Luís.

Este autor teve muitos títulos, segundo Penteado (2001) diz que ele era:

Homem das letras e político, paralelamente à carreira de jornalista, Viriato Corrêa atuou em vários campos: foi contista, romancista, dramaturgo, crítico e professor de História de teatro, conferencista, professor da rede municipal das disciplinas de história e geografia, cronista do cotidiano e da História, e escritor de livros infantis, searaem que encontrou grande reconhecimento e duradouro sucesso, como atestam asinúmeras reedições destes seus livros. O conjunto de sua obra explicita sua obstinação,seja na temática, seja na linguagem, com a alma nacional: seu cenário, seus tipos, seus falares, sua sintaxe eram sempre privilegiados por Viriato, revelando a grande preocupação com as coisas e gentes brasileiras. (PENTEADO, 2001, p. 52)

Após terminar os estudos no Colégio Liceu Maranhense, Viriato Corrêa deixou o Maranhão, sua terra natal para trás, e com ela a vontade de não mais retornar por conta da falta de oportunidades, parafraseando Penteado (2001), o Maranhão não exercia mais o mesmo fascínio dos tempos em que fora considerado a Atenas Brasileira. Ou seja, o Maranhão, na época em que o jovem Viriato saiu, vivia em função de antigas glórias conquistadas por escritores de diferentes gerações como Gonçalves Dias, Raimundo Corrêa, os irmãos Azevedo e Coelho Neto, pois teve seus alicerces abalados com a Abolição da Escravatura (1888) e assistia à decadência econômica instalar-se progressivamente em suas terras. Correia teve que partir de sua terra. Mas isso não o impediu de ser um grande escritor.

As oportunidades abraçadas pelo autor solidificaram cada vez mais sua carreira, conforme a ABL (2016), o escritor e autor de várias obras infanto-juvenis, ocupou a cadeira de número 32 na Academia Brasileira de Letras, sendo antecedido por Ramiz Galvão (Barão de Ramiz Galvão) e sucedido por Joracy Camargo sua eleição foi em julho de 1938 e sua posse em outubro do mesmo ano. É interessante destacar que sua consagração se concretizou com a obra “Cazuza”, escrita em 1938, no qual se tornou uma das mais populares obras de ficção nacional voltada para o público infantil.

Segundo Zilberman (2005), a obra “Cazuza” de Viriato Corrêa chama atenção por ir ao encontro das experiências vividas pela maioria das crianças que vivem a realidade dos centros urbanos, tendo em vista retratar as distintas etapas do processo escolar pelas quais passa o personagem principal.

Diferente de outras obras também direcionada ao público infantil, Cazuza não usa elementos de magia e fantasia, conforme se observa em Monteiro Lobato, no Sítio do Pica-Pau Amarelo, cujos personagens encontram-se representados numa mistura de fantasia e realidade. Entretanto, Viriato Corrêa retrata a sua obra de forma realista revelando a riqueza da literatura infantil, Zilberman confirma dizendo que

O Cazuza de Viriato está do outro lado; não há heróis dotados de poderes extraordinários, nem acontecimentos fantásticos. É da vida cotidiana e dos problemas do dai-a dia que se fala; e mesmo assim o livro é encantador, o que sinaliza a variedade que a literatura infantil brasileira ia alcançando já na década de 1930 (ZILBERMAN, 2005, p. 36 – 37).

Já sobre Machado de Assis (Joaquim Maria M. de A.), conforme a ABL (2016), É o fundador da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras têm-se a informação de que foi um jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908.

Machado de Assis por ser um velho amigo e admirador, escolheu José de Alencar para ser seu patrono, este morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL. E Machado foi quem ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, por isso ela passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

De acordo com a Academia Brasileira de Letras (2016) Machado de Assis é filho do,

Operário Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina Machado de Assis, perdeu a mãe muito cedo, pouco mais se conhecendo de sua infância e início da adolescência. Foi criado no morro do Livramento. Sem meios para cursos regulares, estudou como pôde e, em 1854, com 15 anos incompletos, publicou o primeiro trabalho literário, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no Periódico dos Pobres, número datado de 3 de outubro de 1854. Em 1856, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo, e lá conheceu Manuel Antônio de Almeida, que se tornou seu protetor. (ABL, 2016)

Ele estreou sua vida como escritor, quando iniciou a redigir regularmente como crítico teatral para a revista O Espelho, a Semana Ilustrada e o Jornal das Famílias, aonde publicavam contos de sua preferência. Em 1858, era reconhecido como revisor e colaborador no Correio Mercantil, Mas só em 1860, através do convite de Quintino Bocaiúva, começou a ser um dos participantes da redação do Diário do Rio de Janeiro. Foi através de convites e oportunidades não perdidas que Machado chegou à imortalidade dada através de suas obras.

Machado de Assis que inaugurou o Realismo no Brasil em 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas, criou um estilo completamente novo e próprio com base nesses preceitos. O cientificismo do movimento tomou forma nas suas obras por meio da análise psicológica; a crítica á sociedade desenvolveu-se com base nos indivíduos que a constituem: os homens, por isso a análise da constituição moral do ser humano.

Para se compreender os contos de Machado de Assis, é importante ter em mente que o modo de contar a história pode ser tão ou mais importante do que a própria história. Muitas vezes o estado psicológico dos personagens e suas ações, mesmo as mais sutis, são mais significativos do que a própria construção do enredo. Exemplo disso é “Conto de escola”, em que o enredo se passa em torno do primeiro contato de um menino com a corrupção. O conto apresenta uma série de paradoxos que revelam os estados psicológicos do personagem e o processo de sua formação moral.

Transitando entre os diversos tipos de contos – do tradicional ao moderno -, os contos de Machado de Assis são originais e complexos, cheios de acontecimentos intensos, quase sempre envolvidos num clima de tensão, repletos de personagens polêmicos e ambíguos e de jogos e armadilhas textuais que induzem á dúvida, relativizando a maior parte das idéias e levando o leitor a refletir sobre suas ”certezas”.

É relevante destacar que tanto Machado de Assis, quanto Viriato Correia são realistas e por isso, eles procuram descrever os costumes e as relações entre os seres humanos com maior realidade. Em suas obras eles descrevem o que está errado de forma natural.

Uma peculiaridade do romance realista está frisada no poder de crítica, no qual é diferente do Romantismo por ter adotado uma objetividade que antes não existia. Observa-se de inovador, o interesse de descrever, analisar e criticar a realidade.

O subjetivismo e a parcialidade são mudados para um olhar realista, aonde a certeza e o objetivismo prevalecem. Por isso os heróis, são substituídos por pessoas normais, com suas dificuldades e adversidades. Dessa maneira, Machado de Assis e Viriato Corrêia talvez procurem apontar falhas como um modo de estimular a mudança da instituição escola e também dos comportamentos humanos.

Através desses autores percebe-se que ambos, de alguma se identificaram no enredo. Pois aquela época prevalecia a educação tradicional, e um dos objetivos de suas obras era denunciar fatos através da literatura. Machado de Assis faleceu com aproximadamente 69 anos e Viriato Corrêia com 83 anos. É interessante destacar que em 1908 enquanto Machado de Assis falecia, Viriato Correia tinha 24 anos. E percebe-se que nas suas obras onde estão os personagens escolhidos, é retratado o mesmo quadro, onde o Cotidiano escolar é comparado á uma tortura, que retratava um pouco da situação de suas épocas.

É válido pensar que para muitos alunos essa tortura ainda existe, pois muitos alunos ainda se inibem a ir para a escola. Essa inibição vinda da época onde a escola era tradicional se torna cabível para aceitação. Mas pra ainda prevalecer a quase mais de um século de existência significa que a instituição na qual o aluno vive há tanto tempo, não mudou o suficiente para ser um lugar desejável para os educando.

3. UMA PEQUENA REVISÃO DA OBRA E PERSONAGEM CAZUZA

De acordo com a pesquisa de Marianne Machado denominada A construção feminina em Viriato Corrêa, Artigo do 18º REDOR,

O livro Cazuza é apresentado como se contivesse as memórias da vida escolar de quem escreve. Segundo Ferro (2010), Viriato Corrêa não se confunde com o personagem principal do romance. Ele afirma que o texto lhe foi entregue por um desconhecido, como um artifício comum dos escritores desde o século XIX, destinado a se criar um efeito de verdade. No entanto, por uma série de elementos, encontram-se coincidências entre a biografia de Viriato e a trajetória do personagem, o que contribui para tomarmos o texto como autobiográfico. (MACHADO, 2014, p. 8)

A obra Cazuza é uma oportunidade de refletir em cima de questões que tratam da infância de muitas pessoas já adultas e de crianças na atualidade. A obra de Viriato serve para que cada ledor encontre-se em alguma parte da narrativa, fazendo com que suas experiências sejam refletidas novamente.

Cazuza trata de um livro contado por  adultos, o mesmo retrata da vida escolar divididas em três fases, cada fase é vivenciada por uma escola. A primeira escola tem traços tradicionais, onde existe a tão temida palmatória, o professor é sem afeto com os alunos. E pelo convívio relatado no livro, as experiências do aluno literário são as piores.

Na segunda escola, ou talvez segunda fase do livro, é bem claro a diferença de sentimentos do aluno com  relação  a suas novas professoras. E não apenas isso, mas é aqui que o aluno se apaixona pela instituição escolar verdadeiramente, na primeira escola ele encontra apenas decepções, dores, medos, mas nessa parte de sua vida, ele ama cada detalhe do ambiente escolar, sua sala é extremamente encantadora, a estrutura apesar de não ser a melhor, era cativante. O processo ensino-aprendizagem de fato ocorria. Mas os avanços não eram tão superiores. Por isso ele foi para a terceira escola.

Em sua última escola, a relação professor e aluno, tinha traços mais filosóficos, era bom viver ali, mas era perceptível uma estrutura melhor e principalmente as regras e fronteiras eram mais amplas. Talvez era mais comparado a uma tendência  progressista.

O livro finaliza formando um homenzinho. Equiparando O Pequeno Cazuza, que nem tinha Calças, a um rapaz, que viveu todo o processo educativo. É nessa obra que vemos traços históricos e seus respectivos avanços.

4. CRIVO DO ALUNO PILAR

Assim como Cazuza esse personagem trata de um episódio contado por alguém já adulto, são lembranças de sua infância na escola. A história do Conto de Escola de Machado de Assis é iniciada através do relato do fragmento da memória de um estudante, explicando assim o espaço e o tempo por onde as personagens desenvolveram seus atos. Nunes, Alexandre Rodrigues em seu artigo Análise do Conto de Escola, diz:

Sobre seu pensar, seu modo de enxergar é que Machado compõe uma das histórias presentes em narrativas dessa espécie. Ricardo Piglia comenta que “um conto bem escrito (…), na realidade, todo conto conta duas histórias: uma em primeiro plano e outra que se constrói em segredo”. E ainda diz que “a arte do contista estaria em entrelaçar ambas e, só ao final, pelo elemento surpresa, revelar a história que se construiu abaixo da superfície em que a primeira se desenrola”. Portanto, Machado de Assis, em seus contos modernos, procurava retratar as repercussões psicológicas de ações e fatos concretos, por este fio, Machado concebe o narrador-personagem à ficção como pivô para a história do primeiro plano. (NUNES, 2008, p.05)

Assim, pode-se dizer que o narrador de toda a história do conto é o protagonista. Pilar é um garoto que se torna mestre em ‘cabular’ ou ‘matar’ aulas. Certa manhã, o rapaz resolve mudar um pouco e comparece à aula,mas nesse dia ele recebe um desafio do colega de classe chamado Raimundo, ás escondidas do professor para que ele não perceba. Assim começam as reviravoltas dessa história mostrando que a escola também pode ser o palco de lições inesperadas, nesse caso o assunto da lição foram à corrupção e delação.

Existem muitos paradoxos em seus relatos. Por exemplo, como ele é considerado um aluno aplicado mesmo gostando de “cabular” (ou modernamente, matar aula)? Com esse questionamento percebe-se que um bom aluno é aquele que foge dos limites dados na escola sobre o conhecimento. Ele é um pesquisador de tudo que o rodeia e na escola ele atinge apenas norteio de saberes a serem pesquisados.

Mas Pilar faltava nas aulas por desinteresse mesmo, tudo para ele era mais atraente que a escola, sua descrição sobre a estrutura da escola era um sobradinho de grade de pau. O morro, o campo era de fato mais chamativo. Mas Pilar pensando com seu interior refletiu sobre suas ações e viu que o castigo que o pai lhe dera na ultima vez não merecia ser repetido.

Seu pai era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante, ele sonhava para o filho uma grande posição no comércio. Pilar não se considerava um menino de virtudes. Mas mesmo assim, não era o pior aluno da turma. No artigo intitulado A imagem do professor em conto de escola de Machado de Assis feito por Gisele Montoza Felício, narra que

Pilar era um aluno inteligente e tinha facilidade em aprender os conteúdos, por isso fora procurado por Raimundo para lhe ajudar nos deveres escolares. Entretanto, não era um aluno exemplar visto que tinha o hábito de cabular as aulas sempre que possível. No início da narrativa, só não fora cabular a aula porque apanhara do pai que havia descoberto o fato. (FELÍCIO, 2016, p. 5)

A relação Professor-aluno por volta do século XIX, era baseada em um envolvimento rígido, isso acontece na obra por meio das reflexões das cenas, exemplo disso baseia-se no momento que o professor entrava na turma, pois todos ficavam de pé, ou seja, o professor era a autoridade, e a aprendizagem era mecânica, logo, não era considerada as características próprias da idade dos alunos.

A educação era baseada na tradicional, na qual os alunos eram castigados com palmatória pelo professor. Ordem era a palavra chave, onde os alunos tinham que ficar quietos e o professor após passar os trabalhos para serem realizados pelos discentes, ficava lendo o jornal. No artigo de Mestrado “Conto de escola: Uma metáfora da sociedade” de Alessandra Maria Moreira Gimenes e Maria Augusta H.W. Ribeiro complementa algo sobre esse assunto:

A escola, retratada no conto, reflete as características da escola do Brasil do período colonial, da Regência e que se arrastariam pelo Império, encontrando-se nos dias de hoje vestígios dessas características. Naquela época, seguindo a tradição escravocrata da punição pelo castigo físico, também a Educação refletia tal tendência que pode ser observada em duas das personagens. Primeiramente, no pai de Pilar que para corrigir-lhe o fato de cabular aula aplica-lhe uma surra. Segundo o narrador “as sovas de meu pai doíam por muito tempo”.(ASSIS, 1986, p 159 apud GIMENES e RIBEIRO, 2016, p. 4)

É nesse desenrolar de costume, que Raimundo filho do professor Policarpo, (um pequeno, mole, aplicado, mas com uma inteligência tarda) faz um convite, ou melhor pedido inocente e malicioso simultaneamente, este era para Pilar lhe ensinar um ponto da lição de sintaxe, e Raimundo iria pagá-lo com uma moeda de prata que na época do rei valia por volta de doze vinténs.

De acordo com o conto, Pilar diz que não era um aluno ruim, ele até chega a dizer que era um dos mais adiantados da escola. Mas o título de Pilar não era o melhor, por que este via a escola como uma prisão, um lugar onde era obrigado a estar, analisa-se isso quando relata seu pensar:

(…) Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.

Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do Morro do livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.(ASSIS, 2011, p. 29-30)

Nessa citação, vale acrescentar relatos anteriores obtidos na obra, no qual pilar dizia haver terminado a lição antes dos colegas, mas ficava reproduzindo o nariz do professor. E como mostra na citação acima, Pilar logo após, só entregou sua lição quando outros colegas já haviam entregado. Além disso, com esses relatos, também se percebe a repulsa que o protagonista tinha da escola.

O que se aprendia nessa escola de clima tão opressivo descrita por Pilar? Machado de Assis refere-se vagamente a contas, leitura, gramática, lições orais e provas de escritas. Nada tinha na escola de estímulos ou prêmios, mas sim punição imediata para os faltosos e incompetentes nas lições.

Seu pilar não revela ao leitor se guardam memória dos conteúdos ensinados por seu professor. Contudo, ambos têm muito vivas na lembrança as lições de violência, hipocrisia, dominação, sadismo, corrupção e delação aprendidos na escola. A autora Vera Maria Tietzmann Silva em sua obra Literatura Infantil Brasileira um guia para professores e promotores de leitura diz que não é sem motivo que o protagonista de “Conto de escola” reflete sobre sua franqueza de estar arrependido de ter ido à escola, ela ainda completa dizendo que:

(…) De fato, o ambiente escolar mostrado pela literatura dessa época opõe-se ao mundo externo pela privação total da liberdade. Os alunos não podem manifestar-se. Devem calar e obedecer. A palmatória, suspensa á parede por um prego, bem a vista de todos, é uma advertência e uma ameaça. (SILVA, 2009, p. 24)

Sobre a afetividade com o professor¸ Pilar tinha medo de Policarpo, assim como seu filho Raimundo (apesar de que era mais atemorizados que os colegas, pois o professor por ser seu pai, cobrava mais dele) e os demais colegas da sala. Na verdade o medo principal era as consequências de desobedecê-lo. Isso por que todos sabiam para que servia a palmatória.

A proposta de corrupção ocorreu exatamente por conta do medo de Raimundo para com o pai que também era o seu professor. Pois Raimundo não conseguia reter nada do livro e por conta do medo, acabou concluindo a proposta da troca do dinheiro pela explicação.

Sobre a corrupção que Pilar estava tentado a cometer com Raimundo, vale destacar que de acordo com a citação abaixo, ele não era o mais justo, pois pela sua fala e seu currículo de evasão das aulas, era normal empregar uma ou outra mentira de criança.

(…) não conseguira reter nada do livro e estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando as mãos nos joelhos…

Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma idéia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar o mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, á toa, sem poder dizer nada.(ASSIS, 2011, p. 32).

De fato Pilar já tinha o hábito de mentir, pois foi por isso (por ter mentido aos pais que fora para a escola) que havia ganhado umas sovas antes. Mas aquela proposta de troca de lição por dinheiro era nova, e tentadora. Por isso, se justifica a atitude de excesso de observação de Curvelo. Este era um colega de turma, Pilar dizia que ele era um pouco levado do diabo, tinha onze anos e era mais velho que eles, ele os observava desde o inicio da conversa. Na citação seguinte percebe-se como essa personagem estava curiosa,

Ele (Raimundo) deitou os olhos ao Pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei para Curvelo e vi que parecia atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também alguma coisa entre eles. Esse Curvelo era do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós. (ASSIS, 2011, p. 30).

Logo depois de observar o ato corrupto e secreto dos meninos, Curvelo, se tornou o acusador (popularmente conhecido como dedo duro), este fez o ato de delação, ou seja, denunciou e fez a divulgação de algo que era para permanecer secreto. É interessante que com essa atitude Pilar falou de sua consciência, e um provável sentimento de culpa.

Oh! Seu Pilar! – bradou o mestre com voz de trovão.

Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me ás pressas. Dei com omestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.

– Venha cá! – bradou o mestre.

Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, senti no ar a curiosidade e o pavor de todos.

– Então o senhor recebe dinheiro para ensinar lições aos outros? – disse-me Policarpo.

– Eu…

– Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! – clamou. (ASSIS, 2011, p. 33)

Com essa cena de pavor, percebe-se a consequência das ações de corrupção e delação. E uma delas foi o desejo de vingança de pilar pelo Curvelo, a promessa interior de Pilar era de quebrar-lhe a cara na rua, logo que saíssem, tão certo como três e dois serem cinco (ASSIS, 2011, p. 33). Mas isso não foi concretizado pois Curvelo havia fugido, e a tarde havia faltado na escola.

O menino se questiona sobre o que é certo na situação que se encontra. Isso representa uma questão de ética. Pois para Pilar o seu correto é explicitamente conflitante com o correto na visão do menino que os dedura. Assim deve-se compreender que a atuação da escola consiste na preparação do aluno para o mundo, é como se fosse uma estruturação da índole do discente, e uma das bases para essa estrutura é a ética.

Em uma visão clara, pode-se afirmar que essa questão de ética tem uma grande relação com a formação de caráter. E essa formação atrela-se ao ato de aprender que segundo Ana Ignez e Rosemary (2011) no livro psicologia da aprendizagem, p.80, diz que a ação de aprender requer envolvimento de forma ativa do estudante, que lhe permite ir a fundo e contextualizar as aprendizagens, concluir e averiguar hipóteses, e também decidir.  E foi exatamente nesse processo que Pilar se encontrou, na escolha entre decidir se aceitava ou não a ‘proposta corrupta’.

No outro dia, após as decisões e aprendizagens de Pilar, ele amanheceu com vontade de procurar a moeda na escola, com esse objetivo saiu de casa vestido com as calças novas, que sua mãe lhe dera, mas ao ver a companhia do batalhão de fuzileiros, logo mudou de idéia e decidiu acompanhá-los e ao invés de ir para a escola com suas calças novas, ele foi para a praia de Gamboa. As calças novas que sua mãe havia dado, ficaram enxovalhadas, e o ressentimento de perder a pratinha fugiu dele, mas ele termina dizendo que Raimundo e Curvelo foi quem deu para ele o primeiro conhecimento, um da corrupção, e outro da delação.

Sua última expressão no conto foi, “Mas o diabo do tambor…” (ASSIS, 2011, p. 35), e isso remete o ledor a compreender que ele tinha se esquecido das dores do dia passado, mas o fato dele acompanhar o som do tambor que os fuzileiros tocavam fez Pilar refletir que perdeu a escola e por isso pode-se supor que ele deve ter ganhado outra sova de seu pai.

No artigo intitulado a imagem do professor em conto de escola de Machado de Assis feito por Gisele Montoza Felício, conclui que

Embora a escola de hoje não tenha as mesmas características físicas e sociais da escola do Conto de Escola de Machado, ela ainda está muito longe em considerar a subjetividade do aluno e do professor, assim como privilegiar a aprendizagem. O policarpo do século XIX sobrevive ainda nos dias atuais em muitas instituições de ensino. A matéria lecionada no conto tratava-se de leitura e gramática.“Começou a lição de escrita” (2007:327). Contudo percebe-se que somente os aspectos cognitivos e instrumentais eram considerados. Até os dias atuais, pais e professores fazem uso da leitura como um instrumento para se ter acesso á cultura, dispensando o lado prazeroso e enriquecedor que existe em si mesmo. E quando o prazer é colocado de lado, o que sobra é a obrigação. A mesma obrigação que fazia Pilar freqüentar as aulas, mesmo não tendo dificuldade na aprendizagem. A escola não seduzia Pilar. E hoje, a escola seduz seus alunos? (FELÍCIO, 2016, p. 8)

É essa linha de raciocínio, que se deve deixar como brilho de estudo. Pois, Pilar não era atraído pela escola, por isso fica uma interpolação subentendida no ar, será se hodiernamente os alunos se sentem atraídos pela escola? Uma das melhores maneiras de finalizar os argumentos sobre essa personagem é parafraseando Henry Brooks Adams (citado em ALBUQUERQUE; COSTA; ALMEIDA, 2004, p. 148), quando resume todas as supostas interrogações sobre o Pilar da vida fictícia e os diversos Pilar da vida real, ao afirmar em uma única frase que totaliza a essência do que é ser aluno, no qual diz que “sabem o suficiente aqueles que sabem como aprender.”

5. A COGNIÇÃO DOS ALUNOS E SEUS ESPAÇOS

De acordo com o estudo sobre o crescimento, maturação e desenvolvimento humano diz-se que

O processo de crescimento, maturação e desenvolvimento humano interfere diretamente nas relações afetivas, sociais e motoras dos jovens; consequentemente, é necessário adequar os estímulos ambientais em função desses fatores. Primeiramente, é necessário esclarecer que o crescimento inclui aspectos biológicos quantitativos (dimensionais), relacionados com a hipertrofia e a hiperplasia celular, enquanto a maturação pode ser definida como um fenômeno biológico qualitativo, relacionando-se com o amadurecimento das funções de diferentes órgãos e sistemas (REVISTA MOTRICIDADE, 2011, p. 55-67.)

Crescimento, maturação e desenvolvimento humano são processos altamente relacionados, que ocorrem continuamente durante todo o ciclo de vida. Desse modo, é essencial reconhecer a interação entre fatores biológicos e socioculturais presentes na vida do ser humano. Sendo assim, surgiu a idéia de estudar o desenvolvimento de dois seres literários, onde a cognição social será o principal foco.

Antes de argumentar sobre como é a cognição dos alunos e quais os espaços que eles usufruem nesse processo, deve-se ter como base a perspectiva cognitiva dada por Ana Ignez e Rosemary (2011) no livro psicologia da aprendizagem no qual diz que

Sob a denominação de cognitivismo estão diferentes abordagem teórica, tendo em comum, a concepção da aprendizagem como um processo de relação do sujeito com o mundo externo, incidindo na sua organização cognitiva. Por cognição entende-se o processo através do qual conhecemos e atribuímos significado a realidade, a partir de experiências sensoriais, representações, pensamentos e lembranças. (NUNES e SILVEIRA, 2011, p. 71)

Assim, compreende-se que a cognição está atrelada ao desenvolvimento do individuo, e esse desenvolvimento enquadra o conjunto de experiência que uma pessoa obtém. O pensamento, a linguagem e a memória também são fatores cognitivos que envolvem o resultado e a manutenção do comportamento aprendido. Dentro dessa linha de raciocínio é necessário colocar Cazuza e Pilar como os objetos de estudo.

Sobre a personagem Cazuza percebe-se sua relação com a sociedade, amigos de sua faixa etária, professores, familiares e outros. Em cada cena, Cazuza demonstra-se como um ser pensante, e suas ações é o resultado da metacognição obtida em sua mente. Mas o principal fator a ser analisado nesse capítulo é o desenvolvimento, e isso é visto em Cazuza em cada parte do livro.

Na primeira parte percebe-se sua cognição no anseio pela troca de suas calcinhas, isso representava um processo evolutivo de maturação e crescimento. No tópico ‘minha terra, minha casa e minha gente’ ele descreve sua condição econômica como uma das melhores, descreve também o respeito que a comunidade tinha por sua família. Sobre as figuras do povoado ele descreve as poucas criaturas grandes que ficaram na sua lembrança. Dentre eles têm-se amigos e outros adultos amedrontadores, dentre os temerosos destaca-se a caracterização do professor João Ricardo, onde ele descreve:

Outra figura é a do professor João Ricardo. Homem velho, bigode branco, óculos escuros, pigarro de quem sofre de asma. Nunca lhe vi um sorriso no rosto. Vivia sempre zangado, com o ar de quem está a ralhar com o mundo, cara amarrada, rugas na testa. Para as criancinhas do meu tamanho, representava o papel de lobisomem. Tínhamos-lhe um medo louco.Se estávamos a brincar num terreiro e o percebíamos ao longe, ficávamos silenciosos e quem podia esconder-se – escondia-se; quem podia fugir – fugia. Só depois que ele passava e quando já não lhe víamos mais a sombra, é que o brinquedo começava.(CORREIA, 1984, p. 19)

Cazuza, tinha uma vida social, na primeira parte do livro vivenciou o aconchego dos vizinhos do povoado. Sabe-se que em todo lugar existe pessoas diferentes, e isso não foi diferente, observa-se isso com argumentos dele no livro, quando trata de falar de seus amigos queridos e o pata-choca sendo descrito como o rejeitado.

Na vila não é diferente esse laço social, pelo contrário todos os laços afetivos duplicam, apesar de também ser um lugar pequeno, tudo ali é visto como novidade.

A cidade, na terceira parte também é descrita como um lugar com ar de novidade. Mas, após sua chegada a cidade, foi logo para o internato, e pôde vivenciar poucos momentos sem ser envolvendo a escola. Um exemplo é o tópico que trata de um leilão, onde cazuza passa as férias do fim do ano na casa da sua tia, este passa uma noite na casa de seu amigo de classe, e eles juntos vão para um leilão escondidos, ali eles ficam seduzidos por algumas meninas, e principalmente seu amigo, acaba saindo de si, e desobedecendo seus pais, gastando o dinheiro com que não era pra gastar. Outra cena fora do ambiente escolar é no final do livro, no qual, é descrita a obrigação de Cazuza para ter atitudes mais maduras, observe a cena abaixo do ultimo tópico do livro chamado ‘Homenzinho’:

(…) Durante as férias não haveria na vila ninguém mais importante do que eu. (imaginou Cazuza)

Naquele momento íamos entrando no Largo do Carmo.

O Julinho parou.

– Onde vamos agora?

– Á farmácia, respondi.

– Fazero quê?

Ver as bolas de luz.

Uma censura relampejou-lhe nos olhos.

– Que idéia! Não sei como você não quer uma mamadeira! Você não é mais uma criança. Terminou hoje o curso primário. Já é, portanto um homenzinho. Então um homem se abala de casa para ver globos luminosos de farmácia?

E com um tom de voz que era uma vaia:

– Ora, seu Cazuza! (CORREIA, 1984, p. 187)

É interessante nessa citação, que todo o ser humano chega ao momento da vida que tem que demonstrar que cresceu, e a personagem Cazuza, percebeu isso nessa experiência acima, subentende-se nesse diálogo entre as personagens, a necessidade da prática de suas aprendizagens através de sua cognição social.

Já sobre a personagem Pilar, observa-se também seu convívio social pelo desejo de ir brincar com seus amigos ao invés de ir para a escola. Além disso, também é observado o seu contato com seus familiares.

Parafraseando Piaget,  La Taille E Oliveira (1992), no livro teorias psicogênicas em discussão diz que a inteligência humana somente se desenvolve no indivíduo em função de interações sociais que são em geral, demasiadamente negligenciadas. Na mesma obra, o mesmo autor parafraseando Wallon, diz que não se pode negar que, desde o nascimento, o desenvolvimento intelectual é simultaneamente, obra da sociedade e do indivíduo. Mas esse termo segundo Piaget é desvendado quando o homem é visto como um ser social. Ou seja, a partir dos conhecimentos de sociedade que cada indivíduo possui que eles se denominarão.

Vale frisar que as diversas etapas que definem qualidades diferenciadas do “ser social” acompanham as etapas do desenvolvimento cognitivo. Surge nas entrelinhas dessa compreensão a seguinte interpolação: Que papel tem os fatores interindividuais (escolhas, sonhos, sabedorias) no desenvolvimento cognitivo? Essa resposta encontra-se no cumprimento do

(…) papel de permitir um conhecimento objetivo dos diversos elementos presentes na natureza e na cultura. Dito de outra forma, permitem á inteligência chegar a coerência, á objetividade, mas tanto a busca do conhecimento como da coerência não representam necessidade que se poderiam atribuir a um indivíduo isolado: são, antes de mais nada, necessidades decorrentes da vida social. (LA TAILLE e OLIVEIRA, 1992 ,p. 18)

E esse argumento encontra-se na prática da vida das personagens, quando em Pilar surge a questão da ética, se ele ia aceitar o dinheiro para ele ensinar ou não. E também na delação de Curvelo, se contava para o professor o acontecimento ou se calava perante a corrupção. Ou seja, os elementos da Cultura moralista ou de justiça fez Curvelo dedurar seus amigos, e Pilar aprendeu através de suas relações de convívio (ou seja, sua vida social) com seus colegas de turma. É dentro desse contexto que surgem também os desenvolvimentos oriundos das relações de cooperação onde Yves diz:

Vê-se que a cooperação é o tipo de relação interindividual que representa o mais alto nível de socialização. E é também o tipo de relação interindividual que promove o desenvolvimento. (…) De fato, ser coercitivo ou ser cooperativo, via de regra, depende de uma atitude moral. O indivíduo deve querer ser cooperativo.(…) Vale dizer que o desenvolvimento cognitivo é condição necessária ao pleno exercício da cooperação, mas não condição suficiente, pois uma postura ética deverá completar o quadro.(…) A democracia é condição necessária ao desenvolvimento e á construção da personalidade. (LA TAILLE e OLIVEIRA, 1992, p. 20-21)

Contudo de acordo com as experiências de Pilar e os estudos baseados em Piaget, o desenvolvimento do aluno e ser humano além de está limitado nos aspectos biológicos e lógicos, também envolve o caráter social e a formação de personalidades, no qual envolve os processos de educação escolar, o valor ético, a democracia como requisito para escolhas de opiniões e fazeres, e os direitos humanos afim de resoluções no desenvolvimento.

Todavia é relevante compreender que enquanto na vida fictícia de Pilar deve haver pressuposições de inferências sobre o pensamento do personagem. Em Cazuza, percebe-se os pensares de guisa óbvia. Um exemplo claro é quando o professor João Câncio em sua aula ensina e explica simultaneamente que todos temos direitos e deveres, e o direito de alguém acaba quando interfere no do outro, por isso todas as pessoas tem sua liberdade de expressão e escolhas, observe:

– Ninguém tem liberdade de fazer o que quer sem freio e sem ordem. A liberdade tem limites. A liberdade de cada indivíduo acaba onde começa a liberdade alheia. Eu não posso botar uma corneta na boca e soprá-la fora de horas, quando a população está dormindo. Assim eu iria perturbar o direito de dormir dos meus semelhantes. Eu sou dono de uma casa, mas não posso tocar fogo na casa, porque o fogo vai prejudicar os vizinhos.

E depois de ajeitar os óculos:

– O direito de propriedade é um direito sagrado. Mas, como todo direito, está dentro do circulo da moral. Ora, a moral ensina que se deve ter piedade. A piedade é, portanto, um princípio de moral. Logo, quando uma pessoa, no gozo do seu direito de propriedade, fere as regras de piedade, não está exercendo um direito, está abusando dele. (…) (CORREIA, 1984, p. 176-177)

Toda essa lição de cidadania dada pelo professor á turma de Cazuza, foi relatado por causa de uma agressão á um burro vista por todos, e isso revela que cada pessoa faz parte de um conjunto chamado sociedade. Só se tem desenvolvimento quando se compreende as necessidades da vida social.

A partir desse contexto voltamos ao foco principal arguido no inicio do capitulo, denominado cognição social, a cognição é tida como social, de acordo com Ana Ignez e Rosemary (2011) parafraseando Bandura no livro psicologia da aprendizagem diz que a aprendizagem acontece a partir da observação de comportamentos de outros indivíduos, mediada pelas representações simbólicas do aprendiz. Assim de acordo com o pensar de Bandura é dito que ele

Acredita na capacidade do ser humano de uma autoativação para aprender e de uma resposta consciente sobre seu meio. Para ele, existem determinadas formas de aprendizagem que acontecem a partir da observação de comportamento de outros indivíduos,(…) isto denota a possibilidade de ocorrer um controle do próprio comportamento pelo individuo, partindo da observação do comportamento de uma outra pessoa, assim como de suas conseqüências no ambiente. (NUNES e SILVEIRA, 2011, p. 176)

Logo, compreende-se que para o autor, há uma reciprocidade permanente entre comportamento do individuo, fatores pessoais(cognitivos, emocionais) e contextuais. Dessa forma, é a consciência, o aspecto emocional que vai mediar o comportamento, ou seja, os sentimentos de um aluno acerca de sua aula, na escola, mediará sua ação se mata aula ou não.

Cognitivamente ao analisar a relação professor e aluno em ambas as obras, logo se percebe que ao chegar à sala de aula o aluno é heterônimo,ou seja, é disposto a acatar somente os comandos do professor, sendo incapaz de decidir por conta própria que deve e é capaz de executar atividades e passam a temer seus professores. Isso era como uma cultura. Dessa forma o processo de formação de conceitos não tinha espaço para as duas funções básicas reconhecidas por Vygotsky, um intercâmbio social e um pensamento generalizante, ou seja,

Se por um lado a idéia de mediação remete a processos de representação mental, por outro lado refere-se ao fato de que os sistemas simbólicos que se interpõem entre sujeitoe objeto de conhecimento têm origem social. Isto é, é a cultura que fornece ao indivíduo os sistemas simbólicos que se interpõem entre sujeito e objeto de conhecimento têm origem social. Isto é, é a cultura que fornece ao indivíduo os sistemas simbólicos e representação da realidade e, por meio deles, o universo de significações que permite construir uma ordenação, uma interpretação, dos dados do mundo real. Ao longo de seu desenvolvimento o indivíduo internaliza formas culturalmente dadas de comportamento, num processo em que atividades externas, funções interpessoais, transformem-se em atividades internas, intrapsicológicas. As funções psicológicas superiores, baseadas na operação com sistemas simbólicos, são, pois construídas de fora para dentro do indivíduo. O processo de internalização é, assim, fundamental no desenvolvimento do funcionamento psicológico humano. (OLIVEIRA, 1991 apud LA TAILLE e OLIVEIRA, 1992, p. 27)

Logo percebe-se a relevância da cultura para o desenvolvimento do ser humano, cada indivíduo internaliza aspectos sociais e utiliza como um dos fatores para sua própria personalidade. O que os protagonistas viram na sociedade, nos amigos, na escola e na família gerará conhecimentos através de informações obtidas de suas experiências e de alheias, e isso o conduzirá a formar interiormente opiniões próprias das personagens.

Mas vale destacar que na escola, cabe principalmente ao professor quebrar o paradigma do aluno heterônimo, incentivando assim a autonomia em seus alunos para que não somente em sala de aula, mas também na sua vida social possam ser capazes de tomar decisões responsáveis perante a sociedade. Heloísa Dantas no livro as teorias psicogenéticas em discussão, diz que para Wallon, o ser humano é organicamente social, isto é, sua estrutura orgânica supõe a intervenção da cultura para se atualizar. Contudo pode-se concluir que ocorre uma dependência de experiências próprias e alheias para a evolução da cognição. Assim a cultura e as relações sociais formam o ser humano, ou seja,

A aprendizagem desperta processos internos de desenvolvimento que só podem ocorrer quando o indivíduo interage com outras pessoas. (…) As postulações de Vygotsky sobre os fatores biológicos e sociais no desenvolvimento psicológico apontam para dois caminhos complementares de investigação: de um lado, o conhecimento do cérebro como substrato material da atividade psicológica e, de outro, a cultura como parte essencial da constituição do ser humano, num processo em que o biológico se transforma no sócio-histórico. (LA TAILLE  e OLIVEIRA, 1992, p. 33)

6. A MATURAÇÃO PSICOLÓGICA E METACOGNITIVA DOS ALUNOS

A partir de uma incursão pela literatura, é necessário a clarificação do conceito de metacognição, onde para simplificar o estudo literário das personagens Cazuza e Pilar, será frisado o pressuposto de que

O conhecimento metacognitivo é definido como o conhecimento ou crença que o aprendiz possui sobre si próprio, sobre os fatores ou variáveis da pessoa, da tarefa, e da estratégia e sobre o modo como afetam o resultado dos procedimentos cognitivos. Contribui para o controle das condutas de resolução, permitindo ao aprendiz reconhecer e representar as situações, ter mais fácil acesso ao reportório das estratégias disponíveis e selecionar as suscetíveis de se poderem aplicar. Permite, também, avaliar os resultados finais e/ou intermédios e reforçar a estratégia escolhida ou de a alterar, em função da feitura de avaliações.As experiências metacognitivas prendem-se com o foro afetivo e consistem em impressões ou percepções conscientes que podem ocorrer antes, durante ou após a realização de uma tarefa. (RIBEIRO, 2003)

Assim a metacognição diz respeito, entre outras coisas, ao

Conhecimento do próprio conhecimento, à avaliação, à regulação e à organização dos próprios processos cognitivos. De acordo com Weinert (1987), as metacognições podem ser consideradas cognições de segunda ordem: pensamentos sobre pensamentos, conhecimentos sobre conhecimentos, reflexões sobre ações.(RIBEIRO, 2003)

Partindo desse pressuposto, de que a metacognição está envolvida com o desenvolvimento de aprendizagem e a maturação psicológica, surge o principal destaque de estudo literário do pensamento sobre o pensamento, que será as reflexões da ação de Cazuza e Pilar. Logo, é necessário estudar as práticas dessas personagens destacando desses saberes fictícios aspectos sociais e individuais indissociáveis.

No capítulo passado foi arguido sobre a cognição dos alunos e seus espaços,no qual foi explanado a relevância da comunidade para a intelectualidade dos alunos. A família, escola, a vizinhança, as festas, e demais relações e instituições que Cazuza e Pilar desfrutam representam a fonte de pesquisa de formação interior das reflexões das personagens. E isso está totalmente atrelado á maturação psicológica, pois ela se desenvolve no indivíduo através das suas experiências e aprendizagens, até gerar no próprio indivíduo a personalidade. É estudando sobre isso que será encontrado as reflexões e pensamentos dos protagonistas. Por isso vale destacar que sobre a personalidade Piaget escreve

A Personalidade não é o “eu” enquanto diferente dos outros “eus” e refratário á socialização, mas é o indivíduo se submetendo voluntariamente ás normas de reciprocidade e de universalidade. Como tal, longe de estar á margem da sociedade, a personalidade constitui o produto mais refinado da socialização. Com efeito, é na medida em que o “eu” renuncia a si mesmo para inserir seu ponto de vista próprio entre os outros e se curvar assim ás regras da reciprocidade que o indivíduo torna-se personalidade(…) em oposição ao egocentrismo inicial, o qual consiste em tomar o ponto de vista próprio como absoluto, por falta de poder perceber seu caráter particular, a personalidade consiste em tomar consciência desta relatividade da perspectiva individual e a colocá-la em relação com o conjunto das outras perspectivas possíveis: a personalidade é, pois, uma coordenação da individualidade com o universal. (Apud LA TAILLE, 1992, p. 16-17)

Enquanto a cognição envolve aspectos interiores e exteriores do indivíduo. A metacognição fixa sua base no interior do mesmo, onde as reflexões exteriores e os resultados desses pensamentos, experiências e aprendizagens formam a personalidade.

Pode-se dizer que o fato das duas obras estarem envolvidas com memória já envolve uma metacognição ocultamente, pois seus narradores são os personagens que estão refletindo, e consequentemente, lembrando de suas ações do passado. No livro psicologia da aprendizagem processos, teorias e contextos no tópico Memória, define-se ela como um processo pelo qual aquilo que é aprendido e persiste ao longo do tempo. Além disso, Ana Ignez e Rosemary dizem que esta, está intimamente ligada com a aprendizagem, ou seja,

Podemos dizer que a maior parte do que sabemos sobre nossa realidade, não nasceu conosco, mas foi aprendida por meio da experiência, da atividade e mantida pela nossa memória. É possível afirmar que somos quem somos, em grande medida, por causa de nossas capacidades de aprender e lembrar. (…) é possível dizer que perder a memória leva a perda de si, a perda da história de uma vida e das interações com os outros seres humanos.(NUNES e SILVEIRA, 2011, p. 176)

A memória é algo que traz aprendizagens interiores da alma. Sem lembranças não existiria conhecimentos e consequentemente o ser humano não seria racional. Mas é verdade também que a memória que influencia muitas das emoções dos indivíduos. Um erro, ou melhor uma tentativa de acerto representa muitas reciclagens para as vitórias futuras, pois o lembrete das falhas faz o ser humano entender e guardar na sua consciência novas construções de conquistas. É por isso quea liberdade de escolhas, e atuação da expressão de opiniões fixa a autonomia como algo primordial a todo ser vivente. Na teoria de Piaget, quando trata do processo de Socialização, a

Autonomia significa ser capaz de se situar consciente e competentemente na rede dos diversos pontos de vistas e conflitos presentes numa sociedade.(…) as diversas etapas que definem qualidade diferenciadas do “ser social” acompanham as etapas do desenvolvimento cognitivo. (LA TAILLE, 1992, p. 17)

E para esse argumento Yves de La Taille parafraseia Piaget, quando define a coação social por toda relação entre dois ou n indivíduos na qual intervém um elemento de autoridade ou de prestígio. Um exemplo dado por eles é quando

(…) Um professor afirma determinada proposição, e seu aluno, que nele vê um homem de prestígio – seja pelo simples fato de ser professor, seja pelo fato de ser professor de uma academia famosa -, acredita “piamente” na proposição afirmada. Vale dizer que o aluno em questão toma como verdade o que lhe foi dito, não porque tenha sido convencido por provas e argumentos, mas porque a “fonte” da afirmação é vista por ele como digna de confiança ou como lugar de poder. (LA TAILLE, 1992, p. 18)

Esse exemplo assemelha-se com Cazuza na idealização do seu professor em sua terceira escola. Pode-se perceber que tanto na obra de Viriato como em Pilar de Machado de Assis, ambos os protagonistas não tinha autonomia para se expressar.

As escolas costumam incentivar a obediência e a conformidade: porém, quando a autonomia torna-se o objetivo da educação, o princípio mais básico é evitar a imposição de decisões pré-fabricadas. A família também tem um papel muito importante neste contexto, pois os adultos podem estimular a troca de pontos de vista em vez de punir as crianças, como ocorre com as sovas de Pilar. É interessante que em Cazuza, ocorre essa troca de opiniões, quando este chega da sabatina de tabuada com as mãos inchadas e sangrando e ao mostrar para sua mãe, seu pai e o seu Tio Olavo (o único a favor desses castigos que o professor fazia), houve uma decisão de Cazuza ir para a escola da Vila.

Em ambas as personagens, a metacognição ocorre a partir das experiências de cada personagem, cada cena trouxe uma aprendizagem a mais que o fez somar nas reflexões de suas ações, exemplos, é quando Pilar reflete se vai para a escola ou vai cabular aula, por conta de sua reflexão sobre suas lembranças, ele optou ir para escola, porque havia lembrado da sova que seu pai o havia dado. Já em Cazuza, percebe-se uma reflexão parecida na cena a aposta de escrita, aonde ele teve autonomia de refletir o porquê que os dois tinham que receber bolos da palmatória, sendo que os dois estavam com uma escrita bonita.

O conto de Escola de Machado de Assis, não trata de muitas novidades, apenas assuntos do cotidiano, porém algo o incomoda na escolha do “Morro ou Campo? Tal era o problema. De repente disse consigo mesmo que o melhor era a escola, e foi para a escola, mas antes explicou o motivo que pesou na decisão, pois na semana passada tinha sido descoberto que matara aula, e por issoo pai lhe uma sova de vara de marmeleiro. O fato dele ter refletido em suas escolhas, já remete a algo novo, algo fora do cotidiano, e quando chega na escola, se depara com situações mais complicadas. Pois foram elas que lhe deram o conhecimento da delação e da corrupção.

Em Cazuza também existe muitas cenas novas, cada parte por exemplo, concede uma novidade fora do cotidiano, vale frisar que cada tópico mostram cenas que muda o sentido rotineiro, por isso serão frisadas apenas algumas novidades. Na primeira destaca-se a festa da palmatória onde as crianças festejavam a morte da palmatória, e o primeiro dia de aula, na segunda parte muda tudo, pois é a mudança de Cazuza e família para a Vila, ali a escola é amada por todos. Na terceira parte do livro não é diferente, entretanto ali umas das principais mudanças é a descoberta da cidade, onde tudo é atrativo, até mesmo a vitrine de uma farmácia, a escola dessa parte é um internato, e tudo está voltado ao professor ideal.

O cotidiano de ambos os protagonistas, geram conceitos interiores acerca de tudo que os envolvem, assim

(…) os conceitos científicos, diferentemente dos cotidianos, estão organizados em sistemas consistentes de inter-relações. Por sua inclusão no sistema e por envolver uma atitude mediada desde o início de sua construção, os conceitos científicos implicam uma atitude metacognitiva, isto é, de consciência e controle deliberado por parte do indivíduo, que determina seu conteúdo no nível de sua definição e de sua relação com outros conceitos. (OLIVEIRA, 1992, p. 32)

Logo, para Vygotsky, metacognição também pode ser considerado a consciência, pois ambas representam

(…) a própria essência da psique humana, constituída por uma inter-relação dinâmica, e em transformação ao longo do desenvolvimento, entre intelecto e afeto, atividade no mundo e representação simbólica, controle dos próprios processos psicológicos, subjetividade e interação social. (OLIVEIRA, 1992, p. 79)

Conforme o pensar de Vygotsky, a aprendizagem sempre inclui relações entre as pessoas. A relação do indivíduo com o mundo está sempre mediada pelo outro. Não há como aprender e apreender o mundo se não tivermos o outro, aquele que nos fornece os significados que permitem pensar o mundo a nossa volta. E sobre as vivências de Cazuza e Pilar, pode-se perceber que cada espaço envolve uma cultura, dessa forma as

(…) diferentes culturas produzem modos diversos de funcionamento psicológico. (…) seu processo de formação de conceitos não inclui, pois, a atitude mediada e a atividade metacognitiva típicas de uma exposição sistemática ao conhecimento estruturado da ciência. As diferenças qualitativas no modo de pensamento de indivíduos provenientes de diferentes grupos culturais estariam baseadas, assim, no instrumental psicológico advindo do próprio modo de organização das atividades de cada grupo. (OLIVEIRA, 1992, p. 33)

O desenvolvimento do ser humano, e os pensamentos envolve as dimensões cognitivas e afetivas, as funções mentais ou cognição, contém uma organização dinâmica da consciência, no qual são aplicados ao afeto e ao intelecto, gerados  pelas inter-relações e influências mútuas, ou seja, o relacionamento que as personagens possuem com outras, referem-se á estruturação dos sentidos favorecidos através das ações expressadas pela aptidões, favores e fazeres dispostos por cada comportamento dos alunos. Partindo desse pressuposto no caso de Vygotsky,

os aspectos mais difundidos e explorados de sua abordagem são aqueles referentes ao funcionamento cognitivo: a centralidade dos processos psicológicos superiores no funcionamento típico da espécie humana; o papel dos instrumentos e símbolos, culturalmente desenvolvidos e internalizados pelo indivíduo, no processo de mediação entre sujeito e objeto de conhecimento; as relações entre pensamento e linguagem; a importância dos processos de ensino-aprendizagem na promoção do desenvolvimento; a questão dos processos metacognitivos. (OLIVEIRA, 1992, p. 75)

Para Vigotski é essencial à participação da família e do professor na construção da aprendizagem do indivíduo, onde ambos têm total importância, pois as mudanças que ocorrem em cada um de nós têm sua raiz na sociedade. A personagem Pilar passou por essa essência, se não fosse a sova de seu pai, ele não teria ido para a escola e aprendido algo novo. E de fato isso também acontece com Cazuza, cada escola gerou novos conhecimentos nele. Sua família foi a pedra angular, para que ele fosse á escola.

Além disso, o desenvolvimento segundo Vigotski se dá de fora para dentro. Dessa forma, a educação passa a ser vista como processo social sistemático de construção da humanidade. Vale ressaltar também que dentro desse raciocínio, Vygotsky coloca que

o pensamento tem sua origem na esfera da motivação, a qual inclui inclinações, necessidades, interesses, impulsos, afeto e emoção.“ A análise em unidades indica o caminho para a solução desses problemas de importância vital. Demonstra a existência de um sistema dinâmico de significados em que o afetivo e o intelectual se unem. Mostra que cada idéia contém uma atitudes afetiva transmutada com relação ao fragmento de realidade ao qual se refere. Permite-nos ainda seguir a trajetória que vai das necessidades e impulsos de uma pessoa até a direção específica tomada por seus pensamentos, e o caminho inverso, a partir de seus pensamentos até o comportamento e a sua atividade” (VYGOTSKY, 1989, p. 6-7 apud OLIVEIRA, 1992, p. 76-77)

É a partir da união do afeto com o intelectual, que o ser humano constrói suas posições, e agem. No caso de Cazuza e Pilar, não foi diferente, cada reflexão refletia um sentimento quanto ás suas ações. Por serem alunos, seus pensamentos e emoções parecem com algumas características de estudantes da vida real.

Com os protagonistas, Cazuza e Pilar, percebe-se que ninguém pode transmitir conhecimento de uma pessoa à outra, o aprendizado é adquirido durante experiências vividas, durante o fazer. O professor de Pilar não era um professor Ideal como o da terceira Parte de Cazuza. Policarpo no conto de Machado de Assis, só gerava medo. Já o professor João Câncio era sinônimo de inspiração. Com certeza uma história contada por João câncio surtiria mais efeito em um aluno real do uma história dita por Policarpo. Isso só mostra que os docentes também possuem responsabilidade quanto ao aprendizado e experiências dos alunos.

Alberto Caeiro faz a reflexão sobre a importância do esquecimento quando referido a obtenção de aprendizagem, pois para encontrar quem realmente somos e o que de fato, merece ser lembrado e aprendido é necessário ter autonomia e agir como o eu lírico dessa poesia,

Procuro despir-me do que aprendi;

Procuro esquecer do modo de lembrar que me ensinaram,

E raspar a tinta com que pintaram os sentidos

Desencaixotar minhas emoções verdadeiras

Desembrulhar-me e ser eu(…)

(PESSOA, 1993, p. 48)

Os interesses e preferências de um indivíduo, assim como a necessidade específica de aprender algo, influenciam a natureza e a intensidade da memória resultante.  E isso faz com que maturação psicológica e a metacognição dos alunos sejam vistos e reorganizados para a soma de aspectos positivos distribuídos em todas as instituições que os envolvem e os entrelaça como um todo.

7. CONCLUSÃO

A partir das análises dos alunos Cazuza e Pilar foram percebidos que a literatura é um excelente mecanismo para estudar fatos da vida real.

Assim como os erros e acertos dos professores dos protagonistas, cada educador deverá encontrar um caminho adequado de acordo com suas experiências e com a necessidade da turma. A metacognição ou a reflexão das ações das personagens possuem completa paridade com a realidade. Dessa forma o professor do nível superior, ou acadêmico de alguma licenciatura terá esse trabalho como base para mergulhar nas experiências do universo escolar.

Dentro da obra de Viriato Correia e Machado de Assis, as atitudes dos professores com seus alunos fizeram o ledor pensar que as pessoas envolvidas com a educação devem procurar metodologias de ensino eficazes, para que haja aprendizagem. É difícil pensar que com esse trabalho existirá uma formula certa para a solução de problemas da vida real, pois cada ser é diferente e pensa diferente. Logo, surge a necessidade de cada educador encontrar um caminho adequado de acordo com suas experiências e com a necessidade de suas turmas.

Mas o ponto chave é induzir ao leitor do trabalho que a metacognição ocorre dentro da literatura e que muitas vezes a resposta para uma educação de qualidade deve ser o aluno aprender, saber, pensar, ser crítico, analítico e o educador ter consciência de que não é detentor de todo o saber, mas só tem em suas mãos a criatividade para formular metodologias de aprendizagens atrativas. Com essa análise comparativa da metacognição entre as personagens Cazuza e Pilar, e também com os alunos reais percebe-se a relevância do Educador e educando caminhar lado a lado, construindo juntos uma cultura que acredita no conhecimento como produção social e que valoriza a vivencia cotidiana.

Todos na humanidade possuem algo para ensinar e aprender com o outro. O desenvolvimento ou cognição das personagens revela que a verdade de que as vivências das diferenças sociais, a humildade, e as condições são verdadeiras lições para a escola da vida. Em outras palavras pode-se perceber que na vida sempre existe aquele que aprende e aquele que ensina. E no caso das personagens elas são, como toda alma vivente, aprendizes da vida. Claro que foram alunos na escola também, mas cada detalhe nas obras foi visto como uma experiência de onde se deve tirar algo produtivo para ser aplicado na sociedade.

Cada personagem envolvida com os protagonistas possui uma peculiaridade na qual auxilia na compreensão de que a escola envolve toda a sociedade. A formação de caráter de Cazuza e Pilar ocorrem através de suas experiências e ações. Cada ação indica uma reflexão realizada ou não. E isso só filtra a relação dessas vidas fictícias com parâmetros de alunos da vida real.

Os estudos sobre a metacognição como reflexão da ação, da cognição como desenvolvimento com a sociedade e da maturação psicológica como os pensamentos introspectivos estudados por meio da vida fictícia traz ao ledor uma inovação literária, na qual ocorre a interdisciplinaridade das aprendizagens, envolvem a pedagogia, a psicologia, as relações sociais e principalmente a literatura como objeto de pesquisa.

Os resultados da pesquisa mostram a relação dos alunos atuais com as personagens Cazuza e Pilar. Apesar de serem personagens feitos em épocas diferentes, percebe-se que Pilar e Cazuza são personagens muito atuais.

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[1] PÓS-GRADUADA em Administração Escolar e Supervisão Escolar.  PÓS-GRADUADA em Metodologia De Ensino De Língua Portuguesa, Literatura E Língua Espanhola.  PÓS-GRADUADA em Informática Da Educação e Docência Do Ensino Superior. (ambas em Faculdade Futura). Graduada em PEDAGOGIA (Faculdade Futura) e LETRAS LICENCIATURA LÍNGUA PORTUGUESA E SUAS LIT. (UEMA).

Enviado: Novembro, 2020.

Aprovado: Maio, 2021.

Graduada em Pedagogia (Faculdade Futura) e Letras. Licenciatura em Língua Portuguesa e suas literaturas (UEMA). Pós-graduada em Administração Escolar e Supervisão Escolar. Pós-graduada em Metodologia De Ensino De Língua Portuguesa, Literatura E Língua Espanhola. Pós-graduada em Informática Da Educação e Docência Do Ensino Superior. (ambas na Faculdade Futura).

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