Hamlet: ações e consequências

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CONTEÚDO

ARTIGO DE LITERATURA

NASCIMENTO, Jeremias Oliveira do [1]

NASCIMENTO, Jeremias Oliveira do. Hamlet: ações e consequências. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 06, Ed. 12, Vol. 10, pp. 68-80. Dezembro de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/literatura/acoes-e-consequencias

RESUMO

Este artigo tem como objetivo analisar o comportamento de um dos maiores personagens de William Shakespeare, Hamlet, um príncipe dinamarquês que busca vingar a morte de seu pai, Rei Hamlet, que foi envenenado por seu irmão, Cláudio, casando-se com a rainha, Gertrudes, e usurpando o trono. A análise é feita através da interpretação do New Criticism, a fim de esclarecer e demonstrar algumas estratégias utilizadas pelo príncipe para realizar sua vingança, e responder questões adversas do príncipe como, por que Hamlet levou tanto tempo para realizar sua vingança? Por que apenas Hamlet viu o espectro de seu pai ao dialogar com sua mãe? Hamlet era vilão ou herói? Quais foram as ações de Hamlet mediante as suas dificuldades? E qual foi a maior consequência de seu comportamento? Pode-se considerar que Hamlet é responsável por seis mortes num total de dez contadas pela peça. E o sangue dessas personagens trouxe-lhe a loucura.

Palavras-Chave: análise, comportamento, Hamlet, Shakespeare.

1. INTRODUÇÃO

William Shakespeare nasceu em Stratford-Upon-Avon, Inglaterra, sem data definida, mas com o batismo registrado em 23 de abril de 1564. De acordo com as tradições da época, o batismo era feito com até sete dias após o nascimento de uma criança. No entanto, sua morte tem uma data definida, foi no mesmo dia e mês de seu batismo no ano de 1616. O dramaturgo Stratfordiano, durante sua vida, escreveu 154 sonetos e 38 peças divididas em tragédias, comédias e históricas. Entre suas tragédias, algumas se destacam mais, tais como, Lear, Macbeth, Otelo e Hamlet, está última é o objeto de estudo deste artigo.

Hamlet é um príncipe dinamarquês que busca vingar a morte de seu pai, o rei Hamlet que foi envenenado por seu irmão, Cláudio, encenada pela primeira vez em 1601 em Londres, é a peça mais longa do dramaturgo, com cinco e extensos atos, e aproximadamente quatro mil e quinhentos versos. Hamlet participou da metade desses versos, recitando 6 longos monólogos demasiado em pensamentos reflexivos que é uma das características marcantes na peça. O tio do protagonista, aquele que viria a ser seu arqui-inimigo, recita um monólogo, somando assim o número canônico Sete.[2] Teria Shakespeare uma preocupação com a religiosidade?

“Qualquer um que leia ou veja a peça de Hamlet é obrigado a se tornar um intérprete.” (BLOOM, 2010, p. 368) Entende-se como “intérprete” a pessoa que esclarece algo ou alguma coisa. Portanto, neste artigo são apresentadas algumas interpretações de dois críticos literários, Peter Wenzel (2010) e Jerome Mazzaro (1985), sobre o comportamento de Hamlet e sua estratégia para concretizar sua vingança, como o uso da memória, a simulação da loucura e a ambiguidade, além do suporte psicológico de Jaques Lacan.

Foi feito uma análise do New Criticism do texto da peça no formato original, ou seja, inglês clássico, buscando trabalhar os aspectos políticos e comportamentais que não são normais nem mesmo para um príncipe. Desta forma, espera-se responder perguntas tais como: Por que Hamlet levou tanto tempo para realizar sua vingança? Por que apenas Hamlet viu o espectro de seu pai ao dialogar com sua mãe? Hamlet era vilão ou herói? Quais foram as ações de Hamlet mediante as suas dificuldades? E qual foi a maior consequência de seu comportamento?

Os resultados desta pesquisa podem ajudar a complementar os estudos que já foram feitos sobre o comportamento do príncipe dinamarquês, e expandir o leque de informações sobre Hamlet, pois de acordo com Kant (1985), o público que adere a uma única ideia tem o conhecimento estreitamente limitado.

2. A CONSTRUÇÃO COMPORTAMENTAL DE HAMLET

O papel do narrador é contar a história e trazer compreensão aos leitores, explicar como o fato aconteceu e quais são suas consequências. Como este artigo analisa uma peça teatral, onde os fatos geralmente não são narrados. Shakespeare atribui-se de uma ferramenta para trazer compreensão aos seus leitores, transformando alguns de seus personagens em comentaristas. Até mesmo aqueles só aparecem uma vez como, Fortinbras, o príncipe da Noruega, que aparece apenas no fim da peça para assumir o trono da Dinamarca e o coveiro que é o único personagem capaz de confrontar o intelecto de Hamlet, universitário, renascentista, uma personagem que marca um período de transição, da Idade Média para a Idade Moderna, saindo das trevas e indo para a luz. Seria o príncipe dinamarquês um iluminado? Suas ações eram claras? Se sim, então por que comentaristas?

Hamlet é um indivíduo que pensa muito e age pouco, suas ideias não são claras e suas ações são passiveis de interpretações errôneas. Para Wenzel (2010), Shakespeare teve o cuidado de proteger o público desses erros, como uma possível insanidade, e facilitar o entendimento sobre as adversidades enfrentadas pelo príncipe, como concretizar sua vingança. Este foi um dos propósitos do autor para transformar alguns de seus personagens em comentaristas.

A ideia da loucura de Hamlet começa com a teoria de Polônio, onde sua filha, Ofélia, seria a razão da insanidade do príncipe. Como mostra o trecho abaixo.

POLONIUS Come, go with me, I will go seek the king.

This is the very ecstasy of love,

Whose violent property fordoes itself,

And leads the will to desperate undertakings

As oft as any passion under heaven

That does afflict our natures. (SHAKESPEARE, 2003, p. 130, II.i.99-104)[3]

Cláudio como comentarista, corrigi Polônio dizendo:

CLAUDIUS Nor what he spake, though it lacked form a little,

Was not like madness. (SHAKESPEARE, 2003, p. 163, III.i.157)[4]

Hamlet não estaria louco, mas emocionalmente comprometido pela recente morte de seu pai e com o novo casamento de sua mãe, Gertrudes.

Segundo Wenzel (2010, p. 149) “the avenger often feigns madness to gain time to investigate the murder and prepare his revenge”.[5] Entende-se que Hamlet usa a loucura como estratégia para alcançar seu objetivo. Toda via, há apenas dois personagens para quem o príncipe não simula sua loucura, Horácio e Gertrudes. O príncipe confessa algo a mais para sua mãe, como pode ser constatado abaixo:

GERTRUDE What shall I do?

HAMLET Not this by no means that I bid you do:

Let the bloat king tempt you again to bed,

Pinch wanton on your cheek, call you his mouse,

And let him for a pair of reechy kisses,

[…]

That I essentially am not in madness,

But mad in craft. ‘Twere good you let him know.[6] (SHAKESPEARE, 2003, p. 163, III.iv.181-189)

Hamlet confessa sua sanidade para a rainha e também sua insatisfação com a mesma. Se o príncipe estava em sua plena consciência, então por que o equívoco de outros personagens sobre seu comportamento?

A loucura muitas vezes está ligada a falta de compreensão. Hamlet, então se faz valer dessa ignorância para pôr seu plano em ação, ele, então, finge insanidade, através de respostas carregadas de duplo sentido. Como constatado abaixo:

POLONIUS […] What do you read my lord ?

HAMLET Words, words, words. (…)

POLONIUS Indeed that’s out of the air. A happiness that often madness hits on, which reason and sanity could not so prosperously be delivered of.[7] (SHAKESPEARE, 2003, p. 139, II.ii.188-189 / 203-205)

Este trecho demonstra uma questão simples cheia de malícia por parte de Polônio, no entanto, o príncipe demonstra sua sanidade através de uma resposta simples, mas ambígua, sem perde a coerência, segundo Wenzel (2010), somente pessoas sãs possuem essa capacidade cognitiva.

Para os olhos das personagens que cercam o príncipe, sua duplicidade de sentido é uma loucura, mais para Wenzel (2010), é uma genialidade, em outras palavras, Shakespeare atribuiu ao príncipe uma boa estratégia, o uso da ambiguidade, pois aquilo que não é compreendido torna-se insanidade.

A duplicidade de sentido nas respostas de Hamlet é encontrada em vários momentos da peça. Contudo, umas das passagens mais emblemáticas é o momento em que o príncipe discute com a filha de polônio, deixando transparecer sua inconformidade com o gênero feminino, primeiro com Gertrudes, como vimos antes, e agora com Ofélia:

HAMLET […] be thou as chaste as ice, as pure as snow, thou shalt not escape calumny. […]

Get thee to a nunnery, go, […]

OPHELIA O heavenly powers, restore him!

HAMLET […] To a nunnery, go.[8] (SHAKESPEARE, 2003, p. 162, III.i.132-136/142)

A palavra com duplo sentido é “nunnery”, que de acordo com o contexto pode significar um bordel ou um convento, mas mesmo mostrando o contexto em que esta palavra é usada não se sabe ao certo em que sentido Hamlet queria usá-la porque sua resposta é exagerada em ironia.

É possível notar que Wenzel (2010) defende a sanidade de Hamlet, sua capacidade de usa a ambiguidade como resposta para perguntas simples e a falsa loucura usada como mecanismo de defesa. Todavia, é possível notarmos um príncipe melancólico que em muitos momentos prefere estar sozinho, como pode ser observado a seguir:

Hamlet […] Now I am alone.

O what a rogue and peasant slave am I ![9] (SHAKESPEARE, 2003, p. 152, II.ii.500-501)

Hamlet não é escravo no sentido literal, sua escravidão está pautada em perguntas sem respostas e problemas sem solução. Por que ficar com alguém que não me entende? Devia ser essa a pergunta que Hamlet fazia a ele mesmo em relação à Ofélia. Viver no mesmo castelo com alguém que me traiu, por quê? Outra possível questão em relação a sua mãe. Por que ter a presença de pessoas, nas quais não confio? Uma referência a seus amigos de faculdade, Rosencrantz e Guildenstern. Antes da morte a solidão é a melhor opção para o príncipe.

3. A MEMÓRIA COMO ESTRATÉGIA

As memórias sobre o rei vivo são o que restam de uma ligação entre os dois Hamlets, pai e filho, mesmo que sejam ruins, afinal, nem todas as memórias podem ser boas. Essas memórias fazem permanecer viva sua sede de vingança. Shakespeare, então fornece o uso da memória como estratégia para o príncipe usar contra Cláudio e fazê-lo confessar sua culpa, através da construção de uma peça dentro da peça.

A intenção de Shakespeare é mostrar ao público uma cena que estava escondida da peça original e dar-lhes a chance de ver a consumação de um crime, o assassinato do rei. No entanto, a intenção de Hamlet é “remind a murderer of his crimes by their likenesses to past events”.[10] Assim, seu padrasto confessaria sua culpa e o príncipe poderia finalmente materializar sua vingança. Mas, mesmo quando Hamlet obtém a confissão de Cláudio, ele não age imediatamente, em um momento de reflexão e melancolia o príncipe recita um monólogo dizendo:

HAMLET Now might I do it pat, now a is a-praying,

And now I’ll do’t – and so a goes to heaven,

And so am I revenged. Tha t would be scanned.

A villain kills my father, and for that,

I his sole son do this same villain send

To heaven.[11] (SHAKESPEARE, 2003, p. 185, III.iii.73-78)

Um raciocínio rápido e lógico para quem é cristão, mas um cristão não usa vingança para fazer justiça, uma religião que prega a paz e o amor, onde sua figura principal, Jesus de Nazaré, o qual ama seus inimigos, não aprovaria essa atitude. Certamente, a religião não é a explicação para o problema de Hamlet em adiar a realização de sua vingança, porque Shakespeare, como dramaturgo, não é nem cristão nem moralista. Então, por que Hamlet demora tanto? O próprio príncipe também não sabe:

HAMLET […] I do not know

Why yet I live to say this thing’s to do,

Sith I have cause, and will, and strength, and means

To do’t.[12] (SHAKESPEARE, 2003, p. 203, IV.iv.43-46)

De acordo com Mazzaro (1985, p. 104) “The melancholy accounts, too, for his lethargy in acting and for his inability to understand why he delays, and it can be used as well to explain his wit and quick discernment, prolonged deliberation, and sustained passion”.[13] Desta forma, entende-se que o sentimento melancólico de Hamlet é responsável por prolonga a peça. Porém, para o leitor é um deleite ter mais tempo para saborear uma literatura tão deliciosa, ao invés de devorá-la de uma só vez.

Um outo fator que também contribui para a demora de dilema da vingança de Hamlet é as dúvidas que ele tem em relação as palavras do espectro do seu pai. A dúvida é uma característica do intelecto. Contudo, quanto mais conhecimento, mais sofrimento. E as respostas? Onde encontrá-las? Talvez um livro fosse à melhor solução. Para Gertrudes, uma personagem transformada em comentarista pelo autor da peça, faz uma observação:

GERTRUDE But look where sadly the poor wretch comes reading.[14] (SHAKESPEARE, 2003, p. 138, II.ii.166)

O fato de o príncipe passar uma boa parte da peça com o livro na mão, faz dele um sujeito melancólico, outros fatores já mencionados neste artigo contribuíram para esse sentimento. É possível que Hamlet use este objeto como válvula de escape para fugir da origem do seu distúrbio emocional.

Para Mazzaro (1985), a origem da melancolia de Hamlet está ligada à sua memória. Isso pode ser constatado no trecho a seguir, que é uma das partes mais simbólicas da peça e muito importante, pois o príncipe dá informações pertinentes a Horácio e ao público sobre o crânio, que ele carrega nas mãos e deixa transparecer como sua tristeza possível começou:

HAMLET Let me see. [Takes the skull.] Alas poor Yorick!

I knew him Horatio, a fellow of infinite jest, of most excellent fancy, he hath borne me on his back a thousand times – and now how abhorred in my imagination it is!

M y gorge rises at it. Here hung those lips that I have kissed I know not how oft.

Where be your gibes now? your gambols, your songs, your flashes of merriment that were wont to set the table on a roar? [15] (SHAKESPEARE, 2003, p. 231, V.i.156-163)

Desta forma entende-se que Yorick, o bobo da corte que marcou a infância de Hamlet com jogos e truques, parece ser sua melhor lembrança, demonstrando, assim um possível distanciamento entre ele e seus pais.

4. O PRÍNCIPE LOUCO

Segundo Mazzaro (1985), Hamlet não é um indivíduo perturbado pela insanidade, mas por suas emoções, os sentimentos do príncipe são responsáveis por uma boa parte de suas atitudes. Portanto, a resposta para a próxima pergunta será os sentimentos de vossa realeza? Por que apenas Hamlet ver o espectro de seu pai quando está em um diálogo com sua mãe?

Antes de responder esta pergunta é importante salientar que o fantasma do rei foi visto por outros personagens no início da peça, como os oficiais da guarda do palácio real dinamarquês em Elsinore e o melhor amigo de Hamlet, Horácio.

Mazzaro (1985) nota que a loucura de Ofélia é bem recebida pelo público, mas essa mesma receptividade não ocorre com a doença fingida do príncipe. A desconfiança que o público tem em relação à sanidade de Hamlet está concentrada em momentos em que parece improvável que ele estivesse fingindo. Um desses momentos ocorre quando apenas a rainha e seu príncipe estão conversando. De repente, a figura do rei morto aparece, mas apenas Hamlet pode vê-lo e ouvi-lo. Como mostrado abaixo:

HAMLET A king of shreds and patches

Save me and hover o’er me with your wings, You heavenly guards!

What would your gracious figure?

GERTRUDE Alas he’s mad! […]

HAMLET Do you see nothingthere?

GERTRUDE Nothing at all, yet all that is I see.

HAMLET Nor did you nothing hear?

GERTRUDE No, nothing but ourselves.[16] (SHAKESPEARE, 2003, p. 191, III.iv.102-105/130-133)

O príncipe acha que sua mãe esqueceu seu pai, isso machuca seus sentimentos. Ele então entra em um estado de frenesi e vê o fantasma do rei, no entanto, sua mãe não o ver, ou seja, ela estaria em sã consciência. Em outras palavras, Hamlet é um sujeito movido pela emoção. Para Mazzaro (1985), este é o momento em que Hamlet fica mais perto da insanidade. É importante saber disso, para entender até que ponto os sentimentos de Hamlet interferem em seu comportamento, sua estratégia e no seu mecanismo de defesa.

Uma loucura real ou uma loucura fingida, o fato é que Hamlet ao usar a loucura como estratégia é bem fundamentada, considerando a ignorância das outras personagens, porém, ao que indica seus sentimentos, são seus maiores obstáculos.

Um psicanalista francês chamado, Jacques Lacan (1986), também abordou a loucura de Hamlet como um mecanismo de defesa que o príncipe usa para confirmar a culpa de seu suspeito, seu tio e padrasto, Cláudio. Porém, sua melancolia leva-o a loucura no decorrer da peça e aquilo que era um fingimento torna-se real.

5. UM HERÓI EM CONFLITO

A astucia de Claudio em assumir o trono, causa desconfiança em um dos membros da guarda real do castelo de Elsinore:

MARCELUS Something is rotten in the state of Denmark.[17] (SHAKESPEARE, 2003, p. 117, I.v.89)

Cláudio, aquele que veio a ser o vilão da história, pois, matou seu irmão para casar-se com sua cunhada e assumir o trono, faz cair por terra o complexo de Édipo de Freud, defendida por Jaques Lacan no seu livro Hamlet por Lacan. Onde o filho mata o pai para casar-se com a mãe de forma inconsciente. Uma teoria pautada em uma história que se trata de destino, do qual Édipo não consegue fugir.

Hamlet não é guiado pelo seu destino, ele não está predestinado a matar Cláudio para casar-se com sua mãe, e sim, vingar a morte de seu pai. Ele é guiado por seus pensamentos e por suas ações, as quais conflitam-se durante toda a peça.

O príncipe dinamarquês assume dois papeis na peça shakespeariana, um de vingar a morte do seu pai e outro de depor um indivíduo criminoso que tomou o poder de forma tirânica. Em uma resposta ambígua ao seu tio e padrasto, Hamlet acusa Claudio de ser um verme político. Como mostrado abaixo:

CLAUDIUS […], where’s Polonius?

HAMLET At supper.

CLAUDIUS At supper? Where?

HAMLET Not where he eats, but where a is eaten.

A certain convocation of politic worms are e’en at him.[18] (SHAKESPEARE, 2003, p. 117, IV.iii.16-20)

Hamlet assassina Polônio por engano, pensava ser Cláudio, o príncipe não fica triste por errar, Polônio é aliado de Cláudio, merece o mesmo destino, mas seu filho? O príncipe também mata Laertes, e é responsável pelo suicídio de Ofélia. Em seguida, Hamlet descobre que sua vida corre perigo através de um bilhete encontrado com seus amigos, possíveis aliados de seu inimigo, então falsos amigos, o príncipe faz o jogo virar contra o jogador, troca os bilhetes e manda matar Rosencrantz e Guildenstern.

Cláudio perde aliados, agora corre risco de morrer pelas mãos do príncipe Hamlet. Contudo, esse mesmo príncipe matou pessoas que acreditava serem culpadas, pessoas que foram julgadas pelo seu tribunal mental.

Somente depois de cinco mortes Hamlet consegue concluir sua vingança, e elimina o “verme político”. Isso faz do príncipe um herói ou vilão? Segundo Mazzaro (1985), a melancolia interfere no discernimento do bem e do mal. Isso pode explicar a isenção de culpa de Hamlet em matar Polônio por engano, e quando ele ordena a morte de seus amigos de infância, Rosencrantz e Guildenstern, que morrem sem saber o motivo. No entanto, a resposta parece ser bastante clara, em um olhar contemporâneo, uma pessoa que procura fazer justiça com suas próprias mãos em busca de benefício próprio, não é um herói e quem mata ou ordena a morte de pessoas inocentes, se torna um assassino. Um herói deve ser polido pela moralidade e pela justiça, virtudes que não fazem parte da personalidade do príncipe da Dinamarca.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tanto Wenzel (2010) quanto Mazzaro (1985), em seus comentários, defendem a lucidez de Hamlet, seu intelecto e sua habilidade de usar a loucura como um mecanismo de defesa e estratégia para evidenciar a culpa do assassino de seu pai, um dos objetivos da peça.

De acordo com os estudos apresentados pelos críticos neste trabalho, é possível verificar que Hamlet é um indivíduo melancólico, e as respostas para as questões que foram levantadas nesta pesquisa, são as ações emotivas do príncipe, que também são responsáveis por dizimar uma família inocente, as mortes de Polônio, Ofélia e Laerte, além das mortes de Rosencrantz e Guildenstern, colegas da universidade de Winttenberg. O príncipe herdeiro acreditava que eles eram aliados de Cláudio, mas eles não sabiam o que estava acontecendo entre o rei e o príncipe. Hamlet poderia ter salvado suas vidas, porém seus sentimentos impediram-no. Somente após a morte de cinco pessoas inocentes e a rainha Gertrudes, Hamlet concretiza sua vingança, matando Cláudio. Outras mortes também são contabilizadas, como a morte de dois reis antes da peça começar, Rei Hamlet e Rei Fortinbras, além do próprio Hamlet, no fim da peça, o último a morrer. Portanto, é possível considerar que a maior tragédia shakespeariana, a qual conta a história de dez mortes, onde Hamlet foi responsável por seis delas, o mesmo número de monólogos por ele recitado.

Shakespeare não deixa dúvidas sobre a loucura de alguns de seus personagens, como Ofélia e Lady Macbeth, que enlouqueceram no curso de suas respectivas peças, Hamlet e Macbeth. Lady Macbeth ficou louca pelo sangue inocente em suas mãos.

A loucura do Príncipe da Dinamarca não é clara, em algumas partes da peça, Hamlet alega apenas estar fingindo, em outros momentos esse fingimento é questionável. É possível que as mortes de pessoas inocentes tenham pesado sobre ele, transformando-o em um príncipe louco, reforçando assim o ponto de vista de Lacan (1986). Desta forma, entende-se que a maior consequência do seu comportamento emotivo é a loucura.

REFERÊNCIAS

BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro:  Objetiva, 2010.

KANT, I. Resposta à pergunta: Que é “esclarecimento?”. Textos Seletos. 2. Ed. Introdução Emmanuel Carneiro Leão. Tradução de Raimundo Vier e Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis: Vozes, 1985.

LACAN, Jacques. Hamlet por Lacan. Tradução de Claudia Berliner. Campinas: Escuta Editora, 1986.

MAZZARO, Jerome. Madness and Memory: Shakespeare’s Hamlet and King Lear. New York. Comparative Drama, vol. 19, n. 2, 1985, p. 97-116.

SHAKESPEARE, William. Macbeth- Update Edition. Edited by Philip Eduard. New York: Cambridge University Press, 1997.

_________________. Hamlet, Prince of Denmark- Update Edition. Edited by Philip Eduard. New York: Cambridge University Press, 2003.

WENZEL, Peter. Word and Action in the Mad Scenes of Shakespeare’s Tragedies. In: BLOOM, H. William Shakespeare: Tragedies- New Edition. New York: Bloom literary criticism, 2010. p. 141-156.

APÊNDICE – REFERÊNCIA NOTA DE RODAPÉ

2. Shakespeare faz o uso do número sete, oficialmente adotado pelo cristianismo, pois este número pode ser encontrado em diversos relatos da bíblia sagrada, como no primeiro livro do velho testamento, Gênesis, onde Deus cria o mundo em seis dias e descansa no sétimo, e no último livro do novo testamento, apocalipse ou revelações, onde é tratado o fim do mundo através de sete pragas, sete selos, sete taças, sete trombetas etc.

3. “POLÔNIO: Siga-me, vou procurar o rei. Este é o delírio do amor, cuja propriedade é violenta, / E leva a vontade atos desesperados tanto quanto qualquer paixão sobre o céu que aflige nossas naturezas”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

4. “CLÁUDIO: O que ele falou, embora faltasse pouco, não era loucura”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

5. “O vingador muitas vezes finge loucura para ganhar tempo para investigar o assassinato e preparar sua vingança”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

6. “GERTRUDES: O que devo fazer? / HAMLET: É isso que eu ofereço que você faça/ Deixe o rei chamar você novamente para cama, / Belisque sua bochecha, chame-o de seu rato, / Deixe-o um par de beijos, / Que eu não estou louco de verdade, mas fingindo. – É bom que você o conheça”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

7. “POLÔNIO: […] O que você lê meu senhor? / HAMLET: Palavras, palavras, palavras. / POLÔNIO: Na verdade do que se trata senhor. Ainda que louco, pode coordenar ideias”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

8. “HAMLET: […] você é tão fria como o gelo, tão pura como a neve, não és uma mentirosa. Vá para um convento, vá (vá para um bordel, vá.). / OFÉLIA: Ó poderes celestes, restaura-o! / HAMLET: […] vá agora, já”. (traduzido por Jeremias Oliveira Nascimento)

9. “HAMLET: […] agora estou sozinho; sou um escravo, como no campo!” (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

10. “lembrar um assassino de seus crimes por suas semelhanças com um evento passado”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

11. “HAMLET: Agora posso agir, agora está rezando, / Então não faço – assim vai para o céu, / Isso não seria vingança. / Um vilão mata meu pai e/ Eu seu único filho faço este mesmo vilão ir/ Ao céu”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

12. “HAMLET: […] não sei/ Por que eu ainda vivo para dizer isso? / Tenho causa e vontade e força então por quê / Não fazer”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

13. “Os relatos de melancolia, também, por sua letargia em agir e por sua incapacidade de entender por que ele demora, e pode ser usada também para explicar sua sagacidade e discernimento rápido, deliberação prolongada e paixão sustentada”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

14. “GERTRUDES: Mas olhe lá, infelizmente, o pobre coitado vem lendo”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

15. “HAMLET: Deixe-me ver. [Leva o crânio.] Infelizmente, pobre Yorick! Eu o conhecia Horácio, um sujeito de gracejo infinito, da mais excelente fantasia, ele me carregou nas costas mil vezes – e agora como é abominável em minha imaginação! Meu desfiladeiro sobe. Aqui penduraram aqueles lábios que eu beijei. Eu não sei quantas vezes. Onde estão suas bobagens agora? Seus truques, suas músicas, seus flashes de alegria que costumavam colocar a mesa em um rugido?” (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

16. “HAMLET: Um rei de roupas velhas/ Salve-me e passe sobre mim com suas asas de anjo! / Qual seria a sua figura graciosa? / GERTRUDES: Infelizmente ele está louco! […] / HAMLET: Você não vê nada lá? / GERTRUDES: Nada, mesmo. / HAMLET: Ouviu alguma coisa? / GERTRUDES: Apenas agente”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

17. “MARCELO: Há algo de podre no reino da Dinamarca”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

18. “CLÁUDIO: […], cadê o Polônio? / HAMLET: No jantar. / CLÁUDIO: No jantar? Onde? / HAMLET: Não onde ele come, mas onde é comido. / Devorado por vermes políticos”. (traduzido por Jeremias Oliveira do Nascimento)

[1] Graduado em letras-Inglês pela Universidade Federal do Pará (UFPA) Campos de Belém.

Enviado: Novembro, 2021.

Aprovado: Dezembro, 2021.

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