Romance de formação: o desabrochar de uma personagem em Jane Eyre

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ARTIGO ORIGINAL

BENICIO, Janne Eiry De Araujo [1]

BENICIO, Janne Eiry De Araujo. Romance de formação: o desabrochar de uma personagem em Jane Eyre. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 07, Vol. 05, pp. 36-49. Julho de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/literatura/jane-eyre

RESUMO

O presente estudo, aborda uma discussão empreendida a partir da análise da obra Jane Eyre de Charlotte Brontë, relacionando-a ao gênero romance de formação. Nesse sentido, depreende-se como questão norteadora desse trabalho o acompanhamento da trajetória da protagonista em todo o seu processo de formação e transformação. Objetiva-se refletir, através da evolução da personagem, sobre o aprendizado que se pode extrair diante das dificuldades enfrentadas, que culminam, por sua vez, para se alcançar o autoconhecimento e a tão almejada maturidade. A metodologia adotada consiste inicialmente na investigação do surgimento e propagação do termo bildungsroman e da sua obra modelo Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister de Goethe e, posteriormente, na análise da obra Jane Eyre de Charlotte Brontë associando-a ao gênero mencionado, estabelecendo também um paralelo entre a obra e a vida da autora. Dialoga-se ainda com estudiosos como Wilma Patricia Mass e Mikhail Bakhtin que serviram de aporte teórico para as reflexões empreendidas nesse trabalho. Desse modo, por meio dessa pesquisa foi possível compreender o gênero romance de formação através da análise da obra Jane Eyre possibilitando reflexões ímpares no que cerne ao processo de aprimoramento humano diante das situações mais adversas da vida, bem como oportunizando aos estudiosos da área um maior aprofundamento da temática em estudo nesse artigo.

Palavras-chave: Bildungsroman, Jane Eyre, Charlotte Brontë.

1. INTRODUÇÃO

O presente estudo apresenta em um primeiro momento considerações acerca do surgimento da expressão bildungsroman na Alemanha, desde a sua primeira aparição pelo filólogo Karl Morgenstern até sua posterior propagação no meio acadêmico e representatividade. Além disso, são feitas breves elucidações sobre a obra Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister de Goethe, considerada como referência para a classificação de obras posteriores quando se trata do gênero romance de formação. Para tanto, se fizeram essenciais leituras que propiciassem um embasamento teórico adequado ao tema como Wilma Patricia Mass e Mikhail Bakhtin.

É feita uma análise da obra Jane Eyre de Charlotte Brontë sob o viés do romance de formação, tendo, portanto, como foco a apreciação da trajetória da protagonista considerando todo o processo de formação e transformação que a mesma enfrenta ao longo das situações mais adversas. No decorrer da obra acompanham-se suas angústias, anseios, desejos e questionamentos que culminam para que a referida personagem atinja a sua maturidade.

Estabelece-se também um paralelo entre a vida da autora Charlotte Brontë e da protagonista da obra, tendo em vista que há muitas semelhanças em diversos momentos da narrativa que as aproximam, tanto no que se refere a sequência dos acontecimentos de fases da vida, quanto na maneira peculiar com que enxergam o mundo e agem sobre ele. Nota-se que a escritora faz uso da sua personagem como um porta-voz trazendo à tona diversas reflexões pertinentes associadas ao padrão de comportamento feminino que era esperado em sua época como uma forma de reivindicar o espaço da mulher na sociedade.

2. O BILDUNGSROMAN: ROMANCE DE FORMAÇÃO

O termo bildung é de origem alemã e tem seu significado inicialmente associado a concepções visuais como imagem ou representação da imagem. Mais tarde, o termo passou a ser relacionado a ideia de forma, especialmente formação, compreendendo tanto a forma exterior, quanto a formação interior de características e desenvolvimento pessoal. Por sua vez, o termo roman originário do latim vulgar romanic e do francês romanz, remete a uma narrativa longa em que se representava um protagonista em suas relações com o mundo exterior.

A expressão bildungsroman foi empregada pela primeira vez em 1810 pelo professor de filologia clássica Karl Morgenstern em uma conferência na Universidade de Dorpat. Nas palavras de Maas (MAAS, 2000, p. 19):

A definição inaugural do Bildungsroman por Morgenstern entende sob o termo aquela forma de romance que “representa a formação do protagonista em seu início e trajetória até alcançar um determinado grau de perfectibilidade”. Uma tal representação deverá promover também “a formação do leitor, de uma maneira mais ampla do que qualquer outro tipo de romance”.

Dessa forma, em linhas gerais o bildungsroman – romance de formação – corresponde a um gênero narrativo que acompanha a história de vida do protagonista desde a sua infância, adolescência até que este atinja a sua maturidade, apresentando assim todo o processo de construção e desenvolvimento físico, psicológico, moral e social do personagem. É por meio das suas decepções, frustrações, superações que o personagem vai se descobrindo enquanto ser, buscando encontrar o equilíbrio e, nesse processo de autodescobrimento, percebe-se geralmente que a participação de mentores, instituições educacionais ou ainda a experiência adquirida no âmbito profissional influem muito para isso.

Vale ressaltar também que o surgimento do termo bildungsroman está atrelado ao reconhecimento do próprio gênero romance como forma literária na Alemanha, uma vez que até o século XVIII o romance era considerado como uma narrativa de pouca importância, centrada apenas em uma temática amorosa, sendo a epopeia o gênero que ainda imperava. Segundo Maas (MAAS, 2000, p. 13):

Bildung e Roman são dois termos que entraram para o vocabulário acadêmico na segunda metade do século XVIII. A formação do jovem de família burguesa, seu desejo de aperfeiçoamento como indivíduo, mas também como classe, coincidem historicamente com a “cidadania” do gênero romance. Na Alemanha, é apenas no fim do século XVIII, quando nomes como Goethe passaram a se dedicar ao gênero, que o romance deixa de ser considerado literatura trivial e de má qualidade.

Mais tarde o filósofo Wilhelm Dilthey aprofunda e aperfeiçoa o conceito estabelecido por Morgenstern propiciando a ampla circulação do termo no meio acadêmico através de sua obra Das Leben Scbleiermachers de 1870, tendo em vista que as considerações de Morgenstern ficou restrita a Universidade de Dorpat.

É atribuída à obra Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister do escritor alemão Goethe a classificação de primeiro romance de formação, tendo em vista que a presente obra é construída em torno da trajetória de vida do personagem principal Wilhelm Meister, seu aperfeiçoamento enquanto indivíduo, bem como suas relações com a sociedade de sua época.

O protagonista é um jovem de origem burguesa, filho de um casal de comerciantes que, por sua vez, deseja ver o filho seguir o negócio da família, contudo Wilhelm Meister aspira encontrar o seu próprio caminho e contrariando os pais dedica-se ao teatro viajando por diversas regiões da Alemanha. Meister acredita que sua vocação para o teatro o ajudará a desenvolver suas habilidades, bem como alargar seus horizontes aproximando-o da aristocracia.  No entanto, não foi através do teatro que Meister se sentiu plenamente realizado. Posteriormente, se associa a Sociedade da Torre, uma sociedade secreta composta por um grupo de jovens que ajudam outros a obter o desenvolvimento que aspiram atuando na vida de Meister como mentores e influenciadores.

É importante salientar que o filósofo russo Mikhail Bakhtin evidencia exemplos do romance de formação em obras bem mais antigas na história da literatura como Ciropédia, de Xenofonte na Antiguidade Clássica, Parzival, de Wolfram Von Eschenbach na Idade Média, Gargantua e Pantagruel de Rabelais e Simplicissimus de Grimmelshausen no Renascimento, Telêmaco de Fénelon no Neoclassicismo, sendo que dependendo dos critérios adotados ao classificar o gênero essa lista poderia ser tanto reduzida, excluindo-se alguns exemplares, quanto ampliada. Segundo Bakhtin (BAKHTIN, 1997, p. 236):

À primeira vista, está claro que a série que acabamos de mencionar contém fenômenos por demais heterogêneos, tanto de um ponto de vista teórico como de um ponto de vista histórico. Certos romances têm um caráter puramente biográfico e autobiográfico, outros não; uns organizam-se em torno da idéia pedagógica da educação do homem, outros se desinteressam dela; uns seguem um plano rigorosamente cronológico, uma evolução no aprendizado do protagonista, e são quase totalmente isentos de enredo romanesco, outros, pelo contrário, organizam-se em torno de um enredo feito de aventuras elaboradas. As diferenças são ainda mais substanciais quando se trata da relação existente entre esses romances e o realismo e, sobretudo, com o tempo histórico real.

Faz-se necessário destacar, todavia, que o conceito do bildungsroman será sempre associado à Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, a obra é a referência modelar quando se trata do gênero romance de formação conforme nos aponta Maas (MAAS, 2000, p. 24) “[…] há obras que são Bildungsromane em maior ou menor medida, dependendo de sua maior ou menor semelhança com Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister.”

3. JANE EYRE: O APERFEIÇOAMENTO DE UMA PERSONAGEM

Jane Eyre é uma obra que se caracteriza como um romance típico do bildungsroman. A narrativa tem início na infância da protagonista aos dez anos de idade e ao longo do livro vamos acompanhando todo o seu processo de desenvolvimento e transformação.

Jane é uma criança órfã que mora na casa dos tios Reed e primos Elisa, Georgiana e John em Gateshead Hall. Logo após o falecimento do seu tio, fica sob os cuidados da senhora Reed que nunca a simpatizou e que se viu obrigada a cuidar da menina apenas por uma promessa feita ao marido antes de sua morte. Assim, Jane já bem pequena se depara com muitas adversidades vivendo em um ambiente em que é maltratada, sentindo-se sempre sozinha e rejeitada. Para amenizar a sua solidão Jane recorria com frequência à leitura, atividade essa que também passa a ser negada tão logo seu primo John, considerado o pior de todos por Jane, percebe a sua satisfação, não perdendo a oportunidade de humilhá-la (BRONTË, 2018, p. 23):

– Você não tem nada que pegar os nossos livros; é uma dependente, é o que a mamãe diz. Não tem dinheiro, seu pai não lhe deixou nada. Você devia estar mendigando, e não vivendo aqui com os filhos de gente de bem como nós, comendo as mesmas refeições que comemos, usando roupas à custa de mamãe. Vou ensiná-la a não ficar mexendo nas minhas estantes de livros: porque são minhas, a casa toda me pertence, ou vai pertencer dentro de alguns anos.

Dotada de uma personalidade forte e por não se conformar com as injustiças que sofre Jane é considerada como uma criança ruim, atrevida, mentirosa e mal educada (BRONTË, 2018, p. 25): “parece uma gata selvagem”. E se decide revidar a violência sofrida sempre é censurada (BRONTË, 2018, p. 25):

 – Que vergonha, que vergonha! – exclamou a criada. – Que conduta mais indecorosa, srta. Eyre, bater num jovem cavalheiro, o filho de sua benfeitora! O seu jovem senhor. – Senhor! Desde quando ele é meu senhor? Por acaso sou uma criada? –Não; a senhorita é menos do que uma criada, pois não faz nada para ganhar seu sustento[…]

Mas apesar das repreensões constantes Jane Eyre se mantém disposta a reivindicar seus direitos, dizer o que pensa e como se sente, uma vez que tem total consciência de que nada faz para merecer o tratamento que recebe (BRONTË, 2018, p. 53):

– Que bom que a senhora não é parente minha. Nunca mais vou chamá-la de tia, enquanto viver. Nunca irei visitá-la quando tiver crescido, e se alguém me perguntar se gostava da senhora, e como me tratava, vou dizer que me sinto mal só em me lembrar da senhora, e que me tratou com uma crueldade terrível. – Como ousa afirmar isso, Jane Eyre? – Como ouso, sra. Reed? Como ouso? Porque essa é a verdade. Pensa que não tenho sentimentos, e que posso viver sem um grama de amor ou gentileza, mas não posso.

Os anos que se sucedem a infância da protagonista até os seus dezoito anos são vividos em uma escola interna, mais precisamente a instituição de caridade Lowood em que é submetida a um regime bastante severo e autoritário sob a supervisão do clérigo Brocklehurst.

A observação atenta de Jane diante da figura do reverendo suscita uma reflexão sobre a hipocrisia, uma vez que sempre em seu discurso o senhor Brocklehurst tinha ideias voltadas a simplicidade, abnegação de bens materiais, sendo contrário a qualquer resquício de luxo ou vaidade, mas vive, contudo, em uma mansão e sua família está sempre muito bem vestida, o que revela uma prática totalmente destoante de sua teoria. Enquanto isso, as alunas da instituição tem sua comida racionada, passam frio, costuram suas próprias meias já dezenas de vezes remendadas e tem até mesmo seus cabelos cortados para evitar a formação de cachos que denotem a vaidade.

Apesar de todas as privações que Jane Eyre enfrenta ainda sente-se melhor no internato do que em sua antiga casa e com o tempo e a influência da diretora Temple que atua como uma verdadeira mentora, Jane adquire muitos conhecimentos e passa a administrar melhor suas emoções tornando-se menos impulsiva (BRONTË, 2018, p. 108):

[…] às suas instruções devo a nata dos meus conhecimentos. Sua amizade e companhia foram meu contínuo conforto; ela me apoiou fazendo papel de mãe, governanta e, ao fim, colega […] Eu absorvera algo de sua natureza e muito de seus hábitos, de seus pensamentos mais harmoniosos; sentimentos que pareciam mais bem regulados tornaram-se os habitantes da minha mente. Eu jurara lealdade ao dever e à ordem; era tranquila; acredito que me sentisse satisfeita: aos olhos dos outros, e em geral até mesmo aos meus, eu parecia ter um temperamento disciplinado e brando.

Depois de seis anos como aluna e mais dois como professora, Jane começava a aspirar por novidade, por mudança, por novas descobertas em sua vida. Deseja conhecer o que havia além dos limites da instituição e se permitir novas vivências (BRONTË, 2018, p. 109):

[…] Meu mundo, durante alguns anos, havia sido Lowood; minha experiência, a de suas regras e de seu sistema. Agora me lembrava de que o mundo real era vasto, e de que uma variada gama de esperanças e temores, de sensações e exaltação aguardava aqueles que tinham coragem de se aventurar por sua amplitude, de buscar o verdadeiro conhecimento da vida em meio aos seus perigos[…] Desejava liberdade, ansiava pela liberdade[…]

Jane então após colocar um anúncio no correio para trabalhar como educadora recebe uma resposta positiva e viaja para Tornfield Hall em meio aos sentimentos de ansiedade, medo e inexperiência ao se dar conta de que era uma jovem sozinha no mundo, mas, ao mesmo tempo, impulsionada pela determinação que sempre tivera aventura-se na ânsia por novas experiências.

O sentimento de inquietude, o desejo pelo novo, pela transformação passam a acompanhar a personagem, uma vez que depois de um certo tempo de trabalho com a educação da pequena Adéle, a protagonista volta a refletir sobre essas questões (BRONTË, 2018, p. 136):

Quem quiser pode me culpar, mas acrescento que vez por outra […] eu desejava ter uma visão que pudesse ultrapassar esses limites, que pudesse chegar ao mundo movimentado, às cidades, às regiões cheias de vida sobre as quais eu ouvira falar mas que nunca vira. Nesses momentos, desejava mais experiência prática do que a que possuía, mais convívio com o meu semelhante, mais contato com gente variada do que o que estava a meu alcance […] Quem pode me culpar? Muitos, sem dúvida; haveriam de me chamar de insatisfeita. Eu não podia evitar: a inquietude estava em minha natureza, e às vezes me agitava a ponto de me causar sofrimento.

Nesse sentido, enxergamos Jane Eyre como uma jovem que não se contenta nem se acomoda diante de um padrão de comportamento e uma maneira de pensar engessada, mas como um ser em constante processo de evolução (BRONTË, 2018, p. 137):

[…] Das mulheres se espera que sejam muito calmas, de modo geral. Mas as mulheres sentem como os homens. Necessitam exercício para suas faculdades e espaço para os seus esforços, assim como seus irmãos; sofrem com uma restrição rígida demais, com uma estagnação absoluta demais, exatamente como sofreriam os homens. E é uma estreiteza de visão por parte de seus companheiros mais privilegiados dizer que elas deveriam se confinar a preparar pudins e tricotar meias, a tocar piano e bordar bolsas. É insensato condená-las ou rir delas se buscam fazer mais ou aprender mais do que o costume determinou necessário ao seu sexo.

Nesse ponto da narrativa verifica-se que a autora através de sua protagonista dá voz às mulheres de sua época levantando reflexões sobre o papel dessas na sociedade, sobre o quanto suas potencialidades, desejos e aspirações são abafados, restritos aos afazeres domésticos ou a qualquer outra função, questionando o comportamento comedido, sem direito a manifestação de suas vontades e sentimentos, que se esperava delas no século XIX, período em que a obra se ambienta.

Com o passar do tempo, a aproximação entre Jane Eyre e Edward Rochester culmina em um relacionamento que contribui para o aperfeiçoamento de ambos. Rochester antes um homem amargurado, arrogante, dedicado a busca incessante dos seus próprios prazeres, torna-se um homem mais gentil, humilde e sensato. Jane, por sua vez, desperta para o amor, contudo trava consigo mesma uma batalha interna ao descobrir no dia do seu casamento a impossibilidade de viver esse amor, uma vez que Rochester já era casado e vê-se obrigada a reprimir seus sentimentos (BRONTË, 2018, p. 368):

Eu estava enfrentando uma provação: um punho de ferro em brasa agarrava meus órgãos vitais. Que momento terrível: cheio de luta, de escuridão, de uma sensação escaldante! Nenhum ser humano poderia ser mais bem-amado que eu, e aquele que assim me amava eu simplesmente idolatrava –  deveria renunciar ao amor e ao ídolo. Uma terrível palavra sintetizava minha intolerável tarefa: “partir”!

Jane, apesar da sua dor, revela-se extremamente fiel a suas convicções renunciando ao que sente e deixando-se guiar pela razão, pois agir de forma diferente feriria aos seus princípios. (BRONTË, 2018, p. 370):

Eu me importo comigo. Quanto mais solitária, mais destituída de amigos, mais sem amparo eu estiver, mais vou me respeitar. Seguirei a lei dada por Deus e sancionada pelo homem. Vou me ater aos princípios que recebi quando estava sã, e não louca – como estou agora. Leis e princípios não são para momentos em que não há tentações: são para horas como esta, quando o corpo e a alma se erguem amotinadas contra seu rigor, rigorosos eles são, inviolados serão.

Um outro momento em que a protagonista se impõe, permanecendo leal a si mesma e ao que acredita ocorre em sua recusa em se casar com John Rivers, pois seria uma união apenas para a conveniência dele.

E, posteriormente, quando não há mais impedimentos para casar-se com Edward Rochester, cuja união exigirá dela a dedicação da maior parte do seu tempo e esforços, dada as condições de saúde em que ele se encontrava, isso não a faz em nenhum instante sentir-se aprisionada ou denota renúncia da sua liberdade, tendo em vista que essa é uma decisão inteiramente sua e não imposta por alguém (BRONTË, 2018, p. 516): “- Sacrifício? O que estou sacrificando? […] Ter o privilégio de abraçar quem me importa, beijar quem eu amo, ter paz em quem confio: isso é fazer sacrifício? Se for, então certamente eu gosto de sacrifício”.

Assim, depois de analisar a trajetória da protagonista Jane Eyre pode-se constatar toda a transformação pela qual passa um personagem próprio de um bildungsroman, aprendendo com as dificuldades e com aqueles com os quais convive, se fortalecendo e se superando a cada obstáculo enfrentado, evoluindo a cada experiência vivida, adquirindo enfim o autoconhecimento e a tão esperada maturidade.

4. DADOS AUTOBIOGRÁFICOS: O ENTRELAÇAMENTO DE VOZES

O romance Jane Eyre apresenta o subtítulo uma autobiografia levando-nos de início a pensar tratar-se exclusivamente da autobiografia da protagonista. Com uma narrativa em primeira pessoa, passamos a conhecer Jane a partir de seus próprios relatos, ainda criança, aos dez anos de idade e acompanhamos toda a sua trajetória, seu crescimento e evolução. Todavia, a medida que avançamos na leitura da obra nos deparamos com inúmeros pontos de aproximação entre Jane e a autora Charlotte Brontë.

Publicado em 1847, época em que havia um enorme preconceito em torno da escrita feminina, depois de ter seu livro recusado, Charlotte Brontë recorreu ao uso do pseudônimo masculino Currer Bell, alcançando posteriormente o reconhecimento tanto do público leitor quanto da crítica.

No decorrer da obra podemos estabelecer várias conexões entre a vida de Charlotte Brontë e Jane Eyre. A autora perde a mãe muito pequena e uma tia passa a ir morar em sua casa para ajudar na sua educação e de seus irmãos, anos depois Brontë e mais três de suas irmãs são encaminhadas a um colégio interno. Lá elas vivem em meio a muitas necessidades dadas as condições precárias do colégio e sofrendo também maus-tratos.

A personagem Jane é uma criança órfã que passa a viver também sob o cuidado de uma tia sendo levada a uma instituição interna para receber uma educação formal. Na instituição de caridade Lowood a protagonista cresce sob um regime extremamente severo com uma rotina rígida e passando por muitas privações, estando constantemente com fome (BRONTË, 2018, p. 65):

Esfomeada, e agora muito fraca, devorei uma ou duas colheradas da minha porção sem pensar no sabor; depois que a fome começou a ser mitigada, porém, percebi que eu tinha nas mãos uma mistura nauseabunda – mingau queimado é quase tão ruim quanto batatas podres; a própria fome logo se sente enjoada. As colheres se moviam devagar: vi cada uma das garotas provar sua comida e tentar engoli-la, mas na maioria dos casos o esforço foi logo abandonado. O desjejum chegara ao fim e, ninguém comera. Após as graças pelo que não tínhamos recebido e um segundo hino, todas deixaram o refeitório e foram para a sala.

Um outro ponto em que se pode verificar a influência da vida da autora em sua obra é quando há um surto de tuberculose no colégio e Brontë acaba perdendo suas duas irmãs mais velhas vítimas da doença. Em Jane Eyre ocorre um surto de febre tifoide acarretando na morte de diversas crianças, entre elas a melhor amiga de Jane.

Depois desse acontecimento Brontë retorna à casa de seu pai sendo educada em domicílio e ajudando a cuidar dos outros irmãos, retornando a uma outra escola apenas anos depois, onde se torna também professora da mesma. No livro, a protagonista depois de completados seus estudos, torna-se professora na mesma instituição em que estudara (BRONTË, 2018, p. 108): “Com o tempo, cheguei a ser a primeira aluna da primeira classe; depois confiaram-me o posto de professora, que ocupei com dedicação por dois anos, ao fim dos quais fui embora”.

Brontë sempre foi muito estimulada pelo pai à leitura, a qual recorria como um refúgio, contribuindo também para que a autora crescesse com conhecimentos bastante variados e pudesse desenvolver sua escrita, assim como suas outras duas irmãs Emily e Anne Brontë que também foram grandes escritoras. No livro, Jane também mostra-se uma apreciadora da prática da leitura, buscando sempre aprimorar seus conhecimentos.

Charlotte Brontë trabalhou também como governanta e reflete em sua obra sobre essa função que consistia no ensino de crianças em casa de família desempenhada pelas mulheres pobres e solteiras de sua época, função essa que era menosprezada. Constatamos esse fato no comentário feito das convidadas do dono da casa em que Jane trabalhou como governanta (BRONTË, 2018, p. 211):

[…] Devia ouvir a opinião de mamãe na questão das educadoras. Mary e eu tivemos, imagino, pelo menos uma dezena, na nossa época; a metade detestável, a outra metade ridícula, e todas elas verdadeiramente demônios… não é verdade mamãe? […] – Minha querida, não me fale de educadoras; a palavra me deixa nervosa. Sofri um verdadeiro martírio com sua incompetência e seus caprichos. Agradeço aos céus por estar agora livre delas!

Ou ainda, quando a própria Jane Eyre menciona o momento em que umas primas se submeterão a esse trabalho (BRONTË, 2018, p. 411):

[…] Diana e Mary deveriam deixar Moor House em breve, e retornar para a vida e para o cenário muito diferentes que as aguardavam, como governantas numa cidade grande e elegante no sul da Inglaterra, onde cada uma tinha um emprego com famílias cujos membros ricos e altivos as consideravam somente humildes criadas, e que nada sabiam nem procuravam saber sobre suas excelências inatas[…]

Durante uma época Charlotte Brontë tenta montar uma escola, mas o projeto não tem sucesso. Na obra, Jane com a ajuda de um primo monta uma pequena escola a qual se dedica por um tempo.

Outro aspecto a ser considerado da vida de Brontë é que a autora apaixonou-se por um professor, contudo tratava-se de um amor não correspondido, tendo em vista que esse era casado. Em Jane Eyre a protagonista apaixona-se e vive um romance com o seu patrão Edward Rochester, contudo no dia do casamento descobre que ele era casado o que torna sua união impossível (BRONTË, 2018, p. 338-339):

[…] E o clérigo, que erguera os olhos do livro e prendera a respiração por um breve momento, prosseguiu: sua mão já estava estendida na direção do sr. Rochester, enquanto seus lábios se abriram para perguntar “Aceita esta mulher como sua legítima esposa?”, quando uma voz distinta e próxima disse: – A cerimônia não pode continuar: eu declaro a existência de um impedimento. […] O sr. Wood parecia não saber o que fazer. – Qual a natureza do impedimento? – ele perguntou. – Talvez já não exista mais? Tenha sido explicado? […] – Consiste simplesmente na existência de um casamento prévio. O sr. Rochester tem uma esposa viva.

Desse modo, diante das discussões empreendidas percebemos vários pontos de convergência entre a autora e sua personagem em diversos momentos, tanto na sucessão da passagem de fases da vida, quanto na maneira de pensar e agir, visto que ambas são fortes, determinadas e dotadas de um senso crítico que as caracterizam como mulheres à frente do seu tempo. Nesse sentido, percebemos na narrativa que as vozes da personagem e da escritora se fundem em seu desejo em comum de conquistar seu espaço na sociedade, enfrentando diversos desafios que as fazem buscar alternativas diversas para atingir seus objetivos.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio dos estudos realizados no decorrer desse artigo foi possível compreender o gênero romance de formação desde a origem do termo alemão bildungsroman, bem como sua propagação no meio literário. Através das considerações em torno da obra Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister de Goethe, tida como modelar para o romance de formação, pode-se perceber as características gerais que compõem o gênero, uma vez que a obra apresenta a trajetória de vida do protagonista levando-se em consideração seu crescimento tanto físico, quanto pessoal, revelando sua busca incessante pelo aperfeiçoamento ao fazer suas escolhas, bem como o desejo latente de encontrar seu próprio caminho, em suma sua verdadeira essência.

Utilizou-se como objeto de estudo a obra Jane Eyre de Charlotte Brontë analisando a construção da personagem principal desde a sua infância, adolescência até a sua maturidade. Com base, nos seus próprios relatos, dada a narração em primeira pessoa, íamos aos poucos conhecendo a personalidade de Jane, seu modo de pensar e agir diante das adversidades que se apresentavam em sua vida.

Foi possível acompanhar a evolução da criança impulsiva, sempre com uma resposta pronta quando provocada, para uma moça, que sem deixar de ser sincera, conseguia dosar seu comportamento e suas palavras e, por conseguinte, o desabrochar de uma mulher crítica, consciente de seus direitos, dotada de um caráter firme e princípios sólidos que a fazia agir sabiamente.

Vale ressaltar também o estudo da correlação entre a vida da autora Charlotte Brontë e sua personagem Jane Eyre empreendido nesse trabalho, visto que verificou-se diversos dados autobiográficos presentes na obra em análise. À medida que se acompanhava a trajetória de Jane pontos em comum iam sendo verificados culminando, por fim, no entrelaçamento das duas vozes femininas que sabiam se impor e não mediam esforços para conquistar o seu espaço.

REFERÊNCIAS

BAKTHIN, Mikhail Mjkhailovitch. Estética da criação verbal. Tradução de Maria Emsantina Galvão G. Pereira. 2° ed. São Paulo: Martins Fontes,1997.

BRONTË, Charlotte. Jane Eyre: uma autobiografia. 1° ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

DUARTE, Paloma Mariano. Jane Eyre, de Charlotte Brontë: uma leitura patriarcalista. 2018. 58 f. Monografia (Licenciatura em Letras – língua inglesa). Universidade Federal de Campina Grande, Cajazeiras, 2018.

GUEDES, Debora Carla Santos. O romance de formação: um passeio pelos caminhos de Stephen Dedalus e Virgínia. Estação literária, Londrina, vol 4, p. 37-48, nov, 2009. Disponível em: http://www.uel.br/pos/letras/EL. Acesso em 14/12/2020.

MAAS, Wilrna Patrícia Marzari Dinardo. O cânone mínimo: o Bildungsroman na história da literatura. São Paulo: Unesp, 2000.

NETO, Flavio Quintale. Para uma interpretação do conceito de Bildungsroman. Pandaemonium Germanicum, São Paulo, núm. 9, 2005, p. 185-205, abr 2009. Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=386641443010. Acesso em: 14/12/2020.

SEMINÁRIO DO CELLIP, 2011, Londrina. Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná. Londrina, 2011, 11p.

[1] Graduação Em Licenciatura Plena Em Letras E Especialização Em Língua Portuguesa.

Enviado: Janeiro, 2021.

Aprovado: Julho, 2021.

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