A Estética da Recepção no Conto Confissões de uma Viúva Moça de Machado De Assis

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A Estética da Recepção no Conto Confissões de uma Viúva Moça de Machado De Assis
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CERQUEIRA, Mariana Brito [1]

CERQUEIRA, Mariana Brito. A Estética da Recepção no Conto Confissões de uma Viúva Moça de Machado De Assis. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 03. Ano 02, Vol. 01. pp 207-214, Junho de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo analisar as manifestações da estética da recepção no conto “Confissões de uma viúva moça” pertencentes à obra Contos Fluminenses (1994), do escritor Machado de Assis. Compreendendo a estética da recepção como um questionamento de como uma determinada obra foi recebida no decorrer da história, pois ela não foi lida da mesma maneira nas diferentes épocas da história, obtendo um efeito diferente no leitor. Para a fundamentação teórica do presente artigo contou-se com os seguintes autores: Regina Zilbermam, Marisa Lajolo, Wolfgang Iser. Conclui-se que o presente artigo analisou os aspectos do livro trazendo em vista a teoria propostas e o autor que propõe em seu livro a abrangência de aspectos tanto românticos, quanto realistas. Manifestação essa, característica de um conto de transição. Dessa maneira a ruptura do romantismo para o realismo tornar-se visível para o leitor, tal qual a sua forma inconfundível de realizar esse intento, através da construção dos personagens, sua estética foi recebida pelos leitores ao longo do tempo, mas será feito analise de forma sincrônica.

Palavras-chave: Estética da recepção, Confissões de uma viúva moça, Machado de Assis.

A estética da recepção surgiu na Alemanha, na década de 60, na conferência de Constança, onde Hans Robert Jauss foi o palestrante e expôs sua nova proposta. Em um cenário de pós-guerra na qual o poder jovem estava questionando a sociedade, procurando uma forma de transformação; em consequência a universidade também iniciou esse questionamento, criticando dessa maneira a “fossilização” do estudo da teoria literária.

Com o intuito promover uma renovação, Robert procurou em sua teoria abranger as teorias passadas como o estruturalismo e formalismo russo, porém com o olhar para a história da literatura que foi desconsiderada por essas teorias. De acordo com ele era necessário levar em consideração o contexto histórico dando destaque principal para o leitor, pois a obra literária é em sua opinião uma comunicação literária, Zibermar em seu livro estética da recepção e história da literatura, diz que Jauss:

“Parte de uma critica aguda a uma instituição vigente, mas decomposição: o ensino da história da literatura, cujo o descredito flagrante é lamentado por Jauss. Todavia ele não deseja enterra-la em definitivo, e sim reabilitá-la sob novo instituto” (ZIBERMAM,**, p. 30).

A estratégia do teórico era agregar o essencial dessas teorias passadas, como o formalismo russo que importava-se somente com a forma e estética, vinda da tendência idealista, ou como a sociologia da literatura e posteriormente a marxista que visava somente da estrutura externa do texto, colocando em evidência a vida do autor e a obra dos grandes autores. Havendo uma disparidade, ou era considerado o autor ou só a obra.

A estética da recepção pode ser entendida como um questionamento de como uma obra foi recebido no decorrer da história, pois não é lido da mesma maneira, tendo assim um efeito (impacto, prazer estético), tendo com papel recuperar esse efeito, como também a forma como ela foi recebida pelo leitor ao longo do tempo.

O presente artigo tem esse objetivo em relação ao conto “Confições de uma viúva moça” de Machado de Assis da obra Contos Fluminenses publicado inicialmente nessa coletânea de contos, mas a edição analisada é recente (2004). Evidenciando a sua estética e a forma a qual foi recebida em seu tempo, ou seja, no século XIX.

Dessa forma é necessário observar que a estética da recepção foi traduzida para o português, a partir da baixa popularidade do estruturalismo, os olhares dos críticos brasileiros começaram a se voltar para os outros aspectos importantes. Essa teoria da estética da recepção propõe “extrair dela uma metodologia para conhecer a literatura. Nessa medida, parece ter muito para ensinar ao leitor, encarado como o principal elo do processo literário” (ZILBERMAN, 2004, p. 12). Observando e analisando a história da literatura de uma forma nova colocando-a em um novo patamar, pois segundo Hans em cada época as pessoas leem a literatura com uma nova perspectiva, ou seja, a mesma forma que um livro machadiano foi lido e interpretado nesse momento da história não foi da mesma maneira que em outro período.

Dessa forma é necessário entender a recepção, ou o cenário em que o conto está inserido e como ele foi recebido na época em que ele foi escrito. O público leitor brasileiro era diminuto, pois era um país cheio de escravos, que não tinham direito a educação, moradia e etc. a maioria da população era analfabeta e não tinha acesso aos livros, com isso era seleto o numero de leitores. Antes nos séculos XVII e XVIII as escolas eram para a minoria. Foi no século XIX que ocorreu maior difusão da escola e alfabetização em massa. Esse maior acesso a educação, mesmo sendo pequena ajuda no crescimento de leitores.

O livro torna-se algo comerciável e não um objeto de enfeite, onde o autor antigamente tinha que pagar para publicar alguns exemplares. Dessa forma os escritores começaram ganhar uma porcentagem, como a editora e a livraria. O livro se torna um produto de mercado. Porém mesmo assim a tiragem não passava de 1.000 (mil) exemplares, onde esse número era para os livros que tinham mais sucesso.

Em contraponto com essa realidade vigente os autores viver de sua arte, então interessados no mercado de trabalho começou-se a formar o leitor que era insipiente e não sabia ler, Marisa Lajoro e Regina Zilberman no livro A formação do leitor no Brasil afirma que “Só por volta de 1840 o Brasil do Rio de Janeiro, sede da monarquia, passa a exibir alguns traços necessários para a formação e fortalecimento de uma sociedade leitora” (LAJORO; ZILBERMAN. 1996, p. 18). Esse público é composto pelos burgueses, da segunda metade do século XIX na qual este leitor é desafiado e instigado a entender o texto, artifício esse muito usado por Machado. Contudo, nem todos os autores da época viriam a ter paciência, de em toda a ocasião direcionar o leitor e ensina-lo como ler sua obra.

No conto em analise o escritor torna o leitor uma espécie de personagem, que precisa ir muito além do que o escritor que dizer. Ao mesmo tempo ele joga com isso, deixando muitas lacunas para o leitor preencher. Com um enredo que parece ser fácil de interpretar, mas este faz com que o leitor seja malicioso em ver o que estar entre linhas para entender o que esta por vir, deixando o leitor por vezes confuso pelas reformulações no horizonte de expectativa, mas isso é facilmente resolvido por Machado que envolve o leitor rapidamente na teia de acontecimentos do conto.

O conto é narrado em formas de cartas, onde estas não obtêm resposta tendo assim um caráter de um diário a qual a narradora conta suas memórias. O autor usa dessa espécie de diário para que a personagem possa demostrar seus sentimentos mais íntimos, aproximando o leitor e em especial as leitoras:

“É tempo de contar-te este episódio da minha vida. Quero fazê-lo por cartas e não por boca. Talvez corasse de ti. Deste modo o coração abre-se melhor e a vergonha não vem tolher a palavra nos lábios. Repara que eu não falo em lágrimas, o que é um sintoma de que a paz voltou a meu espírito. As minhas cartas irão de oito em oito dias, de maneira que a narrativa pode fazer-te o efeito de um folhetim de periódico semanal” (Assis, 2004, p. 2).

Dessa forma a leitora por vezes confunde-se com o destinatário das cartas, dando um aspecto educativo para a leitora para que esta leia e não repita o erro da personagem. Tal qual o aspecto folhetinesco em que Machado emprega, destinado as mulheres em geral, é perceptível que Assis joga como conceito de leitura para mulher da época.

A autora lia Scholer em seu artigo A mulher na literatura: gênero e representação afirma que “O sujeito que fala é sempre o masculino, na literatura, na lei e na tribuna. A ele são reservados os lugares de destaque, tornando o homem mais visível” (SCHOLZE, p. 175). Sabendo dessa realidade Machado procura dar destaque às leitoras em potencial que eram desprezadas e geralmente não sabiam ler, porém eram estas as que tinham mais tempo para a leitura, dessa forma fez a escolha de colocar uma narradora-personagem como foco principal de seu conto.

Inicialmente o leitor tenciona que a viúva do título do texto é uma mulher que perdeu o seu marido ainda jovem, está triste com a falta de seu marido ainda jovem, está triste com a falta de seu marido e que talvez possa esta fugindo de um possível novo amor por ser cedo. Mas isso logo é desmentido, acontecendo uma quebra na expectativa do leitor, este por sua vez procura entender o porquê de tudo isso e como o título é confissões o leitor supõe que se trata de uma mulher ingrata que traiu o seu marido e como este morreu e ela se puniu com a reclusão.

Ação essa comum para seu tempo onde as mulheres eram reclusas em lugares distantes por terem desonrado o nome da família ou simplesmente por terem opiniões diferentes daqueles de seu tempo. O escritor observando isso retrata a mulher não como algo delicado e puro como no romantismo, mas como um ser humano sujeito a erros, com características mais realistas.

O leitor será obrigado a reformular e reinterpretar o que foi lido e o que vai esperar a partir disso. O autor Antoine Compagnon em o demônio da teoria cita diversos autores no decorrer de seu texto, um deles é Ingardem diz que “a leitura caminha para frente, recolhendo novos indícios, e para trás, reinterpretando todos os indícios” (COMPAGNON, 2001, p. 152). Esse artifício é recorrente dos contos de machado de Assis tal qual o conto em analise.

A presença dessa lacunas são necessárias para a estética na recepção, pois é “imaginar os personagens e acontecimentos, a preencher as lacunas das narrações e descrições, a construir uma coerência a partir de elementos dispersos e incompletos”(COMPAGNON, 2001, p. 152). Portanto o ato de leitura dos textos segundo ele é preciso que o leitor seja guiado, e que este mergulhe no enredo e se proponha a ser guiado.

Assis vai montando aos poucos o quebra-cabeça do conto demonstrando ao leitor que ainda não é isso o que ele pensa, usando fatores como o autor implícito que é “um modelo ao leitor real; define um ponto de vista que permite ao leitor real compor o sentido do texto” (COMPAGNON, 2001, p. 151). Artifício esse, para que os leitores entendam que ela foi seduzida. Eugênia, nome da viúva, torna-se vítima da circunstancia e da forma de viver da sociedade, expondo que nunca fora feliz, pois está em um casamento arranjado típico da época em que foi escrito.

Um elemento curioso para o leitor da época era que o escritor coloca a personagem em igualdade com o marido, que por sua vez considera-se superior ao marido, usando de artimanhas como no caso do início do conto em que ele não quer acompanha-la ao teatro, mas por questão de orgulho ela acaba convencendo ao marido a fazê-lo se colocando assim em conformidade com o marido. Havendo uma quebra de expectaria para o leitor da época.

Por consequência ela conhece alguém misterioso homem que a observa confundindo-a inicialmente trazendo sentimentos como vaidade e medo. Discutir essas duas vertentes não era comum para o tempo.

Inicialmente o rapaz é descrito com desconfiança, ou seja, alguém que esta apaixonado de forma avassaladora que não consegue deixa-la mesmo sendo algo absurdo para a sociedade. A outra alternativa que ela da para o cortejo do rapaz “Ou ele era vítima de uma paixão louca, ou possuía a audácia mais disfarçada” (ASSIS, 2004, p. 4). A segunda alternativa é logo descartada por ela, já que esta se encontra fascinada pelo sentimento quem até então nunca experimentara por ninguém, nem mesmo seu marido.

O autor vai além, quando ela afirma que nunca amou seu marido e casou-se por conveniência:

“Meu casamento foi resultado de um calculo de conveniência. Não inculpo meus pais. Eles cuidavam fazer-me feliz e morreram na convicção de que o era. Eu podia, apesar de tudo, encontrar no marido que dava um objeto de felicidade para todos os dias. Bastava para isso que meu marido visse em mim uma alma companheira da sua alma. […] Não se dava isto; meu marido entendia o casamento ao modo da maior parte da gente; via nele a obediência às palavras do Senhor no Gêneses” (ASSIS, 2004, p. 10).

Quebrando a interpretação inicial de que ela sofre por seu marido, em vista disso é proposto que ela é satisfeita com sua vida até que conheceu finalmente o amor. Esse amor não vem do matrimônio tão comum do romantismo, mas de uma relação extraconjugal com um homem mais jovem. Pois em seu casamento ela não encontrava felicidade, era somente a obrigação na qual ela e seu marido precisavam cumprir.

O enredo criado pelo autor torna-se aquilo que a estética da recepção fala como a criação do leitor ideal que seria aquele que conhece as regras, mas por vezes ele deixa de lado isso e se deleita com o livro e percebe a ironia por traz das palavras do autor implícito na qual tem a intenção de desconstruir o ultrarromantismo vigente.

Mas como toda teoria tem uma brecha e não é perfeita é rebatida por Iser que questiona até que ponto o leitor é obrigado a seguir esse roteiro ou ele pode não tem essa obrigação. Mas outra alternativa em que Machado de Assis usa é condicionar essas possibilidades se usando delas para manipular o leitor conforme sua vontade, em suas narrativas inclusive com relação ao conto em análise é percebido isso. Pois quando ele vai direcionando a todo momento.

As duas alternativas em que foram expostas inicialmente são exemplo desse afunilamento proposital de opções de interpretação, onde o leitor é convencido que se trata de um jovem que não consegue controlar seu ímpeto em procurar conquistar a mulher amada, que por sua vez reluta com a possibilidade da traição, pela obrigação que a mesma tem com seu marido, mas a curiosidade e a vaidade vão traindo a mulher e logo ela se vê ansiando pelo momento em que ela estará com o rapaz. É necessário ressaltar que texto machadiano em questão representa uma fase de transição do romantismo para o realismo, em que elementos como o ‘’felizes para sempre’’ dos romances adocicados pelo casamento, começam a ter gosto de amargor com o início do realismo.

Os momentos de leitura da personagem é uma representação disso, quando, por exemplo, ela lê as cartas de amor de seu pretendente “Li esta carta com a mão trêmula e os olhos anuviados” (ASSIS, 2004, p. 3). Isso poderia ser caracterizado como elemento romântico se autor destas cartas fosse o futuro marido dela, mas isso é contrariado de forma talvez radical para a época.

Como em um teatro onde o narrador chama a atenção para si e para o texto, diferente das peças normais em que o narrador somente conta uma história. Colocando o leitor como ativo e não somente passivo no texto.

Há uma quebra na expectativa do leitor quando ela finalmente está se deixando levar pela paixão inteiramente e de repente seu marido chega acompanhado pelos amigos, pois sofrera um ataque em seu escritório. O marido pede para que o amigo continue lhe visitando, mas Eugênia estava dedicada a cuidar do marido enfermo, que estava piorando cada vez mais.

O leitor imagina por sua vez que ele talvez morra e que o caso de amor que era proibido poderia tornar algo possível e dentro das regras sociais. A morte do marido é consumada, mas há contrariedade na expectativa do leitor que depois de o jovem Emílio afirmar que viajaria, mas voltaria para sua amada, mas isso foi uma desculpa, desmentida por uma carta que ele manda para a viúva, “Menti, Eugenia; vou partir já. […] Uma união contigo seria para mim o ideal da felicidade se eu não fosse homem de hábitos opostos ao casamento.” (ASSIS, 2013, p. 23). O leitor descobre que na verdade a primeira hipótese do início do conto era a certa e que moço é um vigarista que queria se divertir com uma mulher casada e depois deixa-la.

Portanto a estética em que Machado de Assis emprega para realizar sua obra teve grande respaldo em todas as gerações, como também recebeu várias interpretações ao longo do tempo, sendo dessa forma recebido como cânone da literatura brasileira.

REFERÊNCIAS

ASSIS, Machado de. Contos Fluminenses. In: Obra Completa, Machado de Assis. Vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.

ISER, Worfgang. O ato de leitura uma teoria do efeito estético. Vol. 1. São Paulo: Editora 34, 1999.

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.

ZILBERMAN, Regina. Estética da Recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 2004

[1] Aluna de Letras- Português, Universidade Estadual do Piauí (UESPI).

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