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Literatura e tecnologia: inspiração, invenção, transformação

RC: 122465
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/literatura/literatura-e-tecnologia

CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

SANTOS, Adelcio Machado dos [1], ZEMBRUSKI, Soeli Staub [2]

SANTOS, Adelcio Machado dos. ZEMBRUSKI, Soeli Staub. Literatura e tecnologia: inspiração, invenção, transformação. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 07, Vol. 05, pp. 119-133. Julho de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/literatura/literatura-e-tecnologia, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/literatura/literatura-e-tecnologia

RESUMO

O presente trabalho promove reflexões acerca da contribuição da literatura no campo dos avanços tecnológicos e apresenta evidências de experimentos idealizados no imaginário das obras de Mary Shelley, Júlio Verne e Stratemeyer Syndicate, e concretizados por inventores que, na maioria dos casos, se declararam ser inspirados pela leitura. Portanto, buscou-se evidenciar: quais literaturas serviram de inspiração para a realização de inventos tecnológicos que transformaram a humanidade? Com isso, teve-se como objetivo discorrer acerca das obras literárias, produzidas por Mary Shelley, Júlio Verne e Stratemeyer Syndicate, que serviram de inspiração para a criação de aparatos tecnológicos, como: o desfibrilador elétrico, o helicóptero, a TASER, entre outros. Sendo assim, por meio da pesquisa bibliográfica, esta pesquisa destacou a relação cíclica entre literatura e tecnologia e a contribuição que essa relação trouxe para a humanidade, facilitando a locomoção, salvando vidas e, acima de tudo, confirmando o poder criador da imaginação e da realização humana.

Palavras-chave: Literatura, Tecnologia, Inspiração, Contribuição, Transformação.

1. INTRODUÇÃO

O ser humano é curioso por natureza, e a curiosidade talvez seja uma de suas melhores qualidades, pois o impulsiona a desafiar, empreender, descobrir e criar. Tais ações fazem parte da História desde os mais antigos registros, desde os tempos mais remotos. Levados por essa inquietação, desde a antiguidade os seres humanos vivem inovando, modificando o espaço que habitam e fabricando aparatos para assegurar sua sobrevivência por meio de defesa, cultivo de alimentos e construção de abrigos (TANUS, 2018).

No entanto, sua alma humana, ansiosa por algo além de existir, não se contenta com o prático, o útil. Sua constante é o movimento, a transformação, pelos quais seguem alterando a realidade, criando e transformando o entorno com suas invenções.

Assim sendo, dentre muitas criações humanas, a linguagem verbal foi a invenção que impulsionou todas as demais, pois possibilitou compartilhar os pensamentos, negociar, estabelecer trocas, enfim, comunicar e, assim, aperfeiçoar o modus vivendi. Derivada desta, teve-se a criação da Literatura que se difere pela aproximação que tem com a fantasia e a liberdade de criação. Trata-se de uma linguagem que se dedica a expressar o que vem da alma e, por essa razão, tem como intuito expressar sentimentos, sensações, pensamentos e questionamentos intrínsecos à condição humana. Logo, sendo comumente descrita como a arte das palavras, é caracterizada por sua relação com as emoções, com o subjetivo e o intangível, e transita pelo universo da criação, não se prendendo às regras do positivismo, mas produzindo sua própria realidade livremente a partir do imaginário (FAHRER, 2021; MONTEZUMA et al., 2019).

Nesse contexto, entende-se que o imaginário parte do que já existe e atua sobre essa realidade, modificando-a, incrementando-a e criando possibilidades. Assim, considerado por Laplantine e Trindade (1996, p. 28) como “[…] um processo cognitivo no qual a afetividade está contida, traduzindo uma maneira específica de perceber o mundo, de alterar a ordem da realidade”, o imaginário atua sobre a realidade:

Para construir o processo do imaginário é preciso mobilizar as imagens primeiras, como dos homens, cidades, animais e flores conhecidas, libertar-se delas e modificá-las. Como processo criador, o imaginário reconstrói ou transforma o real (LAPLANTINE e TRINDADE, 1996, p. 8).

Assim, permite ao escritor a criação de uma realidade inventada, a qual poderá acender a centelha que habita em todos os curiosos humanos. Entre eles haverá alguém que dará vida a essas ideias, evidenciando que, embora se mova confortavelmente pelo terreno da imaginação, a Literatura também se encontra profundamente relacionada ao concreto, realizável e visível (PIRES, 2021).

Nascida no mundo das ideias, a literatura atua sobre o mundo real como propulsora de invenções que modificam nossa vida profundamente, criando, a partir de suas “imagens primeiras”, equipamentos e produtos com os quais convivemos diariamente. Exemplos dessa relação são frequentes nas narrativas de ficção e são bastante difundidas atualmente (DENCK, 2020).

Diante disso, destaca-se que muitos são os enredos e equipamentos citados como fonte de inspiração para os mais diversos inventos, no entanto, há os que pela abrangência de sua obra e pela relevância do conteúdo se tornam objeto de maior especulação. Ou seja, significa dizer que a invenção conquista maior espaço se a obra literária trouxer outras questões relevantes, e isso se dá pelo alcance que a obra literária terá sobre o público, tanto na quantidade de obras vendidas quanto no efeito provocado no leitor.

Posto essa contextualização, esse artigo buscou evidenciar: quais literaturas serviram de inspiração para a realização de inventos tecnológicos que transformaram a humanidade? Com isso, teve-se como objetivo discorrer acerca das obras literárias, produzidas por Mary Shelley, Júlio Verne e Stratemeyer Syndicate, que serviram de inspiração para a criação de aparatos tecnológicos, como: o desfibrilador elétrico, o helicóptero, a TASER, entre outros. Logo, com esse objetivo, a metodologia utilizada baseou-se na pesquisa bibliográfica.

2. MARY SHELLEY – FRANKENSTEIN OU O PROMETEU MODERNO (1823) E O DESFIBRILADOR

Além de sua obra mais conhecida, Mary Shelley escreveu outros livros, incluindo Valperga (1823), The Last Man (1826), lançado no Brasil pela Landmark em edição bilíngue, com tradução de Marcella Furtado, sob o título de O Último Homem (2007), uma autobiografia chamada Lodore (1835) e Mathilde (1959), este último publicado após sua morte (FONTENELE, 2022).

A autora Mary Shelley nasceu em 30 de agosto de 1797, em Londres na Inglaterra, e era filha do filósofo inglês William Godwin e da escritora inglesa Mary Wollstonecraft. A mãe faleceu logo após o parto e o pai casou-se com Mary Jane Clairmont, com quem a escritora teve uma convivência difícil devido ao fato de a madrasta não apoiar os investimentos em sua educação. Ao que tudo indica, Mary sentiu muito a ausência materna e encontrava refúgio em ler sobre seu túmulo. A escritora inglesa é atualmente lembrada como um grande talento criativo e precursora da ficção científica. Sua corajosa trajetória foi demonstrada pelo cinema, lançado em 2017, com o título Mary Shelley, um drama romântico, escrito por Emma Jensen e dirigido por Haifaa al-Mansour, que apresenta também o contexto de criação de Frankenstein (FRAZÃO, 2022).

Nesse romance, a autora não só produz uma das obras mais inspiradoras da literatura mundial, no que se refere à invenção de um equipamento, como fomenta a discussão em torno dos limites éticos envolvendo a vida, instigando e questionando procedimentos médicos e científicos. Mary (à época Mary Wollstonecraft Godwin) escreve um conto de terror em uma aposta com seus amigos: Lord Byron, John Polidori, e aquele que viria a ser seu marido, Percy Bysshe Shelley, e, apesar de ser a única do grupo a concluir o desafio, os méritos de Mary vão muito além de ganhar a aposta, pois seu conto apresentado como livro pela primeira vez em 1923, em Gênova, figura entre as obras mais emblemáticas da literatura de todos os tempos (FERREIRA e NESTAREZ, 2018).

Desafiando os paradigmas do século XVII, a obra de Shelley traz à tona a discussão em torno dos limites humanos sobre a criação da vida. Na obra, o protagonista Victor Frankenstein deseja criar um ser humano a partir de membros de cadáveres, os quais desenterra de criptas de cemitérios e manipula-os sem o pudor ou a reverência frequentemente oferecida aos mortos, com o objetivo de operar sobre um corpo inanimado e revive-lo com uma corrente elétrica (CONDE, 2020). Nesse aspecto, a narrativa suscita questões referentes à presunção humana de se igualar ao criador da vida.

No enredo, Frankenstein obtém sucesso em sua empreitada e traz sua criatura à vida a partir de uma descarga elétrica. Sendo assim, além da abordagem ética em relação ao procedimento, o romance apresenta outras tantas reflexões acerca do sentido da vida, das afeições e da amizade, entre outras (FERNANDES, 2015).

Posto isso, no que tange a influência sobre a criação de equipamentos tecnológicos, observa-se que em 1930 William B. Kouwenhoven, um estudante da John Hopkins University School of Engineering, criou o desfibrilador elétrico, um aparelho composto por duas colheres de metal para transmitir descargas elétricas em corações doentes. Inicialmente, testado em cães, foi utilizado pela primeira vez em um humano em 1947, quando o cirurgião americano Claude Beck se utilizou dele para salvar a vida de um paciente. Desde então, o equipamento está presente no cotidiano dos hospitais do mundo. (BEAUDOUIN, 2002).

Diante do exposto, é natural relacionar o invento do desfibrilador à obra de Mary Shelley pela semelhança entre a descrição e o propósito descrito na narrativa e no aparelho fabricado. O objeto idealizado por ela foi recriado na vida real por meio do experimento de Kouwenhoven, evidenciando a preconização da literatura à essa invenção, transportando-a do mundo das ideias para a realidade e salvando muitas vidas reais.

3. JÚLIO VERNE E A FICÇÃO CIENTÍFICA

Em seu fascínio por aventuras fantásticas, o autor francês Júlio Verne desbravou o inusitado de maneira visionária e descortinou cenários inimagináveis para muitos de seus contemporâneos. Nascido em 8 de fevereiro de 1828, em Nantes, na região francesa da Bretanha, Verne desde muito jovem foi influenciado por histórias de marinheiros e isso o levou a fugir de casa no intento de conhecer o mundo descrito pelos marujos. No entanto, seu pai, Pierre Verne, conseguiu impedi-lo da fuga. Todavia, nunca o afastou da paixão pela aventura (MARASCIULO, 2018).

Na escola, Júlio dedicava-se ao estudo de Geografia, pois essa o aproximava das viagens, mapas, barcos e máquinas à vapor. Sonhava em ser marinheiro, no entanto, por vontade do pai, ingressou na escola de direito. Aos 20 anos chegou a Paris, onde conheceu o escritor Alexandre Dumas, autor de Os Três Mosqueteiros, e se impressionou com a composição que mesclou fatos históricos à Literatura, o que pareceu ser um fato decisivo para o ingresso do jovem nas artes literárias, motivando-o a publicar seu primeiro conto abordando viagens marítimas (1851). Nessa época, Verne conheceu o jornalista Félix Nadar que o apresenta ao balonismo, um de seus objetos de inspiração, e ao Jules Hetzel, o editor que recebeu os primeiros esboços de Verne (DA REDAÇÃO, 1988).

Considerando os escritos muito historiográficos, Hetzel pediu ao jovem que reescrevesse o enredo com mais aventura. Após duas semanas, Júlio Verne apresentou-lhe Cinco Semanas num Balão, obtendo sucesso imediato e um contrato no qual comprometeu-se a escrever dois livros por ano, durante vinte anos (DA REDAÇÃO, 1988). Posto isso, esse foi o ponto de partida para as viagens espetaculares que o escritor proporcionou a seus leitores.

Assim sendo, tendo em vista as suas obras, observa-se que as histórias se passam nos mais diferentes cenários: polos gelados, desertos e até mesmo no centro da Terra. E o diferencial de sua composição se encontra na maestria com que insere conceitos científicos, coordenadas geográficas, descrições de paisagens e, é claro, engenhosidades que ainda não existiam fora de seus livros. Desse modo, o autor alcançou lugares que pareciam inatingíveis e inspirou a criação de muitos aparatos que foram, mais tarde, materializados pela mão humana.

3.1 O ENREDO E A INSPIRAÇÃO

Júlio Verne escreveu Da terra à lua (1865) e Viagem ao redor da lua (1870), contando a aventura espacial de jovens membros do Clube do Canhão que idealizavam um equipamento a ser lançado em direção à lua. Na primeira obra, entre os jovens havia um francês chamado Michel Ardan que propôs que o projétil fosse tripulado, juntamente a outros dois voluntários. Dessa forma, os meninos iniciaram a construção, utilizando um canhão, um telescópio e muita pólvora para disparar o foguete. Após a propulsão, o projétil chegou próximo à lua, porém, não conseguiu pousar, ficando em órbita com seus passageiros por dois meses. Nessa linha, o desfecho da aventura é contado em Viagem ao redor da Lua (1870), relatando a engenhosidade dos tripulantes ao utilizar equipamentos do próprio projétil para tentar alcançar a lua. Contudo, apesar de todos os esforços, eles não conseguiram alcançar e acabaram retornando à Terra, ou melhor, ao Oceano Pacífico, onde ficaram jogando poker (ou dominó na versão em português) até serem resgatados por um navio americano (BARRETO e ALCÂNTARA, 2021).

Diante disso, observa-se que as aventuras, criadas na ficção de Júlio Verne, inspiraram a viagem que ocorreu em 20 de julho de 1969, quando o astronauta norte-americano Neil Armstrong pisou na lua pela primeira vez. Nesse contexto, esta conquista impulsionou vários avanços científicos, de acordo com Pedro Luiz Côrtes da Escola de Comunicações e Artes (ECA), em entrevista ao Jornal da USP, em 28 de julho de 2017:

Tivemos uma melhor compreensão da ciência, de como surgiu a Terra e como ela evoluiu, de qual o papel da Lua nessa evolução da Terra, mas também verificamos uma série de evoluções em relação à tecnologia. Não é uma surpresa que nos anos subsequentes, já na década de 1970, surgiram os primeiros microcomputadores (JORNAL DA USP, 2017).

A inegável contribuição da ficção de Júlio Verne no desenvolvimento de tecnologias aplicadas à vida moderna se dá, também, em muitas de suas obras. Por sua extensa coleção de escritos, Verne é constantemente lembrado pela antecipação de conquistas e invenções, e seus romances são classificados como premonitórios.

3.2 ROBUR, O CONQUISTADOR DOS CÉUS E AS MÁQUINAS VOADORAS

Outro exemplo da contribuição literária de Júlio Verne diz respeito às criações científicas na obra Robur, o conquistador (1886). A história conta, com efeitos de luz e som, um enredo de aventura que se inicia com o protagonista interrompendo uma reunião do clube de balonistas Weldon Institute. A intromissão é feita com o intuito de questionar os adeptos desse tipo de navegação sobre a fabricação de um novo equipamento denominado Go-ahead, onde Robur defende a superioridade das máquinas voadoras mais pesadas do que o ar e, após uma acalorada discussão, some entre a multidão, ressurgindo em pleno voo diante do olhar admirado da plateia. Com uma sequência de perseguição, sequestro e fuga, o narrador capta a atenção do leitor que acompanha a ousadia de Robur e seu Albatroz movido à bateria em uma viagem ao redor do mundo em três semanas (VECCHIO, 2014).

Dessa forma, Robur, o conquistador, sobrevoa vulcões, oceanos e diversos países, para convencer o presidente da associação a respeito das possibilidades de voo mecanizado, mas não tem sucesso. O homem que participa do voo do Albatroz, não só deixa de considerar as colocações de Robur, como retoma a construção do Go-ahead, instalando uma hélice extra, como no modelo de Robur. Assim, em uma batalha de área, as duas aeronaves se enfrentam e o Albatroz prova a sua superioridade, consagrando o seu invento à glória e seus opositores ao vexame. (VECCHIO, 2014).

A trama de Robur, o conquistador, tem ainda um cunho moral, pois conclui, tanto na obra quanto no filme, que as nações ainda não estão preparadas para a união, devendo estas procurar a evolução e não a revolução. Além disso, promete, também, que revelará os segredos de seu voo no futuro (VECCHIO, 2014).

Depreende-se nessa narrativa, a idealização de uma máquina voadora mais pesada do que o ar e a motivação para a sua fabricação. Além das evidências textuais, nesse caso, tem-se a declaração que confirma essa influência. Sergei I. Sikorsky, filho de Igor Sikorsky – inventor do helicóptero – confirma o escritor francês Júlio Verne como fonte de inspiração para o seu invento, em entrevista ao New York Times (2020),

The inspiration of his father to build a helicopter, Mr. Sikorsky said, was a Jules Verne book he had read when he was 10 or 11. “It was called ‘Clipper of the Clouds,’ and in it Jules Verne had invented a helicopter-like vehicle. My father referred to it often. He said it was ‘imprinted in my memory.’ And he often quoted something else from Jules Verne. ‘Anything that one man can imagine, another man can make real’ (RYAN, 1995).

O fruto da invenção tem sido de grande valia em toda a parte. A velocidade aliada à facilidade de aterrissagem em relação ao espaço ocupado, torna o helicóptero a opção ideal para resgates aéreos em localidades de difícil acesso e para o transporte de passageiros (OLIVEIRA et al., 2022). Seu tamanho e versatilidade possibilita uma viagem mais econômica, o que o torna muito útil para o transporte de passageiros individuais e pequenos grupos. Logo, certamente, é um invento muito importante para a história da humanidade.

4. TOM SWIFT: SÉRIE DE AVENTURAS

Há obras em que os indícios textuais não deixam dúvidas quanto à relação entre o invento e a obra literária que o inspira.

No ano de 1910, a Stratemeyer Syndicate, usando o pseudônimo de Victor Appleton, lançou uma série de aventuras de um garoto inventor, dentre elas: Thomas A. Swift’s Electric Rifle ou Tom e seu Rifle Elétrico (GALLOWAY, 2016).

Na história, o menino está trabalhando na invenção de uma arma elétrica quando conhece um caçador de elefantes que o leva a um safári na África. Lá a arma se mostra muito eficaz em disparar balas de eletricidade, atravessando paredes e abatendo grandes animais. O enredo conta, ainda, com o resgate de prisioneiros de uma tribo local e de uma máquina voadora. Esta é uma aventura, destacando a engenhosidade das invenções de Tom e inspirando a criação de um aparelho bastante popular em nossos dias (LARTEY, 2015).

Em 1974, o inventor americano Jack Cover deu vida à ideia criando a TASER, arma que dá choques elétricos. O nome dado é um anagrama que presta homenagem ao livro: Thomas A. Swift’s Electric Rifle. Na vida real, a invenção tornou-se uma arma que se propõe a não matar a vítima, servindo como um mecanismo de imobilização, pretendendo impedir uma violência maior, sendo o seu uso frequente entre os policiais e como equipamento de autodefesa (LARTEY, 2015).

5. A RELAÇÃO ENTRE TECNOLOGIA E LITERATURA

 Assim como nos exemplos apresentados anteriormente, muitas outras obras fomentaram a realização de invenções que deram vida às ideias dos escritores de ficção, o que confirma que há uma estreita relação entre a literatura e as invenções científicas. Portanto, conforme afirma Longo (1984), considera-se que a “tecnologia é o conjunto de conhecimentos científicos ou empíricos empregados na produção e comercialização de bens e serviços”.

Diante de todas as evidências exploradas no texto, pode-se afirmar que o imaginário criativo dos autores foi transportado para a vida real, assumindo funções bem concretas em nossa rotina e que contribui para o avanço e o desenvolvimento da tecnologia, ao descortinar possibilidades e impulsionar criações que empregam os conhecimentos científicos na praticidade da vida moderna.

Foram muitos os casos em que o livro de papel contribuiu para a difusão de equipamentos e meios tecnológicos que transformam nosso modo de viver e, ainda, o nosso modo de ler (PADILHA et al., 2014).

O efeito cíclico e espiral entre a criação e a transformação nos leva a conviver com novos meios e equipamentos de leitura. Atualmente, a leitura digital é mais comum que a física e provoca diferentes reações: um paralelo entre o velho e o novo se evidencia quando, usando uma plataforma digital, leitores manifestam sua preferência pelo livro físico. É um estranho paradoxo que expressa os aspectos adjacentes da leitura como o cheiro do livro, a sensação de segurar o papel nas mãos e virar as páginas. (MENDES, 2020).

Apesar de tudo isso, são inegáveis as contribuições que a tecnologia traz para o universo literário. As facilidades de produção de material em larga escala e a crescente demanda por aparatos eletrônicos nos levam a crer que a transformação já ocorreu e o modo como as obras impressas estão sendo substituídas pelas digitais lembram a substituição dos manuscritos pelos impressos (SILVA e SILVA, 2017). São modificações que acompanham a trajetória humana que são, em parte, frutos da literatura e agem sobre a mesma em uma relação contínua.

Nas palavras de Navas (2020), lembra-se que,

Apesar de frequentemente serem tratadas como campos de conhecimentos distintos – e, muitas vezes, de costas voltadas uma para a outra – a literatura e a ciência apresentam interessantes e complexas convergências, percorrendo, o diálogo entre elas, múltiplos caminhos.

Caminhos esses que de todo modo só tem a contribuir com os seres humanos. Não existe concorrência ou disputa de importância. Ambas têm lugar na trajetória humana e influenciando-se mutuamente promovem avanços, possibilitam conquistas e estimulam a busca pela solução de problemas. Desse modo, ganha a humanidade.

A interação entre a literatura e a tecnologia assume um novo patamar no qual percebe-se que os meios digitais estão amplamente relacionados ao modo como lemos e como divulgamos o pensamento (SILVA e SILVA, 2017). Grandes obras continuam a ser escritas e muitos inventos serão inspirados por elas, o que certamente nos levará a outras transformações e, assim, nesse contínuo, a literatura continuará a ser peça importante na engrenagem que nos move.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em termos de inspiração, invenção e transformação, a literatura e a tecnologia contribuem para o desenvolvimento e crescimento do ser humano e da sociedade.

Logo, tendo em vista que esse artigo buscou evidenciar: quais literaturas serviram de inspiração para a realização de inventos tecnológicos que transformaram a humanidade? Objetivou-se com o mesmo discorrer acerca das obras literárias, produzidas por Mary Shelley, Júlio Verne e Stratemeyer Syndicate, que serviram de inspiração para a criação de aparatos tecnológicos.

Nesse contexto, destaca-se que, por vezes, a literatura se aproxima da fantasia, da expressão dos sentimentos, e possibilita ao leitor várias “viagens” sem tirar os pés do chão. A escritora Mary Shelley, por exemplo, expressa, na obra Frankenstein, a ação de se criar um ser humano com partes de cadáveres. O escritor Júlio Verne, por sua vez, em obras como Da terra à lua, Viagem ao redor da lua, Robur o conquistador, propõe a viagem à lua e a construção de uma espécie de aeronave. Enquanto o escritor Stratemeyer Syndicate ou Victor Appleton, em sua série de aventuras denominada Thomas A. Swift’s Electric Rifle, retrata a busca de Swiff para criar um rifle elétrico.

Diante disso, foi possível constatar que a criatividade dos autores ao escreverem seus livros influenciou leitores, entre eles pesquisadores, cientistas e inventores. Dessa forma, o desfibrilador foi criado por William B. Kouwenhoven, a partir da obra Frankenstein da escritora inglesa Mary Shelley; o helicóptero foi inventado por Igor Sikorsky, a partir da obra de Júlio Verne; e a arma TASER foi desenvolvida pelo inventor americano Jack Cover, a partir da obra de Stratemeyer Syndicate ou Victor Appleton.

Com isso, conclui-se que, independentemente de serem lidas em papel ou de forma digital, é importante que os leitores tenham acesso às obras literárias para que possam desfrutar da criatividade dos autores e, quem sabe, acender a curiosidade humana para desenvolver uma importante invenção.

REFERÊNCIAS

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DENCK, D. 10 invenções da ficção científica que se tornaram realidade. Blog Tecmundo, São Paulo, 31 mar. 2020. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/cultura-geek/151629-10-invencoes-ficcao-cientifica- tornaram-realidade.htm. Acesso em: 4 jul. 2022.

FAHRER, L. G. Insistir na presença: tentativas de invenção teatral e pedagógica em isolamento. Urdimento – Revista de Estudos em Artes Cênicas, v. 3, n. 42, p. 1-31, 2021.

FERNANDES, L. G. Contos de ficção científica como recurso pedagógico para o ensino de Física e Astronomia. Dissertação (Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física), Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, Universidade Federal Rural do Semi-Árido, Mossoró, Rio Grande do Norte, 2015.

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JORNAL DA USP. Exploração da Lua ampliou o conhecimento do universo. Jornal da USP, 2017. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/exploracao-da-lua-ampliou-o-conhecimento-do-universo/#:~:text=Tivemos%20uma%20melhor%20compreens%C3%A3o%20da,%2C%20surgiram%20os%20primeiros%20microcomputadores%E2%80%9D. Acesso em: 19 jul. 2022.

LAPLANTINE, F.; TRINDADE, L. O que é imaginário. São Paulo: Brasiliense, 1996.

LARTEY, J. Where did the word “Taser” come from? A century-old racist science fiction novel. Blog The Guardian, 30 Nov 2015. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2015/nov/30/history-of-word-taser-comes-from-century-old-racist-science-fiction-novel. Acesso em: 4 jul. 2022.

LONGO, W. P. Tecnologia e soberania nacional. São Paulo: Ed. Nobel, 1984.

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MONTEZUMA, B. V. V. et al. Sociolinguística e etnomatemática: uma intersecção dialógica entre ciências humanas e ciências exatas. Revista Philologus, v. 25, n. 75, p. 2901-2915, 2019.

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[1] Doutor em Engenharia e Gestão do Conhecimento (UFSC). Pós-Doutor em Gestão do Conhecimento (UFSC). Mestre em Relações Internacionais. Especialista em Psicologia Organizacional; Gestão de Recursos Humanos. Bacharel em Direito, Ciências Econômicas, Saúde, Jornalismo e Administração. ORCID: 0000-0003-3916-972X.

[2] Graduada em Letras Português – Inglês. Possui especialização em Metodologia do Ensino de Inglês. Mestrado em Estudos da Tradução pela UFSC. Doutorado em Estudos da Tradução pela UFSC. ORCID: 0000-0002-3079-4177.

Enviado: Julho, 2022.

Aprovado: Julho, 2022.

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Adelcio Machado dos Santos

Uma resposta

  1. Incrível! Que isso possa desmitificar tantas ideias precipitadas de que a tecnologia afasta as pessoas de seu ser intelectual e sua criatividade, mostrando um ambiente totalmente saudável entre os dois, mesmo com grandes diferenças. Amei ler esse artigo!

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