A ”justificativa” machista de culpar a vítima do gênero feminino: Estudo de caso

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ARTIGO ORIGINAL

ALVES, Claudio Veronez [1]

ALVES, Claudio Veronez. A ”justificativa” machista de culpar a vítima do gênero feminino: Estudo de caso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 10, Vol. 17, pp. 173-186. Outubro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/vitima-do-genero

RESUMO

Este artigo apresenta a ”justificativa” cultural machista encontrada na narrativa descrita no jornal impresso “A Tribuna”, a fim de atribuir culpa a vítima do gênero feminino, nos casos de violência contra a mulher. Essa pesquisa foi realizada a partir de um estudo de caso acerca de um crime de femicídio, ocorrido no Estado do Espírito Santo, analisando comparativamente ao homicídio sofrido por um juiz de direito no mesmo mês, do ano 2003. Objetiva aumentar nossa compreensão acerca da observação dos casos de violência contra a mulher. Almeja-se minimizar, ou, pelo menos, refletir acerca das discriminações sofridas pelo gênero feminino no jornal impresso. A metodologia utilizada se fundamenta na seleção qualitativa da narrativa do jornal. O problema é como esse periódico impresso tem publicado a violência contra a mulher. Nossa análise aponta que o texto do jornal cristaliza a “justificativa” machista de uma parte da sociedade que procura absolver o (réu) homem e busca atribuir culpa à (vítima) mulher.

Palavras-chave: Cultura, machismo, violência, femicídio.

1. INTRODUÇÃO: A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER – NÚMERO DE MORTES NO BRASIL E NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

O estudo do pesquisador brasileiro Júlio Jacobo Waiselfisz (2013)[2] constatou os índices alarmantes tangentes ao assassinato de mulheres entre 2003 a 2013. A pesquisa aponta que havia uma taxa de 4,8para cada 100 mil mulheres, sendo a quinta maior taxa do mundo, uma média de 13 mulheres assassinadas por dia. A partir do Mapa da Violência (2015)[3], revelou que estatisticamente somente o estado do Espírito Santo teve, em 2011, uma taxa de 9,2 vítimas a cada 100 mil mulheres. O estado atingiu o pico de 12,3 por 100 mil mulheres em 2009. Os números citados já demonstram a relevância desse tema e despertaram nosso interesse em pesquisar esse tipo de crime. Esse artigo é um estudo de caso do texto publicado pelo jornal impresso “A Tribuna” [4] acerca de um crime de femicídio que ocorreu no município de Serra, no mês de março, do ano 2003.

A escolha do mês e do ano se deu em razão do fato de, nesse mesmo período, ter acontecido o homicídio de um juiz de direito, numa cidade vizinha, chamada de Vila Velha, (ambos os crimes aconteceram na região da Grande Vitória, no estado do Espírito Santo). Assim, analisamos, comparativamente, a publicação desses dois crimes, focando no “status social” das vítimas. A fim de se analisar e estudar os casos aqui propostos foi realizado uma pesquisa qualitativa. A fonte primária usada é o jornal impresso “A Tribuna”, que foi escolhida como fonte de pesquisa em razão de ter maior vendagem nas bancas em relação ao jornal A Gazeta, seu principal concorrente, segundo dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC), de julho de 2003 (MORAES, 2004).

Desse modo, nós realizamos um comparativo entre o noticiário que observa a posição social da vítima do gênero do feminino e a vítima do masculino, observando diferenças na publicidade da informação desses crimes, que foram descritos pelo jornal. Abordamos notórias discriminações acerca da vítima-mulher que trabalhava numa fábrica, ou seja, pertencia a uma classe menos favorecida socialmente em relação à vítima-homem, que atuava como juiz de direito e possuía um cargo de prestígio social. A violência contra a mulher encontra corpo e forma, tendo sido registrada nas páginas de “A Tribuna” rotineiramente. Como está inserida em uma pauta que tem sido publicada pelo jornal dos dias atuais, pode ser objeto de pesquisa.

Com objetivo de aumentar a compreensão sobre esse tema, nossa análise desse tipo de violência tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade cultural é construída, pensada e compreendida (CHARTIER, 1990). O jornal impresso tem publicado rotineiramente nos noticiários a morte violenta de mulheres, porém, uma parcela da população nem mesmo é sensibilizada com tais notícias e essa é a gravidade desse problema. Há até determinado conformismo, a nosso ver, errôneo, decorrente do padrão cultural machista patriarcal que procura “justificativa” para a violência sofrida pela mulher, ainda hoje, é comum encontrar nos jornais, narrativas para atribuir culpa à própria mulher pela violência sofrida, como se a culpa fosse dela e não daquele que a produziu.

Nesse sentido, a vítima, além de sofrer a violência do crime, às vezes, letal, no jornal “A Tribuna”, sutilmente, a mulher, tende a ser acusada de ter provocado a violência sofrida. Essa inversão é resultante da nefasta cultura machista na qual a mulher acaba por deixar sua condição de vítima para tornar-se ré. Desse modo, a mulher tem sido discriminada pelo jornal impresso. Mas, nos casos de violência contra a mulher, será que a culpa é realmente da vítima? Entendemos que não! E iremos discorrer sobre o assunto. No Brasil, a violência contra a mulher é um problema decorrente da influência cultural machista patriarcal judaico-cristã, presente desde nosso período colonial, no qual o governo não reconhecia a violência contra o gênero feminino como problema, não interferia nesse tipo de violência, considerando-a irrelevante e natural, além do reconhecimento de que o ato de violência contra a mulher era legitimado pelo código de moralidade popular.

Assim sendo, deve-se aludir que grande parte do comportamento agressivo contra a mulher fazia parte dos usos e costumes, sendo socialmente aceito até os nossos dias. (NADER, 1996). Esse artigo aborda a violência contra a mulher, dando ênfase ao crime de femicídio, que toma forma quando a causa da morte da mulher decorre de agentes que são homens ou pessoas com as quais mantiveram um relacionamento afetivo. Ou seja, o crime ocorreu em consequência da desigualdade de gênero, conforme conceituado por Maria Amélia de Almeida Teles (2002).

2. A CULTURA MACHISTA DE ATRIBUIR CULPA A MULHER NA ANTIGUIDADE E NO JORNAL DIÁRIO

[…] a violência contra as mulheres é definida como universal e estrutural e fundamenta-se no sistema de dominação patriarcal presente em praticamente todas as sociedades do mundo ocidental […] a morte de uma mulher é considerada como a forma mais extrema de um continuum de atos de violência, definido como consequência de um padrão cultural que é aprendido e transmitido ao longo das gerações. Como parte desse sistema de dominação patriarcal, […] e todas as formas de violência que a ele estão relacionadas são apresentados como resultado das diferenças de poder entre homens e mulheres, sendo também condição para a manutenção dessas diferenças (PASINATO, 2011, p. 230).

No estudo da Socióloga Wania Pasinato nota-se que a cultura machista atua, desde longa data, na História mundial. Por certo, essa violência é encontrada na relação de poder dos homens com as mulheres e por vezes ela vem acompanhada de nocivas distorções e na atribuição da culpa ao gênero feminino, lamentavelmente, essa prática cultural de culpar a mulher se difundiu e tem sobrevivido ao longo do tempo. Na Antiguidade, por exemplo, a mulher era considerada como propriedade do homem, até hoje, o sentimento de posse do homem sobre a mulher é um fator cultural de peso que deve ser levado em consideração pela sociedade. “[…] passando as mulheres a serem definidas como, o segundo sexo, entendido este não apenas no sentido de ordem cronológica da criação, mas ainda no sentido secundário e submisso […]” (ALVES, 2005).

Nas páginas dos jornais impressos do tempo presente, a violência contra a mulher se apresenta com bastante intrepidez, cujo poderio machista, lamentavelmente, em pleno século XXI, procura subjugar, agredir, estigmatizar, ferir, discriminar, violentar e até matar mulheres. Os noticiários diários, por exemplo, retratam os casos de estupro coletivo, com a característica que demonstra a suposta “coragem” do “macho” violentador, que, geralmente, realiza o ato sexual em grupo.

[…] Certas formas de “coragem”, as que são exigidas ou reconhecidas pelas forças armadas, ou pelas polícias (e, especialmente, pelas “corporações de elite”), e pelos bandos de delinquentes, ou também, mais banalmente, certos coletivos de trabalho encontram seu princípio, paradoxalmente, no medo de perder a estima ou a consideração do grupo, de “quebrar a cara” diante dos “companheiros” e de ser ver remetido à categoria, tipicamente feminina, dos “fracos”, dos “delicados”, das “mulherzinhas”, dos “veados”. Por conseguinte, o que chamamos de “coragem” muitas vezes tem suas raízes em uma forma de covardia: para comprová-lo, basta lembrar todas as situações em que, para lograr atos como matar, torturar ou violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão baseou-se no medo “viril” de ser excluído do mundo dos “homens” […] (BOURDIEU, 2012, p.66).

 No Brasil da atualidade, as estatísticas das mulheres que são estupradas aumentam a cada dia e nas casas ainda são feitas perguntas: ”com que roupa ela estava? O que ela fazia na rua? Sozinha a essa hora da noite? Portanto, há uma prática social emoldurada pela cultura machista discriminatória para “justificar” a covardia do “macho” violento e estuprador.

[…] A hierarquia sexual é a forma mais antiga e persistente de desigualdade – a mais “dura”, portanto, por ter sobrevivido a tantas transformações sociais. Certamente as mulheres têm sido em todas as civilizações que conheço um grupo estigmatizado, são descritas pelos homens como emotivas, irracionais, mental e moralmente fracas. Movidas a sexo e facilmente desviadas a qualquer atividade séria, são excluídas de posições de poder, com poucas exceções (WALZER, 2008, p.50).

 A cultura da sociedade machista estabelece que a mulher esteja confinada no espaço privado, seu lugar social é bem definido, o ambiente privado é o lugar da mulher, a rua é o espaço do homem. Essa demarcação de gênero favoreceu a propagação da violência contra a mulher. A cultura machista, no século XXI, continua a não aceitar a exposição da mulher no espaço público, que deve ser ocupado pelo “macho” no mundo onde predomina o domínio do sexo masculino (NADER, 1996). A violência conjugal é vista pelo feminismo como uma expressão radical da relação hierárquica, em que o homem ocupa a posição de mandatário, podendo valer de sua autoridade para punição e violência aos outros componentes da família. A mulher, cujo papel é o de lidar com as tarefas de casa e cuidar dos filhos, é acaba subjugada aos desejos do homem (GREGORI, 1993).

3. A VIOLÊNCIA E A SEXUALIDADE NO BRASIL COLONIAL

A cultura machista patriarcal judaico-cristã se propagou pelo território brasileiro com a vinda do colonizador branco europeu que, ao aportar em nossas terras, trouxe, em sua “bagagem”, diversos costumes do “macho” patriarcal que se cristalizaram em nosso País.

Assim como as mulheres escravas no Brasil eram submetidas ao seu proprietário que as controlava não somente pela sua condição jurídica, mas também pela sua condição de mulher na sociedade patriarcal, a violência de gênero promovida pelo parceiro pode ser definida como conduta agressiva que ocorre em virtude da condição de mulher na sociedade […] (NADER, 1996, p.237).

Não resta dúvida dos sofrimentos vividos pelas mulheres, sejam elas esposas ou escravas que viviam debaixo do poder e do jugo dos colonizadores portugueses. Os portugueses difundiram suas práticas religiosas, políticas e bélicas, as combinando com a violência e com o abuso sexual.

[…] O jovem que viveu entre a colônia e o império tinha de ter várias facetas sociais. Entre outras, aquelas moldadas pela violência e ou pelo sexo. A partir do século XVII, a masculinidade passava mais claramente pelo exercício do mando: aprendia-se desde cedo a se fazer obedecê-lo sobre os escravos e as cabras, andando armados, algumas vezes tinham pajens e comitiva quando em viagem e frequentavam ao seu bel prazer as senzalas para arrefecer os seus ânimos (SCHNOOR, 2013, p. 86).

A historiadora Maria Beatriz Nader escreveu acerca da violência doméstica sofrida pela mulher brasileira no período de domínio colonial português. A mulher padecia com agressões que iam da violência sutil até o extremo ato da violência fatal.  O “macho” podia chegar ao absurdo de executar a esposa em caso de simples suspeição de infidelidade conjugal (NADER, 1996). Nos tribunais do Brasil, durante muito tempo, a legítima defesa da honra masculina se tornou indispensável para defesa do réu no julgamento do crime de femicídio. Os advogados dos réus se apoiavam nessa argumentação de caráter machista. Nas varas criminais, buscava-se a absolvição do culpado para o crime que envolvia em a mulher que vivia um relacionamento extraconjugal (adultério).

Já as mulheres podiam facilmente ser transformadas de vítimas em culpadas pela agressão sofrida se não se enquadrassem no modelo de conduta ideal (NADER; LAGE, 2013). Atualmente, nesses crimes, essa argumentação nefasta não mais se sustenta por não ter base e nem amparo legal na legislação brasileira. Todavia, a cultura machista de longa data ainda procura “justificativa” para o homem que é (réu), e busca “culpar” a vítima (mulher), e, assim, tal imaginário continua sendo reproduzido cotidianamente na página do jornal diário na atualidade. No plano legal, o adultério não serve de argumento para o assassinato feminino e a infidelidade conjugal não tem mais validade. Contudo, essa violência, balizada pela influência cultural observada no artigo, aponta um grau de força suficiente para atuar na prática social, sendo impulsionada pelo machismo existente na sociedade brasileira.

Os homens continuam matando suas parceiras e o julgamento desses criminosos sofre influência do sexismo reinante na sociedade determina o levantamento de falsas acusações – devassa é a mais comum – contra a assassinada. A vítima é transformada em ré, procedimento este que, muitas vezes, absolve o verdadeiro culpado (SAFFIOTI, 2004).

4. A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER OBSERVADA NO TEXTO DO JORNAL

A narrativa dos homens dominantes é reproduzida por instituições como a escola, a família e, também, a imprensa, com um grau de “naturalidade” e são utilizadas como uma base de sustentação para a permanência dos comportamentos violentos de poderio patriarcal e para perpetuação de suas práticas com a difusão de suas ideias e manutenção de desigualdades entre homens e mulheres, conforme afirmação do sociólogo francês Pierre Bourdieu (BOURDIEU, 2012). Estamos cientes de que o jornal “A Tribuna” não é responsável pela violência na sociedade capixaba, e, por isso, não podemos responsabilizar o jornal diário pela violência sofrida pelas mulheres na sociedade, entretanto, não há como negar a influência cultural imposta por esse veículo de comunicação ao reproduzir esse tipo de violência.

Um jornalismo sério e imparcial deve estar convencido da sua grande responsabilidade social em relação à representação das notícias acerca da violência contra a mulher. Sem dúvida, uma editoria conscientizada do seu relevante papel poderá contribuir em muito para a criação de um conteúdo noticiário que exponha opinião crítica, posicionando-se como defensor dos direitos humanos, buscando combater a “naturalização” da violência diária e evitando reproduzir este tão importante tema, sem problematizá-lo.

5. ESTUDO DO FEMICÍDIO- A NARRATIVA DO JORNAL QUE CRISTALIZA A CULTURA MACHISTA DE CULPAR A MULHER VÍTIMA DA VIOLÊNCIA

[…] 38 anos, que trabalhava em uma fábrica de plástico em São Marcos III, na Serra, foi morta às 12 horas de ontem no pátio da empresa com três facadas dadas pelo próprio marido, o carpinteiro […], 46. O crime, segundo a polícia, foi motivado por ciúme (08/01/03 – AT).

O crime que resultou na morte da mulher foi publicado na página policial do jornal “A Tribuna” em apenas meia página e poucas considerações ou quase nada foi disponibilizado acerca desse caso, provavelmente pelo baixo interesse mercadológico da notícia na sociedade.

Todo mundo sabia que ela o traía. Cheguei a conversar com a minha irmã para que ela parasse com isso porque seu marido iria matá-la […]. Ela dizia que um dia iria morrer mesmo e que não se importava contou a irmã (08/01/03 – AT).

Essa acusação sofrida contra a mulher que foi assassinada que é apresentada pelo jornal possui uma raiz cultural da Antiguidade. Indica a influência da cultura machista patriarcal judaico-cristã. O diálogo da irmã e da mulher que, posteriormente, veio a ser vitimada, pagando um preço valioso, ou seja, com sua própria vida, aponta para uma postura de submissão e auto sacrifício por parte da própria vítima, pois, quando ainda estava viva, admitia e se conformava caso viesse a ser morta pelo motivo da infidelidade conjugal. A mulher, que se mantém fiel ao marido, recebe aprovação social – se, contudo, decide infringir a norma e desfrutar do prazer junto à um amante, merece ser assassinada pelo marido, pois ele tem a honra manchada pelo comportamento da mulher (SAFFIOTI, 1987).

Observamos o conformismo aceito por parte das duas irmãs na expressão “um dia iria morrer mesmo”, relativizando o crime ao dizer essa frase, como se morrer assassinada fosse um processo “natural” para a mulher adúltera. O texto descrito expressa o consentimento de parte da sociedade na aceitação e conformidade da morte da mulher adúltera. Assim: “[…] foi morta a facadas dentro da fábrica onde trabalhava. O marido suspeitava de um namoro entre ela e um colega” (08/01/03 – AT). Isso é semelhante ao que ocorria Brasil durante o período colonial, quando marido dispunha do poder sobre a vida da esposa. A página do jornal mostra uma que esposa foi executada pela desconfiança de um namoro dela com um colega de trabalho.  A “cultura” machista procura conformar o leitor acerca do risco que a vítima corria diante da fúria do “macho” matador e covarde.

Aponta: “[…] ela estava tendo vários relacionamentos amorosos e o […] não gostava disso, como qualquer homem. Ele chegou a fazer ameaças de morte muitas vezes, disse a irmã” (08/01/03 – AT). De maneira sutil, a irmã da vítima admite a culpa por parte da mulher (irmã) que traía o marido. Quando a irmã “justifica” que o assassino não gostava que ela se relacionasse com outros homens, “como qualquer homem”, a irmã é igualmente machista. O texto deixa subtendido que a irmã está falando acerca da cultura machista que não aceita que a mulher venha adulterar, ou seja, que fuja dos padrões sociais e da fidelidade conjugal. A esposa, por outro lado, deverá se submeter ao homem em razão da sua criação deve tolerar a “natureza” masculina e o seu instinto do “macho” e “comedor”, esse homem, ao praticar o adultério, tem seu ato relativizado ou aceito pela sociedade, que, por diversas vezes, tolera o adultério masculino e tem profundo pavor quando esse ato é praticado pela mulher.

A exposição pública está inserida na prática cultural masculina, no campo de atuação do “macho”, com seus atributos como: “fálico, viril, garanhão, tigrão, leão”, juntamente aos outros adjetivos considerados “positivos” pela sociedade machista dentro do seu papel masculino. Na cultura machista, o homem é o sujeito ativo que come e a mulher, objeto passivo, é comida. A mulher é vista como objeto de cama e mesa (ALVES, 2005). Assim: “Não estou defendendo o […], mas pedi muito para que ela parasse com esses casos fora do casamento. Eles já estavam casados há mais de 20 anos, mas mesmo tendo muitas brigas viviam bem” (08/01/03 – AT). No padrão cultural machista, é inconcebível a mulher se apresentar como uma “comedora” de homens, será mal vista ao apresentar-se no espaço público, sendo adjetivada com rótulos de “baixo calão”.

A mulher que ousar, ou tentar assumir o lugar do homem e tentar inverter o padrão social esperado e imposto pela cultura machista, correrá sérios riscos de morte, de não ser defendida, nem mesmo pelos familiares mais íntimos, como foi relatado pela irmã que afirmou não defender o assassino, mas, implicitamente, ela buscava “justificar” o acusado (cunhado) e autor do crime, justificado pelo motivo dos casos fora do casamento. A narrativa relata que o assassino e a vítima viviam “tendo muitas brigas”, mas, apesar disso, “viviam bem”. Para a cultura machista todo sacrifício feminino é válido para manter o casamento idealizado: sofrer violência simbólica, emocional, apanhar e, em alguns casos, até morrer. Desse modo: “Muitas vezes o marido dela dizia que ia matá-la com uma cabeçada e não só ela, mas o homem que estivesse com a mulher dele” (08/01/03 – AT).

O “macho” se considera o “dono” da mulher e procura destruir aquele que venha a se colocar entre ele e a possível vítima que é dominada numa relação hierárquica, com predominância do poder masculino. O assassino demonstra seu poderio num relacionamento desigual em que o “macho” assume um lugar de dominante e subjuga a “fêmea” dominada. Na sociedade atual, o olhar doentio e possessivo masculino observa a mulher como uma propriedade pessoal. Assim: “Após o crime, […] foi conduzido por policiais civis a DHPP, em Vitória, e confirmou a informação de que ele e […] tinham um romance. Ele foi ouvido e liberado em seguida” (08/01/03 – AT). O amante da mulher que fora vitimada deslocou-se para a delegacia para confirmar o possível motivo do crime, lá, logo foi constatado que a mulher havia sido executada pelo marido por viver um caso extraconjugal.

Depois do crime ele fugiu sem levar nada […] as investigações […] estão sob a responsabilidade do delegado […], Investigadores afirmaram que vão esperar que […] se apresente e confesse o crime, já que não existe dúvida de que ele foi o autor das facadas (08/01/03 – AT)

A representação dessa narrativa transmite para a sociedade um sentimento de impunidade ao declarar que o assassino fugiu após o crime e que permanecia solto. Tendo como agravante o dito dos investigadores de polícia que iriam aguardar a confissão do assassino quando ele viesse se apresentar na delegacia. Na mente do leitor, uma morte que teve uma “justificativa”. Por diversas vezes, em crimes em que o homem pratica violência contra a mulher, a sociedade machista corrobora para “justificar” o réu e condenar a vítima, movida ou induzida pela influência cultural machista da culpa feminina pelos males sociais. Essa prática cultural de atribuir culpa à mulher tem longa permanência e se transporta ao longo da História. No Brasil, instalou-se desde nosso período colonial, deslocou-se pelo Império, desenvolveu-se na República Velha e, na atual República Democrática do Brasil, encontra espaço nas páginas dos jornais e nos corações de pessoas de diversos grupos sociais.

6. ESTUDO DO HOMICÍDIO DO JUIZ: AS DIFERENÇAS NA FORMA DE PUBLICAR A MORTE

O jornal aponta que: “Uma das figuras mais atuantes no combate ao crime organizado […], foi ferido na cabeça e no peito quando atravessava a Rua Natal, em Itapuã, para entrar numa academia de ginástica […]” (25/03/03 – AT, Capa). Na publicidade desses crimes existe uma clara discriminação em relação à posição social e o gênero das vítimas. A primeira diferença da notícia é que o homicídio do juiz está representado na capa do jornal. Todo o conteúdo foi publicado a partir de uma edição especial e não na página policial, como no caso da mulher.

[…] chegava a uma academia de ginástica no bairro Itapuã em Vila Velha- ES, ele foi morto com dois tiros por dois indivíduos que transitavam em uma moto (25/03/03 – AT).Comoção na porta do hospital. Em busca de uma explicação para o crime, amigos, estudantes, policiais, juízes e desembargadores lotaram a recepção do Hospital Santa Mônica, em Vila Velha, na manhã de ontem (25/03/03 – AT).Os estudantes da Faculdade de Direito de Vitória onde o Juiz lecionava, fizeram uma carreata de mais de 50 carros e um buzinaço (25/03/03 – AT). Mais de 5 mil pessoas passaram na tarde de ontem pelo Tribunal de Justiça (TJ) do Estado, onde foi velado o corpo do juiz […](25/03/03 – AT).

O jornal “A Tribuna” narra esse crime demonstrando inconformidade em relação a essa morte violenta e não aceitação por parte das autoridades e da sociedade capixaba. A editoria do jornal faz uso de uma narrativa com forte apelo emocional.

Juiz assassinado a tiros em Vila Velha. Polícia age rápido e prende um dos matadores com as armas do crime, Policiais fecharam o cerco e detiveram 11 suspeitos, entre eles quatro PMs. Um sargento reconhecido. Operações foram realizadas em toda a Grande Vitória […] (25/03/03 – AT).

Notamos a rapidez da ação policial para prender os suspeitos do homicídio do juiz, repassando, para a população capixaba, um sentimento de justiça imediata. Podemos constatar, dessa forma, a diferenciação na maneira de narrar textualmente à informação do femicídio, porque o jornal, ao representar o crime da mulher, que era menos favorecida socialmente, pouco ou quase nada informou, a vítima foi representada superficialmente, meia página do jornal foi “suficiente” para relatar a sua morte. Diferentemente da abordagem noticiaria conferida ao homicídio do juiz, que obteve um nível de abrangência muito mais amplo. Em todo tempo, é dispensado, ao juiz, um tratamento digno e respeitoso pela editoria do jornal “A Tribuna”.

Sabemos que a vida de qualquer ser humano tem valor incalculável, entretanto, o que não concordamos é com a breve narrativa dispensada à mulher que trabalhava em uma fábrica, ou seja, não desfrutava de “status social”, ela estava “enquadrada” num contexto de invisibilidade social. No assassinato de uma pessoa de classe média ou rica, é possível que a mídia faça o povo se lembrar do nome da pessoa, das circunstâncias, tendo o fato enfatizado a emoção e inconformidade. Então, o crime que vitima uma pessoa rica é personalizado. O pobre é visto como estatística (ESPÍRITO SANTO, 1996). No crime do magistrado, foram publicadas, além da primeira página, mais 07 páginas de reportagem especial, somente no dia do crime, mais diversas outras divulgações nos dias posteriores ao homicídio. Já sobre a morte da mulher, meia página e nada mais posteriormente.

As vidas não têm o mesmo peso, nem as mortes, para os jornais. Como os leitores são meras possibilidades, resta, aos jornais, toda a tarefa de selecionar reportagens acerca do mundo da violência, contudo, por outro lado, há que se frisar que alguns casos de violência são priorizados, isto é, os jornais não desistem, alardeiam, procuram culpados e fazem apologias (GERALDES, 1998). Podemos observar que ocorreu uma clara demonstração discriminatória do periódico que se dá, possivelmente, em razão do interesse mercadológico na notícia da morte do juiz. Não sabemos os números exatos das vendas, mas é bem provável que o crime do juiz tenha vendido um número muito mais expressivo de volumes do que o crime da mulher assassinada pelo marido.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cultura machista da sociedade brasileira se expressa no jornal “A Tribuna” e prepara os leitores para aceitarem a violência contra a mulher de maneira “natural” e “justificada”. Entretanto, o machismo existe por criação. Ele tem sobrevivido e tem sido alimentado culturalmente, não pela natureza. Podemos afirmar que, nos casos de violência contra a mulher, a culpa não é da vítima! Todavia, a cultura machista patriarcal judaico-cristã, influente desde o período colonial brasileiro, é um fator gerador de violência contra o gênero feminino no Brasil. O editorial do jornal “A Tribuna” poderá contribuir em muito para a construção de uma nova ordem cultural que apresente narrativa textual baseada na cultura da igualdade de gênero.

Objetiva-se não reproduzir a violência e sim problematizar o crime contra a mulher no sentido propor novos métodos de combate à essa prática cultural arcaica, porém, ainda presente. A Constituição Federal do Brasil afirma que nós somos todos iguais perante a lei, portanto, deve haver tratamento igualitário, independentemente da posição social e do gênero da pessoa. O texto do jornal deve ser imparcial e livre dos preconceitos nocivos à sociedade. A imprensa atuante deve salvaguardar o pluralismo de opiniões, atuando respeitosamente ao retratar a violência, exercendo, assim, sua função social, convidando a sociedade a participar democraticamente, dando voz à população e aos especialistas favoráveis à luta feminista, trabalhando a fim de difundir um conteúdo cultural com informações que propiciem questionamento a violência contra a mulher, almejando gerar inconformidade ao machismo cultural e misógino que apesar de lentamente sofrer transformações ao longo do tempo, infelizmente ainda insiste em permanecer como foi apontado no artigo.

Seguiremos na luta contra o poderio desigual do “macho” em relação à mulher por entender que a mudança social poderá ocorrer quando as práticas culturais se modificarem e as práticas culturais se modificarão a partir do momento que a sociedade não se conformar e “justificar” a violência contra qualquer tipo de pessoa. Finalmente, deixamos nosso sentimento em respeito aos familiares e aos amigos das vítimas descritas nesse artigo. Oxalá! Que não precisássemos mais nos debruçar nesse tema da violência contra qualquer ser humano, entretanto, sabemos que a violência é um fato social, ela até poderá diminuir, mas não irá acabar por completo, seja no Brasil ou qualquer outro lugar do mundo. É papel do historiador falar sobre esse importante assunto, com propósito de ao menos atenuá-lo. É o que desejamos para viver em um mundo melhor.

REFERÊNCIAS

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WAISELFISZ, J. J. Mapa da Violência 2013 – Homicídios e Juventude no Brasil. Brasília: Secretaria-Geral da Presidência da República, Secretaria Nacional de Juventude/SNJ, 2013.

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WALZER, M. Política e paixão: rumo a um liberalismo mais igualitário. 1ª ed. São Paulo: Editora: WMF Martins Fontes, 2008.

APÊNDICE – REFERÊNCIAS DE NOTA DE RODAPÉ

2. O pesquisador Júlio JacoboWaiselfisz, (WAISELFISZ, 2013, p.74), analisou que entre 2003 a 2013o número de mulheres vitimadas passou de 3.937 para 4.762, seu trabalho é baseado no Mapa da Violência.

3. O Mapa da Violência descreve que o Estado do Espírito Santo tem  tido  taxas elevadas no cenário brasileiro em relação ao assassinato de mulheres ((WAISELFISZ, 2015, p.11-13).

4. A Tribuna disponibiliza gratuitamente suas edições anteriores em seu Acervo Digital.

[1] Graduação em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES (2008) e Pós-Graduação Lato Sensu em  Educação em Direitos Humanos pelo Instituto Superior de Educação de Afonso Claudio (2015).

Enviado: Setembro, 2020.

Aprovado: Outubro, 2020.

Graduação em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES (2008) e Pós-Graduação Lato Sensu em Educação em Direitos Humanos pelo Instituto Superior de Educação de Afonso Claudio (2015).

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