O acaso e a conquista do México (1519-1521)

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ARTIGO ORIGINAL

FARAH, Leonardo de Castro [1]

FARAH, Leonardo de Castro. O acaso e a conquista do México (1519-1521). Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 04, Vol. 02, pp. 27-48. Abril de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/conquista-do-mexico

RESUMO

O ano de 2019 fez 500 anos da Conquista do México. Esse evento até hoje é marcante para o povo mexicano. Existe um profundo ressentimento com o personagem: Hernán Cortéz (1485-1547). O sujeito responsável pela Queda do Império Asteca. Os espanhóis e a própria História trata-o como um conquistador. Já os derrotados, os mexicanos o tratam como um invasor, assassino, ladrão e mentiroso. Por esta razão, em sua concepção não permitiriam que nenhum nome de praça, rua, avenida, escola, que levasse o nome desse conquistador. Como um Cortéz conseguiu com apenas 508 homens, algumas armas de fogo e cavalos, derrubar um império de 25 milhões de habitantes e tendo milhares de soldados? Parece que o improvável (acaso) aconteceu. Basta-nos explicar como se deu este evento na História da Conquista, sendo aproveitado por Cortéz. Para explicar nossa tese contaremos com os textos dos vencedores: Cortez e Bernal Díaz del Castillo (1492-1584) e o texto de Bernardino de Sahagún (1499-1590). As ideias de Tzvetan Todorov e diversos artigos científicos e os documentários da Discovery Channel e History Channel, que abordam o tema.

Palavras-Chave: Hernán Cortéz, acaso na Conquista do México.

INTRODUÇÃO

A pesquisa tem como recorte temporal os anos de: 1519 a 1521 e o recorte espacial do México pré-hispânico. O objetivo deste texto seria de explicar como o acaso foi importante na história da Conquista Asteca. E como Cortez soube usá-lo a seu favor. Para isso, houve três fatores vitais para explicar como isso. Sem esses eventos a Conquista não ocorreria da mesma forma:

Tabela 1 – Três eventos aleatórios e desconexos que foram fundamentais na Conquista dos Mexicas.

Fonte: autor.

A Conquista perpetrada por Cortez e seu exército foi um evento tão marcante para o povo pré-hispânico, que tem repercussão até hoje. Por conta disso, muitos autores, vêem elaborando hipóteses a respeito do que esse evento representou. No nosso texto iremos recorrer aos registros dos vencedores: as cartas de Hernán Cortez (1485-1547) ao rei Carlos I da Espanha. As crônicas de Bernal Díaz del Castillo (1492-1584) e também há o texto dos vencidos, produzido pelo frei Bernardino de Sahagún (1499-1590). Também usaremos os textos de Todorov que sugeriu que os espanhóis conseguiram entender a cultura dos Astecas, para assim, conquistá-los. Já os Astecas não conseguiram fazer o mesmo. Também usamos a dissertação de Guilherme Q. de Souza, da UFSJ que sugere que ocorreu a continuação da reconquista espanhola da península Ibérica, mas no México, no sentido de se criar uma “Nova Cruzada contra os infiéis”. Usaremos ideias de teóricos especialistas neste tema. E por fim, usamos os documentários do Discovery Channel e History Channel.

1. 1º EVENTO FORTUITO: OS CONQUISTADOS E OS CONQUISTADORES

1.1 QUEM FOI HERNÁN CORTEZ E O QUE ELE QUERIA?

Hernán Cortez nasceu em Medellin, Estremadura, Espanha, em 1485. Seus pais desejavam que fosse um advogado, mas o jovem Cortez teve o interesse de viver no “Novo Mundo”, chamado: América. Quando chegou a San Domingos, na ilha de Hispaniola (atual Haiti), em 1504 já possuía terras e escravos. Ao saber de viagens sendo feitas a oeste para as terras mexicanas, e marujos voltando com histórias de ouro, resolveu vender suas terras e escravos e: “assim, arcou com quase todo o custo da armada, tanto em navios como em abastecimento” (CORTEZ, 2007, p 19). Segundo Bernal Díaz del Castillo (1944), Cortez era casado com Dona Catalina Suárez, e não o impediu de sair de Hispaniola.

Hernando Cortés, natural de Medellín, que tenía indios de encomienda en aquella isla, y poço tiempo hacía que se había casado con una señora que se decía doña Catalina Suárez, la Marcaida. A lo que yo entendí y otras personas decían, se casó con ella por amores, y esto de este casamiento muy largo lo decían otras personas que lo vieron, y por esta causa no tocaré más em esta tecla, y volveré a decir acerca de la compañía. [2] (CASTILLO, 1944, p 04).

Por volta de fevereiro de 1519, Hernán Cortez, com uma armada de 10 caravelas e 400 homens, partiu da Ilha Fernandina (atual ilha de Cuba), rumo ao Iucatã (local visitado, em 1516, pelo navegador Juan de Grijalba, que havia conseguido trocar peças espanholas por ouro). O que Cortez queria era localizar a fonte do ouro e também de resgatar marujos que ficaram presos, em Iucatã. “Cortez ficou sabendo que alguns espanhóis estavam cativos há sete anos em Iucatã em poder de certos caciques, depois de naufragarem nos baixos da Jamaica, vindos de terra firme, tendo escapado em uma barca de caravela que afundara” (CORTEZ, 2007, p 21).

Ao chegar à região sul do México, Cortez encontrou o povo que já vivia ali. Segundo suas cartas (Cartas de Relación) relataram que os índios “trouxeram milho e algumas galinhas e disseram para que pegássemos aquilo e nos fôssemos de suas terras” (CORTEZ, 2007, p 24). Cortez de forma hábil afirmou que não: “partiria sem saber o segredo daquela terra”. E tomou a aldeia à força. Os índios fugiram e no dia seguinte, apareceram oferecendo presentes (em ouro) e pediram que fosse embora dali. Mas, Cortez, queria saber o “segredo daquela terra”. Ele sabia “que aquela terra era muito rica em ouro e que ele e todos os índios deveriam ter muito boa vontade para conosco” (CORTEZ, 2007, p 28). Por esta razão, os espanhóis desejavam saber a origem de tanto ouro. Onde se encontrava? Os indígenas querendo se livrar dos espanhóis disseram que havia muito ouro, numa região chamada Tenochtitlán (a cidade capital do Império Asteca). A cidade era governada por um rei poderoso, chamado: Montezuma II (1466-1520). Em suas cartas Cortez seguiu rumo a Tenochtitlán, saiu de Iucatã e chegou às costas do litoral mexicano, onde hoje é a região de Tabasco. Há registro de lutas entre os nativos e os espanhóis, segundo Bernal Díaz:

Así como llegaron a nosotros, como eran grandes escuadrones que todas las sabanas cubrían, se vieron como rabiosos y nos cercan por todas partes, y tiran tanta flecha, vara y piedra, que dela primera arremetida hirieron más de setenta de los nuestros, y con lanzas pie con pie nos hacían mucho daño, y un soldado murió luego de un flechazo que le dieron por el oído, y no hacían sino flechar y herir a los nuestros. [3] (CASTILLO, 1944, p 11).

O objetivo principal da expedição de Cortez era obter ouro e poder (glória). Ele não estava interessado numa “Cruzada”[4] ou se aventurar numa guerra religiosa. Na verdade, Cortez usou desse pretexto, para subtrair as riquezas que poderia encontrar. O próprio Cortez deixou claro, as suas intensões: “vim aqui para descobrir ouro, e não para cultivar a terra como um simples camponês” (GRIMBERG, 1989, p. 39).

1.2 A IMPORTÂNCIA DE GERÓNIMO DE AGUILAR E DONA MARINA

É bom frisar que desde o início Cortez teve dificuldades, seja em obter abastecimento (água e comida) e local seguro para descanso. Tanto, Cortez como, Bernal Díaz narram diversos conflitos com os indígenas de várias etnias (CORTEZ, 2007). Mas, cessada as hostilidades com os índios firmava-se a paz. A partir deste ponto, as crônicas comentam da dificuldade de diálogo, entre: os nativos e os espanhóis. Isso porque, os espanhóis não falavam a língua local, o Maia (CASTILLO, 1944). Mas, havia um espanhol náufrago que já vivia na região. Ele foi resgatado por Cortez e poderia servir de intérprete (segundo Bernal Díaz, ele se chamava: Gerónimo de Aguilar, e falava: Castelhano e Maia). E tinha mais. Cortez ganhou escravos: “No fue todo esto en comparación con veinte mujeres, entre ellas una mujer muy fina, Doña Marina se le dijo que los llamados cristianos en ese momento” (CASTILLO, 1944, p 10).[5]

De acordo com as crônicas espanholas, foram-lhe entregues: vinte escravas, entre elas havia uma índia chamada, Malinche ou Malintzin (língua indígena) ou Doña Marina (na língua espanhola). Para o cronista, Bernal Díaz (1944) ela era uma “excelente mulher”. A moça falava: Maia e nahuatl (língua Asteca), e através dela, Cortez poderia conversar com: os anciões, os governantes e os embaixadores Astecas. Com Malinche e Aguilar, a Conquista se tornou possível (Discovery Channel, Conquistadors: The Fall of the Aztecs, 2000, 05 minutos: 03 segundos).

Através de Malinche e do recém resgatado Gerônimo de Aguilar, estabeleceu-se uma ponte comunicativa entre os “espanhóis” e os mexicas. Cada um deles conhecia pelo menos dois idiomas: Aguilar (castelhano e maia) e Malinche (maia e náhuatl). Assim, o mundo hispânico e o mexicano entravam em comunicação (ao menos indiretamente)… Ao que tudo indica, Malinche soube tirar proveito da situação, aproveitando seu posto para melhorar sua condição. Rapidamente, a nativa aprendeu castelhano e tornou o trabalho de Aguilar dispensável (SOUZA, 2010, p 70-71).

Nota-se que em suas cartas, Cortez aborda muito pouco, o papel de Malinche na Conquista, apesar dala ter sido sua amante e lhe dado um filho. Cortez era casado legalmente, e não queria se envolver em problemas (ter uma segunda esposa, isso era crime, na Espanha). Porém, Bernal Díaz em sua crônica era mais detalhista. Nela foi narrado à história da jovem. Dizendo que ela e seus pais eram naturais de Iucatã e quais as circunstâncias de sua captura (CASTILLO, 1944).

O fato de Cortez ter ganhado, Malinche como escrava e resgatado Aguilar foi como acertar na loteria duas vezes na mesma semana. Caso não houvesse um intérprete para dialogar com as autoridades Astecas, a Conquista levaria a outros rumos, ou talvez, não aconteceria da mesma forma. No México pré-hispânico não existia um único povo vivendo ali, mas sim, o território era dividido, em diversas nações e etnias, que lutavam entre si por conseguir maior hegemonia. Os povos menores pagavam tributos aos Astecas e isso criava um ressentimento antemexica. Cortez entendeu isso e usou Malinche para criar alianças. Bernal Dias certa vez comentou: porque Cortez, sem ela, não podia entender os índios (CASTILLO, 1944). Todorov (1983) sugeriu que: Todos concordam em reconhecer a importância do papel da Malinche. E considerada por Cortez como uma aliada indispensável, e isto e evidenciado pelo lugar que concede a intimidade física entre eles (TODOROV, 1983).

Atualmente, Malinche é vista como a “traidora do México”. Isso está incorreto. Pois, em 1519 não existia o país México e nenhuma identidade nacional (Hino, Brasão, Bandeira e sentimento nacional). Como já foi dito, o México tinha milhares de etnias e nações, que lutavam entre si para sobreviver. Os Astecas era o povo de maior destaque na região.

1.3 CRUZADA OU CONQUISTA?

De acordo com a dissertação de Guilherme Q. de Souza, mestre pela UFSJ sugere que a Conquista do México se deu também graças às táticas usadas na “reconquista espanhola” e sua mentalidade das Cruzadas do século XI e XII. Segundo sua dissertação sugeriu que “nessa campanha específica, ideia a cruzada se expressou através do discurso e dos comportamentos dos conquistadores” (SOUZA, 2010, p 08). Para Souza o comportamento adotado pelos conquistadores com seus inimigos era: 1º A conversão ao cristianismo (uma mentalidade das cruzadas medievais). 2º Trocar símbolos e deuses pagãos por símbolos religiosos cristãos (cruz ou a estatueta de um santo) dentro de santuários pagãos. E 3º os discursos dos conquistadores eram que “Deus” estava no lado deles, nas suas batalhas e em todas as campanhas e por causa disso venceram (SOUZA, 2010).

A religião cristã foi usada como pretexto com o objetivo de conquista mental dos povos Astecas. Segundo suas cartas, Cortez pediu a Montezuma que tirasse dos templos ícones de seus deuses e fossem colocados no seu lugar ícones cristãos (CORTEZ, 2007).

Os principais destes ídolos e nos quais eles tinham mais fé eu derrubei de seus assentos e os fiz descer escada abaixo. Fiz também com que limpassem aquelas capelas, pois estavam cheias de sangue dos sacrifícios que faziam. Em lugar dos ídolos mandei colocar imagens de Nossa Senhora e de outros santos, apesar da resistência de Montezuma e de outros nativos (CORTEZ, 2007, p 63).

Em dado momento, Cortez usava em diversas ocasiões: a Guerra Psicológica contra os indígenas. Ele mesmo enalteceu-se ao contar que: “queimei 10 povoados” (CORTEZ, 2007, p 41). Em outro momento: “… Mandei prender todos os 50 e cortei-lhes as mãos” (CORTEZ, 2007, p 42). Num outro dia pela manhã junto com seus peões e alguns índios: “Dois povoados onde matei muita gente e não pus fogo para não chamar atenção de povoados vizinhos” (CORTEZ, 2007, p 42). Sem falar do Massacre de Cholula (CORTEZ, 2007). Esses massacres tinha um objetivo definido. Incutir medo na população civil para controlá-los, e com isso conseguir criar alianças e jurar lealdade ao rei de Espanha e a ele próprio. Os discursos religiosos dos espanhóis ou de Cortez tinham um propósito motivacional mantendo o exército coeso contra seu agressor, um bom exemplo, disso era que durante as batalhas havia espanhóis que desejavam desistir. Nesse momento, Cortez usava o discurso da cruzada para: motivar, incentivar e encorajar os soldados.

[…] Algumas pessoas querendo desistir da tarefa, só não fazendo porque eu lhes disse que como cristãos, éramos obrigados a lutar contra um inimigo de nossa fé, e, além disso, havíamos conseguido no outro mundo a maior glória e honra que até nossos tempos nenhuma geração conquistou (CORTEZ, 2007, p 43).

Porém, a ideia de mentalidade de cruzada sugerida por Souza (2010) não representa a totalidade das intensões de Cortez. Ora… A intensão real foi focada em descobrir riquezas (ouro) e obter glória. Não era apenas, levar a cruz. Desde o início, os espanhóis alegavam que: “[…] Nós sofremos de uma doença que só pode ser curada com ouro” (Discovery Channel, Conquistadors: The Fall of the Aztecs, 2000, 08min: 20seg). Concluindo, os conquistadores estavam muito mais interessados no ouro, do que divulgar a sua religião, que na verdade isso se mostrou um pretexto. Mas, para obter esse ouro Asteca, Cortez usou métodos cruéis, nunca visto na região Mesoamericana – comentarei a seguir.

1.4 AS GUERRAS ASTECAS VS GUERRAS EUROPEIAS

1.4.1 GUERRA ASTECA OU GUERRA FLORIDA

Os Astecas e os Maias eram povos extremamente disciplinados, na arte da guerra. Segundo Berry Isaac (1983) comentou que um ancião chamado: Ixtlilxochitl havia escrito uma estória contando as origens da Guerra Florida (Xōchiyaoyōtl). Segundo ele houve uma seca na região do México e isso impulsionou as nações locais em concordância de guerrear-se com o objetivo de aprisionar o inimigo e sacrificá-lo aos deuses, aplacando a fome.

A disputa e rivalidade militar entre: Tlaxcala e os Astecas nasceram deste conflito. É claro que havia outros povos que participavam. Mas tradicionalmente, os Tlaxcalanos eram os mais vitoriosos e com o tempo tornaram inimigos naturais dos Astecas. Segundo Ross Hassig (1988) esses combates tinha um contraste religioso e militar. A “Guerra Florida” tinha três finalidades: 1º seria para treinamento militar, 2º captura do inimigo para ser sacrificado aos deuses e 3º pagamento de tributos aos derrotados. Na luta o objetivo imobilizar o oponente, para ser sacrificado aos deuses. É importante comentar que os Astecas e outros povos não tinham intensões de matar o inimigo em campo de batalha. Nem mesmo cogitavam em destruir suas aldeias e templos. Para Ross Hassig (1988) os povos derrotados no conflito deveriam pagar tributos aos vencedores.

Segundo Berry Isaac (1988) antes de ocorrer a Guerra Florida era realizada orações nos templos. Era estipulado: uma data, um local e um horário, para que ocorra com combate segundo a “vontade dos deuses”. O local combinado era um lugar sagrado reservado aos deuses (Cuauhtlalli), por isso antes dos combates iniciarem fazia-se orações e cultos mostrando o seu teor religioso. Segundo LeonardoIasculski (2014):

Outro fator determinante foi a forma de guerra que era travada por esses dois povos em conflito. De um lado, os Astecas, que faziam a guerra ritualística e cerimonial, em que o tempo e lugar eram definidos previamente. O combate tinha hora certa para começar e terminar. Neste contexto seu objetivo principal não era matar o inimigo, e sim dominá-lo e submetê-lo ao Império Asteca. Do outro lado os espanhóis travavam guerras de conquista cujo principal objetivo era matar o maior número de indivíduos, o que era mais fácil e rápido do que capturar inimigos em massa (IASCULSKI, 2014, p 58).

No que diz respeito às armas dos Astecas, algumas eram usadas nas Guerras de Flores eram de arremesso, como: atlatl, flechas e lançamento de pedras. A arma de combate corpo-a-corpo preferida era a Macuahuitl[6] o equivalente ao machado de Thor. Essa arma era feita de um taco de madeira com lâminas de obsidiana, nas laterais. A obsidiana é uma pedra vulcânica muito letal e é mais afiada que um bisturi moderno.

De acordo com as cartas de Cortez, os Astecas, não colocavam suas guarnições militares (local fortificado) nos territórios por ele conquistados, pois isso não seria interessante o mais satisfatório era a cobrança de tributos (CORTEZ, 2007).

1.4.2 GUERRA EUROPEIA OU GUERRA PSICOLÓGICA

Já os europeus tinham uma abordagem diferente em campo de batalha. Enquanto os Astecas determinavam: um local, um horário e um dia para guerra, os espanhóis se antecipavam. Sempre a um passo a frente. Cortez usava de extrema violência contra cidades inimigas e sua população civil, para criar a chamada: Guerra Psicológica, que tinha como finalidade meter medo nas classes: abastardas e menos favorecidas. O 1º exemplo dessa estratégia foi à vitória contra os Tlaxcalanos, que eram invictos em combate. A vitória dos espanhóis repercutiu em todo México.

Cortez sabia que o reino de Tlaxcala tinha bons combatentes. Os espanhóis lutaram com eles e com muita dificuldade venceram, mesmo tendo uma tropa de 4 mil homens (índios aliados). Em suas fontes, Cortez eleva a quantidade de inimigos: “eram mais de cem mil índios que lutaram conosco até uma hora antes do por-do-sol” (CORTEZ, 2007, p 41) ou “[…] cento e cinquenta mil índios, que cobriam toda a terra em volta” (CORTEZ, 2007, p 41). O objetivo de aumentar o número de inimigos era para enaltecer “sua campanha”. Após Tlaxcalanos serem derrotados perceberam que se aliando aos espanhóis era mais vantagoso. De acordo com o documentário: Crónica de una Conquista produzido pela Discovery Channel, à paz foi feita, por questões políticas:

A guerra ainda não havia terminado quando chega uma comitiva de Montezuma, com a mesma mensagem, para não avançar até Tenochtitlán, estrategicamente, Cortéz convida os emissários de Montezuma a presenciarem a batalha do seu acampamento. Diante de uma suspeita de união entre Astecas e espanhóis, os Tlaxcaltecas decidem fazer a paz com os estrangeiros (Discovery Channel, Crónica de una Conquista, 2002, 19min: 49seg-20min: 13seg).

A paz e aliança militar foram realizadas na colina do Tzompantepec. Com isso, a Conquista foi-se construindo. Ora… A partir dessa aliança, Cortez teria: soldados, armamentos, mantimentos e força de trabalho. Isso foi muito bem aproveitado pelos espanhóis ao longo de sua campanha (pós-Conquista 1521-1590). O líder dos Tlaxcalanos, Xicohtencatl, o Velho odiava os Astecas (porque impunham tributos) e estava disposto a lutar contra eles. Durante as negociações, Cortez recebeu a visita dos embaixadores de Montezuma II, que ofereciam presentes (ouro), e segundo o próprio Cortez:

Trouxeram-me até três mil pesos em ouro e pedido de Montezuma, mais uma vez para que não entrasse em sua cidade, por que era muito pobre em comida e que estava toda em água, não podendo chegar lá a não ser de canoa, além de outros inconvenientes (CORTEZ, 2007, p 50).

Quando os embaixadores Astecas estavam com Cortez ele mostrou os seus cavalos. Não existiam cavalos na América. E ao mostrar aos embaixadores esses animais e os canhões, eles temeram. O uso do cavalo em combate causou aos nativos um grande impacto (Discovery Channel, Conquistadors: The Fall of the Aztecs, 2000, 08min: 46seg). Os cavalos eram uma mensagem psicológica usada por Cortez para incutir medo e confusão, entre os inimigos. Para os nativos, os espanhóis se pareciam com os deuses e isso foi aproveitado pelos espanhóis: Dentre as suas interpretações, está à compreensão de que os índios viam os espanhóis como deuses e seus cavalos como seres sobrenaturais que tinham personalidade e guerreavam por sua própria vontade (ARAÚJO, 2001). Durante a campanha, o uso do cavalo teve duas funções: carga/transporte (mantimentos e armas) e arma de combate. Também, não podemos esquecer que durante boa parte da campanha, os espanhóis usaram: canhões, mosquetes e o aço espanhol (espada) eram armas mais sofisticadas que os indígenas tinham (ARAÚJO, 2011).

Numa tentativa de derrotar os espanhóis, em campo fechado (centro urbano), os mensageiros do Imperador convidaram Cortez e sua tropa, para ir até a cidade de Churultecal (Cholula). Essa cidade era aliada dos Astecas. Os espanhóis sabiam que isso era uma armadilha. E obviamente, sabia-se que os embaixadores não eram confiáveis. Os Tlaxcalanos avisaram para não ir a Cholula (CORTEZ, 2007).

Os espanhóis resolveram ir à cidade, os Tlaxcalanos receberam a ordem de aguardar fora da cidade e se algo acontecesse, seria disparado um tiro mosquete como alarme. Obviamente, ao entrar na cidade percebeu que as principais ruas estavam bloqueadas com pedras e taipas. Os mensageiros de Montezuma, “[…] Não me disseram coisa alguma” (CORTEZ, 2007, p 47). Resumindo, os espanhóis já passaram por essa experiência, em Iucatã e na região de Fronteira (CORTEZ, 2007). Cortez entendeu que não haver ninguém nas ruas de Cholula era proposital. Percebendo a manobra do inimigo, Cortez se antecipou ao movimento e prendeu seus líderes no templo de Quetzalcoatl e se iniciava o massacre na cidade (CORTEZ, 2007).

Segundo Marco Cervera o que houve foi uma demonstração de força contra a população civil (History Channel: Exploração Asteca, 2011, episódio: 04. 10min: 45seg). Foi o 1º massacre indígena perpetrado por europeus. Para os Historiadores, o Massacre de Cholula foi um massacre duplo. 1º ponto: os Tlaxcalanos eram seus rivais e inimigo natural. Isso foi já era uma motivação para perpetrar o massacre. De acordo com o arqueólogo, Marco Cervera foram descobertas: ossadas de crianças, idosos e mulheres que apresentavam sinais de corte ao que parece terem sidos assassinados. 2º ponto: Cortez usou o conflito para mostrar a Montezuma II e seus conselheiros seu poder bélico. A estratégia Asteca de luta urbana, quase deu certo, se não fosse pela antecipação de Cortez. Essa tática iria acontecer novamente, mas em Tenochtitlán, no período chamado de: “Noite Triste”.

2. 2º EVENTO FORTUITO – DOENÇAS PROLIFERADAS AO ACASO

2.1 O CONTATO DO IMPERADOR COM OS ESPANHÓIS

Cortez e os Tlaxcalanos partiram rumo a Tenochtitlán, atravessando as cadeias de montanhas (próximo ao vulcão Popocatepetl) e chegaram lá, no dia 8 de novembro de 1519 (dia de Quetzalcoatl). É claro que o Imperador, Montezuma II recebeu a comitiva. E é claro, que os espanhóis ganharam presentes em ouro e pedras preciosas. Ficou evidente que a elite Asteca duvidava que os espanhóis fossem de fato, deuses.

Segundo o mito Asteca, o deus Quetzalcoatl era barbado e tinha pele clara ensinou o povo a cultivar os campos, construir templos e que autoexilou-se do México, prometendo um dia voltaria e atravessaria o mar a oeste (o nascer do sol). A cruz (símbolo cristão) era a representação de Quetzalcoatl.

Os Astecas eram politeístas, praticando o sacrifício humano e, em algumas áreas, o canibalismo ritual; porém, havia igualmente pontos de semelhança com o cristianismo – seu deus principal nascera de uma virgem, comiam imagens suas de massa duas vezes por ano, tinham formas de batismo e confissão e uma cruz com os pontos cardeais (JOHNSON, 1976, p 489).

É óbvio que Cortez ouviu esta estória da população local e decidiu usá-la ao seu favor, de forma tendenciosa em aparecer na cidade do México (Tenochtitlán), justo no dia de Quetzalcoatl. Cortez quando estava em Cholula, viu um templo dedicado a Quetzalcoatl. Seu objetivo era fazer com que os habitantes meso-americanos, o reconhecessem como um deus, para que depois usasse isto para conquistá-los (TODOROV, 1983).

2.1.1 ASTECAS PAGANDO TRIBUTOS

“Passados seis dias em que permanecia nesta grande cidade de Tenochtitlán” (CORTEZ, 2007, p 55). Cortez resolveu prender Montezuma o objetivo de evitar revoltas populares e manter a ordem social: “sob pressão dos espanhóis, Montezuma reuniu os notáveis de seu império e ordenou-lhe que a partir desse momento, pagassem aos espanhóis os impostos que eles eram devidos” (GRIMBERG, 1989, p. 51).

Ora… Os espanhóis fizeram o mesmo procedimento, que havia feito em Cholula. Prenderam as autoridades da cidade. É claro que os espanhóis se viam “superiores” aos Astecas, e faziam com que o povo e as autoridades imperiais reconhecessem como deuses e impuseram os tributos. Todos os tributos e serviços que até me eram prestados, passarão a ser prestados a ele (os espanhóis) (CORTEZ, 2007).

Os Astecas estavam experimentando aquilo que fazia, com as outras nações conquistadas por eles, que era pagamento impostos e tributos. Para sua elite isso tudo representava: humilhação e insulto. As atitudes antirreligiosas e desrespeitosas dos espanhóis criavam o nascimento de um sentimento de oposição a Cortez na cidade. Montezuma II se mostrava indeciso, por isso, os espanhóis o prenderam e aos poucos perdeu contato com seus conselheiros. Resumindo, o imperador estava isolado e incomunicável – talvez seja, por isso, que não ficou infectado com varíola ou tifo.

2.1.2 A NOITE TRISTE

Entre novembro de 1519 e junho de 1520, os espanhóis ficaram na grande cidade imperial, transformando Montezuma em uma marionete. Mas em abril de 1520, segundo o padre Bernardino de Sahagún (1499-1590) (1979, p 46), cronista espanhol, afirmou que Cortez soube que 18 navios haviam chegado a Vera Cruz. E seu capitão (Pánfilo de Narváez) teria ordem de levá-lo preso por insubordinação até a Ilha de Fernandina.

Cortez agiu rápido deixou uma parte dos espanhóis em Tenochtitlán e levou consigo parte do ouro e soldados. De acordo com Bernal Dias a elite sacerdotal Asteca elaborou um plano para por o irmão de Montezuma II, Cuitláhuac (1476-1520) como novo imperador (Huey Tlatoani). E depois expulsariam os espanhóis da cidade.

Pedro Alvarado (1485-1541) era o substituto de Cortez na cidade ficou sabendo dos planos da elite sacerdotal e antecipou-se dando a ordem de execução dos sacerdotes, enquanto realizavam suas cerimônias ao deus da guerra Huitzilopochtli (no Templo Maior).

O Massacre ao Templo Maior foi um evento muito complexo. Segundo o historiador mexicano, Miguel León-Portilla, em seu livro: “Visión de los vencidos: Relaciones indígenas de la conquista” (1959), os Astecas alegam que os espanhóis eram traidores, pois os sacerdotes haviam pedido uma permissão prévia para a realização da cerimônia a Pedro Alavarado, que permitiu sua realização. No clímax em que estava acontecendo à cerimônia, os espanhóis iniciaram a chacina. Pensando numa hipótese alternativa. Sabemos que a elite sacerdotal Asteca sempre havia duvidado da divindade e das reais intensões dos espanhóis. É possível que durante 1519-1520 ambos havia se tornados fortes adversários políticos, isso teria motivado os espanhóis, em eliminá-los, antecipando-se como fizeram em Cholula. Esse genocídio ocorreu em 20 de maio de 1520, isso deu tempo para Cuitláhuac elaborar um plano para incentivar uma revolta popular quando Cortez chegasse (esperou-se acabarem as provisões, para dar início a revolta).

Como consequência, do Massacre, Cuitláhuac usou o povo para pressionar a saída dos espanhóis da cidade. Foi neste momento, que Cortez retornou a cidade, com novos soldados (500 homens e 70 cavalos dos 18 navios). As ruas estavam bloqueadas e tinham pouca gente (cenário igual de Cholula). No dia seguinte, os índios resolveram atacar os espanhóis no local em que estavam abrigados e mesmo usando armas de fogo… “Eram tantos que por mais que matássemos pouca diferença fazia” (CORTEZ, 2007, p 75). Cortez apelou para que Montezuma pudesse tentar falar com o povo enfurecido que cercaram seu palácio jogando pedras, flechas e dardos venenosos. O Imperador Asteca ao falar com seu povo foi atingido por uma pedra e morreu três dias depois.

As fontes que narram esse acontecido são contraditórias. De acordo com Cortez foram os mexicanos que mataram Montezuma II (CORTEZ, 2007). Segundo Sahagún os espanhóis mataram o Imperador. Apresentando uma hipótese alternativa, é possível que Cortez soubesse ler expressões muito bem. Ao ver o povo vaiar, falar mal e ofender Montezuma, imediatamente percebeu-se que ele perdeu sua autoridade como governante.

Segundo as fontes históricas usadas por Todorov relatava, quando Cortez chegou a Vera Cruz (no início de sua empreitada), Montezuma II teria ficado com: “medo” ou “mudo” com a chegada dos espanhóis (TODOROV, 1983). Voltando ao assunto, Cortez sabia que o cidadão comum, não poderia olhar diretamente, nos olhos do Imperador, pois se tratava de um deus-vivo. Caso fizesse a pessoa seria morta. Então como as fontes sabiam se o Imperador tinha medo, se não poderiam olhá-lo diretamente? Seja como for, com a morte de Montezuma II, Cortez entendeu que tinha de fugir dali.

Em 30 de junho de 1520, sem mantimentos, a meia-noite Cortez e seus homens resolveram fugir da cidade em segredo, levando consigo seu ouro. As pontes que cercavam a cidade foram destruídas pelos Astecas. E para piorar a situação, no meio do caminho foram descobertos. Muitos espanhóis morreram ou foram capturados para serem sacrificados ao deus Huitzilopochtli. O saldo negativo disso tudo, após governar por 80 dias, Cuitláhuac morreu de varíola e Cuauhtémoc (1496-1525) foi nomeado, Huey Tlatoani. Essa fuga empreendida por Cortez e seu bando na madrugada foi sua primeira derrota. A história europeia chama esse episódio de: Noite Triste ou “la noche triste”, porque conta à lenda, que Cortez chorou a perda de parte de seu exército.

2.2 DOENÇAS INFECCIOSAS E A REDUÇÃO POPULACIONAL

O fator que facilitou a conquista não foi às armas de fogo (apesar de dar ventagens) e sim às doenças. Com tantos infectados, e milhares de mortos isso inviabilizava uma resistência por parte dos Astecas. A introdução de doenças desconhecidas pelos índios, como: o Tifo e a Varíola, em menos de 30 anos (1519-1549) 20 milhões de índios morreram:

A varíola não existia entre os povos nativos das Américas do Norte e do Sul até chegarem os europeus. Como nenhum americano nativo jamais tivera a doença, ninguém estava imunizado: quando expostos à varíola, quase todos contraíram a doença e aproximadamente a metade dos infectados morria (FERRELL, 2003, p 46-47).

Tabela 2 – Decréscimo Populacional Asteca

Fonte: FARIA, MIRANDA e CAMPOS, 2010, p 217, Volume 01.

Sem querer, os espanhóis, ao chegarem ao México e em Tenochtitlán trouxeram consigo doenças, que mataria milhares de indígenas. O acaso permitiu que o contágio da doença fosse aleatório e os índios não tinham mecanismos de defesas imunológicas, que pudessem combater o vírus da varíola. Não havia remédios naturais eficazes para fazer seu tratamento (a contaminação da varíola pode ser através gotículas de suor e saliva da tosse; objetos contaminados e contato direto, o vírus penetra pelas mucosas das vias respiratórias dissemina-se através do sangue; finalmente, atinge a pele e as mucosas, causando lesões). Podemos concluir que as doenças foram mais mortais do que as guerras. A Varíola matou tanto a elite asteca, como os guerreiros e sua mão-de-obra.

Em 1500 a população do globo deve ser da ordem de 400 milhões, dos quais 80 habitam as Américas. Em meados do século XVI, desses 80 milhões, restam 10. Ou, se nos restringirmos ao México: as vésperas da conquista, sua população e de aproximadamente 25 milhões; em 1600, é de 1 milhão (TODOROV, 1983, p. 116).

2.3 AS CONSEQUÊNCIAS DAS DOENÇAS TRAZIDAS PELOS ESPANHÓIS

Várias lideranças Astecas ou de nações menores acabaram por contrair as doenças europeias e sem um remédio eficaz muitos acabavam morrendo rapidamente e acabam infectando muitos outros. De acordo com Souza (2010) ninguém estava salvo: “O líder Maxixcatl (Tlatoani Ocotelolco, de Tlaxcala) morreu na epidemia de varíola que dizimou a população indígena do centro do México em 1520” (SOUZA, 2010, p 75).

Segundo Todorov (1983), afirma que os índios não possuía um sistema de defesa para combater as doenças infecciosas e aliado à exaustão de tanto trabalhar, levou os índios a desistirem da própria vida. Além do mais, famílias inteiras ficavam doentes, sendo quase impossível um cuidar do outro, assim, acabavam morrendo de fome. Há três fatores, que explica a diminuição populacional nas três Américas: 1º assassinato direto – as guerras; 2º maus-tratos dos conquistadores nos índios; e 3º as doenças, chamado por Todorov de “choque microbiano” (TODOROV, 1983).

Tanto os espanhóis, como os Astecas consideravam que as doenças eram castigo divino para punir a Terra dos pecadores (esse era o pensamento medieval que foi uma explicação da causa da Peste Negra: 1347-1351). Segundo o infectologista, Stephan Cunha Ujvari: “acreditam que mais de 90% da população indígena morreram pelas doenças trazidas pelos europeus” (UJVARI, 2008, p 176). E a Dra. Jeanette Farrell complementa:

Quando o Conquistador Hernán Cortéz tentou tomar a grande cidade Asteca de Tenochtitlán, seus soldados foram vencidos pelas forças astecas e tiveram que recuar. Entretanto, os conquistadores tinham deixado para trás o vírus da varíola em Tenochtitlán, e enquanto Cortéz e seus homens reorganizavam-se e preparavam uma nova investida, a varíola penetrou na cidade, matando, cegando, e desfigurando os astecas, deixando em seu caminho o medo e a desorganização (FARRELL, 2003, p 47).

A Dra Farrell (2006) afirma que quando Cortez que o 2º ataque a Cidade, o povo já estava enfraquecido pela doença (FARRELL, 2003). Se a guerra espano-asteca não matou os nativos americanos diretamente, com certeza as doenças deixadas pelos espanhóis ajudaram a enfraquecer o Império fazê-lo se render.

Outra pesquisa interessante feita por: Alexander Koch e Mark Maslin[7] sugerem que aconteceu uma mudança climática entre: 1519-1600 provocada pela morte de 56 milhões de índios nas Américas: Norte, central e do Sul, o clima na Terra ficou mais frio[8]. Sabemos que as doenças podem mudar o clima no planeta. Outra pesquisa recente mostra que o nível de poluição planetária de 2020 teve uma diminuição de 7% graças ao COVID-19[9].

3. 3º EVENTO FORTUITO – MARTIN LOPES ESTÁ VIVO

3.1 MARTIN LOPES ESTÁ VIVO E A QUEDA DE TENOCHTITLÁN

Segundo o documentário: Conquistadors: The Fall of the Aztecs, sugere que durante a Noite Triste, matou 1/3 dos soldados de Cortez. Porém ele perguntou somente, por Martin Lopez. E ficou sabendo que estava ferido, mas estava vivo. Então disse: […] vamos porque nada nos falta (Discovey Channel, Conquistadors: The Fall of the Aztecs, 2000, 40min: 01segundo). Cortez tinha um plano de cercar a cidade usando navios de guerra (bergantins). E o fato de Martin Lopez estar vivo foi seu terceiro golpe de sorte. O motivo disso era porque Lopez sabia construir navios, ele era um excelente engenheiro naval e a sua construção fazia parte do plano de retornar e conquistar Tenochtitlán e seus arredores.

No outro lado do Império, Cuauhtémoc e sua elite acreditavam que os espanhóis e os Tlaxcalano não riram mais voltar e por isso, não se preparam para uma guerra eminente. Assim, o povo e as autoridades Astecas retornaram a seus afazeres e a normalidade voltou à cidade. Enquanto isso, em Tlaxcala, Cortez mandou construir 13 bergantins (navios) portáteis que iria levá-los até o Texcoco (lago) e fazer o cerco à Tenochtitlán. Para seu plano dar certo era necessário tomar as cidades em torno do lago e cortar os suprimentos, com o objetivo de Tenochtitlán ficar sem: tributos, mantimentos, acesso à água potável e soldados. Fazendo com que seus cidadãos passarem fome ao ponto de comer grama.

Cortez impiedosamente levou a guerra total (Guerra Psicológica) nas áreas periféricas de Tenochtitlán… Matamos mais de seis mil índios entre homens, mulheres e crianças, número que se tornou considerável em vista da ação (CORTEZ, 2007). Nas batalhas ocorridas em torno de Tenochtitlán, Cortez foi capturado por duas ocasiões pelos guerreiros Astecas e foi salvo por seus aliados. Como se sabe a guerra visava à captura do inimigo, para que depois fosse sacrificado aos deuses (Discovery Channel, Cronica de una Conquista, 2002, 38minutos: 20segundos).

O objetivo de Cortez era fazer com que a cidade se rendesse rápido. Mesmo assim, vemos que os espanhóis tiveram de lutar quarteirão por quarteirão até que as forças de Cuauhtémoc finalmente se rendessem (CORTEZ, 2007). Após a rendição de Tenochtitlán (pós-1521) iniciou-se uma migração espanhola, em busca de ouro, para dentro do México. Isso levou a novos conflitos, dos espanhóis com culturas indígenas locais e periféricas, desencadeando a Guerra do Mixton (1540-1542) e a Guerra Chichimeca (1550-1590).

3.2 HOUVE PASSIVIDADE DOS ASTECAS NA GUERRA COM OS ESPANHÓIS?

Os Astecas sobreviventes da Conquista tentaram compreender a sua maneira de buscar uma explicação do: porque Tenochtitlán caiu? É óbvio que eles não recorreram a uma explicação científica ou experimental. Os Astecas recorreram á explicações que fazia parte do seu cotidiano, de seus mitos que eram repletos de “sinais” ou “presságios” para explicar a vitória desses estrangeiros.

Segundo Todorov, os Astecas aceitaram com passividade o seu “destino” de suas profecias sobre o fim do mundo (Asteca). Durante o cerco a Tenochtitlán, o exército de Cortez realizou diversas expedições militares de caráter punitivo em torno o lago Texcoco. E mesmo assim, encontrou resistência, em diversos focos. O exército de Cuauhtémoc teve de lutar rua por rua contra os espanhóis e seus aliados, o próprio Cortez confirma isso:

Minha determinação era fazer com que aquela gente se entregasse, mas eu percebia que preferiram lutar até morrer. Para atemorizá-los mandei pôr fogo nas suas casas e templos, embora isso me causasse grande pesar, pois em algumas destas casas Montezuma cultivava todas as espécies de aves (CORTEZ, 2007, p. 125).

Entre: 30 de maio até 13 de agosto de 1521, os exércitos dos Astecas fizeram de tudo para combater Cortez. E aproveitando esse momento, Cortez aumentou a quantidade de aliados vindos de tribos vizinhas e das cidades que circundavam Tenochtitlán, que anteriormente foram aterrorizadas pelos aliados do conquistador, criando a guerra psicológica com o objetivo de gerar medo entre a população, obrigando-os a se aliar a ele. “A ação dos nativos de Calco nos possibilitou receber a adesão dos povos de Iztapalapa, Chilobusco, Mexical-cingo, Culuancán, Mizquique e Cuitaguaca que, como já disse antes, são povoados situados, na lagoa doce e que nunca quiseram vir em paz” (CORTEZ, 2007, p. 126).

Tenochtitlán perdeu a guerra porque ficou sem: tributos, mantimentos e homens para o combate. Mesmo assim, a resistência Asteca durou meses até que Guatimucín (Cuauhtémoc) enviou seu governador e capitão (Ciguacoacin) para render-se a Cortez. (CORTEZ, 2007, p 143) O Imperador e da sua elite foram feitos prisioneiro (o mesmo que ocorreu em Cholula e com Montezuma). O objetivo dessa prisão seria: pôr fim nos focos de resistência que ainda havia e usar os índios como mão-de-obra para reconstruir a cidade destruída (TODOROV, 1983).

Todorov comentou que: para os astecas, “a chegada dos espanhóis era nada mais nada menos do que a realização de uma série de maus presságios (o que diminuiu sua combatividade)” (TODOROV, 1983, p 97). Mas esse argumento não faz sentido. Desde a chegada de Cortéz no México, em fevereiro de 1519 houve todo tipo de guerra. E mesmo na invasão final de Tenochtitlán, as lutas não diminuíram. O próprio Cortez comentou em suas cartas, que houve diversos confrontos com: os índios de Cempoal, Tlaxcala, a Batalha da “noite triste” e a resistência Asteca, em torno do lago Texcoco. Onde está a passividade dos índios, descrita por Todorov?

Tenho a convicção, que essa “passividade” só veio quando, o povo já estava esgotado de lutar, doente e com fome (pois Cortez havia cortado os suprimentos). Tanto os espanhóis, como os Astecas eram povos supersticiosos, e ambos acreditavam em presságios. Mas, há diferenças gritantes entre eles: Cortez entendia o mundo Asteca, pois os espanhóis incutiam confusão, por isso, o mundo Asteca não entendia os invasores (TODOROV, 1983). Como já foi falado, havia diferenças gritantes entre: Guerra Florida vs Guerra Psicológica, e foi isso ajudou os espanhóis a conquistar Tenochtitlán. Mas, o que saiu controle, tanto dos espanhóis e dos mexicanos foi à proliferação aleatória de doenças, como: a Varíola e o Tifo. Tanto os espanhóis como os índios foram infectados por essas doenças e isso acelerou a “Conquista”.

CONCLUSÃO

Podemos tirar a conclusão que Cortez era um sujeito oportunista. Ele se via como um libertador dos povos pré-hispânicos aproveitando das circunstâncias e das fraquezas do inimigo, leia-se Império Asteca. Para entender o funcionamento desse Império, Cortez percebeu que os Astecas obrigavam as nações menores a pagarem tributos (isso causava muito ressentimento e ódio, entre eles). Não era só isso, Cortez usava de uma estratégia militar nunca antes vista na Mesoamérica, que seria a Guerra Psicológica, sendo baseada em: confronto direto usando canhões e cavalos; cercar uma cidade e cortar todo suprimento (água e comida); matar o inimigo em campo de batalha e destruição de templos religiosos e a profanações nas estatuetas de ouro (eram derretidos e viram dobrões). Toda essa estratégia tinha dois objetivos: meter medo na população local e controle social das elites.

Quando o surto de Varíola e Tifo despontou na região do Império Asteca, Cortez usou esse momento para cercar Tenochtitlán e forçar sua rendição. Não podemos também esquecer que os eventos em torno de Cholula serviram de aprendizado (os espanhóis prenderam os líderes locais, enquanto, seus aliados massacravam o povo). Cortez repetiu o que houve em Cholula, prendendo: Montezuma II e Cuauhtémoc.

No que diz respeito à “missão cruzadística” do exército de Cortez postulada por Guilherme Q. Souza (2010), esteja mais no plano teórico. Houve discursos de caráter religioso e as atitudes. Mas na sua totalidade o plano da Conquista seria em busca de glória e riquezas. Os discursos religiosos eram mais motivacionais e aumentando seu otimismo frente aos infiéis. Para finalizar: as doenças junto com a participação de Malinche, de Gerónimo de Aguilar e Martin Lopes, na Conquista estariam no plano do acaso. Pergunto: qual seria a probabilidade de Martin Lopes estar vivo após uma luta sangrenta que desencadeou a “Noite Triste”? Ou o papel dos intérpretes na Conquista? Qual é a probabilidade de Malinche e de Gerónimo serem descobertos naquele exato momento? Como já foi dito. Houve diversos acasos que foi muito bem aproveitado por Cortez durante a sua campanha. Sem isso, com certeza, a Conquista teria tomado outro rumo e obviamente, teria outras consequências.

REFERÊNCIAS

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DIAMOND, Jared. Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. 5ª ed. Rio de Janeiro, Record, 2007. P 683.

CONFRONTO DOS DEUSES AMÉRICA LATINA: Coatlicue e Quetzalcoatl, Episode: 02 e 03. Diretor: Diego Álvarez. Roterista Jorge Luis Suchsdorf. Produtor Executivo: Aldo Ballesteros. Produtor: Sebastian Vinelli. Created by: Ted Poole e Kristine Sabel. History Channel Latin America LLC, A&E e VP Programming & Production: Miguel Braslovsky, Dublado, cor, som, 2010. Tempo: 45 min.

CONQUISTADORS: The Fall of the Aztecs (Os Conquistadores: A Queda dos Astecas). Diretor: David Wallace. Production: John Cranmer. Gerry Branigan e Chris Lysaght. Written and presented by: Michael Wood. London: BBC, BBC and Maya Vision, 2000, VHS, Dublado, cor, som. Tempo: 48min: 47segundos.

CRÓNICA DE UNA CONQUISTA. Diretor: Frederico Weingatshofer. Productor: Juan Carlos Colin. Discovery Channel Latin America and Discovery Communications Inc, Silver Spring (Estados Unidos), Streaming, dublado, cor, som 2002. Tempo: 46min: 32segundos.

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YABEK, Mustafá. A Conquista do México. Coleção: Cotidiano da História. 2ª ed. São Paulo, Ática, 1991. P 36.

APÊNDICE – REFERÊNCIAS DE NOTA DE RODAPÉ

2. Tradução: Hernan Cortéz, natural de Medellin, que foi tinha escravos indígenas naquela ilha, e em pouco tempo ele havia se casado com uma senhora chamada Dona Catalina Suarez, a Marcayda. Para que eu entendo e outras pessoas disseram, ele se casou com ela por amor, e que este casamento longo que as outras pessoas disseram que viram, e por esta razão eu não vou falar mais sobre este assunto e dizer sobre a empresa (CASTILLO, 1944, p 04).

3. Tradução: Então, eles vieram até nós, assim como os grandes esquadrões como todas as folhas das árvores, vimos como são raivosos e nos cercam por todos os lugares, e jogaram tanto seta, pau e pedra no primeiro ataque feriu mais de setenta de nós, e de pé em pé com lanças nos fez muito dano, e um soldado morreu depois que acertaram o seu ouvido (CASTILLO, 1944, p 11).

4. Segundo a dissertação de Guilherme Queiroz de Souza, o objetivo de Cortez e seu exército eram um movimento cruzadista (luta contra infiéis) Levando valores cristãos. Que mais adiante falaremos disso.

5. Tradução: Não foi tudo presente em comparação com vinte mulheres, entre elas uma excelente mulher, Dona Marina foi dito que os chamados cristãos naquela época (CASTILLO, 1944, P 10).

6. Segundo a lenda, o deus da guerra Huitzilopochtli ao nascer, já usava o Macuahuitl que fazia barulho no céu, similar ao trovão. Visto no documentário do History Channel: “Confronto dos Deuses: Coatlicue”.

7. https://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2019/02/04/150178-pequena-era-do-gelo-por-que-exterminio-de-indigenas-nas-americas-causou-resfriamento-do-clima.html

8.https://edition.cnn.com/2019/02/01/world/european-colonization-climate-change-trnd/index.html?fbclid=IwAR0tAfmbfuQwI5F_O-WXr0ZEHTSFqd8f-3GQKqPZWx7G1cF0uHdPEy1O6wk

9. https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/01/coronavirus-imagens-da-nasa-mostram-queda-da-poluicao-na-china-em-meio-ao-surto.ghtml

[1] Graduado em História pela UNI-BH. Especialista em Educação em Sociologia pela Faculdade Noroeste de Minas Gerais. Especialista em História pela Faculdade Luso-brasileira. Especialista em História e Geografia pelo Centro Universitário Barão de Mauá.

Enviado: Junho, 2019.

Aprovado: Abril, 2020.

Professor de História do Colégio Estadual John Kennedy, Graduado em História pela UNI-BH (Centro Universitários de BH), Especialista em Educação em Sociologia pela Faculdade Noroeste de Minas Gerais. Especialista em História pela Faculdade Luso-brasileira. Especialista em História e Geografia pelo Centro Universitário Barão de Mauá.

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