Impasses Da Inclusão E Fracasso Escolar De Uma Aluna Do Ensino Médio Técnico Profissionalizante

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ARTIGO ORIGINAL

SOUZA, Amarylis Pereira Fonseca de [1]

SOUZA, Amarylis Pereira Fonseca de. Impasses Da Inclusão E Fracasso Escolar De Uma Aluna Do Ensino Médio Técnico Profissionalizante. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 04, Vol. 13, pp. 136-151. Abril de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/tecnico-profissionalizante

RESUMO

Este artigo busca analisar as relações existentes entre a inclusão educacional e o fracasso escolar de uma aluna com deficiência visual (baixa visão), que cursa atualmente o Segundo Ano do Ensino Médio Profissionalizante de uma Escola Estadual do Rio de Janeiro, onde uma inclusão sem a presença de práticas inclusivas corretas acarretou inicialmente no fracasso escolar da aluna, onde tudo muda com a chegada de uma mediadora no segundo semestre do ano letivo. Espera-se com esta pesquisa desenvolver um trabalho que aguce a importância do uso de práticas inclusivas de educadores e futuros educadores, compreendendo seus efeitos, possibilidades e importância, buscando atitudes educacionais responsáveis, respeitando os limites de cada aluno, além de mostrar o impacto da inclusão para o desempenho escolar e social dos sujeitos envolvidos.

Palavras-chave: Inclusão, Fracasso escolar, Práticas inclusivas, Educação Inclusiva.

INTRODUÇÃO

A partir da década de 1990, a ideia de uma política educacional de inclusão de alunos com necessidades educativas especiais começou a se propagar, impulsionando uma maior visibilidade das particularidades desses alunos, maior respeito, empatia além do progresso escolar e social deles. Assim, este artigo parte de uma experiência da autora, onde a inclusão de uma aluna com deficiência visual tomou um rumo contraditório, já que a direção afirmava que a aluna estava incluída na turma, foi feita uma reunião com o corpo docente explicando as particularidades da aluna entretanto muitos professores não sabiam do caso de inclusão da turma, poucos foram os que estavam na reunião e alguns ficaram sabendo do caso da aluna por outros  docentes, nenhum deles usavam uma didática inclusiva para atender assim as especificidades da aluna.

Com isso, o tema da pesquisa gira em torno da inclusão e fracasso escolar de uma aluna com deficiência visual – baixa visão, que ingressou no 1°Ano do Ensino Médio Profissionalizante de uma escola da rede pública do Rio de Janeiro, de Ensino Médio Técnico Profissionalizante, de horário integral, no ano de 2018, e atualmente cursa o 2°Ano do Ensino Médio na mesma instituição de ensino.

A escolha pelo tema foi devido a necessidade por buscar respostas e informações sobre a inclusão e o fracasso escolar, pois as notas da aluna em questão eram todas abaixo da média, e quando questionada, a aluna explicou que ela apresentava tais notas por não conseguir ler as provas, pois as letras eram muito pequenas, sendo esse ponto o centro da pesquisa. Até que ponto uma inclusão escolar realizada de maneira indevida pode promover o fracasso escolar de uma aluna com um desempenho escolar satisfatório em outras instituições de ensino, com o objetivo de compreender o que é uma inclusão escolar e qual a sua importância no ambiente educacional, além de analisar e entender o que é o fracasso escolar.

Este artigo está dividido em seções, a primeira seção diz respeito a metodologia abordada no artigo, qual o tipo de pesquisa, como os dados e resultados foram analisados, na segunda seção é exposto a respeito das reflexões acerca da inclusão e fracasso escolar, com duas subseções, uma falando especificamente sobre a inclusão e a outra sobre o fracasso escolar, para que o leitor possa compreender os conceitos e legislação que regem os assuntos, a terceira seção diz respeito ao caso da aluna, com uma análise dos resultados obtidos nos questionários feito com os professores da aluna e os dados observados no diário de campo e por fim as considerações finais da pesquisa apresentada.

METODOLOGIA

Este trabalho apresenta uma pesquisa que resultou da análise dos dados levantados de um estudo de caso, de cunho qualitativo, onde foi usado para fazer a triangulação dos dados, o diário de campo da autora, questionários realizados com os professores da aluna, que foram escolhidos de acordo com a disponibilidade e a disciplina, sendo um de língua estrangeira, um de exatas, um de ciências biológica, um de língua portuguesa e o último docente da área profissionalizante de roteiro/comunicação crítica, além de pesquisas relacionadas com a inclusão e o fracasso escolar e o diário de campo da autora.

A pesquisa teve início no primeiro semestre do ano de 2018 e foi finalizada no final do ano letivo de 2019, levando em consideração o ano letivo da instituição de ensino e da aluna.

O questionário é composto por cinco perguntas que foram entregues aos professores e os mesmos responderam por escrito. Os entrevistados mostraram-se interessados em responder o que era proposto, especialmente porque queriam conhecer melhor sua própria realidade de trabalho e buscarem outras alternativas favoráveis a inclusão, não criaram dificuldades para a realização do questionário, alguns docentes enviaram as respostas por escrito e outros enviaram por áudio, sendo assim transcritos integralmente para futura análise.

Os relatos da aluna que foram citados durante o artigo estavam presentes no diário de campo da autora, que foi construído no decorrer da pesquisa, contendo episódios e falas dos sujeitos envolvidos no ambiente escolar, além de fotos das aulas, de provas ampliadas e não ampliadas, todavia, as fotos não serão utilizadas na análise a fim de preservar a identidade dos alunos e da instituição de ensino.

REFLETINDO SOBRE A INCLUSÃO E O FRACASSO ESCOLAR

INCLUSÃO

Muito se tem discutido, recentemente, acerca da Inclusão que consiste em atender a pessoa com necessidades educativas especiais não só na vida escolar como também em suas relações sociais, oferecendo-lhe oportunidades iguais apesar das particularidades envolvidas, sem que elas sofram nenhum tipo de discriminação, sendo isso defendido por legislação específica, como mostra a Lei de nº 13.146, em seu artigo primeiro e quarto.

Art. 1º- É instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania.

Art. 4º- Toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação.

Contudo para entender melhor sobre a inclusão é preciso primeiramente compreender quem é a pessoa com deficiência na qual a inclusão está diretamente relacionada, onde a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) traz em detalhes no artigo abaixo:

Art. 2º- Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.

Assim, sabendo quem é a pessoa com deficiência, partimos para a inclusão na vida escolar, onde no momento em que o aluno com necessidades educativas especiais é posto em uma classe regular, cabe ao educador ter atitudes inclusivas, para que o mesmo seja incluído na turma ao invés de integrado, onde a integração é quando o aluno com necessidades educativas especiais é inserido em uma sala de aula regular, sem levar em conta suas diferenças, ou serem feitas as modificações cabíveis na instituição, organização e até mesmo na metodologia do professor para que se chegue ao desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem do aluno. Assim, cabe a instituição e ao docente propiciar atitudes e serviços inclusivos, podendo ser por exemplo um tutor especializado para auxiliar na mediação do ensino aprendizagem, o docente respeitar os limites e as diferenças de cada aluno, mostrando que todos podem chegar ao mesmo objetivo, traçando apenas caminhos diferentes. Pois um sistema educacional inclusivo é direito da pessoa com deficiência, como mostra a Lei de nº 13.146, no artigo 27.

Art. 27- A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem.

Um marco para a educação inclusiva foi a Conferência Mundial de Educação Especial, onde 88 governos e 25 organizações internacionais, se reuniram em Salamanca, Espanha, em 1994, criando a Declaração de Salamanca, no qual é considerado um dos documentos principais sobre a inclusão social, que reconhece a importância da escola ser um lugar para todos, educando os estudantes dentro de uma Pedagogia centrada no aluno, satisfazendo suas necessidades e diversidades, independentemente de sua origem social, étnica ou linguística, e como cita tal documento, reconhecendo a necessidade de urgência do providenciamento de educação para as crianças, jovens e adultos com necessidades educacionais especiais dentro do sistema regular de ensino, indicando que todos os alunos, independentemente de suas especificidades devem aprender juntos, com um currículo apropriado para atender a todos, sendo esse o fundamento da escola inclusiva, sendo esclarecido da seguinte maneira na Declaração de Salamanca:

7. Princípio fundamental da escola inclusiva é o de que todas as crianças devem aprender juntas, sempre que possível, independentemente de quaisquer dificuldades ou diferenças que elas possam ter. Escolas inclusivas devem reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de qualidade à todos através de um currículo apropriado, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recurso e parceria com as comunidades. Na verdade, deveria existir uma continuidade de serviços e apoio proporcional ao contínuo de necessidades especiais encontradas dentro da escola. (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994, p. 5)

De acordo com Mazzota (1996), a realização da inclusão tem um padrão em que na classe regular esteja presente todos os tipos de alunos, para gerar assim a riqueza do conjunto por conta da diversidade, e de outro lado a escola tem que ser criativa em questão a buscar soluções e novas estratégias para garantir a permanência de todos os alunos com suas particularidades no ambiente escolar, conduzindo-os a aquisição de seu desenvolvimento tanto acadêmico quanto social. Em contrapartida Laplane (2004) aborda que os valores, princípios e ideais da educação inclusiva não pode deixar oculto que a mesma se defronta com a desigualdade social presente no Brasil, onde é preciso observar a inclusão não esquecendo os problemas que a mesma impõe, não colocando apenas os alunos em salas de aulas despreparadas para recebe-los, é preciso uma política de inclusão        que possa ser colocada em prática sem questionamentos, como mostra o trecho abaixo:

O “elogio da inclusão” apresenta a vantagem de arrolar argumentos para a defesa das políticas inclusivas. Mas para que seja realmente eficaz é preciso que o discurso se feche sobre si próprio, aparecendo como uma totalidade que não admite questionamentos. (LAPLANE, 2004, p. 17-18)

FRACASSO ESCOLAR

O fracasso escolar embora seja um assunto que começou a ser discutido recentemente, pode ser entendido como uma consequência do sistema escolar de ensino, onde um aluno não se apropria de um determinado conteúdo escolar, ocasionando em grande parte notas baixas, desinteresse, reprovação e até mesmo o afastamento da escola, aumentando assim as desigualdades sociais em um local que era para ser um alicerce da população. Podemos observar de acordo com Cordié (1996, p.17) conforme citado por Bossa (2008, p.18) o seguinte trecho:

O fracasso escolar é uma patologia recente. Só pôde surgir com a instauração da escolaridade obrigatória no fim do século XIX e tomou um lugar considerável nas preocupações de nossos contemporâneos, em conseqüência de uma mudança radical na sociedade (…) não é somente a exigência da sociedade moderna que causa os distúrbios, como se pensa muito freqüentemente, mas um sujeito que expressa seu mal-estar na linguagem de uma época em que o poder do dinheiro e o sucesso social são valores predominantes. A pressão social serve de agente de cristalização para um distúrbio que se inscreve de forma singular na história de cada um. (BOSSA, 2002, p.18)

O sistema escolar brasileiro propicia que cada vez mais alunos sofram o fracasso escolar, o ensino se tornou obrigatório, consequentemente aumentaram o número de vagas nas escolas, as classes se tornaram lotadas, onde o professor tem a obrigação de ensinar novos saberes, os alunos tem o dever de adquirirem o conhecimento, contudo na prática essa ilusão de sistema de ensino perfeito é disseminado, os alunos não conseguem dar conta de absorver todos os conteúdos programáticos, reproduzindo ainda mais as injustiças presentes nas classes sociais, além dos professores não terem um ambiente adequado e propicio para desenvolver suas aulas. Conforme cita Bossa (2008) no trecho a seguir:

No Brasil, a escola torna-se cada vez mais o palco de fracassos e de formação precária, impedindo os jovens de se apossarem da herança cultural, dos conhecimentos acumulados pela humanidade e, conseqüentemente, de compreenderem melhor o mundo que os rodeia. A escola, que deveria formar jovens capazes de analisar criticamente a realidade, a fim de perceber como agir no sentido de transformá-la e, ao mesmo tempo, preservar as conquistas sociais, contribui para perpetuar injustiças sociais que sempre fizeram parte da história do povo brasileiro. É curioso observar o modo como os educadores, sentindo-se oprimidos pelo sistema, acabam por reproduzir essa opressão na relação com os alunos. (BOSSA, 2008, p.19)

Os estudos acerca do fracasso escolar ainda estão longe de chegarem a uma conclusão, pois cada referencial mostra um foco para o problema, primeiramente acreditava-se que o problema era devido a fatos biológicos e médicos, logo após que era a culpa do aluno em não querer aprender e não ter interesse nas aulas, em seguida o culpado da vez era o docente que não utilizava métodos cabíveis para atrair e instigar os alunos, todavia é um assunto alarmante que está se espalhando cada vez mais.

(…) embora muito se tenha estudado e discutido os problemas da educação brasileira, o fracasso escolar ainda se impõe de forma alarmante e persistente. O sistema escolar ampliou o número de vagas, mas não desenvolveu uma ação que o tornasse eficiente e garantisse o cumprimento daquilo que se propõe, ou seja, que desse acesso à cidadania. (BOSSA, 2005, p.18)

CASO DA ALUNA E RESULTADOS DA PESQUISA

Ao entrar no caso em questão é válido fazer uma breve contextualização da instituição de ensino que a pesquisa ocorreu, esta se encontra localizada no estado do Rio de Janeiro, na região serrana, atendendo a população local com as seguintes modalidades de ensino:

– Ensino Médio Regular no turno matutino ou vespertino

– Ensino Médio Técnico Integrado Profissionalizante de turno integral, oferendo os cursos de Técnico em Química ou Técnico em Audiovisual

– Modalidade da EJA no turno noturno.

A escola atende os alunos, professores, funcionários e a comunidade local de maneira acessível, as salas de aulas são limpas, com uma média de 30 alunos por turma, com sala de informática, sala de vídeo, biblioteca, quadra, televisores com suporte que permite que as mesmas sejam transportadas até as salas de aulas para auxiliar a metodologia dos docentes, tendo também reunião de pais, professores e com uma coordenação pedagógica ativa e próxima dos alunos. O refeitório oferece lanche na parte da manhã e da tarde, almoço e janta, com um cardápio variado com frutas, carnes, pães e biscoitos, pelo que foi observado, a maioria dos alunos almoçam na escola, havendo uma divisão para o horário de almoço, cada modalidade de ensino almoça em um horário diferenciado, evitando assim filas e confusões.

Como já citado na introdução desse artigo, a aluna tem deficiência visual, um caso de baixa visão, onde até uma certa idade a mesma enxergava perfeitamente, sempre apresentando fortes dores de cabeça, os responsáveis julgavam ser brincadeira de criança e nenhum médico investigava a fundo o motivo das dores, com o decorrer do tempo as dores que a aluna relatava enquanto mais nova de dentro de sua cabeça era na verdade um coágulo que gerou dois tumores na base do cérebro, quando um médico descobriu já estava em situação bem avançada e com a cirurgia para retirada dos tumores as sequelas vieram junto, o tumor foi retirado, entretanto parte do cérebro responsável pela região occipital da aluna também foi junto, acarretando perda de parte da visão, a aluna relatou que no início enxergava tudo preto e branco, e com o tempo as cores foram aparecendo, porém ela teve perda de 80% da visão na vista direita e perda de 50% na vista esquerda, acarretando assim um caso de baixa visão, onde óculos não resolve por não ser um problema no globo ocular e sim uma falta de parte da região occipital do cérebro.

Durante sua trajetória escolar no Ensino Fundamental as notas da aluna sempre foram superiores a oito, mesmo não tendo uma mediadora exclusiva para ela, sempre que aparecia algum tutor ou mediador era dividido com outros alunos portadores de necessidades especiais, a aluna relatou sempre participou das salas de mediação e seus professores também ampliavam os exercícios e provas, tinha sempre alguém para ler as avaliações para a aluna, um professor do ensino fundamental tentou ensiná-la a usar a lupa, porém não adiantou muito. Quando perguntada sobre o Ensino Médio, ela relatou que sabia que iria ser diferente e mais difícil do que as séries anteriores, por isso não reclamou ou questionou em relação as provas não serem com letras ampliadas, ou por não enxergar o que estava escrito no quadro, pois quanto ao assunto do quadro, ela pegava o caderno de amigos e copiava o que os professores escreviam, enquanto nas provas, tudo era feito através de ‘chutes’, por ser impossível ler letras tão pequenas.

Após alguns meses do início das aulas, foi solicitado pela direção da escola uma ledora – mediadora com o objetivo de auxiliar a aluna a copiar os conteúdos do quadro, ler provas e trabalhos. A chegada da mediadora foi uma surpresa para a turma de alunos e para o corpo docente, pois poucos alunos e professores tinham conhecimento das particularidades da aluna. Inicialmente a aluna demonstrava ter muita vergonha de ser vista com a mediadora, gradativamente as duas foram se tornando amigas e a mediadora auxiliava a aluna tanto na aprendizagem quanto nas relações sociais com o restante da turma.

Um caso que chamou bastante atenção durante as observações era que a aluna utilizava o celular para tirar fotos do quadro e ampliar as imagens para copiar e entrar em contato com a letra dos professores, porém o celular quebrou, e todos os professores e funcionários da escola contribuíram com uma quantia e consertaram a tela do celular que havia quebrado, todos os que contribuíram escreveram palavras motivacionais e assinaram um bilhete, aquele momento fez a aluna refletir que ela não era alguém excluído do todo, e sim que fazia parte daquele ambiente, não sendo apenas mais uma, e sim um pedaço daquela turma e do curso profissionalizante.

Por meio da entrevista realizada com os professores é possível observar alguns pontos que se tornam contraditórios, onde alguns relataram que foram avisados pela direção, outros por outros colegas de profissão e alguns não sabiam do caso de inclusão na turma, como podemos ver abaixo algumas falas dos docentes, quando questionados sobre o caso de inclusão na turma, alguns professores achavam até que a aluna tinha algum tipo de estrabismo, pelo fato da aluna não focar no quadro durante as aulas. Ocasionando assim, uma falta de informações quanto ao caso da aluna e da inclusão, onde houve uma reunião no início do ano para o planejamento, nem todos os professores estavam presentes, o caso foi exposto, porém não tiveram outras reuniões para tratar de métodos ou atitudes que o corpo docente em conjunto com a direção e coordenação pedagógica poderiam ter feito para mediar o processo de aprendizagem enquanto a mediadora ainda não estava presente, além do fato de que como respondido pelos professores na primeira questão levantada no questionário, nem todos os docentes tinham experiência com inclusão.

 “Sim. A orientação do colégio avisou aos professores sobre a aluna e que havia a possibilidade de um tutor (mediador) ao longo do ano” Professor de Biologia

“Fomos informados, depois de um tempo qual era a deficiência da aluna, mas através de laudo médico, nada.” Professor de Matemática

“Sim, fui informado pelos colegas professores.” Professor de Português. (Entrevista com os professores)

O processo de inclusão da aluna foi feito de modo aleatório, sem nenhuma reunião, conversa ou trabalho em grupo, cada professor tomou as atitudes e métodos que julgava importante para a inclusão, é válido mostrar que mesmo com todo empenho e metodologias a aluna continuava sendo integrada na turma, e não incluída, isso é demonstrado com algumas práticas e metodologias citados pelos docentes, como por exemplo, um método de colocar a aluna na primeira cadeira da sala, pois independente do lugar que a mesma sentasse, ela não iria conseguir enxergar, as provas continuaram não sendo ampliadas, esse é um ponto que deve ser levado em consideração, não adianta o docente modificar sua prática focando no que ele acha melhor para o aluno de inclusão, a prática inclusiva deve ser focada nas necessidades do aluno.

“Foi pedido que a aluna sentasse na frente e que sempre chamasse o professor em caso de dúvidas. Inicialmente a aluna utilizava um celular para auxiliá-la (foi autorizado que ela usasse o aparelho em sala).” Professor de Biologia. (Entrevista com os professores)

Em contrapartida a algumas metodologias, algumas práticas se destacaram, por terem focado no que era necessário em relação as particularidades da aluna, o que ela precisava, e a tratando de modo igual ao restante da turma, respeitando suas diferenças, como podemos ver a seguir:

“Primeiramente, busquei conhecê-la e observei seus hábitos de estudo e comportamento em sala. Após isso, busco adequar minha prática às necessidades dela, como ampliando minha letra no quadro e oferecendo conteúdo impresso (provas, textos) com fontes ampliadas, para que ela mesma, de forma independente, possa ler seu material de aula. Observei que isso faz toda a diferença para seu rendimento escolar e é positivo para sua autoestima. Ela se vê capaz de estudar por si mesma, de ler, acompanhar o conteúdo como qualquer outro colega da classe (…) Trato-a de igual por igual (tirando a diferença dos textos ampliados), não há favoritismo para ela.” Professor de Português/Literatura. (Entrevista com os professores)

No primeiro semestre de 2018 todas as notas da aluna em disciplinas mais visuais eram inferiores à média, e as notas que eram superiores ao grau cinco eram disciplinas com atividades avaliativas práticas ou orais. De acordo com as observações do diário de campo e dos relatos dos professores, a aluna estava sempre cabisbaixa, seu relacionamento com a turma era superficial, olhares vagos e perdidos, como se aquele ambiente que ela estava inserida não fosse para ela. Podemos ver isso também em algumas descrições que os professores fizeram da aluna antes da chegada da mediadora:

“A aluna era tímida e muitas vezes percebi que ela não estava acompanhando a aula. Dependia dos colegas para a realização dos exercícios e estava sempre quieta e tímida. Raramente expunha suas dúvidas.” Professor de Biologia

“Antes da mediadora a aluna tinha muita dificuldade para ler, fazer exercícios e avaliações.” Professor de Espanhol

“A participação da aluna no início das aulas sem a mediadora era uma participação muito apagada, apesar do celular e dos mecanismos que tentamos oferecer a ela, eu acho que isso fazia com que ela perdesse tempo, eu acho que ela até conseguia, mas era um processo muito mais lento para ela, enquanto todo mundo já tinha copiado, ela ainda estava copiando e não sobrava muito tempo para fazer as perguntas ou até mesmo para pensar sobre o que estava sendo falado, então gerou nela uma postura de não participar, de não falar durante as aulas ou não responder, porque ela estava sempre em descompasso (pode-se dizer assim) com o ritmo da turma (…)a participação nas aulas era praticamente nula, era comum ela não ter a matéria completa do caderno, porque realmente não conseguia acompanhar, e isso obvio que refletia de alguma forma nas avaliações, porque ela não conseguia consolidar tudo que ela precisava com as aulas.” Professor de Roteiro/Comunicação crítica. (Entrevista com os professores)

No final do segundo semestre de 2018 houve a chegada da mediadora proporcionando um desenvolvimento da aluna, tanto na área educacional, pois suas notas aumentaram significativamente, como também no convívio social com os outros alunos e professores, a aluna começou a participar dos debates em sala de aula, passou a ser a representante da turma, aumentando assim sua autoconfiança e determinação, como pode ser observado nos trechos a seguir da entrevista com alguns docentes.

“Com a chegada da mediadora a aluna se sentiu mais segura, menos dependente de outros alunos. Tornou-se mais independente, por mais contraditório que pareça.” Professor de Biologia

“Quanto a chegada da mediadora, só houve melhoras, sendo a mesma considerada um destaque na aprendizagem … A mediadora contribuiu inclusive, para a inserção social da aluna … Com relação a aprendizagem, só contribuiu para que ela se sinta mais motivada, comprometida e segura com relação as expectativas de um futuro promissor.” Professor de Matemática

“A aluna só lucrou com a chegada da mediadora. Seu rendimento cresceu, foi notável, não só em termos cognitivos, como também em termos humanos, sociais.” Professor de Português.

“Acho que o que a mediadora trouxe foi um incremento do que ela precisava para seguir o ritmo … Com a chegada da mediadora ela se tornou realmente muito participativa, animada, mais segura, mais confiante de que de fato ela está em um lugar que é dela.” Professor de Roteiro. (Entrevista com os professores)

A chegada da mediadora foi como se fosse um verdadeiro furacão no processo de inclusão tanto para a aluna como para os docentes, a aluna ficou mais independente e animada para responder as perguntas durante as aulas, começou a se relacionar melhor com a turma, até mesmo sua aparência mudou, a mediadora ensinou a passar batom respeitando o contorno da boca, como arrumar os cachos, mudando tanto sua vida escolar como social. No início do ano letivo de 2019 a mediadora permaneceu com a aluna, foi nesse momento que as práticas dos professores mudaram a pedido da mediadora, para que a aluna pudesse ter mais autonomia, com isso, as provas começaram a ser ampliadas, as imagens e textos que anteriormente os professores entregavam impressos passou a ter uma cópia ampliada para ela. Como podemos ver abaixo em algumas falas dos professores:

“A mediadora a auxilia, não a trata como inferior. Cobra bom comportamento, responsabilidade para entrega dos trabalhos e para o empenho nas provas.” Professor de Biologia

“Acho que a mediadora trouxe um inclemente que a aluna precisava para seguir o ritmo, porque a mediadora criou um esquema com ela, ou de copiar para ela com letra maior, enquanto ela estava prestando atenção na aula para depois passar a limpo, o que permitia que ela prestasse atenção e participasse dos debates em aula … então isso dinamizou o processo dela de aprendizagem na sala de aula, para além desse efeito que é mais objetivo e obvio que acho que isso trouxe confiança para ela, isso trouxe ânimo para ela, porque eu acredito que era muito incomodo ela se sentir sempre para trás da turma, sempre em descompasso com o ritmo da turma e quando ela conseguiu se igualar acho que isso deu um ânimo a ela, para mostrar que ela era capaz de acompanhar o ritmo da turma, de ter acesso aos mesmos momentos de discussões, as mesmas tônicas e inclusive a participar da dinâmica da turma, a hora que eles fazem uma piada, uma discussão mais acalorada …As notas dela melhoraram bastante, ela realmente passou a fazer provas melhores, que demonstravam mais domínio de conteúdo, que demonstravam uma leitura do que era proposto e não só considerando os resultados como nota de prova.” Professor de Roteiro / Comunicação crítica. (Entrevista com os professores)

Nas reuniões de Conselho de Classe todos os professores elogiavam o desenvolvimento da aluna com o grupo, com as disciplinas, onde a mesma estava sempre muito empolgada com as aulas, os professores da parte técnica que anteriormente passavam filmes legendados e a aluna não conseguia entender nada, agora refletem e compartilham filmes e vídeos dublados para que a mesma possa acompanhar e entender, como também os docentes começaram a trocar experiências de práticas que desenvolveram com a turma que a aluna tenha participado ativamente.

As dinâmicas de aula tiveram algumas modificações, embora tenha alguns professores que ainda não ampliam as provas e nem outros conteúdos impressos, entretanto é válido lembrar que a inclusão escolar é um processo dinâmico e gradual, que a partir das necessidades do aluno pode tomar diversas formas. Uma pessoa sendo a mediadora desse processo de inclusão foi de suma importante para o desempenho escolar da aluna e o desempenho também das práticas dos docentes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo deste trabalho foi levantado informações sobre a inclusão e o fracasso escolar, onde até que ponto uma inclusão mal realizada pode levar uma aluna com deficiência visual – baixa visão ao fracasso escolar.

Os questionamentos levantados giraram em torno da inclusão que estava sendo feita com a aluna, e as práticas que o corpo docente estava usando, assim percebe-se que antes da mediadora entrar na escola a aluna estava sendo integrada na turma, ao invés de incluída, desencadeando um quadro de fracasso escolar, entretanto, com a chegada da mediadora esse quadro foi revertido. Os professores usavam técnicas que julgavam serem inclusivas, todavia na realidade estava contribuindo para o fracasso escolar da aluna, pois tais técnicas e metodologias usadas não levavam em consideração as verdadeiras necessidades e particularidades da aluna. Assim, a chegada da mediadora foi um verdadeiro divisor de águas, onde a partir disso a aluna foi incluída na turma, trazendo benefícios tanto educacionais como sociais, impactando além da aluna as metodologias dos professores, que se tornaram práticas inclusivas focadas nas particularidades da inclusão.

Assim, essa pesquisa procura trazer reflexões acerca da importância de uma inclusão voltada para o aluno, para suas necessidades, com práticas flexíveis dos docentes, entendendo que não há uma receita de inclusão que atenda a todos os alunos, pois cada indivíduo possui suas próprias particularidades e dificuldades, pensando assim há uma possibilidade maior de amenizar os casos de fracasso escolar que têm crescido nas instituições de ensino.

Ser uma escola ou professor inclusivo não é fácil, exige renúncia, flexibilidade, criatividade, e principalmente respeito, empatia e preocupação com as particularidades de cada aluno, mas com comprometimento coletivo o processo de inclusão será feito de maneira gradativa e duradoura, evitando assim o máximo o fracasso escolar, não só com os alunos incluídos, como também com todo o corpo de alunos.

REFERÊNCIAS

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VIGOTSKI, L.S.S. Construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

[1] Psicopedagoga.

Enviado: Janeiro, 2021.

Aprovado: Abril, 2021.

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