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A psicopedagogia e a família no processo ensino aprendizagem

RC: 19897 -
A psicopedagogia e a família no processo ensino aprendizagem
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COSTA, Tereza Cristina de Oliveira [1], OLIVEIRA, Neuzenir Silva de Abreu [2], ABREU, Cristiana Silva [3], ABREU, Adriane Silva [4], SOUZA, Ellen Simone Alves [5], BRUNA, Silmara Souza [6], BRUNA, Mayara Priscila [7]

COSTA, Tereza Cristina de Oliveira. Et al. A psicopedagogia e a família no processo ensino aprendizagem. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 09, Vol. 1, pp. 35-50, Setembro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

O presente artigo aborda a atuação da psicopedagogia e suas intervenções no processo ensino aprendizagem, dentre elas, a importância da família no desenvolvimento do indivíduo nos aspectos cognitivos e até mesmo nos sociais, ou seja, mostra a necessidade da parceria entre a família de crianças com dificuldades de aprendizagem, uma vez que é na família que o ser humano absorve valores culturais, religiosos, deveres, responsabilidades, compromissos, para fortalecer as estruturas pessoais. O objetivo deste estudo é refletir e pesquisar sobre a importância da relação escola-família, tendo as intervenções do psicopedagogo como elo, na busca de propiciar uma aprendizagem significativa na educação do aluno. Utilizou-se como metodologia a pesquisa bibliográfica que pontua que devido às transformações sociais ocasionadas pela modernidade, percebe-se certa desordem no ambiente familiar, por isso a escola torna-se um instrumento fundamental para equilibrar dificuldades e dessa forma fortalecer as bases da sociedade através do envolvimento escola-família-sociedade. Nesse tripé, poderá concretizar valores para que a sociedade moderna tenha uma geração de cidadãos íntegros, críticos e coerentes

Palavras-chave: Psicopedagogo, Família, Dificuldades de Aprendizagem.

INTRODUÇÃO

Desde a época primitiva a vida em grupo é inerente à condição humana. Essas agregações sociais tiveram como origem a família. Dessa forma ela se manifesta de diferentes formas, estruturada de acordo com as convenções dos grupos sociais e das condições determinadas pelas tradições culturais de cada sociedade.

Assim a família é uma instituição que possui características diferentes das demais instituições sociais, mesmo sabendo que ela é a célula-mãe de toda a sociedade.

Como um sistema movendo-se através do tempo, a família possui propriedades basicamente diferentes de todos os outros sistemas. As famílias incorporam novos membros apenas pelo nascimento, adoção, ou casamento e os membros podem ir embora somente pela morte (…). (CARTER & MCGOLDRICK, 1995, p.19).

Pelos estudos de Ariès (1978), na Idade Média, a missão da família era unicamente a conservação dos bens e a luta pela sobrevivência. Viviam todos sob o mesmo teto, na prática de um ofício comum. As crianças desde cedo participavam do mundo dos adultos, mas não ocupavam lugar de destaque. O amor e o afeto entre os membros da família não eram substancial. O importante era estarem juntos, ajudando-se mutuamente. A única função da família era, portanto, a de “assegurar a transmissão da vida, dos bens e dos nomes – mas não penetrava na sensibilidade” (Ariès, 1978, p. 275). Não havia a preocupação com a educação das crianças, e os vínculos afetivos entre pais e filhos no interior da família não eram valorizados.

Mas início dos tempos modernos, a família deixou de ser apenas uma instituição para transmissão dos bens e do nome, para assumir a função educadora, preparando os descendentes para a vida. O aprendizado adquirido no seio familiar foi somado com a educação escolar. A criança passou a conviver sob as normas de uma segunda instituição social; a escola.

Com as transformações sociais decorrentes do processo de evolução a família teve necessidade de desenvolver não apenas as suas habilidades altamente especializadas, como também a capacidade de adaptação às grandes mudanças socioeconômicas.

Uma mudança nos padrões internos, decorrente das mudanças sociais, pode fortalecer ou enfraquecer as ligações de amor e de lealdade dentro da família.

Com a mudança do papel feminino e a partir da entrada da mulher no mercado de trabalho, pai e mãe delegaram a educação de seus filhos à escola ou às babás, transformando a dinâmica familiar e alterando as funções da família.

Com isso estudos de diversas áreas do conhecimento concluem que milhares de crianças brasileiras vão mal na escola, ou param de estudar antes de terminar o ensino fundamental. É crescente uma discussão multidisciplinar, em busca de respostas e alternativas possíveis que melhorem esse quadro, pois a realidade educacional brasileira exige urgência de ação.

E os fatores que implicam em dificuldade de aprendizagem são vários, dentre eles, os orgânicos, cognitivos e afetivos, a estrutura familiar, o contexto social e o sistema educacional. Estudos na Psiquiatria e áreas afins comprovam que a qualidade dos cuidados familiares que uma criança recebe em seus primeiros anos de vida é de importância vital para sua saúde mental futura. Bowlby, (1989) afirma que as experiências emocionais em estágios precoces da vida mental podem produzir efeitos vitais e duradouros. Estudos do autor esclarecem que, quando uma criança é privada dos cuidados maternos – ou quem desempenha essa função -, o seu desenvolvimento é quase sempre comprometido física, intelectual e socialmente.

Diante disso o presente artigo faz uma abordagem teórica sobre a família como importante referência no processo de aprendizagem da criança. Nesta perspectiva, as teorias aqui apresentadas dão ênfase às relações familiares e sua preponderância no processo ensino aprendizagem, até mesmo porque a família é primeiro núcleo social onde a criança começa a construir suas aprendizagens.

Para Scoz, (1994) não há dúvida de que a influência familiar é decisiva na aprendizagem dos alunos. E os estudos de Fernández (2001) arrematam esse assunto com a afirmação: “A origem do problema de aprendizagem não se encontra na estrutura individual. O sintoma se ancora em uma rede particular de vínculos familiares, que se entrecruzam com uma também particular estrutura individual”.

Faz- se também, neste contexto, uma abordagem sobre o papel do psicopedagogo a respeito prática psicopedagógica na escola e junto às famílias.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1- A Função da Família

Além da perpetuação da espécie, do fornecimento de abrigo, alimento e proteção à criança, garantindo assim a sua sobrevivência, a família deve assegurar a criação e educação da prole, pois é no seio familiar que a criança terá suas primeiras trocas de experiências, conhecerá seus primeiros sucessos e fracassos, medos e frustrações. É da família a tarefa essencial de socialização e desenvolvimento da sua personalidade da criança, configurando o seu percurso intelectual, emocional e social. Ainda assim, o desenvolvimento das qualidades de humanidade não é garantido. A matriz para esse desenvolvimento encontra-se na união de identidade de indivíduo e família, de família e comunidade (Ackerman, 1986).

É nessa família, sob condições de unidade e cooperação, que a criança desenvolverá o conceito de aprendizagem, a iniciativa e a criatividade. O senso de identidade pessoal da criança está relacionado à sua identidade familiar.

Criar filhos não significa torná-los perfeitos, pois os pais têm muitas dúvidas e estão sujeitos a muitas falhas; mas o que é necessário é tentar identificar os conflitos e desfazê-los, aprendendo a conviver com essas situações. Através dos conflitos os pais desenvolvem a percepção de si mesmos e de seus filhos. Essas situações estimulam pais e filhos a instalar um diálogo verdadeiro, expondo o entendimento e sentimento em relação às experiências cotidianas. Por outro lado, aspectos fundamentais do processo educativo revelam que os pais devem ter respeito sobre o que o filho sente, mas cabe a eles negar com firmeza e determinação as atitudes que possam contrariar o que desejam para a educação de seus filhos (TIBA, 1999).

Dentro da família, a expressão de sentimentos em seus mais diversos graus de intensidade definirá a atmosfera familiar, entendida como demonstração de amor entre os cônjuges e pelos filhos, ocorrerá o desenvolvimento da personalidade e das reações sociais da criança.

Knobel (1992) ressalta a importância do amor e da família para a humanidade, ao afirmar que:

Assim é que a família representa a célula da sociedade organizada onde o gérmen da própria vida se alberga. A obra dos homens tem uma duração relativa. As de alguns gênios perduram. Mas só, verdadeiramente, a humanidade é que transcende e se perpetua, geração a geração, e não morre nunca porque os filhos dos filhos e seus descendentes continuarão amando e relacionando-se, acasalando-se com amor e aprendendo a aperfeiçoar sua capacidade afetiva geração após geração. (KNOBEL, 1992, P. 20)

A família exerce um papel preponderante no desenvolvimento da criança, pois é dentro dela que se realizam as aprendizagens básicas como a linguagem, sistema de valores, controle da impulsividade.

Na educação dos filhos, o grande desafio é aprender a focar os problemas, sem agredir a personalidade do filho, equilibrando atividade e firmeza. Comportamentos indesejados devem ser desestimulados, mas as emoções não podem se sufocadas, reprimindo a ação sem censurar os sentimentos.

Portanto, para que haja pleno desenvolvimento da criança faz-se necessário um ambiente adequado, estimulante e propício à aprendizagem, além de um clima de segurança e harmonia nas relações interpessoais da família, no qual encontrará apoio, amor e motivação para aprender o novo.

Mas de acordo com Ackerman (1986),

“(…) o momento histórico em que nos encontramos, tem alterado a configuração da vida familiar e tem abalado os padrões estabelecidos de Indivíduo, Família e Sociedade. […] Seres humanos e relações humanas foram lançados em um estado de turbulência, enquanto a máquina cresce muito, à frente da sabedoria do homem sobre si mesmo. A redução do espaço e a intimidade forçada entre as pessoas vivendo em culturas em conflito exigem um novo entendimento, uma nova visão das relações do homem com o homem e do homem com a sociedade” ( ACKERMAN 1986, p. 17).

2.2- Dificuldades de Aprendizagem sob o Olhar da Escola e da Família

De acordo com Rogers (1988), as dificuldades de aprendizagem, podem ser entendidas como uma alteração no aprendizado específico da leitura e escrita, ou alterações genéricas do processo de aprendizagem, onde outros aspectos (orgânico, motor, intelectual, social e emocional) podem estar comprometidos

Segundo Polity (1998), o termo Dificuldade de Aprendizagem é assim definido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental (EUA) da seguinte forma:

Dificuldade de Aprendizagem é uma desordem que afeta as habilidades pessoais do sujeito em interpretar o que é visto, ouvido ou relacionar essas informações vindas de diferentes partes do cérebro. Essas limitações podem aparecer de diferentes formas: dificuldades específicas no falar, no escrever, coordenação motora, autocontrole ou atenção. Essas dificuldades abrangem os trabalhos escolares e podem impedir o aprendizado da leitura, da escrita ou da matemática. Essas manifestações podem ocorrer durante toda a vida do sujeito, afetando várias facetas: trabalhos escolares, rotina diária, vida familiar, amizades e diversões. Em algumas pessoas as manifestações dessas desordens são aparentes. Em outras, aparece apenas um aspecto isolado do problema, causando impacto em outras áreas da vida. (POLITY, 1998, P.73),

Dessa forma, para compreender alterações no processo de aprendizagem deve-se considerar tanto as condições internas do organismo (aspecto anátomo-funcional e cognitivo), quanto as condições externas (estímulos recebidos do meio-ambiente). Rogers, (1988) afirma que fatores como linguagem, inteligência, dinâmica familiar, afetividade, motivação e escolaridade, devem desenvolver-se de forma integrada para que o processo se efetive.

Sabe-se que as dificuldades de aprendizagem podem associadas à baixa autoestima do estudante, em função de seus fracassos e esses sentimentos muitas vezes geram comportamentos de desinteresse por determinadas atividades, tempo de atenção diminuído, falta de concentração, indisciplina, entre outros.

Outro aspecto que se deve levar em consideração é o fato de que a família, nem sempre é conhecedora dessas necessidades da criança e da maneira apropriada de lidar com esses aspectos. Nesses casos cabe à escola orientá-la, no sentido de como ajudar a criança. E dessa forma contribuir para um resultado mais desejável.

Marturano (1999), afirma que há mães que demonstram exagerada ansiedade quanto a superação da dificuldade da criança; outras se mostram impacientes quanto ao desempenho insatisfatório do filho; outras atribuem todo o problema à criança caracterizando-a como “preguiçosa”, “lerda”, “distraída”, mães que negam a dificuldade que a criança demonstra; mães que não acompanham as atividades de seu filho e mães que punem a criança pelo seu fracasso nas atividades escolares. Alguns pais não consideram sua possível participação nessas alterações.

Cabe aos profissionais da escola intervir de forma mais ampla diante da problemática, pois muitas vezes, os conflitos familiares estão associados a essas dificuldades, havendo, portanto, a necessidade de maior compreensão do processo, e dessa forma, buscar caminhos que facilitem o desenvolvimento global da criança

A participação da família no processo de aprendizagem é de suma importância e a necessidade de se esclarecer e instrumentalizar os pais quanto as suas possibilidades em ajudar seus filhos com dificuldades de aprendizagem é evidenciada ao manifestarem falta de conhecimento, ou insegurança em como fazê-lo. Conforme Martins (2001, p.28), “essa problemática gera nos pais sentimentos de angústia e ansiedade por se sentirem impossibilitados de lidar de maneira acertada com a situação”.

Acredita-se que um programa de intervenção familiar seja de fundamental importância para o desenvolvimento e aprendizagem da criança. E de acordo com Polity (1998), um trabalho de orientação a pais desperta a sensibilidade deles para a importância de sua participação na vida escolar do filho, oportuniza-lhes a falar sobre seus sentimentos, expectativas, e esclarece-lhes quanto às necessidades da criança e das estratégias que facilitam o seu desenvolvimento.

Através das experiências e relações interpessoais, a família pode promover o desenvolvimento intelectual, emocional e social da criança. Ela pode criar situações no dia-a-dia que estimularão esses aspectos, desde que esteja desperta para isso. Além disso, a participação da criança nas atividades rotineiras do lar e a formação de hábitos também são importantes na aquisição dos requisitos básicos para a aprendizagem, pois estimulam a organização interna e a habilidade para o ‘fazer’, de maneira geral (MARTURANO, 1998).

Assim o processo educativo (desenvolvimento gradativo da capacidade física, intelectual e moral do ser humano) familiar deve ser adequado para possibilitar à criança o sucesso na aprendizagem, e entre as adequações desse processo estão compreendidos: o atendimento às necessidades da criança quanto à presença dos pais compartilhando suas experiências e sentimentos, orientação firme quanto aos comportamentos e temperamentos; possibilidade de escolhas, certa autonomia nas suas ações, organização da sua rotina, oportunidade constante de aprendizagem e respeito e valorização como pessoa.

Também ocorrem dificuldades escolares relacionadas à falta de concentração e indisciplina e a causa destas pode estar relacionada à ausência de limites.

A criança necessita de equilíbrio entre condutas disciplinares e diálogo, compreensão e carinho. Num processo educativo os pais experiênciam a necessidade de um trabalho de auto-análise, de reestruturação de seus comportamentos, crenças, sentimentos e desejos. Os pais precisam conquistar, em relação a si mesmos, primeiramente, o que querem que os filhos sejam: justos, disciplinados, honestos, responsáveis (GRUNSPUN, 1985).

Devido a permissividade excessiva, crianças e jovens muitas vezes desconhecem padrões de comportamentos e limites, formando uma geração com mais liberdade do que responsabilidade.

Tanto na família quanto na escola, Tiba (1999, p.45), afirma que “há necessidade de orientação às crianças quanto às regras disciplinares, para que elas possam desenvolver a capacidade de concentração e de apreensão dos conceitos”.

. A criança cujos pais participam de sua vida, compartilham emoções, colaboram, ensinam a importância do respeito, da colaboração estará muito mais receptiva às instruções dos mesmos, numa convivência como companheiros, o que contribui muito para a disciplina. A comunicação entre pais e filhos, o diálogo, as vivências de atitude, de amor e respeito, os valores, as regras sociais são de suma importância para a formação da personalidade, do caráter, como também na aprendizagem, condição para crescimento pessoal e profissional e para a formação de indivíduos conscientes da sociedade em que habitam, com valores éticos e morais e com uma perspectiva de um futuro promissor.

A participação da família no ambiente escolar é fundamental no processo ensino aprendizagem.

Família e escola são os principais suportes com que a criança pode contar para enfrentar desafios, visto que, integradas e atentas podem detectar dificuldades de aprendizagem que ela possa apresentar, podendo contribuir de maneira eficiente em benefício da mesma.

A família deve ser parceira, aliada à escola e aos professores, para juntos oferecerem um trabalho de envolvimento e cumplicidade nos assuntos relacionados ao ambiente escolar.

Uma das funções da escola é buscar uma aproximação com as famílias de seus alunos, promovendo atividades como: interação e apoio com diversos profissionais como psicólogos, visitas aos familiares, reuniões de pais e mestres com maior frequência, bem como a realização de trabalhos técnicos com a participação dos familiares para que estes possam conhecer os conteúdos que seus filhos estão desenvolvendo nas diversas atividades curriculares, proporcionando ligação entre escola-família- professores.

O papel a ser exercido pela escola e pelos pais, em se tratando de uma sociedade que passa por mudanças constantes, é a busca de novas formas e caminhos para alcançar êxito na formação de valores essenciais, por isso a importância de um lugar em que os filhos e estudantes possam se sentir seguros e confiantes no seu próprio potencial e a escola pode ser este ambiente quando estiver bem estruturado e apoiado pela família.

Diz Libaneo (2000) que:

“Não dizemos mais que a escola é a mola das transformações sociais. Não é, sozinha. As tarefas de construção de uma democracia econômica e política pertencem a varias esferas de atuação da sociedade, e a escola é apenas uma delas. Mas a escola tem um papel insubstituível quando se trata de preparação das novas gerações para enfrentamento das exigências postas pela sociedade moderna ou pós-industrial, como dizem outros. Por sua vez, o fortalecimento das lutas sociais, a conquista da cidadania, dependem de ampliar, cada vez mais, o numero de pessoas que possam participar das decisões primordiais que dizem respeito aos seus interesses. A escola tem, pois, o compromisso de reduzir a distancia entre a ciência cada vez mais complexa e a cultura de base produzida no cotidiano, e a provida pela escolarização. Junto a isso tem, também, o compromisso de ajudar os alunos a tornarem-se sujeitos pensantes, capazes de construir elementos categorias de compreensão e apropriação critica da realidade. (LIBANEO, 2000.p, 9)

Portanto, para que o desenvolvimento global da criança se efetive a família é o elemento primordial e, muitas vezes necessita da ajuda de profissionais na aquisição desses conhecimentos básicos e essenciais para que possa cumprir seu papel de facilitadora do processo de aprendizagem de seus filhos, através de comportamentos mais adaptativos, além de criação de rotinas que, segundo Freitas, Maimoni & Siqueira, (1994) e de Maimoni & Miranda, (1999), ela pode: acompanhar tarefas e trabalhos escolares, verificar se o filho fez as atividades solicitadas pelo professor, estabelecer horário de estudo, informar- se sobre matérias e provas, entre outras.

Enfim, qualquer projeto educacional depende da participação familiar; em alguns momentos necessita do incentivo, em outros, de uma participação efetiva no aprendizado como pesquisar, debater, orientar e valorizar a preocupação que o filho traz da escola.

Tiba (2002, p.181), afirma que: “se os pais acompanharem o rendimento escolar do filho desde o começo do ano, poderão identificar precocemente essas tendências e, com o apoio dos professores, reativarem seu interesse por determinada disciplina em que vai mal”.

A família deve acompanhar de perto o cotidiano escolar do filho. É imprescindível essa integração e interesse da família junto à escola do seu filho. O sucesso ou insucesso no processo de ensino aprendizagem depende efetivamente da integração da família, ela desempenha um papel decisivo na condução e evolução do sujeito.

A INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA NESTE CONTEXTO

A Psicopedagogia introduz valiosa contribuição no enfoque pedagógico. Para o psicopedagogo o processo de aprendizagem da criança é abrangente, implicando componentes de vários eixos de estruturação: afetivos, cognitivos, motores, sociais, políticos, etc. A causa do sucesso de aprendizagem, bem como de suas dificuldades passa a ser vista com inúmeras variáveis que precisam ser apreendidas com bastante cuidado pelo professor e psicopedagogo. O psicopedagogo atua nas escolas promovendo intercâmbios e mediações entre a escola e as famílias

Oliveira (1995) revela alguns dos aspectos fundamentais deste processo. Segundo a autora, o fundamental “é perceber o aluno em toda a sua singularidade, captá-lo em toda a sua especificidade em um programa direcionado a atender as suas necessidades especiais”.

O processo de ensino-aprendizagem inclui também a não aprendizagem, onde o aluno pode se recusar a aprender em um determinado momento. O chamado fracasso escolar constitui lado inverso do ato de aprender.

Dessa forma, o processo de ensino-aprendizagem, do ponto de vista psicopedagógico, apresenta sempre uma face dupla: de um lado, a aprendizagem, e do outro, a não aprendizagem.

Segundo Fernández (1991, p.87) “o jogo do saber-não-saber, conhecer-desconhecer e suas diferentes articulações, circulações e mobilidades, próprias de todo ser humano ou seus particulares nós e travas presentes no sintoma, é o que nós tratamos de decifrar no diagnóstico”.

Ao entender a aprendizagem como um processo articulado ao momento do aprendiz, a sua história e as suas possibilidades sob o aspecto cognitivo, afetivo e social, a Psicopedagogia, segundo Silva (1998):

Rompe a ligação ensino-aprendizagem, porque, tanto o aprender como processo quanto o processo de construção do conhecimento não têm relação necessária com o ensinar e, finalmente, porque ambos os processos antecedem e ultrapassam o ensinar. (SILVA, 1998, P.59):

Assim faz-se necessário que o psicopedagogo investigue com profundidade os contextos do aprendiz e fazendo um diagnóstico que retrate o momento desse aprendiz, ao mesmo tempo que viabilize a aprendizagem.

Na aquisição da aprendizagem a aprendente precisa estar apto a fazer um investimento pessoal aperfeiçoando-se com o conhecimento. Para isso requer a utilização dos recursos cognitivos mesclados com os processos internos, e também com suas possibilidades sócio afetivas. Dessa forma a aprendizagem acontece gradativamente, à medida que o educando constrói uma sucessão de significados resultantes das interações que ele faz em seu contexto social.

Num trabalho na instituição escolar, o psicopedagogo, além das dificuldades de aprendizagem ocasionadas por diversas razões já citadas, encontra outros tipos de resistência, pois essa ação exige mudanças no sentido de avaliar as propostas de ensino, a partir do acompanhamento do processo de aprendizagem do aluno.

Neste contexto o psicopedagogo se depara com famílias disfuncionais onde o ambiente é tomado por sentimentos negativos, como ódio, medo, culpa e remorso, relações conjugais conflituosas e cabe ao profissional que trabalha com as dificuldades de comunicação e de aprendizagem, compreender a estrutura familiar na qual a criança está inserida e procurar fazer um trabalho não só com a criança, mas também com sua família, para que essa, compreendendo o significado das dificuldades e das questões interferentes, possa colaborar de maneira mais efetiva no processo de desenvolvimento de seu filho.

As crianças que apresentam problemas relacionados a fracassos escolares em geral, desenvolvem o sentimento de baixa auto-estima, o que frequentemente induz a problemas de conduta. As consequências advindas do fracasso escolar são imensas. Como pressão da escola e da família, os rótulos recebidos de preguiçosas, distraídas, tem má vontade para aprender.

E assim os fatores que geram as dificuldades de aprendizagem precisam ser detectados, para que a intervenção proceda de forma positiva. A criança e/ou a família poderão ser encaminhadas a profissionais de outras áreas para um diagnóstico mais preciso e, eventualmente, detectar se a necessidade de outro caminho terapêutico.

É importante que a família compreenda o que a criança está passando, para que possa ajudá-la a enfrentar e a superar suas dificuldades.

Há pais que anulam os filhos, fazendo-os acreditar que são incapazes de realizar as tarefas e criando uma relação de dependência, podem estar causando ou reforçando as dificuldades da criança. Diante dessas situações o psicopedagogo deve intervir, sensibilizando- os que eles necessitam transmitir à criança a confiança no seu potencial de desenvolvimento, tendo atitudes positivas diante da aprendizagem, mostrando do que ela é capaz; mostrar aos pais a relevância saber ouvir os filhos, que devem permitir e incentivar que se expressem de forma honesta e clara a respeito dos próprios sentimentos, frustrações e dificuldades.

No caso de falta de limites ou indisciplina dos alunos, cabe aos pais fazê-los compreender e respeitar as regras de disciplina e organização, se quiserem que seus filhos aprendam a aprender e adquiram hábitos adequados de estudo. Os pais devem exercer sua autoridade e dar os limites para que seus filhos se sintam seguros, sabendo com clareza o que podem e devem e o que não podem e não devem fazer.

O psicopedagogo deve intervir na escola estabelecendo limites, tornando as regras claras. “Uma das melhores maneiras de perceber a educação de um adolescente, é quando ele está com uma turma, sob o efeito da embriaguez relacional” (TIBA, 1998, p.119).

É preciso redefinir as regras. É preciso que a escola recorra a profissionais especializados (psicólogo, psicopedagogo etc.). Compreender que não é mais tolerável a apatia de alunos e professores.

Além das outras funções do psicopedagogo na escola, como realizar orientação educacional, propor a intervenção no currículo, no projeto político pedagógico, na metodologia de ensino do professor, nas formas de aprender do professor, pode contribuir para a boa comunicação entre escola e família, favorecendo a um clima de confiança e estabelecendo um elo construtivo.

Para auxiliar na aprendizagem do aluno, faz-se necessário que os pais estejam integrados à escola.

“Uma das contribuições da psicopedagogia é no contexto familiar, ampliando a percepção sobre os processos de aprendizagem de seus filhos, resgatando a família no papel educacional complementar à escola, diferenciando as múltiplas formas de aprender, respeitando as diferenças dos filhos (BOSSA, 1994)

Mas o que se observa na contemporaneidade é que muitas das famílias estão sem norte, não estão sabendo lidar com situações novas: pais trabalhando fora o dia inteiro, desemprego, brigas, drogas, separações, mães solteiras, outras constituições familiares, entre outras. Essas famílias acabam transferindo suas responsabilidades para a escola, e por esse motivo a escola acaba se desviando de suas funções para suprir essas necessidades.

A escola, como observa Sarramona (apud IGEA, 2005,),

veio ocupar uma das funções clássicas da família que é a socialização: “A escola se converteu na principal instituição socializadora, no único lugar em que os meninos e as meninas têm a possibilidade de interagir com iguais e onde se devem submeter continuamente a uma norma de convivência coletiva […]”. (SARRAMONA apud IGEA, 2005, p 19),

Considerando o exposto, cabe ao psicopedagogo intervir junto à família das crianças que apresentam dificuldades na aprendizagem, por meio, por exemplo, de uma entrevista e de uma anamnese com essa família para tomar conhecimento de informações sobre a sua vida orgânica, cognitiva, emocional e social. O que a família pensa, seus anseios, seus objetivos e expectativas com relação ao desenvolvimento de seu filho também são de grande importância para o psicopedagogo chegar a um diagnóstico.

Portanto na atuação escolar, o psicopedagogo contribui para o esclarecimento das dificuldades escolares, que podem ser decorrentes da organização administrativa do sistema escolar e familiar, das exigências pedagógicas inadequadas, das expectativas familiares, das formas de circulação do conhecimento do professor e da família e das modalidades de aprendizagem que, segundo Alicia Fernandez, são passadas de pai para filho, determinando como serão as relações do sujeito aprendente com o saber, levando em consideração as crenças, os mitos, as mensagens repassadas na comunicação familiar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com a elaboração deste artigo foi possível compreender que a relação cordial entre família e escola é muito relevante. E este “casamento” deve ser contínuo para que os alunos tenham uma aprendizagem significativa, na qual, os pais colaboram diretamente com as propostas da escola.

Pelos estudos realizados constataram-se também os efeitos da rotulação e dos problemas de aprendizagem na escola, necessitando, também da atuação do psicopedagogo dentro das instituições escolares, trabalhando com diagnósticos, auxiliando os professores e, principalmente, na prevenção dos casos de alunos com problemas de aprendizagem, evitando o fracasso escolar, intervindo junto às famílias, através da colaboração, orientação e diálogo, entre outros.

Assim o psicopedagogo observa e diagnostica, ouve, fala, propõe novas estratégias ao sistema escolar e, então, cria condições favoráveis para a resolução dos problemas que surgem, fazendo com que o ensinar e o aprender se tornem comprometidos. Sendo assim, a atuação do psicopedagogo dentro da escola exige algumas características básicas.

Para isso o trabalho interventivo do psicopedagogo deve estar pleno do seu saber, da sua criatividade, da sua perspicácia, para que tenha condições de adaptar o trabalho em conjunto com a família frente às ocorrências provenientes das dificuldades no processo do aprender.

Portando, a psicopedagogia, pode fazer um trabalho visando a descoberta e o desenvolvimento das capacidades da criança, bem como pode contribuir para que os alunos sejam capazes de vislumbrar o mundo em que vivem e ter condições de interferir nele com segurança e competência.

REFERÊNCIAS

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ARIÈS, P. (1978). A história social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC.

BOSSA N. A. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas; 1994.

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CARTER, B. & MCGOLDRICK, M. (1995). As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, p. 19.

FERNÁNDEZ A. O idioma do aprendente: análise das modalidades ensinantes com famílias, escolas e meios de comunicação. Tradução Hickel NK. Porto Alegre: Artes Médicas; 2001.

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GRUNSPUN, H. Autoridade dos pais e educação da liberdade. São Paulo: Almed, 1985.

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OLIVEIRA, Marta Kohl. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-histórico. 2.ed. São Paulo: Scipione, 1995.

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SILVA, Maria Cecília Almeida. Psicopedagogia: em busca de uma fundamentação teórica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

TIBA, Içami. Disciplina na medida certa. São Paulo: Gente,1999.

[1] Pós graduada em pedagogia
[2] Pós graduada em pedagogia
[3] Graduada em pedagogia
[4] Pós graduada em pedagogia
[5] Pós graduada em pedagogia
[6] Pós graduada em pedagogia
[7] Pós graduada em pedagogia

Como publicar Artigo Científico

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