Alfabetização ou letramento? Implicações pedagógicas de um debate necessário

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ARTIGO DE REVISÃO

GARCIA, Tatiane Ferreira [1], GARCIA, Juliane Ferreira [2]

GARCIA, Tatiane Ferreira. GARCIA, Juliane Ferreira. Alfabetização ou letramento? Implicações pedagógicas de um debate necessário. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06, Vol. 03, pp. 62-68. Junho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

O desenvolvimento das habilidades de leitura e de escrita é imprescindível na sociedade do conhecimento. Ser capaz de dominar a tecnologia da escrita e da leitura, bem como utilizar de forma eficaz socialmente essa tecnologia constitui um dos elementos de hierarquização da vida social contemporânea. Nas últimas décadas, no Brasil e no mundo, houve um intenso debate entre duas concepções aparentemente excludentes: a alfabetização e o letramento. Entretanto, diante dos resultados inexpressivos de alunos brasileiros nas avaliações externas da capacidade de leitura e compreensão de textos, faz-se necessária a retomada do debate, visando a elaboração de estratégias pedagógicas que propiciem a formação de leitores e escritores competentes. A consecução desse objetivo constitui-se em um desafio para a pedagogia, devido à necessidade de formação continuada para que os professores possuam consciência sobre sua própria prática e sobre as teorias que a fundamentam.

Palavras-chave: Alfabetização, letramento, desafios.

1. INTRODUÇÃO

Na sociedade contemporânea, torna-se imprescindível as habilidades de leitura e de escrita para que o indivíduo consiga ter algum êxito nas mais diferentes esferas. A capacidade de produzir e interpretar textos encontra-se entre os critérios de hierarquização na chamada sociedade do conhecimento. Os espaços de prestígio social são vedados àqueles indivíduos que não demonstram possui as habilidades necessárias, formando um contingente de excluídos, composto por pessoas que, embora dominem a tecnologia conectada à leitura e escrita dos símbolos da língua, permanecem funcionalmente analfabetas.

Os resultados obtidos em avaliações, cujo objetivo era mensurar a capacidade de leitura e compreensão de textos, colocaram o sistema educacional brasileiro em xeque. Inúmeras são as deficiências e impeditivos para o desenvolvimento de cidadãos plenos, porém certo é que a superação das dificuldades passa pela qualidade da leitura e da produção e interpretação de textos.

Durante a segunda metade do século XX, intenso debate teórico colocou duas posições como antagonistas. Por um lado, os defensores do método fônico de alfabetização defendiam o ensino tradicional, gradual; por outro, os defensores do método global, em sua variante construtivista, advogavam a necessidade do ensino a partir dos textos concretos, ou seja, a criança deveria ser letrada, adquirindo competências para o uso concreto dos textos na vida social. No presente paper, os dois métodos serão analisados desde a perspectiva dos desafios para a pedagogia.

2. OBJETIVO

Embora relacionados, alfabetização e letramento possuem características próprias. Assim, há a necessidade de estudos e pesquisas para cada perspectiva, a fim de chegar-se a uma metodologia adequada para que os alunos desenvolvam suas capacidades, tanto cognitivas quanto sociais. Tendo isso como horizonte, o objetivo do presente paper é identificar as principais características da alfabetização e do letramento, desde uma perspectiva pedagógica, a fim de proporcionar a elevação das habilidades de leitura e de escrita dos alunos brasileiros.

3. JUSTIFICATIVA

Na contemporaneidade, a escrita permeia toda a realidade social. Textos de diferentes gêneros são encontrados na rua, na escola, na igreja, em anúncios publicitários. Por esse motivo, a temática da alfabetização e do letramento pode ser considerada atual e possui relevância social, pois a inserção na sociedade letrada ocorre mesmo que inconscientemente. Desde muito cedo, as crianças convivem com textos, mesmo que não compreendam o que está escrito. Dessa forma, a curiosidade e a vontade de aprender a ler levam a criança a formar hipóteses de leitura. Compreender como a alfabetização e o letramento se relacionam permite identificar estratégias pedagógicas para que a criança apreenda tanto a tecnologia quanto o uso da leitura e da escrita, tornando-se um cidadão pleno do mundo letrado.

4. MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS

A metodologia utilizada para a presente pesquisa foi a pesquisa bibliográfica. Através da leitura de artigos científicos, buscou-se elucidar os conceitos de alfabetização e de letramento, bem como as implicações desse debate para a prática pedagógica. Trata-se de uma temática complexa, com cerca de meio século de debates e pesquisas, proporcionando uma metodologia adequada para o ensino nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Não se pretende esgotar o assunto; procura-se compreender teoricamente o debate para o incremento da prática docente, atingindo melhor êxito na tarefa do professor alfabetizador.

5. DISCUSSÃO

Remonta às décadas de 1970 e 1980 o debate acerca da alfabetização e do letramento. Em relação a isso, Magda Soares (2004) chama de invenção do letramento, reconhecendo que o conceito surgiu concomitantemente em diversos países, com realidades educacionais distintas. Entretanto, a autora chama a atenção para a diferença quanto aos motivos que contribuíram para a emergência do conceito. Nos países centrais, embora a alfabetização fosse uma realidade, persistia, em contingentes significativos da população, a baixa habilidade na leitura e escrita.

Dessa forma, os estudos acerca do letramento surgem com relativa autonomia, não concorrendo com os estudos acerca da alfabetização, há “o reconhecimento de suas especificidades e uma relação de não-causalidade entre eles” (SOARES, 2004, p. 7). Ou seja, os estudos a respeito da alfabetização continuaram ao lado dos estudos a respeito do letramento, uma vez que cada qual possuía suas características próprias, complementando-se.

Os processos de constituição da relação do letramento com a alfabetização, no que tange ao Brasil, ocorreram de forma distinta. Foi através da crítica aos métodos de alfabetização que o conceito de letramento foi formulado, ocorrendo, portanto, um amalgama conceitual entre letramento e alfabetização, incentivado por diferentes espaços de produção de significado, como pode ser auferido a partir dos “censos demográficos, a mídia, a produção acadêmica” (SOARES, 2004, p. 7).

Com isso, embora se falasse em alfabetização, tinha-se em mente o letramento. Assim, a divulgação de um conceito de alfabetização conectado intimamente com o conceito de letramento dificulta a compreensão e, portanto, a elaboração de estratégias pedagógicas para o enfrentamento do problema urgente: “precisamos descobrir por que os desempenhos dos alunos têm piorado de modo tão sistemático e marcante. E, sobretudo, descobrir soluções claras e eficazes, capazes de reverter esse quadro alarmante, e empreendê-las de modo decisivo, sistemático, lúcido e corajoso” (CAPOVILLA; CAPOVILLA, 2007, p. 4). Apenas através da identificação das causas do baixo desempenho dos alunos brasileiros nas avaliações externas torna-se possível o planejamento e execução de ações para a reversão desse quadro.

Inserindo-se nesse debate desde uma perspectiva defensora do método fônico, Capovilla e Capovilla (2007) questionam as imposições dos órgãos governamentais sobre a prática pedagógica. Segundo os autores, falta lastro de pesquisa para os tomadores de decisões, de modo que se baseiam no senso comum e não nos desenvolvimentos científicos. Assim, enquanto países desenvolvidos retornaram ao método tradicional de alfabetização, os governantes brasileiros insistiriam em continuar com o método construtivista. Segundo o método fônico,

A criança passa por três estágios na aquisição de leitura e escrita: 1) o logográfico, em que ela trata a palavra escrita como se fosse uma representação pictoideográfica e visual do referente; 2) o alfabético em que, com o desenvolvimento da rota fonológica, a criança aprende a fazer decodificação grafofonêmica; e 3) o ortográfico em que, com o desenvolvimento da rota lexical, a criança aprende a fazer leitura visual direta de palavras de alta freqüência (CAPOVILLA; CAPOVILLA, 2007, p. 16).

Os apontamentos dos autores são muito pertinentes. Cada criança possui o seu tempo para a aquisição das habilidades de leitura e de escrita, passando de um estágio para outro a partir da intervenção docente. Entretanto, a crítica ao método construtivista apresenta uma caricatura da perspectiva antagônica, pois “a criança não espera ter seis anos, e nem ter uma educadora responsável pela sua aprendizagem, para começar a refletir sobre o que é ler e escrever”, conforme afirmam Lopes, Abreu e Mattos (2010, p. 7). Ainda que as etapas descritas pelo método fônico ocorram, ao chegar à escola, a criança já possui um convívio com o mundo letrado, e não apenas de forma passiva. Isso é um dado a ser levado em consideração.

Segundo o método construtivista, a alfabetização da criança se dá em quatro níveis de desenvolvimento: a) pré-silábico; b) silábico; c) silábico-alfabético; e d) alfabético. Assim, diferenciam-se a alfabetização – “aquisição do código da escrita e da leitura” – e o letramento – “utilização desta tecnologia em práticas sociais de leitura e de escrita” (LOPES; ABREU; MATTOS, 2010, p. 10). Entende-se que ambas as competências são necessárias e estão intimamente ligadas. O desafio que se coloca à pedagogia está em trabalhar de forma equilibrada com as duas perspectivas. E isso de maneira efetiva, não apenas na teoria ou no discurso. Faz-se necessária a formação permanente, com cursos, oficinas e palestras para proporcionar ao professor a segurança teórica necessária para uma prática eficaz.

Em muitos casos, as teorias de letramento foram assumidas discursivamente, embora não tenham se desenvolvido na prática: “na busca de uma apropriação que não se efetivou, o professor acaba desenvolvendo um trabalho intuitivo que mistura práticas tradicionais com um discurso pretensamente inovador, caracterizado por entendimentos equivocados (OLIVEIRA, 2010, p. 327). A fim de superar essas dificuldades, Soares defende a necessidade da retomada dos estudos sobre alfabetização, mas sem repetir o modelo vigente nas décadas anterior a 1970, pois alfabetização e letramento possuem a mesma importância:

Dissociar alfabetização e letramento é um equívoco porque, no quadro das atuais concepções psicológicas, linguísticas e psicolinguísticas de leitura e escrita, a entrada da criança (e também do adulto analfabeto) no mundo da escrita ocorre simultaneamente por esses dois processos: pela aquisição do sistema convencional de escrita – a alfabetização – e pelo desenvolvimento de habilidades de uso desse sistema em atividades de leitura e escrita, nas práticas sociais que envolvem a língua escrita – o letramento. Não são processos independentes, mas interdependentes, e indissociáveis: a alfabetização desenvolve-se no contexto de e por meio de práticas sociais de leitura e de escrita, isto é, através de atividades de letramento, e este, por sua vez, só se pode desenvolver no contexto da e por meio da aprendizagem das relações fonema-grafema, isto é, em dependência da alfabetização (SOARES, 2004, p. 14).

Mais uma vez, cabe à pedagogia a correlação dessas duas dimensões, a fim de proporcionar o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita das crianças. As reflexões acerca da aquisição do sistema da linguagem precisam estar associadas às reflexões acerca do uso desse sistema, em situações concretas. Assim, com a implantação do Ensino Fundamental de nove anos, as estratégias para a consecução dessa tarefa precisam ser muito bem elaboradas, reconhecendo tanto a oralidade quanto a textualidade como práticas sociais (CHAGURI; JUNG, 2013).

Ao chegar à escola, os alunos possuem conhecimentos prévios. Esses conhecimentos são linguísticos, textuais e de mundo (LOPES; ABREU; MATTOS, 2010). Reconhecer a existência desses conhecimentos prévios é fundamental tanto para a alfabetização quanto para o letramento dos alunos. Trata-se do ponto de partida para a ação pedagógica, não do ponto de chegada, pois “esses conhecimentos não são suficientes para o aluno produzir plenamente os gêneros textuais solicitados pela escola e exigidos nas avaliações externas, como também para atender às demandas sociais do letramento” (RESENDE; MACIEL, 2015, p. 158).

Os conhecimentos prévios dos alunos dizem respeito ao letramento ocorrido em ambiente não escolar. Mesmo indivíduos ainda não alfabetizados possuem inferência maior ou menor do letramento, pois trata-se de um fenômeno é inerente à sociedade letrada, ocorrendo a partir do uso cotidiano da linguagem, permeada por textos dos mais diversos gêneros (LIMA; SANTOS; SOUTO MAIOR, 2014). Entretanto, a amplitude e a qualidade do letramento variam de indivíduo para indivíduo, pois muitas vezes até há o domínio da tecnologia, mas não o domínio de seu uso social.

6. CONSIDERAÇÕES

Ao longo do presente paper, foi possível identificar as características da alfabetização, concebida como a aquisição da tecnologia da escrita e da leitura, e do letramento, compreendido como a utilização da tecnologia da escrita e da leitura em contextos sociais. Por se tratarem de dois fenômenos interdependentes, as tentativas de separação se tornam pouco fecundas, não permitindo a formação de cidadãos plenos, no que diz respeito aos quesitos das habilidades de leitura e de escrita.

O debate teórico entre o método fônico e o método construtivista permite identificar que ambos os métodos possuem elementos pertinentes e questões que podem ser melhoradas com o apoio da perspectiva antagônica. A simples aquisição da tecnologia da escrita e da leitura, por exemplo, não garante a formação de leitores aptos a compreender o que leem, pois muitas vezes o problema não se encontra nesse âmbito (RESENDE; MACIEL, 2015), havendo a necessidade de uma intervenção que torne significativa a leitura e a escrita, com a utilização de gêneros textuais do cotidiano dos alunos, sempre tendo cuidado com a seleção dos gêneros adequados para o trabalho em sala de aula (OLIVEIRA, 2010).

A aquisição das habilidades de leitura e de escrita coloca desafios à atuação pedagógica. Inicialmente, há a necessidade de conhecimento das teorias que embasam o trabalho docente. Os resultados de uma concepção tradicional são diferentes dos resultados de uma concepção construtivista. Além disso, mesmo entre quem adota o conceito do letramento, se um professor compreendê-lo como um fenômeno universal e neutro, certamente chegará a resultados diversos daquele que possui a compreensão ideológica do letramento.

Além disso, torna-se imprescindível a formação continuada para uma atuação pedagógica mais eficiente. Com a participação em cursos, seminários, oficinas, o professor adquire confiança em sua prática e pode avaliar melhor os resultados obtidos por seus alunos em relação à leitura e à escrita. Através do diálogo com outros professores, pode-se corrigir caminhos que não têm produzido resultados satisfatórios. Trata-se do “letramento acadêmico”, segundo o qual o professor precisa equacionar teoria, método e prática (LIMA; SANTOS; SOUTO MAIOR, 2014).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAPOVILLA, Alessandra G. S.; CAPOVILLA, Fernando C. Alfabetização: método fônico. 4.ed. rev. ampl. São Paulo: Mennon, 2007. Disponível em: <https://dinaprofessora.webnode.com.br/_files/…/método%20fonico%20Capovilla.PDF>. Acesso em: 25 jul. 2018.

CHAGURI, Jonathas P.; JUNG, Neiva M. Letramento no ensino fundamental de nove anos no Brasil: ações legais e pedagógicas previstas nos documentos oficiais. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 39, n. 4, p. 927-942, out./dez. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v39n4/aop970.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2018.

LIMA, Antônio C. S.; SANTOS, Lúcia F.; SOUTO MAIOR, Rita C. Refletindo sobre letramento e responsividade na formação docente. Bakhtiniana, São Paulo, v. 9, n. 2, p. 111-130, ago./dez. 2014.

LOPES, Janine R.; ABREU, Maria C. M.; MATTOS, Maria C. E. Caderno do educador: alfabetização e letramento 1. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2010. (Programa Escola Ativa). Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=5707-escola-ativa-alfabetizacao1-educador&Itemid=30192>. Acesso em: 25 jul 2018.

OLIVEIRA, Maria S. Gêneros textuais e letramento. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, Belo Horizonte, v. 10, n. 2, p. 325-345, 2010.

RESENDE, Valéria B.; MACIEL, Francisca I. P. Letramento escolar: reflexões sobre a produção escrita de adolescentes. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 31, n. 4, p. 157-178, out./dez. 2015. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/edur/v31n4/1982-6621-edur-31-04-00157.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2018.

SOARES, Magda. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, n. 25, p. 5-17, jan./abr. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n25/n25a01.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2018.

[1] Mestranda do curso Ciências da Educação. Agência Educacional Brasileira (AEBRA). St Alcuin of York Anglican College. Licenciada em Pedagogia (UFMT). Especialista em Psicopedagogia com Ênfase em Educação infantil. (AJES). Especialista em Neuropsicopedagogia Educação Especial e Inclusiva. (AJES).

[2] Mestranda do curso Ciências da Educação. Agência Educacional Brasileira (AEBRA). St Alcuin of York Anglican College. Licenciada em Geografia (AJES). Especialista em História da Educação (FAMAC).

Enviado: Abril, 2019.

Aprovado: Junho, 2019.

Mestranda do curso Ciências da Educação. Agência Educacional Brasileira (AEBRA). St Alcuin of York Anglican College. Licenciada em Pedagogia (UFMT). Especialista em Psicopedagogia com Ênfase em Educação infantil. (AJES). Especialista em Neuropsicopedagogia Educação Especial e Inclusiva. (AJES).

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