A Ludicidade Infantil

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AGUIAR, Severina Bezerra da Silva Melo [1]

AGUIAR, Severina Bezerra da Silva Melo. A Ludicidade Infantil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 02, Vol. 01. pp 495-507, Abril de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

O mundo infanto-juvenil envolvido pelo jogar, do ato de brincar, da existência material dos brinquedos, criando brincadeiras, tudo isso está nesse universo desde o inicio da humanidade na face da terra. Assim sendo, o presente artigo tem como tema central a ludicidade, enquanto processo de ensino aprendizagem, sem deixar de seguir a seriedade que a sociedade e bem assim a escola formal concede aos conteúdos apresentados na Educação Infantil. Enfim, as atividades lúdicas podem e devem ser consideradas indispensáveis ao desenvolvimento e a aprendizagem sadia, visando a compreensão dos conhecimentos formais e até mesmo informais, tendo em vista o despertar da possibilidade de criar e recriar através da percepção, da imaginação, dos sentimentos e da própria fantasia criada pela criança que se comunica consigo mesma e com o mundo, passando a aceitar a existência dos outros, estabelecendo regras em suas relações sociais, construindo conhecimentos e se desenvolvendo integralmente.

Palavras-chave: Jogar, Brincar, Educar, Ensinar, Aprender.

1. INTRODUÇÃO

Preliminarmente deve-se entender o termo ludicidade como sendo a forma de desenvolver direta e indiretamente a criatividade em termos de conhecimentos formais e informais, através do uso de jogos, de musicas e de danças. Se bem que o intituito é justamente educar, instruir e/ou ensinar se divertindo e/ou interagindo com os demais do grupo social. Assim sendo, o pioneiro significado do termo jogo é especificamente o de ser acima de tudo lúdico e/ou seja o de ensinar e o de aprender brincando e ou se divertindo, algo prazeiroso. Assim sendo, não por acaso que “educar é ir em direção à alegria” (SNEYDERS, 1996, p. 36). Usando técnicas lúdicas a criança aprende com prazer, feliz da vida.

[…] A educação lúdica é uma ação inerente na criança e aparece sempre como uma forma transacional em direção a algum conhecimento, que se redefine na elaboração constante do pensamento individual em permutações constantes com o pensamento coletivo. […]. (ALMEIDA, 1995, p.11).

É por meio da ludicidade e dos brinquedos que a criança exterioriza seus anseios e imita o mundo dos adultos, literalmente falando. Seguindo o exemplo citado por Oliveira e Bossa (1999, p. 31), “ao fazer de conta que uma vareta é um carrinho, e movimentá-la pelo chão, imitando o barulho do motor”, pode-se dizer que desta, e de outras maneiras, é que ela vai desenvolver a sua imaginação, inspirando-se para viver o seu mundo real, ao criar situações que ela mesma possa resolver.

Dentre os inúmeros autores que abordam o lúdico, enquanto brincadeira na educação e no desenvolvimento infantil, Vygotsky (1984), Huizinga (1990), Marcelino (1990), Negrine (1994), Sneyders (1996), Santos (1999), tem importante destaque na temática.

Nesse momento, a criança consegue aproximar-se do processo de conscientização sobre a responsabilidade, tanto de sua conduta quanto a do seu desenvolvimento social. Trabalhando sobre esse aspecto, passamos a entender um pouco mais sobre a importância da ação lúdica, na formação psicossocial da criança, e como a escola vem trabalhando esse componente pedagógico, junto aos pais.

É importante salientar de que a humanidade, a partir da Idade Média, não via os jogos não eram vistos como atividades e ou recursos pedagógicos, embora presentes nas atividades socioeducativas eram apenas atividades recreativas.

Por outro lado,

Ao permitir a manifestação do imaginário infantil, por meio de objetos simbólicos dispostos intencionalmente, à função pedagógica subsidia o desenvolvimento integral da criança. Neste sentido, qualquer jogo empregado na escola, desde que respeite a natureza do ato lúdico, apresenta caráter educativo e pode receber também a denominação geral de jogo educativo (KISHIMOTO, 2001, p.83).

A ludicidade no universo juvenil é a maneira e/ou forma de desenvolver a criatividade, abrir caminhos para os conhecimentos formais e informais, usando direta e indiretamente música, dança e jogos com o intuito de ensinar, educar, se divertir e interagir com os outros indivíduos. O jogo, enquanto atividade lúdica significa ensinar e aprender se divertindo. Tanto é assim que “o brincar envolve complexos processos de articulação entre o já dado e o novo, entre experiência, a memória e a imaginação, entre a realidade e a fantasia” (BORBA, 2006, p. 36).

A aprendizagem significativa no universo infantil deve necessariamente passar pelo ato de brincar, levando-se em consideração que “será que é possível trabalhar com crianças sem saber brincar, sem nunca ter brincado? ” (KRAMER, 2006, p. 16). A educação e a imaginação do universo infantil só será possível inventar e criar através dos momentos de trocas através do ato de brincar e aprender.

Tanto é assim que “qualquer jogo empregado na escola, desde que respeite a natureza do ato lúdico, apresenta o caráter educativo e pode receber também a denominação de jogo educativo” (KISHIMOTO, 2003, p. 22).

2. ATIVIDADES LÚDICAS SÃO INDISPENSÁVEIS

Os estudos recentes têm mostrado também que as atividades lúdicas são ferramentas indispensáveis no desenvolvimento infantil, porque para a criança não há atividade mais completa do que o ato de brincar. Pela brincadeira, ela é introduzida no meio sociocultural do adulto, constituindo-se num modo de assimilação e recriação da realidade (SANTOS, 1999, p.7).

Da mesma forma que o aprendizado é importante ao desenvolvimento intelectual da criança, o lúdico é instrumento pedagógico ou “peça” fundamental para tal, pois as novidades do dia-dia são cada vez mais mutáveis e velozes, nas diversificadas maneiras de desvendar as curiosidades das crianças.

Tanto é assim que Santos (1999), enfatiza teoricamente o brincar: 1) do ponto de vista filosófico, afirma de que o brincar é um mecanismo para contrapor a própria racionalidade, pois, a emoção deve caminhar assim como a razão; 2) do ponto de vista sociológico, como uma maneira pura para inserir a crança na sociedade, haja vista que é através da brincadeira que ela começa a assimilar as regras, os costumes, as leis e os habitos do meio onde ela vive; 3) do ponto de vista psicológico, o brincar se faz presente em todas as fases do desenvolvimento e da modificação do comportamento da criança; 4) do ponto de vista da criatividade humana, onde o ato de brincar e o ato de criar, em ambos os atos o eu é o centro de tudo. E até porque quando se brincar está sendo criativo e através do ato de criar se brinca com as imagens e signos diversificados de sua potencialidade; 5) do ponto de vista didático e ou pedagógico, o ato de brincar é uma maneira estratégica para a criança aprender segundo o referido teórico.

E é através das brincadeiras que essa transformação toma forma, onde elas criam um mundo imaginário repleto de encanto, sonho, magia, satisfação, frustrações, raiva ou desilusões. Dessa forma, é que a criança usa suas interpretações para aceitar, ou não, o que lhe convém, sendo mais fácil para ela mudar os acontecimentos, transformar os fatos do dia-dia, usando sua imaginação real de ser criança.

O ato de brincar de uma criança é uma dentre as demais necessidades básicas, assim como: a educação, a habitação, o jogar, o inventar, o criar e a nutrição, é algo especial e insubstituível para desenvolver o potencial infantil. É importante mencionar que: “uma criança que não sabe brincar, uma miniatura de velho, será um adulto que não saberá pensar” (CHATEAU, 1987, p. 14).

O ato de brincar é genético, segundo a psicologia, assim como é de fundamental importância para o desenvolvimento psicossocial e equilibrio do próprio ser humano. Isso porque a afetividade, a criatividade, o raciocínio, o estruturamento das situação e ou  o entendimento e ou a compreensão do mundo, levando-se em consideração de que “brincar é a fase mais importante da infância, do desenvolvimento neste período, por ser a auto-ativa representação do interno, a representação das necessidades e impulsos internos” (WAJSKOP, 1995, p. 68).

Por meio desse artifício construtivo, por exemplo, pode transformar uma caixa de geladeira  ou algo semelhante numa casinha de boneca já que, a partir de diferentes materiais, a criança consegue criar diversos brinquedos e viajar no tempo e no espaço de suas mentalidades. E, este processo singular pode ser refletido na sala de aula, pois requer atenção especial, raciocínio e criatividade.

Toda criança precisa ter um espaço lúdico, onde possa desenvolver suas habilidades e, também, a sua criatividade individual. Para que isso ocorra, de modo significativo e pleno, é preciso que ela perceba que esse desenvolvimento é realmente importante ao seu crescimento e desenvolvimento, e que os próprios pais se constituem como apoiadores, nesse processo, dentro e ou fora da sala de aula na Educação Infantil.

Mas, no menor casa ou apartamento, os adultos podem ser coniventes com as brincadeiras, arrumando o espaço disponível para criança, de maneira propícia […] Que a criança possa ter lugar reservado para ela, mesmo que seja um canto ou umas gavetas; que seus brinquedos estejam a seu alcance para poder, desde cedo, optar pelo que deseja fazer (MACHADO, 1994, p.38).

O Referencial Curricular da Educação Infantil no Brasil (1998,p. 23), enfatiza que educar significa, portanto, propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, com envolvimento direto de ser e de estar com os outros em atitude básica de aceitação, onde não deve faltar respeito, confiança e acesso aos conhecimentos amplos da realidade cultural e social da criança.

Por meio do desenvolvimento lúdico, que envolve plenamente a criança no conjunto corpo e mente, é que se percebe uma integração absolutamente estreita, já que o corpo não pára e a mente tampouco, trabalhando para realizar as ações previstas e/ou criadas, a fim de que os dois entrem em sintonia.

A criança precisa estar envolvida no ato brincar, para poder organizar suas idéias e, assim, exteriorizar os seus sentimentos mais profundos, que permitam colocá-la sempre em desafios e situações que a façam aprimorar a própria construção do seu aprendizado, daí a importância da brinquedoteca e da brincadeira na Educação Infantil. Nesse sentido, para Machado (1994, p.37), afirma que “brincar é também um grande canal para o aprendizado, senão o único canal para verdadeiros processos cognitivos”. Aí a ludicidade se faz presente como instrumento específico da aprendizagem enquanto compreenção do que é ensinado e ou apresentado ao aluno, claro desde que ele se interesse pela temática, haja vista que o ato de aprender é individual.

Portanto, a ludicidade não é tudo, porém auxilia consideravelmente no conhecimento e no desenvolvimento cognitivo da criança, pela busca da interação do mundo adulto e do mundo infantil.

Aproxima a relação de interesse da criança pelo cultivo de suas amizades e desenvolvimento de novas situações, que exijam raciocínio, convívio com as diferentes pessoas que a cercam, bem como entre as mais diversas situações apresentadas, no decorrer da própria vida, a cada instante.

Às vezes, não temos a idéia de como é importante a ludicidade para a produção de conhecimentos, no auxílio do desenvolvimento cognitivo e nos esquemas de raciocínio lógico ou não. Sua dimensão vai além de um brincar para passar o tempo, do brincar para a mãe ou para a secretária do lar poder arrumar a casa, ou algo semelhante. O lúdico passa a ter uma imagem negativa perante as crianças, e para os pais, que o vêem com um olhar desaprovador, preconceituoso, que brincar é perda de tempo; deste modo, a criança encara o brincar de maneira singular, sem importância ao próprio desenvolvimento integral.

Seria muito interessante, por parte dos pais e dos professores, que incentivassem a construção do brincar aliada ao raciocínio, percepção e ao desenvolvimento da inteligência, como se não fosse perda de tempo e, sim, enquanto aprendizado que é de grande valia ao seu futuro escolar. Não se pode encarar a ludicidade como um ato para passar o tempo, pois vai muito além, configurando-se na construção do conhecimento em tempo real, no qual a criança brinca, constrói e aprende.

Conforme as idéias de Craidy e Kaercher (2001, p.104),

A brincadeira é algo que pertence à criança, a infância. Através do brincar, a criança experimenta, organiza-se, regula-se, constrói normas para si e para o outro […] O brincar é uma forma de linguagem que a criança usa para compreender e interagir consigo, com o outro, com o mundo.

O lazer do brincar deve ser prazeroso, implicando num mundo de fantasias, de imaginação, onde a criança esteja despreocupada com as sutilezas, regras e conceitos em relação aos acontecimentos do mundo real. Assim, partindo do que salienta Kishimoto (2001, p.26), “enquanto a criança brinca, sua atenção está concentrada na atividade em si e não em seus resultados e efeitos”.Isso é fato que a concentração do aluno na brincadeira o faz aprender direta e indiretamente a regra do jogo, porque somente assim poderá concorrer com igualdade de condições com os outros individuos do grupo.

Em nossa sociedade, existe uma cobrança muito grande sobre o aprendizado na Educação Infantil, enfatizando se a criança sabe ler e escrever, precocemente, aos quatro anos de idade, se está muito bem dotada de sua inteligência, apresentando aprendizagens lógico-formais. Caso contrário, não recebe o total apoio dos pais e, muitas vezes, até da própria escola, para dar prosseguimento a sua caminhada dos aprendizados significativos e, porque não dizer, espontâneos e condizentes ao seu próprio desenvolvimento cognitivo.

Piaget, citado por Maranhão (2003, p.87), defende o desenvolvimento da criança em fases, sendo a fase pré-operacional a que devidamente me interessa, pois ela transcorre na faixa etária dos dois aos sete anos, que se explicita no processo de imitação e reprodução do meio social vivenciado.

Também, sendo uma fase de extrema importância, acredito que seja por meio desse período de desenvolvimento que a criança consegue se firmar, entre outros, no seu papel de ser pensante. Assim como, passa a se apropriar das ferramentas lúdicas para realizar as próprias tarefas, organizando o seu modo de agir sobre determinadas situações, que lhe são cabíveis, seja no mundo real, seja no universo imaginário, tão peculiar no contexto da pré-escola.

Para Vygotsky, o meio social exerce grande influência no desenvolvimento da criança e, é por meio do mesmo, que ela interage, (re)produz e constrói os seus primeiros conhecimentos. Sendo necessário o convívio com outras crianças, para ela estabelecer laços que possam intensificar o bom relacionamento no meio social, ao qual está inserida (MARANHÃO, 2003, p.88).

Frente a essas concepções, compreende-se a importância da ação lúdica para o desenvolvimento cognitivo e social. Dentro desse contexto, existe um fator muito importante, também, que é o reconhecimento do trabalho lúdico na escola, pelos pais, como fonte de aprendizagem infantil. Isso porque, a escola, na maioria dos casos, passa a preocupação que a criança deve, nesse período da sua vida, deixar de brincar para aprender a ler e escrever, aproveitar ao máximo o que a professora lhe ensina dentro da sala de aula, como se isso não fosse concomitante ao desejo da criança.

Assim, a escola e sua equipe de professores ficam com a incumbência de rever todo o processo de ensino-aprendizagem frente ao lúdico, passando aos pais a veracidade do seu propósito em construir, junto a seus filhos, os alicerces que venham proporcionar benefícios às habilidades sociais e escolares desenvolvidas.

E desta maneira, segundo Vygotsky, Luria e Leontiev (1988, p.130), “nos brinquedos no período pré-escolar, as operações e ações da criança são, assim, sempre reais e sociais, e nelas a criança assimila a realidade humana”. Assim é vivenciado com toda potencialidade o mundo infanto juvenil.

3. É VITAL A BRINCADAEIRA NA INFÂNCIA

Não é um fato novo a afirmação de que a brincadeira na infância humana é uma questão de extrema importância, pois inúmeros estudos têm demonstrado que mesmo com todo o seu valor o brincar ainda continua sendo banido da escola. Além disso, as atividades acontecem casualmente, sendo transformadas em atos rotineiros.

As tarefas desenvolvidas em sala de aula levam à fragmentação do indivíduo. Entretanto, há outras que deixam de lado a diversidade das relações, dedicando todo o tempo escolar à uniformidade.

Assim sendo, nos deparamos com a existência de  “[…] rituais da fila, do canto, da reza, do uniforme, do cabeçalho repetidos anos a fio na escola […] como uma espécie de heranças que uma geração passa à outra” (RUIZ & BELLINI, 1997, p. 68), verdadeiro mecanismo de exclusão, ainda que por analogia. É isso é uma realidade ainda presente em nossas escolas da Educação Infantil, exigir fila para praticamente todas as atividades formais e informais no ambiente escolar no seu cotidiano.

Existem diversos teóricos e/ou autores que defendem que o brincar na idade infantil envolvendo todas as funções vitais, tais como: a motora, a emocional, a intelectual e a social. Embora que para fins de estudos, se interessem apenas por uma delas. Mas, podemos perceber que todas essas funções estão interligadas entre si, um verdadeiro elo existencial.

A criança precisa está envolvida direta e indiretamente no ato brincar e brincar livremente, para poder organizar suas próprias ideias, de modo que venha exteriorizar os seus sentimentos dos mais simples aos mais profundos, que permitam colocá-la sempre em desafios e/ou situações diversas que a façam aprimorar a própria construção ativa do seu aprendizado. E até porque, “brincar é também um grande canal para o aprendizado, senão o único canal para verdadeiros processos cognitivos” (MACHADO, 1994,p. 37).

A importância do brincar e dos jogos não se limita ao mundo das emoções e da sensibilidade, como muitos pensam. Pode-se dizer que eles contribuem, em linhas decisivas, para a evolução do pensamento e da ciência.

Em síntese não são poucos os estudos qualitativos e/ou quantitativos voltados para a formação do individuo diante da contribuição do brinquedo como instrumento patrocinador do desenvolvimento cognitivo em crianças da Educação Infantil.

4. O BRINCAR INFANTIL, SUA RELEVÂNCIA

O brincar é a essência da infância, é um ato intuitivo e espontâneo, é acima de tudo um direito da criança que foi reconhecido, segundo Santos (1995), em declarações, convenções e leis, como nos mostram a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), adotada pela Assembléia das Nações Unidas, a atual Constituição Brasileira (1988) e o ECA-Estatuto da Criança e do Adolescente (1990).

Santos (1995, p.5) afirma que todas “… são conquistas importantes, que colocam o brincar como prioridade, sendo direito da criança e dever do Estado, da família e da sociedade. Essa é uma questão legal e aceita por todos …”.

Entretanto, alguns fatores vêm dificultando a livre brincadeira da criança, impedindo-a assim, de se desenvolver de forma espontânea, uma vez que os mesmos acabam “impondo-lhe” novas formas de brincar. Entre esses fatores encontramos: a falta de espaço, de companhia e de tempo, a desvalorização do brinquedo e do brincar, as deficiências físicas (s) e/ou mental, a situação sócio-econômica, a “negação da infância”.

Com relação ao espaço, Didonet (1995) afirma que o planejamento urbano esqueceu-se das praças e dos jardins, transformando quase tudo em concreto. As praças existentes tornaram-se violentas, o que impede o acesso às crianças e às famílias que nelas passeavam e podiam brincar com seus filhos.

As casas perderam os quintais para os minúsculos apartamentos “protegidos” com grades e fechaduras nas portas. A maioria das mães que antes participavam das brincadeiras dos filhos, abraçaram o mercado de trabalho, e as crianças ficaram sem espaço e sem companhia para as suas brincadeiras, tornando-se inseguras e até passivas.

Há também crianças que são tolhidas em seu direito de brincar devido à sobrecarga de atividades que realizam (balé, inglês, natação, computação etc). E diante das expectativas dos pais sentem “stress” muito cedo (Didonet, 1995). Acreditamos que isso as leva a um processo de “neurotizacão” muito grande. Além disso, muitas crianças não brincam, ou o faz muito pouco, devido a comprometimentos físicos e/ou mentais. A maioria dessas crianças apresentam condições para que a brincadeira se desenvolva.

Contudo, precisam de espaço adequado e de profissionais aptos que as considerem crianças globais e não fragmentadas estimulando-lhes apenas o lado cognitivo ou o motor, esquecendo que o ser humano é o entrelaçamento de todos os sistemas: o cognitivo com o afetivo, com o motor e com o espiritual.

As instituições infantis geralmente não têm lugar e nem profissionais capacitados para propiciar às crianças um desenvolvimento pleno; quando existem são caras, privilegiando apenas as já favorecidas pelo sistema.

A questão econômica é um outro fator que limita as crianças, porém não as impede de brincar. Quanto às crianças desfavorecidas economicamente, podemos dizer que há dois tipos delas: as adaptadas e as inadaptadas ao sistema.

No processo dinâmico da construção conhecimento, que se envolve e implica no desenvolvimento cognitivo o brinquedo, a criança está constantemente sendo desafiada e, por isso mesmo, precisa de atenção, carinho, estímulo e proteção dos agentes educativos, tanto da própria família quanto da escola. Infelizmente, muitas vezes, os pais não estão podendo dar-lhes a devida atenção, em função das exigências e do ritmo acelerado de trabalho que, cada vez mais, acabam interferindo na questão do tempo de interação com seus filhos.

Nesse sentido, abrem-se as possibilidades de intervenção da escola de Educação Infantil, no que tange à assunção do espaço lúdico como propulsor do desenvolvimento de múltiplas habilidades e atitudes que podem contribuir, significativamente, para com a sistematização dos aprendizados construídos. A partir desse cenário institucionalizado, busca-se investigar como os pais consideram e avaliam o desenvolvimento cognitivo dos seus filhos, diante do trabalho pedagógico em andamento, interligado a uma proposta de mediação lúdica.

Na escola, educadores e pesquisadores passaram a resgatar o brincar porque acreditam que é por seu intermédio que a criança (re)constrói o seu conhecimento e também se exercita para a cidadania. Isto acontece, por exemplo, quando espera a sua vez em uma atividade de jogo. Ademais, o brincar é um direito dela, o que precisa ser preservado e valorizado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Torna-se fundamental, e interessante, a defesa argumentativa acerca dos propósitos desse trabalho pedagógico lúdico junto aos pais, de forma clara e objetiva, explicando-lhes que os elementos-chave da ludicidade se fazem presentes em todo desenvolvimento criativo, social e cultural da criança. E, como ela faz parte desse contexto, precisa de vivências lúdicas orientadas que facilitarão a evolução significativa das etapas do próprio crescimento.

Para tanto, conforme salienta Maranhão (2003, p.90), “a criança não pode deixar de criar, de brincar, de ser natural em suas brincadeiras, pois se isso acontecer, perde o sentido a educação através de atividades lúdicas”. Isso é fato e contra fato não se tem argumento.

REFERÊNCIAS

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WAJSKOP, Gisela. Brincar na pré-escola. São Paulo: Cortez, 1995.

[1] Graduação em GEOGRAFIA pela Universidade Estadual da Paraíba; Pós-graduação: Mestrado em CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO pela UNIVERSIDADE POLITÉCNICA E ARTISTICA/PY , com diploma revalidado nacionalmente através do Parecer nº 67/2011, aprovado pelo CCEPE-UFPE-Universidade Federal de Pernambuco em 15/06/2011; Doutorado em CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO pela UNIVERSIDADE POLITÉCNICA E ARTISTICA/PY;

Como publicar Artigo Científico
Graduação em GEOGRAFIA pela Universidade Estadual da Paraíba; Pós-graduação: Mestrado em CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO pela UNIVERSIDADE POLITÉCNICA E ARTISTICA/PY , com diploma revalidado nacionalmente através do Parecer nº 67/2011, aprovado pelo CCEPE-UFPE-Universidade Federal de Pernambuco em 15/06/2011; Doutorado em CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO pela UNIVERSIDADE POLITÉCNICA E ARTISTICA/PY;

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