A importância das práticas construtivistas no processo de alfabetização e letramento com foco na leitura e escrita

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ARTIGO ORIGINAL

BARBEIRO, Silvana Ruiz [1]

BARBEIRO, Silvana Ruiz. A importância das práticas construtivistas no processo de alfabetização e letramento com foco na leitura e escrita. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 07, Vol. 07, pp. 21-30. Julho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

O enfoque deste estudo é refletir sobre as práticas construtivistas no processo de alfabetização e letramento com foco em leitura e escrita. Este artigo tem como bibliografia básica FERREIRO & TEBEROSKY (1999), entre outros e enfatizará o ensino tradicional, os fundamentos do construtivismo, as práticas dos professores e as práticas pedagógicas, assim como a proposta curricular de São Bernardo do Campo, voltadas ao ensino fundamental. Sabe-se que o sucesso do aprendizado está associado a vários fatores e um deles é a prática do professor. Este artigo investigará quais são as práticas utilizadas pelos professores que contribuem para o sucesso da aprendizagem.

Palavras-chave: Educação Básica, alfabetização, letramento.

INTRODUÇÃO

O tema deste trabalho é a importância das práticas construtivistas no processo de alfabetização e letramento com foco em leitura e escrita.

Nesta perspectiva, surgiram duas perguntas que nortearam este artigo, são elas:

  • Qual é o suporte teórico que norteia o processo alfabetização nas escolas brasileiras?
  • Quais são as práticas pedagógicas que o embasam?

Como passo inicial deste trabalho julga-se necessário esclarecer o que significa alfabetização e letramento.

Magda Soares nos ensina que:

Se alfabetizar significa orientar a criança para o domínio da tecnologia da escrita, letrar significa levá-la ao exercício das práticas sociais de leitura e de escrita. Uma criança alfabetizada é uma criança que sabe ler e escrever, uma criança letrada (tomando este adjetivo no campo semântico de letramento e de letrar, e não no sentido que tem tradicionalmente na língua, este dicionarizado) é uma criança que tem o hábito, as habilidades e até mesmo o prazer de leitura e de escrita de diferentes gêneros de textos, em diferentes suportes ou portadores, em diferentes contextos e circunstâncias (2004, p.87).

Sabe-se que os processos de Alfabetização e Letramento estão interligados, já que de acordo com os Parâmetros Curriculares, estes destacam que o ensino da língua portuguesa deve ser direcionado em três fundamentos básicos: a leitura, a compreensão e a produção.

Quando se pensa no processo de alfabetização e letramento imagina-se que este tem o seu início na escola, mas sabe-se que este processo se inicia já nos primeiros meses da gestação, quando o embrião começa a receber os primeiros estímulos da mãe e será construído através de posteriores estímulos que receberá da família, da sociedade e da escola.

Daí a relevância em investigar as práticas dos professores no momento que a criança começa a vida escolar, assim como os caminhos que percorrem para contribuir com o sucesso da aprendizagem.

Conforme Ferreiro e Teberosky,

O modelo tradicional associacionista da aquisição da linguagem é simples: existe na criança uma tendência à imitação (tendência que as diferentes posições associacionistas justificarão de maneira variada), e no meio social que as cerca (os adultos que as cuidam) existe uma tendência a reforçar seletivamente as emissões vocálicas da criança que correspondem a sons ou a pautas sonoras complexas (palavras) da linguagem própria desse meio social (FERREIRO e TEBEROSKY, 1999,p.24).

Neste contexto, o enfoque deste estudo é investigar como as práticas dos professores contribuem para o desenvolvimento da leitura e da escrita.

Para alcançar estes objetivos utilizou-se como recurso metodológico, a pesquisa bibliográfica, selecionada a partir de materiais já publicados sobre o tema na literatura, revistas especializadas e artigos científicos no meio eletrônico.

O texto está fundamentado nas ideias e concepções de autores como Coll (2002), Teberosky & Tolchinsky (2002), Perrenoud (2000), Ferreiro & Teberosky (1999) e Coll (1997).

DESENVOLVIMENTO

O processo de alfabetização e letramento tem entre tantos personagens, dois que são os principais: de um lado o aprendiz que inicia a vida escolar por volta dos quatro anos e de outro o professor.

O professor, por sua vez, tem um papel importante neste processo, pois ao receber o aprendiz na sala de aula, deverá levar em consideração que ele já domina o idioma que fala e que já possui uma gramática internalizada. O professor deverá ter isto em mente quando fizer a escolha dos meios que utilizará para alfabetizá-lo.

FERREIRO e TEBEROSKY

Tradicionalmente, conforme uma perspectiva pedagógica, o problema da aprendizagem da leitura e da escrita tem sido exposto como uma questão de métodos. A preocupação dos educadores tem-se voltado para a busca do “melhor” ou “mais eficaz deles, levantando-se assim uma polêmica em torno de dois tipos fundamentais: métodos sintéticos, que partem de elementos menores que a palavra, e métodos analíticos, que partem da palavra ou de unidades maiores (1999, p. 21).

De forma simples, podemos dizer que os métodos tradicionais de alfabetização resumem-se nos métodos sintético e analítico. A maioria dos métodos utilizados atualmente baseia-se nos métodos de concepção construtivista.

Os métodos sintéticos partem de unidades menores da língua como letra e fonemas para unidades maiores, subdividindo-se em métodos alfabético, fônico e silábico.

Nos métodos analíticos, o processo é inverso, parte-se de unidades maiores como palavras, sentenças, etc. para unidades menores.

A partir da década de 80, com as descobertas de Emília Ferreiro sobre a psicogênese da língua escrita, ocorreu uma mudança na concepção do processo de aprendizagem da leitura e escrita, que passa a ser vista como um processo histórico de construção, um sistema de representação e não de um código. Esta concepção baseia-se na teoria de Piaget, O foco a partir daí não é mais como ensinar a criança a ler e escrever, mas sim entender como a criança se apropria da língua escrita no processo de alfabetização.

Diante deste postulado, percebe-se que independentemente do método que se usa, dois fatores importantes não podem ser ocultados: o primeiro é que a criança já entre na escola com competências linguísticas, ela tem um conhecimento que foi construído no meio que vive e o outro é que as crianças aprendem de forma e tempos diferentes.

Segundo Solle e Coll,

A aprendizagem contribui para o desenvolvimento na medida em que aprender não é copiar ou reproduzir a realidade. Para a concepção construtivista, aprendemos quando somos capazes de elaborar uma representação pessoal sobre o objeto da realidade ou conteúdo que pretendemos aprender (1997, p.19).

Aqui a ação do professor é crucial, pois deve propiciar uma aprendizagem que leve a criança a se aproximar do objeto ou conteúdo que pretende aprender.

Logo, deverá não se ater tanto aos métodos de alfabetização, mas sim levar o aprendiz a desenvolver-se através de conteúdos que lhe sejam significativos.

Um exemplo de aprendizagem significativa é o que ocorre com as crianças de quatro anos que ingressam na educação infantil da rede de ensino municipal de São Bernardo do Campo, onde o primeiro contato com a escrita é através do nome. Primeiro aprendem a reconhecer seu nome em diversas situações: plaquinhas, lista de nomes, agendas, atividades, depois começam a aprender a traçar as letras até escrever o nome completo.

Neste processo, a criança aprende significativamente, ou seja, constrói um significado próprio e pessoal para um objeto de conhecimento que existe objetivamente e o professor funciona como um facilitador ao disponibilizar as ferramentas para levá-las a alcançar o objetivo.

Nesta perspectiva, constata-se a importância da prática do professor, que deve refletir constantemente sobre sua prática:

Os professores desempenham um importante papel na produção e estruturação do conhecimento pedagógico porque refletem de uma forma situada, na e sobre a interação que se gera entre o conhecimento científico […] e a sua aquisição pelo aluno, refletem na e sobre a interação entre a pessoa do professor e a pessoa do aluno, entre a instituição escola e a sociedade em geral. Desta forma, têm um papel ativo na educação e não um papel meramente técnico que se reduza à execução de normas e receitas ou à aplicação de teorias exteriores à sua própria comunidade profissional (Alarcão, 2005, p. 176).

O professor reflexivo deve então trabalhar a partir das concepções dos aprendizes, dialogando com eles, fundamentando suas concepções prévias, levando-os a incorporar novos elementos às concepções existentes.

Pois como vimos, ao entrar na escola, o aluno já possui, de acordo com suas experiências, muitas competências discursivas e linguísticas necessárias à comunicação e interação social. Cabe ao professor e a escola a tarefa de acolher esses saberes e ampliar o repertório dos alunos, para promover acesso aos usos da linguagem em diferentes situações de interlocução. (Proposta Curricular, 2007 p. 17).

Freire (2002, p. 33) nos ensina que: “ensinar exige respeito aos saberes dos educandos”

Para ele, o professor e as escolas tem o dever de respeitar os conhecimentos que os aprendizes trazem de sua origem, pois estes conhecimentos foram construídos no dia-a-dia da comunidade.

Desta forma, entende-se que o professor deve ser capaz de rever seus conhecimentos e reestruturar sua prática, pois seus aprendizes são plurais e heterogêneos.

Esta postura deve permear principalmente o professor alfabetizador, pois os aprendizes trazem consigo conhecimentos e falas específicas e este modo de falar ou de se expressar deve ser valorizado.

Ao entrar na escola, o aluno já possui, de acordo com suas experiências, muitas competências discursivas e linguísticas necessárias à comunidade e interação social. Portanto, cabe à escola acolher esses saberes e ampliar o repertório dos alunos, para promover o acesso aos usos da linguagem em diferentes circunstâncias e diferentes situações de interlocução. (Proposta Curricular do Ensino Fundamental, 2007, p.17).

Quando se trabalha na periferia, onde há maior concentração de falantes com sotaques regionais variados, a diversidade cultural é maior e sabe-se que socialmente, algumas formas de falar possuem maior prestígio. Então, cabe ao professor e a escola criar possibilidades para que todos os alunos desenvolvam as competências do discurso oral, planejando situações de ensino onde o aluno possa utilizar os procedimentos adequados a cada situação comunicativa.

O mesmo procedimento da linguagem oral é válido vale para a linguagem escrita, pois se sabe que o aluno quando ao entrar na escola, já tem conhecimentos prévios da linguagem que se escreve.

Essas aprendizagens ocorrem pela participação em práticas sociais de uso de linguagem escrita nas diferentes situações da vida cotidiana: leitura de jornais, livros, materiais publicitários, etc., seja como lazer ou para a resolução de problemas do dia-a-dia (Proposta Curricular, 2007, p. 17).

O professor deve propiciar aos alunos a interação com diversos textos que circulam socialmente, pois a partir deles vão se familiarizar com as características discursivas de diferentes gêneros. Para muitos professores, o texto passa a ser a unidade básica de ensino.

O nome que assina um desenho, a lista do que deve ser comprado, um conto, um romance, todos são textos. A palavra “pare” pintada no asfalto em um cruzamento, é um texto cuja extensão é a palavra. O mesmo “pare”, numa lista de palavras começadas com p, proposta pelo professor, não é nem um texto, pois não se insere em nenhuma situação comunicativa de fato (Proposta Curricular, 2007, p. 19).

Mas não deve basear-se somente em textos, pois a variedade e qualidade dos gêneros textuais são de suma importância para o bom desenvolvimento da escrita. Por muito tempo, acreditou-se que textos simples e infantilizados facilitavam a aprendizagem, mas a prática tem mostrado que a variedade de gêneros textuais significativos possibilitam a aproximação dos alunos daquilo que querem aprender.

É nesta perspectiva que o professor deve desenvolver as habilidades de leitura, pois o processo de leitura não é um simples processo de decodificação.

A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto a partir do que está buscando nele, do conhecimento que já possui a respeito do assunto, do autor e do que sabe sobre a língua – características do gênero, do portador, do sistema da escrita… Ninguém pode extrair informações do texto escrito decodificando letra por letra, palavra por palavra. (Proposta Curricular, 2007, p. 19).

A leitura deve estar também associada a propósitos significativos para os alunos. Deve basear-se em situações do cotidiano. A leitura deve ser servir para inteirar-se ou aprender algo novo, seja como pura diversão, emoção ou comunicação.

Portanto, as situações de leitura na sala de aula devem estabelecer uma ponte entre o que os alunos já sabem com as novas informações que o texto oferece.

A leitura significativa de diferentes gêneros textuais contribui para o desenvolvimento de uma nova forma de linguagem, a escrita, mas o repertório adquirido por intermédio da leitura não é suficiente para garantir a produção de textos. O professor deverá planejar situações didáticas para que os alunos pensem em como organizar o texto e ter um olhar crítico para a sua produção.

Revisar, opinar, reescrever, discutir sobre a produção escrita, são estratégias apropriadas para o desenvolvimento da competência escritora. A contribuição do professor é decisiva no sentido de oferecer situações significativas de produção de texto, planejamento situações que façam sentido para o aluno.

CONCLUSÃO

Como vimos o papel que o professor exerce na vida do aluno poderá levá-lo ao sucesso ou poderá levá-lo ao fracasso. O professor deve primeiramente ter um bom conhecimento teórico e didático, que o leve a refletir sobre sua postura didática e a questionar se sua atuação esta fazendo diferença na vida de seus alunos. O professor que almeja contribuir para a formação de cidadãos que interagem de forma reflexiva e crítica em seu meio, deve buscar estratégias didáticas significativas de análise e reflexão sobre a língua para que possibilitem não só a ampliação do repertório, como também promover desafios que os façam descobrir coisas novas, que os faça ser usuários competentes da língua. Deve saber também que não existe uma fórmula mágica que resolva todos os problemas de alfabetização, a fórmula consiste na discussão, descoberta e tentativas, buscando sempre a melhor estratégia ou metodologia na sua prática diária.

O trabalho de reflexão deve começar já nos primeiros anos do ensino fundamental, onde o professor deve priorizar a produção dos alunos, identificando os pontos que necessitem de maior investimento.

Deve, estabelecer uma proposta didática construída a partir dos pressupostos teóricos que atenda de forma significativa aos ideais da alfabetização e letramento da comunidade onde estiver atuando.

REFERÊNCIAS

ALARCÃO, Isabel. Formação reflexiva de professores – estratégias de supervisão. Ed. Porto, Porto, Portugal, 2005.

COLL, César, Aprendizagem escolar e construção do conhecimento, Porto Alegre, Artmed, 2002.

COLL, César, O construtivismo na sala de aula, São Paulo, Editora Atica, 1997.

FERREIRO, Emilia, TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre, Artmed Editora, 1999.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 30ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

PERRENOUD, Philippe, 10 Novas competências para ensinar, Porto Alegre, Artmed, 2000.

SÃO BERNARDO DO CAMPO. Proposta Curricular. – Ensino Fundamental, Volume II, São Bernardo do Campo, C: Secretaria da Educação e Cultura, 2007.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 2. ed.Belo Horizonte: Autentica, 2004.

TEBEROSKY, Ana, TOLCHINSKY, Liliana, Além da alfabetização, São Paulo, Editora Ática, 2002.

[1] Licenciada em Letras Alemão-Português pela Universidade de São Paulo, licenciada em pedagogia pela Universidade UniSeb Ribeirão Preto.

Enviado: Maio, 2018.

Aprovado: Julho, 2019.

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