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Interfaces: A dialógica possível entre a prática profissional e os Núcleos de Estudos e Pesquisa do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC – SP

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Interfaces: A dialógica possível entre a prática profissional e os Núcleos de Estudos e Pesquisa do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC – SP
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LEÃO, Paula Silva [1]

LEÃO, Paula Silva. Interfaces: A dialógica possível entre a prática profissional e os Núcleos de Estudos e Pesquisa do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC – SP. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 02, Vol. 01. pp 461-487, Abril de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

Este artigo é fruto de uma dissertação de mestrado que buscou conhecer os Núcleos de Estudos e Pesquisa do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC – SP e suas contribuições para a formação profissional. Os Núcleos de Estudos e Pesquisa na PUC-SP fomentam a pesquisa no Serviço Social e são integrados pelos docentes e discentes dos cursos de pós-graduação e de graduação. A perspectiva desses núcleos tem sido a de incrementar a pesquisa, visando fundamentalmente à capacitação de recursos humanos para a atividade investigativa, tanto ao nível qualitativo, quanto quantitativo. Analisamos suas propostas investigativas e formativas; no levantamento de dados formais e informais sobre os Núcleos cadastrados, no estudo documental e bibliográfico dos Núcleos a partir do credenciamento do Programa de Estudos Pós – Graduados em Serviço Social; nas entrevistas com os coordenadores dos Núcleos de Ensino e Pesquisa em Serviço Social da PUC – SP e no Grupo Focal com integrantes dos Núcleos. Ao final, analisamos os discursos obtidos na dissertação, concomitantemente com a Pesquisa no Serviço Social. Nas considerações finais aponta-se para o fato de que os Núcleos são espaços diferenciados de formação, que carecem de maior visibilidade de fomento, mas que proporciona dialógica para reflexões no Serviço Social.

Palavras-Chave: Núcleos de Estudo e Pesquisa, Formação, Pesquisa no Serviço Social.

INTRODUÇÃO

Neste artigo resgatamos a pesquisa realizada para obtenção do título de mestre no ano de 2010 sobre os Núcleos de Estudos e Pesquisas do Programa de Pós – Graduação em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e suas contribuições no processo formativo dos alunos do curso.

O objetivo deste artigo consiste em refletir sobre a importância dos Núcleos de Estudos e Pesquisas do Programa buscando revelar suas histórias e suas produções, conhecendo assim, suas propostas de formação profissional.

No decorrer da pesquisa observou-se que a presença dos Núcleos não se dá apenas por uma mera exigência acadêmica. Gradativamente ela foi ganhando destaque pela qualidade e importância da discussão de temas e das produções correlatas a esses estudos. O Programa de Estudos Pós Graduados em Serviço Social da PUC – SP é o primeiro da área e representa o aprimoramento do Serviço Social enquanto campo de investigação para a construção de conhecimento na área. A produção resultante das ações destes Núcleos oferece elementos capazes aprimorar a prática profissional e dar-lhe sustentação.

O Programa mantém em funcionamento 11 Núcleos de Pesquisa, com a participação de professores, alunos e profissionais; todos os Núcleos são consolidados e apresentam expressiva produção, além de manterem intercâmbios em nível nacional e internacional. Todos integram os grupos de pesquisa credenciados pelo CNPq e são assim nomeados: Núcleo Estudos e Pesquisas em Seguridade e Assistência Social; Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Políticas Sociais, Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Profissão; Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Identidade; Núcleo de Estudos e Pesquisas de Família; Núcleo de Estudos e Aprofundamento Marxista; Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Criança e Adolescente; Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino e Questões Metodológicas em Serviço Social; Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Ética e Direitos Humanos; Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Movimentos Sociais; Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Saúde e Sociedade;

Aglutinaram-se eles, em torno de três linhas de pesquisas definidas pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC/SP, quais sejam:

  • “Serviço Social: identidade, formação e prática”;
  • “Assistência Social e Seguridade Social”;
  • “Política social: estado, movimentos sociais e associativismo civil”.

Mantêm-se articuladas às áreas de concentração:

  • “Serviço Social: fundamentos e prática profissional”
  • “Serviço Social: políticas sociais e movimentos sociais”.

No ano de 1998 a ficha de reavaliação encontrada no site da CAPES, informa que os núcleos de pesquisa ocupam centralidade na organização das atividades do Programa e os seus diversos objetos de estudo vêm sendo contemplados na pesquisa propriamente dita, no conteúdo das disciplinas, nas publicações e nas atividades técnicas relacionadas às diversas áreas. O acúmulo de produções na área básica confirma a posição de liderança do Programa na área de Serviço Social no país, com visível penetração em nível internacional em termos de formação, pesquisa e produção intelectual.

Para falar dos diferentes Núcleos de Estudos e Pesquisas presentes na PUC – SP foi necessário perpassar pela história da Pós-Graduação Brasileira em Serviço Social, que teve seu início nesta mesma universidade, adquirindo com o tempo, o caráter de excelência.

Destaca-se alguns momentos da história da Pós-Graduação em Serviço Social, para assim, adentrar na história dos Núcleos e ver suas contribuições para a pesquisa no Serviço Social. Realizou-se entrevistas, oral e escrita com os Coordenadores dos Núcleos e Grupo Focal com alunos participantes dos Núcleos, além de extensa pesquisa bibliográfica, procurada em arquivos da internet e em material dos próprios coordenadores.

A PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL NA PUC – SP

A criação da Pós-Graduação do Curso de Serviço Social e de outros cursos na PUC – SP se deu como consequência da preocupação do país com a formação e qualificação de docentes e pesquisadores efetivando-se nessa época uma política de institucionalização da pós-graduação no Brasil, para responder às demandas de ordem econômica, social e política. Neste mesmo período, ampliava-se a criação dos cursos de Serviço Social tanto nas universidades federais brasileiras, como nas instituições do eixo Rio – São Paulo.

As atividades do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social começaram ainda em 1971. O projeto original foi planejado pelas excelentíssimas professoras Nadir Gouvêa Kfouri [2] e Susana Aparecida da Rocha Medeiros [3] ambas do Curso de Serviço Social e pioneiras na produção de diversos eventos no interior da profissão, responsáveis pela difusão e qualificação desta área no âmbito acadêmico nacional e internacional.

A implantação de um curso de Pós-Graduação em Serviço Social era entendida como medida fundamental para a inserção do Serviço Social na estrutura universitária, visando à capacitação do corpo docente da Escola e à formação de docentes e pesquisadores para a área do Serviço Social.

A importância de lembrar tais fatos históricos é observar a continua luta pelo aprimoramento profissional no Serviço Social. Na época em que o mestrado em Serviço Social na PUC – SP se implantava, não havia profissionais suficientes para o exercício da docência. Logo, se tornou premente o estabelecimento da dimensão investigativa na profissão, condição crucial para formação e qualificação profissional. Na procura de estruturar a profissão a Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social- ABESS apresentou, em 1965, um oficio a Diretoria do Ensino Superior do Ministério da Educação e Cultura, sugerindo a institucionalização do Programa de Pós-Graduação.

Para entender a importância de muitos atores na história do Serviço Social, vê-se a necessidade de relembrar que o Serviço Social passava da década de 60-70 por insatisfações em relação ao tradicionalismo da profissão, que começava a ganhar visibilidade nos primeiros anos da década de 60. Na América Latina, esse processo se cruza com expectativas de mudança desencadeadas com a Revolução Cubana, que alimentou a possibilidade histórica de construção de uma nova ordem societária no continente.

Nesta ambiência social e política inicia-se o movimento de reconceituação do Serviço Social na América Latina, desencadeado pela ação da “geração 65”, (grupo formado no Seminário de Porto Alegre, tendo como alguns participantes: Seno Cornely, José Lucena Dantas, Herman Kruse, Maria Lucia de Carvalho da Silva). Esse movimento assumiu uma crítica tanto à metodologia tradicional quanto à ideologia que lhe era subjacente, dando início a um processo de revisão do quadro referencial do Serviço Social. Pode-se encontrar mais informações na dissertação de mestrado intitulada “Política Educacional e Ensino do Serviço Social no Brasil”, de Rosa Maria Ferreira Pinto (1984).

“(…), o ano de 1965 marca, para a maioria de seus analistas, a realização do primeiro evento público do processo de reconceituação do trabalho social latino americano, o qual vinha se gestando em vários pontos do Continente.  E esse certame público se verificou em Porto Alegre, de 11 a 15 de maio (semana do Assistente Social) desse ano. Seus pioneiros passaram a ser chamados de “generación 65” em todo o continente. Ainda em 1965 foi fundada, no Panamá, com a presença de um professor desta Faculdade, a ALAETS (Asociación  Latinoamericana  de  Escuelas  de  Trabajo  Social).  Esta, como única instância continental, fundou seu organismo acadêmico, o Centro Latino americano de Trabajo Social (CELATS). Ambas tiveram, e continuam tendo, enorme influência na política regional do trabalho social, em todos os países do Continente.” (Seno A. Cornely in: Revista Virtual Textos & Contextos, nº 1, nov. 2002.)

Reunidos em torno do questionamento às bases conservadoras do Serviço Social a “Geração 65” proporcionou à importação de modelos de intervenção, na defesa de um Serviço Social Latino Americano comprometido com um projeto de desenvolvimento para o continente que contou neste período com fatores de estímulo à pesquisa e produção de conhecimentos: exigência pela qualidade dos trabalhos científicos e o seu processo histórico de renovação.

A implantação da Pós Graduação em Serviço Social não foi diferente ao conturbado momento que passava o Serviço Social enquanto profissão. GUELFI (2003), em tese que teve por título “Os autores e seus pensamentos: um estudo das concepções de serviço social na produção da pós-graduação da PUC – SP” relata os problemas iniciais do Programa, onde o processo de estruturação levou a reitoria da PUC – SP a conferir a alguns professores da casa o grau de professor – titular, reconhecendo-lhes o mérito de notório saber uma vez que não havia doutores neste ano. Posteriormente, ratificado a titulação pelo Conselho Federal de Educação.

No Serviço Social receberam a titulação: Helena de Iracy Junqueira; Nadir Gouveia Kfouri e José Pinheiro Cortez, em razão de seus currículos, produção científica, títulos obtidos e forte repercussão no interior da profissão.

A Pós-Graduação em Serviço Social inicia suas atividades acadêmicas na PUC – SP em 1971, mas só foi reconhecida em 1972 quando foi credenciada pelo MEC, com indicação da Profa. Dra. Suzana Aparecida da Rocha Medeiros para coordenar o Programa.

A experiência da implantação do Programa de Pós Graduação em Serviço Social foi citada por Nadir Gouveia Kfouri no I Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, que ocorreu no Rio de Janeiro em 1974, ao tratar da temática “Formação Profissional do Assistente Social”:

“…quando baixa uma lei, como recentemente foi baixada pelo Ministério da Educação concedendo um prazo x para o enquadramento de professores de carreira do magistério, assistentes sociais extremamente competentes viram-se na circunstância de não se encontrarem sendo nem mestres (…), nem doutor (…). Então, evidentemente, ficamos numa situação de inferioridade. Daí a grande importância e significação desses cursos pioneiros que nos permitem preparar os quadros docentes e colocando problemas muito sérios porque, de acordo com a legislação, podem ensinar em cursos de mestrado, doutores, e nós não tínhamos doutores de Serviço Social.” (Idem GUELFI 2003:69)

Percebe-se na fala anterior, que o Serviço Social, até então, não se apropriava devidamente da pesquisa cientifica e que o momento vivido pela Educação Brasileira também impulsionou a Reconceituação do Serviço Social juntamente com a criação da Pós Graduação.

O Curso de Doutorado em Serviço Social teve sua proposta de Regimento aprovado pelo Conselho Universitário da PUC SP em 26/11/1980. As primeiras atividades, segundo o regimento aprovado, iniciaram-se no segundo semestre de 1981.

 A implantação do Dourado em Serviço Social na PUC – SP representava o esforço realizado para ampliar o espaço de conhecimento científico que se consolidou “na criação de condições favoráveis à reflexão sobre os problemas do Serviço Social, no sentido de aprofundar suas bases teóricas e metodológicas, bem como para incentivar a crítica e formulação de políticas sociais adequadas à realidade brasileira.” (Programa de Doutoramento em Serviço Social da PUC SP aprovado pelo Conselho Universitário em Reunião realizada em 26/11/1980 p. 1).

De acordo com as normas, o Programa de Doutorado em Serviço Social e regras gerais de doutoramento da PUC SP, e também por seu regimento específico, estabelecia como critérios para admissão dos candidatos: ser aprovado por uma Comissão de Seleção a partir da avaliação do currículo, do projeto de pesquisa apresentado e proficiência em duas línguas estrangeiras.

Na dissertação de mestrado de Irani Silva de Oliveira intitulada “Contribuição a um processo de avaliação do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC-SP: a visão de professores e alunos” (1983) pode-se verificar as razões prioritárias para a consolidação da Pós Graduação em Serviço Social em entrevista concedida pela Profa. Dra. Suzana A. R. Medeiros, em maio de 1981, quando mencionou as duas razões prioritárias para o surgimento da pós graduação em Serviço Social:

“- a formação do corpo docente para assumir as Escolas de Serviço Social, em período de expansão;

– a necessidade de dar respostas aos desafios postos pela realidades latino-americana que motivou a discussão dos caminhos teórico-metodológico seguidos pela profissão”.

(OLIVEIRA, 1983:19)

Certamente, a implantação do primeiro curso de Mestrado na PUC-SP e dos demais cursos no país, intensificou a luta pelo reconhecimento do Serviço Social como área de conhecimento por parte das agências de fomento como a CAPES e CNPq.

Nesta época o Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da PUC-SP contava com o apoio de instituições financeiras do Ministério da Educação e Cultura recebendo bolsas de duas modalidades: Programa de Capacitação Docente – PCD, Demanda Social e, também, bolsas oferecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico – CNPq.

O quadro representativo da situação dos Programas de Pós-Graduação revela que o Mestrado de Serviço Social, em 1980, contava com 91 alunos matriculados, dos quais 38 contavam com bolsas de estudo, sendo 35 CAPES e três de outras instituições dados obtidos na Revista da Universidade Católica de São Paulo, Fascículo nº 100, Janeiro/Dezembro – 1981, p. 301-303, quadros 03 e 05.

O Planejamento do curso teve início com a elaboração de um anteprojeto que percorreu as diversas instâncias da universidade para a discussão e análise. Assim relata Profª. Drª. Suzana Rocha Medeiros em 1984:

“Quando a Escola de Serviço Social se incorporou à PUC – SP, por volta de 1972-73, a PUC-SP tinha 95% de seu quadro de professores sem titulação. Portanto o Serviço Social formou seus quadros ao mesmo tempo que toda a PUC – SP. Mas esse Programa Especial teve duração limitada. A PUC – SP prosseguiu com seu Programa de Mestrado em Serviço Social, que após cinco anos de funcionamento foi credenciado pelo Ministério da Educação. Passados cinco anos de credenciamento, com vários mestres já titulados há algum tempo, começou a surgir a necessidade da criação do curso de doutorado, para que essa população continuasse seus estudos. Essa questão começou a ser tratada dentro do Programa de Pós-graduação em Serviço Social da PUC –   SP. O assunto foi exaustivamente discutido durante um ano. Primeiramente, foi elaborado um anteprojeto, (…) que foi encaminhado à faculdade de Serviço Social para discussão, analisado por Departamentos e no Conselho Departamental, percorreu todos os colegiados da PUC SP, até ser aprovado pelo Conselho Universitário. Só depois de aprovado em todos os colegiados é que foram aceitos os primeiros alunos.” (Medeiros, 1984:154)

NAGAMINE [4] (1997) afirma que na medida em que a implantação dos doutorados foram concluídos, passaram a surgir as pesquisas autônomas dos professores doutores, aumentando o volume das que já vinham sendo desenvolvidas, desde a implantação de novos regimes de trabalho:

“O desenvolvimento da pesquisa na PUC-SP teve que vencer uma fase inicial de convencimento da administração e da própria comunidade universitária de sua visibilidade, assim como, vencer a necessidade da criação de uma cultura cientifica juntamente com a do ensino. Essa fase ocorreu simultaneamente com a da criação de algumas condições mínimas para a sua realização, como a expansão do regime de trabalho docente de tempo integral e parcial, a organização do Fundo de Apoio á Pesquisa e a implantação do sistema de bolsa-pesquisa. Obviamente, acabou também por vincular-se ao Programa de Capacitação Docente, tornando-se este um dos seus principais fatores de desenvolvimento, dado que os projetos de pesquisas surgiam, na sua maioria, em função da elaboração das dissertações e das teses para titulação dos docentes.” (1997: 160)

Ainda segundo o autor, a partir da década de 80 as agências do governo federal que financiavam bolsas de estudo para capacitação docente e projetos de pesquisa, praticamente só para as instituições públicas de ensino superior, começavam a flexibilizar essa política, abrindo-se também para as universidades comunitárias. Essa abertura foi de grande importância para os Programas de Pós-Graduação e para o desenvolvimento da pesquisa.

“Contribuiu muito, para o convencimento dessa abertura, a política da Universidade de desenvolvimento da carreira do magistério e do regime de trabalho docente de tempo integral e parcial que sempre foi recebida ou negociada como esforço e a contrapartida da PUC SP nas parcerias com essas agências.” (1997: 160).

O autor também nos lembra que se no início, para esse apoio das agências de financiamento, havia, geralmente, a intermediação institucional, a tendência dos últimos tempos tem caminhado para o financiamento direto aos pesquisadores. A opinião de Nagamine é que isso se torna mais evidente com o surgimento dos núcleos ou grupos de pesquisa a partir da década de 80, que se tornam tão dinâmico que nem sempre as universidades têm tido condições de acompanhá-los e de dar-lhes o apoio necessário devido ao descompasso com a burocracia e a política de administração acadêmica.

Destarte foi aprovado o Recredenciamento do Programa de Pós Graduação em Serviço Social (1982) estavam na coordenação as Professoras Doutoras Maria do Carmo Brant Falcão e Ursula M. Simon Karsch (vice), que avaliaram ser necessário rever a estrutura do curso, que não respondia as questões postas pelo Serviço Social naquele momento.

“Percebemos, (…) que nosso Mestrado caminhava naquela linha tradicional dos cursos de aprofundamento por área: Administração em Serviço Social, Planejamento em Serviço Social etc, que acompanhava muito o currículo de graduação e não correspondia, necessariamente, ao momento vivido hoje pelo Serviço Social”. (BATISTA, Myriam Veras, in: Revista Serviço Social e Sociedade nº15, Agosto de 1984, p154-155).

De tal modo, inicia-se em 1984 a implantação do primeiro Núcleo de Estudos e Pesquisas do Programa de Estudos Pós – Graduados em Serviço Social da PUC – SP: o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Seguridade e Assistência Social.

Na mesma época o Programa estimulava o intercâmbio de docentes e promovia eventos no campo do ensino e da pesquisa. No âmbito internacional marcou presença ao firmar convênio com a Universidade das Nações Unidas (Tóquio – Japão) para desenvolver um projeto de pesquisa sobre o idoso, como parte de um estudo comparativo sobre a rede de apoio, em sete países do terceiro mundo: Índia, Zimbawe, Cingapura, Egito, Tailândia, Coréia e Brasil.

Outro fato importante na Pós Graduação de Serviço Social da PUC – SP foi ter realizado em 1987 um convênio com os Institutos Superiores de Serviço Social de Lisboa e Porto. O convênio se deu a partir do Protocolo de Intenções celebrado entre ela e o Instituto Superior de Serviço Social – ISSS de Lisboa, com o apoio financeiro da Cooperação Internacional CNPq / JNICT (Portugal), quando passou a desenvolver um Programa de Pós Graduação em Coimbra e Porto. Já os candidatos à Pós Graduação provenientes dos países da América Latina realizavam Mestrado e Doutorado na PUC SP financiados pelas bolsas PEC-PG / CNPq / CAPES / MRE, o que indicava o crescimento da procura dos cursos no país por alunos estrangeiros, representando a consolidação acadêmica na área.

O SURGIMENTO DOS NÚCLEOS DE ESTUDOS E PESQUISA NO PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS – GRADUADOS EM SERVIÇO SOCIAL DA PUC – SP

Ao pesquisar os materiais do Programa de Estudos Pós Graduados em Serviço Social da PUC – SP, percebeu-se que Nadir Kfouri e Suzana Medeiros tinham por método compreender sempre o significado das palavras, explorando à fundo sua etimologia; prova-se ao analisar o material arquivado estudado, contendo ainda rascunhos de esboços realizados pelas mesmas, com isso dimensionamos o cuidado que estas percussoras tinham com a gênese teórica do Serviço Social.

Em 1984 teve-se o início do Primeiro Núcleo de Estudos e Pesquisas do Programa de Pós-Graduação da PUC-SP: o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Seguridade e Assistência Social coordenado pela Profª Drª Aldaíza Sposati. Este foi um dos primeiros Núcleos de Estudos e Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica e o primeiro do Programa de Estudos Pós – Graduados em Serviço Social. Conforme depoimento acima, descobriu-se que os Núcleos não se iniciavam com o formato de Núcleos, mas como grupos de estudos e pesquisas e que havia diversidade de entendimentos sobre o significado dos Núcleos. Somente na medida em que as instituições de fomento foram ampliando sua relação com a universidade, priorizando a pesquisa, as Pós – Graduações fazem o mesmo. Era importante para o credenciamento a priorização da pesquisa conforme depoimento a seguir.

 “Eu diria que foi a pesquisa iniciada em 1984 sobre o curso de Pós Graduação da Profª. Suzana Medeiros sobre a questão da Assistência Social que motiva a implantação do Núcleo. Naquele momento não se podia discutir a questão da Assistência Social no Serviço Social, isto significava dizer que a pessoa que discutisse tal assunto queria arrumar intrigas. Ao mesmo tempo, nós fizemos um seminário aqui na PUC – SP sobre ‘A Prática do Assistente Social’, era um Seminário aberto que envolveu os profissionais da prática, que discutiram no campus da PUC – SP a ‘Assistência Pública’. Na época o ‘Mário Barbosa’ estava aqui, e começamos a discutir o texto de Leila Lima Santos “Nación Critica” e que ela, mesmo sobre a reconceituação, dizia que era preciso fazer um resgate, um trabalho concreto no Serviço Social. Nesse momento se difundia a frase que ‘saco vazio não pára em pé’ então, não adiantava você imaginar o revolucionário se não tivesse condições de emergir, de parar em pé, claro que estou fazendo um pouco de folclore, mas para que vocês entendam que começava haver uma abertura para se discutir serviços. Pois, a centralidade no Serviço Social era a Organização Popular. Logo, não se discutia serviços, ou Serviço Social na Saúde, ou na Habitação, a centralidade era os Movimentos Sociais não eram as Políticas Sociais. Foi neste momento que surge Lucio Kovarik e ele tem um texto emblemático sobre as políticas sociais e ao mesmo tempo, talvez um pouco antes, o Faleiros com seu livro ‘Saber Profissional e Poder Institucional’. Tínhamos aí ‘o pé em duas canoas’, então começa a existir a viabilidade de se discutir serviços. Como encorajamento fizemos uma proposta de investigação na secretaria, então de promoção social do Estado que era coordenada por Carlos Alfredo Souza Queiroz. Naquele momento nós organizamos esses estudos na Secretaria. Nesta ocasião a Dilseia e eu fomos trabalhar na Secretaria de Promoção, nós começamos a caracterizar a prática dos profissionais da Secretaria,  fizemos várias regiões e caracterizávamos a prática; Carminha Brant também esteve em algumas destas funções e isso tudo é que foi dando material para a gente escrever aquele livro ‘A Assistência na trajetória das Políticas Sociais Brasileiras’, isto é, naquele livro no momento histórico de 1984, nós não tínhamos a clareza de uma política de Assistência Social; o que discutíamos então eram os mecanismos da Assistência Social, o que era isso, e tínhamos uma questão eixo: seria possível atingir a cidadania no âmbito da Assistência Social? Essa era a nossa questão e eu creio que ela perpetua. O texto que nós escrevemos, entregamos para alguns especialistas, dentre eles o Lúcio Kovarik, para que lessem nossa reflexão, pois daí nós íamos ter uma ideia, um campo de investigação sobre a Assistência Social. Então, fizemos primeiro uma interlocução com especialistas e depois de um relatório final e, então, viemos a publicar o livro ‘A Assistência na Trajetória’. Hoje está na 11ª edição e continua sendo utilizado. Bom, a partir dessa pesquisa foram surgindo outras, então o Núcleo primeiro se firma através da pesquisa e neste momento, também, eu já estava fazendo uma grande pesquisa no Estado de São Paulo que foi matéria do meu doutorado: a história dos desassistidos sociais no estado de São Paulo. (…)”. (Depoimento de Prof.ª Aldaíza, concedido em 12/04/2010 sobre a implantação no NEPSAS, Núcleo que coordena).

As Profas. Myriam Veras Batista e Maria Lucia Rodrigues em artigo intitulado “A formação pós-graduada – scrictu senso – em Serviço Social: Papel do Pós-Graduação na formação profissional e desenvolvimento do Serviço Social” falam sobre a importância dos Núcleos de Ensino e Pesquisa da Pós-Graduação em Serviço Social:

“Constata-se um esforço no sentido de definir e estruturar linhas de pesquisa que aglutinem energias e abram espaços teóricos – metodológicos diferenciados, com ênfase na transdiciplinaridade e na produção coletiva. Este esforço vem se materializando na constituição de núcleos de fomento à pesquisa que são integrados pelos docentes e discentes dos cursos de pós-graduação e de graduação. A perspectiva desses núcleos tem sido a de incrementar a pesquisa, visando fundamentalmente a capacitação de recursos humanos para a atividade investigativa, cobrindo a carência da área em termos de pesquisadores, tanto ao nível qualitativo, quanto quantitativo.” (Revista ABESS, n°5 – 1992:117)

Os Núcleos de Estudo e Pesquisa (NEP) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC – SP possuem particularidades e singularidades que os distinguem entre si. As informações que se obteve foram encontradas em publicações dos Núcleos, materiais concedidos pelos coordenadores, internet e também materiais de alunos que participaram dos Núcleos. Estas partem dos objetivos e da organização de cada Núcleo.

Segue abaixo um quadro sistematizando os NEP´s do Programa até 2010, material organizado na ordem cronológica de criação de cada NEP. Ressalta-se que alguns Núcleos não possuíam os dados formalizados, documentados, então, buscou-se informações na Plataforma Lattes, CNPq e depoimentos de coordenadores e alunos.

SRF – Sem Registro Formalizado
SRF – Sem Registro Formalizado

A DIALÓGICA POSSÍVEL ENTRE A PRÁTICA PROFISSIONAL E OS NÚCLEOS DE ESTUDOS E PESQUISA DO PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM SERVIÇO SOCIAL DA PUC – SP

Os Núcleos de Estudos e Pesquisas do Programa de Estudos Pós-Graduados da PUC/SP são integrados por docentes e discentes. Fomentam a pesquisa no Serviço Social e constituem espaço pedagógico de formação profissional do assistente social. A perspectiva desses Núcleos tem sido a de incrementar a pesquisa, visando fundamentalmente à capacitação e qualificação de recursos humanos bem como a qualificação da produção de conhecimentos nesta área profissional.

Constata-se que essa contribuição é expressa através da vida acadêmica, pessoal e profissional dos alunos, que se motivam por participar, alguns pela temática oferecida pelos NEPs por tratar de temas recorrentes em suas vidas, outros pela temática de suas pesquisas individuais, muitos para complementação dos estudos em busca de aprimorar seus conhecimentos

“(…) quando ingressei eu logo de cara percebi algumas afinidades no Serviço Social, pois não sei se todos sabem minha formação não é no Serviço Social, mas sim no Jornalismo, quanto às afinidades, não só profissionais, como de condutas pessoais, familiares dentre outras. Vejo que participando dos Núcleos os alunos fazem descobertas e apreendem teorias que aplicam não só no âmbito profissional, universitário e acadêmico, mas na vida. A partir de todo esse envolvimento dos alunos nos Núcleos de Pesquisa é que eu posso investir na minha vida profissional e também no meu projeto de mestrado. Verifico que a minha frequência se dá pela afinidade temática, afinidade com as pessoas e também pelo tema de pesquisa que estes realizam(…)” A.L

Outra questão que se pode observar refere-se a importância da prática refletida. Esta abre um espaço para os profissionais que não estão com projetos individuais de especialização, mestrado ou doutorado, participarem dos Núcleos e discutirem suas ações aproximando a teoria da prática, e não dicotomizando-as em suas rotinas. O que acaba, também, por aproximar o profissional participante do universo acadêmico, podendo inteirá-lo a especializações em níveis de mestrado e doutorado.

“(…)ele tem uma característica muito importante que é a da “Prática Refletida”, este traz diversas realidades extra universitárias para serem discutidas no Núcleo. Assim, sustenta um novo olhar para realização de novos projetos e a viabilização da participação de outros profissionais, que estão trabalhando e que desejam realizar a reflexão do tema discutido. Este tipo de participação evoca, posteriormente, na maioria dos profissionais participantes, a inserção destes no processo seletivo da Pós – Graduação. Vale destacar que este tipo de ação, onde se traz a prática para ser discutida na universidade me realiza, não só enquanto profissional, mas enquanto pessoa, pois aprendem outras formas de olhar, trabalhar. E que, talvez, em uma disciplina, por seu padrão, estrutura, não pode proporcionar isto aos alunos.” S.

A pesquisa é o motivo central dos NEPs no Programa de Estudos Pós-Graduados de Serviço Social da PUC – SP; interessou conhecer como ela perpassa os NEP´s do ponto de vista dos participantes, pois são eles que “movem” as atividades dos Núcleos. Assim, observou-se através das falas, que cada NEP tem sua especificidade onde alguns realizam pesquisas e outros somente estudos. Uma atividade não exclui a outra; há NEPs que conseguem administrar muitas atividades concomitantemente, porém vai da organização de cada um, também considerando aqui os pontos favoráveis e desfavoráveis que aparecem durante as atividades e que irão favorecer a realização das pesquisas, ou não. O financiamento é um deles, que quando não é concedido, ou concedido precariamente acaba por inviabilizar ou prejudicar a realização de muitos estudos. Vejamos:

 “Eu quando entrei no mestrado, logo de cara pensei: Será que eu posso ser só pesquisadora? Que me bateu uma paixão, tanto pela pesquisa individual quanto pelo processo, que desde 2007 a gente vem desenvolvendo um projeto em busca de um financiamento, então toda essa questão de montar um projeto de aprender a elaborar de buscar metodologias tudo isso foi me apaixonando demais, no entanto eu fui percebendo que nesse momento não é possível para eu viver só de pesquisa, por conta dessa falta de incentivo, a verba vem e quando vem tem seus entraves. Ai penso um pouco no que a M. falou da precarização. Quando o pesquisador de fato pode ser só pesquisador? ou pode ser pelo menos oito horas por dia pesquisador? O tanto que existe de incentivo tanto da universidade quanto dos órgãos de fomento? Ai fica, para mim, a evidência desta precarização porque poderia sair muito melhor, se sai bom poderia sair muito melhor numa pesquisa dentro da universidade (…). Então o que falta eu acho que é só o dinheiro, porque eu acho que existe sim pessoas dispostas a pesquisar, pessoas que estão tão apaixonada quanto eu por todo aquele momento de pesquisador de entrar em contato com seus sujeitos com suas teorias. A vontade existe, acredito que as vezes não existe a oportunidade de que você se dedique para. (..).” A. L.

O termo pesquisa é entendido pelos participantes como algo maior do que a pesquisa desenvolvida no âmbito do individual. Ela necessita de uma capacitação vivenciada, e o espaço dos Núcleos é que proporciona esta experiência. No entanto, estas oportunidades não são oferecidas em grande escala, pois há um déficit desde a quantidade de professores para oferecer este conhecimento para os alunos, quanto financeiro, como dissemos anteriormente. As pesquisas realizadas, acabam sendo da organização e do desejo do coordenador e participantes dos Núcleos, que elaboram os projetos e em sua maioria literalmente “pagam para ver [conhecer]”, fazendo rateio para apresentar suas pesquisas, realizar eventos e demais atividades que são custeadas pelos próprios integrantes do Núcleo.

Diante de diversas dificuldades apresentadas os Núcleos que desenvolvem pesquisas acabam criando um espaço para os alunos viabilizarem e acrescentarem qualidade em seus trabalhos. A maioria dos Núcleos socializa seus trabalhos (no espaço no Núcleo), discutem e refletem sobre a pesquisa que estão realizando, mesmo que a pesquisa desenvolvida não englobe todos os participantes dos Núcleos, os que não estão envolvidos apreendem e absorvem o conhecimento das experiências discutidas e relatadas.

A finalidade das pesquisas realizadas também foi abordada na investigação. Os Núcleos proporcionam pesquisas, mas o que é feito a partir dessas pesquisas? Qual o retorno que o universo acadêmico fornece para a sociedade? Este ainda é um ponto a ser trabalhado no âmbito da academia, pois a maioria das grandes pesquisa só são úteis para a titulação dos pesquisadores.

“Eu posso dizer que sou um pesquisador quase que profissional eu entrei de gaiato no navio numa pesquisa do S. e entrei numa pesquisa individual numa tese de doutorado, como consultor e uma coisa que vou contar aqui para vocês é da minha frustração que tenho desta pesquisa que tenho com o doutor S. é que basicamente pelo menos a perspectiva que eu tinha na minha mente é que aquela tese ia se tornar uma coisa prática. Nós fizemos uma pesquisa bem prática sobre o uso de drogas dentro da PUC fizemos o levantamento, participamos mais de anos fazendo o levantamento via estudos, consultamos bibliografia e tudo o que tivemos de consultar para fazer esta pesquisa ai individual do doutorando S. e ai nós apresentamos um projeto para a Reitoria e este projeto está lá até hoje e não teve retorno, ai uma frustração minha pessoal do público envolvido nesta área que lidei com a questão de drogas praticamente minha vida toda. Então tem essa forma que vocês colocaram que de repente é uma pesquisa que serviu apenas para o S. ser doutor, para o doutorado dele, está lá bonitinha arquivada na biblioteca, fez o livrinho bonitinho, com dedicatória até para mim está lá meu nome, está lá ele guarda lá na casa dele como se fosse um troféu, talvez, e eu não vejo vantagem nenhuma em troféus pendurados. A importância que eu veria dessa pesquisa era realmente de ver e implantar um programa de dependência química dentro da PUC – SP, ai sim haveria uma mudança de visão (…).” V.

A formação se destaca na preocupação de abranger os espaços de participação dos alunos integrantes dos Núcleos, que sairia do âmbito individual e se estenderia ao coletivo, socializando as dúvidas e ampliando os estudos. Isso somente se dará com a prática e mudanças de atitudes durante o processo de formação orientado para uma perspectiva mais democrática de conhecimentos e mais ética na postura do sujeito profissional.

 “Eu vejo que a grande questão é a formação que em nossa profissão nós estamos a muitos anos discutindo a própria formação, não que isto não seja positivo e trazer esta temática significa dizer que alguém trouxe esta temática para ser discutida e incluir este diálogo enquanto forma de pesquisa e nisso eu acredito que nós temos que sair do nosso plano individual e ir para o coletivo mesmo e isto é um desafio por mais que a gente fale. Nós temos que vivenciar isto e não só ficar no discurso e a Pesquisa dentro desta teoria não é fácil(…)E ai pensar isto e repensar o porquê de nós sermos educados em nossas caixinhas e quando nós temos que sair de nossas caixinhas e olhar para tudo, o macro ali sem as caixinhas separadas. Esse exercício é muito difícil, ai a questão é a seguinte é complicado mas tem de ser feito. E ele só pode ser feito através da busca incansável da nossa própria formação. E os Núcleos tem isto como positivo porque ele traz essa alternativa para o estudo e um estudo que você tende a discutir e repensar essas questões. (…).” J.

Verificou-se, que para os coordenadores, os NEPs não apenas contribuem como aprofundamento teórico, mas como aprendizado de pesquisa. É um espaço aberto, que foge dos limites dos sítios disciplinares modificando assim, a forma de tratamento dos participantes, tornando o trabalho mais participativo e coletivo. Integram os Núcleos, em sua maioria, diversos tipos de profissionais e áreas diferentes, o que possibilita um diálogo amplo, com distintas opiniões e críticas, proporcionando crescimento profissional tornando cada vez mais clara a articulação entre teoria e prática.

“Eu acho que o núcleo é um lugar privilegiado, porque é um espaço em que a troca é mais, horizontal. Por isso essa formação mútua, tanto do coordenador como do aluno é mais facilitada, porque ele não tem essa situação mais vertical de uma aula em que o professore tem o compromisso de uma determinada matéria para ser dada. O núcleo é pelo menos, (intervenção externa), como nós entendemos, ele é um espaço de discussão, de uma discussão horizontal, inclusive o meu núcleo, é um núcleo interdisciplinar. Que eu chamo de transdisciplinar, nós temos pessoas de diferentes formações; assistentes sociais, naturalmente, psicólogos, pedagogos, nutricionistas, professores de educação física; então é um espaço de mútuo conhecimento. E agente transita então, por diferentes áreas de conhecimento, numa perspectiva de perceber as questões sociais, na sua totalidade e não apenas de um ângulo. Então eu acho que essa é uma possibilidade muito maior que o núcleo dá em relação a uma sala de aula, um curso, um curso que tem uma programação definida.” (Myriam)

Os alunos, numa visão geral dos coordenadores, são os sujeitos dos Núcleos. No Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC-SP viu-se este diferencial pois, a participação dos alunos é muito efetiva. Em todos os Núcleos pesquisados existe a participação e a oferta aberta para todos aqueles que queiram participar das atividades, alunos ou não.

Há uma rotatividade grande encarada pelos coordenadores, por lado, como negativa pois, afeta o andamento e continuidade das pesquisas, mas por outro, positiva, uma vez que possibilita o aluno conhecer diferentes trabalhos e experiências, muitas delas que fortalecem e substanciam os estudos para as pesquisas individuais.

A troca de experiência dos alunos, participantes e coordenadores é muito rica, aproximando as questões do cotidiano na academia, novamente, articulando a prática da teoria, atualizando saberes e trabalhando em conjunto.

“Os alunos são os sujeitos dos núcleos: são eles que dão materialidade ao trabalho proposto. Mesmo que haja um rodízio de alunos, na medida em que a sua permanência depende, em parte, de sua inserção no programa de Pós – Graduação, eles podem permanecer no núcleo por vários semestres, garantindo um processo de desenvolvimento do núcleo e dos alunos, em diferentes níveis e etapas.” (M. L. Barroco)

“Primeiro que sem alunos não existe Núcleos, pois o Núcleo tem vida através da experiência de cada aluno, da experiência prática, do exercício investigativo de cada aluno, do exercício que eles estão inaugurando com seus projetos de dissertação e tese; então é fundamenta; se não tiver isso o Núcleo deixa de ter vida, deixa de ter objetivos e o objetivo é fazer exatamente essa articulação, conjugar teoria e prática, conjugar pesquisa e estudo, conjugar a prática com a pesquisa e a realidade em que ele está inserido. Ou seja, é sempre uma apropriação do campo e aproximação da realidade social para conhecer melhor estes conceitos.” (M. L. Rodrigues)

Não diferente de qualquer atividade acadêmica em uma universidade brasileira, os NEPs do Programa de Ensinos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC – SP sofrem com a precarização da Educação, pela falta de investimento e reconhecimento, por vezes da própria instituição universitária, com sobrecarga dos docentes.

Dois fatores limitantes analisados por nós, a partir da fala dos coordenadores, referem-se à falta de financiamento para as atividades dos Núcleos, tais como pesquisas, publicações, participação em eventos, dentre outras. Também quanto à segregação dos Núcleos, os coordenadores acreditam que se houvesse maior articulação entre estes o que possibilitaria a melhoria das atividades do Programa como um todo. Os alunos conheceriam a diversidade de ideias e das atividades do Programa, fortaleceria a busca por financiamentos e poder-se-ia investir mais em pesquisa, além do desafio do trabalho coletivo que na opinião dos coordenadores poderia ser mais produtivo.

Outros pontos foram levantados, tais como a instabilidade dos alunos, os intercâmbios que poderiam ser maiores e da realização de fato das pesquisas independentes das dissertações e teses de doutorado.

 “(…)O limite que eu tenho é que eu não posso pagar quem eu acho que precisa vir aqui, eu tenho que pedir por favor, se quiser vir de graça, entendeu, a gente não tem verba para isso(…).” (Miriam)

“O limite que eu vejo hoje no Núcleo é a impossibilidade da publicação, porque quando nós tínhamos o recurso CAPES nós tínhamos muito mais facilidade para dar visibilidade para a produção do Núcleo, porque nós tínhamos a produção, tínhamos os recursos do Núcleo, os recursos da CAPES para a produção ser transformada num veículo de publicação, como um livro. E quando a CAPES retirou essa linha de auxílio ficou muito difícil então para a gente tornar público nossa produção, pois na maioria das vezes, nós temos uma excelente produção com recomendação que fosse publicado, mas infelizmente é difícil porque o Núcleo não tem recursos (…).” (M. L. Martinelli)

“Um fator limitante é que tudo somos nós que pagamos então Seminários que fazemos saem dos nossos próprios recursos, se fazemos, ou vamos a um evento temos que fazer rateio para pagar.” (Aldaíza Sposati)

“(…). E a gente no Núcleo, embora deseje tanto fazer pesquisa, porque estamos convencidos de que é por ai o caminho melhor para o conhecimento, nós não temos tido condições favoráveis de financiamento (…).”  (Mariângela e M. L. Carvalho)

 “Falta troca, falta um intercâmbio melhor, falta maior visibilidade dos trabalhos que os Núcleos vem fazendo, do ponto de vista de discutir suas pesquisas (…) Porque não fazemos um encontro semestral ou anual, que seja, para socializar as atividades que cada Núcleo vem desempenhando, para disponibilizar estes conhecimentos para o aluno? Veja quando falo troca de experiências não é no sentido de mostrar capacidade do Núcleo, mostrando a produção como um troféu de competição. Digo troca no sentido de ideias mesmo. Quais são as ideias (por exemplo) que norteiam a noção de inclusão social? Que tipo de concepção nós estamos trabalhando? E assim por diante, acho que nós não sabemos discutir a questão Inter núcleos, não sabemos fazer isto de uma maneira formal, de uma maneira mais democrática. Às vezes penso que só sabemos fazer isso no âmbito da competição, no campo do se mostrar o que faz e não no campo da troca de ideias.” (M. L. Rodrigues)

De acordo com as conceitos centrais observamos que os Núcleos proporcionam e estimulam estudos e publicações. É um espaço onde o aluno se torna um sujeito participante, pois pode manifestar-se e opinar sob as decisões do Núcleo, especialmente sobre os estudos, as pesquisas, e os rumos programáticos dos eventos e publicações, mantendo a particularidade e singularidade de cada Núcleo. Observamos também que é um importante espaço interdisciplinar, dimensão muito colocada por todos os entrevistados, favorecendo não só a participação de alunos das diferentes áreas da Pós-Graduação como também de diferentes profissionais que ainda não cursam a Pós-Graduação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A “Prática Refletida” é uma das atividades mais importante proporcionada pelos NEPs; os Núcleos trazem diversas realidades extra universitárias para serem discutidas no âmbito acadêmico através da integração de profissionais que não estão na universidade com projetos de pós – graduação, mas na “prática”, onde os NEPs tornam-se meios para os estudos e atualizações. Assim, sustenta um novo olhar para realização de novos projetos e a viabilização da participação de outros profissionais, que estão trabalhando e que desejam realizar a reflexão do tema discutido. Este tipo de participação evoca, posteriormente, na maioria dos profissionais participantes, a inserção destes no processo seletivo da Pós – Graduação.

Os Núcleos proporcionam a participação de diversos profissionais, graduandos e pós-graduandos, de diferentes áreas do saber. Isto enriquece as discussões, uma vez que trazem realidades muitas vezes desconhecidas para o Serviço Social, pontos de vista diferenciados que contribuem e enriquecem não só a pesquisa, individual e coletiva, como também a vida de cada participante.

A atualização profissional também viabilizada pelos NEPs, que se preocupam em atualizar conhecimentos com renovações e surgimentos de novas leis, práticas, polêmicas e dinâmicas que ocorrem no Serviço Social, contextualizando não só para o âmbito profissional, mas para o âmbito acadêmico, já que para o serviço social é um diálogo recorrente entre a teoria e a prática.

Percebeu-se, também, que ainda são poucos os Núcleos que realizam Pesquisas no Programa. Suas configurações são mais voltadas para realização de estudos, e as pesquisas realizadas também não são abertas para todos, cada NEP têm uma política de integração de seus pesquisadores e que sem a procura, muitas vezes dos próprios alunos, não se tem a formação para ser pesquisador.

Sabe-se que o processo de aproximação dos Núcleos não é inteiramente tranquilo. Mas como afirma Morin (2000), “É preciso também associar noções antagônicas, como o princípio de inclusão e exclusão. É preciso conceber o sujeito como aquele que dá unidade e invariância a uma pluralidade de personagens, de caracteres, de potencialidades” (p.128).

A postura por essa integração coloca-se como desafio, exige constantes questionamentos e reflexões em que se considere um universo de conhecimentos e capacitações que os Núcleos proporcionam, ampliando assim, suas estratégias, seus conhecimentos e o sentido do humano. Entendendo que a aproximação como atitude estratégica engloba a pluralidade de ideias e emancipação das ações, contribuiriam para esta estratégia, o aprimoramento do sujeito ético, entendendo que, “(…) a ética não pode reduzir-se ao político, do mesmo modo que o político não pode se reduzir à ética. Não podemos opor esses dois termos de modo absoluto e nem complementarizá-los harmoniozamente. Estamos condenados à sua dialógica, ou melhor, a manter simultaneamente seu laço indissociável e seu antagonismo irredutível. Somente esta dialógica poderá fazer da política, essa arte da incerteza, uma grande arte que seja posta a serviço do ser humano” (Morin, 1998, p.76-77).

REFERÊNCIAS

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[1] Assistente Social – Mestre em Serviço Social pela PUC – SP;

[2] Formada na primeira turma da Escola de Serviço Social do Brasil, foi professora do Curso de Serviço Social no Instituto de Serviço Social e na PUC – SP, foi reitora, também na PUC – SP, por oito anos e até hoje é lembrada pela sua trajetória em defesa da cidadania e da democracia.

[3] Graduada (1946) e Doutorada (1975) em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC/SP. Professora Emérita da PUC/SP, Coordenou o Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia da PUC/SP (1997-2005), atualmente é docente, coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas do Envelhecimento-NEPE/PUC/SP.

[4] Atualmente Consultor Acadêmico da Consultoria Técnica de Apoio à Gestão Acadêmica (Consulteg) da PUC-SP.

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