A evolução biológica na óptica de alunos do ensino fundamental

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ARTIGO ORIGINAL

LUCKMANN, Cristiane B. [1], NOBRE, Suelen B. [2]

LUCKMANN, Cristiane B. NOBRE, Suelen B. A evolução biológica na óptica de alunos do ensino fundamental. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 01, Vol. 04, pp. 113-125 Janeiro de 2019. ISSN:2448-0959

RESUMO

A evolução biológica é amplamente mencionada nos documentos norteadores da educação nacional, inclusive sendo citada como eixo unificador dos conteúdos de Ciências Naturais. No entanto, observou-se em investigações científicas que ainda são latentes as barreiras epistemológicas e didáticas para o ensino de evolução. Diante deste cenário, optou-se por analisar os conhecimentos prévios de discentes do 7º ano do ensino fundamental, da rede pública de ensino de Estância Velha – RS, com intuito de aprimorar futuros planejamentos didático-pedagógicos. Metodologicamente esta investigação caracteriza-se na perspectiva qualitativa, com exploração da análise de conteúdo. Os instrumentos de coleta de dados foram um questionário semiestruturado, desenvolvimento de uma sequência didática (teórico-prática) e observações diretas no meio escolar. O grupo analisado foi composto por 24 estudantes, o perfil da turma revela uma predominância de meninos (58 %), na faixa etária 12-13 anos (75 %). Inicialmente os discentes foram questionados sobre o que é a evolução biológica? Constatou-se que os estudantes apresentam entendimento incipiente acerca da temática, mais de 50% citaram definições como: “A evolução permite as mudanças para sobrevivência dos seres vivos” e “Estudos sobre a evolução do ser humano”. Foi possível notar nas falas dos alunos A1, A3, A20 e A23 a concepção que os mesmos têm sobre os animais, quando citam seres humanos de forma separada de outros seres vivos, indicando que não classificam a espécie humana como um animal. Os resultados de forma geral, demonstraram que os alunos compreendem a Biologia Evolutiva como um conjunto de processos que permitem a melhoria e/ou aprimoramento de características anatômicas e fisiológicas dos organismos vivos. Observou-se ainda, que os níveis de aceitação da teoria evolucionista estão intimamente influenciados pelos preceitos religiosos do grupo de familiares dos estudantes, onde há constante dicotomia entre ciência e religião. Considera-se pertinente o fomento de discussões sobre a história da ciência e suas contribuições diretas para o desenvolvimento da sociedade contemporânea, acredita-se que este debate possa corroborar para amenizar alguns conflitos culturais apresentados por alguns alunos que entendem a evolução como oposta às suas convicções pessoais.

Palavras-chave: Biologia Evolutiva, Ensino, Ciências Naturais, Evolucionismo.

INTRODUÇÃO

A Evolução Biológica atualmente consta na Base Nacional Curricular Comum BNCC (Brasil, 2017) como conceito unificador de conteúdos de Ciências Naturais, sendo essencial para o entendimento desta área da Biologia. Além disso, o assunto tem ganhado destaque no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) dos últimos anos e, portanto, é fundamental investir em metodologias que possibilitem aprofundar o ensino desta temática.

A evolução biológica, segundo Futuyma (2009, p.4) “num sentido mais amplo significa descendência com modificação”, e nesse contexto está de acordo com Ridley (2006, p. 28) que diz:

Evolução significa mudança, mudança na forma e no comportamento dos organismos ao longo das gerações. As formas dos organismos, em todos os níveis, […] podem ser modificadas a partir daquelas dos seus ancestrais durante a evolução.

O ensino de teorias evolutivas, traz grandes desafios tal como conciliar visões científicas e religiosas, considerando-se que as concepções cristãs acerca da origem da vida podem impedir que os professores trabalhem este conteúdo de forma imparcial e, conforme Oleques (2010, p.18) salienta, “muitos não ensinam para evitar questões polêmicas” tendo como resultado uma abordagem didático-pedagógica vaga desta temática.

A busca por metodologias que despertem o interesse do aluno e que sejam abordadas de forma clara e precisa é de suma importância, pois o estudante inquisitivo e participativo tem uma aprendizagem mais significativa. Como Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2011, p.131) afirmam, “nenhum aluno é uma folha de papel em branco em que são depositados conhecimentos” e é essencial que o professor compreenda isso ao planejar suas aulas pois, de acordo com Bizzo (2012, p. 66) “é importante entender que sem conhecer as ideias do educando, é muito difícil transformá-lo” cabendo ao docente optar por métodos que incentivem o aluno a buscar e construir seu próprio conhecimento.

Segundo Alencar et al. (2015) o uso de uma sequência didática, contendo diferentes formas para abordar um conteúdo, torna as aulas mais interessantes e menos repetitivas, despertando no aluno o desejo de desenvolver e ampliar seus saberes.

Este artigo apresenta conceitos de evolução e seleção natural, além das teorias evolutivas, buscando identificar os conhecimentos de discentes do 7º ano do ensino fundamental acerca do tema. Através de uma pesquisa qualitativa exploratória com uso de um questionário semiestruturado, coleta de dados empíricos, registros e observações, e com a aplicação de uma sequência didática para se trabalhar este conteúdo, foi possível reconhecer e auxiliar a construção dos saberes dos alunos envolvidos.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO SOBRE A BIOLOGIA EVOLUTIVA

A Evolução Biológica é conhecida na Biologia como a mudança das características hereditárias de uma população de seres vivos de uma geração para outra, fazendo com que as mesmas mudem e se diversifiquem ao longo do tempo. Conforme Futuyma (2009, p.4):

[…] um sistema em evolução é simplesmente aquele que descende de uma entidade, de uma geração para outra, ao longo do tempo, e no qual as características das entidades diferem através das gerações.

Portanto, evolução se trata de mudança; são alterações genéticas, anatômicas e comportamentais que ocorrem ao longo de várias gerações, se acumulando no decorrer dos anos, resultando em linhagens visivelmente diferentes, que levam então ao surgimento de novas espécies. A este respeito, Ridley (2006, p.28) afirma, acerca dessas mudanças, que:

As formas dos organismos, em todos os níveis, desde sequências de DNA até a morfologia macroscópica e o comportamento social, podem ser modificadas a partir daquelas dos seus ancestrais durante a evolução.

Um dos cientistas precursores do evolucionismo foi o naturalista francês Jean Baptiste Lamarck (1744-1829) que apresentou uma proposta com dois mecanismos. O primeiro consistia na adaptação dos seres vivos para garantir a sobrevivência e está vinculado à lei do uso e desuso cuja definição diz que o uso contínuo de uma determinada estrutura orgâ­nica promoveria o seu desenvolvimento, enquanto o não-uso promoveria a sua atrofia. Conforme Futuyma (2009, p.18):

Espécies em ambientes diferentes têm necessidades diferentes, e então usam certos órgãos e apêndices mais do que outros. Os órgãos exercitados com maior intensidade atraem mais do “fluido nervoso”, o qual os aumenta; inversamente, órgãos menos usados tornam-se menores.

O outro mecanismo utilizado por Lamarck era a herança de características adquiridas, onde frequentemente usou o exemplo do pescoço da girafa para discutir suas concepções. Segundo Ridley (2006, p.31-32): “[…] as girafas ancestrais haviam se esticado para atingir folhas mais altas nas árvores. O esforço fez com que seus pescoços se tornassem levemente maiores. Seus pescoços mais longos foram herdados pela sua prole […]”. Isto é, Lamarck acreditava que todas as características adquiridas pela lei do uso e desuso seriam transmitidas aos descendentes e, além disso, sugeria que a evolução ocorria por desejo ou esforço dos organismos.

Nesse meio tempo, Charles Darwin (1809-1882), desenvolvia suas próprias concepções ao encontrar, durante sua expedição a bordo do Beagle, diferentes tentilhões nas Ilhas Galápagos. De acordo com Futuyma (2009, p.20): “[…] o ornitologista John Gould ressaltou que os espécimes de pássaros […] que Darwin catalogou em Galápagos eram tão diferentes de uma ilha para outra que eles representavam espécies diferentes”. Isso fez com que Darwin chegasse à conclusão de que as espécies tinham sido originadas a partir de um ancestral comum e que as alterações se deram devido às adaptações diferentes para cada ambiente. Darwin acreditava que apenas os animais mais adaptados atingiam a idade adulta, transmitindo suas características aos descendentes. Ele chamou esse princípio de seleção natural. Segundo Ridley (2006, p. 34), “[…] devido à luta pela vida, formas que são mais bem-adaptadas à sobrevivência deixam uma progênie maior e automaticamente aumentam em frequência de uma geração para outra”.

Apesar de correto quanto ao mecanismo de seleção natural, devido à falta de conhecimento sobre Genética, Darwin não conseguiu explicar como as características vantajosas surgiam nos organismos e eram transmitidas.

Durante muitas décadas foram surgindo diversas teorias contrárias a de Darwin, segundo Futuyma (2009, p.23) neste período “o pensamento científico sobre o mecanismo da evolução permaneceu num estado de desarranjo incrível.” Esse conflito teve resolução apenas na década de 30, com o surgimento do neodarwinismo, uma complementação do darwinismo apoiado no desenvolvimento da Genética.

A síntese da teoria da seleção natural de Darwin com a teoria mendeliana da hereditariedade, feita por eles, estabeleceu o que é conhecido como neodarwinismo, teoria sintética da evolução ou síntese moderna. (RIDLEY, 2006, p.38)

Essa síntese resultou em uma teoria mais abrangente e embasada passando a ser, portanto, mais aceita para explicar o processo evolutivo dos seres vivos e rejeitando as teorias anti-darwinianas, reconhecendo como principais fatores evolutivos a mutação, a recombinação gênica e a seleção natural. O processo de evolução biológica tem sido alvo de grandes controvérsias no decorrer da história. Atualmente, é quase impossível abandonar as ideias evolucionistas por uma ciência estática como as ideias criacionistas ou fixistas pro­postas pelos religiosos.

O ENSINO DE EVOLUÇÃO BIOLÓGICA

Para o ensino de Ciências Naturais, que é construído desde os anos iniciais do ensino fundamental, cabe ao docente diagnosticar os conhecimentos prévios dos alunos e aproveitá-los da melhor maneira pois, segundo Bizzo (2012, p.66) “é importante entender que sem conhecer as ideias do educando, é muito difícil transformá-lo”. Também é preciso lembrar de respeitar a individualidade de cada um, para que se possa desenvolver uma aprendizagem significativa. Sabe-se ainda que o professor não é detentor de todo o conhecimento, portanto, a construção dos saberes se dá somando as contribuições de alunos e educadores sendo que, ao final do processo, ambos terão aprendido algo novo.

Bernardes et al. (2016) destacam a importância do aluno como sujeito ativo colaborando para o desenvolvimento do seu conhecimento científico. É preciso que o ensino consiga articular os conteúdos trabalhados em sala de aula com o cotidiano dos alunos, estimulando suas vivências.

O ensino de Evolução Biológica, apesar de um importante componente nos currículos de Ciência e Biologia, sendo um eixo integrador de conteúdos, é um tema bastante polêmico e causa receio em grande parte dos professores. É um assunto que tende a gerar discussões em busca de um consenso e grande parte dos educadores veem neste fato um verdadeiro desafio para se trabalhar a temática. De acordo com Oleques (2010, p.18) “muitos não ensinam para evitar questões polêmicas”, deixando de ensinar conteúdos fundamentais para a compreensão da Ciência como um todo.

O maior problema em trabalhar nesta temática envolve as concepções religiosas dos alunos e às vezes da própria escola, que contrariam as teorias evolutivas, podendo gerar conflitos. De acordo com pesquisa realizada por Licatti (2005), existem professores que não conseguem conciliar suas visões científicas e religiosas, mas também há aqueles que apresentam um ponto de vista mais integrador entre religião e ciência, respeitando as opiniões dos alunos e ensinando a Evolução como não sendo uma verdade absoluta, trazendo ambas concepções em um mesmo plano.

Um fator relevante para o sucesso no processo de ensino e aprendizagem é a escolha correta de estratégias para se trabalhar determinados temas. O planejamento de uma sequência didática permite deixar um pouco de lado as costumeiras aulas expositivas. Segundo Alencar et al. (2015, p.8) “ a sequência didática deve conter várias formas de abordagem do conteúdo, para que as aulas não se tornem entediantes e repetitivas”, permitindo ao aprendiz a construção de seus saberes, tornando-o mais capaz de relacionar e argumentar sobre as temáticas estudadas.

O ensino de Ciências possibilita trabalhar com diversas metodologias, como Bizzo (2012, p.65) afirma: “existe uma ampla gama de materiais à disposição do professor que podem contribuir para a melhoria de seu trabalho”, sendo o educador responsável pela escolha do que está dentro da realidade do ambiente em que leciona. De acordo com Bernardes et al. (2016, p.3):

[…] o professor deve estimular a aprendizagem dos alunos, sendo o responsável pela dinâmica do processo de aprendizagem. O professor deve propor novas formas de ensinar favorecendo a participação e o interesse dos alunos.

Alencar et al. (2015) destacam a importância de sequências didáticas, fazendo uso de modelos e jogos, para a construção dos saberes dos estudantes, pois estes métodos possibilitam ao aluno complementar os conteúdos transmitidos pelo professor e relacioná-los com o seu cotidiano.

Outra estratégia de ensino para a temática evolução, é a construção de cladogramas, a qual permite elucidar a ancestralidade e as modificações sofridas pelos seres ao longo do tempo de forma mais simples, possibilitando uma nova visão da natureza ao se compreender melhor como ocorre o processo de evolução.

O uso de cladogramas como base para as aulas, além de solucionar más interpretações sobre a teoria evolutiva, ajuda professores e estudantes a compreender a evolução como um processo intensamente atuante na história da vida. (SANTOS; CALOR, 2007, p.8)

Portanto, a escolha de estratégias diferenciadas, utilizando metodologias envolventes e atraentes ao olhar do aluno, é fundamental para o sucesso no processo de ensino e aprendizagem; é essencial sair da rotina de aula expositiva, permitindo que o aluno desenvolva seus próprios conceitos.

METODOLOGIA

Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo qualitativo-exploratório, segundo Prodanov e Freitas (2013, p. 70), este tipo de investigação “[…] considera que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números”.

É, portanto, um método de investigação científica que se foca no caráter subjetivo do objeto analisado, dispensando cálculos e estatísticas e envolvendo levantamento bibliográfico, aplicação de questionário, análise de respostas e elaboração e sequência didática para o ensino da temática Evolução Biológica. Além disso, este estudo investigativo se baseia na coleta de dados empíricos, registros em diário de campo e observações diretas da professora-pesquisadora. A coleta de dados foi realizada pela autora no período de abril a junho de 2017 e foi aplicada a 24 alunos, do 7º ano do ensino fundamental, de uma escola municipal de Estância Velha – RS, localizada na zona urbana.

O instrumento de coleta de dados foi um questionário semiestruturado, elaborado dentro do contexto do sétimo ano, com base no conteúdo previsto (programático) para ser estudado nesta série. O mesmo encontra-se no final do artigo como anexo 1.

Para avaliar as respostas dos estudantes, optou-se pelo método da análise de discurso que, de acordo com Caregnato e Mutti (2006, p.2) “trabalha com o sentido e não com o conteúdo do texto, um sentido que não é traduzido, mas produzido”. Ou seja, para considerar as argumentações dos alunos, é preciso primeiro classificá-las, unindo-as por seu significado.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O grupo analisado é composto por 24 estudantes do 7º ano do ensino fundamental da rede municipal de Estância Velha, RS. O perfil da turma revela uma predominância de meninos (58 %) e de faixa etária 12-13 anos (75 %), ou seja, idade estimada para os alunos desta série.

A primeira questão preocupou-se em levantar dados sobre a concepção de Evolução Biológica por parte dos estudantes e obtiveram-se respostas com poucas variações, as quais apresento de forma mais detalhada no quadro 1.

Quadro 1. Respostas da questão “O que você entende por Evolução Biológica?”

RESPOSTAS FREQUÊNCIAS
Evolução da vida. A10, A12, A13, A22
Evolução dos seres vivos. A1, A2, A3, A6, A17, A20, A21
Evolução do ser humano. A23
Mudanças e adaptações para sobrevivência. A8, A9, A14
Estudo da vida. A7, A11, A16, A24
Não sabe, não lembra ou não respondeu. A4, A5, A15, A18, A19

Fonte: dados da pesquisa.

A maioria das respostas para esta questão mostrou um entendimento vago acerca do tema, porém mais de 20% dos estudantes não souberam responder. Além disso, foi possível notar nos alunos A1, A3, A20 e A23 a concepção que os mesmos têm sobre os animais, quando citam seres humanos de forma separada de outros, indicando que não classificam a espécie humana como um animal.

As respostas que mais se aproximaram do que Ridley (2006, p.28) afirma sobre evolução, como sendo “mudanças entre gerações de uma população de uma espécie”, foram dos estudantes A8, A12 e A14, que dizem que Evolução Biológica é a mudança que um ser vivo sofre ao longo do tempo para se adaptar ao meio em que vive, que vai de encontro ao que Futuyma (2009 p.24) retrata: “que é a conjunção de mutação e a seleção natural que causa evolução adaptativa”.

Foi possível observar que os alunos não têm uma visão clara a respeito dos processos que envolvem a evolução biológica, onde fica explícito que para eles as alterações sofridas pelos seres vivos não acontecem ao acaso, discordando de Ridley (2006, p.105) que afirma:

A seleção natural produz evolução quando o ambiente muda; ela também produzirá modificações evolutivas em um ambiente constante, caso surja uma nova forma que sobreviva melhor do que a forma corrente da espécie.

A segunda pergunta era “O que contribuiu para que, no decorrer da história, alguns animais tenham alterado seus hábitos, sofrido modificações anatômicas ou tenham deixado de existir?”. Nesta questão, as respostas dos alunos A8, A9, A15, A20 foram as que mais conciliaram com Futuyma (2009, p.712) que diz que “a extinção foi causada pelo insucesso de se adaptar às mudanças no ambiente”, retratando também as alterações climáticas como fator mais provável para deslocamentos e mudanças genéticas. As respostas dos alunos estão dispostas no quadro 2.

Quadro 2. Respostas para a questão 2.

RESPOSTAS FREQUÊNCIAS
Mudanças climáticas, escassez de alimentos e adaptação. A8, A9, A15 e A20
Desmatamento, extinção, caça, poluição. A4, A7, A10, A11, A12, A13, A17, A19, A21, A22, A24
Falta de água e alimento, pessoas matando. A3
Alterações de hábitos para sobreviver. A1, A18
Evolução A14, A5

 

Quadro 2. Respostas para a questão 2.

RESPOSTAS FREQUÊNCIAS
Doenças, extinção, miscigenação. A2
Mutação. A23
Não soube responder. A6

Fonte: dados da pesquisa.

Com base neste quadro, pode-se perceber que a maioria dos estudantes (46 %) vê as adaptações e a extinção como algo causado pelo homem quando citam o desmatamento e a poluição, não levando em consideração que estas modificações já ocorriam muito antes do surgimento da espécie humana, como por exemplo, a extinção em massa no período Paleozoico, sobre a qual Futuyma (2009, p. 176) destaca:

[…] essa extinção em massa pode ter sido a segunda maior de todos os tempos. Ela pode ter sido causada por uma queda de temperatura e uma queda no nível do mar, pois houve geleiras nesse período nas regiões polares dos continentes.

O discente A23, apesar de apresentar uma resposta extremamente breve “Mutação”, não foge do que a teoria moderna da evolução reconhece, pois conforme Ridley (2006, p.51), “as mutações mais importantes para a teoria da evolução são as que ocorrem na produção dos gametas”. Além da mutação, o Neodarwinismo reconhece como principais fatores evolutivos a recombinação gênica e a seleção natural, podendo se enquadrar no contexto deste último as respostas de A1 e A18.

A terceira pergunta se tratava de uma situação-problema: “Em um gramado, existem duas espécies de gafanhotos: uma população de gafanhotos verdes e uma população de gafanhotos marrons. Eles vivem e se reproduzem neste ambiente até que surge um pássaro que é seu predador. Ao final de alguns ciclos, qual das populações terá sobrevivido? Por quê?” Nesta questão, 75 % dos estudantes responderam que o gafanhoto verde sobreviveria e destes, 14 alunos associaram a sobrevivência à camuflagem no gramado. Os discentes A4, A7, A12 e A18 responderam que o verde sobreviveria, porém, as explicações variaram. A4 disse: “É o verde porque eles são mais saudáveis que os marrons.”. A7 e A12 explicaram: “É o verde porque não tem como o gramado ser marrom.”. Já a justificativa de A18 foi: “Verdes, pois tem veneno.”. O aluno A15 respondeu que as duas espécies sobreviveriam, pois o marrom poderia se camuflar na areia. Uma má interpretação da pergunta fez com que A5 e A6 respondessem que o pássaro sobreviveria, pois comeria os gafanhotos. Os alunos A1, A19 e A23 não responderam.

Na quarta questão, que perguntava sobre fósseis, A8, A9, A15 e A20 foram os estudantes a responder de forma mais completa, mencionando o decorrer dos anos como fator para a fossilização de animais, plantas e ossos. A5 e A6 não souberam responder e o restante dos alunos se referem à fóssil como ossos antigos enterrados, algo bem comum no contexto educacional, conforme Rodrigo, Lara e Suecker (2014, p.7):

É comum a associação da palavra fóssil apenas a ossos de dinossauros. Esse equívoco possivelmente é resultado da superficialidade com que o tema é trabalhado nas escolas. Os estudantes que apresentaram esta definição não abordam toda a diversidade de vertebrados que existiram e ainda existem na Terra, desse modo sugere-se que a resposta apresentada foi incompleta, não dando conta de todas as possibilidades de fossilização que podem ocorrer com os seres vivos.

O questionário encerrou-se com a proposta de uma análise das características de alguns animais para a construção de um cladograma. Com exceção de A6, A14, A10 e A24, todos montaram cladogramas parecidos, com coerência nas linhagens evolutivas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente artigo levantou as principais concepções que um grupo de alunos do 7º ano do ensino fundamental da cidade de Estância Velha tem sobre o tema Evolução Biológica.

Na análise das respostas, foi possível verificar que os estudantes, em geral, veem a Biologia Evolutiva como um sistema que visa a melhoria de características dos seres vivos. Já durante as aulas ministradas, perceberam-se as dificuldades dos alunos em compreender a Seleção Natural, pois na concepção deles um indivíduo vai produzir uma prole adaptada a uma determinada situação, forçada a isso ou por escolha própria. Notou-se que eles não conseguem absorver a ideia de que as modificações ocorrem nos seres vivos por acaso e que, quando vantajosas, são transmitidas aos descendentes.

Driblar as visões religiosas acerca da origem da vida também é um fator preocupante, principalmente no ensino fundamental, onde ainda existe uma forte influência da família neste sentido. É necessário ser imparcial, sem expor opiniões próprias que possam ofender os estudantes que veem na religião a explicação para o surgimento da vida.

A utilização de metodologias alternativas no ensino de Evolução Biológica deve ser estimulada nas instituições, pois o uso exclusivo de aulas expositivas-dialogadas torna a disciplina cansativa e desinteressante ao olhar dos estudantes. A abordagem da temática de maneira diversificada, intercalando o método tradicional com jogos, experimentos e atividades práticas, permite a relação teórico-prática dos conteúdos, facilitando a assimilação por parte dos discentes. A utilização de experimentos e atividade prática trouxe resultados positivos, pois, primeiramente, atraíram os estudantes para o aprendizado. O uso de jogos didáticos também apresentou resultados positivos na construção do conhecimento dos alunos, colaborando para uma melhor compreensão do tema.

Pode-se concluir que o ensino de Evolução Biológica é essencial para se trabalhar nas disciplinas de Ciências e Biologia, porém, precisa ser abordado de uma forma mais lúdica no ensino fundamental, pois a faixa etária em que se encontram a maioria dos discentes de 7º ano, não permite trabalhos mais teóricos, em razão da faixa etária dos discentes.

REFERÊNCIAS

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BERNARDES, L.S. et al. Uso de metodologias alternativas no ensino de ciências: um estudo realizado com o conteúdo de serpentes. Revista eletrônica Ensino, Saúde e Ambiente, V.9, nº 1, pp. 63-76, 2016. Disponível em: <http://ensinosaudeambiente.uff.br/index.php/ensinosaudeambiente/article/view/476/234> Acesso em: 09 jun 2017.

BIZZO, Nelio. Ciências: fácil ou difícil? 2ª edição. São Paulo: Biruta, 2012, 158p.

CAREGNATO, R.C.A,; MUTTI, R. Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo. Texto Contexto Enferm. 2006;15(4):679-84. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/tce/v15n4/v15n4a17> Acesso em: 19 jun 2017.

DELIZOICOV, D.; ANGOTTI, J.A.; PERNAMBUCO, M.M. Ensino de Ciências: fundamentos e métodos. 4ª edição. São Paulo: Cortez, 2011. 366p.

FUTUYMA, D.J. Biologia evolutiva. 3ª edição. Ribeirão Preto: FUNPEC, 2009. 830p.

LICATTI, F. O ensino de Evolução Biológica no nível Médio: investigando concepções de professores de Biologia. 2005, 242 f. Dissertação (Mestrado em ensino de Ciências e Matemática) – UNESP, Bauru, SP, 2005. Disponível em: <https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/90884/licatti_f_me_bauru.pdf?sequence=1> Acesso em: 04 jun 2017.

OLEQUES, L.C. Evolução Biológica: percepções de professores de Biologia de Santa Maria, RS. Dissertação (Mestrado em Educação em Ciências) – UFSM, Santa Maria, RS, 2010, 78f. Disponível em: <http://cascavel.ufsm.br/tede//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=3392> Acesso em: 03 jun 2017.

PRODANOV, C.C.; FREITAS, E.C. de. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2ª edição. Novo Hamburgo: Editora Feevale, 2013. 277 p. Disponível em: <http://www.feevale.br/Comum/midias/8807f05a-14d0-4d5b-b1ad-1538f3aef538/E-book%20Metodologia%20do%20Trabalho%20Cientifico.pdf> Acesso em: 10 jun 2017.

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SANTOS, C.M.D.; CALOR, A.R. Ensino de Biologia Evolutiva utilizando a estrutura conceitual da sistemática filogenética – II. Revista Ciência & Ensino, vol.2, n.1, 2007. Disponível em: <https://prc.ifsp.edu.br/ojs/index.php/cienciaeensino/article/view/100/133> Acesso em: 19 jun 2017.

ANEXOS

Anexo 1. Questionário aplicado para avaliar conhecimentos prévios.

[1] Estudante do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas – Universidade Feevale – Novo Hamburgo/RS.

[2] Licenciada e Bacharel em Biologia, Mestre e Doutoranda em Ensino de Ciências e Matemática, Professora do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas – Universidade Feevale – Novo Hamburgo/RS.

Enviado: Março, 2018

Aprovado: Janeiro, 2019

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