Estudo multicaso na cadeia produtiva do leite em Castanheiras – Ro

0
1085
DOI: ESTE ARTIGO AINDA NÃO POSSUI DOI SOLICITAR AGORA!
PDF

PASSARELI, Telmo de Moura [1]

PASSARELI, Telmo de Moura. Estudo multicaso na cadeia produtiva do leite em Castanheiras – Ro. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 04, Vol. 04, pp. 05-22, Abril de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

Este trabalho constituiu um estudo sobre a natureza de sociedades de produtores de leite fornecedoras de matéria-prima para a indústria processadora em Rondônia, na região abrangida pelo arranjo produtivo local do leite no centro do estado. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória, buscando apresentar e esclarecer o fenômeno e os conceitos e ideias a ele inerentes, para a formulação de abordagens mais condizentes com o desenvolvimento de estudos posteriores. Seu objetivo é identificar as características que evidenciam a natureza dessas organizações societárias privadas de produtores que vêm sendo formadas com a aquisição em comum de tanques de resfriamento do leite que é destinado às indústrias processadoras, como matéria-prima. Para a realização da pesquisa, utilizou-se o método de estudos multi casos, selecionados na área rural do município de Castanheiras – RO. Os casos foram analisados na sua dimensão organizacional pelo arcabouço teórico da cadeia produtiva, tendo sido localizado seu formato organizacional no desenho da cadeia produtiva do leite em Rondônia, situando-o no mesmo patamar de outros agentes acumuladores de matéria-prima para a indústria. A partir dos resultados da pesquisa torna-se possível dar um tratamento mais adequado às organizações do tipo estudado, tendo sido sugerida, entretanto, a realização de estudos mais profundos, com base nas suas constatações.

Palavras-Chave: Sociedade, Cadeia Produtiva, Leite.

1. INTRODUÇÃO

Este estudo está inserido na abordagem da cadeia produtiva aplicada a sociedades de produtores que compõem o elo de distribuição de leite resfriado para a indústria em Rondônia. A produção rondoniense de leite é feita basicamente por produtores familiares, e a organização de toda essa produção até o consumo é realizada através de uma cadeia produtiva que vem se estruturando desde 1970, tendo recebido grande impulso nos anos de 1990 com a implantação do Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira.

Vê-se, no agronegócio do leite em Rondônia, um arranjo produtivo local (APL), localizado na região central, envolvendo as cidades de Jaru, Ji-Paraná, Ouro Preto d’Oeste, Rolim de Moura, Presidente Médici e Cacoal, que são cidades que concentram a maior produção e também as processadoras dos derivados do leite no estado. O arranjo ali estabelecido é chamado APLLEITE e seu mapeamento decorre de pesquisas para atender ao Plano de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal 2005-2008 da extinta Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA).

Uma vez relatadas as deficiências encontradas pelos produtores na comercialização do leite em Rondônia, em geral, tem-se que os produtores que formam associações ou entregam o leite a cooperativas atuantes na captação, conseguem melhores resultados, comparativamente aos que se sujeitam a entregar o produto diretamente à indústria, principalmente nos períodos de excesso de oferta, o que se constitui um fenômeno recorrente (CARVALHO; OLIVEIRA, 2006).

A cadeia produtiva do leite em Rondônia vem sendo subsidiada por programas de fomento à produção e melhoramento do manejo sanitário, envolvendo associações e cooperativas de produtores. Como pela legislação os produtores devem armazenar o leite em tanques de resfriamento após a ordenha, e sendo este um investimento de alto custo, acabam optando por se associar, de qualquer forma, para a aquisição deste equipamento. Assim viabilizam a redução do custo do leite, sendo capazes de adquirir maior poder de barganha perante os processadores caso estejam unidos e articulados.

Este trabalho parte, então, da constatação da existência, na cadeia produtiva do leite em Rondônia, de organizações particulares entre produtores rurais que unem esforços na aquisição de tanques de resfriamento para utilização comum, buscando fornecer a matéria-prima às empresas processadoras da região, atendendo às determinações sanitárias. Se existem tais sociedades a par das cooperativas e associações, que seriam o caminho natural de união de esforços e busca de poder de barganha entre produtores rurais, o fenômeno  precisa  ser estudado para, então, ser explicado à luz das diferentes teorias organizacionais, econômicas e jurídicas.

O trabalho propõe um estudo exploratório para identificar as características que definem a natureza de certas organizações societárias privadas de produtores que vêm sendo formadas com a aquisição em comum de tanques de resfriamento de leite e destinadas ao fornecimento da matéria-prima às empresas processadoras de leite, no Estado de Rondônia. Para isso busca-se, especificamente, identificar o formato do desenho organizacional dessas sociedades na cadeia produtiva do leite em Rondônia.

O estudo proposto envolve um caso que se encontra justamente no elo em que ocorrem todas as maiores fraquezas e deficiências da cadeia produtiva do leite em Rondônia, pois trata de produtores rurais que, buscando formas alternativas de se organizar, objetivam otimizar a comercialização de sua produção. Nesse cenário foi encontrado o caso de estudo em que os produtores de leite, na contramão da tendência ao associativismo identificada por Rodrigues (2010), preferiram organizar- se de forma autônoma, introduzindo um novo elemento no ambiente organizacional da cadeia produtiva, e que, agora identificado, precisa ser estudado e compreendido.

Nesse sentido, pretende-se que, a partir do entendimento dos fatores que determinam a forma organizacional do empreendimento estudado, seja possível extrair conhecimentos organizacionais que se revelem replicáveis, no todo ou em parte, e que podem significar avanços na aplicação da teoria na cadeia produtiva do leite em Rondônia. Este estudo pretende, assim, contribuir para a formação de políticas públicas mais realistas, voltadas às necessidades organizacionais da cadeia produtiva do leite em Rondônia.

2. A CADEIA PRODUTIVA

O conceito de sistema tem sido aplicado para ilustrar as interdependências entre os atores para compor um todo mais amplo, desde as relações entre os setores de uma organização às relações entre duas ou mais organizações, investigadas através de uma perspectiva que busca a compreensão das diversas vantagens e restrições possíveis decorrentes dessas  interações (CALLADO; CALLADO, 2009).

Agora entendidas as propriedades rurais como organizações agroindustriais, a conotação profissional dada ao termo agronegócio se torna responsável por uma mudança de paradigma e admite referências sobre novas modalidades de empreendimentos. Como característica inerente aos sistemas, a dinâmica é fundamental para o entendimento e abrangência da sinergia dos atores, compreendida como a influência que a interação cooperativa entre as diferentes partes que compõem um sistema, tornando seus resultados melhores do que a soma dos resultados individuais (CALLADO; CALLADO, 2009).

Mas foi a partir de 1960 que se difundiu a partir da escola industrial francesa a noção de analyse de filière, embora sem um conceito especificamente definido para o estudo da problemática agroindustrial, e posteriormente traduzido para o português como cadeia de produção agroindustrial (BATALHA; SILVA, 2008). A partir daí o caráter sistêmico e mesoanalítico das atividades agroindustriais ganhou importância nos meios acadêmico, empresarial e político brasileiro, quando o conceito de cadeia produtiva como instrumento de análise passa a ser ferramenta largamente utilizada pelos pesquisadores, multiplicando estudos relativos à dinâmica de funcionamento do sistema agroindustrial, com abordagens peculiarmente regionais ou setoriais (BATALHA; SILVA, 2008).

No Brasil, Batalha e Silva (2008) dividiram as aplicações da noção de cadeia agroindustrial em dois grupos principais, sendo o primeiro uma série de estudos situados no espaço analítico delimitado pelos contornos externos da cadeia produtiva, buscando identificar disfunções que comprometam o funcionamento eficiente da cadeia, com atenção aos seus mecanismos de coordenação e estruturas de governança. Essas aplicações vêm mostrando grande utilidade na elaboração de políticas setoriais públicas. Um segundo grupo abrange uma faceta menos explorada na utilização do conceito, empregando-o como ferramenta de gestão empresarial, mas sem apresentar a mesma eficiência em apontar as ferramentas gerenciais de operacionalização das ações conjuntas das empresas, que exige maior flexibilidade organizacional e relações mais cooperativas ao longo da cadeia (BATALHA; SILVA, 2008). Tanto Batalha e Silva (2008) como Callado e Callado (2009) afirmam a existência de divergências acerca da nomenclatura apropriada   para   representar os   diversos   prismas   pelos   quais   o   ambiente agroindustrial tem sido estudado, considerando aspectos ligados à visão integrada sobre o mesmo, mas destacando as expressões (a) sistema agroindustrial, (b) complexo agroindustrial e (c) cadeia de produção agroindustrial.

Nessa classificação, o sistema agroindustrial é definido por Callado e Callado (2009) como “todo conjunto de atividades que concorrem para a produção de insumos até a obtenção do produto final, independentemente do nível de sofisticação utilizado, base tecnológica ou processo de transformação aos quais tenham sido submetidos”. A introdução da noção de commodity system approach (CSA), por Ray Goldberg em 1968, para o estudo do comportamento dos sistemas de produção de diferentes produtos agrícolas deu-se ainda nos primeiros ensaios voltados à caracterização da dinâmica do agronegócio como um sistema amplo de fatores correlacionados (BATALHA; SILVA, 2008).

O complexo agroindustrial é definido por Callado e Callado (2009) como “um arranjo produtivo que surge a partir de uma determinada matéria-prima base, tomando diferentes processos industriais, de beneficiamento e comerciais alternativos até se transformar em produtos finais”. A cadeia de produção industrial, diferentemente de um complexo agroindustrial, é então definida como “um arranjo produtivo que […] possui um produto como referência base para identificar os inúmeros encadeamentos existentes entre os agentes econômicos responsáveis pelas operações técnicas, comerciais e logísticas”. Embora abordem o mesmo objeto, essas expressões consideram os distintos níveis estruturais do meio rural contemporâneo.

Tendendo a compor uma sequência de operações obedientes a certas lógicas preexistentes, as atividades econômicas desenvolvidas no âmbito do agronegócio podem compor cadeias produtivas, numa expressão que não possui conceito único capaz de abranger todos os aspectos relacionados às suas principais características (CALLADO; CALLADO, 2009).

Consideradas por Batalha e Silva (2008) uma das ferramentas privilegiadas da escola francesa de economia industrial, as cadeias produtivas, chamadas de filières na sua origem, podem ser representadas a partir de três perspectivas alternativas, seja (a) pela cadeia de operações, numa sucessão de operações de processamento e transformação isoladamente identificáveis, mas encadeadas a partir de aspectos técnicos; (b) pela cadeia de comércio, num conjunto de atividades comerciais  e  financeiras  estabelecidas  ao  longo  das  etapas  percorridas  pelo produto, desde o fornecedor de insumos até a venda do final aos clientes; ou (c) pela cadeia de valor, num arranjo de atividades econômicas nas quais o valor dos meios de produção pode ser mensurado e registrado (CALLADO; CALLADO, 2009).

Três grandes segmentos são apresentados por Batalha e Silva (2008) na cadeia de produção agroindustrial, de jusante a montante, sendo (a) a comercialização, que representa empresas em contato com o cliente final da cadeia de produção e viabilizam o consumo e o comércio dos produtos finais e também as responsáveis pela logística de distribuição; (b) a industrialização, que representa empresas responsáveis pela transformação de matérias-primas em produtos finais; e (c) a produção de matérias-primas, que reúne firmas que fornecem as matérias- primas iniciais para que outras empresas avancem no processo de produção.

Aspecto relevante da estrutura das cadeias produtivas, a capacidade de agregar valor continua sendo paradigma básico que rege as atividades industriais tradicionais, de forma que quanto maior a capacidade de um agente para agregar valor dentro da cadeia na qual esteja inserido, maior será sua influência sobre o processo de coordenação dos padrões e relações com os demais (CALLADO; CALLADO, 2009). Uma possibilidade de utilização da cadeia produtiva como referência institucional apontada por Callado e Callado (2009) é a avaliação de estratégias de diversificação a partir das possíveis combinações de seus diferentes elos com os pertencentes a outras cadeias produtivas. A formação de alianças e parcerias estratégicas é por eles apontada como uma alternativa interessante voltada à agregação de competências que possam gerar benefícios a todos os atores.

Batalha e Silva (2008) alertam para a aparente confusão existente na literatura que trata da problemática agroindustrial no Brasil, em relação às expressões sistema agroindustrial e cadeia de produção agroindustrial, apresentando também o conceito de unidade socioeconômica de produção. Embora relacionadas ao mesmo problema, cada uma dessas expressões representam espaços de análise diferentes e se prestam a diferentes objetivos, podendo o sistema agroindustrial ser considerado “o conjunto de atividades que concorrem para a produção de produtos agroindustriais, desde a produção dos insumos […] até a chegada ao produto final […] ao consumidor”, não estando associado a matéria- prima ou produto final específico (BATALHA; SILVA, 2008).

Enquanto isso, no conceito de cadeia de produção agroindustrial, já apresentado, deve ser destacada a identificação de um produto específico, após o que se deve encadear, de jusante a montante, as várias operações técnicas, comerciais e logísticas necessárias à sua produção (BATALHA; SILVA, 2008). Ambos os conceitos realizam cortes verticais no sistema econômico a partir de um produto determinado ou certa matéria-prima de base, para estudar sua lógica de funcionamento, abandonando a velha divisão do sistema em agricultura, indústria e serviços. Ambos também compartilham a noção de que a agricultura deve ser vista dentro de um sistema mais amplo, que também é composto pelos produtores de insumos, agroindústrias e canais de distribuição e comercialização. E ambos os conceitos utilizam a noção de sucessão de etapas produtivas como orientação de suas análises, desde a produção dos insumos até o produto final, e destacam o aspecto dinâmico do sistema, numa tentativa de assumir caráter prospectivo (BATALHA; SILVA, 2008).

Numa proposição alternativa, Batalha e Silva (2008) apresentam outro nível de análise, constituído pelas unidades socioeconômicas de produção que participam da cadeia, assegurando o funcionamento do sistema, possuindo a capacidade de influenciá-lo e ser por ele influenciadas. Nesse contexto, a mesoanálise cumpre a proposta dos economistas franceses para preencher a lacuna existente entre a microeconomia, que estuda as unidades de base da economia para explicar o todo, e a macroeconomia, que parte do todo para explicar o funcionamento das partes (BATALHA; SILVA, 2008).

Comparada por Marchesnay e Morvan (1979) com a micro e macro-análises, a mesoanálise representa o lugar de encontro das preocupações dos economistas e administradores, aqueles preocupados em validar empiricamente suas teorias e estes em encontrar cientificidade para suas recomendações. A mesoanálise foi então definida como sendo uma análise estrutural e funcional dos subsistemas e de sua interdependência dentro de um sistema integrado, o que remete diretamente ao enfoque sistêmico, uma das características importantes da cadeia de produção agroindustrial que deve ser levada em consideração (BATALHA; SILVA, 2008).

Uma abordagem eficiente de análise do sistema organização-meio ambiente pode partir da premissa que toda empresa está inserida em um ambiente dinâmico com o qual está em interação permanente, o que se coaduna com a noção mesoanalítica de estudar as mudanças do meio ambiente sem esquecer da estrutura interna da firma (BATALHA; SILVA, 2008). Numa análise mais estática das cadeias de produção, pode-se também retratar, num dado momento, a situação do seu encadeamento técnico e econômico, visualizando a estrutura congelada no tempo (BATALHA; SILVA, 2008).

De toda forma, a utilização da cadeia de produção como ferramenta de análise pode ser útil para a formação de políticas públicas quando se busca identificar os elos fracos de uma cadeia de produção e fornecer incentivos através de uma política mais adequada, considerando que o sucesso da cadeia resulta do desenvolvimento harmonioso de todos os agentes que nela atuam (BATALHA; SILVA, 2008). Como ferramenta de descrição técnico-econômica, a cadeia de produção conhece a definição mais comum de seu conceito. O enfoque consiste em descrever as operações de produção responsáveis pela transformação da matéria-prima em produto acabado, numa sucessão linear de operações técnicas de produção, mas também como ferramenta de análise econômica, através da preocupação em estudar as relações que se estabelecem entre os agentes que atuam na cadeia (BATALHA; SILVA, 2008).

Também utilizada como metodologia de análise da estratégia das firmas, partindo do ponto de vista da empresa, um mesossistema independente e não completamente definido, em que se encontram os limites do campo das ações estratégicas possíveis, onde os atores econômicos irão se posicionar de forma a maximizar o lucro em suas atividades e se apropriar das margens dos demais atores (BATALHA; SILVA, 2008). Batalha e Silva (2008) mencionam, ainda, a utilização do raciocínio mesoanalítico para explicar o processo de diversificação através de estratégias baseadas no conceito de cadeia de produção, numa abordagem que não considera somente as relações diretas entre os agentes econômicos, mas o conjunto das articulações que constituem a cadeia.

2.1 Ambiente organizacional da cadeia produtiva do leite em Rondônia

Uma representação simplificada dos segmentos da cadeia produtiva do leite foi elaborada por Bressan e Martins (2004), posteriormente também reproduzida e apresentada por Corrêa, Veloso e Barczsz (2010), e aqui adaptada, com os componentes do mercado formal, no qual a expectativa é de oferta de leite e derivados lácteos seguros para o consumo, com qualidade e sem riscos à saúde. Nessa representação gráfica, após as indústrias e fornecedores de insumos, aparecem os produtores de leite, que fornecem seu produto às cooperativas de fornecimento de leite, às grandes indústrias ou às indústrias artesanais. Esses agentes irão desembocar seus produtos ao consumidor final. O elo das grandes indústrias, nessa representação gráfica, ainda passa pelas atividades de beneficiamento e processamento, e distribuição no atacado e varejo, para então chegar ao consumidor final.

No arranjo produtivo local (APL) do leite em Rondônia estão inseridos os produtores primários, que são pecuaristas objetivando a produção de leite para o consumo interno e externo, e também associações e cooperativas que objetivam fornecer o produto à indústria processadora (TAMADA, 2009).

Até 1990, o modelo vigente da cadeia de produção tinha como característica ter seu elo primário formado, na maioria, por pequenos e médios produtores com baixo nível de especialização, organização e qualidade (PAES-DE-SOUZA, 2007; RODRIGUES, 2010). Também Paes-de-Souza (2007) já havia identificado em seus estudos sobre a governança na cadeia produtiva do leite em Rondônia que sua coordenação institucional contava com representação dos segmentos da produção, da indústria e da distribuição, bem assim de órgãos representativos do ambiente organizacional, tendo traçado um mapa geral que sintetiza as características dessa cadeia produtiva. Em seu estudo, Paes-de-Souza (2007) verificou a existência de uma coordenação institucional, com governo, instituições e segmentos que compõem os elos da cadeia produtiva atuando em parceira, no desenvolvimento de políticos de incentivo.

Apesar de o estado dispor de órgão de pesquisa aplicada ao setor leiteiro, com fornecimento de assistência técnica com significativa penetração, foi capaz de favorecer a organização dos produtores em associações ou despertar-lhes interesse em fundar cooperativas. Paes-de-Souza (2007) considerou a cadeia carente de assistência, orientação técnica e motivação para se estruturar ou ter representação capaz de propiciar ganho de escala para responder à exigência da indústria. Também verificou que os produtores e a indústria geralmente tinham acesso a fontes de financiamento, o que caracterizou como uma oportunidade, mas cujas restrições impostas aos atores da cadeia produtiva dificultam a obtenção efetiva de recursos. Paes-de-Souza (2007) também considerou relevante a fiscalização do setor, havendo até mesmo indústrias com selo de inspeção federal para seus produtos, o que se constitui em diferencial competitivo e coloca a cadeia produtiva do leite em Rondônia em posição favorável, apesar da predominância do mercado informal na obtenção de matéria-prima. Encontrou, ainda, grande incidência de pequenos produtores de leite na base da cadeia, até mesmo com produção apenas de subsistência e, no máximo, empresas familiares com mão de obra sem qualificação, baixa escolaridade dos produtores e baixa capacidade de gestão das unidades produtivas.

3. MÉTODO

Considerando o objetivo deste trabalho, o estudo empírico nele realizado se caracteriza como qualitativo e tem natureza exploratória, porque sua principal finalidade é apresentar e esclarecer um fenômeno e os conceitos e ideias a ele inerentes, para a formulação de abordagens mais condizentes com o desenvolvimento de estudos posteriores. A abordagem qualitativa é aqui adotada por meio de um estudo de caso, de natureza descritivo-analítica, que constitui um método caracterizado por uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos. A estratégia adotada não exige controle sobre eventos comportamentais e focaliza acontecimentos contemporâneos.

Para atender a seus objetivos específicos, a pesquisa investigou os casos selecionados pela abordagem da cadeia produtiva, de forma a localizar os casos no desenho organizacional da cadeia produtiva do leite em Rondônia, propondo um novo formato de desenho dessa cadeia com a introdução desse novo elo. A pesquisa tem como unidade de análise certas organizações societárias formadas por produtores de leite com o objetivo de fornecer a matéria-prima à indústria processadora em Rondônia. Tais organizações societárias, para atender ao objetivo do estudo, deveriam ser formadas por produtores individuais, estando na esfera da iniciativa privada, de maneira a descartar do estudo unidades que tenham natureza cooperativa, associativa ou na forma de rede. Para atender aos objetivos do trabalho, a organização societária que constituísse caso de estudo deveria ser formada pela aquisição em comum, pelos produtores que dela participassem, de tanque de resfriamento de leite, com objetivo de receber o produto da ordenha diária particular de cada um, mantendo-o resfriado até a venda posterior a uma indústria processadora.

Para seu estudo, utilizou-se o método de estudo multicasos, uma variedade do estudo de caso único (YIN, 2001) para analisar comparativa e indutivamente as características das organizações societárias que as definem nas categorias de análise da pesquisa. Assim, o estudo multicasos realizado pode dar ênfase à descrição e ao relacionamento dos fatores de cada situação, não importando os números envolvidos, conforme Campomar (1991), trazendo à tona indícios presentes nos casos estudados, passíveis de generalização, capazes de levar à busca de informações e à geração de hipóteses, e não a conclusões ou verificações. Um caso piloto da pesquisa foi escolhido pelos pesquisadores por experiência  pessoal decorrente da constatação anterior que haviam feito da existência de uma organização societária nos moldes do que viria a ser a unidade de análise deste trabalho, por ocasião da realização de pesquisa sobre as características da estrutura de governança e estratégias na cadeia produtiva do leite, nas transações indústria-produtor em Rolim de Moura – RO (PASSARELI et al., 2010). Essa unidade é estabelecida no município de Castanheiras – RO, região de influência do polo econômico de Rolim de Moura, a cidade mais populosa e economicamente ativa a que chamam zona da mata rondoniense, com uma região de influência que abrange vários outros municípios. O município de Rolim de Moura, inclusive, é proporcionalmente, no Estado de Rondônia, o que vem recebendo o maior número de recursos dos órgãos públicos para desenvolvimento da pecuária de leite, tendo em vista investimentos aplicados na cadeia produtiva do leite por parte dos governos federal e estadual (RODRIGUES, 2010). A região possui o maior número de associações beneficiadas com recursos e tanques de resfriamento comunitário, tendo sido observada grande participação dos produtores em cooperativas e associações, sendo reduzido o número de produtores que não participando de nenhuma forma associativa (RODRIGUES, 2010). Todo esse cenário, aliado à constatação pessoal dos pesquisadores, tornou a região mais que propícia e adequada à realização desta pesquisa, permitindo a averiguação do fenômeno num cenário real e dotado de importância para o contexto da cadeia produtiva do leite em Rondônia. Decidiu-se, a partir daí, delimitar a pesquisa à região do caso piloto, inclusive para facilitar a operacionalização das entrevistas e observação dos casos.

Partindo da concepção de Yin (2001), revisada por Martins (2008), para a elaboração de um estudo de caso múltiplo, os pesquisadores definiram um fluxograma orientador para esta pesquisa, considerando a existência de três fases subsequentes: (a) definição e planejamento, (b) preparação, coleta e análise e (c) análise e conclusão. Esse protocolo foi construído sobre os seguintes princípios e prevendo os seguintes procedimentos, a serem realizados dentro do fluxograma da pesquisa: (a) utilizar fontes múltiplas, identificando um possível caso e verificando o seu enquadramento à delimitação da pesquisa, através de entrevista preliminar a quem fosse encontrado no local que pudesse dar as primeiras informações; (b) realizar a entrevista semiestruturada com participantes da unidade, anotar as informações passadas pelos entrevistados e as observações dos pesquisadores; (c) confrontar entre si as informações obtidas dos entrevistados de um mesmo caso e, verificado o alinhamento das informações, dar validade ao caso.

Como instrumento de coleta de dados, utilizou-se a observação e a entrevista do tipo semiestruturada baseada em Yin (2001). A partir da revisão da literatura foi construído um roteiro de entrevista para os participantes das unidades que constituem os casos de estudo. Em relação às entrevistas, essas foram realizadas de forma aberta, pelos próprios pesquisadores, em franca conversação, a tantos participantes das unidades que constituíram os casos de estudo quantos foram por ele contatados durante a realização das pesquisas de campo, um de cada vez. Essas conversações foram alimentadas por perguntas abertas, proporcionando maior liberdade ao informante, mas procurando mantê-las dentro do roteiro estabelecido no protocolo da pesquisa. Selltiz et al. (1967) validam esse tipo de entrevista porque neles, embora o entrevistado tenha liberdade para exprimir integralmente sua sequência de pensamentos, a orientação da entrevista está claramente nas mãos do entrevistador que, desejando tipos definidos de informação, limita o entrevistado à discussão de problemas a respeito dos quais se deseja conhecer. Os informantes foram, assim, questionados acerca da estrutura e funcionamento das respectivas unidades analisadas quanto às diferentes categorias de análise da pesquisa. Por ocasião das entrevistas, os pesquisadores aproveitaram para observar diretamente a estrutura de funcionamento das referidas unidades, fazendo suas anotações.

4. RELATO DOS CASOS E ANÁLISE

O estudo contou com a análise individual e global de três casos selecionados pelos pesquisadores, que constituíram unidades a cujos estabelecimentos teve acesso e pode observar, realizando entrevistas aos seus participantes. Das anotações dos pesquisadores foi elaborado o presente relatório e estudo. Todos os casos são localizados no polo econômico de Rolim de Moura – RO, mais precisamente no município de Castanheiras – RO, numa região localizada na bacia leiteira de Rondônia, com a denominação de arranjo produtivo local do leite (APLLEITE).

O PRIMEIRO CASO ANALISADO é uma unidade organizacional constituída de 6 produtores de leite que possuem suas respectivas propriedades rurais na região de confluência das linhas 172 (estrada não pavimentada) e -zero (rodovia estadual em pavimentação em 2011, passando a ser denominada RO-279) do Projeto Integrado de Colonização (PIC) Gy-Paraná, no município de Castanheiras – RO. Todos se consideram pequenos pecuaristas criadores de gado de corte, com aproveitamento do leite das vacas em lactação. Dos participantes da unidade, 4 foram identificados e contatados pelos pesquisadores a partir das informações fornecidas por um primeiro, que foi encontrado junto à unidade. Todos os 4 concordaram em realizar entrevista e assim o fizeram de modo prestativo e satisfatório.

Segundo suas informações, esses produtores adquiriram, no ano de 2009, com recursos próprios e em conjunto, um tanque de resfriamento de leite cru, com capacidade de 1.000ℓ, o qual fizeram instalar na frente da propriedade rural de um deles, sob a concordância de todos, à margem da estrada não pavimentada e já no perímetro de um vilarejo do local onde as estradas se cruzam. Para a aquisição do tanque, houve concessão de empréstimos pessoais entre alguns dos participantes, e a dívida é saldada entre eles com parcelas da partilha mensal dos resultados da unidade.  Naquele local fizeram construir  um  abrigo  para  o  tanque  e  suas instalações, com pequeno anexo que faz às vezes de escritório, depósito e oficina. As instalações elétricas do tanque de resfriamento são independentes daquelas da casa do proprietário do imóvel, localizada no mesmo pátio, mais atrás. As despesas de construção e instalação foram partilhadas por igual entre os participantes dessa unidade.

O objetivo da unidade é tão somente fornecer leite cru resfriado a uma indústria processadora de Rolim de Moura – RO, que habitualmente faz passar um caminhão tanque pela região, adquirindo o produto de quem o tiver e se dispuser a fornecê-lo por um preço que será por ela definido mensalmente. Apesar de não haver contrato de garantia de fornecimento entre a unidade fornecedora e essa indústria compradora, sendo as negociações feitas a mercado, a empresa tem adquirido o produto da unidade habitualmente a cada dois dias, sendo os pagamentos realizados uma vez por mês. Para cumprir seu objetivo, a unidade recebe, armazena e mantém resfriada a produção diária de leite das propriedades rurais de cada participante, que levam até a unidade, por sua própria conta e individualmente, a quantidade de leite que bem desejarem por dia, sem qualquer compromisso de cota. Há, somente, um compromisso verbal entre os participantes de não entregar sua produção de leite a outras unidades de resfriamento, da qual não participem. A quantidade entregue por cada produtor participante na unidade é recebida e anotada por aquele que tem a unidade instalada no seu imóvel, assim escolhido por todos para zelar e administrar o funcionamento da unidade. Além de receber a produção diária dos participantes, esse administrador também faz as negociações com a indústria compradora, recebe os pagamentos mensais da indústria e presta contas aos demais, partilhando os resultados conforme o volume de leite entregue por cada um na unidade, acumulado no mês de referência. Todo o resultado econômico é partilhado entre os participantes mês a mês, não deixando recursos em caixa. Por esse serviço prestado à coletividade dos participantes, o administrador percebe uma pequena quantia mensal, paga pelo caixa da unidade, e que é por ele retida no ato da prestação mensal de contas, no equivalente a R$0,02/ℓ de leite recebido e pago pela indústria compradora.

Pode-se perceber que não há qualquer inferência da unidade nas propriedades rurais dos seus participantes, nem na produção de cada um. É bem nítida a separação organizacional das diferentes unidades produtoras, pertencentes cada qual ao seu respectivo proprietário, e da unidade de resfriamento analisada, que adquire caráter organizacional próprio, sendo receptora da produção de cada participante e fornecedora da matéria-prima à indústria. Os participantes da unidade analisada se consideram sócios nessa organização, que criaram por acordo verbal e com base na confiança decorrente do longo tempo de convivência na mesma vizinhança, mesma comunidade e tradicionalmente no mesmo ramo de atividade. Não existe, entre eles, qualquer instrumento escrito que documente a organização, e o contrato verbal é silente acerca de maiores garantias entre as partes e até mesmo sobre como proceder em caso de dissolução da organização. Nas suas palavras, os participantes acreditam que deva existir alguma solução legal para eventuais problemas internos ou externos da unidade, não sabendo dizer o que fariam acaso ocorresse algum problema, seja entre os participantes ou com terceiros, como a própria indústria compradora. Existe, outrossim, uma cláusula estabelecida por acordo verbal que confere responsabilidade àquele participante que despejar no tanque de resfriamento leite fora dos padrões de acidez estabelecido pela indústria compradora, e que venha a contaminar o conteúdo do tanque, implicando na recusa da compra pela indústria. Esse participante deverá, então, indenizar os que ali também depositaram leite, mediante acerto de contas quando da partilha do resultado do mês. Para aferir a responsabilidade de cada participante, a unidade conta com aparelhos e químicos para aferir a acidez do leite a ser depositado no tanque por cada participante, na ocasião da entrega na unidade, sendo tudo anotado rudimentarmente nos seus registros.

Indagados sobre a existência de cooperativas ou associações de produtores na região, confirmaram a existência de uma cooperativa de produtores rurais, com sede a 100 metros das instalações da unidade, no vilarejo do local. Sobre a razão de não realizarem a entrega do leite à tal cooperativa, ao invés de arcar com as despesas de aquisição, instalação e funcionamento de um tanque próprio, todos os participantes entrevistados disseram que a cooperativa recebeu muitos recursos para a aquisição e instalação de um secador de grãos e máquina de beneficiamento de café, mas nunca chegou a atuar no setor leiteiro, tendo tido problemas de gestão que os desestimulou a participar da mesma. A cooperativa continua em funcionamento, atuando com produtores de café, soja e arroz na região.

O SEGUNDO CASO ANALISADO é uma unidade organizacional constituída de 3 produtores de leite que possuem suas respectivas propriedades rurais na região de confluência das linhas 176 (estrada não pavimentada) e Kapa-zero (rodovia estadual em pavimentação em 2011, passando a ser denominada RO-279) do Projeto Integrado de Colonização (PIC) Gy-Paraná, no município de Castanheiras – RO. Todos se consideram, igualmente ao primeiro caso, pequenos pecuaristas criadores de gado de corte, com aproveitamento do leite das vacas em lactação. Os 3 participantes são pai e filhos, tendo todos sido identificados e contatados pelos pesquisadores a partir das informações fornecidas pelo primeiro, que reside próximo às instalações da unidade. Os três concordaram em realizar entrevista e assim o fizeram de modo prestativo e satisfatório.

Segundo suas informações, esses produtores adquiriram, em 2007, mediante financiamento direto de uma empresa processadora de laticínios de Rolim de Moura – RO, um tanque de resfriamento de leite cru, com capacidade de 800ℓ, o qual fizeram instalar na frente da propriedade rural do primeiro deles, sob a concordância de todos, à margem da estrada não pavimentada. O financiamento para aquisição do tanque foi totalmente saldado com deduções que eram realizadas pela indústria compradora em cada pagamento mensal à unidade. Naquele local fizeram construir um abrigo para o tanque e suas instalações, que faz às vezes de escritório, depósito e oficina, tudo junto. As instalações elétricas do tanque de resfriamento são independentes daquelas da casa do proprietário do imóvel, localizada no mesmo pátio, mais atrás. As despesas de construção e instalação foram partilhadas por igual entre os participantes dessa unidade.

O objetivo da unidade é, igualmente ao primeiro caso, fornecer leite cru resfriado à mesma indústria processadora de Rolim de Moura – RO, que lhes prestou financiamento e habitualmente faz passar um caminhão tanque pela região, adquirindo o produto de quem se dispuser a fornecê-lo por um preço que será por ela definido mensalmente. Apesar de não haver contrato de garantia de fornecimento entre a unidade fornecedora e essa indústria compradora, sendo as negociações feitas a mercado, os participantes disseram que a empresa tem adquirido o produto da unidade habitualmente a cada dois dias, sendo os pagamentos realizados uma vez por mês. Havia, no entanto, a obrigação de pagar mensalmente as parcelas do financiamento para aquisição do tanque de resfriamento a essa mesma empresa processadora. Para cumprir seu objetivo, a unidade recebe, armazena e mantém resfriada a produção diária de leite das propriedades rurais de cada participante, que levam até a unidade, por sua própria conta e individualmente, a quantidade de leite que bem desejarem por dia, sem qualquer compromisso de cota. Há, igualmente, um compromisso verbal entre os participantes de não entregar sua produção de leite a outras unidades de resfriamento. A quantidade entregue por cada produtor participante na unidade é recebida e anotada por aquele que tem a unidade instalada no seu imóvel, assim escolhido por todos para zelar e administrar o funcionamento da unidade. Além de receber a produção diária dos participantes, esse administrador também faz as negociações com a indústria compradora, recebe os pagamentos mensais da indústria e presta contas aos demais, partilhando os resultados conforme o volume de leite entregue por cada um na unidade, acumulado no mês de referência. Todo o resultado econômico é partilhado entre os participantes mês a mês, não deixando recursos em caixa. Por esse serviço prestado à coletividade dos participantes, o administrador não percebe qualquer quantia remuneratória, e considera o seu trabalho uma doação que faz à unidade, predominantemente familiar.

Pode-se, igualmente ao primeiro caso, perceber que não há qualquer inferência da unidade nas propriedades rurais dos seus participantes, nem na produção de cada um, sendo nítida a separação organizacional das diferentes unidades produtoras, pertencentes cada qual ao seu respectivo proprietário, e da unidade de resfriamento analisada, que adquire caráter organizacional próprio. Os participantes da unidade analisada também se consideram sócios nessa organização, que criaram por acordo verbal e com base na confiança decorrente dos laços familiares e da tradição no mesmo ramo de atividade. Nenhum instrumento escrito existe entre os participantes que documente a organização, e o contrato verbal é silente acerca de maiores garantias entre as partes e até mesmo sobre como proceder em caso de dissolução da organização. Os participantes acreditam que deva existir alguma solução legal para eventuais problemas internos ou externos da unidade, deixando para buscar a solução somente após o surgimento do problema.

Indagados sobre a existência de cooperativas ou associações de produtores na região, confirmaram a existência da mesma cooperativa de produtores rurais mencionada no primeiro caso, e sobre a razão de não realizarem a entrega do leite à tal cooperativa, ao invés de arcar com as despesas de aquisição, instalação e funcionamento de um tanque próprio, disseram que a mesma não atua no setor leiteiro, atuando apenas com produtores de café, soja e arroz na região. Disseram, ainda, preferir uma solução “caseira” para suas necessidades de comercialização do leite, de maneira que os negócios fiquem entre família.

O TERCEIRO CASO ANALISADO não diferiu muito dos primeiros, sendo uma unidade organizacional constituída de 14 produtores de leite que possuem suas respectivas propriedades rurais na região de influência do distrito de Jardinópolis, no Projeto Integrado de Colonização (PIC) Gy-Paraná, município de Castanheiras – RO. Apenas um participante foi contatado pelos pesquisadores, pois reside próximo às instalações da unidade, tendo concordado em realizar entrevista e assim o fez de modo prestativo e satisfatório.

Segundo suas informações, esses produtores adquiriram, em 2008, mediante financiamento privado junto ao Banco Bradesco S.A., um tanque de resfriamento de leite cru, com capacidade de 1.000ℓ, o qual fizeram instalar na frente da propriedade rural do entrevistado, sob a concordância de todos, à margem da estrada não pavimentada denominada linha do Costa, no município de Castanheiras – RO. Naquele local fizeram construir um abrigo para o tanque e suas instalações, com pequeno anexo que faz às vezes de escritório, depósito e oficina. As instalações elétricas do tanque de resfriamento são independentes daquelas da casa do proprietário do imóvel, localizada no mesmo pátio, mais ao lado. As despesas de construção e instalação foram partilhadas por igual entre os participantes dessa unidade.

O objetivo da unidade é, igualmente aos primeiros casos, fornecer leite cru resfriado à mesma indústria processadora de Rolim de Moura – RO, que habitualmente faz passar um caminhão tanque pela região, adquirindo o produto. Para cumprir seu objetivo, a unidade recebe, armazena e mantém resfriada a produção diária de leite das propriedades rurais de cada participante, que levam até a unidade, por sua própria conta e individualmente, a quantidade de leite que desejarem por dia, sem compromisso de cota. Há, sim, um compromisso verbal entre os participantes de não entregar sua produção de leite a outras unidades de resfriamento. A quantidade entregue por cada produtor participante na unidade é recebida e anotada pelo entrevistado, que tem a unidade instalada no seu imóvel, e foi assim escolhido por todos para zelar e administrar o funcionamento da unidade. Além de receber a produção diária dos participantes, o entrevistado também faz as negociações com a indústria compradora, recebe os pagamentos mensais da indústria e presta contas aos demais, partilhando os resultados conforme o volume de leite entregue por cada um na unidade, acumulado no mês de referência. Todo o resultado econômico é partilhado entre os participantes mês a mês, não deixando recursos em caixa. O pagamento das prestações do financiamento, contratado em 36 vezes junto ao banco credor, era realizado antes da apuração do resultado, já tendo sido quitado. Por esse serviço prestado à coletividade dos participantes, o entrevistado percebe uma pequena quantia mensal, paga pelo caixa da unidade, e que é por ele retida no ato da prestação mensal de contas, estimada em R$0,01/ℓ de leite comprado pela indústria.

Pode-se, à semelhança dos primeiros casos, perceber que não há qualquer inferência da unidade nas propriedades rurais dos seus participantes, nem na produção de cada um, havendo separação organizacional das diferentes unidades produtoras, pertencentes cada qual ao seu respectivo proprietário, e da unidade de resfriamento analisada, que adquire caráter organizacional próprio. O entrevistado declarou que a unidade foi criada por acordo verbal e com base na confiança decorrente do longo tempo de convivência na mesma vizinhança, mesma comunidade e tradicionalmente no mesmo ramo de atividade, não havendo muitas restrições para a entrada e saída de participantes, bastando não haver discordância expressa dos demais. Relatou já ter havido problemas de confiança entre os participantes que levaram à cessão da respectiva participação a terceiros, o que aconteceu já várias vezes durante a existência da unidade. Apesar disso, não existe, entre eles, qualquer instrumento escrito que documente a organização, e o contrato verbal é silente acerca de maiores garantias entre as partes e até mesmo sobre como proceder em caso de dissolução da organização. O entrevistado acredita que deva existir alguma solução legal para eventuais problemas internos ou externos da unidade, deixando para buscar a solução somente após o surgimento do problema.

Indagado sobre a existência de cooperativas ou associações de produtores na região, confirmou a existência da mesma cooperativa de produtores rurais mencionada nos primeiros casos, dizendo igualmente que a mesma não atua no setor leiteiro, mas apenas com produtores de café, soja e arroz na região.

4.1 Descrição do Formato Organizacional

As unidades relataram casos muito semelhantes entre si, do que se podem depreender evidências da existência de um formato organizacional passível de replicação. Todos os casos surgiram da aquisição, com recursos próprios e em conjunto, de um tanque de resfriamento de leite cru, com capacidade de até 1.000ℓ, que os produtores participantes fizeram instalar na propriedade rural de um deles, à margem da estrada, onde construíram abrigo para o tanque e suas instalações, havendo um local que fazem às vezes de escritório, depósito e oficina. As unidades são encarregadas de receber de cada produtor participante a sua produção individual de leite, que é oportunamente negociada, a mercado, com a indústria compradora que atua na região.

A função de produção dessas unidades é bem simplificada, limitando-se a essas operações de recebimento do leite  entregue  pelos  participantes  para resfriamento e posterior venda à indústria, mediante negociação a mercado. As unidades possuem instalações próprias, independentes daquelas dos imóveis nos quais estabelecidas, o que facilita o controle dos custos das operações, principalmente com a energia elétrica demandada pelo tanque de resfriamento, sendo tudo considerado nos registros (ainda que rudimentares) dos administradores de cada unidade. Essa autonomia das unidades de resfriamento em relação aos imóveis nos quais instaladas é também reforçada pela inexistência de qualquer inferência das unidades na produção individual de cada participante, que por sua vez constituem unidades de produção autônomas.

Assim, pode-se observar que as unidades de resfriamento analisadas constituem organizações autônomas. Seu produto é o leite cru resfriado como matéria-prima da indústria processadora, e sua função é apenas de recebimento da produção individual, armazenamento e resfriamento em conjunto, para posterior venda, situando-se entre as organizações produtoras e a indústria compradora.

4.2 Localização do Formato Organizacional na Cadeia Produtiva

A função específica das unidades estudadas de receber, armazenar e manter resfriado a produção de leite individual dos participantes para posterior venda à indústria processadora, juntamente com a autonomia verificada dessas unidades em relação aos produtores e aos compradores, sugere uma localização dessas organizações na cadeia produtiva do leite em Rondônia entre os produtores e a indústria processadora.

Nesse mesmo patamar estão situados outros agentes acumuladores de matéria-prima para a indústria, como as cooperativas e associações, e também outros intermediários. Entretanto, o que difere os casos analisados dos demais intermediários é a participação direta dos produtores na sua constituição e funcionamento, muito embora a autonomia organizacional das unidades estudadas em relação às unidades individuais de produção, enquanto que os demais intermediários são terceiros que negociam a mercado tanto nas operações de input como de output. A sugestão, portanto, é da inserção de um novo formato organizacional no elo da cadeia produtiva do leite em Rondônia.

CONCLUSÃO

A pesquisa constituiu um estudo multicasos de sociedades de produtores de leite para o fornecimento de matéria-prima à indústria processadora em Rondônia, na região abrangida pelo arranjo produtivo local do leite no centro do estado. Permitindo que o novo formato organizacional constituído pelas unidades estudadas pudesse, então, ser introduzido no desenho na cadeia produtiva do leite em Rondônia, passando à literatura para constituir, a partir daí, objeto de futuras pesquisas empíricas, sob diferentes enfoques.

Assim, foi proposto localizar o formato organizacional do tipo das unidades estudadas no mesmo patamar onde estão situados outros agentes acumuladores de matéria-prima para a indústria, como as cooperativas e associações, e também outros intermediários, dos quais diferem pela participação direta dos produtores na sua constituição e funcionamento. A função de produção das unidades estudadas é bem simplificada, limitando-se às operações de recebimento do leite entregue pelos participantes para resfriamento e posterior venda à indústria, mediante negociação a mercado. As unidades possuem instalações próprias e um administrador designado pelos participantes.

Com os resultados obtidos, considera-se ter contribuído para o avanço da análise do direito, economia e organizações com base no instrumental da nova economia institucional, rejeitando a premissa neoclássica de escolhas hiper-racionais e comportamento maximizador, demonstrando que as instituições não evoluem necessariamente de modo eficiente, persistindo, em determinado contexto social, formas ineficientes de alocação de recursos econômicos.

Convém reconhecer, neste trabalho, as limitações intrínsecas dos estudos de caso em relação à generalização. Yin (2001) afirma que apenas estudos de caso que objetivam testar a teoria podem ser generalizados, pois nesses casos a lógica de generalização é semelhante à de experimentos, em que os resultados corroboram ou refutam uma teoria. Essa generalização analítica se contrapõe à generalização estatística presente em surveys, nas quais, a partir de um estudo de amostragem, estendem-se os resultados para a população dentro de níveis conhecidos de significância e erro.

Percebe-se viável a realização de um estudo populacional de sociedades análogas aos casos aqui estudados, a fim de se averiguar sua incidência e distribuição geográfica no território do estado, quiçá de cada estado para se permitirem estudos comparados. As informações obtidas poderiam ser, ainda, comparadas com os registros oficiais de cooperativas e associações que atuam na cadeia produtiva do leite na mesma posição e a análise desses dados poderia contribuir para a localização de problemas institucionais e definição ou revisão de políticas de incentivo à cadeia, além de contribuir com a evolução da teoria. De outra forma, esse tipo de estudo poderia ser capaz de, em análise mais aprofundada, sugerir novos formatos de arranjos organizacionais e aferir a eficácia dos arranjos criados por esses produtores. Estudos desse tipo poderiam ser muito eficientes em propor mudanças institucionais formais, mais fáceis de implementar e produzir resultados que as mudanças institucionais informais (NORTH, 1991). Desse estudo pode-se perceber, desde logo, que o tão só fato de haver indícios de que as organizações estudadas estejam em situação irregular em relação ao direito societário e empresarial brasileiro (BRASIL, 2002a), já exige a realização de estudos e proposições para uma mudança institucional formal, i.e., em tais leis, a fim de permitir a esses agentes adequar-se às exigências legais sem que tenham que arcar com altos custos operacionais. A análise dos fatores que levaram os participantes das organizações estudadas a rejeitar a utilização do sistema formal cooperativo ou associativo, indicado e incentivado pelo ambiente institucional da cadeia produtiva agrícola em geral, indica a necessidade de produzir estudos no sentido de verificar as razões dessa recusa. Problemas de agência, a falta de cultura de cooperação ou associação, e a incipiência da atuação dessas instituições (RODRIGUES, 2010) parecem indicar a necessidade de mudanças nas instituições formais (NORTH, 1991).

Por fim, este trabalho mostra o dinamismo da cadeia produtiva do leite em Rondônia, indicando a viabilidade e até necessidade de continuidade e aprofundamento dos estudos sobre a mesma, que está em constante mudança em busca do aperfeiçoamento.

REFERÊNCIAS

BATALHA, Mário Otávio; SILVA, Andrea Lago da. Gerenciamento de sistemas agroindustriais: definições, especificidades e correntes metodológicas. In: BATALHA, Mário Otávio. Gestão agroindustrial. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

BRESSAN, Matheus; MARTINS, Marcelo Costa. Segurança alimentar na cadeia produtiva do leite e alguns de seus desafios. Revista de Política Agrícola, Brasília, ano XIII, n. 3, p. 27-37, jul./ago./set. 2004. Disponível em: <publicacoes/tecnico/revistaAgricola/rpa-anos-anteriores-1/de-2000-a-2004/Rev_Pol_Agr_v13_n3-2004.PDF>. Acesso em: 18 ago. 2011.

CALLADO, Antônio André Cunha; CALLADO, Aldo Leonardo Cunha. Sistemas agroindustriais. In: CALLADO, Antônio André Cunha (org.). Agronegócio. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2009.

CAMPOMAR, Marcos Cortez.  Do uso  de “estudo de  caso” em pesquisas para dissertações e teses em administração. Revista de Administração, São Paulo, v. 26, n. 3, p. 95-97, jul./set. 1991. Disponível em: <br/luizpepplow/disciplinas/metodologia/O%20uso%20de%20estudos%20de%20caso.pdf>. Acesso em: 17 ago. 2011.

CARVALHO, Glauco Rodrigues; OLIVEIRA, Aryeverton Fortes de. O setor lácteo em perspectiva. Boletim de conjuntura agropecuária. Campinas: Embrapa Monitoramento por Satélite, set. 2006. 23 p. Disponível em: <http://www.cnpm.embrapa.br/conjuntura/0609_Leitederivados.pdf>. Acesso em: 2 ago. 2011.

CORRÊA, Cynthia Cândida; VELOSO, Aline Freitas; BARCZSZ, Silvio Silvestre. A Logística de Coleta e Distribuição do Leite como Diferencial Competitivo para os Pequenos Processadores de Leite. In: CONGRESSO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE  ECONOMIA,  ADMINISTRAÇÃO  E  SOCIOLOGIA  RURAL,  48:  tecnologia, desenvolvimento e integração social. Jul., 2010, Campo Grande, MS. Anais Eletrônicos…, Campo Grande: SOBER, 2010. Disponível em: <http://www.sober. org.br/palestra/15/1034.pdf>. Acesso em: 2 ago. 2011.

MARCHESNAY, Michel ; MORVAN Yves. Micro, macro, meso.. Revue d’économie industrielle, v. 8, p. 99-103, 2e trimestre, 1979. Disponível em: <http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rei_0154-3229_1979_num_8_1_1931>. Acesso em: 10 set. 2011.

MARTINS, Gilberto Andrade. Estudo de caso: uma reflexão sobre a aplicabilidade em pesquisas no Brasil. RCO – Revista de Contabilidade e Organizações – FEARP/USP,  v.  2,  n. 2, p. 8-18, jan./abr. 2008. Disponível em: <revistasusp.sibi.usp.br/pdf/rco/v2n2/02.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2011.

PAES-DE-SOUZA, Mariluce. Cadeia produtiva do leite. Porto Velho: EDUFRO, 2007.

PASSARELI,  Telmo  de  Moura;  PAES-DE-SOUZA,  Mariluce;  SOUZA  FILHO, Theophilo Alves de; OLIVEIRA, Nilda Souza. Características da estrutura de governança e estratégias na cadeia produtiva do leite nas transações indústria- produtor em Rolim de Moura – RO. In: ENCONTRO BRASILEIRO DE ESTRATÉGIA DA SOCIEDADE LATINO AMERICANA DE ESTRATÉGIA, III, nov. 2010, Fortaleza. Estratégia no novo cenário internacional nos países de língua portuguesa: revista de artigos – estratégia competitiva e cooperativa, p. 143-155. Fortaleza: ELBE/SLADE, 2010. Disponível em:  <http://pt.calameo.com/read/00046076463f10e76b1e3>. Acesso em: 10 ago. 2011.

RODRIGUES, Márcio Heleno de Souza. Avaliação de eficiência de produtores de leite utilizando análise envoltória de dados: o caso do município de Rolim de Moura no Estado de Rondônia. 2010. 120 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Programa de Pós-Graduação: Mestrado em Administração, Fundação Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho.

SELLTIZ, Claire; JAHODA, Marie; DEUTSCH, Morton; COOK, Stuart W. Métodos de pesquisa nas relações sociais. 2. ed. São Paulo: Herder, 1967.

TAMADA, Mariela Mizota. Uso do sistema de informação geográfica como ferramenta auxiliar para a tomada de decisão: aplicação a pecuária leiteira. 2009. 100 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Programa de Pós-Graduação: Mestrado em Administração, Fundação Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho.

YIN, Robert K. Estudo de Caso, planejamento e métodos. 2. ed. São Paulo: Bookman, 2001.

[1] Mestre em Administração PPGMAD/UNIR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here