ARTIGO ORIGINAL
ARAUJO, Clodoaldo [1]
ARAUJO, Clodoaldo. Determinantes culturais do empreendedorismo: um estudo comparativo entre Brasil e Estados Unidos. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 02, Vol. 01, pp. 05-14. Fevereiro de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/administracao/determinantes-culturais, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/administracao/determinantes-culturais
RESUMO
O empreendedorismo é influenciado não apenas por fatores econômicos, mas fundamentalmente por dimensões culturais que moldam o comportamento dos indivíduos. Este artigo apresenta uma análise comparativa entre Brasil e Estados Unidos, explorando como traços culturais distintos, com: o individualismo, a aversão à incerteza e a percepção de risco, determinam a intenção e a prática empreendedora. A pesquisa indica que, enquanto o modelo americano é sustentado por uma cultura de risco e meritocracia, o modelo brasileiro é marcado por uma forte criatividade e coletivismo, embora limitado por barreiras institucionais e uma busca maior por segurança.
Palavras-chave: Empreendedorismo Transcultural; Dimensões Culturais; Brasil; Estados Unidos; Inovação.
1. INTRODUÇÃO
O empreendedorismo é amplamente reconhecido como o motor fundamental da atividade econômica, da inovação e do desenvolvimento global (Iyer; Schoar, 2010). No entanto, o ato de empreender não ocorre de forma isolada; ele é profundamente moldado pelo contexto cultural e pelas normas sociais que prescrevem se um indivíduo deseja ou pode se tornar um empreendedor (Holland, 2014). Nesse sentido, a literatura aponta que a atitude empreendedora de uma população é diretamente influenciada pelos traços culturais da nação à qual pertence (Pecly; Ribeiro, 2020).
Apesar da relevância do tema, a influência das características culturais nacionais sobre o comportamento individual ainda carece de maior exploração em estudos transculturais que comparem economias desenvolvidas e em desenvolvimento (Athayde; Coutinho, 2023). Pesquisas recentes indicam que as motivações e os estilos de gestão variam significativamente entre esses contextos, evidenciando a necessidade de análises mais granulares (Stephan; Pathak, 2016).
Este artigo busca analisar os determinantes culturais que diferenciam o ecossistema empreendedor do Brasil e dos Estados Unidos. Fundamentado no referencial teórico das dimensões culturais de Hofstede, o estudo explora como valores centrais — como a importância atribuída ao trabalho (Caldeira; Athayde, 2024), a percepção e o medo do fracasso, e a busca por flexibilidade frente à rigidez regulatória (Rocha; Andreassi, 2020) impactam a intenção e a prática de novos negócios em ambas as geografias.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1 DIMENSÕES CULTURAIS E A INTENÇÃO EMPREENDEDORA
As disparidades observadas nas taxas de empreendedorismo entre diferentes nações podem ser amplamente justificadas pelas variações em suas dimensões culturais, uma vez que a atitude empreendedora de uma população é diretamente influenciada pelos traços culturais e valores da nação à qual pertence (Pecly; Ribeiro, 2020). Nesse contexto, as normas sociais e os padrões socioculturais atuam como prescritores do desejo e da capacidade de um indivíduo em se tornar empreendedor (Holland, 2014).
Os Estados Unidos são frequentemente apontados na literatura como um exemplo de cultura com baixo índice de aversão à incerteza, característica que favorece a aceitação do risco e o fomento à inovação disruptiva (Stephan; Pathak, 2016). Esse perfil cultural, aliado a um forte individualismo, permite que o empreendedor americano foque na competitividade e na proteção de seu empreendimento como forma de evitar a exploração e impulsionar o crescimento (Stephan; Pathak, 2016).
Em contraste, o Brasil apresenta níveis mais elevados de aversão à incerteza, o que frequentemente conduz o empreendedor a optar por modelos de negócios mais tradicionais ou a priorizar a segurança e a estabilidade financeira em detrimento de uma expansão agressiva (Athayde; Coutinho, 2023). Adicionalmente, o perfil brasileiro é marcado por traços coletivistas que, embora estimulem a criatividade e a valorização de novas ideias de forma mais intensa que o perfil americano, podem esbarrar em uma percepção de suporte institucional limitada e em um receio mais acentuado do fracasso (Athayde; Coutinho, 2023; Rocha; Andreassi, 2020).
Portanto, a intenção empreendedora não depende exclusivamente de fatores econômicos, mas é mediada pela forma como o indivíduo percebe o ambiente macroeconômico e sociocultural através de suas lentes culturais (Holland, 2014). Enquanto nos Estados Unidos o ambiente institucional encoraja a meritocracia e a resiliência frente ao erro, no Brasil, a experiência empreendedora é moldada por uma busca constante de equilíbrio entre a criatividade intrínseca e a necessidade de mitigar riscos em um cenário de maior incerteza (Caldeira; Athayde, 2024; Rocha; Andreassi, 2020).
2.2 CARACTERÍSTICAS INDIVIDUAIS DE INOVAÇÃO
Contrariando a percepção comum de que a cultura estadunidense detém o monopólio da valorização da inovação, investigações empíricas demonstram que brasileiros tendem a atribuir uma importância significativamente superior a novas ideias e ao pensamento criativo em comparação aos indivíduos nos Estados Unidos (Athayde; Coutinho, 2023). Adicionalmente, nota-se entre os brasileiros uma concordância mais expressiva quanto ao papel central que a tecnologia deve desempenhar como pilar de desenvolvimento para o futuro próximo (Athayde; Coutinho, 2023).
Entretanto, esse entusiasmo subjetivo pela criatividade e pelo progresso tecnológico não se traduz linearmente em resultados práticos, como o registro de patentes ou a expansão de empresas em escala global. Esse fenômeno é explicado pela natureza predominante da atividade empreendedora no Brasil, muitas vezes impulsionada pela necessidade e voltada para a sobrevivência imediata, o que contrasta com o perfil de oportunidade e inovação radical mais frequente no mercado norte-americano (Pecly; Ribeiro, 2020).
Outro fator determinante para esse descompasso é o ambiente institucional. Enquanto os empreendedores americanos operam sob normas claras que incentivam a assunção de riscos, os brasileiros enfrentam uma burocracia estatal onerosa que, embora combatida, acaba por fomentar uma cultura de flexibilidade relacional: o “jeitinho” para contornar obstáculos estruturais (Rocha; Andreassi, 2020). Essa busca por flexibilidade, se por um lado demonstra a resiliência do empreendedor local, por outro pode dificultar a padronização e a eficiência organizacional necessárias para competir em mercados internacionais altamente regulados (Rocha; Andreassi, 2020). Assim, conclui-se que o potencial inovador brasileiro é mediado por uma cultura coletivista que estimula a geração de ideias, mas que esbarra em barreiras de risco e suporte financeiro que limitam sua conversão em inovação disruptiva (Athayde; Coutinho, 2023).
2.3 O PARADOXO DA BUROCRACIA E A FLEXIBILIDADE
A análise da experiência de indivíduos que empreendem simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos revela um contraste estrutural e comportamental significativo. Enquanto o ecossistema norte-americano é amplamente reconhecido pela clareza de suas normas regulatórias e pela celeridade nos processos de abertura e fechamento de empresas, o mercado brasileiro é caracterizado por uma burocracia complexa e onerosa, frequentemente citada como um dos principais entraves ao desenvolvimento de novos negócios (Rocha; Andreassi, 2020). Todavia, observa-se que essa eficiência institucional nos Estados Unidos é acompanhada por uma rigidez contratual e um formalismo que impõem desafios ao empreendedor de origem brasileira, acostumado a dinâmicas mais maleáveis (Rocha; Andreassi, 2020).
A tabela 1 faz um breve comparativo entre os dois países:
Tabela 1 – Dimensões do empreendedorismo americano e brasileiro
| Dimensão | Estados Unidos 🇺🇸 | Brasil 🇧🇷 |
| Motivação | Predominantemente Oportunidade (inovar, crescer). | Misto, com forte presença de Necessidade (sobrevivência). |
| Risco | O fracasso é visto como aprendizado (Fail fast). | O fracasso carrega um estigma social e financeiro pesado. |
| Burocracia | Ambiente facilita abertura e fechamento rápido de empresas. | Alta complexidade tributária e legal (Custo Brasil). |
| Financiamento | Cultura forte de Venture Capital e Angel Investors. | Forte dependência de recursos próprios (“Bootstrapping”) ou crédito bancário caro. |
Fonte: Autor.
No contexto nacional, a ineficiência dos sistemas formais e o peso da burocracia estatal acabam por ser mitigados por uma característica cultural intrínseca: a “flexibilidade” ou o “jeitinho”. Esse mecanismo permite que o empreendedor realize adaptações relacionais e negociais para contornar obstáculos estruturais, algo que encontra pouco ou nenhum espaço no mercado norte-americano, pautado pela previsibilidade e pelo cumprimento estrito dos dispositivos legais (Rocha; Andreassi, 2020; Stephan; Pathak, 2016). Assim, o ambiente institucional no Brasil acaba por forçar o desenvolvimento de competências de improvisação e resiliência, enquanto o modelo americano exige uma conformidade absoluta aos processos, o que pode ser percebido como uma barreira psicológica por aqueles que valorizam o capital relacional em detrimento do contratualismo puro (Rocha; Andreassi, 2020).
Essa dualidade sugere que a intenção empreendedora e o sucesso operacional são condicionados não apenas pela facilidade logística, mas pela capacidade do indivíduo de navegar entre a “cultura do contrato” , dominante nos Estados Unidos , e a “cultura do relacionamento”, predominante no Brasil (Holland, 2014; Pecly; Ribeiro, 2020). Portanto, embora os empreendedores brasileiros frequentemente critiquem a burocracia local e admirem a organização americana, muitos relatam dificuldades em adaptar-se à falta de maleabilidade interpessoal do mercado estrangeiro, evidenciando que a flexibilidade relacional brasileira atua como uma ferramenta compensatória indispensável frente às falhas institucionais do país (Rocha; Andreassi, 2020).
2.4 EMPREENDEDORISMO FEMININO E MOTIVAÇÕES SOCIAIS
O crescimento do empreendedorismo feminino em economias desenvolvidas e em desenvolvimento é um fenômeno global, contudo, a trajetória das mulheres é condicionada por padrões socioeconômicos e culturais que prescrevem sua atuação na sociedade (Holland, 2014). Ao comparar os contextos de Brasil e Estados Unidos, observa-se que as motivações para o início da atividade empreendedora guardam semelhanças significativas, sendo predominantemente impulsionadas por fatores de “atração” (pull factors), como a busca por autonomia, independência financeira e o desejo de autorrealização (Holland, 2014).
A despeito dessas motivações compartilhadas, as dimensões sociais e o suporte coletivo operam de formas distintas em ambas as nações devido às suas raízes culturais. No Brasil, o perfil coletivista influencia diretamente a formação de redes de apoio (networking), que são frequentemente fundamentadas em laços familiares e sociais próximos (Holland, 2014; Athayde; Coutinho, 2023). Em contrapartida, as empreendedoras norte-americanas, inseridas em uma cultura de maior individualismo, tendem a mobilizar esquemas de conexões mais voltados para o âmbito estritamente profissional e redes externas de mentoria (Holland, 2014; Athayde; Coutinho, 2023).
Quanto à percepção de sucesso, a literatura indica que as mulheres em ambas as geografias transcendem métricas puramente financeiras, integrando o reconhecimento social e a satisfação do consumidor como indicadores fundamentais de êxito (HOLLAND, 2014). No entanto, fatores sociais externos, como a influência da religiosidade, manifestam-se de forma mais acentuada nos relatos das empreendedoras americanas do que nas brasileiras (Holland, 2014).
Adicionalmente, nota-se que as barreiras de gênero no ambiente de negócios são percebidas de maneira similar por ambos os grupos, indicando que os desafios estruturais do mercado de trabalho permanecem transversais, independentemente do nível de desenvolvimento econômico do país (Holland, 2014; Pecly; Ribeiro, 2020). Essa constatação reforça que, embora a importância dada ao trabalho e os valores pessoais sejam moldados pela cultura nacional (Caldeira; Athayde, 2024), o empreendedorismo feminino busca, em última análise, a superação de limitações sociais através da criação de valor econômico e social.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise comparativa entre Brasil e Estados Unidos evidencia que a eficácia de um ecossistema empreendedor não decorre de um modelo universal, mas da adaptação às contingências culturais e institucionais de cada nação (Holland, 2014; Pecly; Ribeiro, 2020). O modelo norte-americano, alicerçado no ideário do “Sonho Americano”, sustenta-se em elevados níveis de individualismo e em uma reduzida aversão à incerteza, o que permite a validação do risco e a aceitação do fracasso como etapas inerentes ao processo de aprendizado e inovação (Rocha; Andreassi, 2020; Stephan; Pathak, 2016).
Em contrapartida, a prática empreendedora no Brasil manifesta-se por meio de uma resiliência singular e de uma alta valorização da criatividade, que são frequentemente mobilizadas para superar obstáculos estruturais e condições macroeconômicas adversas (Athayde; Coutinho, 2023). Observa-se que, enquanto o empreendedor nos Estados Unidos é impulsionado pela meritocracia e pela clareza contratual, o empreendedor brasileiro depende substancialmente do capital social e da flexibilidade relacional o “jeitinho” para mitigar as ineficiências de um ambiente burocrático e oneroso (Caldeira; Athayde, 2024; Rocha; Andreassi, 2020).
Conclui-se, portanto, que a formulação de políticas públicas voltadas ao fomento do empreendedorismo no Brasil deve transcender a mera simplificação administrativa. É imperativo que tais medidas promovam uma reconfiguração da percepção social acerca do risco, mitigando o estigma associado ao insucesso empresarial e incentivando uma postura mais audaciosa frente à inovação (Rocha; Andreassi, 2020). Tal transição, contudo, deve preservar as vantagens competitivas intrínsecas à cultura brasileira, como a propensão à criatividade tecnológica e a força das redes coletivistas, fundamentais para a consolidação de um modelo de empreendedorismo que seja, ao mesmo tempo, inovador e condizente com a realidade nacional (Athayde; Coutinho, 2023; Holland, 2014).
REFERÊNCIAS
ATHAYDE, A. L. M.; COUTINHO, H. I. S. Innovation Individual Characteristics: A Cross-Cultural Comparison Between Brazilians and Americans. RASI – Revista de Administração, Sociedade e Inovação, v. 9, n. 1, 2023.
CALDEIRA, S. F.; ATHAYDE, A. L. M. A importância dada ao trabalho: uma comparação transcultural entre o Brasil e os Estados Unidos. RECAPE – Revista de Carreiras e Pessoas, v. 14, n. 3, 2024.
HOLLAND, N. Cultural and Socio Economic Experiences of Female Entrepreneurs in Brazil and the United States. Journal of Women’s Entrepreneurship and Education, 2014.
PECLY, P. H. D.; RIBEIRO, P. C. C. Entrepreneurship in the BRICS and cultural dimensions. Brazilian Journal of Operations & Production Management, v. 17, n. 2, 2020.
ROCHA, B. G.; ANDREASSI, T. Brazilian and American Entrepreneurial Experience: Cultural and Financial Aspects from Brazilian Entrepreneurs’ Point of View. Iberoamerican Journal of Entrepreneurship and Small Business, v. 9, n. 3, 2020.
FAGUNDES, T. D.; DAMASCENO, L. O. Impact of Cultural Factors on Entrepreneurial Intentions in Brazil. Journal of Entrepreneurship & Project Management, v. 7, n. 3, 2023.
INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Engenheiro Mecânico pela Escola de Engenharia da Fundação Municipal de Piracicaba. Engenheiro Civil pela Escola de Engenharia da Fundação Municipal de Piracicaba. Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios pelo Instituto Nacional de Pós-Graduação. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-9666-5708.
Contribuição dos autores:
Clodoaldo Araujo: único autor responsável pela elaboração integral do manuscrito, tendo contribuído de forma plena e exclusiva em todas as etapas do trabalho. Abrangendo a concepção e definição do tema, o planejamento metodológico, a coleta e seleção dos dados, bem como a análise crítica e interpretação dos resultados à luz da literatura científica e das observações empíricas oriundas do programa Rota da Inovação. Além disso, foi responsável pela redação completa do manuscrito, pela organização lógica e argumentativa do texto, pela revisão final do conteúdo e pela adequação às normas científicas exigidas para publicação. Dessa forma, todas as decisões intelectuais, analíticas e textuais do estudo são de responsabilidade exclusiva do autor.
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- ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 15 de janeiro de 2026.
Material aprovado pelos pares: 23 de janeiro de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 02 de fevereiro de 2026.





